19 de outubro de 2017

Capítulo 4

Sydney

AS LÁGRIMAS SÓ COMEÇARAM A CAIR quando eu estava de volta ao carro, bem longe de Adrian. Voltei para Amberwood com a visão turva e o rosto úmido. Não me sentia tão inútil fazia muito tempo. Esquecer Pulinho não era a pior coisa que poderia ter acontecido, mas e da próxima vez? O espírito levava seus usuários a fazer coisas malucas. Eles se feriam. Cometiam suicídio. Era disso que eu tinha medo, e queria controlar a situação antes que ela nos controlasse. E isso — como Adrian, sempre sagaz, tinha notado — era o que mais me perturbava: minha incapacidade de arranjar uma solução imediata.
Não era uma sensação que eu tinha com frequência.
Não conseguia impedir o espírito de consumir Adrian e não podia condenar seu instinto de ajudar as pessoas. Meu coração doía quando pensava naquela bondade que ardia dentro dele e que pouquíssimas pessoas viam. A única coisa que eu podia fazer era ficar ao seu lado e encorajá-lo a reunir as forças que eu sabia que existiam dentro dele. Talvez não derrotasse o espírito para sempre, mas com certeza poderia resistir melhor a suas antigas estratégias para lidar com o problema. Deveria haver maneiras mais saudáveis de sobreviver, e eu não tinha dúvidas de que ele possuía o autocontrole e a força de vontade necessários para colocá-las em prática. Só gostaria que ele acreditasse em si mesmo tanto quanto eu.
Estacionei na garagem de Amberwood depois de procurar diligentemente por uma vaga entre dois carros bem estacionados. Sério, qual era a dificuldade das pessoas para estacionar dentro das faixas? Meu Mazda ainda era novo e reluzente, e eu tinha medo de que fosse amassado ou arranhado. Meu carro anterior, uma perua Subaru marrom chamada Pingado, tinha sido explodido por uma bruxa maligna que estava atrás da sra. Terwilliger. Depois que Neil e Zoe se juntaram a nós, os alquimistas ordenaram que o substituto de Pingado fosse um carro com sete lugares. Esse CX-9, apelidado de Mercúrio por causa da cor prateada, era o SUV Crossover mais interessante que eu conseguira encontrar. Adrian dissera que eu estava a um passo de virar a tia da perua.
Quando cheguei ao dormitório, já estava mais calma, mas não consegui evitar umas fungadas no travesseiro. Zoe, que eu pensava estar dormindo, falou no escuro:
— Está triste por causa da mamãe e do papai?
— Sim — menti.
— Não se preocupe — ela disse. — Não vão me tirar do papai.
Fingi cair no sono.
Na manhã seguinte, minhas emoções estavam mais controladas, especialmente porque tinha o que fazer. A sra. Terwilliger, fiel à sua palavra como sempre, havia tomado providências para que ao meio-dia eu visitasse Inez, a bruxa que as outras integrantes do Stelle viam com um misto de ironia e nervosismo. Para Zoe, eu estava fazendo uma excursão para uma biblioteca universitária em San Diego.
— Por que você vive saindo com essa mulher? — Zoe perguntou. Ela estava em pé na frente do espelho, amarrando seu longo cabelo castanho num rabo de cavalo.
— Ela é minha professora e faz parte do meu estudo independente. — Eu estava remexendo nas gavetas em busca do que vestir e minha mão se demorou sobre uma camiseta roxa com um coração prateado em estilo celta, do qual saíam chamas. Adrian havia feito o desenho para mim, meio de brincadeira, mas aquela camiseta acabou virando um dos meus bens mais preciosos. — Além disso, praticamente já aprendi todas as outras matérias com o papai. Essa é minha única aula interessante.
— Entendi. — Ela não pareceu muito convencida, mas então abriu um sorriso. — Vai falar isso pra eles, não vai? No tribunal? Como a educação do papai foi perfeita? Vai ajudar muito.
— Tenho certeza que sim. — Abri um sorriso forçado enquanto fechava a gaveta e procurava alguma coisa mais formal no guarda-roupa. Não sabia muito sobre Inez, mas, se era uma anciã venerável, talvez eu devesse mostrar mais respeito. Escolhi uma saia grafite e uma camisa branca de manga longa coberta por pontinhos pretos. Meu único acessório era uma pequena cruz de madeira com glórias-da-manhã desenhadas por Adrian.
