23 de outubro de 2017

Capítulo 5

Sydney

POR UM MOMENTO, quando vi a seringa, pensei que Sheridan faria algum retoque fortificado da tatuagem. Assim, em vez de pequenas quantidades de tinta enfeitiçada na minha pele, ela injetaria uma dose monstruosa para me manter na linha.
Não importa, tentei dizer a mim mesma. A magia me protege, por mais forte que seja a dose que eles usem. As palavras pareciam fazer sentido, mas eu não tinha certeza se eram verdade.
Mas Sheridan estava planejando algo muito diferente.
— As coisas pareciam tão promissoras quando nos falamos pela última vez — ela disse, depois de enfiar a agulha no meu braço. — Não acredito que não durou nem uma hora sozinha.
Quase disse “é difícil se livrar de velhos hábitos”, mas lembrei que precisava fingir arrependimento se quisesse sair dali.
— Desculpe — eu disse. — Deixei escapar. Vou pedir desculpas para Harrison se for...
Uma sensação estranha começou a brotar no meu estômago, começando como um leve desconforto, e então crescendo e crescendo até explodir numa náusea absoluta, do tipo que domina todo o corpo. Parecia ter um maremoto dentro do meu estômago e minha cabeça começou a latejar. Também sentia minha temperatura subir e calor por todo o corpo.
— Vou vomitar — eu disse. Tentei abaixar a cabeça, mas a cadeira me mantinha presa no lugar.
— Não — Sheridan disse. — Não vai. Não por enquanto. Aproveite o filme.
Além das algemas, o suporte para a cabeça impedia que eu me virasse, me obrigando a olhar para a tela. Um filme começou e me preparei para imagens horríveis. Mas o que vi foi...
Moroi. Moroi felizes. Moroi simpáticos. Crianças Moroi. Moroi fazendo coisas do dia a dia, praticando esportes e comendo em restaurantes.
No entanto, estava aflita demais para entender aquelas imagens enigmáticas. Só conseguia pensar em como queria vomitar. Era um enjoo daqueles que só passa se você bota o veneno para fora. Mas, não sei como, Sheridan estava certa. Eu não conseguia fazer meu corpo vomitar, por maior que fosse a vontade. Em vez disso, fiquei ali, sentada, enquanto aquela náusea terrível e avassaladora retorcia minhas entranhas. Ondas de agonia dominaram meu corpo. Não parecia possível haver tanto tormento dentro de mim. Gemendo, fechei os olhos, tentando fazer a cabeça parar de girar. Mas Sheridan viu outra intenção no gesto.
— Não — ela disse. — Acredite, vai ser muito mais fácil para você se assistir por livre e espontânea vontade. Temos meios de manter seus olhos abertos. Você não vai gostar deles.
Pisquei para conter as lágrimas e voltei a me concentrar na tela. Apesar do sofrimento, tentei entender por que ela estava me mostrando fotos de Moroi felizes. Que importância isso tinha quando meu corpo estava sendo revirado do avesso?
— Você está tentando... — A náusea subiu pela garganta e, por um breve momento, achei que pudesse vomitar. Não tive esse alívio. — ... criar um tipo de reação pavloviana.
Era uma técnica clássica de condicionamento: mostrar a imagem e fazer com que me sentisse terrível enquanto olhava para ela, para que passasse a associar os Moroi — Moroi felizes e inofensivos — ao sofrimento e ao desconforto extremo. Só havia um problema:
— V-você precisa de várias sessões pra isso surtir efeito — comentei. Uma vez não bastaria para me fazer sentir uma repulsa instantânea contra os Moroi.
O olhar que Sheridan me lançou deixou claro o que eu poderia esperar no futuro.
Senti um aperto no peito. Ou talvez fosse no meu estômago. Para ser sincera, do jeito como minhas entranhas doíam, não dava para distinguir uma parte da outra. Não sei por quanto tempo me mantiveram naquele estado. Talvez uma hora. Não dava muito para contar o tempo quando meu objetivo era simplesmente sobreviver a cada onda avassaladora de enjoo. Depois do que pareceu uma eternidade, Sheridan me deu outra injeção e a tela ficou escura. Os homens soltaram as amarras e alguém me entregou um balde.
