13 de outubro de 2017

Capítulo 5

FUI EMBORA um pouco depois com os alquimistas e não esperava ver Adrian por um bom tempo. Ele passaria mais alguns dias na Pensilvânia com os outros Moroi, então não havia chances de pegarmos outro voo juntos. Minha viagem de volta para a Califórnia foi tranquila, embora minha mente estivesse acelerada com todos os acontecimentos dos últimos dias. Entre o aviso enigmático da sra. Terwilliger e minha nova pista sobre Marcus, eu tinha muito com que me ocupar.
Recebi uma mensagem de Eddie enquanto chamava um táxi no aeroporto de Palm Springs: Vamos comer no Marquee’s. Quer vir? Uma segunda mensagem chegou logo em seguida: Você pode nos levar pra casa no seu carro depois. Pedi ao taxista que me levasse para o bairro do outro lado da cidade, em vez da área de Amberwood, em Vista Azul. Estava com fome, pois não tinham servido jantar na classe econômica; além disso, queria logo meu carro de volta.
Quando cheguei ao restaurante, encontrei Eddie e Angeline sentados num lado da mesa, e Jill no outro. Imediatamente entendi por que haviam escolhido comer tão longe da escola. A distância significava que poderiam sair como um casal. Em Amberwood, todos achavam que éramos parentes. Eddie, Jill e eu fingíamos ser irmãos, e Angeline era nossa prima. Eddie e Angeline tinham começado a namorar havia pouco tempo e precisavam esconder a relação dos nossos colegas para não levantar suspeitas.
Aparentemente, já atraíamos atenção demais sem isso.
Angeline estava encostada no braço de Eddie. Até ele parecia estar se divertindo, o que era gostoso de ver. Ele levava as responsabilidades tão a sério e estava sempre tão tenso que parecia faltar pouco para que quebrasse no meio. Angeline — apesar de meio rude, imprevisível e muitas vezes inconveniente — vinha fazendo muito bem a ele, por mais incrível que fosse. Naturalmente, isso não o tornara menos aplicado a seus deveres de guardião.
As coisas estavam um pouco diferentes do outro lado da mesa. Jill parecia completamente infeliz, afundada no banco de braços cruzados. Seu cabelo castanho-claro estava caído para a frente, cobrindo parte do rosto. Depois de namoros fracassados com um cara que queria ser Strigoi e com o colega de quarto de Eddie, Jill havia percebido que Eddie poderia muito bem ser o garoto certo para ela. Teria sido perfeito porque, durante muito tempo, ele nutrira uma paixão secreta por Jill, dedicando-se a ela como um cavaleiro apaixonado que servia à sua donzela soberana. Ele nunca achou que fosse digno de Jill e, sem receber nenhum sinal do amor dela, se voltou para Angeline, bem quando Jill havia mudado de ideia e começado a gostar dele. Às vezes, parecia uma comédia de Shakespeare... até eu olhar para o rosto de Jill. Então ficava dividida porque sabia que, se Eddie voltasse a gostar dela, Angeline é que ficaria com aquele ar tristonho.
Era uma confusão que me deixava feliz por estar livre de qualquer relacionamento amoroso.
— Sydney! — Jill se iluminou ao me ver, tirando o cabelo do rosto. Talvez ela precisasse da distração ou, talvez, a nova atitude de Adrian em relação a mim havia melhorado o humor dela também. De todo modo, fiquei feliz com o retorno de sua simpatia, em vez daqueles olhares emburrados e acusadores que vinha lançando na minha direção desde que eu o rejeitara.
— Oi, gente — cumprimentei, me sentando no banco ao lado dela. Imediatamente, abri o álbum de fotos do celular, pois ela logo perguntaria sobre o casamento. Apesar de toda aquela intriga, eu conseguira tirar algumas fotos sem que os outros alquimistas percebessem. Sabia que, mesmo se tivesse visto parte do casamento através dos olhos de Adrian, Jill gostaria de examinar todos os detalhes.
Ela soltava suspiros de alegria enquanto olhava as fotos.
