13 de outubro de 2017

Capítulo 4

CONGELEI. Não confiava na minha própria voz.
O que Adrian tinha na cabeça? Além de todo o drama entre nós, era absolutamente imperdoável que ele me convidasse para dançar ali, na frente de outros Moroi e alquimistas. Talvez em Palm Springs, onde a situação era um pouco mais tranquila com meus amigos, não seria um pedido tão maluco. Mas ali? Ele estava correndo o risco de expor nossa intimidade, o que, por sua vez, colocaria Jill em perigo. Pior: poderia levantar suspeitas de que ele sentia algo por mim. Mesmo se eu insistisse que não correspondia aos sentimentos dele, o fato de a situação ter chegado até aquele ponto poderia me trazer sérios problemas com os alquimistas.
Enquanto todos esses pensamentos se misturavam na minha cabeça, uma ideia ainda mais inquietante surgiu. Um bom alquimista não deveria se preocupar com essas coisas. Um bom alquimista simplesmente ficaria horrorizado com o problema mais imediato: dançar com um vampiro. Tocar em um vampiro. Ao perceber isso, rapidamente fiz uma expressão de choque, esperando parecer convincente.
Felizmente, todos pareciam escandalizados demais para prestar atenção em mim. As boas relações tinham um limite. Stanton e Ian estavam com expressões sinceras de horror. Os Moroi por perto, embora não tão espantados, pareciam perplexos com a quebra de etiqueta. No entanto... também vi algumas trocas de olhares que mostravam que eles não estavam inteiramente surpresos que Adrian Ivashkov sugerisse algo tão indecoroso. Era uma atitude muito comum em relação a ele. As pessoas sempre davam de ombros e diziam: “Ah, é o Adrian...”.
Ian foi o primeiro a recuperar a voz.
— Ela... Não! Ela não pode, de jeito nenhum!
— Por que não? — Adrian olhou para todos, ainda sorridente e despretensioso. — Somos todos amigos aqui, não somos?
Abe, que raramente se surpreendia com alguma coisa, conseguiu disfarçar um pouco da sua perplexidade.
— Tenho certeza de que não é nada de mais. — Seu tom não demonstrava tanta certeza assim. Ele sabia que Adrian não era um completo estranho para mim, mas certamente imaginou que eu teria as mesmas hesitações de todo alquimista. Como aquela noite havia demonstrado, a maioria de nós ainda tinha problemas com meros apertos de mão.
Stanton parecia no meio de uma batalha mental. Eu tinha certeza de que ela achava o convite descabido... mas sabia da necessidade de manter a paz naquela situação. Ela engoliu em seco.
— Pode... pode ser um bom gesto. — Ela me lançou um olhar solidário que parecia dizer: “Às vezes é preciso sofrer pelo bem do grupo”.
Ian se voltou para ela imediatamente.
— Você está maluca?
— Sr. Jansen — ela retrucou, transmitindo uma rígida advertência naquelas palavras.
Todos os olhares se voltaram para mim quando perceberam que, no fim das contas, a decisão era minha. Nesse momento, não sabia se deveria ficar escandalizada ou com medo, e a ideia de dançar com Adrian fazia eu me sentir dos dois jeitos. Encontrei os olhos de Stanton e dei um lento aceno com a cabeça.
— Claro. Tudo bem. Boas relações, não é?
O rosto de Ian ficou vermelho, mas outro olhar contundente de Stanton o manteve quieto. Enquanto Adrian me conduzia até a pista de dança, ouvi alguns sussurros de Moroi curiosos sobre “aquela pobre alquimista” e como “às vezes ele é tão imprevisível”.
Adrian pôs o braço ao redor da minha cintura, perfeitamente respeitável e distante.
Tentei não pensar na última vez que estive nos braços dele. Mesmo com o devido espaço entre nós, nossas mãos ainda estavam unidas, nossas posturas ainda eram íntimas. Eu estava completamente atenta ao toque de seus dedos sobre meu corpo. Era macio e delicado, mas parecia transmitir um calor e uma intensidade fora do comum.
— O que você tem na cabeça? — perguntei enquanto nos movíamos ao som da música. Eu estava me esforçando para ignorar o toque de suas mãos. — Sabe a encrenca em que pode ter me metido?
Adrian abriu um sorriso largo.
