19 de outubro de 2017

Capítulo 5

Adrian

SYDNEY PASSAVA MUITO TEMPO NA MINHA CAMA nos últimos dias. Mas infelizmente não era comigo. Não entendi direito como a conversa com Inez dera a Sydney a ideia de produzir tinta antialquimista, mas eu nunca conseguia acompanhar o ritmo do raciocínio dela. Depois daquele encontro, nossa hora de amassos virou hora de pesquisa. Ela não podia trabalhar perto de Zoe e, embora Jackie costumasse deixá-la fazer o que bem entendesse, o tempo delas também era limitado. Assim, nossos interlúdios românticos foram substituídos.
Eu estaria mentindo se dissesse que não sentia falta do velho esquema, mas queria que ela pesquisasse a tinta. Ainda que não gostasse de Marcus Finch, sempre apoiara os objetivos dele de acabar com a influência e as tentativas dos alquimistas de controlar a mente das pessoas. Sydney não tinha finalizado o processo com ele porque não estava pronta para seguir aquele estilo de vida errante; além disso, achava que poderia conseguir mais coisas se mantivesse relações com os alquimistas. Esses motivos eram nobres, mas eu sabia muito bem que outro motivo — talvez o maior de todos — era que ela não queria me abandonar.
E quem eu estava enganando? Também não queria que ela me abandonasse. Ao mesmo tempo, sentia uma pontada de culpa porque era responsável por ela estar vulnerável a um retoque. E também sabia que todos nossos momentos roubados a faziam correr o risco terrível de enfrentar a fúria alquimista. Por mais que Inez tivesse alegado que Sydney já estava imune a outras tatuagens por causa da prática da magia, ambos queríamos o lírio dourado selado para evitar o pior. Mas a questão não era só ela. Sydney sabia que, se pudesse descobrir uma tinta facilmente reproduzível, capaz de anular as tatuagens alquimistas, teria muito poder em mãos.
Essas tardes de pesquisa não eram tão ruins. Levei minhas tintas para o quarto e comecei a trabalhar no maldito autorretrato enquanto ela ficava sentada com as pernas cruzadas na cama, cercada por livros e pelo laptop. Sydney ficava tão concentrada que nem percebia quantas vezes eu me distraía e ficava olhando para ela. Podia ser loucura, mas eu achava incrivelmente atraente aquela expressão pensativa junto com a postura casual quando ela descruzava as pernas e se debruçava para ler algum texto arcano.
Os Moroi fugiam da luz, mas, ao ver como o sol a iluminava, eu tinha certeza que os humanos tinham sido feitos para aquilo.
— É boleíte — ela anunciou, certo dia.
Tirei os olhos da tela, que, até então, tinha uma única linha verde pintada.
— Como aqueles musicais indianos?
— Boleíte, não Bollywood. — Ela apontou para a tela do laptop. — É um mineral azul-escuro que existe em grandes reservas no México. Li tudo sobre mecânica de feitiços nos livros de Inez e a coisa é quase científica. A composição de diferentes plantas e materiais afeta o tipo de componentes do feitiço elemental que eles conseguem estabilizar. Os cristais cúbicos e o sistema isométrico da boleíte seriam um meio excelente para suspender os quatro elementos de forma que ficassem na pele e anulassem os efeitos da magia Moroi. A gravidade específica e a clivagem perfeita também ajudam muito.
Não entendi nada do que ela falou. Em vez disso, fiquei olhando para o decote dela, que era tão perfeito quanto a tal da clivagem.
— Então, hum, o que isso quer dizer?
Ela se recostou, com o olhar arrebatado.
— Não é só o mineral. Marcus acha que vai pro México pegar um material que, sozinho, combate a tinta dourada. Mas é mais do que isso. Aposto que a tatuadora dele é uma usuária de magia que encanta a boleíte antes de misturar na tinta. Os rebeldes alquimistas estão usando magia humana sem nem imaginar.
Isso eu conseguia entender. Guardei o pincel e peguei um copo de água que estava perto.
— Então acha que consegue fazer o mesmo? Encantar o mineral e fazer tinta com ele para selar a tatuagem?
— Não sei. Precisaria da ajuda da sra. Terwilliger para descobrir o feitiço. Não há registro de nada desse tipo, então precisaríamos criar um novo. Nunca fiz nada parecido. — Ela franziu a testa. — Mais difícil ainda seria conseguir boleíte. Não vai ser nada fácil em Palm Springs. Acho que eu poderia comprar pela internet… ou talvez encontrar um substituto mais comum. Alguma outra coisa da família dos haletos pode ter propriedades parecidas.