— Olhem só a Sonya. Ela está tão linda! — Angeline e Eddie se debruçaram para ver. — Ah, e aqui estão Rose e Lissa. Estão muito bonitas também. — Havia um tom estranho na voz de Jill. Ela era amiga de Rose, mas sua meia-irmã ainda era um mistério. Jill e Lissa nem sabiam que eram irmãs até pouco tempo antes, e o clima político instável vinha obrigando Lissa a se comportar mais como rainha do que como irmã para Jill. Era uma relação difícil para as duas.
— Foi divertido? — Eddie perguntou.
Considerei minha resposta por alguns segundos.
— Foi interessante. Ainda há muita tensão entre os alquimistas e os Moroi, então algumas partes foram meio estranhas.
— Pelo menos Adrian estava lá. Deve ter sido bom ter alguém que você conhecia — Angeline comentou, bem-intencionada, então apontou para a foto que eu havia tirado da recepção. O objetivo tinha sido registrar a vista do salão para Jill, mas, por acaso, Adrian passara no meio do enquadramento, com a pose e a perfeição de um modelo contratado para embelezar o evento. — Lindo como sempre. — Angeline balançou a cabeça. — Como todo mundo lá. Acho que significa que não teve nenhuma briga para celebrar o casamento, né?
O fato de ela deduzir isso tão rápido era um sinal do progresso que havia feito. Seu povo, os Conservadores, vivia nas florestas da Virgínia Ocidental, e sua abertura a romances entre vampiros, dampiros e humanos era apenas um dos seus costumes mais estranhos. Lutas entre amigos eram comuns, e Angeline teve que aprender que comportamentos assim não eram aceitáveis na maior parte dos Estados Unidos.
— Não enquanto eu estava lá — respondi. — Mas quem sabe não aconteceu alguma coisa depois que eu saí? — Isso fez Jill e Eddie abrirem um sorriso largo, e os olhos de Angeline brilharem de esperança.
A garçonete se aproximou, e pedi uma Coca Diet e uma salada. Podia ter relaxado na minha contagem rígida de calorias, mas jurava que ainda podia sentir o gosto de açúcar do bolo de casamento que comi depois do feitiço.
Angeline apertou o braço de Eddie com mais força e sorriu para ele.
— Se um dia você for para casa, pode lutar com meu irmão Josh para mostrar que é digno de mim.
Precisei conter o riso. Eu tinha visto a comunidade dos Conservadores e sabia que ela estava falando sério.
— Vocês não estão quebrando um monte de regras namorando sem ter feito isso ainda?
Angeline assentiu, parecendo um pouco triste.
— Minha mãe faria um escândalo se descobrisse. Mas acho que é um caso excepcional.
Eddie sorriu para ela, indulgente. Acho que às vezes ele pensava que exagerávamos em relação aos Conservadores. Ele teria uma bela de uma surpresa se realmente os visitasse algum dia.
— Talvez eu possa lutar com vários parentes seus pra compensar — ele disse.
— Pode ser que precise mesmo — ela respondeu, sem perceber que ele estava brincando.
Não era uma conversa exatamente romântica, mas Jill pareceu incomodada ao ouvi-los discutir a relação. Ela se virou para mim, claramente tentando não olhar para eles.
— Sydney, o que vamos fazer no Natal?
Encolhi os ombros, sem saber exatamente o que ela estava perguntando.
— O de sempre, acho. Dar presentes. Cantar músicas. Fazer duelos pagãos. — Angeline sorriu com essa última parte.
Jill revirou os olhos.
— Não, quis dizer que teremos férias de inverno daqui a algumas semanas. Existe alguma chance... existe alguma chance de irmos para casa?
Havia um tom triste na voz dela, e até Eddie e Angeline pararam de se admirar para cravar os olhos em mim. Fiquei incomodada sob seus olhares. Angeline não estava tão preocupada em visitar os Conservadores, mas eu sabia que Eddie e Jill sentiam falta dos amigos e da família. Queria ter dado a resposta que eles queriam ouvir.
— Sinto muito — falei. — Vocês vão ficar na mansão de Clarence durante as férias. Não podemos correr o risco... bom, vocês sabem. — Não precisava frisar ainda mais a segurança de Jill. Todos conhecíamos muito bem esse refrão. O comentário de Ian sobre a fragilidade do trono havia me lembrado da importância da nossa missão.
