3 de outubro de 2017

Capítulo 5

A NOTÍCIA DO ENCONTRO LOGO SE ESPALHOU.
Só conseguia imaginar que Trey havia contado para Kristin e Julia, que, por sua vez, contaram para Jill, Eddie e sabe lá Deus quem mais... Então eu não deveria ter ficado surpresa quando Adrian me ligou logo depois do jantar e começou a falar antes mesmo que eu pudesse dizer “alô”.
— Sério, Sage? Um encontro?
Soltei um suspiro.
— Sim, Adrian. Um encontro.
— Você vai a um encontro de verdade, e não tipo fazer um trabalho da escola em dupla? — ele continuou. — Digo, vai ver um filme ou alguma coisa assim com alguém? E um filme divertido, que não tem a ver com nenhuma lição de casa?
— Vou a um encontro de verdade. — Achei que era melhor não especificar que íamos ver uma peça de Shakespeare.
— Qual é o nome do sortudo?
— Brayden.
Houve uma pausa.
— Brayden? Esse é o nome dele de verdade?
— Por que você está perguntando se é tudo de verdade? Acha que eu inventaria tudo isso?
— Não, não — Adrian assegurou. — E é isso que torna tudo tão inacreditável. Ele é bonito?
Dei uma olhada no relógio. Já era hora de encontrar meu grupo de estudos.
— Caramba, acho que é melhor eu mandar logo uma foto pra você avaliar.
— Sim, por favor. E um dossiê completo com os antecedentes criminais e um histórico da vida dele.
— Preciso ir. Por que você está ligando tanto, afinal? — perguntei, irritada.
Ele demorou um tempo para responder, o que era raro. Adrian costumava ter uma dúzia de gracinhas na ponta da língua para tudo. Talvez não conseguisse decidir qual delas usar. Quando finalmente respondeu, foi do seu jeito sarcástico de sempre, embora sua descontração soasse um pouco forçada demais.
— Porque é uma daquelas coisas que eu nunca pensei que veria na vida — ele disse. — Como um cometa. Ou a paz mundial. Acho que só estou acostumado a ver você solteira.
Por algum motivo, aquilo me incomodou.
— Por quê? Você acha que nenhum cara se interessaria por mim?
— Na verdade — Adrian disse, com a voz estranhamente séria —, consigo imaginar vários caras interessados por você.
Eu tinha certeza de que ele estava tirando onda com a minha cara e não tinha tempo para suas piadas. Me despedi e segui para o grupo de estudos, que felizmente era muito dedicado, e conseguimos trabalhar bastante.
Mas quando encontrei Trey na biblioteca mais tarde, ele não estava nem um pouco concentrado. Não parava de falar sobre como tinha sido genial em me juntar com Brayden.
— Nós ainda nem saímos e já estou cansada dessa história — falei. Espalhei os papéis de Trey na mesa à nossa frente. Os números e fórmulas eram reconfortantes, muito mais concretos e ordenados do que os mistérios da interação social. Apontei para o relatório com a caneta. — Preste atenção. Não temos muito tempo.
— Você não pode simplesmente terminar para mim? — ele disse, dando de ombros.
— Não! Temos tempo suficiente pra você terminar. Eu ajudo, só isso.
Trey era capaz de entender quase tudo sozinho. Me pedir ajuda era só uma maneira de fingir que não era inteligente. Ele esqueceu o encontro e se concentrou no trabalho. Pensei que estava livre do interrogatório sobre Brayden até que, quando estávamos terminando o relatório, Jill e Micah passaram de mãos dadas.
Eles estavam em um grupo com várias pessoas, o que não era nenhuma surpresa. Micah era simpático e popular, o que rendera a Jill um grande círculo de amigos quando começaram a sair juntos. Os olhos dela brilhavam de felicidade enquanto alguém contava uma história engraçada e todos riam. Eu mesma não pude conter um sorriso. Era um grande avanço desde que Jill chegara a Amberwood, quando fora excluída por ter um visual excêntrico e um comportamento peculiar. Seu status social estava progredindo. Talvez isso a ajudasse a aceitar melhor sua origem nobre. Meu sorriso esmaeceu quando ela puxou Micah de lado e caminhou apressada até nossa mesa. Sua expressão ansiosa me deixou preocupada.