— Nah. Eles estão morrendo de pena de você. Você vai virar uma mártir depois de dançar com um vampiro cruel e perverso. Com emprego vitalício entre os alquimistas.
— Achei que você não fosse me pressionar com... sabe... aquelas coisas...
O olhar inocente dele voltou.
— Falei alguma palavra sobre isso? Só convidei você para dançar como um gesto político, nada mais. — Ele fez uma pausa para criar impacto. — Parece que é você quem não consegue tirar “aquelas coisas” da cabeça.
— Pare de usar minhas palavras contra mim! Isso não... não é nada certo.
— Você devia ver a cara dessa Stanton olhando para a gente — ele comentou, divertido, olhando atrás de mim.
— Está todo mundo olhando para a gente — resmunguei. Não era como se o salão inteiro tivesse parado para olhar, mas definitivamente havia vários olhares pasmos e curiosos com a visão impensável de um Moroi e uma humana (uma alquimista, ainda por cima) dançando juntos.
Ele assentiu e me fez rodar uma vez. Ele era um excelente dançarino, o que não me surpreendia. Ele podia ser impetuoso e impertinente, mas sabia bem os passos. Talvez aulas de dança fossem comuns para crianças da elite Moroi. Ou talvez ele simplesmente tivesse um talento natural para usar o corpo. Aquele beijo sem dúvida havia demonstrado esse talento...
Argh. Adrian estava certo. Era eu quem não conseguia superar “aquelas coisas”.
Sem desconfiar dos meus pensamentos, ele voltou a olhar para Stanton.
— Ela está com cara de um general que acabou de mandar o exército numa missão suicida.
— Que bom que ela se importa — eu disse. Por um momento, esqueci minhas aflições na pista de dança enquanto me lembrava da política de retenção de informações de Stanton.
— Posso puxar você mais para perto, se quiser — ele disse. — Só para ver o quanto ela se importa. Estou sempre disposto a ajudar, sabe.
— Que ótimo parceiro você é — ironizei. — Se me colocar em risco for pelo bem maior, Stanton provavelmente não vai fazer nada se você der em cima de mim.
O sorriso sarcástico de Adrian se desfez.
— Ela chegou a falar a verdade sobre aquele cara que você estava tentando encontrar? Martin?
— Marcus — corrigi, franzindo a testa. A mentira dela ainda me incomodava. — Ela continua falando que não sabe nada sobre ele, e não posso insistir muito, senão ela vai desconfiar.
— Pensei num jeito de você encontrar esse cara — Adrian disse. Eu teria achado que era brincadeira se sua expressão não estivesse tão séria.
— Você pensou? — perguntei. Os alquimistas tinham inúmeros dados à sua disposição, de todo tipo de agência ou organização. Eu andara vasculhando tudo nas últimas semanas, e achava improvável que Adrian tivesse acesso a alguma coisa que eu não tinha.
— Sim. Você tem a foto dele, não tem? Não pode fazer aquele mesmo feitiço da outra noite? Localizar o cara daquele jeito?
Fiquei tão surpresa que quase tropecei. Adrian me apertou com mais força para que eu não caísse. Senti um calafrio quando esse pequeno gesto nos aproximou. A tensão entre nós aumentou ainda mais e percebi que, assim como nossos corpos, nossos lábios também estavam mais próximos.
Tive um pouco de dificuldade para responder, por estar tão próxima dele e também por ainda estar atordoada com o que ele havia dito.
— É... uau... não é uma má ideia...
— Eu sei — ele disse. — Até eu estou meio surpreso também.
As circunstâncias de fato não eram diferentes de quando procurei a irmã da sra. Terwilliger. Eu precisava localizar alguém que nunca tinha visto na vida. Tinha uma foto, que era o que o feitiço exigia. A diferença era que eu mesma começaria o feitiço.
Era uma magia complexa, e eu sabia que as instruções da sra. Terwilliger tinham me ajudado. Também havia o dilema moral de praticar esse tipo de feitiço sozinha. Minha consciência lidava mais tranquilamente com a magia quando eu me sentia coagida a usá-la.
— Não posso tentar até o mês que vem — eu disse, me lembrando do livro de feitiços. — Quer dizer, tenho a foto aqui comigo, mas o feitiço precisa ser feito durante a lua cheia. Hoje é a última noite de lua cheia deste mês, e eu nunca conseguiria os ingredientes a tempo.