O rosto de Jill esmoreceu. Até mesmo Eddie pareceu decepcionado.
— Imaginei — ela disse. — Só tinha a esperança... quer dizer, estou com muita saudade da minha mãe.
— Acho que podemos mandar uma mensagem para ela — eu disse baixinho.
Sabia que não era a mesma coisa. Às vezes, conseguia ligar para a minha mãe, e ouvir a voz dela era mil vezes melhor do que qualquer e-mail. Vez ou outra, até conseguia falar com a minha irmã mais velha, Carly, o que sempre me deixava contente, porque ela era muito alegre e divertida. Minha irmã mais nova, Zoe... bom, era outra história. Ela não atendia meus telefonemas. Zoe estivera prestes a ser iniciada nos alquimistas — para assumir aquela missão, aliás — quando a peguei em seu lugar. Tinha feito isso para protegê-la do envolvimento com os alquimistas tão cedo, mas ela se sentia ofendida.
Ao olhar para o rosto triste de Jill, senti um aperto no coração. Ela estava passando por tanta coisa. Seu novo status real. Estar na mira de assassinos. Adaptar-se a uma escola humana. Seus romances desastrosos e mortais. E, agora, aguentar Eddie e Angeline. Ela havia lidado com tudo isso com uma força extraordinária, sempre decidida a cumprir o que precisava fazer mesmo quando não queria fazê-lo. Lissa era elogiada por ser uma rainha exemplar, mas havia uma realeza e uma força em Jill que muitos subestimavam. Quando olhei para Eddie, percebi uma faísca em seus olhos que parecia indicar que ele também reconhecia e admirava isso nela.
Depois do jantar, levei todos para Amberwood e fiquei contente em ver meu carro em perfeito estado. Eu dirigia uma perua Subaru chamada Pingado, e Eddie era a única pessoa em quem eu confiava atrás do volante. Deixei-o no alojamento masculino e, em seguida, levei Angeline e Jill de volta ao nosso. Quando estávamos entrando, avistei a sra. Santos, uma professora que eu conhecia de vista.
— Vão na frente — falei para Jill e Angeline. — Vejo vocês amanhã.
Elas subiram e eu atravessei o saguão, esperando pacientemente até que a sra. Santos terminasse uma conversa com a responsável pelo alojamento, a sra. Weathers. Quando a sra. Santos começou a dar meia-volta para sair, chamei a atenção dela.
— Sra. Santos? Sou Sydney Melrose. Estava pensando se poderia...
— Ah, sim — ela disse. — Sei quem você é, minha filha. A sra. Terwilliger sempre elogia você nas reuniões do departamento. — A sra. Santos era uma mulher de ar doce, com cabelo castanho já grisalho. Diziam que ela estava prestes a se aposentar.
Fiquei um pouco vermelha com o elogio.
— Obrigada. — Ela e a sra. Terwilliger eram professoras de história, embora o foco da sra. Santos fosse história norte-americana, não mundial. — A senhora tem um minuto? Queria perguntar uma coisa.
— Claro.
Saímos do saguão, afastando-nos do vaivém do alojamento.
— A senhora sabe muita coisa sobre a história local, não é? Do sul da Califórnia?
Ela assentiu.
— Sim. Nasci e cresci aqui.
— Estou interessada em arquitetura não tradicional na área de Los Angeles — eu disse, soltando uma mentira atrás da outra. Já tinha pensado no que ia dizer. — Quer dizer, estilos que não são comuns no sudoeste dos Estados Unidos. Você conhece algum bairro assim? Ouvi falar que há alguns vitorianos...
Ela abriu um sorriso.
— Ah, sim. Claro. É um assunto fascinante. Vitoriano, Cape Cod, colonial... todos os estilos. Não tenho todas as informações aqui comigo, mas posso mandar um e-mail para você assim que chegar em casa hoje. Vários sei de cabeça, e conheço um historiador que pode ajudar com os outros.
— Seria ótimo. Muito obrigada.
— É sempre bom ajudar uma aluna prodígio. — Ela deu uma piscadinha enquanto se afastava. — Talvez no próximo semestre você faça um estudo independente comigo. Isto é, se conseguir se livrar da sra. Terwilliger.
— Vou lembrar disso — eu disse.
