19 de outubro de 2017

Capítulo 3

Adrian

EU NÃO SABIA SE SYDNEY TERIA RECEBIDO UMA LIGAÇÃO dos pais ou só enfrentado a surpresa de Zoe, mas tinha certeza de que já saberia sobre o divórcio quando fosse visitá-la em sonho.
Os poucos usuários de espírito que eu conhecia eram muito bons em cura, mas nenhum podia andar por sonhos com tanta habilidade quanto eu. Eu gostava de saber que era bom em alguma coisa, e por incrível que pareça requeria um nível baixo de espírito: apenas um zumbido constante, em vez da explosão que a cura exigia. O lado ruim era que, ao contrário da pessoa que eu visitava, eu não estava dormindo — ficava num tipo de estado meditativo —, portanto, acabaria exausto se o sonho durasse muito tempo. Mas, como nunca dormia muito mesmo, não fazia grande diferença.
Levei Sydney para um sonho por volta da meia-noite, fazendo com que nos materializássemos em um dos lugares preferidos dela: o pátio da Getty Villa, um museu de história antiga em Malibu. Ela correu até mim imediatamente, com o olhar transtornado.
— Adrian…
— Fiquei sabendo — eu disse, segurando as mãos dela. — Estava lá quando Zoe recebeu o telefonema.
— Ela contou a pior parte a vocês?
Ergui a sobrancelha.
— Fica pior?
Então Sydney me contou da batalha sangrenta pela custódia que estava por vir. Embora eu entendesse a vontade de dar à filha uma vida normal, precisava admitir que meus motivos para torcer pela mãe delas eram bem egoístas. Se Zoe fosse embora de Palm Springs, as coisas ficariam muito mais fáceis para mim e Sydney. Mas eu sabia que a principal preocupação de Sydney era a ruptura de sua família, e a minha principal preocupação era sua felicidade. Uma parte específica da história chamou minha atenção.
— Acha mesmo que seu pai pode coagir o juiz? — perguntei. Isso nunca teria me passado pela cabeça, mas não parecia tão impossível. Os alquimistas conseguiam criar identidades novas, colocar um grupo de dampiros e Moroi numa escola particular sem aviso prévio e esconder mortes de Strigoi da imprensa.
Ela meneou a cabeça e sentou à beira da fonte.
— Sei lá. Talvez não precise se Zoe fizer questão de ficar com ele. Não sei como esse tipo de audiência funciona.
— E o que você vai fazer? — perguntei. — O que vai falar?
Ela me olhou com calma.
— Não vou falar mal de nenhum dos dois, disso tenho certeza. Mas não sei quem vou defender. Vou ter que pensar. Entendo o ponto de vista da minha mãe e até concordo com ela. Mas, se eu ficar ao lado dela, Zoe vai me odiar para sempre, sem falar nos problemas que vou ter com meu pai e os alquimistas. — Um sorriso triste perpassou seus lábios. — Quando voltei pro quarto hoje, Zoe nem perguntou o que eu pensava. Simplesmente assumiu que a questão estava decidida e que eu ficaria do lado do nosso pai.
— Quando vai rolar?
— Não tão cedo. Ainda não marcaram uma data.
Ela ficou em silêncio e percebi que talvez fosse bom mudar de assunto.
— Como foi a iniciação? Vocês dançaram nuas ou fizeram algum sacrifício animal?
O sorriso dela se alargou.
— Chá e abraços.
Ela fez um resumo rápido da noite e não pude deixar de gargalhar quando imaginei Jackie enchendo a cara de vinho. Mas não me contou seu nome secreto, por mais que eu tentasse arrancá-lo dela.
— Não foi Jetta, foi? — perguntei, esperançoso. Sempre que eu precisava usar um nome falso, usava Jet Steele, porque, convenhamos, era o nome mais durão que existia.
— Não — ela disse, rindo. — De jeito nenhum.
