23 de outubro de 2017

Capítulo 3

Sydney

PERDOEI A TÁTICA DE CHOQUE DOS ALQUIMISTAS porque, assim que meus olhos se acostumaram à luz, eles me ofereceram um banho.
A parede da cela se abriu e fui cumprimentada por uma jovem que devia ser uns cinco anos mais velha que eu. Ela usava o tipo de terninho chique que os alquimistas adoram, com o cabelo preto preso em um coque elegante. Sua maquiagem era impecável e seu perfume parecia de lavanda. O lírio dourado em sua bochecha reluzia. Minha visão ainda não estava totalmente recuperada, mas, ao lado dela, ganhei consciência do meu estado — fazia séculos que eu não me limpava de verdade e minha camisola mais parecia um pano de chão.
— Sou Sheridan — ela disse com frieza, sem explicar se esse era seu primeiro nome ou o sobrenome. Fiquei curiosa para saber se ela era uma das pessoas por trás da voz na cela. Tinha quase certeza de que elas se alternavam, usando algum tipo de sintetizador para que a voz parecesse sempre a mesma. — Sou a atual diretora daqui. Me acompanhe, por favor.
Ela atravessou o corredor em seus sapatos altos de couro, e a segui sem dizer nada, não confiando em mim mesma para falar por enquanto. Embora tivesse certa liberdade de movimento na minha cela, também havia limitações, então não andara muito. Meus músculos rígidos protestaram contra a mudança súbita e eu me movia devagar atrás dela, um passo descalço e agonizante de cada vez. Passamos por várias portas sem placas ao longo do caminho e me perguntei o que havia atrás delas. Outras celas escuras com vozes metálicas?
Minha preocupação mais imediata, porém, era uma saída, e não parecia haver nenhuma. Tampouco havia janelas ou qualquer indicação de como dar o fora daquele lugar.
Sheridan chegou ao elevador muito antes de mim e me esperou pacientemente. Quando ambas entramos, subimos um andar e chegamos a um corredor igualmente deserto. Uma porta dava para o que parecia um banheiro de academia, com pisos ladrilhados e chuveiros comunitários. Sheridan apontou para uma baia em que havia sabonete e xampu.
— A água vai correr por cinco minutos depois que você abrir a torneira — ela avisou. — Então use com prudência. Haverá roupas esperando por você quando terminar. Estarei no corredor enquanto isso.
Ela saiu do vestiário, supostamente para me dar privacidade, mas eu não tinha dúvidas de que ainda estava sendo observada. Tinha perdido qualquer ilusão de pudor no momento em que chegara naquele lugar. Comecei a tirar a camisola quando notei um espelho ao meu lado na parede e, mais importante, quem me olhava no reflexo.
Eu sabia que estava mal, mas ver a realidade cara a cara era outra questão. A primeira coisa que me deixou espantada foi o peso que havia perdido — era irônico, porque a grande obsessão da minha vida sempre fora ser magra. Sem dúvida, havia atingido, e ultrapassado, esse objetivo. Tinha passado de magra a malnutrida, o que ficava claro não só pela maneira como a camisola caía sobre meu corpo como também pelo meu rosto descarnado. Aquele olhar vazio era intensificado pelas olheiras escuras sob os olhos e pela palidez no restante do rosto devida à falta de sol. Eu parecia estar me recuperando de uma doença grave.
Meu cabelo também estava ruim. Qualquer trabalho decente que eu achava estar fazendo lavando-o no escuro se provou uma piada agora. Os fios estavam fracos e oleosos, pendendo tristes e emaranhados. Eu continuava loira, claro, mas a cor estava sem brilho e escurecida pela sujeira e pelo suor que, por mais que eu esfregasse, não dava para tirar com aquele paninho. Adrian sempre dizia que meu cabelo parecia ouro e brincava que eu tinha uma auréola. O que ele diria agora?
