3 de outubro de 2017

Capítulo 4

SONYA NÃO DISSE NADA sobre o encontro misterioso para o restante do grupo no apartamento de Adrian, então respeitei seu silêncio. Todos estavam tão absortos no jantar e nos experimentos que não notaram nada.
E, assim que começaram a segunda leva de experimentos, até eu me distraí o bastante para não pensar mais naquele rapaz.
Sonya havia dito que queria saber como Eddie e Dimitri responderiam diretamente ao espírito. Ela e Adrian fizeram isso concentrando sua magia nos dampiros, um de cada vez.
— É meio como o que faríamos se estivéssemos tentando curá-los ou fazer alguma coisa crescer — Sonya explicou. — Não se preocupe: não vamos transformá-los em gigantes nem nada do tipo. É mais como se estivéssemos cobrindo cada um com uma camada de magia de espírito. Se Dimitri tiver alguma marca remanescente de quando foi curado, imagino que pode reagir à nossa magia.
Adrian e ela ajustaram a sincronia entre eles, e Eddie foi o primeiro. No começo, não dava para ver nada além dos dois usuários de espírito fitando Eddie. Ele parecia desconfortável sob o exame minucioso. Então notei um brilho prateado tremeluzente percorrer seu corpo. Dei um passo para trás, atônita — e em pânico — ao ver uma manifestação física do espírito. Eles repetiram o processo em Dimitri, obtendo os mesmos resultados. Aparentemente, num nível invisível, as coisas também foram as mesmas. Não havia nada notável na reação de Dimitri. Todos aceitaram isso naturalmente, como parte do processo científico, mas ver a magia envolver os dois de maneira concreta me causou arrepios.
À noite, quando Eddie e eu voltamos de carro para Amberwood, me vi sentada o mais longe possível dele, como se algum resquício de magia pudesse escorrer e tocar em mim. Ele conversou comigo com a mesma simpatia de sempre, e precisei fazer muito esforço para esconder o que estava sentindo. Agir assim me fazia sentir culpada. Afinal, aquele era Eddie. Meu amigo. A magia, além de não ser capaz de me machucar, já tinha ido embora.
Uma boa noite de sono conseguiu acabar com a ansiedade e a culpa que eu estava sentindo. Quando acordei na manhã seguinte e comecei a me preparar para as aulas, a magia era apenas uma lembrança remota. Embora eu só estivesse em Amberwood a trabalho, com o tempo passei a gostar muito daquela escola-modelo. Antes, eu havia sido educada em casa e, embora meu pai sem dúvida tivesse sido rígido e me ensinado todo o currículo, ele nunca ia além do que achava necessário. Ali, mesmo se eu já soubesse o que estava sendo dado nas aulas, havia muitos professores dispostos a me motivar para ir além. Não haviam permitido que eu fosse para a faculdade, mas aquela escola era uma boa substituta.
Antes de ir para a aula, precisava acompanhar uma sessão de treinamento de Eddie e Angeline. Por mais que ele quisesse evitá-la, jamais deixaria de comparecer — não com a segurança de Jill em jogo. Angeline fazia parte da linha de defesa de Jill. Sentei na grama com uma xícara de café, ainda cogitando se o interesse de Angeline não passava de fruto da imaginação de Eddie. Pouco tempo antes, eu havia comprado uma cafeteira simples para o meu quarto e, embora não se comparasse ao café de uma cafeteria, tinha me ajudado a atravessar várias manhãs difíceis. Um bocejo abafou meu cumprimento quando Jill sentou ao meu lado.
— Eddie nunca mais me treinou — ela disse, saudosa, enquanto assistíamos ao espetáculo de vê-lo tentando explicar pacientemente a Angeline que dar cabeçadas, por mais que fosse adequado numa rixa de bar, nem sempre era a melhor tática contra os Strigoi.