Então ela perguntou sobre minha noite, naturalmente preocupada que ninguém tivesse comido na sua ausência. Conversamos por bastante tempo e, embora fosse difícil não me distrair com seus lábios perfeitos ou com seu decote, eu gostava dessas conversas em sonho. Claro que não me incomodava com nossos amassos à tarde, mas a verdade era que, antes de tudo, tinha me apaixonado pela beleza interior dela.
Como sempre, foi ela quem se deu conta da hora.
— Ah, Adrian. É hora de ir para a cama.
Eu me aproximei.
— Isso é um convite?
Ela me afastou de leve.
— Você entendeu o que quis dizer. Nunca fica bem quando está cansado. — Era um jeito sutil de dizer que o cansaço me deixava suscetível a ataques do espírito, e eu não podia contra-argumentar. Pelo seu olhar de preocupação, percebi que ela também não estava contente com o uso de espírito que aquele sonho exigia.
— Acha que consegue sair amanhã? — Os fins de semana eram sempre difíceis porque Zoe a seguia para todo lado.
— Não sei ainda. Vou tentar… Ai, meu Deus.
— Que foi?
Ela levou a mão à testa e soltou um resmungo.
— Pulinho. Deixei Pulinho na casa da bruxa. Ele estava correndo pra lá e pra cá durante a festa e fiquei tão perdida depois que minha mãe ligou que saí direto com a sra. Terwilliger.
Apertei a mão dela com força.
— Não se preocupe. Ele vai ficar bem. Uma noite selvagem na cidade, na casa de uma mulher mais velha… fico contente por ele.
— Que bom que é um pai orgulhoso. O problema é trazê-lo pra casa. Posso dar uma fugidinha e ver você amanhã à noite, mas acho que não vou ter tempo de passar lá. E acho que a sra. Terwilliger também vai estar ocupada.
— Ei — eu disse, um tanto indignado. — Acha que se você e Jackie não podem, é um caso perdido? Eu resgato o bichinho. Se ele quiser ser resgatado, pelo menos.
Ela sorriu.
— Seria ótimo. Mas achei que precisasse fazer seu projeto de arte.
O que eu estava oferecendo era uma coisa tão pequena — não exigia nenhum esforço, na verdade —, e senti um calorzinho no peito ao ver como era importante para ela. Sydney estava tão acostumada a ser responsável e ter de cuidar de todos os detalhes que devia ser uma surpresa quando alguém fazia um favor a ela.
— Vou ter tempo depois. Ela não vai ficar assustada quando aparecer um vampiro por lá, vai?
— Não. Só não mencione seu papel de pai. — Ela me beijou de leve, mas a puxei mais para perto e fiz o beijo durar muito, muito mais. Quando finalmente nos separamos, estávamos os dois sem ar.
— Boa noite, Adrian — ela disse, enfática.
Entendi a indireta e o sonho desapareceu ao nosso redor.
De volta ao meu apartamento, bebi minha dose diária, torcendo para que me fizesse dormir logo. Não funcionou. Antes, eu costumava tomar pelo menos três antes de cair num sono embriagado. Agora, meus dedos continuaram ao redor da garrafa de vodca, prestes a encher o copo de novo. Não enchi. O que era uma pena. Além da névoa agradável que o álcool trazia, também entorpecia o espírito por um tempo e, embora a magia fosse um vício gostoso, era bom ficar livre dela. Essa automedicação tinha me protegido dos efeitos negativos do espírito durante anos, mas aquele novo acordo estava permitindo que ele ganhasse força.
Mais alguns momentos se passaram e soltei a garrafa, cerrando o punho. Então me joguei na cama e enfiei a cabeça no travesseiro. Tinha um leve aroma de jasmim e cravo, de um perfume que eu tinha comprado para Sydney fazia pouco tempo. Ela não gostava muito de perfumes em geral, dizendo que o álcool e as substâncias químicas não faziam bem. Mas não teve argumentos contra a combinação pura e orgânica que eu havia encontrado, ainda mais quando soube do preço. Era pragmática demais para deixar que uma coisa daquelas fosse desperdiçada.