— E você ficaria duplamente protegida. — Essa era a parte mais importante para mim, e não todo o jargão geológico.
— Se eu conseguir, sim. Claro que, se Inez tiver razão, já estou protegida. — Seu rosto se iluminou com uma ideia súbita. — E posso poupar muito trabalho para Marcus. Ele perde tempo com as viagens pro México. Se eu puder replicar a tinta, ele teria um fornecimento doméstico e poderia ajudar muito mais gente. Só espero que ele apareça algum dia pra eu poder contar pra ele.
Encolhi os ombros.
— Por que esperar? Vamos encontrá-lo num sonho. Não que eu goste da ideia de passar a noite com ele, mas aguento se você estiver comigo.
Ela ficou séria imediatamente.
— Não. Nada de sonhos desnecessários.
— Mas esse é necessário. Você acabou de dizer que pode ser uma descoberta incrível e, por mais que eu odeie o cabelo dele, o Robin Hood é seu contato com o submundo. Você precisa falar com ele.
— E vou falar — ela disse, obstinada. — Da próxima vez que o vir. Ele sempre volta. Você não precisa desperdiçar espírito com isso.
— Não é desperdício. Um sonho é fichinha, Sage.
— E é exatamente o que eu estava falando antes. Sei que não consegue evitar esse tipo de coisa, e amo isso sobre você. Mas é arriscado demais.
— Ah, é? Algumas pessoas, não eu, claro, poderiam dizer que toda essa missão de fazer tinta em que você está se metendo é um risco inacreditável. Acha que insubordinação irritaria os alquimistas? E se eles descobrirem que é movida a magia? Isso sem considerar o que aconteceria se descobrissem sobre mim. — Apontei para ela com o copo para dar ênfase. — Amor, você está correndo muitos riscos. Se os alquimistas descobrirem qualquer uma dessas coisas…
— O quê? — ela perguntou, desconfiada. — Acha que eu deveria desistir?
— Não, claro que não — eu disse, com mais confiança do que realmente sentia. Parte de mim queria que ela nunca corresse perigo nenhum, mas esse não seria o mundo real. Pelo menos, não o nosso. — Sei que não pode. É o que você faz. E os sonhos de espírito são o que eu faço. — Apontei para o laptop e os livros dela. — Não posso ajudar com toda essa investigação e trabalho mágico, mas me deixe fazer alguma coisa pequena como isso. Me deixe contribuir com alguma coisa para nós.
Os olhos dela se arregalaram.
— Adrian, você já contribui muito. Nem sabe o quanto. É a maior alegria da minha vida. A maior alegria que já tive.
— Então está combinado — eu disse. — Vamos fazer uma conferência em sonho.
O amor e o encanto vacilaram.
— Espere. Como assim, combinado? Desde quando uma declaração de amor significa que estou aceitando sua ideia?
— É a lógica de Adrian Ivashkov. Não tente entender, só se deixe levar.
— Falar é fácil.
Assenti solenemente.
— É só porque não está acostumada a levar a vida espontânea e imprevisível que eu levo. O inesperado é o esperado para mim. Nada me surpreende mais.
Ela me olhou com um olhar travesso.
— Não sei, não. Aposto que consigo contar uma coisa que vai pegar você completamente de surpresa.
— Fique à vontade para tentar.
— Se eu surpreender você, desiste de fazer o sonho?
— Primeiro vamos ouvir o que tem a dizer.
Ela hesitou e, embora ainda estivesse com um brilho malandro nos olhos, percebi uma ponta de nervosismo também.
— Então… estou tomando pílula.
Eu estava bebendo água de novo e engasguei. Demorei vários segundos pra recuperar o fôlego.
O quê?
Ela deu de ombros, incrivelmente tranquila, como se a sugestão de fazer sexo não fosse grande coisa.
E, sim, não havia dúvida. Eu estava surpreso. Muito surpreso. Nunca deveria ter duvidado dela.
— Demora um pouco pra começar a fazer efeito, então imaginei que deveria ficar preparada, por via das dúvidas.
— Por via das dúvidas — repeti, ainda perplexo.
Seu nervosismo se transformou em divertimento com a minha perplexidade.
— Vai me dizer que não pensa nisso?
— Ah, pode crer, eu penso nisso o tempo todo. Só não achava que você pensasse. Quer dizer, imaginei que, quando o assunto fosse sexo, os alquimistas tivessem todos aqueles princípios sobre pureza e casamento e pecado… e tudo mais.