— Tenho certeza de que ele vai voltar a treinar você quando tiver mais tempo — respondi, apesar de não ter tanta certeza. Desde que admitira para si mesmo seus sentimentos por ela, ficava nervoso com a ideia de tocá-la demais. Além disso, uma parte cavalheiresca dele não queria que Jill se arriscasse nunca. Era irônico, porque o que o havia atraído fora exatamente o ímpeto dela em querer aprender a se defender (algo raro num Moroi). — Angeline foi recrutada como proteção. Ele precisa garantir que ela consiga desempenhar bem o trabalho.
— Eu sei. É que parece que todo mundo fica tentando me mimar — ela disse, franzindo a testa. — Na educação física, Micah não me deixa fazer nada. Como tive aquele probleminha no começo, ele está paranoico achando que vou me machucar. Sempre digo que estou bem, que o problema era só o sol... mas ele continua interferindo. É fofo, mas às vezes isso me deixa meio maluca.
— Já tinha percebido — admiti, pois era da mesma turma de educação física que eles. — Mas não acho que é por isso que Eddie não anda treinando você ultimamente. Ele sabe que você é capaz e tem orgulho de você por isso... Ele só acha que, se estiver fazendo o trabalho dele direito, você nem deveria ter que aprender. É uma lógica meio estranha.
— Não, eu entendo. — O desalento de antes se transformou em aprovação quando Jill voltou a assistir a sessão de treinamento. — Ele é tão dedicado... e bom no que faz.
— Um jeito fácil de incapacitar alguém é pelo joelho — Eddie dizia para Angeline. — Ainda mais se você for pega desarmada e tiver que...
— Quando você vai me ensinar a empalar ou decapitar? — ela interrompeu, com as mãos no quadril. — O tempo todo é “acerte aqui”, “desvie ali”, blá, blá, blá. O que preciso aprender é como matar os Strigoi.
— Não, não é. — Eddie era um exemplo de paciência, e havia retomado aquela postura preparada e determinada que eu conhecia bem. — Você não está aqui para matar Strigoi. Talvez a gente possa praticar isso daqui a algum tempo, mas, agora, sua prioridade é manter os assassinos mortais longe de Jill. Isso é mais importante do que qualquer outra coisa, inclusive nossas próprias vidas. — Ele deu uma olhada na direção de Jill, para enfatizar, e havia um brilho de admiração em seus olhos.
— Mas acho que decapitação mata os Moroi também, né? — Angeline ironizou. — Além disso, você teve um problema com os Strigoi no mês passado.
Jill se remexeu ao meu lado, desconfortável, e até mesmo Eddie fez uma pausa. Era verdade: ele tivera de matar duas Strigoi pouco tempo antes, na época em que o apartamento de Adrian ainda era de Keith. Lee Donahue havia levado duas Strigoi até nós. Ele era um Moroi que tinha sido transformado em Strigoi. Depois de ser restaurado ao seu estado natural, Lee queria desesperadamente voltar a ser Strigoi. Foi por sua causa que descobrimos que aqueles que foram restaurados pelo espírito pareciam adquirir alguma resistência aos Strigoi.
As duas Strigoi a quem ele havia pedido ajuda tentaram convertê-lo, mas acabaram por matá-lo — um destino melhor do que se tornar morto-vivo, na minha opinião.
Em seguida, as Strigoi se voltaram contra nós e, sem querer, trouxeram à tona algo inesperado e alarmante (se não para elas, pelo menos para mim): meu sangue era impalatável. Elas tentaram beber e não conseguiram.
Em meio a todos os acontecimentos daquela noite, nenhum alquimista ou Moroi prestou muita atenção a esse pequeno detalhe, o que me deixou aliviada. Morria de medo de que de repente alguém resolvesse me colocar sob o microscópio.
— O que houve foi um acaso infeliz — Eddie disse, por fim. — É pouco provável que volte a acontecer. Agora observe como as minhas pernas se movem e lembre-se de que um Moroi é quase sempre mais alto que você.