Por alguns segundos, não entendi. Então, o que quer que estivesse impedindo meu corpo de vomitar parou de funcionar. Meu almoço voltou e, mesmo depois disso, meu estômago continuou tentando expelir mais. O sofrimento foi reduzido a uma náusea seca e tosse, até parar por completo. Foi um processo longo e doloroso e eu não estava nem ligando que tinha acabado de vomitar — e muito — na frente de outras pessoas. No entanto, por mais terrível que tivesse sido, me sentia melhor depois de ter expulsado o que quer que havia causado aquela náusea. Um dos funcionários levou o balde embora discretamente e Sheridan fez o favor de me oferecer um copo d’água, além de me deixar escovar os dentes numa pequena pia na lateral da sala. Ficava perto de um armário de medicamentos e de um espelho, que me permitiu ver meu estado lamentável.
— Bom — Sheridan disse alegremente. — Parece que você está pronta para a aula de artes.
Aula de artes? Eu estava pronta para deitar e dormir. Meu corpo estava trêmulo e fraco, e meu estômago parecia ter sido virado do avesso. Porém, ninguém pareceu notar ou se importar com meu estado debilitado e os seguranças me levaram para fora da sala. Sheridan deu tchau e disse que me veria em breve.
Minha escolta me levou para o andar superior, onde ficavam as salas de aula, até uma que servia de ateliê para os prisioneiros. Addison, a inspetora andrógina do refeitório, estava começando a aula, dando instruções para a tarefa do dia, que, pelo visto, era continuar pintando uma cesta de frutas. Não me surpreendia que uma aula de artes alquimista tivesse o projeto mais sem graça de todos. Embora ela ainda estivesse falando quando entrei, todos os olhos se voltaram na minha direção. Quase todas as expressões eram frias. Algumas até um pouco satisfeitas. Todos sabiam o que havia acontecido comigo.
Uma coisa que eu tinha entendido na aula anterior era que, ao contrário do que acontecia em Amberwood, na reeducação os lugares mais disputados eram perto dos professores. Isso permitiu que eu fosse discretamente para o fundo da sala. Poucos olhares poderiam me seguir até lá a menos que se virassem descaradamente e ignorassem Addison, e ninguém faria isso.
Me concentrei em continuar de pé e quase não ouvi o que ela dizia.
— Alguns de vocês fizeram um bom progresso ontem. Emma, o seu está indo particularmente bem. Lacey, Stuart, vocês precisam recomeçar do zero.
Do fundo, conseguia ver todos, e tentei ligar cada pessoa a seu cavalete. Pensei que talvez a purgação tivesse confundido meu cérebro, porque os comentários de Addison não faziam sentido. Mas não, estava certa de que identificara as pessoas corretamente. Aquela era Emma, minha colega de quarto, uma menina que parecia ter ascendência asiática e que prendia o cabelo preto num coque tão apertado que devia esticar a pele dela. Seu quadro não me pareceu nada especial e quase não dava para reconhecer nenhuma fruta. Stuart era um dos que tinham afastado a carteira de mim na aula do Harrison. Ele parecia ter algum talento artístico e achei que seu quadro era um dos melhores. Só descobri quem era Lacey quando ela trocou a tela por uma vazia. Sua pintura não era tão boa quanto a de Stuart, mas era infinitamente melhor que a de Emma.
A questão não é o talento, percebi finalmente. É a precisão. As peras de Stuart eram perfeitas, mas ele havia acrescentado algumas a mais do que na vida real. Também tinha alterado a posição das frutas e pintado uma cesta azul — que era muito mais bonita do que a marrom sendo usada no modelo. Emma, embora tivesse um trabalho muito mais rudimentar, desenhara o número correto de frutas, havia arranjado todas na posição perfeita e escolhido a cor exata para cada uma. Os alquimistas não queriam criatividade ou beleza. Só tínhamos que copiar o que nos mandavam copiar, sem perguntas ou variações.