— Do que você precisa?
Eu listei e ele assentiu, jurando que conseguiria encontrá-los.
Dei um riso zombeteiro.
— Onde você vai conseguir erva-doce e hissopo a esta hora da noite? Nesta cidade?
— Aqui é cheio de boticários estranhos. Tem uma lojinha de coisas naturais que vende sabonetes e perfumes feitos de tudo o que você pode imaginar. Tenho certeza de que lá tem o que você precisa.
— E eu tenho certeza de que já está fechada. — Ele me fez dar mais uma volta cheia de floreios, e eu mantive o ritmo com perfeição.
A música estava chegando ao fim. O tempo voou mais rápido do que eu imaginara. Tinha me esquecido dos olhares curiosos. Tinha me esquecido até que estava com um vampiro. Simplesmente estava dançando com Adrian, o que parecia simples e natural, desde que eu não pensasse na plateia ao nosso redor.
Ele voltou a assumir aquele ar malandro.
— Não precisa se preocupar. Posso achar a dona e convencê-la a abrir uma exceção.
Resmunguei:
— Não. Nada de compulsão. — Compulsão era uma habilidade que os vampiros tinham de forçar os outros a fazer sua vontade. Todos os vampiros a possuíam em determinado grau, e nos usuários de espírito ela era mais forte. A maioria dos Moroi considerava aquilo imoral. Para os alquimistas, era um pecado.
A música terminou, mas Adrian não me soltou imediatamente. Ele se aproximou mais um pouco.
— Você quer esperar mais um mês para encontrar o tal Marcus?
— Não — admiti.
Os lábios dele estavam a um centímetro dos meus.
— Então me encontre daqui a duas horas na entrada de serviço do hotel. — Dei um leve aceno e ele recuou, soltando minhas mãos. — Eis mais um sinal de nossas boas relações. — Com uma reverência que poderia ter vindo diretamente de um romance de Jane Austen, ele apontou para o bar e falou bem alto. — Obrigado pela dança. Posso acompanhá-la para pegar alguma bebida?
Segui sem dizer uma palavra, com a cabeça girando enquanto pensava no que precisaria fazer dali a duas horas. No bar, Adrian me surpreendeu ao pedir um refrigerante.
— Está se contendo, hein? — comentei, lembrando que ele precisava ficar sóbrio para usar o espírito. Torci para que já não tivesse bebido demais. Para ele, a única coisa melhor que um open bar seria um maço de cigarros aparecendo na sua porta.
— Sou um mestre do autocontrole — ele afirmou.
Eu não tinha tanta certeza quanto a isso, mas não argumentei. Tomei um gole da minha Coca Diet e ficamos ali parados em um silêncio agradável. Então dois Moroi se aproximaram do balcão, conversando com o volume e a desinibição daqueles que não tinham hesitado em aproveitar as bebidas grátis.
— Bom, por mais liberal que a menina seja, ela é realmente um colírio — um deles disse. — Eu podia ficar o dia inteiro olhando pra ela, ainda mais naquele vestido.
O amigo dele concordou.
— É um belo avanço depois da Tatiana. É uma pena o que aconteceu com ela, mas talvez a mudança tenha sido pra melhor. Aquela velha sabia sorrir? — Os dois gargalharam com a piada.
Ao meu lado, o sorriso de Adrian se desfez e ele ficou completamente quieto.
Tatiana, a antiga rainha Moroi, era tia-avó de Adrian. Ela havia sido brutalmente assassinada no verão anterior e, embora Adrian quase nunca falasse sobre ela, ouvi várias pessoas dizerem que eles eram próximos. Ele cerrou os dentes e começou a se virar.
Rapidamente, agarrei sua mão livre, segurando-a com força.
— Adrian, não — eu disse, baixinho.
— Sydney, eles não podem falar uma coisa dessas. — Havia uma expressão agressiva no rosto dele que eu nunca tinha visto antes.
Apertei com mais força.
— Eles estão bêbados, e são dois idiotas. Não merecem seu tempo. Por favor, não comece uma briga aqui. Por Sonya. — Hesitei. — E por mim.
O rosto dele ainda estava cheio de fúria e, por um momento, pensei que ia me ignorar e atirar um copo naqueles dois. Ou pior. Já tinha visto usuários de espírito furiosos, e eram assustadores. Mas a raiva foi diminuindo, e senti a mão dele relaxar na minha. Ele fechou os olhos por um instante e, quando voltou a abri-los, estavam embaçados e desfocados.
