3 de outubro de 2017

Capítulo 3

APESAR DE EDDIE TER ME DITO para não me preocupar com Angeline, minha curiosidade me obrigou a encher o saco dele com o assunto no caminho para o apartamento de Adrian.
— Como você vai lidar com isso? — perguntei. — Vai ter uma conversa franca com ela?
— Não. Pretendo apenas evitá-la, a menos que seja absolutamente necessário falar abertamente com ela. Se eu tiver sorte, ela vai perder o interesse.
— Bom, acho que esse é um caminho possível. Mas, sei lá, você é uma pessoa bem direta. — Se ele se deparasse com uma sala cheia de Strigoi, entraria sem a menor hesitação. — Talvez também devesse tentar uma abordagem direta nesse caso. Ficar cara a cara com ela e dizer sinceramente que não está interessado.
— Falar é fácil — ele disse. — Cara a cara, nem tanto.
— Para mim parece fácil.
— É que você nunca teve de fazer isso — ele retrucou, cético.
Para mim, ir ao apartamento de Adrian já era bem mais fácil do que antes. O apartamento tinha sido de Keith, e um Moroi chamado Lee e duas Strigoi haviam morrido ali. Eram memórias difíceis de apagar. Os alquimistas tinham me oferecido o apartamento, já que eu acabei assumindo plena responsabilidade pela missão de Palm Springs, mas eu o cedi para Adrian. Não tinha certeza se queria morar lá, e ele estava desesperado para ter um lugar só dele. Quando vi a felicidade de Adrian com o novo apartamento, soube que tinha tomado a decisão certa.
Adrian abriu a porta antes que tivéssemos a chance de bater.
— A cavalaria! Graças a Deus!
Eddie e eu seguramos o riso e entramos. A primeira coisa que sempre me chamava atenção era a tinta amarelo-ouro usada por Adrian para pintar as paredes. Ele estava convencido de que a tonalidade ajudava a melhorar o ambiente e não deixava que questionássemos sua “sensibilidade artística”. Aparentemente, o fato de o amarelo destoar terrivelmente dos móveis de segunda mão com estampa xadrez era irrelevante. Ou talvez eu simplesmente não fosse “artística” o bastante para apreciar a decoração. Mas aquele estilo incoerente acabava por me confortar. Não lembrava em quase nada a decoração de Keith, o que ajudava um pouco a apagar os acontecimentos daquela noite fatídica. Às vezes, quando corria os olhos pelo quarto, ficava sem ar, assombrada por visões do violento ataque Strigoi e da morte de Lee. A reforma de Adrian no apartamento funcionara como uma luz afugentando sombras horrendas do passado.
Às vezes, quando eu ficava triste, a personalidade de Adrian causava esse mesmo efeito em mim.
— Blusa legal, Sage — ele disse, sério. — Realça muito o cáqui da sua calça.
Apesar do sarcasmo, ele parecia extremamente contente com a nossa chegada. Ele era alto e magro, o mesmo tipo físico da maior parte dos Moroi, além da pele tipicamente pálida (ainda que não tanto quanto a dos Strigoi). Eu odiava admitir, mas ele era muito mais bonito do que tinha o direito de ser. O cabelo castanho-escuro era milimetricamente desarrumado e os olhos às vezes pareciam verdes demais para ser verdade. Ele estava usando uma daquelas camisas de abotoar que estavam na moda, com uma estampa azul que eu gostei. E estava cheirando a cigarro, o que não gostei.
Dimitri e Sonya estavam sentados à mesa da cozinha, remexendo numa pilha de papéis com anotações escritas à mão. As folhas pareciam espalhadas a esmo, e me perguntei quanto trabalho eles realmente estavam conseguindo fazer. Se fosse eu, aquelas folhas estariam numa pilha perfeitamente organizada por tópicos.
— Que bom que você voltou, Sydney — Sonya disse. — Eu estava precisando de um pouco de apoio feminino por aqui.
A beleza de seu cabelo ruivo e de suas maçãs do rosto proeminentes era maculada pelos caninos que ela mostrava ao sorrir. A maior parte dos Moroi aprendia desde cedo a evitar isso, para que os humanos não os reconhecessem. Mas Sonya não tinha pudor em mostrá-los em particular. E aquilo ainda me incomodava.
Dimitri deu um sorriso para mim, o que tornava seu rosto ainda mais bonito, a ponto de não restarem dúvidas de que a “sabedoria de mestre zen” não era o motivo para Rose ter se apaixonado por ele.
— Duvido que você tenha tirado um cochilo.
— Muita coisa para fazer — respondi.
Sonya voltou um olhar curioso para Eddie.
— Estávamos nos perguntando por onde você andava.
— Ocupado em Amberwood — Eddie respondeu, de maneira vaga. Ele tinha dito no carro que seria melhor não mencionarmos a indiscrição de Angeline ou o fato de ele ter sido obrigado a fazer compras para ela. — Sabe, cuidando de Jill e Angeline. Além disso, achei melhor esperar Sydney voltar, porque ela queria ver o que temos feito.
Deixei aquela mentirinha inocente passar.
— E como Angeline está? — Dimitri perguntou. — Ela está melhorando?
Eddie e eu trocamos um olhar. Tanto trabalho para não mencionar as indiscrições dela...
— Melhorando em que aspecto? — perguntei. — No combate, em usar roupas adequadas ou em não meter o bedelho onde não é chamada?
— Ou em desligar o Caps Lock? — Eddie acrescentou.
— Você também percebeu? — perguntei.