Ele fez uma demonstração e lancei um olhar rápido para Jill. A expressão dela era indecifrável. Ela nunca falava sobre Lee, com quem havia namorado brevemente. Micah estava conseguindo distraí-la no quesito romântico, mas ter visto seu último namorado ávido por se transformar num monstro sanguinário não devia ser fácil de superar. Eu tinha a sensação de que ela ainda sofria, apesar de esconder muito bem.
— Você está dura demais — Eddie disse para Angeline, depois de várias tentativas.
Ela relaxou o corpo por completo, quase como uma marionete.
— Está bom assim?
— Não — Eddie respondeu, com um suspiro. — Precisa deixar um pouco de tensão.
Eddie se colocou atrás dela e tentou ajudá-la a se posicionar corretamente, mostrando como dobrar os joelhos e onde manter os braços. Angeline aproveitou a oportunidade para inclinar o corpo e se esfregar nele de maneira sugestiva. Arregalei os olhos. O.k., talvez ele não estivesse imaginando coisas.
— Ei! — Ele deu um salto para trás, com uma expressão de pavor no rosto. — Presta atenção! Você precisa aprender isso.
A expressão dela era de pura inocência angelical.
— Estou prestando atenção. Só estava tentando usar o seu corpo para aprender o que fazer com o meu — ela disse e, juro por Deus, piscou para ele.
Eddie recuou ainda mais.
Percebi que talvez devesse intervir, apesar de Eddie ter dito que lidaria com seus próprios problemas. Um salvador ainda melhor surgiu quando o sinal tocou, avisando que faltava meia hora para o início das aulas.
Levantei num salto.
— Ei, precisamos ir, senão vamos perder o café da manhã. Vamos.
Angeline me encarou, desconfiada.
— Não é você que costuma pular o café da manhã?
— Sim, mas não sou eu quem está dando duro hoje. Além disso, você ainda precisa trocar de roupa e... Espera, você já está de uniforme?
Eu nem havia notado. Sempre que Eddie e Jill treinavam, eles usavam roupas esportivas, como as que ele estava vestindo. Angeline, por sua vez, estava usando o uniforme de Amberwood — a saia e a blusa já exibiam o desgaste da batalha matinal.
— Sim, e daí? — ela perguntou, colocando a blusa para dentro onde tinha começado a descosturar. A lateral estava toda suja de lama.
— Você devia se trocar — eu disse.
— Nah. Assim está bom.
Eu não tinha tanta certeza, mas pelo menos aquilo era melhor do que o short jeans. Eddie foi vestir o uniforme e não voltou para o café da manhã. Eu sabia que ele gostava de tomar café e, como todo garoto, conseguia trocar de roupa rápido. Meu palpite era que estava sacrificando a refeição para ficar longe de Angeline.
Ouvi chamarem meu nome quando entramos no refeitório, e vi Kristin Sawyer e Julia Cavendish acenando para mim. Além de Trey, elas eram minhas amigas mais próximas em Amberwood. Eu ainda precisava aprender muito para desenvolver algum traquejo social, mas as duas me ajudavam bastante. E, com todos os elementos sobrenaturais envolvidos no meu trabalho, era bem reconfortante me sentir rodeada por pessoas normais e... bem, humanas. Por mais que eu não pudesse ser completamente sincera com elas.
— Sydney, queríamos a sua opinião sobre o que vestir — Julia disse, jogando o cabelo loiro para o lado, sinal de que estava prestes a dizer algo extremamente importante.
— Vocês querem minha opinião sobre moda? — Quase virei para trás para verificar se não havia outra Sydney ali. — Acho que ninguém nunca quis saber minha opinião sobre isso.
— Você tem roupas muito boas — Kristin insistiu. Ela tinha a pele e o cabelo escuros, além de um ar esportista que contrastava com a natureza mais feminina de Julia. — Boas demais, na verdade. Se minha mãe fosse dez anos mais nova, descolada e muito rica, ela se vestiria igual a você.
Não sabia dizer se tinha sido um elogio ou não, mas Julia não me deu tempo para analisar.
— Conta pra ela, Kris.