Ninguém tentou me ajudar ou aconselhar, então fiquei parada por um tempo, tentando ver o que os outros estavam fazendo. Eu já vira Adrian usar tinta acrílica, mas nunca tentara pintar eu mesma. Havia um estoque de pincéis e tubos de tinta perto da fruteira, então fui até lá com alguns outros alunos e tentei pegar algumas cores pra começar. Todos abriram espaço para mim e, quando escolhi e descartei uma cor por não ser parecida o bastante com o modelo, a próxima pessoa que a pegou fez questão de limpar o tubo antes de levar para o lugar.
Finalmente, voltei para o cavalete com vários tubos e, embora não pudesse garantir minha capacidade de imitar as frutas, estava razoavelmente confiante de que as cores estavam certas.
Pelo menos essa parte do jogo alquimista eu poderia jogar.
O difícil, porém, era pôr a mão na massa. Ainda me sentia péssima e fraca, e estava com dificuldade até para apertar o tubo de tinta. Minha esperança era de que a rapidez não contasse para a nota. Quando finalmente me considerei capaz de passar o pincel na tela, a porta da sala se abriu e Sheridan entrou com um dos seus homens. Cada um estava segurando uma bandeja cheia de copos e ela não precisou dizer uma palavra porque identifiquei apenas pelo cheiro.
Café.
— Desculpe pela interrupção — Sheridan disse, com seu grande sorriso falso. — Todo mundo anda trabalhando tanto ultimamente que resolvemos oferecer um presentinho pra vocês: lattes de baunilha.
Engoli em seco e fiquei olhando, incrédula, enquanto meus companheiros de prisão se atropelavam na direção dela. Lattes de baunilha. Quantas vezes tinha sonhado com isso no cativeiro, quando estava quase morrendo de fome, sobrevivendo à base de mingau morno?
Nem importava se eram light ou cheios de açúcar. Fazia tanto tempo que não via nada assim que meu primeiro impulso foi correr junto com os outros para pegar um copo.
Mas não podia. Não depois da purgação por que tinha acabado de passar. Meu estômago e minha garganta estavam em carne viva, e sabia que, se comesse ou bebesse qualquer coisa que não fosse água, vomitaria na hora. O café era um canto da sereia para minha mente, mas meu estômago sensível sabia das coisas. Não conseguiria engolir nem aquele mingau agora, muito menos um latte.
— Sydney? — Sheridan perguntou, fixando aquele sorriso em mim. Ela levantou a bandeja. — Ainda há um copo. — Sem dizer nada, recusei com a cabeça e ela pôs o copo na mesa de Addison. — Vou deixar aqui caso você mude de ideia, tudo bem?
Não conseguia tirar os olhos daquele copo e me perguntei o que Sheridan queria mais: me ver passando vontade ou que eu corresse o risco de vomitar na frente dos meus colegas.
— É o seu favorito? — uma voz baixa perguntou.
Eu tinha tanta certeza de que ninguém estaria falando comigo que demorei para olhar para a pessoa. Com grande esforço, tirei os olhos do latte que tanto desejava e descobri que era meu vizinho quem tinha falado, um rapaz alto e bonito que devia ser uns cinco anos mais velho que eu. Ele era magro e usava óculos de aro fino que lhe davam um ar intelectual — como se não bastasse ser alquimista.
— Por que você acha isso? — perguntei baixinho.
Ele abriu um sorriso sarcástico.
— Porque é sempre assim. Quando alguém passa pela primeira purgação, os outros são “recompensados” com a comida favorita da pessoa. Desculpe por isso, aliás. — Ele parou para beber um pouco do seu latte. — Mas faz séculos que não bebo café.
Fiz uma careta e desviei os olhos.
— Fique à vontade.
— Pelo menos você resistiu — ele acrescentou. — Nem todo mundo resiste. Addison não iria gostar se a gente derrubasse bebida quente aqui, mas gostaria ainda menos se alguém vomitasse no ateliê dela.
Olhei para a nossa professora, que estava dando conselhos para uma detenta de cabelo grisalho.
— Ela parece não gostar de muitas coisas. Exceto chiclete.
O cheiro de café estava mais forte do que nunca, ao mesmo tempo sedutor e nauseante.