— Ninguém conhecia Tatiana de verdade, Sydney. — A tristeza na voz dele partiu meu coração. — Todos acham que ela era uma vaca. Não sabem como ela era engraçada ou como sabia ser doce. Você não tem ideia... não tem ideia de como sinto falta dela. Ela não merecia morrer daquele jeito. Era a única pessoa que me entendia... mais que meus próprios pais. Ela me aceitava. Via o que tinha de bom na minha alma. Era a única pessoa que acreditava em mim.
Ele estava na minha frente, mas não estava comigo. Reconheci o caráter desconexo e devorador do espírito. Mexia com a cabeça dos usuários. Às vezes os deixava dispersos e distantes, como ele estava agora. Às vezes punha em xeque sua noção de realidade. E, às vezes, criava um desespero de consequências devastadoras.
— Ela não era a única — eu disse. — Eu acredito em você. Ela está em paz agora e nada que eles disserem vai mudar quem ela era. Volte pra mim, por favor.
Ele estava olhando fixamente para um ponto que eu não conseguia enxergar. Depois de alguns segundos de terror, piscou e voltou a se focar em mim. Seu rosto ainda estava triste, mas, pelo menos, ele estava no controle de novo.
— Estou aqui, Sage. — Adrian me soltou e olhou ao redor para ter certeza de que ninguém havia percebido que estávamos de mãos dadas. Felizmente, os noivos tinham ido para a pista, e todos estavam hipnotizados demais observando o casal. — Duas horas.
Ele tomou o resto do refrigerante e se afastou. Fiquei olhando até ele desaparecer no meio da multidão e, então, voltei para a mesa, olhando o relógio no caminho. Duas horas.
Ian saltou da cadeira quando cheguei.
— Você está bem?
Nenhum convidado Moroi estava por perto, então Stanton era a única perto o suficiente para ouvir. Ela parecia igualmente preocupada.
— Sinto muito por você ter que passar por isso, srta. Sage. Como sempre, sua dedicação ao trabalho é admirável.
— Faço o possível para ajudar — respondi. Ainda estava preocupada com Adrian e torci para que não voltasse a cair nas garras do espírito.
— Ele machucou você? — Ian perguntou, apontando. — Suas mãos?
Olhei para baixo e percebi que estava esfregando as mãos uma na outra. Elas ainda estavam cálidas pelo toque de Adrian.
— Oi? Ah, não. Só, hum, estou tentando tirar a mácula. Na verdade, acho que deveria lavar as mãos. Já volto.
Eles pareceram achar essa ideia perfeitamente plausível e não me detiveram enquanto eu seguia apressada para o banheiro. Livre da preocupação deles, soltei um suspiro aliviado. Havia desviado de dois problemas, não deixando os alquimistas saberem que eu era amiga de um vampiro nem que estava tramando magia com ele.
— Sydney?
Eu estivera tão distraída no caminho para o banheiro que não percebera Rose ali perto, junto com Dimitri Belikov. Eles estavam de braços dados, sorrindo com a minha surpresa. Não tinha visto Dimitri naquela noite, e seu traje preto e branco de guardião deixou claro por quê. Ele estava ali a serviço e, sem dúvida, tinha sido uma das sombras que vi se moverem no meio das árvores da estufa, supervisionando tudo. Ele devia estar num intervalo agora, senão jamais estaria tão à vontade, mesmo com Rose. Claro que, mesmo “à vontade”, Dimitri poderia pular no meio de um combate a qualquer momento.
Eles formavam um casal lindo. O cabelo e os olhos castanhos dele combinavam com os dela, e os dois tinham uma beleza estonteante. Não era nenhuma surpresa que Adrian tivesse se apaixonado por ela, pensei, e fiquei surpresa com quanto essa ideia me incomodou. Assim como Sonya e Mikhail, havia um laço de amor entre Rose e Dimitri que era quase palpável.
— Você está bem? — Rose perguntou, gentil. — Não consigo acreditar que Adrian fez aquilo com você. — Ela reconsiderou. — Na verdade, acho que consigo, sim.