Fechei os olhos e desejei que ela estivesse ali comigo — não para transar, só pelo conforto da presença dela. Mas, considerando o risco de nossas tardes breves, era provável que uma noite juntos não acontecesse tão cedo, o que era uma pena. Eu tinha certeza de que dormiria se ela estivesse em meus braços. O frustrante era que meu corpo estava exausto, mas minha mente agitada se recusava a relaxar.
Finalmente caí no sono uma hora e meia depois, sendo despertado pelo alarme quatro horas mais tarde. Continuei na cama, com os olhos turvos cravados no teto, pensando se poderia cancelar a reunião que tinha marcado com uma colega para trabalhar num projeto. Sério, o que eu tinha na cabeça? Oito da manhã num sábado? Talvez estivesse mais louco do que temia.
Pelo menos nos encontraríamos num café. Ao contrário da minha querida alma gêmea, eu não tinha restrições com cafeína e pedi a maior xícara que eles serviam. O barista me garantiu que tinha mais de onde tinha vindo aquela. Do outro lado do café, minha colega me observou com o olhar irônico enquanto eu me aproximava da mesa.
— Bom dia, raio de sol. Bom ver que você já está todo animado e pronto pra começar o dia.
Levantei a mão em advertência enquanto me sentava.
— Nem vem. Vou precisar de pelo menos mais uma xícara para achar você charmosa e engraçada.
Ela sorriu.
— Não, sou sempre assim, de dia ou de noite.
Rowena Clark e eu havíamos nos conhecido no primeiro dia de aula de multimídia. Eu tinha sentado na mesa dela e dito: “Posso ficar aqui? Acho que a melhor maneira de aprender sobre arte é ao lado de uma obra-prima”. Eu podia estar apaixonado, mas ainda era Adrian Ivashkov.
Rowena me fixara um olhar frio. “Vamos deixar uma coisa bem clara. Consigo identificar cretinos de longe, e gosto de meninas, não de meninos, então se não aguentar que eu jogue umas verdades na sua cara, é melhor levar suas cantadinhas e seu gel de cabelo pra outro lugar. Não venho pra faculdade pra ouvir besteira de caras bonitinhos que nem você. Estou aqui para seguir uma carreira incerta em pintura e tomar cerveja depois da aula.”
Puxei minha cadeira para perto da mesa. “A gente vai se dar muito bem.”
E assim foi, tanto que nos juntamos para fazer um projeto em dupla para a aula de escultura ao ar livre.
Logo teríamos que ir para o campus trabalhar na obra, mas, antes, precisávamos finalizar o rascunho que tínhamos começado no bar depois da aula no começo da semana. Eu tinha desistido do meu drinque antes de dormir para tomar uma cerveja com ela e, embora o álcool não tivesse muito efeito em mim, ficou claro que Rowena ficava bêbada fácil. Nosso rascunho não havia avançado muito.
— Ficou na balada até tarde? — ela perguntou.
Tomei um longo gole de café, sentindo uma pontinha de culpa porque Sydney estaria salivando se pudesse me ver naquela hora.
— Só fiquei acordado até tarde. — Bocejei. — Em que pé estamos?
Ela tirou da bolsa o nosso rascunho — um guardanapo de bar em que se lia: Inserir rascunho aqui.
— Humm — eu disse. — É um bom começo.
Depois de uma hora discutindo ideias, decidimos fazer uma escultura igual ao monólito de 2001: Uma odisseia no espaço, e então cobri-la com slogans de propaganda e jargão de internet. Para falar a verdade, eu tinha achado aquele filme muito chato, mas Rowena insistiu que era um símbolo da evolução avançada e que nosso projeto seria uma declaração irônica sobre a que ponto nossa sociedade tinha chegado. Aceitei principalmente porque não exigiria muito esforço. A pintura eu levava a sério, mas aquela era só uma matéria obrigatória que eu tinha que fazer.