— Lembra aquele estágio em psicologia que eu queria fazer no semestre que vem? Fui chamada para uma entrevista — Kristin explicou. — Estou tentando decidir se uso calça e blazer ou um vestido.
Ah, isso explicava por que tinham perguntado para mim. Uma entrevista. Para qualquer outra ocasião elas poderiam ter consultado uma revista de moda. E apesar de admitir que eu provavelmente era uma autoridade em situações práticas como aquela... Bem, fiquei meio desapontada por ser esse o motivo para terem me chamado.
— De que cor eles são?
— O blazer é vermelho, e o vestido, azul-marinho.
Examinei Kristin, observando seus traços. Ela tinha uma cicatriz no pulso, resquício de uma tatuagem perigosa que eu havia ajudado a remover na época em que o esquema de tatuagens de Keith havia se disseminado pela escola.
— Vá com o vestido — declarei. — Espere... É o tipo de vestido que você usaria na igreja ou na balada?
— Na igreja — ela respondeu, nem um pouco animada.
— Vestido, então, com certeza — eu disse.
Kristin lançou um olhar triunfante para Julia.
— Viu? Não falei que ela ia dizer isso?
Julia parecia em dúvida.
— O blazer é mais descontraído. É vermelho-vivo.
— É, mas “descontração” não é o que você normalmente precisa transmitir numa entrevista de emprego — argumentei. Era difícil me manter séria em meio à discussão boba das duas. — Pelo menos não para esse tipo de emprego.
Julia ainda não parecia convencida, mas também não tentou dissuadir Kristin. Pouco depois, ela se animou novamente.
— Ei, é verdade que Trey arrumou um cara para você?
— Eu... o quê? Não. Onde você ouviu isso?
Como se eu precisasse perguntar... Era óbvio que o próprio Trey havia contado a ela.
— Trey disse que conversou com você — Kristin falou. — Sobre como esse menino é seu par perfeito.
— É uma ótima ideia, Syd — Julia disse, séria, como se estivéssemos discutindo uma questão de vida ou morte. — Seria bom pra você. Tipo, desde que as aulas começaram eu fiquei com... — ela fez uma pausa e contou os nomes nos dedos — quatro meninos. Sabe com quantos você ficou? — ela mostrou o punho fechado — zero!
— Não preciso ficar com ninguém — argumentei. — Já tenho problemas suficientes. Tenho certeza de que esse só seria mais um.
— Que problemas? — Kristin riu. — Suas notas excelentes, seu corpo divino e seu cabelo perfeito? Tipo, tudo bem, sua família é meio maluca, mas poxa... todo mundo tem tempo pra sair com alguém de vez em quando... ou com todo mundo, no caso da Julia.
— Ei! — Julia reagiu, apesar de não negar a acusação.
Kristin insistiu, o que me fez cogitar que talvez ela se sairia melhor num estágio de advocacia do que de psicologia:
— Deixe de fazer a lição de casa uma vez na vida. Dê uma chance para esse cara e nós poderemos sair todos juntos um dia desses. Vai ser divertido.
Dei um sorriso forçado e murmurei algo sem me comprometer. Todo mundo tem tempo pra sair com alguém de vez em quando... Todo mundo menos eu, claro. Senti uma surpreendente pontada de nostalgia — não de um namoro, mas simplesmente da interação social. Kristin e Julia saíam muito em um grupo grande de amigos e interesses amorosos, e viviam me convidando para ir junto. Elas achavam que eu relutava em aceitar por causa dos trabalhos da escola ou talvez porque não tivesse o menino certo para me acompanhar. Queria que fosse tão simples assim e, de repente, senti como se houvesse um gigantesco abismo me separando de Kristin e Julia. Eu era amiga delas, e elas haviam me deixado entrar completamente em suas vidas, ao passo que eu era cheia de segredos e meias verdades. Parte de mim desejava que eu pudesse me abrir com elas e confidenciar todos os dramas da minha vida de alquimista. Caramba, parte de mim só desejava que eu pudesse ir num desses passeios e abandonar meus deveres por uma noite. Nunca daria certo, claro. Se fôssemos ao cinema, sem dúvida eu receberia uma mensagem me chamando para ajudar a acobertar algum assassinato de Strigoi.