Tentando desesperadamente bloquear o aroma, ergui o pincel e estava prestes a arriscar umas uvas quando ouvi um “tsc” de desaprovação ao meu lado. Olhei para o rapaz, que balançava a cabeça para mim.
— Você vai começar assim? Poxa, pode até não ter os valores de uma boa alquimista, mas ainda devia ter a lógica de uma. Tome. — Ele me ofereceu um lápis. — Rascunhe. Pelo menos desenhe quadrantes para te guiar.
— Não tem medo de que eu vá corromper seu lápis? — As palavras saíram da minha boca antes que eu pudesse impedir.
Ele riu baixinho.
— Pode ficar com ele.
Me virei para a tela em branco e fiquei olhando para ela por alguns segundos. Com cuidado, a dividi em quatro partes e, em seguida, comecei a desenhar a cesta de frutas, prestando atenção na posição de cada uma em relação às outras. No meio do processo, notei que o cavalete estava muito alto para mim, complicando ainda mais as coisas, mas não consegui descobrir como ajustá-lo. Ao notar minha dificuldade, o rapaz ao meu lado se aproximou e, habilmente, abaixou o cavalete para uma altura mais adequada antes de voltar para o seu trabalho.
— Obrigada — eu disse. A tela esperando à minha frente diminuiu qualquer prazer que eu pudesse ter sentido com o gesto simpático. Voltei para a minha tentativa de rascunho. — Já vi meu namorado fazer isso centenas de vezes. Nunca pensei que faria o mesmo como algum tipo de terapia bizarra.
— Seu namorado é artista?
— Sim — eu disse, desconfiada, sem saber se queria entrar nesse assunto. Graças a Sheridan, não era nenhum segredo que ele era Moroi.
O rapaz achou graça.
— Artista, é? Essa eu nunca tinha ouvido. Normalmente, quando conheço meninas como você, que se apaixonam por eles, elas só falam sobre como os caras são bonitos.
— Ele é muito bonito mesmo — admiti, curiosa sobre quantas meninas como eu ele já tinha conhecido.
Ele abanou a cabeça, rindo, enquanto trabalhava no quadro.
— Claro. Devia ser mesmo, pra você ter corrido o risco, né? Alquimistas nunca se apaixonam por Moroi que não sejam bonitos e atormentados.
— Nunca disse que ele era atormentado.
— Ele é um vampiro “muito bonito” que pinta. Vai me dizer que não é uma alma atormentada?
Senti que estava um pouco vermelha.
— Um pouco, sim. Tudo bem... muito.
Meu vizinho voltou a rir, e pintamos em silêncio por um tempo. Então, do nada, ele disse:
— Meu nome é Duncan.
Fiquei tão espantada que o pincel escapou, fazendo minha banana já ruim ficar ainda pior.
Em mais de três meses, aquelas eram as primeiras palavras gentis que alguém me dizia.
— O meu... o meu é Sydney.
— Eu sei — ele disse. — É um prazer conhecer você, Sydney.
Minha mão começou a tremer, me obrigando a abaixar o pincel. Eu tinha passado meses de privação no escuro, suportado os olhares feios e xingamentos dos meus colegas de reeducação e, sabe-se lá como, sobrevivido quando me fizeram passar mal, tudo sem derramar uma lágrima. Mas aquela pequena gentileza, aquele gesto simples entre duas pessoas... partiu meu coração como nada mais tinha partido. Me fez lembrar de como eu estava longe de tudo: de Adrian, dos meus amigos, da segurança, da sanidade... tudo tinha ficado para trás. Eu estava em uma prisão fortemente regulada, onde todos os meus movimentos eram controlados por pessoas que queriam mudar a forma como eu pensava. E não havia sinal de quando sairia dali.
— Ei, ei — Duncan disse, de repente. — Nada disso. Eles adoram quando você chora.
Pisquei para conter as lágrimas e dei um rápido aceno com a cabeça enquanto voltava a pegar o pincel. Comecei a desenhar de novo, mal sabendo o que estava fazendo. Duncan também continuou a pintar, mantendo os olhos fixos na sua obra enquanto falava.