Assim que ela foi embora, mandei uma mensagem para a sra. Terwilliger. A sra. Santos vai me falar sobre bairros históricos.
A resposta chegou rápido: Ótimo. Venha para cá agora.
Fiz uma careta enquanto escrevia: Acabei de chegar. Nem entrei no quarto.
Ao que ela respondeu: Então vai chegar aqui muito mais rápido.
Até podia ser verdade, mas mesmo assim fui até o quarto deixar a mala e trocar de roupa. A sra. Terwilliger morava bem perto da escola e parecia estar andando em círculos quando cheguei à casa dela.
— Finalmente! — ela exclamou.
Olhei para o relógio.
— Faz só quinze minutos.
Ela meneou a cabeça e estava com a mesma expressão carregada de quando estávamos no deserto.
— Quinze minutos podem ser demais. Venha comigo.
A casa da sra. Terwilliger era pequena e podia se passar por uma loja de produtos esotéricos ou um abrigo de gatos. O grau de bagunça me fazia ranger os dentes. Livros de feitiços, incenso, estátuas, cristais e todo tipo de itens mágicos estavam empilhados em todos os cômodos da casa. Só a oficina dela, o cômodo para onde me levou, era impecável — organizado a um nível que até mesmo eu aprovava. Tudo era limpo e ordenado, com rótulos e em ordem alfabética. Uma grande mesa de trabalho ficava no centro do cômodo, completamente vazia exceto por um lindo colar que eu nunca tinha visto antes. A corrente era feita de elos de ouro intrincados e o pingente era uma pedra preciosa vermelha-escura entrelaçada numa armação de ouro.
— Granada? — perguntei.
— Muito bem — ela disse, erguendo o colar. A luz das velas na oficina parecia fazer com que todas as faces da pedra brilhassem.
— É lindo — eu disse.
Ela estendeu na minha direção.
— É para você.
Dei um passo para trás, constrangida.
— Para... mim? Quero dizer, obrigada, mas não posso aceitar um presente desses.
— Não é um presente — ela disse. — É uma exigência. Uma que pode salvar sua vida. Pegue e coloque.
Me recusei a tocar naquilo.
— É mágico, não é?
— Sim — ela respondeu. — E não me olhe desse jeito. Não é diferente de nenhum dos amuletos que você mesma já fez.
— Só que qualquer coisa que a senhora faça — engoli em seco, olhando fixamente para a joia vermelho-sangue — será muito mais poderosa do que qualquer coisa que eu possa criar.
— É exatamente essa a ideia. Agora, tome. — Ela aproximou tanto o colar de mim que a corrente balançou e quase bateu na minha cara.
Enchendo-me de coragem, estendi a mão e o apanhei. Não aconteceu nada. Nenhuma faísca ou fumaça. Nenhuma dor agonizante. Ao notar o olhar cheio de expectativa dela, prendi o colar no pescoço, fazendo com que a granada repousasse junto à cruz.
Ela soltou um suspiro, visivelmente aliviada.
— Exatamente como eu esperava.
— O quê? — indaguei. Apesar de não notar nada de especial, sentia o peso da granada no pescoço.
— Está ocultando seu poder mágico — ela respondeu. — Ninguém que olhar para você vai saber que é usuária de magia.
— Não sou usuária de magia — eu a lembrei, seca. — Sou uma alquimista.
Ela entreabriu um sorriso.
— Claro que é, uma alquimista que usa magia. E, para uma pessoa poderosa, isso seria óbvio. A magia deixa uma marca no sangue que permeia todo o corpo.
— Como assim? — Eu não teria ficado mais chocada se ela tivesse dito que eu havia contraído uma doença incurável. — A senhora nunca me falou disso antes!
— Não era importante — ela disse, dando de ombros. — Até agora. Preciso que você fique escondida. Não tire esse colar. Nunca.
Pus as mãos na cintura.
— Não estou entendendo.
— Tudo será revelado em seu devido tempo...
— Não — eu disse. Naquele momento, era como se estivesse falando com Stanton ou qualquer uma das várias pessoas que haviam me usado e escondido informações de mim durante a minha vida inteira. — Tudo será revelado agora. Se a senhora me meteu em alguma situação perigosa, precisa me tirar disso ou dizer como posso sair sozinha.