— Estou bem — respondi. — Acho que os outros alquimistas ficaram mais horrorizados do que eu. — Então lembrei que, embora Rose e Dimitri soubessem que eu conhecia Adrian de Palm Springs, não podia parecer muito à vontade. Voltei a assumir a expressão de consternação. — Mesmo assim, aquilo foi completamente descabido.
— Decoro nunca foi o forte do Adrian — Dimitri comentou.
Rose riu com o eufemismo.
— Se faz você se sentir melhor, vocês ficaram muito bonitos dançando juntos. Foi difícil acreditar que são inimigos mortais... ou seja lá o que os alquimistas pensam. — Ela apontou para o meu vestido. — Estavam combinando.
Havia me esquecido completamente da minha roupa. Era um vestido de seda de manga curta, quase inteiramente preto, exceto por alguns salpicos de azul-real na saia. Era uma cor mais ousada do que as que eu costumava usar, mas o preto equilibrava. Ao me lembrar dos tons de azul de Adrian, percebi que, de fato, nossas paletas se complementavam.
Vocês ficaram muito bonitos dançando juntos.
Não sei como estava minha expressão, mas Rose riu novamente.
— Não entre em pânico — ela disse, com uma faísca no olhar. — Foi bom ver uma humana e um Moroi que pareciam combinar tanto um com o outro.
Combinar tanto um com o outro.
Por que ela ficava dizendo essas coisas? Aquelas palavras estavam me atrapalhando a manter uma conduta fria e racional. Eu sabia que ela estava falando naquele tom cordial e diplomático que todos se esforçavam para usar ali. Mas, por mais liberais que Rose e Dimitri fossem, tinha certeza de que até mesmo eles ficariam escandalizados se soubessem a verdade sobre os sentimentos de Adrian e sobre aquele beijo incrível.
Passei o resto da recepção com um nó na garganta. Felizmente, não precisei esconder como me sentia. Tanto os Moroi como os alquimistas esperavam que eu ficasse daquele jeito. Aliás, não demorou para que Stanton tivesse que suportar sua própria cota de “diplomacia” quando um Moroi de meia-idade a convidou para dançar, obviamente seguindo a demonstração de boas relações de Adrian. Pelo visto, por mais ultrajante que tivesse sido o comportamento dele, pelo menos um Moroi achou que tinha sido uma boa ideia e quis seguir o exemplo. Stanton não teve como recusar depois de ter me incentivado, e foi para a pista de dança rangendo os dentes. Ninguém chamou Ian para dançar, o que provavelmente foi melhor. Ele não pareceu nem um pouco decepcionado.
Adrian não estava por perto; imaginei que estivesse juntando os ingredientes para o feitiço. O tempo foi passando e, quando a marca das duas horas estava perto, lembrei que, embora tivesse levado a foto de Marcus comigo na viagem (raramente a deixava longe de vista), a havia deixado no meu quarto. Pedi licença a Ian, dizendo que precisava voltar para a pousada para trocar de sapato e que pegaria um dos carros que transportavam os convidados do casamento pela cidade.
O rosto de Ian imediatamente assumiu um ar protetor.
— Quer que eu vá com você? Não é seguro lá fora.
— Não — respondi —, você precisa ficar aqui. Stanton está correndo mais perigo. — Ela estava perto do bar, conversando com dois Moroi. Imaginei se teria alguma outra dança no futuro próximo. — Além disso, ainda é cedo; tem mais vampiros aqui do que lá fora. Pelo menos a pousada é administrada por humanos.
Ian não teve como discordar da minha lógica alquimista e, ainda que relutante, me deixou ir. Foi fácil encontrar um táxi e consegui fazer o trajeto de ida e volta quase no tempo perfeito. Cheguei até a trocar os sapatos para comprovar minha história depois.
Embora tivesse usado salto alto para o casamento, tinha colocado um par de sandálias baixas na mala para alguma eventualidade — um bom planejamento para qualquer ocasião.
Quando cheguei à entrada de serviço, porém, percebi que meu plano perfeito tinha uma falha. Com a pressa e o nervosismo, havia deixado meu xale quente e pesado no carro, que a essa altura já devia estar longe. Agora, esperando por Adrian no frio cortante da Pensilvânia, coloquei os braços ao redor do corpo e torci para não congelar antes que ele aparecesse.
No entanto, ele foi fiel à palavra e chegou exatamente na hora marcada, com uma sacola a tiracolo. Melhor ainda: tinha voltado completamente ao normal.