— Você já deve conseguir comer na hora do jantar. Mas não exagere. Seja esperta com o que escolher... e não fique surpresa se encontrar outra comida favorita no menu.
— Eles realmente levam isso a sério, hein? — resmunguei.
— Sim. Sim, levam mesmo. — Mesmo sem olhar, pude notar que ele estava sorrindo, mas logo sua voz voltou a ficar séria. — Você me lembra uma pessoa que conheci aqui. Ela era minha amiga. Quando as autoridades aqui perceberam que éramos amigos, ela foi mandada embora. Amigos são armaduras e eles não gostam disso. Entende o que estou dizendo?
— A-acho que sim — balbuciei.
— Que bom. Porque quero ser seu amigo.
O sinal que anunciava o fim da aula tocou e Duncan começou a juntar suas coisas. Quando ele estava saindo, perguntei:
— Qual era o nome dela? Da sua amiga que foi levada embora?
Ele parou e me arrependi imediatamente de ter perguntado quando vi a dor que perpassou seu rosto.
— Chantal — ele disse por fim, com uma voz que não passava de um murmúrio. — Faz mais de um ano que não a vejo. — Algo no seu tom me fez suspeitar que ela era mais do que uma amiga. Mas não pude pensar muito nisso, porque estava processando o resto do que ele tinha dito.
— Um ano... — murmurei, incrédula. — O que você fez pra ser mandado pra cá?
Ele respondeu com um sorriso triste.
— Não esqueça o que eu te disse, Sydney. Sobre amigos.
Eu não esqueci. Tanto que, quando ele não voltou a falar comigo pelo resto do dia e, em vez disso, passou o tempo com detentos que me encaravam e riam com desprezo, eu entendi. Ele não podia demonstrar nenhum tratamento especial, não com nossos colegas e os olhos invisíveis dos alquimistas sempre observando. Mas suas palavras arderam dentro de mim, me dando força. Amigos são armaduras. Quero ser seu amigo. Eu estava presa naquele lugar terrível, sob tortura e controle mental... mas tinha um amigo, um único amigo, mesmo que ninguém mais soubesse disso. Essa consciência me fortaleceu, me ajudou a aguentar mais uma aula cheia de mentiras sobre os Moroi e suportar quando uma menina me fez tropeçar no corredor, murmurando:
— Vagabunda adoradora de vampiros.
Nossa última aula não era uma aula de verdade. Em vez disso, tínhamos uma “hora da comunhão”, que acontecia numa sala chamada santuário, onde pelo jeito também era ministrada a missa de domingo. Tomei nota disso porque significava que eu teria uma maneira de marcar o tempo. Era um lugar bonito, com pé-direito alto e bancos de madeira. Mas sem janelas. Pelo visto eles levavam a sério essa história de nos isolar de todas as opções de fuga — ou talvez fosse bom demais para o moral dos prisioneiros ver o sol e o céu de vez em quando.
Uma parede do santuário era cheia de coisas escritas e parei na frente dela enquanto os outros detentos iam entrando. Ali, sobre os tijolos pintados de branco, havia registros de todos que vieram antes de mim. Alguns eram curtos e diretos: Perdoai-me, porque pequei. Outros eram parágrafos inteiros, detalhando os crimes de que foram acusados e o desejo de redenção. Alguns estavam assinados, outros eram anônimos.
— Esta é a Parede da Verdade — disse Sheridan, parando ao meu lado com uma prancheta na mão. — Às vezes as pessoas se sentem melhor confessando seus pecados nela. Você gostaria de tentar?
— Talvez depois — respondi.
Eu a segui até um círculo de cadeiras à parte dos bancos. Todo mundo sentou e ela não fez nenhum comentário quando meus vizinhos afastaram suas cadeiras alguns centímetros. A hora da comunhão, pelo jeito, era um tipo de terapia em grupo, e Sheridan perguntou ao círculo o que cada um tinha aprendido naquele dia. Emma foi a primeira a falar.
— Aprendi que, embora tenha avançado na recuperação da minha alma, tenho um longo caminho pela frente até a perfeição. O maior pecado é desistir e vou me manter firme até estar completamente imersa na luz.