A sra. Terwilliger ficou me olhando em silêncio por vários segundos. Um gato cinza malhado roçou na minha perna, arruinando a gravidade da situação.
— Você tem razão — ela disse por fim. — Eu lhe devo uma explicação. Sente-se.
Sentei num dos banquinhos ao redor da mesa e ela sentou diante de mim, juntando as mãos à sua frente. Parecia estar encontrando dificuldades para organizar os pensamentos.
Precisei me esforçar para manter a calma e a paciência — caso contrário, o pânico que vinha me remoendo desde o deserto me consumiria por completo.
— Você se lembra daquela mulher que viu na foto? — ela perguntou, enfim.
— Sua irmã.
— Sim. Veronica. Ela é dez anos mais velha que eu e parece ter metade da minha idade, como você deve ter visto. Claro, não é difícil criar uma ilusão. Se eu quisesse parecer jovem e bonita, poderia; e a palavra-chave aqui é parecer. Mas Veronica realmente conseguiu manter o corpo jovem e vibrante. É um tipo avançado e perigoso de magia. Não dá para resistir à idade desse jeito sem fazer alguns sacrifícios. — Ela franziu as sobrancelhas e meu coração disparou. A manutenção da juventude era algo que despertava todos os meus temores alquimistas. Era quase tão terrível quanto a imortalidade Strigoi; talvez até pior, já que estávamos falando de uma humana. Esse tipo de magia perversa não tinha lugar nesse mundo. O que ela disse em seguida confirmou a perversidade daquilo tudo. — Ou, no caso dela, sem o sacrifício de outras pessoas.
Sacrifício. A própria palavra pareceu envenenar o ar. Ela se levantou e foi até uma estante, de onde tirou um recorte de jornal. Sem dizer uma palavra, o entregou para mim. Era uma matéria recente, de três dias antes, falando sobre uma aluna de dezenove anos da UCLA que havia sido encontrada inconsciente em seu dormitório. Ninguém sabia a causa e a menina estava hospitalizada, sem dar nenhum sinal de quando ou se acordaria.
— O que é isso? — perguntei, sem saber se queria descobrir a resposta.
Examinei a matéria com mais atenção; também continha uma foto. A princípio, me perguntei por que o jornal mostraria uma senhora dormindo. Então, ao ler a legenda, descobri que a vítima do coma exibia alguns sintomas físicos inexplicáveis: cabelo grisalho e pele seca e enrugada. Os médicos estavam investigando doenças raras no momento. Eu me encolhi de repulsa, sem conseguir acreditar nos meus próprios olhos. A menina estava horrenda e não consegui olhar para ela por muito tempo.
De repente entendi. Veronica não estava sacrificando as vítimas com facas e altares de pedra. Ela estava conduzindo algum ritual de magia perverso naquelas meninas que distorcia as leis da natureza, deixando-as naquele estado pavoroso. Meu estômago se revirou e me segurei na mesa para não desmaiar.
— Essa menina é uma das vítimas de Veronica — a sra. Terwilliger confirmou. — É assim que ela mantém a juventude e a beleza: tirando-as de outras pessoas. Quando li isso, pensei... quase torci para que alguma outra usuária de magia fosse responsável por isso. Não que eu desejasse isso para qualquer pessoa. Mas seu feitiço de clarividência confirmou que ela está na área, o que significa que é minha responsabilidade lidar com ela.
Tomei coragem para olhar o artigo de novo e senti a náusea subir outra vez. A menina tinha dezenove anos. Como seria a sensação de ter a vida sugada de você tão jovem? Talvez o coma fosse uma bênção. E como alguém poderia ser tão cruel a ponto de fazer algo assim a outra pessoa?
Eu não sabia exatamente como a sra. Terwilliger ia “lidar” com a irmã e não sabia se queria descobrir. No entanto, se Veronica estava fazendo coisas desse tipo com garotas inocentes, então alguém — como a sra. Terwilliger — precisava detê-la. Um ataque mágico dessa magnitude era uma das coisas mais terríveis que eu conseguia imaginar. Fazia aflorar todos os meus medos enraizados sobre como a magia era errada. Como eu poderia justificar seu uso quando era capaz de produzir tamanho horror? Velhas lições alquimistas voltaram à minha mente: Parte do que torna os Moroi especialmente perigosos é sua capacidade de usar magia. Ninguém tem o direito de subverter o mundo desse jeito. É errado e pode facilmente fugir do controle.