— É verdade? — ela perguntou. — Você vai sair com alguém?
— Pelo amor de... Você sabe que é verdade! E contou para Adrian, não foi? — perguntei, lançando um olhar fulminante.
O laço psíquico não ficava ativo o tempo todo, mas algo me dizia que ela sabia do telefonema dele mais cedo. Quando o laço estava “ligado”, ela conseguia enxergar o que se passava dentro da cabeça dele, observando seus sentimentos e ações. No entanto, o laço só funcionava por uma via. Adrian não tinha essas visões. Ela ficou encabulada.
— É. Não pude evitar quando Micah me contou...
— Foi Eddie que me disse — Micah acrescentou rápido, como se isso fosse livrá-lo da culpa. Ele era ruivo e tinha olhos azuis que pareciam sempre alegres e simpáticos. Era o tipo de pessoa de quem era impossível não gostar, o que tornava ainda mais difícil desfazer a complicada trama que Jill tecera ao começar a namorar com ele.
— Ei, eu não contei para o Eddie — Trey disse, na defensiva.
Virei para encará-lo.
— Mas contou para outras pessoas, que contaram para o Eddie.
Ele deu de ombros.
— Posso ter mencionado aqui e ali.
— Inacreditável.
— Como ele é? — Jill perguntou. — É bonitinho?
Pensei um pouco sobre a pergunta.
— Bem bonitinho.
— Promissor — ela disse, animada. — Aonde ele vai te levar? Algum lugar legal? Curtir a noite na cidade? Um jantar chique? Eu e Micah adoramos o Salton Sea. É bem bonito lá. Vocês podem ir e fazer um piquenique romântico. — Suas bochechas coraram e ela parou para retomar o fôlego, notando que estava falando sem parar. Divagar era um dos traços mais adoráveis dela.
— Vamos ver Shakespeare no parque — eu disse.
Caiu um silêncio absoluto.
Antônio e Cleópatra. É uma peça muito boa. — De repente senti que precisava me defender. — É um clássico. Brayden e eu gostamos muito de Shakespeare.
— O nome dele é “Brayden”? — Micah perguntou, incrédulo. — Que tipo de nome é esse?
Jill franziu a testa.
Antônio e Cleópatra... é uma peça romântica?
— Mais ou menos — respondi. — No começo, sim. Depois todo mundo morre.
A expressão horrorizada de Jill deixou claro que eu não estava melhorando muito as coisas.
— Bem — ela disse —, espero que vocês... se divirtam. — Alguns momentos constrangedores depois, seus olhos voltaram a se iluminar. — Ah! Lia me ligou hoje. Disse que vocês duas conversaram sobre eu voltar a modelar para ela!
— Quê? — exclamei. — Não foi nada disso que conversei com ela. Ela perguntou se você poderia fazer alguns anúncios impressos. E eu respondi que não.
— Ah. — A expressão de Jill esmoreceu um pouco. — Entendo. Pelo que ela disse... eu só pensei que... Bem, pensei que talvez houvesse um jeito...
Lancei a ela um olhar cheio de significados.
— Desculpe, Jill. Queria que houvesse um jeito. Mas você sabe que não dá.
Ela concordou, chateada.
— Eu entendo. Tudo bem.
— Você não precisa aparecer em anúncios para eu te achar bonita — Micah disse, galante.
Isso fez voltar o sorriso dela, que se desfez quando Jill olhou para um relógio por perto. Suas mudanças de humor me lembravam de Adrian, e eu me perguntava se em parte elas não seriam efeito do laço.
— Argh. O toque de recolher já está para tocar. É melhor irmos embora. Você vem, Sydney?
Olhei para o relatório de Trey, que estava pronto e, com certeza, absolutamente perfeito.
— Vou daqui a pouco.
Micah e ela saíram. Voltando o olhar para Trey, fiquei surpresa ao encontrá-lo fitando atentamente a silhueta dela, que se afastava. Dei uma cutucada nele.
— Ei. Não se esqueça de colocar o nome nisso aí, ou o trabalho não vai servir pra nada.
Ele levou alguns segundos para desviar os olhos de Jill.