Zoe franziu a testa.
— Você vai assim na biblioteca?
— É uma biblioteca famosa — eu disse, evasiva. — Acho que volto a tempo de ir para o Clarence, senão Eddie leva vocês. Vou pegar carona com a sra. Terwilliger, então podem ficar com o Mercúrio.
— Graças a Deus — ela disse, estremecendo. — Você não imagina como foi no carro de Adrian. Tive que sentar bem do lado de Jill.
Por incrível que pareça, depois de dividir o quarto com Zoe durante um mês, eu tinha ficado imune a esse tipo de comentário e chegado à conclusão de que seria melhor para todos se simplesmente não reagisse, mesmo quando as opiniões dela eram extremas até em comparação com as crenças alquimistas.
— E não se esqueça de pegar comida dessa vez.
— Não é nosso trabalho ficar lembrando disso — ela protestou.
— Nosso trabalho é garantir que Jill vá para a mansão de Clarence em segurança e que a vida siga sem problemas para todo mundo. Esses “jantares em família” são um bom jeito de todo mundo relaxar e se dar bem. Não dá trabalho nenhum apanhar alguma coisa no caminho. Pegue comida chinesa — acrescentei, decisiva. — Faz tempo que eles não comem. — Além disso, outro dia Adrian havia comentado que estava com vontade de comer frango xadrez.
— Você já quis ter um carro mais legal? — Zoe perguntou, inesperadamente.
Comecei a rir.
— Sim, mas a missão é mais importante do que nossos carros preferidos. Não sabia que você pensava nesse tipo de coisa.
Ela se sentou na cama com um sorriso.
— Ei, cresci na mesma casa que você. Lembra quando a mamãe trabalhou naquele Jaguar em casa? Aquele sim era um carro legal.
— Claro que lembro. — Uma onda de carinho surgiu no meu peito enquanto olhava para ela. — Mas você tinha o quê? Oito? Nove anos?
— Idade suficiente para querer dirigir aquele carro. À noite eu entrava na garagem escondida e me sentava nele. Pensava que estava sendo discreta, mas acho que mamãe sempre soube. — Aquele sorriso leve se abriu por completo e prendi a respiração. Meu pai não tinha controle total sobre ela. Será que havia alguma chance de Zoe não ter abandonado nossa mãe? Será que havia alguma chance de a audiência correr de maneira amigável?
E será que havia alguma chance de Zoe um dia ver Moroi e dampiros como pessoas de verdade? Até aquele momento, quando entrevi a irmã que eu conhecia e amava, nunca havia passado pela minha cabeça que fosse possível mudar a maneira como ela pensava sobre muitas questões. Desde sua chegada, eu vinha andando na ponta dos pés, concordando com tudo e repetindo frases feitas. Será que havia um modo de influenciá-la? Eu não queria aumentar minhas esperanças e sabia que era melhor não abrir o jogo tão cedo para não arruinar aquele momento de distração. Guardei essas dúvidas para mais tarde e assumi uma expressão neutra.
Pouco depois, a sra. Terwilliger me pegou em seu Beetle vermelho, usando óculos escuros com armação de leopardo. Depois de cinco minutos na estrada, parou num café.
— Você ainda está fazendo aquela abstinência ridícula? — ela perguntou.
— Sim, mas ainda não bebi minha xícara de hoje. — Eu tinha me contido exatamente por isso, sabendo que ela faria uma parada. Ficar sem café por tanto tempo já estava me dando tremedeira.
Ela estacionou o carro e apontou com a cabeça para a porta do café.
— Bom saber.
Segui seu olhar e fiquei embasbacada quando vi Adrian encostado na frente do prédio, com um copo em cada mão. Ele sorriu para nós e veio na direção do carro.
— É o Adrian — eu disse, boba.
— Sim, eu sei — a sra. Terwilliger disse. — Ele me ligou hoje de manhã e perguntou se poderia vir com a gente. Inez conhece vampiros, então imaginei que não seria um problema. Na verdade, talvez a deixe um pouco surpresa, o que pode ser uma vantagem para nós. Obrigada, querido. — O agradecimento foi para Adrian enquanto ela pegava o café pela janela.