Voltei para o presente.
— E onde eu entro nisso tudo? Já descobri onde ela está. Por que estou correndo risco?
— Sydney — a sra. Terwilliger começou, me lançando um olhar estranho. — Existem poucas jovens no mundo com suas habilidades. Além da beleza e da juventude, ela quer sugar a magia da vítima para ficar mais poderosa. Você, querida, seria a presa ideal.
— Ela é como os Strigoi — murmurei, sem conter um arrepio. Embora os vampiros mortos-vivos pudessem se alimentar de qualquer pessoa, preferiam os Moroi porque havia magia no sangue deles. Beber sangue Moroi tornava os Strigoi mais poderosos. Uma ideia terrível me atingiu de repente. — Ela é quase uma vampira humana.
— Algo assim — a sra. Terwilliger concordou. — Esse amuleto deve esconder o seu poder, mesmo de uma usuária tão poderosa. Ela não deve conseguir encontrá-la.
Uma gata felpuda pulou na mesa e passei a mão sobre seu pelo macio, me sentindo reconfortada pelo contato rápido.
— Você me deixa nervosa com todos esses “deve”. Por que ela procuraria vítimas em Palm Springs? Já sabe sobre mim?
— Não. Mas sabe que eu estou aqui e pode vir me inspecionar de vez em quando, por isso preciso esconder você, caso ela apareça. Mas estou numa situação difícil. Preciso encontrar Veronica, mas não posso empreender a busca ativamente. Se ela ficar sabendo que estou investigando, vai descobrir que estou ciente de seu plano. Não posso dar essa vantagem a ela. Se tiver a surpresa ao meu lado, terei mais chances de impedi-la. — Ela franziu a testa. — Pra falar a verdade, estou surpresa que ela tenha chegado tão perto de mim, na Califórnia. De qualquer modo, preciso ser discreta até a hora do ataque.
A sra. Terwilliger me lançou um olhar significativo e senti um frio na barriga quando comecei a entender aonde ela queria chegar com aquilo.
— Você quer que eu cace Veronica.
— Não exatamente caçar, mas recolher algumas informações. Você é a única pessoa em quem posso confiar para isso. Veronica e eu podemos sentir a presença uma da outra se chegarmos muito perto, por mais que tentemos ocultar nossa magia. E sei que isso vai soar surpreendente, mas a verdade é que acho melhor você ir atrás dela, mesmo que seja um alvo em potencial. Você é uma das poucas pessoas em quem confio plenamente, e é esperta o bastante para conseguir fazer uma coisa dessas.
— Mas eu estaria me colocando em risco. Você acabou de falar que eu seria uma presa ideal pra ela. — O vaivém daquela conversa estava me deixando confusa.
— Sim. Foi por isso que fiz esse amuleto. Ela não conseguirá sentir sua magia se você o usar. E, se tomar cuidado durante a investigação, Veronica não terá motivos para notar sua presença.
Eu ainda não estava entendendo a lógica dela.
— Mas por que eu? Você tem um clã. Se não pode ir atrás dela pessoalmente, deve haver alguma outra pessoa, uma bruxa mais poderosa, que possa caçar essa mulher.
— Dois motivos — ela disse. — O primeiro é que você tem excelentes habilidades investigativas, melhores do que pessoas mais velhas do que você. É inteligente e sabe se virar sozinha. O outro... bom, é que se alguma outra bruxa for atrás dela, pode muito bem matá-la.
— Seria uma coisa tão horrível assim? — Eu não gostava nem um pouco de morte e violência, mas nesse caso poderia ser justificável se pudesse salvar a vida de outras pessoas. — Você disse que ia “lidar com ela”.