Duncan, sentado ao lado dela, disse:
— Progredi na aula de artes. Quando a aula começou hoje, achei que não sairia nada bom. Mas estava errado.
Qualquer vontade que eu pudesse ter de sorrir foi interrompida quando a menina ao lado dele disse:
— Aprendi como estou grata por não ser tão infame quanto Sydney. Questionar as ordens foi errado, mas pelo menos nunca permiti que um deles pusesse as mãos profanas em mim.
Estremeci e fiquei esperando que Sheridan elogiasse a virtude dela, mas, em vez disso, Sheridan fixou os olhos frios na garota.
— Acha que isso é verdade, Hope? Acha que tem o direito de declarar quem entre vocês é melhor ou pior? Todos estão aqui porque cometeram crimes graves, não se enganem em relação a isso. A sua insubordinação pode não ter resultado na mesma depravação que a de Sydney, mas teve origem no mesmo lugar sombrio. Não obedecer, não ouvir aqueles que sabem mais... é esse o pecado, e você é tão culpada dele quanto Sydney.
Hope tinha ficado tão branca que era uma surpresa ninguém acusá-la de ser Strigoi.
— Eu... eu não quis dizer... que... eu...
— Pelo visto não aprendeu tanto quanto achou que tivesse aprendido — Sheridan disse. — Acho que precisa de mais ensinamentos. — Então, obedecendo a outro comando invisível, os homens dela surgiram e arrastaram Hope para fora, enquanto a garota protestava. Me senti enjoada, e não tinha nada a ver com a purgação de antes. Me perguntei se ela enfrentaria o mesmo destino que eu, embora sua falha tivesse sido o orgulho, não a defesa dos Moroi.
Em seguida, Sheridan se voltou para mim.
— E você, Sydney? O que aprendeu hoje?
Todos os olhos se voltaram para mim.
— Aprendi que tenho muito a aprender.
— De fato, você tem — ela respondeu, com gravidade. — Admitir isso é um grande passo no caminho para a redenção. Gostaria de compartilhar sua história com os demais? Pode ser libertador.
Hesitei diante do peso daqueles olhares fixos, sem saber que resposta me colocaria em mais apuros.
— Eu... eu gostaria — comecei devagar. — Mas não sei se estou pronta. Ainda estou em choque.
— É compreensível — ela disse, me fazendo relaxar, aliviada. — Mas, depois de ver como todo mundo aqui melhorou como pessoa, acho que também vai querer compartilhar. Não vai superar seus pecados se os mantiver trancados dentro de você.
Havia um tom de advertência em sua voz que era impossível ignorar, e respondi com um aceno solene. Felizmente, depois disso ela passou para a próxima pessoa, e fui poupada.
Passei o resto daquela hora ouvindo-os tagarelar sobre o incrível progresso que tinham feito expulsando a escuridão de suas almas. Me perguntei quantos deles estavam sendo sinceros e quantos só queriam sair dali, como eu. Também me perguntei o seguinte: se eles tinham mesmo feito tanto progresso, por que ainda estavam naquele lugar?
Depois da hora da comunhão, fomos dispensados para o jantar. Enquanto esperava na fila, ouvi os outros falando que o frango à parmegiana tinha sido substituído de última hora por fettuccine ao molho Alfredo. Também ouvi alguém dizer que esse era o prato favorito de Hope. Quando ela entrou no fim da fila, pálida e trêmula — e ignorada pelos demais —, entendi o que havia acontecido. Frango à parmegiana era a minha comida favorita desde criança, o que as autoridades deviam saber graças à minha família, e estava originalmente no menu para punir a mim e ao meu estômago enfraquecido pela purgação. Porém, o ato de insubordinação de Hope tinha superado o meu, resultando numa mudança de cardápio. Os alquimistas realmente levavam aquilo a sério.