Adrian não me ama por causa do meu cabelo, pensei, encarando o reflexo. Meus olhos estavam firmes e castanhos. Ainda eram os mesmos. Isso é tudo exterior. Minha alma, minha aura, meu caráter... essas coisas não mudaram.
Determinada, ia dar as costas para o reflexo quando notei outra coisa. Meu cabelo estava uns três centímetros mais longo do que da última vez que o vira. Embora eu soubesse que precisava raspar as pernas, não fazia ideia na cela de como andava meu cabelo. Agora, tentei lembrar quanto ele crescia por mês. Mais ou menos um centímetro? Isso sugeria pelo menos dois meses, talvez três levando em conta o efeito da dieta precária. Esse choque foi mais assustador do que minha aparência.
Três meses! Eles tiraram três meses da minha vida, me drogando no escuro.
O que tinha acontecido com Adrian? Jill? Eddie? Qualquer coisa podia ter acontecido na vida deles nesses três meses. Será que estavam bem e em segurança? Ainda em Palm Springs?
Um novo pânico surgiu dentro de mim e me forcei a conter essa sensação. Sim, muito tempo havia se passado, mas eu não podia deixar que isso me afetasse. Os alquimistas já estavam fazendo jogos mentais suficientes comigo sem a minha ajuda.
Mas ainda assim... três meses.
Tirei a roupa esfarrapada e entrei na ducha, fechando a cortina atrás de mim. Quando abri a torneira e a água saiu quente, quase caí no chão de alegria. Depois do frio que tinha passado nos últimos três meses, ali estava todo o calor que eu queria. Quer dizer, não todo o calor.
Enquanto aumentava a temperatura ao máximo, desejei secretamente que houvesse uma banheira para poder mergulhar naquela água. Mas só o chuveiro já era uma bênção, e fechei os olhos, suspirando com o primeiro prazer que sentia em muito tempo.
Então, lembrando do aviso de Sheridan, abri os olhos e encontrei o xampu. Passei e enxaguei o cabelo três vezes, esperando que fosse o suficiente para tirar o grosso da sujeira. Provavelmente levaria mais alguns banhos até ele ficar limpo de verdade. Em seguida, esfreguei o corpo com o sabonete até ficar com a pele vermelha e com um leve cheiro de antisséptico, depois só fiquei me deliciando sob a água fumegante até ela acabar.
Ao sair, encontrei roupas dobradas cuidadosamente em cima de um banco. Era um uniforme básico, uma calça larga e uma camiseta do tipo que funcionários de hospital — ou, no caso, prisioneiros — usavam. Cáqui, afinal, os alquimistas tinham que manter certo nível de bom gosto. Eles também me deram meias e um par de sapatos marrons simples, e não foi uma surpresa descobrir que eram exatamente do meu tamanho. Um pente completava o conjunto, nada chique, mas suficiente para me ajeitar um pouco. O reflexo que me olhava de volta agora não tinha uma aparência exatamente boa, mas sem dúvida estava “menos ruim”.
— Se sentindo melhor? — Sheridan perguntou, com um sorriso que não se refletia em seus olhos. A melhora em minha aparência não era nada perto da elegância minuciosa dela, mas me consolei pensando que ainda tinha meu respeito próprio e a capacidade de pensar sozinha.
— Sim — respondi. — Obrigada.
— Vai precisar disso também — ela disse, me dando um cartãozinho plástico. Tinha meu nome, um código de barras e uma foto de tempos melhores. Um pequeno clipe plástico na parte de trás permitia que fosse preso na gola do uniforme.
Ela me levou de volta para o elevador.
— Estamos muito felizes por você ter escolhido o caminho para a redenção. De verdade. Estou ansiosa para guiá-la na jornada de volta à luz.
O elevador nos levou para outro andar e uma nova sala, onde havia um tatuador e uma maca.
Todo o conforto de um banho quente e roupas de verdade caíram por terra. Eles iriam me tatuar de novo? Mas é claro. Por que depender só de tortura física e psicológica se podiam acrescentar um pouco de controle mágico?
