23 de outubro de 2017

Capítulo 4

Adrian

EU TINHA TANTAS PERGUNTAS PARA MINHA MÃE que nem sabia por onde começar. Provavelmente a mais importante era o que ela estava fazendo ali, já que, até onde eu sabia, ela devia cumprir pena numa prisão Moroi por perjúrio e interferência numa investigação de homicídio.
— Vamos ter tempo de sobra para conversar depois — ela insistiu. — Agora temos um voo pra pegar. Humano, encontre uma mala pra nós.
— O nome dele é Trey — eu disse. — E ele é meu colega de quarto, não meu criado. — Cambaleei até o armário e peguei uma mala que tinha comprado quando me mudara para Palm Springs. Minha mãe começou a guardar meus pertences como se eu tivesse oito anos.
— Você está indo embora? — Trey perguntou, parecendo tão estupefato quanto eu.
— Pelo visto, sim. — Pensei um pouco e, de repente, pareceu uma ótima ideia. Por que eu estava ali, me torturando no meio de um deserto? Sydney tinha partido. Jill estava aprendendo rápido a bloquear o laço, graças ao meu comportamento radical dos últimos tempos. Além disso, ela também iria embora em um mês. — Estou — disse, com mais confiança. — Definitivamente estou indo. Está tudo pago até o fim do semestre. Pode ficar aqui.
Eu precisava me afastar daquele lugar cheio de lembranças de Sydney. Ela estava em tudo que eu via, não só naquele apartamento mas também em Amberwood e em Palm Springs em geral. Todo lugar me trazia alguma memória dela e, embora eu não tivesse desistido de encontrá-la, poderia continuar a busca em algum lugar que não me causasse tanta dor. Talvez esse fosse o recomeço de que eu precisava.
Além disso... minha mãe tinha voltado! Eu havia sentido tanta saudade dela quanto de Sydney, embora de um jeito diferente. Minha mãe não queria que eu falasse com ela em sonhos e meu pai se recusava a entregar minhas cartas. Eu não sabia o que Daniella Ivashkov tinha passado na prisão, mas, ao vê-la agora, não parecia ter sofrido muito. Estava elegante como sempre, bem-vestida e maquiada, movendo-se pelo quarto com aquela autoridade decidida e confiança que a definiam e tinham sido responsáveis pela sua prisão.
— Fique com isso — ela disse, me entregando algo da cômoda. — Guarde com você. É melhor não deixar junto com a bagagem.
Abaixei os olhos e encontrei um par de abotoaduras cintilantes com diamantes e rubis encravados em platina. Era um presente da tia Tatiana. Ela me dera “para ocasiões especiais”, como se eu tivesse motivos para usar milhares de dólares nas mangas. Talvez se tivesse ficado na Corte... Em Palm Springs, foram mais uma tentação, e quase as tinha penhorado numa tentativa desesperada de conseguir dinheiro. Agora, apertei-as com força por alguns momentos, deixando que as pontas afiadas furassem a palma da minha mão, e depois as enfiei no bolso.
Minha mãe terminou de fazer a mala em menos de dez minutos. Quando comentei que ela só tinha arrumado parte dos meus pertences, ela deu de ombros.
— Não temos tempo. A gente compra coisas novas pra você na Corte.
Então estávamos indo para a Corte. Não era uma grande surpresa. Minha família tinha algumas casas ao redor do mundo, mas a Corte Moroi nas montanhas Pocono da Pensilvânia era sua principal residência. Para ser sincero, não importava para onde estávamos indo desde que fosse longe daquele lugar.
Na sala, encontrei um guardião atento à nossa espera. Minha mãe o apresentou como Dale e disse que ele seria nosso motorista. Dei um adeus constrangido a Trey, que ainda estava estupefato com a reviravolta. Ele perguntou se eu queria mandar uma mensagem para Jill e para os outros, o que me fez hesitar. No fim, balancei a cabeça.
— Não precisa.