A angústia no rosto de Hope se agravou quando ela sentou sozinha numa das mesas vazias e ficou olhando para a comida, sem tocar em nada. Embora o molho fosse forte demais para mim, meu estômago conseguia aceitar o leite e um pouco da massa. Ver Hope daquele jeito, excluída como eu, me tocou profundamente. Algumas horas antes, ela fazia parte da vida social da reeducação. Agora, estava sendo completamente ignorada. Vendo uma oportunidade, comecei a levantar, a fim de sentar com ela. Do outro lado da sala, Duncan, que estava conversando alegremente com um grupo, me olhou e fez um não claro com a cabeça. Hesitei por alguns instantes e depois voltei a sentar, me sentindo envergonhada e covarde por não apoiar outra pária.
— Ela não teria te agradecido — ele murmurou para mim depois do jantar. Estávamos na pequena biblioteca do centro, depois de recebermos permissão para escolher um livro para ler antes de dormir. Todos eram de não ficção, reforçando os princípios alquimistas. — Essas coisas acontecem e amanhã ela vai estar com os outros de novo. Se sentasse com Hope, teria chamado atenção e talvez atrasado o retorno dela. Ou pior: se ela te recebesse bem, os poderes instituídos teriam notado e achado que as rebeldes estavam se unindo.
Ele escolheu um livro aparentemente aleatório e saiu andando antes que eu tivesse chance de responder. Quis perguntar em que momento seria aceita pelos outros — se é que seria. Certamente todos tinham sido excluídos em algum momento. E mesmo assim acharam um jeito de entrar no mundo social dos detentos.
De volta ao quarto, Emma deixou claro que eu não deveria esperar nada de diferente com ela.
— Estou fazendo um bom progresso — ela disse, afetada. — Não preciso de você arruinando isso com suas perversões. A única coisa que faremos aqui é dormir. Não fale comigo. Não interaja comigo. Nem mesmo olhe pra mim se tiver como evitar.
Dito isso, ela pegou seu livro e deitou na cama, virando propositalmente de costas para mim. Mas não liguei. Não era diferente de todos os outros desaforos que eu tinha recebido durante o dia e, agora, estava com uma preocupação muito maior em mente. Até então, mal havia tido tempo para pensar nisso. Tivera outras provações para suportar, mas finalmente chegara o momento. Era o fim do dia. Hora de dormir. Depois de vestir o pijama (igual ao meu uniforme diurno) e escovar os dentes, deitei na cama com uma euforia mal contida.
Logo mais iria dormir. E sonhar com Adrian.
Essa ideia estivera o dia todo no fundo da minha mente, me ajudando a aguentar os momentos difíceis. Era para isso que eu vinha lutando, era esse o motivo por que tinha suportado todas aquelas humilhações. Estava fora da cela e livre do gás. Agora poderia dormir normalmente e sonhar com ele... desde que minha ansiedade não me mantivesse acordada.
Isso acabou não sendo um problema. Depois de uma hora de leitura, o sinal tocou e as luzes se apagaram automaticamente. A porta de correr não encostava completamente na parede, e pude ver uma fresta de luz do corredor, o que me deixou contente depois de meses de escuridão total. Ouvi um estalo, como um tipo de trava, que trancou a porta. Me aconcheguei nas cobertas, tomada por entusiasmo... e, de repente, comecei a me sentir cansada. Muito cansada. Num minuto, estava imaginando o que diria a Adrian; no outro, mal conseguia ficar de olhos abertos. Resisti, obrigando meu cérebro a se concentrar, mas era como se uma neblina densa estivesse caindo sobre mim, me puxando para baixo e enevoando minha mente.
Era uma sensação que eu conhecia bem demais.
— Não... — consegui dizer. Eu não estava livre do gás. Eles ainda regulavam nosso sono, provavelmente para garantir que nenhuma conspiração acontecesse na calada da noite. Eu estava exausta demais para pensar mais. Logo um sono pesado me envolveu, me arrastando para uma escuridão sem sonhos.
E sem nenhuma chance de fuga.

2 comentários:

  1. aaaaah, to ficando extremamente angustiadaa.

    ResponderExcluir
  2. Ela ta contando com a ajuda do cachaceiro pobre coitado...ela ta perdida...ele podia estar utilizando melhor o tempo procurando por ela...mas fica o tempo todo sentindo pena de si mesmo e arrumando desculpas para beber...esse cara é uma vergonha...ela merecia coisa melhor...

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)