— Só queremos fazer um pequeno retoque — Sheridan explicou, com a voz animada. — Afinal, já faz um tempo.
A verdade é que fazia menos de um ano, mas eu sabia qual era o objetivo deles. As tatuagens alquimistas continham tinta com sangue de vampiro misturado a feitiços de compulsão para reforçar a lealdade. Obviamente, a minha não estava funcionando. Mesmo sendo mágica, a compulsão era apenas uma sugestão forte, que poderia ser vencida com força de vontade suficiente. Eles provavelmente dobrariam a dose normal com a esperança de me tornar mais obediente e me fazer aceitar qualquer retórica a que fosse submetida.
O que eles não sabiam era que eu havia tomado providências para me proteger exatamente disso. Antes de ser capturada, tinha criado minha própria tinta, feita com magia humana — outra coisa abominável para os alquimistas. Aparentemente, essa magia negava a compulsão que havia na tinta feita com sangue de vampiro. Por outro lado, eu não tivera a oportunidade de injetar essa tinta na minha tatuagem para ter uma camada de proteção extra. Estava contando com o que uma bruxa que eu conhecia me dissera: que o próprio ato de praticar magia me protegeria. Segundo ela, a magia humana que eu usava entrava no meu sangue, o que neutralizava o sangue de vampiro da tatuagem alquimista. Claro, eu não tivera nenhuma chance de praticar feitiços no confinamento e minha esperança era que a magia que havia praticado no passado tivesse deixado uma marca permanente em mim.
— Volte a se tornar uma de nós — disse Sheridan, quando a agulha do tatuador encostou no meu rosto. — Renuncie a seus pecados e busque a redenção. Junte-se a nós na batalha para manter os humanos livres da mácula dos vampiros e dampiros. Eles são criaturas das trevas que não fazem parte da ordem natural.
Fiquei tensa, e não por causa da agulha perfurando minha pele. E se o que me falaram estivesse errado? E se o uso da magia não me protegesse? E se, naquele exato momento, a compulsão alquimista estivesse entrando no meu corpo, usando seu poder traiçoeiro para mudar meus pensamentos? Esse era um dos meus maiores medos — que mexessem com a minha mente. De repente, essa ideia me encheu de pavor e tive dificuldade para respirar, o que fez o tatuador parar e perguntar se estava doendo. Engolindo em seco e tentando esconder o pânico, fiz que não e deixei que ele continuasse.
Quando ele terminou, não me senti diferente. Ainda amava Adrian e meus amigos Moroi e dampiros. Será que era o suficiente? Ou a tinta demoraria para surtir efeito? E se o uso de magia não tivesse me protegido, será que minha própria força de vontade me salvaria? Eu tinha superado o último retoque. Será que conseguiria fazer isso mais uma vez?
Sheridan me guiou até a saída depois que o tatuador me liberou, falando como se eu tivesse acabado de sair de um spa e não passado por uma tentativa de lavagem cerebral:
— Sempre me sinto tão renovada depois de um retoque, você não?
Era meio inacreditável que ela pudesse agir com tanta naturalidade, como se fôssemos duas amigas saindo para um passeio, sendo que ela e os outros tinham me deixado meses numa cela escura, seminua e morrendo de fome. Ela esperava que eu me sentisse tão grata pelo banho quente e pelas roupas que perdoaria todo o resto? Sim, percebi segundos depois, provavelmente era o que ela esperava. Devia ter muita gente que saía daquela escuridão disposta a absolutamente tudo para ter de volta simples confortos da vida.
Enquanto subíamos para outro andar, notei que minha mente estava mais clara e meus sentidos mais aguçados do que não sentia havia meses. Provavelmente por um bom motivo. Os alquimistas não estavam mais me submetendo àquele gás, não com Sheridan por perto, então aquele devia ser o primeiro ar puro que eu respirava em muito tempo. Até então, não tinha notado como a diferença era enorme. Adrian talvez conseguisse me visitar em sonhos agora, mas isso teria que esperar. No mínimo, eu poderia praticar magia de novo, já que meu sistema não estava mais poluído, e, com sorte, lutar contra quaisquer efeitos da tatuagem. Mas encontrar um momento sem vigilância não seria fácil.