Não era raro eu me sentir daquele jeito, mas a sensação se atenuou quando as aulas começaram. Entrei no ritmo da minha rotina, confortável com sua familiaridade. Os professores passavam a maior parte das lições para fazermos durante o fim de semana, e fiquei feliz por poder entregar tudo o que havia feito durante as viagens de avião. Infelizmente, minha última aula do dia arruinou a melhora do meu humor. Aula não era exatamente a palavra. Era um estudo independente que eu fazia junto com a minha professora de história, a sra. Terwilliger.
Pouco tempo antes, a sra. Terwilliger havia se revelado uma usuária de magia, um tipo de feiticeira, ou sei lá como aquelas pessoas se autodenominavam. Os alquimistas já tinham ouvido rumores sobre elas, mas não tínhamos nenhuma informação concreta. Até onde sabíamos, só os Moroi dominavam a magia. Nós a empregávamos nas tatuagens de lírio, que continham alguns traços de sangue vampiro, mas a ideia de que os humanos também a utilizassem era maluca e perversa.
Portanto, tive uma grande surpresa quando, no mês anterior, a sra. Terwilliger não só se revelou mas também acabou me induzindo a usar um feitiço. Aquilo havia me deixado chocada e me sentindo suja.
Humanos não deviam usar magia. Não tínhamos o direito de manipular o mundo daquela maneira; era cem vezes pior do que o que Sonya fizera com o lírio vermelho na rua. A sra. Terwilliger insistia que eu tinha um talento natural para a magia e até chegou a se oferecer para me treinar. Eu não sabia o que estava por trás dessa insistência. Ela vivia falando sobre o meu potencial, mas eu não conseguia acreditar que ela iria querer me treinar sem nenhuma motivação própria. Eu ainda não tinha descoberto o que era, mas não importava. Tinha recusado a oferta. Então ela tinha encontrado um jeitinho.
— Srta. Melbourne, quanto tempo você acha que ainda vai ficar no livro do Kimball? — ela perguntou de sua escrivaninha.
Trey me apelidara de “Melbourne” por causa dela, mas, ao contrário dele, ela parecia sempre esquecer que aquele não era meu sobrenome. Ela tinha pouco mais de quarenta anos, o cabelo de um castanho opaco e um brilho sagaz permanente nos olhos.
Levantei os olhos do meu trabalho e me forcei a ser educada:
— Mais dois dias. Três, no máximo.
— Não se esqueça de traduzir os três feitiços do sono — ela disse. — Cada um tem suas próprias nuances.
— Tem quatro feitiços do sono neste livro — corrigi.
— Ah, é? — ela perguntou, inocente. — Que bom que eles estão chamando a sua atenção.
Disfarcei uma careta. Fazer com que eu copiasse e traduzisse livros de feitiços para pesquisa era a maneira dela de me ensinar. Eu acabava aprendendo os textos conforme lia. Odiava estar presa àquela armadilha, mas era tarde demais para trancar a matéria. Além disso, não dava para reclamar na diretoria que eu estava sendo obrigada a aprender magia.
Então, obediente, eu copiava os livros de feitiços e falava o mínimo possível durante nosso tempo juntas.
Enquanto isso, me enchia de indignação. Ela estava ciente do meu desconforto, mas não fazia nada para aliviar a tensão, deixando-nos num beco sem saída. Só uma coisa animava aquelas sessões.
— Olha só. Faz quase duas horas que eu não tomo um cappuccino. É admirável que eu ainda esteja funcionando. Você me faria a gentileza de ir até o Spencer’s? Depois disso, estará liberada.
O último sinal já havia tocado quinze minutos antes, mas eu estava fazendo hora extra. Fechei o livro de feitiços antes mesmo de ela terminar a frase. Quando comecei a trabalhar como sua assistente, odiava aquelas saídas constantes. Agora, não via a hora de escapar. Sem falar no meu próprio vício em cafeína.