— Tudo pronto — ele me disse.
— Sério? — perguntei, batendo os dentes. — Encontrou tudo?
Ele deu um tapinha na sacola.
— Você pede, eu entrego. Agora, onde vamos fazer isso?
— Em algum lugar afastado. — Olhei ao redor. Depois do estacionamento, havia um terreno baldio que parecia servir. — Lá.
Atravessar o estacionamento asfaltado não foi nenhum problema, mas quando entramos no campo coberto de neve, nem mesmo minhas sandálias práticas serviram para alguma coisa. Estava com tanto frio que imaginei que minha pele estivesse tão azul quanto o vestido.
— Espere — Adrian disse a certa altura.
— Precisamos ir mais para lá — resmunguei.
Ele, que havia tido o bom senso de colocar um casaco de lã, começou a tirá-lo.
— Toma.
— Você vai ficar com frio — protestei, mas não o impedi de dar um passo à frente e me ajudar a vesti-lo. Adrian era mais alto do que eu, de modo que o casaco, que ia até seus joelhos, felizmente me cobriu por inteiro. Cheirava a um misto de cigarro e colônia.
— Pronto. — Ele apertou o casaco com mais força ao meu redor. — Estou com uma camisa de manga longa e o terno. Agora vamos. Rápido.
Ele não precisou falar duas vezes. Além da temperatura, precisávamos terminar o feitiço antes que alguém nos visse. Nem mesmo eu teria como explicar aquilo aos alquimistas.
A lua ainda estava clara e reluzente quando finalmente encontramos um lugar aceitável. Examinei a sacola de Adrian, admirada por ele ter conseguido tudo, desde o espelho até as ervas e flores secas. Ele ficou em silêncio enquanto eu ajeitava tudo, só abrindo a boca quando eu estava quase pronta para começar.
— Posso ajudar em alguma coisa? — perguntou, atencioso.
— Só fique de olho aberto — respondi. — E me segure se eu desmaiar.
— Com prazer.
Eu havia decorado o feitiço quando a sra. Terwilliger e eu fizemos juntas. Mesmo assim, estava nervosa por fazer aquilo sozinha, ainda mais porque o ambiente não ajudava. Era meio difícil reunir a concentração mental necessária ajoelhada no meio da neve. Então me lembrei de Stanton e das mentiras que os alquimistas me contavam. Uma centelha de fúria se acendeu em mim, gerando um calor diferente que usei para direcionar meus pensamentos enquanto olhava fixamente para a foto de Marcus. Ele tinha a idade de Adrian, com o cabelo loiro na altura dos ombros, olhos azuis e melancólicos. A tatuagem em sua bochecha era um entrelaçado de meias-luas azul-escuras.
Aos poucos, fui mergulhando no feitiço.
Senti aquela mesma euforia enquanto o espelho se transformava na imagem de uma cidade. Nenhuma névoa me bloqueou, pois, como era de se imaginar, Marcus não estava usando o mesmo tipo de magia protetora que a irmã da sra. Terwilliger. A paisagem à minha frente mostrava o que parecia um pequeno apartamento muito simples. Havia um colchão sem estrado, e uma TV antiga ficava num dos cantos. Olhei ao redor procurando alguma característica marcante, mas não encontrei nada. A única janela do cômodo finalmente me deu uma pista. Ao fundo, pude distinguir um edifício de estilo espanhol que parecia uma igreja ou mosteiro. Era de reboco branco, com torres de cúpulas vermelhas. Tentei olhá-la mais de perto — voar, como tinha feito no outro feitiço —, mas subitamente senti o frio da Pensilvânia entrando no meu corpo. A imagem se desfez em pedaços e eu estava de novo ajoelhada no meio da neve.
— Argh — resmunguei, colocando a mão na testa. — Por pouco.
— Viu alguma coisa? — Adrian perguntou.
— Nada que ajude.
Me levantei um pouco tonta, mas consegui ficar de pé. Pude ver que Adrian estava pronto para me pegar caso eu realmente caísse.
— Você está bem?
— Acho que sim. Só um pouco zonza pela queda de açúcar no sangue. — Devagar, fui pegando o espelho e a sacola. — Devia ter falado para você trazer suco de laranja também.