O próximo corredor em que entramos continha uma série de quartos idênticos com as portas abertas, revelando camas estreitas. Continuei prestando atenção em todo lugar por onde passava, cada andar e cada quarto, ainda em busca de uma saída que parecia não existir.
Sheridan me levou para um quarto com o número oito na porta.
— Sempre achei oito um número da sorte — ela me disse. — Rima com “biscoito”. — Ela apontou para uma das duas camas no quarto. — Essa é a sua.
Por um momento, fiquei tão maravilhada com a ideia de uma cama que não me dei conta das implicações daquilo. Não que parecesse muito confortável, mas mesmo assim... Era infinitamente melhor do que o chão da cela, mesmo com o colchão duro e lençóis tão finos que pareciam minha antiga camisola. Eu conseguiria dormir naquela cama, sem dúvida. Poderia dormir e sonhar com Adrian...
— Vou dividir o quarto? — perguntei, finalmente notando a outra cama. Era difícil dizer se o quarto estava ocupado, já que não havia nenhum pertence pessoal ali.
— Sim. O nome dela é Emma. Ela pode te ensinar muita coisa. Estamos muito orgulhosos do progresso dela. — Sheridan deu um passo para fora da sala, então pelo jeito não ficaríamos ali. — Vem, você pode conhecer Emma agora. E os outros também.
Um corredor que saía daquele em que estávamos nos fez passar diante de salas de aula vazias. Enquanto o atravessávamos, me dei conta de algo que meus sentidos enfraquecidos não captavam havia muito tempo: o cheiro de comida. Comida de verdade. Sheridan estava me levando para um refeitório. Uma fome que eu nem sabia estar sentindo ardeu no meu estômago quase que dolorosamente. Eu tinha me adaptado à dieta escassa da prisão, tanto que havia considerado meu estado malnutrido como normal. Só então percebi o quanto desejava uma refeição que não fosse cereal morno.
Na verdade, o refeitório era minúsculo se comparado ao de Amberwood. Tinha cinco mesas, três delas ocupadas por pessoas com uniformes cáqui iguais ao meu. Aparentemente, eram meus companheiros de prisão, todos com lírios dourados na bochecha. Havia doze ao todo, o que me tornava a número treze. Imaginei o que Sheridan diria sobre isso. Os outros detentos eram de idade, sexo e raças diferentes, mas tinha certeza de que eram todos americanos. Em algumas prisões, fazer os detentos se sentirem diferentes era parte do processo. Como o objetivo daquela era nos trazer de volta ao rebanho, era mais provável que nos pusessem junto com pessoas da mesma cultura e da mesma língua, pessoas que poderíamos usar de exemplo se nos esforçássemos. Ao olhar para elas, fiquei tentando adivinhar suas histórias, se algumas delas poderiam ser aliadas.
— Aquele é Baxter — Sheridan disse, apontando para um homem sério vestido de branco. Ele estava atrás de uma janelinha que dava para o refeitório, de onde provavelmente vinha a comida. — A comida dele é deliciosa. Tenho certeza de que vai adorar. E aquela é Addison. Ela é a supervisora do almoço e da aula de artes.
Se ela não tivesse apresentado Addison, eu dificilmente saberia que era uma mulher. Ela devia ter por volta de uns cinquenta anos e vestia um terninho tão sério quanto o de Sheridan, mas menos elegante, e estava parada junto à parede com o olhar atento. Tinha o cabelo raspado rente e um rosto com feições duras que parecia não combinar com o fato de que estava mascando chiclete. O lírio dourado era seu único adorno. Era a última pessoa que eu imaginaria como professora de artes, o que, por sua vez, fez cair outra ficha:
— Vou ter aula de artes?