Quando cheguei ao café, vi que Trey estava começando seu turno, o que era ótimo — não só porque ele era um rosto amigo, mas também porque sempre me dava desconto. Ele começou a preparar meu pedido antes mesmo que eu dissesse qual era, afinal, a essa altura ele já sabia de cor. Outro barista se ofereceu para ajudar, e Trey deu instruções meticulosas sobre o que fazer.
— Latte de baunilha light — Trey instruiu, pegando o caramelo para o cappuccino da sra. Terwilliger. — Use o xarope sem açúcar e leite desnatado. Não faça besteira. Ela consegue sentir o cheiro de açúcar e leite integral a quilômetros de distância.
Escondi um sorriso. Eu não podia revelar os segredos alquimistas aos meus amigos, mas ficava feliz ao perceber que eles sabiam minhas preferências de café de cor.
O outro barista, que parecia ter a nossa idade, lançou um olhar divertido para Trey.
— Eu sei o que significa light, o.k.?
— Quanta atenção aos detalhes — provoquei Trey. — Não sabia que você se importava tanto.
— Servimos bem para servir sempre — ele disse. — Além disso, hoje à noite vou precisar da sua ajuda com aquele relatório do laboratório de química. Você sempre acha as coisas que eu deixo passar.
— É para amanhã — recriminei. — Você teve duas semanas. Acho que não fez muita coisa naquela sessão de estudos com as líderes de torcida.
— Pois é, pois é. Você me ajuda? Posso até ir ao seu alojamento.
— Vou ficar até tarde com um grupo de estudos. Um de verdade. — O sexo oposto era banido dos alojamentos a partir de certo horário. — Depois posso encontrar você no campus central, se quiser.
— Quantos campi tem a escola de vocês? — o outro barista perguntou, entregando meu latte.
— Três. — Peguei o café, afoita. — Como a Gália.
— Como o quê? — Trey perguntou.
— Desculpe — respondi. — É uma referência em latim.
— Omnia Gallia in tres partes divisa est — o barista disse.
Levantei a cabeça num reflexo. Poucas coisas me distraíam do café, mas ouvir Júlio César citado no Spencer’s sem dúvida era uma delas.
— Você sabe latim? — perguntei.
— Claro — ele respondeu. — Quem não sabe?
— Só o resto do mundo — Trey murmurou, revirando os olhos.
— Ainda mais latim clássico — o barista continuou. — Quer dizer, é bem terapêutico se comparado ao latim medieval.
— Claro — eu disse. — Todo mundo sabe disso. Todas as regras ficaram caóticas depois da descentralização do Império.
Ele assentiu com a cabeça.
— Mas quando você compara com as línguas românicas, as regras começam a fazer mais sentido se você as examinar como parte de um quadro maior de evolução da língua.
— Isso — Trey interrompeu — é a coisa mais zoada que eu já vi na vida. E a mais bonitinha também. Sydney, este é Brayden. Brayden, Sydney.
Trey quase nunca me chamava pelo nome, então aquilo foi um pouco estranho, mas não tão estranho quanto a piscadela exagerada que ele me deu.
Apertei a mão de Brayden.
— Prazer.
— Igualmente — ele disse. — Você é fã de clássicos, então? — Ele fez uma pausa, me examinando com os olhos. — Viu a adaptação de Antônio e Cleópatra do Park Theatre Group?
— Não, nem sabia que eles tinham encenado. — De repente me senti meio idiota por não saber aquilo, como se devesse estar por dentro de todos os eventos artísticos e culturais da região de Palm Springs. Acrescentei, a título de explicação: — Faz só um mês que me mudei para cá.
— Acho que eles ainda vão fazer algumas apresentações nessa temporada. — Brayden hesitou novamente. — Eu veria de novo se você quisesse ir. Mas já vou avisando que é uma daquelas adaptações mais livres de Shakespeare. Com figurino moderno.