Ele entrou no banco de trás e me deu o outro copo. Uma série de emoções se acendeu no meu peito. O encontro da noite anterior havia me deixado insegura, mas vê-lo naquele momento, à luz do dia, com o olhar lúcido e aquele sorriso malandro, me fez acreditar que ele realmente conseguiria cumprir o prometido. Como não poderia? Ele irradiava confiança, com todo aquele charme e beleza que haviam me atraído antes mesmo que eu pudesse notar o que estava acontecendo. Não havia álcool ou desespero.
Ele parecia capaz de qualquer coisa e, naquele momento, eu precisava acreditar que era. Havia tantas coisas me afligindo, tantas coisas — incluindo um futuro com ele — que pareciam impossíveis. Ter esse Adrian invencível ao meu lado me enchia de uma alegria que eu raramente me permitia sentir. Nossos dedos se tocaram quando aceitei o café, e senti um arrepio. Olhei em seus olhos por vários segundos e, enquanto seu sorriso arrogante se suavizava e ficava mais sério, percebi que ele conseguia sentir todas as coisas que eu não podia formular.
— Você não devia estar pintando o monólito? — perguntei quando já estávamos na estrada.
— Rowena remarcou. Deu tempo de pegar um presente pra você — ele respondeu.
— Eu sei. Estou bebendo seu presente agora… Ah!
Uma sombra escamosa e brilhante subiu correndo pela minha perna e se enrolou no meu colo. Segurando o café com cuidado em uma mão, usei a outra para afagar a cabeça do callistana enquanto fazia alguns cálculos mentais.
— Você precisaria ter acordado de madrugada pra dar tempo de pegar o Pulinho e voltar — eu disse. — Quantas horas dormiu hoje? — Minha visão luminosa de Adrian começou a fraquejar. Falta de sono era a maior inimiga dele.
— Mais do que o suficiente para a aventura. Não tem um boneco gigante em Escondido? Dá tempo de tirar uma foto?
— A gente mal tem tempo para a visita — eu disse, me lembrando da decepção de Zoe. Mas a conversa e o entusiasmo de Adrian animaram o trajeto, e até a sra. Terwilliger gostou da companhia dele, embora rugas de preocupação surgissem em seu rosto à medida que nos aproximávamos do destino.
— Como eu disse antes, não sei se Inez vai poder ajudar em alguma coisa — ela explicou. — Ela é muito excêntrica e faz o que der na telha. Se gostar de você, pode contar alguma coisa. Senão, enfim… — A sra. Terwilliger encolheu os ombros. — Daí talvez a gente tenha tempo para tirar fotos.
— Legal — Adrian disse. Quando me voltei para ele, acrescentou rápido: — Mas claro que ela vai gostar de você.
Quando estávamos perto da cidade, a sra. Terwilliger fez uma parada, não para tomar café, mas para comprar um buquê de rosas bordô. Quando voltou para o carro, jogou-o no meu colo, para o desespero de Pulinho.
— Segure isso — ela me disse. Obedeci sem questionar e aproveitei para transformar Pulinho de volta em estátua. Ele tinha ficado livre mais do que o suficiente nos últimos dias.
A ideia de uma bruxa reclusa me fazia pensar em Clarence, então foi uma surpresa quando estacionamos diante de uma casa moderna de estilo espanhol que era quase o oposto de uma mansão gótica. Um El Camino com um pneu murcho parado na frente da casa deixava a cena ainda mais estranha. Depois do que as outras bruxas disseram, eu estava esperando alguma coisa excêntrica e bizarra, então aquela aparência de normalidade quase me decepcionou.
Mas então entramos.
Foi como entrar em um santuário… dedicado a rosas e toalhinhas de renda. Todas as superfícies pareciam estar cobertas. Não era muito diferente do que a sra. Terwilliger tinha feito — apesar de ter a casa e os móveis destruídos recentemente, ela havia conseguido encher a casa nova de tralhas em menos de um mês. Mas, enquanto as coisas dela ficavam jogadas ao acaso porque tinha preguiça de arrumar a bagunça, todo o amontoado ali parecia pensado. Havia vasos com rosas de seda colocados cuidadosamente no centro de toalhinhas de crochê, bonecas com rosas na boca sobre toalhinhas de renda e delicados conjuntos de chá com rosas pintadas sobre toalhinhas de papel. E isso era só o começo. Tudo tinha um ar muito estranho também, como se eu tivesse sido transportada para os anos 1980.
Adrian estava atrás de mim, ainda na porta, e tive certeza que o ouvi murmurar:
— Precisa de mais coelhos.