— Aquela é sua irmã, né?
Seu tom abatido fazia aquilo soar mais como uma constatação do que uma pergunta, como se ele estivesse se dando conta de uma desgraça.
— Hum, sim. Você já viu Jill milhares de vezes. Ela frequenta a escola há um mês.
— Eu sei, só que nunca tinha pensado muito nisso... — ele disse, franzindo a testa. — Nunca tinha olhado direito para ela. Não fazemos nenhuma aula juntos.
— Ela foi o centro das atenções naquele evento de moda.
— Ela estava de máscara. — Seus olhos escuros me examinaram. — Vocês duas não são nem um pouco parecidas.
— Todo mundo diz isso.
Trey ainda parecia inquieto, e não entendi por quê.
— É bom mesmo que você a mantenha longe da vida de modelo — ele disse, por fim. — Ela é muito jovem pra isso.
— É uma questão de religião — eu disse, sabendo que Trey não me pediria muitos detalhes sobre nossa “fé”.
— Seja lá o que for, mantenha Jill fora das vistas. — Ele rabiscou o nome no relatório e fechou o livro. — Você não ia querer vê-la estampada em todas as revistas ou coisa assim. Tem muita gente louca por aí.
Dessa vez fui eu que fiquei olhando, pasma. Concordava com ele. Exposição demais significava que os Moroi dissidentes poderiam encontrá-la. Mas por que Trey pensaria o mesmo? O argumento de que ela era jovem demais era sensato, pensei, mas havia algo um tanto perturbador naquela conversa. A maneira como ele a observou indo embora era bastante inquietante. Mas, enfim, que outro motivo além de uma mera preocupação ele poderia ter?
A normalidade dos dias seguintes foi bem-vinda, considerando, claro, que normalidade era um conceito relativo por ali. Adrian continuava me mandando e-mails pedindo resgate (ao mesmo tempo que, sem que eu pedisse, me dava conselhos sobre o encontro). A sra. Terwilliger insistia em suas tentativas meio agressivas de me ensinar feitiçaria. Eddie mantinha sua dedicação ferrenha a Jill. E Angeline continuava a investir nele de um jeito nada discreto.
Depois de vê-la derrubar um copo de água “acidentalmente” na própria camiseta durante um treino, percebi que alguma coisa precisava ser feita, independente do que Eddie tinha dito sobre sua vida pessoal. Assim como acontecia com quase todas as tarefas embaraçosas e desagradáveis do grupo, tive a sensação de que era eu quem teria que cumprir esse papel. Imaginei que teria algum tipo de conversa rígida e franca sobre a maneira certa de chamar a atenção de alguém, mas, na noite do meu encontro com Brayden, logo ficou claro que eu era a última pessoa que deveria dar conselhos amorosos.
— Você vai usar isso? — Kristin perguntou, apontando um dedo acusatório para a roupa que eu havia separado com cuidado sobre a cama.
Ela e Julia haviam se encarregado de me inspecionar antes que eu saísse. Jill e Angeline tinham vindo também, sem serem convidadas, e notei que todas pareciam muito mais animadas com aquilo do que eu. Na maior parte do tempo eu era um misto de nervosismo e medo. Pensei que devia ser essa a sensação de ir para uma prova sem ter estudado antes. Era uma experiência nova para mim.
— Não é um uniforme de escola — eu disse. Tinha noção suficiente para saber que isso seria inaceitável. — E é colorido. Bem, mais ou menos.
Julia pegou a blusa que eu tinha escolhido, uma de algodão bem fresquinha, de manga curta e colarinho alto. O tom era amarelo-limão, e pensei que elas fossem gostar, já que todas me acusavam de não usar roupas coloridas. Eu até tinha separado uma calça jeans para usar junto. Ela fez que não com a cabeça.
— Esse é o tipo de blusa que diz: “Você nunca vai pôr as mãos aqui dentro”.
— E por que ele tentaria isso? — perguntei.
Kristin, sentada na minha cadeira com as pernas cruzadas, inclinou a cabeça, pensativa, estudando a camisa.
— Acho que a blusa diz mais: “Vou ter que voltar cedo para fazer uma apresentação no PowerPoint”.