Passamos boa parte do dia arranjando os materiais. Rowena tinha pegado a caminhonete de um amigo emprestada e fomos para uma loja de materiais de construção na esperança de encontrar um retângulo de concreto gigante para nosso monólito. Demos sorte e até encontramos alguns blocos menores para colocar na base.
— Podemos fazer um círculo — Rowena explicou. — E depois pintar os vários estágios da evolução. Macaco, homem das cavernas, até um cara moderninho mandando mensagem no celular.
— A gente não evoluiu dos macacos — falei enquanto nos esforçávamos para colocar o retângulo em cima de uma paleta. — O ancestral humano mais antigo se chama australopiteco. — Eu não sabia exatamente onde a evolução dos vampiros entrava nessa história, mas eu é que não traria o assunto à tona.
Rowena soltou o bloco e me encarou, espantada.
— Como sabe uma coisa dessas?
— Porque falei do lance dos macacos um dia desses e minha namorada tinha algumas coisinhas pra dizer a respeito. — “Algumas coisinhas” acabaram virando uma aula de uma hora sobre antropologia.
Rowena riu e levantou um dos blocos menores. Eles eram bem pesados, mas não era preciso duas pessoas para erguê-los.
— Eu adoraria conhecer essa sua namorada misteriosa, só pra saber quem aguentaria alguém como você. Posso chamar Cassie e a gente sai para beber todo mundo junto.
— Ela não bebe — respondi rápido. — E só tem dezoito anos, aliás. Quer dizer, quase dezenove. — De repente lembrei que o aniversário da Sydney já era no começo do mês seguinte, fevereiro, e eu não tinha comprado nenhum presente. Na verdade, depois do meu investimento em vinis, estava quase sem dinheiro até o próximo depósito do meu pai, que cairia no meio do mês.
Rowena sorriu, irônica.
— Gosta de mulheres mais novas, hein?
— Ei, não é ilegal.
— Não quero saber dos detalhes sórdidos da sua vida sexual. — Ela pegou outro bloco. — Podemos ir ao Denny’s ou alguma coisa assim. Se não me apresentar essa menina logo, vou achar que inventou uma namorada.
— Não conseguiria inventar uma pessoa como ela nem se tentasse — declarei dramaticamente. Mas, por dentro, não pude deixar de me sentir um tanto triste. Adoraria sair com Sydney, Rowena e a namorada dela.
Tinha certeza que Sydney se daria bem com Rowena, mesmo que fosse só para falarem mal de mim. Mas não poderíamos aparecer em público tão cedo, a menos que fizéssemos uma visita aos Conservadores.
Levamos nosso estoque de concreto de volta para o campus da Faculdade Carlton e começamos a árdua tarefa de transportar os blocos para um grande pátio que nossa turma tinha recebido permissão para usar. Alguns dos nossos colegas também estavam trabalhando lá e nos ajudaram a carregar a peça central, o que facilitou as coisas. Mesmo não sendo do tamanho do monólito do filme, ainda foi um saco erguer aquilo. Faltou levar os blocos menores e ficamos trabalhando em silêncio. Ambos estávamos cansados e felizes de estar quase acabando. A pintura propriamente dita seria feita no dia seguinte.
Também era a especialidade de Rowena e queríamos estar prontos e descansados para fazer o melhor possível. Fazia frio lá fora, mas o céu estava limpo, o que me deixava em contato direto com o sol. Era por isso que eu tinha aceitado um encontro tão cedo: evitar o pior da luz. Em breve poderia resgatar Pulinho da casa da bruxa e então ir para o apartamento torcendo para que Sydney conseguisse dar uma escapada.
Depois que todos os blocos estavam no pátio, Rowena ficou obcecada em dispô-los com perfeição. Eu não me importava mais e me ocupei mandando uma mensagem para Sydney pelo Celular do Amor, dizendo que minha arte não era nada comparada com a beleza radiante dela. Ela respondeu: *revirando os olhos*.
Ao que eu respondi: Também te amo.
— Poderíamos fazer assim — Rowena disse, colocando três blocos menores um em cima do outro. — Minimonólitos.