— A maioria tem — ela concordou. — Mas eu? Meus princípios são de amor e de fazer as coisas com significado e compromisso. Uma folha de papel nem sempre prova alguma coisa. Teria algum pecado envolvido se fosse… não sei. Fazer por fazer. Com alguém que você não ama. Sem nenhum sentimento.
Não consegui formular uma resposta porque a maior parte das minhas transas não tinham envolvido sentimento. Não lembrava o nome de metade das meninas com quem tinha ido para a cama. Sydney sabia muito bem disso, mas não me condenou e passou para um tópico que combinava muito mais com a personalidade dela.
— E, claro, fazer com responsabilidade também é muito importante. Tem milhões de pílulas no mercado, por isso tive que compilar todas as informações. — Então, para minha surpresa, ela tirou da bolsa uma tabela com o título Comparação de contraceptivos orais. Era feita à mão, mas quase não dava para perceber vendo as linhas perfeitas e a letra caprichada. Havia várias cores e colunas cheias de termos incompreensíveis, como estradiol e andrógenos.
Fiquei olhando com o queixo caído, embora aquilo tivesse tudo a ver com a Sydney que eu conhecia e amava.
— Há quanto tempo você está trabalhando nisso?
— Na verdade, já terminei. Não demorou muito. — Ela me olhou e suspirou. — Todas têm muitos efeitos colaterais. Quer dizer, muita gente não tem nenhum problema, mas há algumas coisas que podem acontecer que é preciso levar em consideração. Muitas fazem ganhar peso.
Eu a examinei com atenção, percebendo o que isso significava para ela. Apesar dos novos hábitos mais saudáveis, eu sabia que a silhueta ainda era uma preocupação constante para ela, o que era ridículo, considerando como era linda.
— Estou surpreso por você correr esse risco. Existem outras opções de sexo seguro, sabe? Que não envolvem pílulas.
— Eu sei. — Ela colocou a tabela na cama. — Mas não precisamos nos preocupar com doenças e esse é um dos métodos mais eficazes, além de ser um que consigo controlar. Meu médico me deu a pílula com menor incidência de ganho de peso, então vamos ver o que acontece.
Levantei e sentei ao lado dela na cama.
— Promete que, se notar alguma coisa, vai parar de tomar? Não quero que compense com uma dieta maluca.
Ela me encarou.
— Acha mesmo que eu faria uma coisa dessas?
— Acho melhor não correr o risco.
— E ficar sem transar?
— Não estou transando agora e estou tranquilo — eu disse, muito nobre. — Embora… hum, só por curiosidade, quando você está pensando em…
Sydney riu e me beijou de leve.
— Não sei. Quando eu estiver pronta. — De repente, ela ficou mais séria. — E tem a questão da Jill também…
— Ah — eu disse, sem saber o que mais poderia dizer.
Jill. Jill, a menina que conseguia ver dentro do meu mundo e as coisas que eu fazia, inclusive o que fazia com Sydney. Eu sabia que isso incomodava Sydney e não podia culpá-la. Ter uma testemunha relutante às nossas atividades mais íntimas também não era uma coisa de que eu gostava, ainda mais quando essa testemunha era a doce e inocente Jill. Não que ela ainda fosse tão doce e inocente depois de viver dentro da minha cabeça. Eu suspeitava que Jill, mais que qualquer outra coisa, era o que impedia minha relação física com Sydney. Havia certas coisas que, mesmo com má vontade, ela admitia que Jill soubesse. Outras não.
E eu não tinha argumentos nem palavras conciliadoras para oferecer. Não sabia como resolver esse problema e não ia pressionar Sydney a fazer uma coisa com que não estivesse à vontade. A única coisa que eu esperava era que Jill e eu conseguíssemos desenvolver um controle para bloquear um ao outro. A minha ex, Rose, tinha um laço psíquico com Lissa, e, aos poucos, elas haviam desenvolvido essa capacidade… embora tivesse levado alguns anos. Será que eu estava disposto a esperar tanto tempo por Sydney? Olhei para ela enquanto segurava sua mão e soube a resposta imediatamente. Sim. Sim, eu estava.
Dei um sorriso que esperava ser encorajador.
— Então vamos ver o que acontece. Se funcionar, ótimo. Senão, você para de tomar. É uma pílula, não um compromisso pra vida. Além disso, há várias outras coisas que podemos fazer enquanto isso.