Isso causou um ataque de riso em todas elas. Eu estava prestes a protestar quando vi Jill e Angeline revirando meu guarda-roupa.
— Ei! Vocês deviam pelo menos pedir licença!
— Todos os seus vestidos são pesados demais — Jill disse. — Ela tirou um de caxemira cinza-claro. — Tipo, esse pelo menos não tem manga, mas ainda assim é pesado demais para este clima.
— Metade do meu guarda-roupa é assim — eu disse. — É feito para as quatro estações. Não tive muito tempo para pegar todas as roupas de verão antes de vir para cá.
— Viu? — Angeline exclamou, triunfante. — Agora você entende o meu problema. Posso cortar alguns centímetros desse vestido se quiser.
— Não!
Para o meu alívio, Jill guardou o vestido. Alguns instantes depois, tirou outro achado do armário.
— E essa? — ela perguntou, segurando um cabide com uma longa regata branca feita de um tecido leve e ondulado, com decote em U.
Kristin se virou para Angeline.
— Você acha que consegue aumentar o decote?
— O tamanho do decote já é suficiente. E essa não é uma blusa para vestir sozinha — protestei. — É feita para usar embaixo de um blazer.
Julia se levantou da cadeira e jogou o cabelo para o lado — aquele era um assunto sério.
— Não, não... isso pode dar certo. — Ela pegou a blusa das mãos de Jill e a colocou sobre o jeans que eu havia separado. Analisou por alguns instantes e depois voltou para o meu guarda-roupa, que pelo visto estava aberto para todo mundo. Depois de uma busca rápida, tirou um cinto fino de couro marrom-claro, com estampa de cobra. — Bem que eu me lembrava de ver você usando isso. — Ela colocou o cinto sobre a blusa branca e deu um passo para trás. Depois de mais um exame minucioso, assentiu em aprovação. As outras se aproximaram para olhar.
— Boa ideia — Kristin disse.
— Ei, quem encontrou a blusa fui eu — Jill lembrou.
— Eu não posso usar a blusa sem nada por cima — reiterei.
Tinha esperanças de que meus protestos ocultassem minha ansiedade. Será que eu estava tão errada sobre a camisa amarela? Tinha certeza de que ela era adequada para um encontro. Como eu poderia sobreviver àquela noite se nem sabia como me vestir?
— Se quiser usar um blazer em cima dela com essa temperatura, fique à vontade — Julia zombou. — Mas não acho que você deva se preocupar em mostrar demais. Não chamaria a atenção nem da sra. Weathers.
— A blusa amarela também não — ressaltei.
Elas decretaram que minha roupa estava decidida e passaram aos conselhos de cabelo e maquiagem. Nessa parte, estabeleci limites. Usava maquiagem todo dia — maquiagem muito boa e cara, aplicada para tirar o melhor proveito dos meus traços, dando a impressão de que eu não tinha passado nada. Eu não mudaria esse visual natural, por mais que Julia insistisse que uma sombra rosa me deixaria mais “sexy”.
Nenhuma delas brigou muito sobre meu cabelo. Ele estava pouco abaixo do ombro, cortado em camadas. Havia só uma maneira de arrumá-lo: deixá-lo solto, ajeitando as camadas cuidadosamente com o secador. De qualquer outro jeito pareceria bagunçado e, claro, eu já o havia deixado na forma perfeita. Não tinha por que mexer no que já estava bom. Além disso, acho que elas já estavam muito animadas por eu ter topado vestir a regata branca — depois de tê-la experimentado e conferido que não ficava transparente.
A única joia que concordei em usar foi minha cruz dourada. Prendi-a em torno do pescoço e fiz uma oração em silêncio, pedindo para sobreviver àquilo. Apesar de os alquimistas usarem crucifixos com frequência, não seguíamos nenhuma fé ou prática cristã tradicional. Tínhamos nossas próprias cerimônias religiosas e acreditávamos em Deus, e que Ele era a grande força de luz e bondade que inspirava todo o universo. Com toda essa responsabilidade, era provável que Ele não se importasse muito com uma menina que ia sair com um garoto, mas talvez pudesse gastar um segundinho garantindo que aquilo não fosse tão difícil assim.