— Como quiser.
Ela mudou de ideia e começou a erguer o bloco de cima. Não sei exatamente o que aconteceu em seguida. Acho que fez um movimento errado com a mão. Fosse o que fosse, o bloco deslizou e caiu com força, esmagando a mão dela contra o chão.
Seu grito ecoou pelo pátio e me movi com uma velocidade que teria deixado Eddie impressionado. Levantei o bloco, mas, ao fazer isso, percebi que era tarde demais. Faíscas de espírito me avisaram que ela tinha quebrado alguns ossos da mão. E, naqueles milésimos de segundo de confusão, eu agi. Era a mão direita e sem ela Rowena não conseguiria pintar pelo resto do semestre. Ela sabia fazer coisas delicadas e intrincadas com aquarela que eu não conseguiria nem em sonhos. Eu não podia colocar aquilo em risco.
Disparei uma onda de espírito na mão dela, usando minha própria energia vital para reparar os ossos.
Quem recebia a cura costumava sentir um formigamento e percebi, pela surpresa no rosto dela, que ela havia sentido.
— O que você fez? — ela exclamou, assustada.
Fixei os olhos nela e emanei uma onda de compulsão.
— Nada — respondi. — Só tirei o bloco. Essa é uma experiência muito traumática e confusa para você.
O olhar dela ficou vidrado por um momento e então ela assentiu. Interrompi a magia, um vazio súbito sendo a única indicação do quanto a cura e a compulsão haviam exigido de mim. Sem se lembrar do formigamento, Rowena ficou esfregando a mão machucada enquanto nossos colegas corriam para ver o que tinha acontecido.
— Caramba — um deles disse. — Você está bem?
Rowena fez uma careta.
— Não sei. Não parece que… Quer dizer, dói… mas não como na hora em que caiu.
— Você precisa ver um médico — o mesmo cara insistiu. — Pode ter quebrado alguma coisa.
Rowena teve um sobressalto e pude ver que os mesmos medos que eu havia sentido estavam passando pela cabeça dela. Eu sabia que não havia dano permanente, mas precisava fingir porque era a coisa sensata a fazer.
— Me dê sua chave — eu disse. — O hospital do campus está aberto.
A triagem nos deu prioridade, já que ter um bloco de concreto de quase quinze quilos caindo em cima de você era bastante grave. Mas, depois de um exame e do raio X, o médico deu de ombros.
— Está tudo bem. Talvez não fosse tão pesado quanto vocês acharam.
— Era bem pesado — Rowena disse, mas estava aliviada. Tive a impressão de ver lágrimas em seus olhos quando ela me encarou. — Acho que você só tirou o bloco rápido o bastante. — Não havia sinal de que ela se lembrava da rajada de cura.
— Porque sou másculo e corajoso — eu disse solenemente.
Deram alta para ela e, quando estávamos saindo, chegou Cassie, a namorada. Rowena era bonita, mas Cassie era maravilhosa. Ela deu um abraço forte em Rowena e balancei a cabeça, melancólico.
— Como você arranjou uma namorada dessas? — perguntei. Rowena me abriu um sorriso por sobre o ombro de Cassie.
— Falei pra você: sou sempre charmosa e engraçada.
Combinamos de terminar o projeto no dia seguinte e voltei para o apartamento. Fazia tempo que não usava uma quantidade tão grande de espírito e era como estar chapado. O mundo se encheu de vida e luz e eu estava quase flutuando enquanto entrava. Como o espírito podia ser ruim se me fazia sentir daquele jeito? Era maravilhoso. Fazia dias que não me sentia tão vivo.
Peguei um disco das caixas ao acaso. Pink Floyd. Não, não estava no clima. Troquei por um dos Beatles e então me dediquei ao autorretrato com vigor renovado. Ou melhor, retratos. Porque não conseguia parar. Minha mente estava cheia de ideias e era impossível escolher uma só. As cores voavam velozes e furiosas na tela enquanto eu experimentava diferentes conceitos. Fiz uma pintura abstrata da minha aura, da forma como Sonya e Lissa sempre diziam que era. Então um retrato mais preciso, o mais realista que consegui a partir de uma foto do celular, exceto pelo fato de que me pintei em tons de vermelho e azul. E assim por diante.