— Não me importo. Esse tipo de reinterpretação é o que torna Shakespeare atemporal.
As palavras saíram da minha boca sem que eu percebesse. Ao pronunciá-las, de repente tive uma epifania e me dei conta de que havia mais coisas rolando do que eu inicialmente tinha percebido. Repeti mentalmente as palavras de Brayden e, ao ver o enorme sorriso de Trey, logo entendi tudo. Aquele era o menino de quem Trey tinha me falado. Minha “alma gêmea”. E ele estava me chamando para sair.
— É uma ótima ideia — Trey disse. — Crianças, vocês realmente deviam sair para brincar juntos. Um dia inteiro. Aproveitem para jantar, passear na biblioteca ou sei lá o que vocês fazem para se divertir.
Brayden voltou os olhos para mim. Tinham cor de avelã, quase como os de Eddie, mas com um pouco de verde. Não tão verdes quanto os de Adrian, claro. Ninguém tinha olhos tão incrivelmente verdes. O cabelo castanho de Brayden às vezes refletia em tons dourados, dependendo da luz, e tinha um corte prático que salientava seus maxilares. Precisava admitir que ele era bem bonito.
— Eles se apresentam de quinta a domingo — ele disse. — Tenho um torneio de debates durante o fim de semana... Você pode na quinta à noite?
— Eu...
Podia? Não tinha nada planejado, até onde eu sabia. Cerca de duas vezes por semana eu levava Jill à casa de Clarence Donahue, um velho Moroi que tinha uma fornecedora. No entanto, quinta não era uma das noites programadas para o fornecimento e, tecnicamente, eu não era obrigada a comparecer aos experimentos à noite.
— Claro que ela está livre — Trey se adiantou antes que eu pudesse responder. — Não é, Sydney?
— Sim — respondi, disparando um olhar para ele. — Estou livre.
Brayden sorriu. Sorri de volta. Sobrou um silêncio nervoso. Ele parecia tão inseguro quanto eu sobre o que fazer a seguir. Eu teria pensado como aquilo era fofo se não estivesse tão preocupada em não parecer ridícula.
Trey deu uma cotovelada incisiva nele.
— Agora é a parte em que você pede o número dela.
Brayden assentiu, apesar de parecer descontente com a cotovelada.
— Certo, certo. — Ele tirou o celular do bolso. — É Sydney com “y” ou com “i”? — Trey revirou os olhos. — O que foi? Eu chutaria com “y”, mas como os nomes estão cada vez menos convencionais, nunca se sabe. Só queria colocar certo no meu celular.
— Eu teria feito o mesmo — concordei, e então passei meu número.
Ele levantou os olhos e abriu um sorriso para mim.
— Ótimo. Mal posso esperar.
— Eu também — respondi, e estava sendo sincera.
Saí do Spencer’s completamente pasma. Eu tinha um encontro marcado. Como isso tinha acontecido?
Alguns segundos depois, Trey veio correndo atrás de mim, ainda usando o avental de barista, e me alcançou quando eu destravava o carro.
— E então? — perguntou. — Eu estava certo ou completamente certo?
— Sobre o quê? — retorqui, apesar de saber o que estava por vir.
— Sobre Brayden ser sua alma gêmea.
— Eu falei pra você...
— Eu sei, eu sei. Você não acredita em almas gêmeas. Mesmo assim — disse, com um sorriso —, se aquele garoto não é perfeito pra você, então não sei quem é.
— Bem, vamos ver. — Equilibrei o copo da sra. Terwilliger sobre o carro para poder beber o meu. — O fato de ele não gostar de interpretações modernas de Shakespeare definitivamente pode ser um problema.
— Sério? — Trey perguntou, me encarando incrédulo.
— Não — respondi, olhando feio para ele. — Eu estava brincando. Bem, talvez. — O latte que Brayden havia feito para mim estava muito bom, então eu estava disposta a conceder a ele o benefício da dúvida na questão do Shakespeare. — Por que você se importa tanto com a minha vida amorosa, afinal?