— Ah, oi, Inez — a sra. Terwilliger disse para nossa anfitriã. Com surpresa, percebi que nunca tinha visto minha professora tão nervosa perto de alguém. — Você está linda como sempre.
Inez Garcia era uma senhora pequena e frágil, como uma fada das colinas. Seu cabelo branco estava amarrado em uma longa trança que descia pelas costas, e os óculos caíam de uma longa corrente de contas azuis no pescoço. Ela usava uma calça jeans com a cintura mais alta que eu já tinha visto, além de uma camiseta com estampa de rosas, o que não era nenhuma surpresa. As rugas de seus noventa anos eram visíveis, mas seus olhos escuros eram tão penetrantes que explicavam a apreensão da sra. Terwilliger.
— Nem comece, Jaclyn Terwilliger! Sei por que está aqui. Quer alguma coisa. É o único motivo por que as pessoas vêm me visitar hoje em dia. Nada de elogio, nada de chá. Só quero isso, quero aquilo.
A sra. Terwilliger engoliu em seco e me empurrou para a frente.
— Inez, esta é Sydney Melrose. Olhe só o que ela trouxe para você.
Levei um momento para me lembrar das rosas e ofereci o buquê com um sorriso forçado. Inez as pegou, desconfiada, e cheirou cada uma antes de soltar um leve resmungo de aprovação.
— Entrem. — Entramos em fila indiana e foi então que ela notou Adrian. — Ora, ora, olhe só o que vocês trouxeram. Poderiam ter economizado o dinheiro das flores e só me trazido o vampiro. Faz tempo que não recebo um jovem Moroi bonito.
— Faz tempo que não conheço uma mulher que aprecie rosas tanto quanto eu — Adrian disse, sempre rápido no gatilho. — Não que minha experiência com elas tenha sido muito boa. Mas devo dizer que nunca vi uma decoração tão magnífica. Você gosta de cor-de-rosa também, né? Falei para elas quando compraram as flores, mas não me deram ouvidos. Insistiram nas bordô.
Inez estreitou os olhos enquanto examinava a sra. Terwilliger.
— Em que você se meteu, trazendo um deles aqui? A raça deles quase nunca pede nossa ajuda.
— O assunto aqui não é ele — a sra. Terwilliger explicou. — É Sydney. Minha aprendiz.
Inez ponderou a resposta enquanto colocava as rosas em um vaso (que tinha rosas pintadas) e nos convidou para sentar na sala de visitas lilás. O cheiro de rosas era nauseante e contei pelo menos três ambientadores de ar responsáveis por aquela atmosfera opressiva. Inez se acomodou em uma cadeira de veludo acolchoada que quase pensei ser a única coisa sem rosas até ver mais algumas entalhadas na madeira.
— Então. — Inez me examinou enquanto eu sentava com cuidado ao lado da sra. Terwilliger no sofá. Adrian se acomodou em uma cadeira que mais parecia um trono. — Uma aprendiz, hein? E eu aqui pensando que você passava seu tempo livre defendendo o uso de semente de chia em fóruns de comida natural. — Os olhos da velhinha se arregalaram subitamente ao ver minha bochecha esquerda. Ela riu baixinho. — Isso está ficando cada vez mais estranho. Você tem mais coragem do que eu pensava se está ensinando um deles.
— Ela é muito forte — a sra. Terwilliger disse, em um tom quase defensivo.
Inez soltou um “tsc, tsc” e pegou uma xícara de chá. Cheirava a Earl Grey e torci para que ela nos oferecesse um pouco.
— E acha que não sei? Percebi assim que abri a porta. Como conseguiu uma coisa dessas? Menina, não está com medo de se entregar ao demônio? Ou seja lá no que vocês alquimistas acreditam? — Ela olhou de soslaio para Adrian. — Bom, deve ter superado alguns medos do sobrenatural se andou no mesmo carro que o limpador de piscina da Jaclyn.
Eu sabia que Inez conhecia o mundo dos vampiros. Afinal, era por isso que estávamos ali: para ouvir sobre os combates dela contra os Strigoi. Participando do clã, também tinha aprendido que os vampiros não eram nada de especial para algumas bruxas. Mesmo assim, era uma experiência completamente nova e desconcertante estar com alguém de fora que se sentia tão à vontade com um Moroi.
— Estas mãozinhas nunca fazem trabalho pesado — Adrian disse.