— Se eu não tiver escolha... se precisar matar Veronica, matarei. — Ela pareceu triste e por um momento senti compaixão. Amava minhas duas irmãs. O que faria se, um dia, estivesse num conflito mortal com uma delas? Claro, era difícil imaginar Zoe ou Carly cometendo esse tipo de atrocidade. — No entanto, existem outros meios de neutralizar uma usuária de magia. Se houver um jeito, qualquer jeito, de fazer isso, é o que farei. Meu clã não pensaria da mesma forma e por isso preciso da sua ajuda.
— Não posso. — Afastei o banquinho e levantei, quase pisando num gato. — Deve haver outras maneiras de fazer isso. Você sabe que já estou cheia de questões sobrenaturais para resolver. — Na verdade, não conseguia admitir o verdadeiro motivo de querer evitar aquela missão. Era mais do que simplesmente arriscar a vida. Até então, todas as minhas interações mágicas tinham sido com a sra. Terwilliger. Se aceitasse essa missão, estaria mergulhando no mundo das bruxas, algo que havia jurado nunca fazer.
A sra. Terwilliger apontou para o artigo e sua voz estava calma quando falou:
— Você seria capaz de deixar isso acontecer com outras meninas sabendo que pode impedir Veronica? Nunca soube de uma vítima que acordou depois. Para o feitiço funcionar, ela precisa renová-lo de tempos em tempos e isso requer cinco vítimas em menos de um mês. Ela já fez isso uma vez antes e fui pega de surpresa. Dessa vez, sabemos que está acontecendo. Outras quatro pessoas podem sofrer esse destino. É isso que você quer?
Pronto. Ela tocou em outro ponto que vinha me incomodando, porque me conhecia bem demais. Eu não podia deixar pessoas inocentes sofrerem, mesmo que significasse me arriscar ou enfrentar medos que me assombravam. Se tinha como impedir aquilo, era minha obrigação. Ninguém merecia o destino da menina no jornal.
— Claro que não.
— E não vamos esquecer que você pode acabar sendo uma das vítimas.
Toquei na granada.
— Você disse que eu estava oculta.
— E está, por enquanto. E torço para que continue assim. — Nunca a tinha visto tão séria e era difícil ouvi-la falar daquele jeito. Estava acostumada com sua natureza tagarela, desastrada e sem frescuras. — Mas vou contar uma coisa que nunca disse antes sobre como as usuárias de magia sentem a presença umas das outras.
Eu havia aprendido ao longo dos anos que, quando alguém dizia “vou contar uma coisa que nunca disse antes”, nunca era algo bom. Me preparei para o pior.
— Usuárias de magia não treinadas manifestam uma aura diferente do que as mais experientes — ela explicou. — Existe algo um tanto, hum, selvagem na magia que cerca você, algo que é fácil para bruxas avançadas identificarem. Meu clã rastreia usuárias de magia novatas, mas esses são segredos muito bem guardados. Veronica não tem acesso a esses nomes, mas existem feitiços que ela pode usar que identificam essa magia indomada se estiver perto dela. Deve ter sido assim que encontrou essa pobre menina. — A sra. Terwilliger apontou para a matéria.
A ideia de ter uma aura mágica “selvagem” era tão terrível quanto descobrir que a magia deixava uma marca em meu sangue.
— Quando ela absorve uma vítima — a sra. Terwilliger continuou —, recebe uma rajada dessa força selvagem. Ela se dissipa logo, mas, enquanto Veronica está em posse desse poder, sua capacidade de encontrar outra vítima não treinada aumenta por um breve momento. Quanto mais vítimas ela toma, mais aumenta esse poder. Existe a chance — a sra. Terwilliger disse, muito séria — de que possa ser suficiente para romper a granada. Não sei. — Ela deu de ombros.
— Então está me dizendo que... a cada vítima que ela ataca, aumentam as chances de me encontrar?
— Sim.
— Certo. Vou ajudá-la a caçar essa mulher. — Deixei de lado todos os meus medos e dúvidas. Muita coisa estava em jogo. A minha vida, a de outras meninas... Veronica precisava ser detida, pelo bem de todas. Alguém como ela não poderia continuar à solta.
— Tem mais — acrescentou a sra. Terwilliger.
Sério?
— Mais do que caçar uma bruxa maligna que quer drenar minha vida e meu poder?