— Sim, claro — disse Sheridan. — Criatividade é uma excelente terapia para purificar a alma.
Quando entramos no refeitório, um murmúrio baixo de conversas acabou subitamente quando os outros nos notaram. Todos os olhos, tanto de detentos como de supervisores, se voltaram para mim. E nenhum deles parecia amigável.
Sheridan limpou a garganta, como se já não fôssemos o centro das atenções.
— Pessoal? Temos uma nova hóspede que gostaria de apresentar a vocês. Esta é Sydney. Sydney acabou de sair do período de reflexão e está ansiosa para se juntar a vocês na jornada para a purificação.
Levei um segundo para entender que “período de reflexão” devia ser o nome que eles davam ao confinamento na solitária escura.
— Sei que vai ser difícil para vocês aceitarem a presença dela — Sheridan continuou, com a voz doce. — O que é compreensível. Ela não só está muito envolta em trevas, como se corrompeu da maneira mais profana possível: pelo contato íntimo e romântico com vampiros. Entendo se não quiserem interagir com ela para não se deixarem corromper, mas espero que a mantenham em suas orações.
Sheridan voltou seu sorriso mecânico para mim.
— Vejo você depois, na hora da comunhão.
Eu já estava nervosa e apreensiva antes, mas, quando ela virou para sair, um novo tipo de pânico me atingiu.
— Espere. O que devo fazer?
— Comer, é claro. — Ela me olhou de cima a baixo. — A menos que esteja preocupada com seu peso. A decisão é sua.
Ela me deixou no refeitório silencioso, com todos aqueles olhos me encarando. Tinha saído de um inferno para entrar em outro. Nunca me sentira tão envergonhada, exposta para estranhos, com meus segredos revelados. Transtornada, tentei pensar em como agir. Qualquer coisa para me livrar daqueles olhares fixos e dar um passo em direção a meu reencontro com Adrian. Comer, Sheridan havia dito. Como fazer isso? Aquele lugar não era como Amberwood, onde a diretoria dava a alguns alunos do último ano a tarefa de ajudar os calouros. Pelo contrário: Sheridan tinha feito o possível para estimular todos a não me ajudar.
Era uma tática genial, concluí, que me faria buscar desesperadamente a aprovação dos outros e talvez enxergar uma pessoa como Sheridan como minha única “amiga”.
Pensar na psicologia dos alquimistas me deixou mais calma. Lógica e solução de enigmas eram coisas com as quais eu sabia lidar. Certo. Se eles queriam que eu me virasse sozinha, era o que eu faria. Parei de olhar para os outros detentos e caminhei diretamente para a janelinha, onde estava a cara fechada do cozinheiro Baxter. Parei na frente dele com uma expressão ansiosa, torcendo para que fosse suficiente. Não foi.
— Erm, com licença — eu disse, baixinho. — Posso... — Que refeição Sheridan disse que era? Eu tinha perdido a noção do tempo na solitária. — ... almoçar?
Ele respondeu com um resmungo e deu as costas, fazendo algo fora do meu campo de visão. Quando se virou para mim, me entregou uma bandeja com um pouco de comida.
— Obrigada — agradeci, pegando a bandeja. Ao fazer isso, minha mão tocou de leve uma de suas luvas. Ele soltou uma exclamação de espanto e seu rosto se encheu de repulsa. Então cuidadosamente tirou a luva que eu tinha tocado, jogou no lixo e pôs uma nova.
Fiquei olhando embasbacada por alguns momentos e depois me virei com a minha bandeja.
Nem tentei conversar com os outros; em vez disso, sentei numa das mesas vazias. Muitos continuaram me encarando, mas alguns retomaram suas refeições e conversas. Tentei não pensar se estavam falando de mim e me concentrei na refeição. Era uma pequena porção de espaguete com um molho vermelho que parecia enlatado, uma banana e um copo de leite semidesnatado. Antes de ir para lá, eu nunca teria tocado nenhuma daquelas coisas no dia a dia. Teria feito um discurso sobre a gordura do leite e sobre como a banana era uma das frutas com maior teor de açúcar. Teria questionado a qualidade da carne e os conservantes no molho vermelho.