Ela voltou a sorrir e meu coração ficou mais leve.
— Suponho que essas “coisas” em que você está pensando também não sejam adequadas para Jill.
— Esquece esses livros e eu mostro para você.
Jill ainda ficou na minha cabeça depois que Sydney foi embora, principalmente porque eu tinha marcado um jantar com ela naquela noite. Era algo que tentava fazer com certa frequência. Jill podia saber tudo sobre a minha vida, mas eu queria ouvir sobre a dela. Além disso, apesar de todos os jantares em grupo, era bom sair só nós dois. Quer dizer, mais ou menos. Às vezes, Jill podia sair da escola só com Sydney, mas todo mundo preferia que um dampiro fosse junto. Eu sabia que Jill achava isso sufocante de vez em quando, mas era um das regras rígidas dos alquimistas que eu conseguia entender.
Eu estava lá quando os assassinos a atacaram. Tinha visto o sangue e a respiração dela se esvair. Aquelas imagens viviam me acordando durante a noite e eu não deixaria nada parecido acontecer de novo.
Por isso, Eddie nos acompanhava nesses jantares, e eu não via tanto problema. Ele era um cara legal, que também havia passado por muitos traumas e sofrimentos. Faziam parte dele, e ele os usava para se fortalecer e seguir em frente. Era leal e eu admirava isso nele.
Mas, dessa vez, não era Eddie quem estava esperando no meio-fio ao lado de Jill.
— Droga — murmurei.
Um olhar irônico passou pelo rosto de Jill quando notou minha reação. Embora conhecesse meus pensamentos e sentimentos a respeito, essa era uma questão em que se opunha firmemente a mim.
— Oi, Adrian — ela disse alegremente, entrando no carro. — Neil quis vir junto hoje.
— Estou vendo. — Ele entrou no banco traseiro, me cumprimentando com um curto aceno pelo retrovisor.
— Castile tem um encontro?
— Não, mas achamos que seria divertido para Neil sair um pouco. — O que ela quis dizer, claro, era que ela achava que seria divertido sair com Neil. Eu não precisava de um laço psíquico para saber disso.
— Além disso, tenho um ano de experiência a mais do que Eddie — Neil acrescentou. — Então, na verdade, eu é que sempre deveria acompanhar Sua Alteza em ocasiões públicas.
Jill costumava ficar irritada com o título, mas, sempre que Neil o usava, parecia um antigo cavaleiro que fazia o coração dela bater mais forte.
— Castile enfrentou algumas situações bem brutais — eu disse. — Quantos Strigoi e assassinos você já enfrentou? — Lancei um olhar pelo retrovisor e, apesar daquele ar durão, percebi que ele ficou constrangido.
— Eu fazia parte de um regimento de guardiões que protegia uma família real quando dois Strigoi decidiram atacar — ele disse.
— Dois Strigoi contra um regimento inteiro de guardiões? Puxa. Deve ter sido difícil.
Pelo canto do olho, vi Jill me disparar um olhar furioso.
— Neil já fez e viu muitas coisas. O treinamento dele é excelente.
Em um grande ato de generosidade, decidi parar de atormentar o cara de quem ela fingia gostar… por enquanto. Minha atenção logo se voltou à luta para estacionar no centro, em meio a todas as outras pessoas que tinham saído para jantar. Um lugar vagou exatamente quando eu estava chegando ao restaurante grego em que tinha feito reserva.
— Adrian Ivashkov vence novamente — declarei.
Esperamos pouco tempo e, quando a recepcionista nos levou para nossa mesa, passamos pela vitrine de sobremesas.
— Baclava fresco — Jill comentou, com uma expressão inocente.
— Pois é — eu disse, com a mesma inocência. — Acho que podemos levar pra viagem. — Baclava era um dos doces favoritos de Sydney. Eu não disse nada, mas tinha sido o motivo de escolher aquele restaurante.
Dispensei saudoso a garrafa de uzo e perguntei a Jill sobre a equipe de natação. Todos os alunos de Amberwood precisavam participar de um esporte além de assistir às aulas, e natação era a escolha perfeita para ela, visto que a maior parte dos treinos era em lugar fechado e a especialidade elemental dela era água. Eu, particularmente, não era nenhum fã de esportes, mas gostava das festas de final de campeonato, especialmente se não tivesse que assistir ao jogo. Tinha ido a algumas das competições de Jill e achava que valia a pena aguentar os pais ultra-animados para vê-la se destacar.