Chegada a hora de Brayden me buscar, elas desceram as escadas comigo. (Na verdade era um pouco antes da hora marcada, porque eu odiava a ideia de chegar atrasada.) Todas inventaram motivos para conhecê-lo — desde Jill, que afirmou ser “um lance de família”, até Kristin, que alegou conseguir “identificar um babaca em cinco segundos”. Eu não tinha tanta certeza disso, já que certa vez ela disse que Keith parecia uma boa pessoa.
Todas estavam dispostas a dar conselhos, mesmo que eu não tivesse pedido.
— Vocês podem dividir a conta do jantar ou os ingressos para a peça — Julia disse. — Os dois não. Ele precisa pagar a conta inteira de um deles.
— Mas é melhor se ele pagar tudo — Kristin disse.
— E peça alguma coisa mesmo se não estiver com fome — Jill acrescentou. — Se ele for pagar o jantar todo, você não vai querer que ele pague barato. Ele precisa se esforçar para conquistar você.
— De onde vocês tiram tudo isso? — perguntei. — Qual é o problema se eu... Ah, não.
Chegando ao saguão, encontramos Eddie e Micah sentados num banco. Pelo menos eles tiveram a decência de parecer envergonhados.
— Vocês também?! — exclamei.
— Só estou aqui para ver Jill — Micah disse, num tom nada convincente.
— E eu estava aqui para, hum... — Eddie hesitou, ao que eu levantei a mão para detê-lo.
— Não precisa nem tentar explicar. Sério, estou surpresa por Trey não estar aqui também, com uma câmera ou algo assim. Imaginei que ele iria querer imortalizar todos os momentos desse desastre de... ah. Ei, aqui!
Abri um sorriso quando Brayden entrou no saguão. Aparentemente, eu não era a única que gostava de chegar cedo.
Brayden pareceu um pouco surpreso com meu séquito de acompanhantes. Eu não podia culpá-lo — afinal, estava surpresa também.
— É um prazer conhecer todos vocês — Brayden disse, simpático, e um pouco desconcertado.
Embora ficasse incomodado com os avanços de Angeline, Eddie conseguia ser perfeitamente extrovertido em situações sociais menos bizarras. Ele representou o papel de irmão e cumprimentou Brayden.
— Fiquei sabendo que vocês vão a uma peça hoje.
— Sim — Brayden disse. — Embora eu prefira o termo drama. Na verdade, eu já vi essa adaptação, mas queria assistir de novo com o olhar voltado para formas alternativas de análise dramática. O método Freytag tradicional pode se tornar um clichê depois de um tempo.
Todos ficaram sem palavras. Ou talvez só estivessem tentando entender o que ele tinha acabado de dizer.
Eddie voltou o olhar para mim e depois para Brayden.
— Bom, algo me diz que vocês vão se divertir bastante juntos.
Depois que conseguimos nos livrar dos meus entes queridos, Brayden comentou:
— Você tem amigos e parentes muito... dedicados.
— Ah — respondi. — Pois é. Por coincidência eles também iam sair juntos naquela hora. Para estudar.
Brayden olhou o relógio.
— Ainda dá tempo, acho. Sempre que posso, faço os trabalhos logo depois da aula, porque...
— Se deixar para depois, nunca se sabe quando algum imprevisto pode acontecer?
— Exato — ele disse.
Sorriu para mim, e retribuí o sorriso.
Acompanhei Brayden até o estacionamento de visitantes, onde havia um reluzente Ford Mustang prateado. Quase desmaiei. De imediato, estendi a mão e a passei pela superfície suave do carro.
— Que lindo — falei. — Modelo novo, do ano que vem. Esses mais modernos nunca vão ter a mesma personalidade dos clássicos, mas sem dúvida compensam em segurança e economia de combustível.
Brayden parecia positivamente surpreso.
— Você entende de carros.
— É um hobby — admiti. — Minha mãe é muito fã de carros. — Quando conheci Rose Hathaway, tive a experiência incrível de dirigir um Citroën de 1972. Em Palm Springs, eu tinha uma perua Subaru que apelidei de Pingado, em referência à sua cor café com leite. Gostava muito dela, mas não era exatamente glamorosa. — São verdadeiras obras de arte e engenharia.