— Talvez isso ajude. — Ele tirou do bolso do terno um cantil prateado e o estendeu para mim.
Era típico de Adrian oferecer álcool solicitamente.
— Você sabe que não bebo — eu disse.
— Alguns golinhos não vão deixar você bêbada, Sage. E esta é sua noite de sorte: é Kahlúa. Um licor cheio de açúcar, com sabor de café. Vai, experimenta.
Relutante, dei a sacola para ele e peguei o frasco enquanto começávamos a voltar para o hotel. Tomei um gole de má vontade e fiz uma careta.
— Isso não tem sabor de café. — Por mais que as pessoas enchessem as bebidas alcoólicas de firulas, eu sempre achava o gosto horrível. Não entendia como Adrian conseguia beber tanto. Mas percebi o gosto do açúcar e, depois de alguns goles, me senti mais estável. Não bebi nada além disso, pois não queria ficar tonta por outros motivos.
— O que você viu? — Adrian perguntou quando chegamos ao estacionamento.
Descrevi o cenário que vi durante o feitiço e soltei um suspiro de frustração.
— Pode ser qualquer lugar na Califórnia. Ou no Sudoeste. Ou no México.
Ele parou e colocou a sacola no ombro.
— Talvez... — Ele tirou o celular do bolso do terno e digitou algumas coisas. Eu tremia e tentava manter a paciência enquanto ele buscava o que queria. — Parecia com esse lugar?
Olhei para a tela e senti meu queixo cair. Estava olhando para uma foto do edifício da minha visão.
— Sim! O que é?
— É a antiga Missão de Santa Bárbara. — Logo depois, para o caso de eu precisar de ajuda, ele acrescentou: — Fica em Santa Bárbara.
— Como sabia disso? — exclamei. — Quer dizer, como conhece esse lugar?
Ele deu de ombros.
— Já fui para Santa Bárbara. Ajuda?
Meu desânimo anterior se transformou em euforia.
— Sim! Pela posição da janela, posso ter uma boa ideia de onde fica o apartamento. Acho que você encontrou Marcus Finch. — Tomada pela alegria, afaguei o braço dele.
Adrian pousou a mão enluvada em meu rosto e sorriu para mim.
— E pensar que Angeline disse que eu era bonito demais para ser útil. Parece que eu tenho alguma coisa para oferecer ao mundo, afinal.
— E continua bonito — eu disse, sem pensar. Mais um daqueles momentos intensos pairou entre nós, com o luar iluminando os traços marcantes do rosto dele. Então o momento foi quebrado por uma voz na escuridão.
— Quem está aí?
Ambos tomamos um susto e demos um passo para trás quando um vulto vestido de branco e preto pareceu se materializar nas trevas. Um guardião. Não era ninguém que eu conhecia, mas me dei conta de como havia sido boba de achar que poderíamos sair e entrar furtivamente no hotel sem sermos vistos. A região devia estar cheia de guardiões, vigiando o local contra os Strigoi. Eles não teriam se importado com duas pessoas saindo, mas era óbvio que nosso retorno causaria suspeitas.
— E aí, Pete — Adrian disse, abrindo seu sorriso simpático. — Que bom ver você. Tomara que não esteja passando muito frio aqui fora.
O guardião pareceu relaxar um pouco ao reconhecer Adrian, mas ainda estava desconfiado.
— O que estão fazendo aqui fora?
— Só estou trazendo a srta. Sage de volta — disse Adrian. — Ela precisou pegar uma coisa no quarto dela.
Lancei um olhar confuso para ele. A pousada nem era naquela direção. Pete pareceu distraído por um momento. Então, fez que sim com a cabeça.
— Entendi. Bom, é melhor entrarem antes que congelem.
— Valeu — ele disse, me levando dali. — Não deixe de fazer um intervalo e experimentar os canapés. Estão incríveis.
— Você usou a compulsão no guardião — murmurei, depois que estávamos a uma distância segura.
— Só um pouquinho — ele disse, parecendo muito orgulhoso de si mesmo. — E estar aqui fora para acompanhar você é um motivo válido, em que ele não vai pensar muito depois. Compelir alguém a acreditar numa história funciona melhor se tem um pouco de verdade...
— Adrian? Sydney?