Pouco a pouco, a energia começou a perder força. Meu pincel foi ficando lento e, por fim, afundei no sofá, sentindo-me esgotado e exausto. Fiquei olhando para o que tinha feito: cinco pinturas diferentes, todas secando. Minha barriga roncou e tentei me lembrar da última vez que tinha comido. Um bolinho com Rowena? Estava ficando pior do que Sydney. Coloquei uma pizza no micro-ondas e, enquanto esperava, minha mente começou a girar com outros pensamentos.
O aniversário de Sydney. Como eu podia ter me esquecido? Bom, na verdade não tinha me esquecido. A data estava gravada na minha mente, 5 de fevereiro. Só não tinha pensado sobre a parte prática de dar um presente. Fiquei olhando com desalento para as caixas de discos bagunçadas, sentindo um ódio súbito pelo buraco que elas tinham feito no meu orçamento mensal. Sydney tinha razão, aquela compra havia sido uma idiotice. O que eu poderia ter comprado para ela com aquele dinheiro? Imaginei um buquê de rosas aparecendo no seu alojamento anonimamente. Talvez dois buquês. Ou até três. Igualmente interessante era a ideia de uma pulseira de diamantes no seu pulso fino. Uma coisa sutil e elegante, claro. Ela nunca aceitaria nada muito espalhafatoso.
Pensar em diamantes me fez lembrar das abotoaduras da tia Tatiana. Ignorei quando o micro-ondas apitou avisando que a pizza estava pronta e fui até o quarto. As abotoaduras ainda estavam lá, um conjunto ofuscante de chamas vermelhas e brancas reluzindo sob a luz. “Se vender isso, vai ter pensão pro resto da vida”, Sydney havia brincado. Não só pensão ou dinheiro para as prestações do carro. Eu poderia dar um presente para ela. Vários presentes. As rosas, a pulseira, um jantar romântico.
Não. Nada de jantar. Nada em público. Essa ideia me atingiu com força enquanto eu contemplava nosso futuro juntos. Será que poderíamos ter um futuro juntos? Que tipo de relação era aquela, à base de momentos roubados? Sydney era racional demais para continuar com aquilo para sempre. Mais cedo ou mais tarde se daria conta de que era hora de deixar para lá. De me deixar para lá. Guardei as abotoaduras de volta na caixa, sabendo que nunca poderia vendê-las e que agora estava apenas sentindo a depressão que se seguia ao uso do espírito.
Isso acontecia com essas ondas de magia. Eu mal tinha conseguido sair da cama depois de trazer Jill de volta à vida. Usar o espírito tinha um custo e, quanto maior a altura, maior o tombo. Pelo menos era assim comigo. Lissa não tinha esses altos e baixos tão acentuados. Ela sentia mais uma escuridão constante que a acompanhava por dias, deixando-a triste e emotiva até que ia embora. Sonya tinha um pouco dos dois.
“Meu jovem artista”, tia Tatiana costumava dizer, rindo, quando eu estava em um desses humores. “O que entrou na sua cabecinha agora?” Ela falava com carinho, como se fosse uma coisa fofa. Eu quase conseguia ouvir a voz dela agora, quase conseguia vê-la ali, ao meu lado. Ofegante, fechei os olhos e afastei a imagem da minha cabeça. Ela não estava lá. Pessoas beijadas pelas sombras conseguiam ver os mortos. Pessoas loucas só imaginavam vê-los.
Comi a pizza em pé no balcão, repetindo para mim mesmo que aquilo iria passar. Eu sabia que sim. Sempre passava. Mas, nossa, a espera era insuportável.
Quando terminei, voltei para a sala e olhei para as pinturas. O que antes parecera inspirado e maravilhoso agora parecia idiota e superficial. Fiquei com vergonha delas. Juntei todas e joguei num canto, uma em cima da outra, sem me importar com as telas rasgadas ou a tinta úmida.