Percebi que Brayden tinha me acompanhado para o lado do passageiro. Por meio segundo, cogitei se ele estava esperando que eu dirigisse. Talvez por eu gostar tanto de carros? Mas então ele abriu a porta, e me dei conta de que estava esperando que eu entrasse. Entrei, tentando me lembrar da última vez em que um garoto tinha aberto a porta do carro para mim. Conclusão: nunca.
O jantar não foi num fast-food, mas também não foi nada muito chique. Fiquei curiosa para saber qual seria a opinião de Julia e Kristin sobre isso. Comemos num restaurante típico da Califórnia que servia todo tipo de saladas e sanduíches orgânicos. Todos os itens do cardápio pareciam ter abacate.
— Eu levaria você a um lugar mais legal — ele disse. — Mas não queria correr o risco de chegar atrasado à peça. O parque é a alguns quarteirões daqui, então dá tempo de pegar um bom lugar. Eu... espero que esteja tudo bem. — De repente ele pareceu apreensivo. Era um grande contraste em relação à confiança que havia demonstrado ao falar de Shakespeare. Eu precisava admitir que aquilo era um tanto reconfortante, e me vi relaxar um pouco. — Senão, posso encontrar um lugar melhor...
— Não, aqui está ótimo — eu disse, passando os olhos pelo restaurante fortemente iluminado. Era um daqueles lugares em que o pedido é feito no balcão e depois levamos o número para a mesa. — Prefiro chegar cedo também. — Ele tinha pagado pela refeição. Tentei seguir as regras daquele tipo de encontro, que minhas amigas haviam despejado em cima de mim. — Quanto te devo pelo ingresso? — perguntei, hesitante.
Brayden pareceu surpreso.
— Nada. É por minha conta — respondeu com um sorriso, também hesitante.
— Obrigada — agradeci.
Então, era ele quem estava pagando. Isso deixaria Kristin contente, apesar de me incomodar um pouco. Com os alquimistas, era sempre eu quem cuidava das contas e da burocracia. Não estava acostumada a ter outra pessoa fazendo isso por mim. Acho que não conseguia me livrar da sensação de que precisava cuidar de tudo porque ninguém mais conseguiria fazer as coisas direito.
Os estudos nunca foram um problema para mim. Mas em Amberwood, aprender a lidar com pessoas da minha própria idade de uma maneira normal vinha se mostrando uma tarefa muito mais árdua. Eu estava progredindo, mas ainda me custava um grande esforço descobrir a coisa certa a dizer para meus colegas. Com Brayden, isso não era um problema. Tínhamos um estoque infinito de assuntos, ambos ansiosos para dizer tudo o que sabíamos sobre toda e qualquer coisa. Passamos a maior parte do jantar discutindo as complicações do processo de certificação de produtos orgânicos. Foi bem legal.
O problema veio quando estávamos terminando de comer e Brayden perguntou se eu queria sobremesa. Fiquei paralisada, de repente no meio de um dilema. Jill tinha me dito para pedir o suficiente para que o encontro não saísse barato. Sem nem pensar nisso, eu pedira uma salada nem um pouco cara, simplesmente porque parecia boa. Será que eu devia pedir mais alguma coisa só para que Brayden tivesse que “se esforçar” para ficar comigo? Será que valia a pena quebrar todas as minhas regras sobre açúcar e sobremesa? E, sinceramente, o que a Jill sabia sobre regras de etiqueta em encontros românticos, afinal? O último namorado dela fora um homicida e o atual não fazia a menor ideia que ela era vampira.
— Não, obrigada — respondi, finalmente. — Prefiro garantir que vamos chegar ao parque a tempo.
Ele concordou, levantando-se, e me abriu outro sorriso.
— Estava pensando a mesma coisa. A maior parte das pessoas não considera a pontualidade importante.
— Importante? É essencial — respondi. — Sempre estou pelo menos dez minutos adiantada.
O sorriso de Brayden se alargou.
— Eu tento me adiantar quinze. Pra falar a verdade... não queria sobremesa mesmo. — Ele abriu a porta para eu sair. — Costumo evitar muito açúcar.
Perplexa, quase parei em choque.