— Se pudermos impedir Veronica de encontrar outras vítimas menos poderosas, limitaremos a capacidade dela de encontrar você. — Ela pegou uma pequena bolsa de veludo e a esvaziou sobre a mesa, deixando cair vários círculos de ágata. — Estes amuletos têm certa capacidade de mascarar a magia. Não são tão poderosos quanto a granada; levaria tempo demais. Mas são de uma magia mais simples que pode salvar a vida de outras meninas.
Entendi aonde ela queria chegar.
— E você quer que eu os entregue a elas.
— Desculpe. Sei que estou lhe dando algumas tarefas difíceis...
Aquilo estava ficando cada vez pior.
— Difíceis? Difíceis é pouco. Além de você querer que eu encontre uma mulher capaz de sugar minha vida, também tem o detalhezinho de que os alquimistas ficariam furiosos se soubessem que estou envolvida nisso.
A sra. Terwilliger não respondeu de imediato. Ficou apenas me olhando. Um gato preto pulou ao lado dela e também me encarou. Aqueles olhos amarelos cravados em mim pareciam dizer: Faça a coisa certa.
— Por onde começo? — perguntei, finalmente. — Encontrar o bairro é parte do trabalho, certo?
— Sim. E vou dizer onde encontrar as potenciais vítimas, se você se dispuser a avisá-las. Meu clã tem o registro delas. São meninas muito parecidas com você: meninas com poder que se recusam a treinar e não têm nenhum mentor que as auxilie. Quando soubermos exatamente onde a própria Veronica está... — O olhar da sra. Terwilliger endureceu. — Aí eu assumo.
Mais uma vez me perguntei se realmente queria saber o significado disso. Um momento depois, ela acrescentou:
— Ah, e achei que seria uma boa ideia ocultar sua aparência também.
Fiquei mais contente. Não saberia explicar por que, mas aquilo fez eu me sentir muito melhor.
— Existem muitos feitiços para isso, certo? — Eu tinha visto vários durante meus estudos. Mesmo que tivesse que usar magia, seria melhor ter uma aparência diferente.
— Sim... — Ela tamborilou os dedos na mesa. — Mas o amuleto pode não conseguir ocultar um feitiço “ativo”, o que destruiria todo o disfarce. Na verdade, estava pensando que seu “irmão”, Adrian, poderia ajudar.
Minhas pernas fraquejaram e voltei a me sentar.
— Por que Adrian se envolveria nisso?
— Bom, ele parece disposto a fazer qualquer coisa por você. — Olhei nos olhos dela, procurando algum duplo sentido naquelas palavras. Mas seu olhar estava distante, concentrado em seus próprios pensamentos. Ela tinha dito cada palavra honestamente. — Veronica não seria capaz de detectar magia de vampiro. O poder dele... aquele elemento, o espírito, de que ele estava me falando... pode confundir a mente, certo? Afetar o que as pessoas veem?
— Sim...
Ela voltou a se concentrar em mim, assentindo, satisfeita.
— Se ele puder acompanhar você, ajudar a confundir a mente de quem você encontrar... bom, seria um nível extra de proteção.
Ainda não sabia tudo que teria de fazer para encontrar a irmã da sra. Terwilliger, mas, pelo jeito, no mínimo teria que ir a Los Angeles em breve. Eu, presa num carro com Adrian, enquanto ele continuava com aquele “amor à distância” irritante. Estava tão perturbada com essa ideia que levei um tempo para perceber a questão maior em que estava me deixando envolver.
— Você entende a gravidade do que está me pedindo? — eu disse baixinho, voltando a tocar a granada. — Para fazer parte disso, vou precisar me expor à magia humana e vampírica. Tudo o que sempre tentei evitar.
A sra. Terwilliger bufou e, pela primeira vez naquela noite, assumiu aquele seu ar irônico de costume.
— A menos que eu esteja enganada, você vem se expondo aos dois tipos de magia já faz um bom tempo. Então, não estará indo tanto assim contra os seus princípios. — Ela fez uma pausa enfática. — No máximo, vai contra os princípios alquimistas.
— Os princípios alquimistas são os meus princípios — retruquei rápido.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Ah, é? Eu esperava que seus princípios fossem os seus princípios.
Nunca tinha pensado nesses termos antes, mas, de repente, quis muito que as palavras dela fossem verdade.

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