— Fique quieto, rapaz — ela retrucou. — Antes que perca seu encanto.
Limpei a garganta.
— Não me entrego ao demônio, senhora. — Só a um vampiro insolente e insuportavelmente bonito. — Normalmente traduzo feitiços e aprendo a me defender.
— O treinamento fez dela uma grande estudiosa — a sra. Terwilliger insistiu.
— Estudiosa, é? — Inez fez um gesto de desprezo. — Para mim só parece uma adolescente desmiolada que deve se achar rebelde por ficar brincando com magia. A força dela não importa se ela não conseguir se concentrar e tratar a arte com seriedade. Menina, você tem namorado? Claro que tem. Isso só piora as coisas. Não dá pra falar com elas se a única coisa em que pensam é ficar se agarrando no banco de trás do carro com o namorado. No meu tempo, isso não era um problema. Éramos enviadas para nossas mentoras e ficávamos isoladas. Sem garotos. Sem tentações. Menina, se perder a virgindade, vai perder metade da sua magia. Algo em que você devia ter pensado, Jaclyn. — Ela finalmente parou para tomar fôlego e beber mais chá. Fiz questão de ficar olhando para a xícara porque sabia que, se olhasse para Adrian, começaria a rir. — Não, não tem por que se dar ao trabalho com essas garotas de hoje, não com todos esses celulares e reality shows e energéticos. Ela se veste bem, admito, mas isso não é motivo para eu perder meu tempo com uma jovenzinha.
— A senhora nem sabe o que eu quero — falei sem pensar. — E não sou tão jovem. Vou fazer dezenove daqui a duas semanas.
Inez revirou os olhos.
— Aquário? Pior ainda.
A sra. Terwilliger havia recuperado a confiança e encarou o olhar arguto de Inez.
— Ela é extremamente disciplinada e avançada. Leva a arte muito a sério e já entrou para o Stelle.
Isso, pelo menos, foi uma surpresa para Inez, que me olhou com mais respeito, embora ainda sem aprovação.
— Suponho que seja alguma coisa.
— É só o começo — Adrian disse.
Lancei outro olhar de advertência para ele, não querendo que me “ajudasse” no meu argumento.
— Por favor, preciso da sua orientação. Soube que a senhora teve vários encontros com Strigoi. Que lutou com alguns deles. Queria saber mais sobre isso.
Ela não pareceu nem um pouco impressionada.
— É isso que você quer? Pensei que alguém como você saberia mais do que eu.
— Não em termos mágicos — eu disse. — Como a senhora lutou contra eles?
— Do mesmo jeito que todo mundo luta. Estacas, fogo ou decapitação. Não que os Moroi nos dessem muitas estacas. Mas botei fogo em alguns Strigoi no meu tempo. Só precisa de um bom feitiço de bola de fogo.
Essa não era nenhuma grande revelação.
— É… conheço bem esse feitiço.
Inez olhou zombeteira para a sra. Terwilliger.
— Sua casa não pegou fogo recentemente? Vocês não estavam praticando bolas de fogo dentro de casa, estavam?
Minha professora se remexeu, desconfortável.
— Não. Essa honra foi de Alicia DeGraw. — Havia um leve embaraço na voz dela. — A aprendiz de Veronica.
— A que se voltou contra ela — Inez disse.
— Essa mesma. Sydney a derrotou e salvou minha vida.
O olhar de Inez dizia que talvez eu não fosse uma completa perda de tempo, e aproveitei a oportunidade.
— Por favor. Por favor, me ajude. A senhora parece alguém que realmente gosta de conhecimento e aprendizado, e eu ficaria muito grata se compartilhasse um pouco de sua sabedoria.
— Por que eu deveria ajudar? — ela perguntou. Mas pude ver que estava intrigada. Elogios realmente funcionavam às vezes. — Você não tem nenhum conhecimento superior para me oferecer.
— Mas sou superior em outras coisas. Se a senhora me ajudar, eu… conserto seu carro. Troco seu pneu.
Isso a pegou de surpresa.
— Você está de saia.
— Estou oferecendo o que posso. Trabalho manual em troca de sabedoria.
— Duvido que você consiga — ela disse, depois de vários segundos.
Cruzei os braços.
— É uma pena.
— Você tem quinze minutos — ela disse, ríspida.
— Só preciso de dez.
Obviamente, Adrian achou necessário “supervisionar” o trabalho.