Jill entenderia meus motivos para ir embora, entenderia que precisava me afastar das lembranças e dos meus fracassos. Qualquer coisa que eu dissesse em palavras não seria nada perto do que ela saberia pelo laço, e ela poderia contar a verdade para os outros ou inventar uma história por mim. Eddie pensaria que eu estava fugindo, mas ficar naquele lugar por três meses só tinha me deixado mais infeliz, não me aproximando de Sydney. Uma mudança de ares poderia ser exatamente do que eu precisava.
Minha mãe tinha comprado passagens de primeira classe para a Pensilvânia, com Dale sentado do outro lado do corredor. Depois de tanto economizar no meu tempo de estudante, estranhei um pouco esse tipo de luxo, mas, quanto mais tempo passava com a minha mãe, mais natural aquilo parecia. Uma aeromoça veio nos oferecer bebidas, mas a dor latejante na minha cabeça me obrigou a recusar e aceitar só uma água. Além disso, queria estar com a cabeça no lugar para ouvir o que minha mãe tinha a dizer.
— Faz uma semana que estou em casa — ela disse, como se tivesse voltado de férias. — Andei ocupada reorganizando as coisas por lá, mas não parei de pensar em você.
— Como soube onde me encontrar? — perguntei. Minha localização, ligada a Jill, era um segredo muito bem guardado. Ninguém a botaria em risco revelando onde eu estava.
Ela arqueou a sobrancelha.
— Recebi uma mensagem misteriosa. Anônima. Dizia que você estava “passando por um período difícil” e precisava de mim. Tinha seu endereço e instruções rígidas para não divulgá-lo, porque você estava conduzindo uma operação importante para a rainha. Fiquei sabendo uma coisa ou outra sobre o trabalho que você anda fazendo pra nos proteger dos Strigoi. É muito impressionante.
Passando por um período difícil. Foram as palavras que Jill tinha usado para me defender na noite anterior por ter esquecido o desfile dela. Contive um grunhido. Ninguém arriscaria a segurança de Jill para contar à minha mãe onde eu estava, exceto a própria Jill.
— Alguém sabe que você está aqui? — perguntei.
— Claro que não — ela disse, ofendida. — Eu nunca revelaria segredos tão importantes para o futuro dos Moroi. Se há alguma forma de erradicar os Strigoi, vou fazer minha parte e ajudar você a fazer a sua... embora deva admitir, querido, que você realmente parece um pouquinho mal.
Se minha mãe achava que só estávamos em Palm Springs para fazer pesquisas sobre os Strigoi, eu não iria discordar. Com sorte, ela não teria motivos para pensar mais nisso agora que tinha me buscado.
— “Um pouquinho mal” é um eufemismo — eu disse.
Ela pôs a mão sobre a minha.
— Qual é o problema? Você estava tão bem. Soube que voltou a estudar. E estava fazendo esse trabalho pra rainha.
Levei um susto ao me lembrar das duas matérias que ainda não tinha fechado. Será que tinha provas finais delas também? Ou projetos para entregar? Droga. Eu tinha ficado tão atordoado pela chegada da minha mãe e pela chance de escapar que esquecera completamente a faculdade. Talvez tivesse arruinado minha última chance de sucesso universitário. Mas o orgulho na voz dela me comoveu e não consegui contar a verdade.
— Sim, andei ocupado — respondi, sem entrar em detalhes.
— Então qual é o problema? — ela repetiu.
Olhei nos olhos dela, que estavam cheios de uma compaixão rara. Antes da prisão, quase todo mundo via Daniella Ivashkov como uma aristocrata metida, fria e antipática. Eu também, mas, em raros momentos luminosos, também a via como minha mãe. E de repente me peguei contando a verdade... ou pelo menos parte dela.
— Tinha... bem, tinha uma menina.
Ela suspirou.
— Ah, Adrian. É só isso?
— Não é só isso! — exclamei, bravo. — Ela era menina. A menina que transformou tudo. Que me transformou.
— Certo, certo — ela disse, tentando me acalmar. — Desculpe. O que aconteceu com ela?
Tentei encontrar algum jeito de contar a verdade.
— A família dela não me aprovou.
Agora minha mãe ficou brava, supondo, claro, que a menina era Moroi.