Trey deu de ombros e enfiou as mãos no bolso. Gotas de suor já se formavam sobre sua pele bronzeada por causa do sol do final da tarde.
— Não sei. Sinto que devo uma pra você depois de tudo que rolou com as tatuagens. E também por toda sua ajuda com os trabalhos da escola.
— Na verdade, você nem precisa da minha ajuda. E quanto às tatuagens... — Franzi a testa enquanto a imagem de Keith esmurrando o vidro voltava a se formar na minha cabeça. O sangue de vampiro que Keith havia traficado resultara em tatuagens anabolizantes que causaram bastante estrago em Amberwood. Claro que Trey não sabia do meu interesse pessoal na questão. Só sabia que eu havia dado um jeito nas pessoas que se aproveitavam das tatuagens para ganhar vantagens esportivas. — Fiz aquilo porque era a coisa certa a fazer.
Ele abriu um sorriso.
— Claro. Mesmo assim, evitou muito desgosto do meu pai.
— Espero que sim. Agora você não tem mais nenhum rival na equipe. O que mais seu pai quer?
— Ah, sempre tem alguma coisa em que ele acha que eu podia ser melhor. Não é só com o futebol americano.
Trey já havia feito alusão a isso antes.
— Sei como é — eu disse, pensando em meu próprio pai.
Um momento de silêncio se estabeleceu entre nós. Depois de um tempo, ele disse:
— Para piorar, meu primo perfeito está vindo para a cidade. Tudo o que eu faço parece lixo perto dele. Você tem um primo assim também?
— Humm. Na verdade, não.
A maioria dos meus primos era por parte de mãe, e meu pai costumava evitar a família dela.
— Você deve ser a prima perfeita — Trey resmungou. — Enfim, sempre existem essas expectativas na família... esses testes. O futebol me garantiu certo respeito agora. — Ele piscou para mim. — E minha ótima nota de química também.
Essa última indireta não passou batida.
— Tudo bem. Mando uma mensagem pra você quando voltar, e a gente dá um jeito no relatório.
— Valeu. E vou ter uma conversinha com Brayden pra ele não avançar o sinal na quinta.
Minha cabeça ainda estava pensando em latim e Shakespeare.
— Que sinal?
Trey balançou a cabeça.
— Sinceramente, Melbourne, não sei como você sobreviveu tanto tempo sem mim.
— Ah — eu disse, corando. — Aquilo.
Ótimo. Agora eu tinha mais uma coisa com que me preocupar. Trey achou graça da situação.
— Cá entre nós, Brayden deve ser o último cara no mundo com quem você precisa se preocupar. Acho que ele é tão perdido quanto você. Se eu não me importasse tanto com a sua castidade, provavelmente daria uma aula pra ele sobre como tentar alguma coisa.
— Bem, obrigada por manter meus melhores interesses em mente — respondi, seca. — Sempre quis um irmão para cuidar de mim.
Ele me olhou, curioso.
— Você não tem, sei lá, três irmãos?
Ah, não.
— Hum, quis dizer em sentido figurado. — Tentei não entrar em pânico. Era raro eu soltar um fora sobre a história que tínhamos inventado para nossa família. Eddie, Adrian e Keith já tinham se passado por meus irmãos em algum momento. — Nenhum deles se interessa tanto pela minha vida amorosa. E agora eu estou muito interessada em ficar no ar-condicionado. — Abri a porta do carro, de onde veio uma onda de calor. — Hoje à noite falo com você e ajudo com seu relatório.
Trey assentiu, parecendo querer voltar para o café também.
— E eu ajudo você se tiver alguma outra dúvida sobre encontros românticos.
Eu esperava que meu olhar taxativo deixasse clara minha opinião sobre o assunto, mas depois que ele foi embora e liguei o ar-condicionado no máximo, minha petulância se desfez, dando lugar a preocupação. A pergunta que não queria calar se repetiu na minha cabeça.
Como eu pretendia sair viva do encontro?

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