— Vai ficar brava se eu disser que isso é muito sexy? — ele perguntou, ajoelhando perto de mim, com cuidado para não sujar a roupa.
Eu não tinha tempo para conversar enquanto examinava o estepe, que parecia estar num estado apenas ligeiramente melhor que o pneu murcho.
— Imagino que esteja se referindo ao carro. — Eu estava começando a suar, o que não ajudava muito.
— Acha mesmo que ela gosta desse carro o bastante para querer ajudar? Estou com a impressão de que a última coisa que ela dirigiu foi uma carroça.
Abri a caixa de ferramentas que estava na traseira do carro da sra. Terwilliger, contente por estar bem equipada e ser compatível.
— O importante não é o carro. É um teste para provar que não sou uma “desmiolada”. Acho que Inez gosta de ver as pessoas se esforçando pra ganhar o respeito dela. Tomara que dê certo.
Ele ficou em silêncio e me observou trabalhar por mais um minuto.
— É verdade aquilo que ela disse? A virgindade afeta a magia?
— Para alguns feitiços, sim — respondi. — Para outros, nem tanto. Algumas bruxas do Stelle são casadas e a sra. Terwilliger ainda é bem incrível.
Ele não disse mais nada, mas pude adivinhar seus pensamentos. Estava considerando se aquilo influenciava minhas opiniões sobre sexo. Na verdade, era só um dos fatores pelos quais eu estava adiando passar para a próxima fase com ele. O fato de ele ser um vampiro era apenas um detalhe. Mas outras coisas — algumas mais vagas, como simplesmente esperar a hora certa, e outras mais específicas, como saber que Jill estaria vendo — sem dúvida me afligiam. A magia também era uma questão, mas de menor importância.
O que mais pesava era um forte instinto para ser cuidadosa. O simples fato de estar naquela relação era loucura e parte de mim precisava compensar indo com calma em outros aspectos. Não que eu não quisesse transar. Queria… Tanto que estava guardando um segredo que nem Adrian sabia: tinha começado a tomar pílulas anticoncepcionais. Eu tinha um plano sexual definido? Não, ainda não. Mas minha natureza precavida achava melhor estar preparada.
Quando terminei em nove minutos, ele estendeu a mão para me levantar e comentou que achava uma graça meu corpo suado e imundo. Entramos e encontrei Inez e a sra. Terwilliger sentadas confortavelmente na sala lilás com ar-condicionado. Hesitei em sentar no sofá de novo. Em vez disso, me acomodei no chão diante de Inez.
— Demorou, hein — ela disse. Então me olhou de cima a baixo e assentiu. — Vá em frente. Faça as suas perguntas.
Eu sabia que não poderia desperdiçar aquela chance.
— Soube que a senhora foi atacada por Strigoi e que tentaram beber seu sangue, mas não conseguiram. Como? O que aconteceu?
— Ah, eles mais que tentaram — Inez disse. Ela tocou o pescoço. — O monstro me mordeu bem aqui, mas você tem razão. Parou quando sentiu o gosto. Quando percebeu que não conseguiria se alimentar de mim, ficou furioso e tentou torcer meu pescoço, mas então lancei uma bola de fogo. — Havia um brilho em seus olhos, como se estivesse vendo a batalha se desenrolando diante dela. — Mordidas de vampiro são estranhas. De um ponto de vista, são magníficas. Magníficas, mas letais.
— Sim, eu sei — eu disse, pegando-a de surpresa mais uma vez. — Uma Strigoi tentou beber meu sangue, mas não conseguiu.
Inez assentiu.
— É a magia. Deixa um resíduo no sangue quando você usa. Jaclyn não ensinou isso pra você?
— Ah, sim… — comecei. — Mas por que isso impediria um Strigoi?
— Magia é vida. Os Strigoi não têm vida, então, quando são atingidos por alguma coisa viva, como uma estaca encantada por um Moroi, isso vai contra a essência deles. Uma estaca no coração os mata. O sangue de uma bruxa é só desagradável.
— Mas eu não tinha… — Parei, lembrando que, embora não tivesse trabalhado com grandes feitiços antes do ataque Strigoi, já havia preparado alguns por ordem da sra. Terwilliger. Eles exigiam um nível baixo e inconsciente de magia, mas suficiente, pelo jeito, para deixar uma marca que havia salvado minha vida. Aceitando esse fato, passei para a próxima pergunta. — Mas se o sangue mágico pode fazer mal aos Strigoi, como eles conseguem beber o dos Moroi? Não seria ainda mais potente? Afinal, a magia já está dentro deles, ao contrário da nossa.