— Isso é ridículo! Você vem de uma das melhores linhagens Moroi, tanto pelo lado Tarus como pelo lado Ivashkov. Nem a rainha tem uma linhagem melhor. Se a família dessa menina vê algum problema em você, eles são loucos.
Quase abri um sorriso.
— Bom, nisso a gente concorda.
— Então qual é o problema? Se ela é adulta... Ai, Adrian, por favor, diga que ela não é menor de idade.
— Ela é adulta.
O rosto da minha mãe se encheu de alívio.
— Então ela pode tomar suas próprias decisões e ficar com você independente do que a família pensa. E, se ela concordar com eles, não merece seu tempo e você está melhor sem ela.
Eu queria dizer que não era tão simples, mas ela não havia reagido muito bem ao meu envolvimento com Rose. Uma dampira era imperdoável. Uma humana era inconcebível.
— Acho que, além da minha linhagem, tem a ver comigo particularmente — eu disse apenas.
Minha mãe soltou um “tsc” de desaprovação.
— Bom, vamos ver se ela volta a si. Quem não iria querer meu filho? Mas você não devia se deixar atingir tanto por essas coisas. Qual é o seu problema com as meninas, querido? Por que tem que ser tudo ou nada? Você leva sempre ao extremo.
— Porque não faço as coisas pela metade, mãe. Ainda mais quando se trata de amor.
Quando aterrissamos e pude ligar o celular, encontrei uma mensagem de Jill esperando por mim: Sim, fui eu. Sei que veio pra Palm Springs por minha causa, mas achei que era hora de uma mudança de ares. Quando Lissa me contou que sua mãe tinha voltado, pensei que seria bom pra você ficar com ela, então juntei os dois. Espero que não tenha problema.
Você é a melhor, Belezinha, respondi.
A resposta dela me fez sorrir: Você não sabe nem da metade. Suas outras matérias requeriam projetos finais, não provas. Eu e Trey reviramos seu apartamento e encontramos alguns projetos inacabados pra entregar. Não sei se vai dar pra passar, mas alguns pontos são melhores que nada.
Era de esperar. Jill acompanhava melhor do que eu as coisas que eu precisava entregar para a faculdade. Havia diversos projetos que eu tinha começado e largado no meio, então não sabia o que ela havia entregado, mas, considerando meu estado recente, deviam ser melhor do que qualquer coisa que eu tivesse feito de propósito para os trabalhos finais. Agora estava nas mãos do destino.
No entanto, enquanto Dale nos levava para a Corte de carro, uma coisa não saía da minha cabeça. Minha mãe tinha dito que voltara uma semana antes. Jill dera meu endereço a ela, o que estimulara uma visita em pessoa, mas isso teria sido mesmo necessário? Ainda que a localização de Jill fosse segredo, se minha mãe tivesse pedido, Lissa teria tomado providências para que ela conseguisse me telefonar de forma segura. Por que ela não tinha pedido? Era quase como se estivesse adiando falar comigo e só tivesse agido quando Jill chamou atenção aos meus problemas. Mas, mesmo se eu estivesse bem, minha mãe iria querer entrar em contato comigo... certo?
Ou talvez eu estivesse sendo paranoico. Não podia duvidar do amor da minha mãe. Apesar dos seus defeitos, ela se importava comigo, e ver que estava viva e bem me lembrou de como ficara aflito durante seu confinamento. Porém, todas as vezes que tentei falar da prisão, ela fugiu do assunto.
— Acabou — ela disse simplesmente enquanto passávamos pelos portões de segurança da Corte. — Cumpri minha sentença, e ponto. A única coisa que você precisa saber é que isso me fez reavaliar minhas prioridades e o que realmente importa na vida. — Ela tocou meu rosto de leve. — E você está no topo dessas prioridades, querido.
A Corte Moroi parecia uma universidade, com vários prédios góticos antigos dispostos num terreno amplo. Na verdade, para o mundo humano, era uma instituição acadêmica, uma universidade particular de elite em que ninguém costumava interferir. Funcionários do governo e alguns membros da realeza Moroi tinham residência permanente ali, e também havia acomodações para hóspedes e todo tipo de serviços para tornar a vida suportável. Era, em certo sentido, uma cidade fechada.