Mesmo agora, havia felicidade no rosto dela enquanto descrevia como tinha atingido um novo recorde pessoal, o que era uma distração agradável das tormentas que viviam fervilhando na minha cabeça. Ela tivera muitas dificuldades para se adaptar a Amberwood e eu ficava contente em ver que algo estava dando certo em sua vida. O momento foi destruído quando ela se virou para Neil com os olhos brilhando.
— Neil está na equipe de luta livre. Ele é incrível. O melhor. Ganha todas as lutas.
Me recostei na cadeira, já sem escrúpulos para perseguir o cara se ela insistia em falar dele.
— Bom, claro que é. Qualquer dampiro vai vencer um humano. É natural.
Neil pensou sobre o assunto enquanto mastigava seu souvlaki.
— Suponho que sim — ele disse, finalmente.
— Não parece justo — continuei. — Quer dizer, eles têm categorias de peso, mas não há nenhuma regulamentação sobre isso. Você está competindo com pessoas que não têm como acompanhar você.
Jill me lançou um olhar de advertência e disse:
— Bom, não há nada que ele possa fazer, se Amberwood não separa as equipes entre humanos e dampiros.
— Você sempre pode perder de propósito — falei para Neil.
Ele ficou pálido.
— Perder de propósito? Não posso fazer uma coisa dessas! Vai contra meu código de ética pessoal.
— E vencer pessoas que não têm chance contra você faz parte dessa ética? — perguntei. — Na minha opinião, essa é a verdadeira transgressão moral. — Queria que Sydney estivesse ali porque teria gostado de me ver usando a palavra “transgressão”. — Mas, enfim, a vida é sua. Não julgo ninguém e, pra falar a verdade… — Ri baixinho. — Sempre costumo tender um pouquinho demais para o moralismo. É um dos meus poucos defeitos.
Nem mesmo Neil era bobo o bastante para cair nessa. Ele estreitou os olhos.
— Não sei como não percebi isso antes. Fale mais sobre suas opiniões morais.
Fiz um gesto de pouco-caso.
— Ah, não temos tanto tempo assim. Mas sabe com quem você deveria conversar? Castile. Esse sim é um cara que sabe a coisa certa a fazer. Até fingiu uma lesão no joelho pra escapar da maior parte da temporada de basquete; assim não teve que lidar com, hum, a ética de competir contra humanos. Anda sempre na linha, o Castile.
Eu ainda não tinha certeza de que Neil estivesse interessado em Jill, mas sabia, sem sombra de dúvida, que via Eddie como um rival na vida. Eddie não chegava a esse ponto, mas também tinha uma veia competitiva. Acho que só havia espaço para um dampiro alfa em Amberwood.
— Mentir também não é honrado — Neil disse, inflamado.
— Não, mas a humildade é. — Suspirei por Eddie com o mesmo ardor com que Jill suspirava por Neil. — Ele prefere enfrentar a humilhação de estar fora do jogo a colher louros não merecidos.
Talvez eu tenha ido longe demais, julgando pela fúria ardente nos olhos de Neil.
— Neil — Jill disse rápido. — Pode ir até o balcão e pedir um baclava para viagem? De nozes. E um de pistache.
Jill realmente estava virando minha aprendiz. Pistache não era um dos tipos mais comuns, então eles não costumavam deixar na vitrine. Fazer Neil esperar enquanto caçavam o baclava nos daria tempo.
— Você é terrível — ela me disse quando Neil foi embora. Ele não tirou os olhos de nós enquanto aguardava, mas, pelo menos, não nos ouvia mais.
— Você arranja coisa melhor, princesa Belezinha. — Enunciei cada palavra com o garfo. — Além disso, o sr. Big Ben ali é casado com o dever. Nunca vai conseguir nada com ele. Encontre algum príncipe Moroi e desista dos dampiros. Eles só dão trabalho. — E eu não sabia? — Além disso, pode ter enganado todo mundo, mas eu sei que não gosta dele.
— Ah, é? Tem um laço psíquico agora?
— Não preciso. — Apontei para minha cabeça. — Tenho visão de aura. E também conheço você. O que está fazendo? Por que está fingindo interesse nele?
Ela suspirou.
— Porque quero ficar interessada nele.
— Acha que, se fingir bem o suficiente, vai conseguir se convencer?
— Alguma coisa assim.
— Isso não faz nenhum sentido. E olhe que, vindo de mim, é uma acusação grave.
Ela me deu um chute por baixo da mesa.