Todas essas frescuras tinham ficado para trás. Aquilo era comida. Comida de verdade, não um cereal gosmento e sem gosto. Primeiro devorei a banana, quase sem parar para respirar, e precisei me controlar para não tomar o leite de um gole só. Algo me dizia que Baxter não deixava a gente repetir. Fui mais cuidadosa com o espaguete, apenas porque meu estômago talvez não reagisse muito bem à mudança súbita na dieta. Meu estômago discordou e quis que eu mandasse tudo para dentro e lambesse a bandeja. Em comparação ao que andava comendo nos últimos meses, aquele espaguete estava tão delicioso que parecia ter vindo de um restaurante gourmet da Itália. Fui salva da tentação de comer tudo quando um sinal baixo soou cinco minutos depois. Os outros detentos se levantaram em massa e levaram suas bandejas para uma grande lata de lixo, monitorados por Addison. Jogaram fora os restos de comida e então empilharam as bandejas com cuidado num carrinho perto do lixo. Rapidamente fiz o mesmo e depois segui os outros, que estavam saindo do refeitório.
Depois da reação de Baxter ao meu toque, tentei poupar os demais detentos do transtorno de ficar perto de mim e mantive uma distância respeitosa. No entanto, tivemos todos que passar por um corredor estreito, e as manobras que alguns deles fizeram para não trombar em mim teriam sido cômicas em outras circunstâncias. Aqueles que não estavam perto faziam o possível para não ter contato visual comigo e fingiam que eu não existia. Os que não tinham como evitar me lançavam olhares gélidos e fiquei chocada ao ouvir um deles murmurar:
— Vadia.
Tinha me preparado para muitas coisas e esperava ser chamada de diversos nomes, mas esse me pegou desprevenida. Fiquei surpresa com a dor que senti.
Segui o grupo até uma sala de aula e esperei que todos tivessem sentado para não escolher o lugar errado. Quando finalmente sentei em um lugar vazio, as duas pessoas mais próximas afastaram suas carteiras. Elas deviam ter o dobro da minha idade, o que aumentava o ar tragicômico e perverso da situação. O professor, um alquimista de terno, lançou um olhar cortante de sua mesa quando ouviu o movimento.
— Elsa, Stuart. Não é aí que ficam suas carteiras.
A contragosto, os dois moveram as carteiras de volta às fileiras alinhadas; o amor dos alquimistas pela ordem tinha vencido seu medo do mal. Porém, pelos olhares feios que Elsa e Stuart me lançaram, ficou claro que estavam acrescentando essa reprimenda à lista de pecados dos quais eu era culpada.
O professor se apresentou como Harrison, e eu também não soube se esse era seu nome ou sobrenome. Ele era um alquimista mais velho, com o cabelo branco rareando e uma voz nasalada, e logo descobri que estava lá para nos ensinar sobre atualidades. Por um momento, fiquei animada, achando que saberia um pouco do mundo lá fora. Logo ficou claro que era uma aula altamente específica de atualidades.
— O que estamos olhando? — ele perguntou quando uma imagem grotesca de duas meninas com a garganta cortada apareceu numa tela gigante na frente da sala. Várias mãos se levantaram e ele deu a palavra à primeira. — Emma?
— Ataque de Strigoi, senhor.
Isso eu sabia, mas estava mais interessada em Emma, minha colega de quarto. Ela tinha mais ou menos minha idade e estava sentada numa postura tão anormalmente ereta que tive certeza de que teria problemas nas costas no futuro.