Imaginei que minha mãe fosse nos levar para casa, mas, em vez disso, estacionamos em frente a um dos prédios para hóspedes.
— Depois de morar sozinho, imaginei que não iria querer ficar comigo e seu pai — ela explicou. — Depois a gente pensa em algo mais permanente, mas, por enquanto, a rainha arranjou um quarto pra você.
Fiquei surpreso, mas ela estava certa em relação a uma coisa: eu realmente não queria meu pai monitorando aonde eu ia ou deixava de ir. Nem ela, na verdade. Não que estivesse planejando grandes noitadas. Estava ali para recomeçar, decidido a usar todos os recursos disponíveis para ajudar Sydney. Porém, depois de se esforçar tanto para me encontrar, eu pensava que minha mãe fosse me querer trancado dentro de casa.
O recepcionista do prédio me deu as chaves do quarto e minha mãe se despediu com um abraço.
— Tenho um compromisso, mas amanhã a gente se vê, pode ser? Vamos receber convidados para o jantar. Tenho certeza de que seu pai adoraria te ver. Passe lá e a gente conversa. Você vai ficar bem agora, não vai?
— Claro — eu disse. Tínhamos perdido boa parte do dia por causa da viagem e do fuso-horário.
— Não tem muito o que fazer a essa hora. Acho que vou pra cama cedo.
Ela me deu outro abraço e subi para o quarto, que era uma suíte digna de um hotel cinco estrelas. Depois de pôr a mala num canto, fiz algumas ligações e comecei a pôr meus planos em ação. Feito isso, tomei um banho rápido (o primeiro do dia) e saí logo em seguida. Mas não para me divertir.
Mas, claro, algumas pessoas considerariam um encontro com Rose Hathaway e Lissa Dragomir bem divertido.
As duas viviam no lugar que por ali era chamado de palácio real, embora, do lado de fora, mantivesse a mesma fachada universitária dos outros prédios. Ao entrar, todo o peso da história Moroi caía sobre o visitante com a grandeza do Velho Mundo: candelabros de cristal, cortinas de veludo, retratos a óleo de monarcas antigos. Os aposentos da rainha, porém, eram bem modernos, pois foram decorados mais de acordo com o gosto pessoal dela do que com seu cargo. Eu ficava feliz por Lissa ter escolhido aposentos diferentes daqueles em que minha tia havia morado — e morrido. Já era surreal o bastante estar naquele lugar sem essa lembrança para me assombrar.
As duas estavam na sala de estar de Lissa quando cheguei. Lissa estava sentada de pernas cruzadas num sofá, cercada de livros, enquanto Rose se acomodara de cabeça para baixo numa poltrona, deixando o longo cabelo preto se esparramar pelo chão. Ao me ver, ela levantou de um salto com sua habilidade e elegância dampira, correu até mim e me deu um breve abraço caloroso.
— Você está mesmo aqui! Achei que fosse uma piada. Imaginei que ficaria com Jill.
— Ela não precisa de mim agora — eu disse, indo abraçar Lissa, que levantou, abandonando os livros. — As aulas estão acabando e ela tem um monte de coisas pra mantê-la ocupada.
— Nem me fale — Rose disse, revirando os olhos. — A srta. Estudiosa aqui está acabando com toda a diversão.
Lissa abriu um sorriso carinhoso para a melhor amiga.
— As provas começam amanhã.
— As minhas já acabaram — eu disse.
— E você foi bem? — Lissa perguntou, sentando de novo.
Olhei para os livros dela.
— Digamos apenas que não me esforcei tanto quanto você.
— Viu? — Rose resmungou. Ela se jogou de volta na poltrona, com os braços cruzados.
Sentei entre as duas e pensei nas minhas poucas chances de passar naquele semestre.
— Acho que Lissa está fazendo a coisa certa.