— Concordo plenamente, mas meus amigos sempre me enchem por causa disso.
Brayden concordou com a cabeça.
— Pois é. Motivos não faltam, mas as pessoas não entendem.
Eu caminhava pelo parque, atordoada. Ninguém jamais havia me entendido tão rápido e com tanta facilidade. Ele parecia estar lendo minha mente.
Palm Springs ficava numa área de deserto, com longas paisagens de areia e encostas de montanhas rochosas. Mas também era uma região que a humanidade vinha moldando fazia tempo, de modo que muitos lugares, como Amberwood, foram transformados em áreas verdes viçosas que desafiavam o clima natural. Aquele parque não era diferente. Consistia numa grande extensão de grama verde, rodeada por árvores frondosas, em vez das palmeiras tradicionais. Um palco havia sido montado numa das extremidades, e as pessoas já estavam à caça dos melhores lugares. Escolhemos um à sombra, com uma excelente vista para o palco. Brayden tirou um cobertor da mochila para nos sentarmos, e também um exemplar gasto de Antônio e Cleópatra, marcado com anotações e adesivos.
— Você trouxe o seu? — ele perguntou.
— Não — respondi, um tanto impressionada. — Não trouxe muitos livros de casa quando me mudei pra cá.
Ele hesitou, parecendo inseguro com o que estava pensando.
— Quer acompanhar a peça comigo?
Sinceramente, eu tinha pensado que iria apenas assistir à peça, mas a estudiosa dentro de mim certamente enxergava vantagens em acompanhar com o texto original. Além disso, estava curiosa para ver que tipo de anotações ele havia feito. Assim que aceitei, percebi por que ele parecia nervoso. Ler com ele significava que teríamos de nos sentar muito, mas muito próximos um do outro.
— Eu não mordo — ele disse, com um sorriso, quando não me aproximei imediatamente.
Aquilo aliviou a tensão e procuramos posições que nos permitissem ler o livro juntos quase sem nos tocar. Não havia como impedir que nossos joelhos roçassem um no outro, mas como nós dois estávamos de calça jeans, aquilo não me fazia sentir que minha castidade estivesse em risco. Além do mais, não pude evitar perceber que ele cheirava a café, meu vício favorito. Não era nada mau. Nada mau mesmo.
Ainda assim, eu estava completamente ciente daquela proximidade. Não achei que estivesse sentindo nenhum clima romântico. Meu pulso não acelerou; meu coração não ficou palpitante. O que mais senti foi que nunca havia sentado tão perto de alguém — acho que em toda a minha vida. Não estava acostumada a dividir meu espaço pessoal.
Quando começou a peça, logo parei de pensar nisso. Brayden podia não gostar de encenações de Shakespeare com figurinos modernos, mas achei que tinham feito um trabalho admirável. Acompanhando o texto, encontramos alguns pontos em que os atores se atrapalharam com as falas. Trocamos olhares secretos triunfantes, contentes por sabermos algo que os outros nem imaginavam. Acompanhei também as anotações dele, concordando com algumas e balançando a cabeça para outras. Mal podia esperar para discuti-las no caminho de volta para casa.
A plateia atenta inclinava-se para a frente durante a cena dramática da morte de Cleópatra, todos concentrados nas últimas falas. Ao meu lado, ouvi um barulho de papel sendo amassado. Ignorei e me debrucei ainda mais. Ouvi o som de novo, dessa vez muito mais alto. Me virei para olhar e vi por perto um grupo de rapazes que pareciam universitários. A maioria assistia à apresentação, mas um deles segurava alguma coisa dentro de um saco de papel. O saco era muito maior do que o objeto dentro dele e tinha sido enrolado várias vezes. Ele lançou um olhar em volta, nervoso, tentando ser discreto ao desenrolar o papel lentamente. Era óbvio que, assim, estava fazendo muito mais barulho do que se simplesmente tivesse desenrolado o saco de uma só vez.
Isso levou mais um minuto e, a essa altura, outras pessoas já estavam olhando feio para ele. Por fim, ele conseguiu abrir o saco e, então, ainda em câmera lenta, colocou a mão dentro. Ouvi o estalar de uma tampa e a expressão do garoto se iluminou, triunfante. Ainda com o objeto escondido, levou o saco até a boca e bebeu do que era, obviamente, uma garrafa de cerveja ou de alguma outra bebida alcoólica, o que já era evidente desde o começo por causa do formato do saco de papel.