— Duas meninas mortas perto de um clube noturno em São Petersburgo — Harrison confirmou. — Elas não tinham nem vinte anos. — A imagem mudou para outra cena horrível, de um homem mais velho que obviamente tivera o sangue drenado. — Budapeste. — Depois outra imagem. — Caracas. — Mais uma. — Nova Escócia. — Ele desligou o projetor e começou a andar de um lado para o outro na frente da sala. — Queria poder dizer que essas fotos são do ano passado. Ou do mês passado. Mas infelizmente não é o caso. Alguém quer arriscar um palpite de quando elas foram tiradas?
A mão de Emma se levantou rapidamente.
— Semana passada, senhor?
— Correto, Emma. Estudos mostram que os ataques de Strigoi não diminuíram desde o ano passado. Pelo contrário: as evidências apontam que estão aumentando. Por que vocês acham que isso está acontecendo?
— Porque os guardiões não estão caçando os Strigoi como deveriam? — De novo, quem respondeu foi Emma.
Ai meu Deus, pensei, vou dividir o quarto com a Sydney Sage da reeducação.
— Essa é uma teoria — Harrison disse. — Os guardiões estão muito mais interessados em proteger os Moroi passivamente do que em caçar Strigoi pelo bem de todos. Tanto que, quando sugerimos aumentar o número de guardiões reduzindo a idade mínima de recrutamento, os Moroi foram egoístas e recusaram. Aparentemente, eles acham que estão seguros e não veem necessidade em nos ajudar.
Precisei morder a língua. Eu sabia muito bem que isso não era verdade. Os Moroi estavam sofrendo com um baixo número de guardiões porque não existiam dampiros suficientes. Os dampiros não conseguiam se reproduzir com outros dampiros. A raça havia surgido num tempo em que humanos e Moroi se relacionavam com liberdade e, atualmente, davam continuidade a ela por meio da mestiçagem com os Moroi, o que sempre resultava em filhos dampiros. Era um mistério genético até para os alquimistas. Meus amigos tinham dito que a maioridade dos guardiões era um assunto em alta agora, sobre o qual a rainha dos Moroi, Vasilisa, tinha opiniões fortes. Ela estava lutando para impedir que dampiros se tornassem guardiões antes dos dezoito anos, não por egoísmo, mas porque achava que eles mereciam a chance de aproveitar a adolescência antes de saírem por aí arriscando a vida.
Porém, eu sabia que aquele não era o lugar para expor esse ponto de vista. Mesmo que soubessem disso, ninguém daria ouvidos e eu não podia correr o risco de falar. Precisava me manter na linha e agir como se estivesse no caminho para a redenção a fim de assegurar o maior número possível de privilégios, por mais doloroso que fosse ouvir o discurso de Harrisson.
— Outro fator pode ser que os próprios Moroi estejam ajudando a aumentar a população de Strigoi. Se questionados, a maioria dos Moroi diz que não quer nenhuma relação com os Strigoi. Mas será que realmente podemos confiar neles, quando podem se transformar naqueles monstros perversos com tanta facilidade? É quase um estágio de desenvolvimento para os Moroi. Eles levam vidas “normais”, com família e trabalho, e, quando a idade começa a chegar... enfim, é conveniente beber um pouquinho a mais de suas vítimas “voluntárias”, dizer que foi um “acidente”... e puf! — A quantidade de aspas que Harrison fazia com os dedos era impressionante. — Viram Strigoi, imortais e intocáveis. Como poderiam evitar? Os Moroi não são criaturas com força de vontade, como nós, humanos. E, sem dúvida, não têm almas tão fortes. Como essas criaturas podem resistir à sedução da vida eterna? — Harrison abanou a cabeça fingindo tristeza. — É uma pena, mas esse é o motivo por que as populações de Strigoi não estão caindo. Nossos supostos “aliados” não estão exatamente ajudando.
— Você tem provas?
A voz da discórdia foi um choque para todos, ainda mais quando perceberam que vinha de mim. Fiquei com vontade de me dar um tapa na testa e retirar o que tinha dito. Não fazia nem duas horas que saíra do confinamento! Mas já era tarde demais e as palavras estavam no ar.