Aos dezoito anos, Lissa era a rainha mais jovem da história Moroi, eleita em meio ao caos que se seguiu à morte da minha tia. Ninguém acharia ruim se ela não fosse à faculdade ou simplesmente estudasse à distância. Lissa, porém, havia se mantido fiel a seu sonho de ir para uma grande universidade e acreditava que, como monarca, era agora duplamente importante ter uma educação de qualidade. Ela frequentava a Universidade Lehigh, a algumas horas de distância, e vinha mantendo notas altas ao mesmo tempo que regia uma nação turbulenta. Ela e Sydney se dariam muito bem.
Lissa pôs os pés numa mesa de centro e usei o espírito rapidamente para ver sua aura. Estava quente e alegre, como devia estar, com um tom dourado que a marcava como usuária de espírito.
— Então vai entender por que não posso conversar muito. Preciso decorar algumas datas e lugares antes de ir para a cama hoje e amanhã de manhã vamos pra faculdade. Na verdade, vamos passar o resto da semana no campus.
— Não pretendo tomar seu tempo — eu disse. — Só vim perguntar uma coisa.
Lissa pareceu um pouco surpresa e percebi que ela achava que aquele seria só um encontro social.
— Você descobriu mais alguma coisa sobre o que aconteceu com Sydney Sage?
Sua surpresa virou espanto.
— De novo isso? — Lissa perguntou. Ela soou menos atenciosa do que sei que pretendia. Ninguém fora do círculo de Palm Springs sabia o que Sydney significava para mim e Lissa não tinha uma relação de amizade com ela, ao contrário de Rose.
Tanto é que a menção a Sydney fez Rose franzir a testa.
— Ela ainda está desaparecida?
Lissa olhou de mim para ela.
— Não sei nada além do que te contei meses atrás. Dei uma averiguada. Eles disseram que ela tinha sido transferida e que essa informação era confidencial.
— Isso é mentira — eu disse, veemente. — Eles sequestraram Sydney e a mandaram para um dos malditos centros de reeducação!
— Você já disse isso antes e, a menos que as coisas tenham mudado, não tem provas — Lissa falou, calma. — Sem isso, eu dificilmente poderia acusar os alquimistas de estarem mentindo... e, pra falar a verdade, que direito eu tenho de perguntar o que eles fazem com os funcionários deles?
— Você tem esse direito porque o que eles estão fazendo vai contra as regras básicas de moral e respeito pelos outros. Ela está presa, sendo torturada.
Lissa balançou a cabeça.
— Nisso também não posso interferir. Os guardiões vivem capturando dampiros que fogem do treinamento e depois os punem. E se os alquimistas tentassem se intrometer nisso? Nós diríamos o que estou dizendo agora: são jurisdições diferentes. Eles têm o povo deles, nós temos o nosso. Agora, se algum dos nossos estivesse em perigo nas mãos dos alquimistas, aí sim eu teria todo o direito de me envolver.
— Mas você não vai. Porque ela é humana — eu disse, categórico. Todas as esperanças que tivera ao chegar ali começaram a vacilar.
Rose pelo menos pareceu um pouco mais solidária.
— Eles estão mesmo torturando Sydney?
— Sim — eu disse. — Quer dizer, não estou em contato direto com ela nem com ninguém que tenha falado com ela pra dizer o que estão fazendo exatamente, mas conheço uma pessoa que sabe bastante sobre situações como a dela.
Tristeza — por mim — brilhou nos olhos verde-claros de Lissa, muito parecidos com os de Jill.
— Adrian, percebe como essa história é enrolada?
Indignação e raiva se acenderam dentro de mim, tanto pela minha impotência quanto pelo fato de os alquimistas terem enganado Lissa com suas mentiras.
— Mas é verdade! Sydney se dava bem com todos nós. Ela parou de agir como uma alquimista que acha que somos criaturas do mal. Virou nossa amiga. Tratava Jill como uma irmã... O que é irônico, porque depois foi traída pela própria irmã. Pode perguntar pro Eddie. Ele estava lá quando a levaram.