Coloquei a mão na boca, tentando abafar o riso. Ele me lembrava muito Adrian. Era muito fácil imaginar Adrian levando uma bebida alcoólica escondida para um evento como aquele e passando por toda sorte de sofrimento para ser discreto, na certeza de que, se fizesse tudo muito devagar, ninguém notaria. Também era muito provável que Adrian tivesse o azar de abrir a garrafa bem no meio da cena mais tensa da peça. Conseguia até imaginar a expressão igualmente satisfeita em seu rosto, como se dissesse: “Ninguém sabe o que eu estou fazendo!”, quando, na verdade, todo mundo sabia. Eu não entendia por quê, mas imaginar aquilo me fazia rir.
Brayden estava concentrado demais na peça para perceber.
— Ah — ele sussurrou. — Essa é uma parte muito boa, quando as servas dela se matam.
Nós tivemos muito o que debater e analisar no caminho de volta para Amberwood. Fiquei quase decepcionada quando o carro estacionou à porta do alojamento. Sentados ali, percebi que tínhamos atingido outro momento crucial do encontro. Qual seria o procedimento adequado? Ele devia me beijar? Eu devia deixar? Aquele seria o verdadeiro preço da salada?
Brayden também parecia nervoso, e me preparei para o pior. Quando olhei para as minhas mãos repousadas no colo, percebi que estavam tremendo. Você pode fazer isso, disse a mim mesma. É um rito de passagem. Comecei a fechar os olhos, mas quando Brayden falou, eu os abri rapidamente.
Como ficou evidente, Brayden não estava juntando coragem para me beijar, mas para fazer uma pergunta.
— Você... gostaria de sair de novo? — ele perguntou, com um sorriso tímido.
Fiquei surpresa com o misto de emoções que essa pergunta provocou em mim. Alívio foi a principal, claro. Agora teria tempo para pesquisar alguns livros sobre como beijar. Mas também estava um pouco desapontada por toda a presunção e confiança que ele demonstrara na análise dramática não ter continuidade naquele momento. Parte de mim pensava que ele deveria ter dito algo como: “Bem, depois dessa noite perfeita, acho que não temos outra escolha senão sair de novo”. Na mesma hora, me senti idiota por pensar isso. Eu não tinha o direito de esperar que ele ficasse mais à vontade com aquela situação se eu mesma estava ali sentada com as mãos tremendo.
— Claro — disparei.
Ele soltou um suspiro de alívio.
— Legal — ele disse. — A gente se fala por e-mail.
— Ótimo — respondi, sorrindo.
Outro silêncio constrangedor pairou no ar, e me perguntei se o beijo iria acontecer, afinal.
— Você quer... que eu te leve até a porta? — ele perguntou.
— Quê? Ah, não. Obrigada. É logo ali. Não tem problema. Obrigada. — Percebi que estava quase falando sem parar como Jill.
— Tudo bem, então — Brayden disse. — Foi uma noite muito boa. Mal posso esperar pela próxima.
— Eu também.
Ele estendeu a mão. Eu apertei. Então saí do carro e entrei no prédio.
Eu apertei a mão dele? Revi o momento na minha cabeça, sentindo-me cada vez mais idiota. Qual é o meu problema?
Atravessando o saguão, meio atarantada, peguei o celular para ver se havia alguma mensagem. Eu tinha deixado desligado durante a noite, imaginando que aquele era o momento em que eu mais merecia paz. Para o meu espanto, ninguém tinha precisado de nada na minha ausência, apesar de haver uma mensagem de texto de Jill, enviada quinze minutos antes: Como foi com Brandon? Como ele é?
Destranquei a porta do quarto e entrei. O nome dele é Brayden, respondi. Fiquei pensando sobre a segunda pergunta e levei um bom tempo para decidir a resposta.
Ele é igual a mim.

Um comentário:

  1. Tô achando muito suspeito esse Brayden. Ninguém pode ser tão mané assim...

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Boa leitura :)