Tínhamos quase chegado à porta dos fundos do hotel e agora estávamos cara a cara com uma figura vestida de cor de marfim. Sonya, envolta numa estola de pele, estava diante de nós. Mais uma vez, fiquei admirada com a beleza e o brilho que ela parecia irradiar. Ela nos abriu um sorriso intrigado.
Ambos perdemos a fala. Adrian não tinha mais palavras ou truques agora. Sonya também era uma usuária de espírito, e a compulsão não funcionaria nela. Muito nervosa, procurei alguma desculpa que não fosse Estávamos usando magia ilícita para revelar segredos que os alquimistas não querem que eu saiba.
— Por favor, não diga nada — falei de repente, erguendo o cantil. — Adrian estava me deixando beber um pouco da Kahlúa dele. Stanton vai me matar se descobrir.
Como era de se esperar, Sonya pareceu surpresa.
— Pensei que você não bebesse.
— A noite está meio estressante — eu disse, o que estava longe de ser mentira.
— E é de café — Adrian comentou, como se pudesse ajudar meu argumento.
Não tive certeza se Sonya se deixou convencer, então tentei mudar de assunto.
— Parabéns, aliás. Não consegui falar com você antes. Está linda.
Sonya deixou a curiosidade de lado e me abriu um sorriso.
— Obrigada. É meio surreal. Eu e Mikhail passamos por tanta coisa... houve momentos em que achei que nunca chegaríamos aqui. E agora... — Ela baixou os olhos para o diamante que reluzia em sua mão. — Bom, aqui estamos nós.
— O que você está fazendo aqui fora, sra. Tanner? — Adrian havia se recuperado do susto e retomado a extroversão. — Não devia estar lá dentro admirando seu marido?
Ela riu.
— Ah, temos uma vida inteira pela frente. Pra ser sincera, só precisava sair um pouco do meio da multidão. — Sonya inspirou fundo aquele ar frio e cortante. — Mas está na hora de voltar. Daqui a pouco vou atirar o buquê. Você não vai perder essa chance, vai? — Essa parte foi para mim.
Eu ri.
— Acho que vou deixar passar. Já causei especulações demais hoje.
— Ah, sim. Vocês dois e sua dança infame. — Sonya olhou de mim para ele, recuperando um pouco da perplexidade. — Vocês ficam muito bem juntos. — Um silêncio constrangedor reinou por alguns segundos e, então, ela limpou a garganta. — Bom, vou voltar lá pra dentro, que está mais quentinho. Tomara que mude de ideia, Sydney.
Ela desapareceu pela porta de serviço, e resisti à vontade de bater a cabeça na parede.
— Ela sabe que a gente estava mentindo. Ela consegue ver essas coisas. — Usuários de espírito eram bons em interpretar gestos sutis e Sonya era uma das melhores entre eles.
— Provavelmente — Adrian concordou. — Mas duvido que imagine que estávamos fazendo magia no meio da neve.
Um pensamento terrível me passou pela cabeça.
— Ai, meu Deus. Ela deve achar que saímos para... você sabe... fazer coisas, tipo, hum, românticas...
Adrian achou muito mais graça dessa ideia do que deveria.
— Viu, lá vem você de novo. É a primeira coisa em que você pensa. — Ele balançou a cabeça, melodramático. — Nem dá para acreditar que vive dizendo que eu sou o obcecado aqui.
— Não estou obcecada! — exclamei. — Só estou falando que é a conclusão óbvia.
— Óbvia para você. Mas ela está certa sobre uma coisa: precisamos entrar. — Ele tocou o cabelo, ansioso. — Acho que meu gel congelou.
Devolvi o cantil para ele e abri a porta. Logo antes de entrar, hesitei e me voltei para ele.
— Adrian? Obrigada pela ajuda.
— Amigos são para essas coisas. — Ele segurou a porta e fez sinal para que eu entrasse.
— Pois é, mas você foi muito além por uma coisa que não tem nada a ver com você. Agradeço muito por isso. Não tinha obrigação de me ajudar. Não tem os mesmos motivos que eu para desmascarar os alquimistas.
Sem saber o que mais dizer, fiz um aceno e entrei. Enquanto éramos envolvidos pelo calor e pelo barulho da multidão, pensei ter ouvido Adrian dizer: “Meus motivos são outros”.

Um comentário:

  1. Adoro a interação da Sydney com o Adrian, é sempre divertido e nunca se sabe o que eles vão fazer.

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Boa leitura :)