— Mas não depois disso — Lissa concluiu. — Ele não viu se ela foi levada para algum centro de tortura, como você diz. Talvez ela só tenha sido transferida para outro lugar... um lugar bem longe de vocês. Talvez esse seja o único “tratamento” que os alquimistas estejam dando pra ela se acham que vocês interferiram nas ideologias deles.
— Eles fizeram mais do que isso — vociferei. — Posso sentir.
— Liss — Rose começou, apreensiva. — Deve ter alguma coisa que você possa fazer...
Voltei a ter esperança. Se Rose estava me apoiando, talvez pudéssemos convencer outras pessoas a ajudar por baixo dos panos.
— Olha — eu disse. — E se a gente tentasse outra tática? Em vez de perguntar diretamente aos alquimistas, e se a gente mandasse... sei lá... uma equipe de resgate investigar alguns dos possíveis lugares onde ela pode estar presa? — Parecia uma ideia genial. Marcus tinha poucos recursos para investigar sua lista, mas talvez pudéssemos recrutar os Moroi e outros dampiros.
Rose sorriu.
— Eu com certeza ajudaria. Sydney é minha amiga e tenho experiência com...
— Não! — Lissa exclamou, levantando. — Parem, vocês dois! Estão ouvindo o que estão falando? Me pedindo para mandar uma “equipe de resgate” invadir um centro dos alquimistas? Isso é quase um ato de guerra! Conseguem imaginar como soaria se fosse o contrário? Se eles mandassem equipes de humanos pra nos investigar?
— Considerando a falta de ética deles — eu disse —, não ficaria surpreso se já tivessem tentado.
— Não — Lissa repetiu. — Não posso fazer mais nada, pelo menos não enquanto não afeta meu povo diretamente. Queria poder ajudar todas as pessoas do mundo, inclusive Sydney. Mas agora minhas responsabilidades são com o meu povo. Se for para correr riscos, será em nome dele.
Levantei, cheio de raiva e decepção e um monte de outros sentimentos que não conseguia definir.
— Pensei que fosse um tipo diferente de líder. Que defendesse o que é certo.
— E defendo — ela disse, tentando manter a calma com o que parecia muito esforço. — No momento estou lutando por mais liberdade para os dampiros, apoiando os Moroi que querem se defender sozinhos e emendando a lei para que minha própria irmã possa parar de se esconder! Estou fazendo tudo isso ao mesmo tempo que vou pra faculdade e tento ignorar a facção barulhenta que vive pedindo minha destituição. E nem pergunte que tempo sobra para minha vida pessoal. Isso é suficiente para você, Adrian?
— Pelo menos você tem uma vida pessoal — murmurei. Segui em direção à porta. — Desculpe interromper seus estudos. Boa sorte nas provas.
Rose tentou me chamar de volta, mas Lissa gritou o nome dela. Ninguém veio atrás de mim e segui dos aposentos reais até os corredores serpenteantes do palácio. Fúria e frustração ardiam dentro de mim. Eu estivera tão certo de que, se apelasse a Lissa cara a cara — sóbrio, ainda por cima! — e explicasse o caso, ela faria alguma coisa por Sydney. Entendia que os alquimistas estavam bloqueando as tentativas oficiais de Lissa, mas ela poderia ter encontrado um punhado de Rose Hathaways para investigar! Lissa tinha me decepcionado. Apesar de sua pose de rebelde, no fim das contas provara que não passava de uma burocrata como qualquer outro político.
O desespero começou a percorrer meu corpo, sombrio e traiçoeiro, me dizendo que eu tinha sido um idiota de ir até ali. Como pude acreditar que alguma coisa mudaria? Rose queria ajudar, mas será que eu conseguiria convencê-la a agir pelas costas da melhor amiga?
Provavelmente não. Rose estava presa pelo sistema. Eu estava preso pela minha incapacidade de encontrar Sydney. Não servia para ela, não servia para nada nem para ninguém...
— Adrian?
Estava prestes a sair do palácio quando ouvi uma voz atrás de mim. Virei e encontrei uma linda Moroi de olhos cinza e cabelo escuro encaracolado vindo na minha direção. Por um momento, a tempestade emocional nublou minha capacidade de reconhecimento. Então lembrei:
— Charlotte?