Minhas perguntas pareceram agradar Inez.
— Exatamente porque a magia é intrínseca. Está misturada no sangue e não causa o mesmo choque para o sistema de um Strigoi. A nossa magia… — Ela procurou as palavras. — … cobre nosso sangue porque a puxamos do mundo para dentro de nós. O mesmo acontece com uma estaca encantada. A magia é colocada nela à força, por isso ela se torna uma arma tangível contra os mortos-vivos.
Eu mal conseguia acompanhar.
— São muitas nuances envolvendo magia interna e externa.
— Muitas mesmo. — Inez quase me abriu um sorriso sincero. — E fica mais complicado ainda quando você compara a magia Moroi com a humana. Às vezes elas têm um comportamento parecido, às vezes completamente oposto. E, claro, tem toda a questão de se contradizerem.
— Contradizerem? — Algo nessa palavra disparou meus alarmes internos.
Inez cerrou os punhos e bateu um contra o outro.
— Externo, interno. Os dois lados da moeda mágica. Às vezes eles colidem. Sua tatuagem, por exemplo. Os alquimistas usaram sangue de vampiro para infundir compulsão nela, não foi?
Assenti devagar.
— Sim. Para nos impedir de discutir questões sobrenaturais com pessoas de fora. — E para nos impedir de fazer outras coisas também.
— Bom, não no seu caso. Tenho certeza de que sua tatuagem parou de funcionar quando você mexeu com magia pela primeira vez.
Todo o universo parou com o impacto daquelas palavras.
— Não… não pode ser. Quer dizer, acho que pode, mas juro que não teve nenhuma diferença. Não naquela época. — Mais tarde, as coisas definitivamente mudaram.
O olhar de Inez me prendeu no lugar.
— Chegou a tentar alguma coisa, como falar sobre vampiros com pessoas normais?
— Não…
— Então como sabe?
— Não sei, mas imaginei que a magia da tatuagem ainda estava forte até…
— Até o quê? — ela perguntou. Até a sra. Terwilliger estava me olhando agora.
No mês anterior, eu havia encontrado um ex-alquimista chamado Marcus Finch, que se rebelara e fugira da organização. Assim como eu, acreditava que os alquimistas eram severos demais com os vampiros, mas chegou ao ponto de alegar que havia facções alquimistas trabalhando com caçadores de vampiros. Marcus dissera ter descoberto uma forma de desfazer a magia nas nossas tatuagens, nos libertando da compulsão que assegurava a lealdade aos alquimistas e nos obrigava a guardar segredo sobre assuntos sobrenaturais. Eu havia passado pelo primeiro de dois passos para anular a tatuagem: receber injeções de tinta nova com magia elemental vampírica “rompida”. Teoricamente, isso me libertara da compulsão inicial. O segundo passo era tatuar por cima do lírio dourado com uma tinta azul que Marcus precisava comprar no México. Ele havia dito que, sem esse passo, os alquimistas poderiam simplesmente restabelecer a compulsão. No entanto, eu tinha recusado a oferta de ir para o México, preferindo correr o risco sem o selamento azul. Não poderia abandonar Adrian, Jill e os outros, e não teria como voltar à minha vida em Palm Springs depois de me rebelar abertamente.
Escolhi minhas palavras com muito cuidado enquanto tocava minha bochecha.
— Essa tatuagem é infundida com elementos de magia vampírica. O que aconteceria se elementos derivados de magia humana fossem colocados na tatuagem, e elas entrassem em conflito? Que magia iria dominar?
Definitivamente não era uma pergunta pela qual elas estavam esperando. Inez franziu a testa.
— Em você? A magia humana, com certeza. Pelo menos nesse caso, os iguais se atraem. A sua própria humanidade fortaleceria o que estivesse ali.
— Então… qualquer que fosse o encanto ou feitiço na tinta com magia vampírica seria desfeito por uma tinta nova fortalecida com magia humana.
— Sim.
O mundo estava girando de novo, mas quase não percebi. Estava prestes a descobrir uma coisa muito, muito grande. Só precisava entender o que era. Estava próxima, eu podia sentir.
— Para ter magia Moroi no corpo, você precisa de um componente físico — comecei. — Nesse caso, tinta feita do sangue deles. Para ter magia humana, precisaria de uma tinta física também… feita de sangue humano?