Então, fui ao armário de bebidas.
Quando a porta se abriu algumas horas depois, eu já tinha tomado boa parte de uma garrafa de tequila, estirado na cama, ouvindo Pink Floyd. Sorri quando Sydney entrou. Eu estava à deriva na onda da tequila, que conseguira acalmar o espírito e abrandar aquela tristeza tão terrível. Não que estivesse alegre e bem-disposto, mas já não queria me esconder num buraco. Eu tinha derrotado o espírito e ver o rosto lindo de Sydney me animou ainda mais.
Ela retribuiu o sorriso, mas então, com um olhar rápido, avaliou a situação. O sorriso se desfez.
— Ai, Adrian — foi tudo o que disse.
Ergui a garrafa.
— É dia de festejar o México, Sage.
Os olhos dela varreram a sala rapidamente.
— Pulinho está celebrando com você?
— Pulinho? Por que ele… — Fechei a boca por alguns segundos. — Ai. Eu, hum, meio que me esqueci dele.
— Eu sei. Maude mandou uma mensagem pela sra. Terwilliger perguntando se alguém pegaria o callistana.
— Droga. — Depois de tudo o que acontecera com Rowena, meu dragão adotivo tinha passado a ser a última coisa na minha cabeça. — Desculpe, Sage. Esqueci completamente. Mas tenho certeza de que ele está bem. Não é nenhuma criança de verdade, né? E, como eu disse, deve estar adorando.
Mas a expressão dela não mudou; na verdade, ficou ainda mais grave. Ela se aproximou e tirou a tequila da minha mão, e então foi até a janela. Tarde demais, percebi o que estava fazendo. Ela abriu a janela e jogou o resto da garrafa lá fora. Eu me sentei como um raio.
— Isso é caro!
Ela fechou a janela e se virou para me encarar. Aquele olhar acabou comigo. Ela não estava brava. Não estava triste. Estava… decepcionada.
— Você me prometeu, Adrian. Beber socialmente não é um problema, mas automedicação é.
— Como sabe que eu estava me automedicando? — perguntei, embora não tivesse negado.
— Porque conheço você e conheço os sinais. Além disso, às vezes dou uma olhada nas suas garrafas. Você virou bastante dessa hoje, muito mais do que uma dose social. — Quase apontei que, tecnicamente, ela é quem tinha virado a garrafa.
— Não consegui evitar — eu disse, sabendo o quanto essa desculpa soava esfarrapada. Era tão ruim quanto o mantra de “não foi culpa minha” de Angeline. — Não depois do que aconteceu.
Sydney colocou a garrafa vazia em cima da cômoda e se sentou ao meu lado na cama.
— Me conte.
Expliquei sobre Rowena e a mão dela, e como o resto do dia tinha se desenrolado. Era difícil não perder o fio da meada porque eu ficava dando voltas e me justificando. Deixei de fora meu desespero por causa dos presentes de aniversário. Quando finalmente acabei, Sydney pôs a mão no meu rosto.
— Ai, Adrian — ela repetiu e, dessa vez, sua voz estava triste. Pus a mão sobre a dela.
— O que eu podia fazer? — sussurrei. — Foi igual o que aconteceu com Jill. Quer dizer, não foi tão grave. Mas ela estava lá, precisando de mim, e eu podia ajudar. Então, quando percebeu, precisei garantir que esquecesse. O que mais poderia ter feito? Devia ter deixado a mão dela quebrada?
Sydney me abraçou e ficou em silêncio por um tempo.
— Não sei. Quer dizer, sei que você não poderia não ajudar. É o seu jeito. Mas preferia que não tivesse ajudado. Quer dizer… na verdade, não. Fico feliz que tenha ajudado. Mesmo. Só queria que as coisas não fossem tão… complicadas. — Ela balançou a cabeça. — Não estou explicando direito. Não sou boa nessas coisas.