Além do meu interesse pessoal pelos Moroi, odiava quando as pessoas apresentavam especulações sensacionalistas como se fossem fatos. Os alquimistas deviam saber disso, afinal, tinham me treinado nas artes da lógica.
Todos os olhares voltaram a recair sobre mim e Harrison caminhou até a minha carteira.
— É Sydney, correto? É um prazer ter você aqui, recém-saída do período de reflexão. É um prazer ainda maior ouvi-la falar tão pouco tempo depois de se juntar a nós. A maioria dos novatos espera um pouco mais. Agora... pode fazer a gentileza de repetir o que acabou de dizer?
Engoli em seco, me odiando novamente por ter aberto a boca, mas sabendo que era tarde demais para voltar atrás.
— Perguntei se o senhor tem provas. Seus argumentos são convincentes e parecem fazer sentido, mas, se não tivermos provas para apoiar essas acusações, nós mesmos não passamos de monstros que saem por aí espalhando mentiras e propagandas enganosas.
O resto dos detentos tomou fôlego e Harrisson estreitou os olhos.
— Entendi. Bom, você tem alguma explicação apoiada em “provas”? — Mais aspas com os dedos.
Por que eu não podia simplesmente ter ficado quieta?
— Então — comecei devagar. — Mesmo se existissem tantos guardiões dampiros quanto Strigoi, a luta não seria equilibrada. Os Strigoi são quase sempre mais rápidos e mais fortes e, apesar de alguns guardiões matarem Strigoi sozinhos, normalmente eles precisam caçar em grupo. Quando olhamos para a população dampira, dá pra ver que ela não está à altura da Strigoi. Os dampiros estão em menor número. Não conseguem se reproduzir com tanta facilidade quanto os Moroi ou os humanos... ou mesmo os Strigoi, se o senhor chamar isso de reprodução.
— Bom, pelo que entendo — Harrison disse —, você é uma especialista em reprodução Moroi. Talvez queira ajudar a aumentar a quantidade de dampiros pessoalmente, não é?
Risadinhas surgiram pela sala e não consegui não corar de vergonha.
— Não era a minha intenção, senhor. Só estou dizendo que, se formos analisar criticamente os motivos pelos quais...
— Sydney — ele interrompeu —, infelizmente nós não vamos analisar nada, já que está claro que você ainda não está pronta para participar desta aula.
Meu coração parou. Não. Não, não, não. Eles não podiam me mandar de volta para a escuridão, quando mal tinha saído de lá.
— Senhor...
— Eu acho — ele continuou — que um pouco de purgação pode deixar você mais apta a participar com o nosso grupo.
Eu não fazia ideia do que isso significava, mas dois homens fortes de terno entraram subitamente na sala, que devia estar sob vigilância. Tentei protestar, mas os homens rapidamente me escoltaram para fora da sala antes que conseguisse fazer um apelo a Harrison.
Então, argumentei com os brutamontes, dizendo que aquilo era claramente um mal-entendido e que, se me dessem uma segunda chance, poderíamos resolver tudo. Mas eles continuaram quietos e de cara fechada, e senti um frio na barriga com a ideia de ficar trancafiada de novo.
Eu me achara tão superior aos joguinhos mentais dos alquimistas e seus itens de conforto que não tinha percebido como já estava dependente deles. A ideia de ficar sem minha dignidade e necessidades básicas era quase insuportável.
Mas eles só me levaram um andar abaixo dessa vez, não de volta para as celas. Na sala onde entramos, a luz era tão forte que fazia doer os olhos. Havia uma grande tela na frente e uma cadeira enorme com amarras nos braços de frente para ela. Sheridan estava em pé perto da cadeira, parecendo calma como sempre... e segurando uma agulha.
Não era uma agulha de tatuador. Era uma coisa gigante e medonha, do tipo usado em injeções médicas.
— Sydney — ela disse com doçura, enquanto os homens me prendiam na cadeira. — É uma pena revê-la tão cedo.

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