Ela abriu um sorriso largo e me deu um abraço inesperado.
— É você mesmo — ela disse, contente. — Fiquei preocupada quando desapareceu. Não respondeu às minhas mensagens nem aos telefonemas.
— Não é nada pessoal — garanti, segurando a porta aberta. — Não tenho falado com quase ninguém. — Era verdade. Eu tinha sumido depois que levaram Sydney.
Aqueles olhos extraordinariamente cinza me observaram com preocupação.
— Está tudo bem?
— Sim, sim. Quer dizer, não. É complicado.
— Bom, eu tenho tempo — ela disse, enquanto saíamos para a noite quente de verão. — A gente pode comer alguma coisa e conversar.
Hesitei, sem saber se queria desabafar. Conhecera Charlotte no começo do ano, logo depois de ela ajudar a irmã a se transformar de volta da forma Strigoi. Charlotte era uma usuária de espírito como eu e me ajudou quando tentei capturar parte do poder necessário para restaurar um Strigoi — um poder que, segundo descobrimos, seria possível usar como uma vacina para impedir que outras pessoas fossem transformadas à força. A irmã dela, Olive, era a grande amada de Neil, embora isso talvez fosse um exagero. Os dois tinham se visto algumas vezes e talvez tenha havido um envolvimento rápido, mas, quando ela cortou a comunicação, ele sofreu como se tivessem ficado juntos por anos.
— Sou uma boa ouvinte — Charlotte disse quando não respondi.
Abri um sorriso para ela.
— Aposto que sim. Só não quero te deprimir.
— Me deprimir? — Ela deu uma risada triste. — Boa sorte com isso. Em primeiro lugar, o espírito já faz isso sozinho, então sua concorrência está forte. Desde que restaurei Olive, sinto uma... sei lá... uma espécie de névoa melancólica? Entende?
— Sim — respondi. — Entendo bem.
— Bom, essa névoa tem me visitado todo dia agora, o que deixa a vida uma delícia, como você pode imaginar. Pra melhorar, depois de passar por tudo aquilo com Olive, ela fugiu num tipo de viagem espiritual porque achou que precisava de um “tempo sozinha” pra pensar em tudo o que aconteceu! Não sei como, mas ela consegue interromper nossos sonhos antes que a gente consiga conversar direito. Queria ir atrás dela, mas Sonya insiste que eu fique aqui para ajudar com a pesquisa sobre o espírito. Eles me arranjaram um quarto chique, mas não tenho muita renda, então tive que pegar um trabalho de meio período como secretária no palácio. Pode apostar, fazer “serviço de atendimento” pra um bando de gente metida da realeza é um novo círculo do inferno. — Ela parou ao lembrar com quem estava falando. — Sem ofensa.
Soltei uma risada sincera, talvez pela primeira vez em muito tempo.
— Tudo bem, conheço exatamente o tipo de pessoa de quem você está falando. Aliás, se conseguir falar com sua irmã, avise que ela está partindo o coração do pobre Neil.
— Vou avisar — Charlotte disse. — Acho que ele é uma das coisas sobre as quais ela está refletindo.
— Isso é bom ou ruim? — perguntei.
— Não faço ideia — ela riu.
Também comecei a rir e, de repente, decidi aceitar a oferta dela.
— Certo. Vamos comer alguma coisa... Se bem que, sinceramente, depois das últimas vinte e quatro horas, acho que prefiro uma bebida. Você não toparia beber alguma coisa, toparia? — Provavelmente era uma péssima ideia, mas isso nunca me impedira antes.
Charlotte pegou minha mão e começou a me levar na direção de um prédio do outro lado do gramado.
— Graças a Deus — ela disse. — Achei que nunca fosse sugerir isso.

3 comentários:

  1. Quero tanto que a Rose ajude o Adrian, ela sempre leu as pessoas mto facilmente, to cheia de esperança de que talvez ela tenha percebido o quanto isso é realmente importante pra ele, mas nunca se sabe.

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  2. algo me diz que vai essa mina vai dar dor de cabeça

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Boa leitura :)