— Se eu conseguir me apaixonar por Neil, talvez eu pare… — A voz dela vacilou por um momento. — Talvez eu pare de pensar no Eddie.
Ignorei os comentários sarcásticos que vinha preparando mentalmente.
— Acho que não funciona assim. Na verdade, sei bem que não funciona assim.
— Preciso fazer alguma coisa, Adrian. Queria ter percebido o que sentia por Eddie antes… Fui uma tonta e perdi a chance. Agora a Sydney diz que ele só pensa em honra e dever, e acha que nenhuma princesa poderia se rebaixar ao nível dele.
— Parece uma coisa que ele diria — concordei. Na verdade, eu nunca tinha ouvido a história da boca de Eddie, mas Sydney tivera uma conversa franca com ele e havia descoberto tudo. Ele já tinha sido apaixonado por Jill, o que agora negava firmemente. Ninguém sabia se essa paixão havia sobrevivido ao namoro com Angeline, mas eu suspeitava que, se tinha, a visão dele de cavalheirismo não havia mudado.
— Talvez, em vez de tentar se enganar pra se apaixonar por outro cara, você deveria simplesmente confrontar Eddie e falar a verdade — sugeri.
— Como você fez com Sydney? — Jill perguntou, irônica. — Não deu muito certo.
— Na época, não. — Dizer que a reação da Sydney à minha primeira declaração de amor “não deu muito certo” era gentileza da parte dela. — Mas olhe pra mim agora, flutuando nas nuvens do amor.
Jill voltou a sorrir.
— Você devia fazer um jantar para Sydney. De aniversário.
Em momentos como aquele, era bom ter alguém que já sabia da minha vida. Poupava o esforço de explicar o que me afligia. A mudança de assunto súbita também era a forma sutil de Jill dizer que não queria mais conversar sobre sua vida amorosa.
— Não é um presente de verdade. Ela merece mais.
— Rosas e diamantes? — Jill balançou a cabeça. — Você conhece Sydney. Ela não é materialista e você não precisa comprar nada caro. Um jantar feito em casa é romântico.
— E desastroso também. Você sabe melhor do que ninguém que não sei cozinhar.
— E é por isso que ela vai adorar. Ela admira quando as pessoas se esforçam… e aprendem. Descubra como fazer um prato simples, e ela vai amar. Um errinho ou outro é até fofo.
Jill tinha razão, mas era difícil admitir. A maioria dos meus encontros, mesmo aqueles que não passaram de uma noite, envolveram coisas caras. Flores e mais flores. Refeições com sete pratos e vinho. Fazer macarrão não chegava nem aos pés disso.
— Vou pensar — concordei.
Isso deixou Jill mais animada.
— Talvez, se o clima estiver bem romântico, vocês possam…
— Não, Belezinha. — Ergui a mão em advertência. — Nem comece.
— Mas você quer — Jill insistiu. — E ela também, senão não teria feito aquela tabela.
— Sei não. É o tipo de coisa que ela faria no tempo livre pra se divertir. Enfim. Sydney e eu não pensamos igual em tudo, mas se tem um ponto em que concordamos é que não queremos você envolvida na nossa vida sexual, então não tem por que discutir esse assunto.
Ela apoiou o cotovelo na mesa e o queixo na mão, fazendo com que seu cabelo fino e ondulado caísse para a frente e envolvesse seu rosto como um véu. Seria uma pose formidável para uma pintura.
— Eu me sinto péssima. É culpa minha que a sua vida amorosa esteja tão complicada. Se não fosse pelo laço…
— Você estaria morta — eu disse, categórico. — E não tem por que discutir esse assunto. Estou falando sério: preferia ser celibato pro resto da vida a não ter você neste mundo.
Jill engoliu em seco e pude ver que estava contendo as lágrimas.
— Cuidado — provoquei. — Se você chorar, o sr. Ponte de Londres ali vai achar que fui grosso e me pegar na saída.
Ela fungou, mas abriu um sorriso.
— Não, ele não faria uma coisa dessas, mas já está terminando lá. Talvez eu pudesse beber ou alguma coisa assim se você e Sydney… sabe. Deixaria o laço dormente.
— Não — respondi com firmeza. Neil começou a andar na nossa direção. — De jeito nenhum. Já basta um alcoólatra em recuperação neste laço. Não se preocupe por enquanto. Vamos dar um jeito.
— Como? — ela perguntou.
— Eu tenho um plano.
Jill me conhecia bem demais e me lançou um olhar astuto.
— Tem nada.

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