— Não — Inez respondeu rápido, franzindo a testa enrugada. — Sangue é um bom meio para a magia Moroi porque ela está muito ligada ao corpo deles. Como nós tiramos a magia do mundo, é melhor estabilizá-la com algum tipo de componente físico. Alguma coisa da natureza.
— Como o quê?
— Difícil dizer. — Ela olhou para a sra. Terwilliger no que suspeitei ser uma rara demonstração de respeito. — Alguma coisa vegetal?
A sra. Terwilliger mordeu os lábios enquanto refletia.
— Acho que rochas ou minerais.
Meu coração acelerou.
— Azuis?
— Acho que a cor não importa muito nesse caso — ela disse. — Algumas substâncias retêm determinados tipos de magia melhor do que outras. Sinceramente? Você teria que estudar geologia a fundo. Olhar a estrutura cristalina e ver quais minerais funcionariam melhor com o feitiço que você pretende fazer. É um trabalho árduo e cansativo. Você iria adorar.
— Onde posso descobrir isso? — exclamei.
— Há muitos e muitos livros a respeito — Inez disse, num tom que sugeria que eu já deveria saber disso. Ela respirou fundo e, pela primeira vez, pareceu indecisa. Por fim, tomou uma resolução. — Se eu puder confiar que você não vai fazer nada idiota com eles, talvez possa emprestar alguns dos meus livros a você.
Juntei as mãos.
— Nossa, isso seria… Obrigada. Muito obrigada.
— Pare de tagarelar — ela me cortou. — Eu disse “talvez”. Ainda não decidi. São livros de qualidade, herança de família. Não sou uma bruxa que surgiu do nada. Minha linhagem mágica data de gerações.
— Claro, senhora — eu disse.
Ela hesitou mais um pouco.
— Se conseguir encontrá-los, pode pegar. Estão no sótão. — Ela apontou com a cabeça para um alçapão do outro lado da sala.
Levantei imediatamente e Adrian fez menção de me seguir.
— Você não, bonitinho — ela advertiu. — Quero que ela faça isso sozinha. Eles estão numa caixa com a etiqueta “Mecânica de feitiços”.
Ele me lançou um olhar solidário, mas balancei a cabeça.
— Não tem problema. — Pelo menos eu estava usando saltos baixos. Com certeza seria capaz de andar pelo sótão.
E andei… mas não foi fácil. O lugar estava cheio de pó e ferragem, e a caixa “Mecânica de feitiços” estava embaixo de outras cinco caixas pesadas. Quando, meia hora depois, finalmente desci a escada com meu tesouro, a expressão divertida de Adrian e da sra. Terwilliger deixou claro como estava minha aparência. Inez aprovou com a cabeça.
— Acho que gosto de você — ela disse, pensativa. — Deveria me visitar mais. Você é interessante.
Mais tarde, na estrada para Palm Springs, a sra. Terwilliger ficou rindo, incrédula.
— Você entende o que conseguiu? Não só a convenceu a emprestar os livros, coisa que ela nunca faz, aliás, como também chegou o mais perto de um convite pessoal que já a ouvi fazer. — Ela balançou a cabeça e riu. — Você nunca deixa de me impressionar, Sydney. Quer guardar os livros na minha casa? — Era onde ficava a maioria dos meus suprimentos mágicos. Eu não podia mais deixá-los no dormitório, não com Zoe morando lá.
— Vou deixar com Adrian — respondi automaticamente.
Ela não fez nenhum comentário e fiquei pensando se eu havia cometido um erro. A sra. Terwilliger fazia poucas perguntas sobre minha vida pessoal, amorosa ou alquimista, mas não era cega nem burra. As bruxas podiam não ter problemas com vampiros, mas eu não sabia se ela imaginava, ou julgava, toda a extensão do meu relacionamento com Adrian.
Ele se debruçou do assento de trás.
— Você deu duro para conseguir esses livros. Foi lindo, mas muito trabalhoso. Tem algum plano genial nessa cabecinha?
Desviei a atenção da minha saia amassada e experimentei novamente o entusiasmo que havia sentido quando as palavras de Inez fizeram surgir uma ideia na minha cabeça.
— Não sei se é genial — respondi. — Mas… acho que consigo fazer uma tinta igual à de Marcus.

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Boa leitura :)