— Você odeia isso, né? Não saber o que fazer. — Encostei a cabeça no ombro dela, sentindo o leve aroma do seu perfume. — E odeia quando fico assim.
— Eu amo você — ela disse. — Mas fico preocupada. Você já pensou em… Quer dizer, Lissa não tomou antidepressivos por um tempo? Não funcionaram pra ela?
Levantei a cabeça rápido.
— Não. Tudo menos isso. Não posso abandonar a magia completamente.
— Mas ela se sentiu melhor, não? — Sydney insistiu.
— Ela… sim. Mais ou menos. — Eu não via problemas em “medicação líquida”, mas comprimidos me deixavam com um pé atrás. — Ela se sentiu melhor, é verdade. Não ficava deprimida. Não se cortava mais. Mas sentiu falta da magia, então parou com os comprimidos. Você não sabe como é, aquela onda do espírito. Parece que você está sintonizado com todos os seres vivos do planeta.
— Talvez eu entenda melhor do que você pensa — ela disse.
— Mas não é só isso. Ela parou também porque precisava da magia para ajudar Rose. E se eu precisar? E se você estiver ferida ou morrendo? — Agarrei os ombros dela, tentando fazê-la entender meu desespero e o quanto ela significava para mim. — E se você precisar de mim e eu não puder fazer nada?
Ela tirou minhas mãos e as segurou entre as dela, com o rosto calmo.
— A gente dá um jeito. É o que a maioria das pessoas faz. Corre riscos. Eu preferia que você estivesse estável e feliz a arriscar sua sanidade pela chance mínima de um bloco de concreto cair em cima de mim.
— Você conseguiria não fazer nada se tivesse o poder de ajudar alguém?
— Não. E é por isso que estou tentando ajudar você. — Mas pude ver que ela estava dividida e entendia a preocupação dela.
— Nada de comprimidos — eu disse, com firmeza. — Isso não vai acontecer mais. Vou continuar tentando. Vou ser mais forte. Tenha fé em mim, vou conseguir fazer isso sozinho.
Ela pareceu inclinada a continuar a discussão, mas, por fim, assentiu, resignada. Então me deitou na cama e me beijou, embora eu soubesse que não gostava do gosto da tequila. O beijo conseguiu ser ao mesmo tempo doce e intenso, e fortaleceu a conexão entre nós, aquela sensação ardente que eu sempre tinha de que éramos feitos um para o outro. Eu a enchi de beijos, desejando fazer muito mais. Sem dúvida, se pudesse simplesmente me afogar nela, nunca mais precisaria de álcool ou de comprimido nenhum.
Mas, apesar do coração acelerado e do ardor nos olhos dela, as coisas não avançaram mais do que o de costume. E, como sempre, não a pressionei. Ela podia não concordar com as ideias dos alquimistas, mas ainda mantinha muitos hábitos deles. Usava roupas conservadoras. Não bebia. Na verdade, eu nem sabia qual a opinião dos alquimistas sobre sexo antes do casamento, mas, como a maioria deles era religiosa, não seria nenhuma surpresa se Sydney acreditasse na abstinência. O assunto nunca tinha surgido entre nós. Eu imaginava que, quando ela estivesse pronta, me avisaria.
— Preciso ir — ela disse, enfim. — Teoricamente, só saí para comprar pasta de dente. Era a única coisa sem graça o bastante para Zoe não querer vir comigo.
Tirei alguns fios dourados do seu rosto.
— A gente se vê no Clarence amanhã, então?
Ela assentiu.
— Não perderia por nada nesse mundo.
Eu a levei até a porta. Ela olhou de novo para os quadros destruídos, mas não disse nada e manteve o rosto neutro.
— Estou falando sério — insisti. — Vou me esforçar.
— Eu sei — ela disse. O olhar decepcionado de antes ainda me perturbava.
— Consigo ser forte — acrescentei.
Ela sorriu e ficou na ponta dos pés para me dar um beijo de despedida.
— Você já é — murmurou, antes de desaparecer na noite.

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