— É difícil não notar — respondeu.
Dimitri pareceu perplexo, o que não era muito comum. Ele não costumava ser pego de surpresa, mas a verdade é que ninguém era capaz de se preparar para o que Angeline pudesse fazer.
— Não fazia ideia de que precisava ser mais específico — Dimitri disse, após uma pausa. — Estava perguntando sobre o combate.
Eddie deu de ombros.
— Houve um pouco de melhora, sim, mas é difícil ensinar as coisas para ela. Quer dizer, ela está completamente empenhada em proteger Jill, mas também tem certeza de que já sabe como. Ela carrega anos de treinamento malfeito. É difícil desfazer isso. Além do mais, ela... se distrai muito fácil.
Precisei conter o riso.
Dimitri ainda parecia preocupado.
— Não temos tempo para distrações. Talvez eu devesse falar com ela.
— Não — Eddie disse, com firmeza, numa rara demonstração de contrariedade a Dimitri. — Você já tem coisas demais para fazer aqui. O treinamento dela é responsabilidade minha. Não se preocupe.
Adrian puxou uma cadeira, virando-a ao contrário para encostar o queixo no encosto.
— E você, Sage? Sei que não precisamos ter medo de que você use roupas “inadequadas”. Se divertiu no spa dos alquimistas no fim de semana?
Coloquei a bolsa no chão e fui até a geladeira.
— Se por spa você quer dizer abrigo subterrâneo... E foram só assuntos profissionais. — Fiz uma careta ao abrir a geladeira. — Você prometeu que ia comprar refrigerante diet!
— Verdade, prometi — Adrian disse, sem demonstrar qualquer remorso. — Mas depois li um artigo dizendo que adoçantes artificiais não fazem bem. Então pensei que devia cuidar da sua saúde. — Fez uma pausa. — Não precisa agradecer.
Dimitri disse a ele o que todos estávamos pensando.
— Se você está interessado em hábitos saudáveis, eu poderia sugerir alguns.
Se eu ou Eddie tivéssemos dito aquilo, Adrian teria deixado passar, ainda mais porque era verdade. Mas vindo de Dimitri era diferente. Havia uma tensão enorme entre os dois, uma tensão que vinha se acumulando fazia muito tempo. A namorada de Dimitri, uma dampira famosa chamada Rose Hathaway, namorou Adrian por um tempo. Ela não queria magoá-lo, mas durante todo o período estivera apaixonada por Dimitri. Aquela situação, portanto, não teve como acabar bem. Adrian ainda carregava muitas mágoas por isso e nutria um ressentimento particular contra Dimitri.
— Prefiro não incomodá-lo — Adrian respondeu, tranquilo demais. — Além disso, quando não estou trabalhando duro nessa pesquisa, conduzo um experimento paralelo sobre como gim e cigarros melhoram o carisma de uma pessoa. Como você pode ver, os resultados são bem promissores.
Dimitri arqueou a sobrancelha.
— Peraí, volta um pouco. Você disse “trabalhando duro”?
O tom de Dimitri era leve e brincalhão, mas novamente fiquei surpresa com a reação de Adrian. Se eu tivesse feito aquele comentário, Adrian teria respondido algo como: “Com certeza, Sage. Acho que vou ganhar o prêmio Nobel por isso”. Mas, para Adrian, as palavras de Dimitri eram um convite a um duelo. Vi uma faísca nos olhos dele, o acender de uma dor antiga, e aquilo me incomodou. Aquele não era o jeito dele. Adrian sempre tinha um sorriso e uma gracinha na ponta da língua, mesmo que fossem irreverentes ou inapropriados demais. Eu tinha me acostumado com aquilo. Até gostava.
Voltei o olhar para Adrian e sorri, esperando que meu sorriso parecesse sincero, e não uma tentativa desesperada de distraí-lo.
— Pesquisa, é? Pensei que você fosse mais um homem de apostas.
Adrian levou alguns segundos para deixar de encarar Dimitri e olhar para mim.
— Sou conhecido por jogar os dados de vez em quando — respondeu, cauteloso. — Por quê?
— Nada demais. Só estava pensando se você faria uma pausa na sua pesquisa sobre carisma para aceitar um desafio. Se passar vinte e quatro horas sem fumar, eu tomo uma lata de refrigerante. Refrigerante normal. Uma lata inteira.
Vislumbrei o bom e velho sorriso de Adrian voltar.
— Duvido.
— Sério.
— Meia lata ia deixar você em coma.
Sonya franziu a testa e me perguntou:
— Você tem diabetes?
— Não — Adrian disse —, mas Sage tem certeza de que uma caloria a mais faria com que ela deixasse de ser supermagra e passasse a ser só magra. Uma tragédia.
— Ei — eu disse. — Você é que acha que seria uma tragédia passar uma hora sem cigarro.
— Não questione minha força de vontade, Sage. Passei duas horas sem fumar hoje.
— Passe vinte e quatro horas e aí vou ficar impressionada.
Ele me lançou um olhar de surpresa debochada.
— Quer dizer que você ainda não está impressionada? E eu aqui pensando que você estava deslumbrada desde o dia em que me conheceu.
Sonya balançou a cabeça, indulgente, como se fôssemos lindas criancinhas.
— Você não sabe o que está perdendo, Sydney — comentou, pegando a lata aberta à sua frente. — Preciso de umas três dessa por dia para me manter focada em todo esse trabalho. Até agora, nenhum efeito colateral.
Até agora, nenhum efeito colateral? Claro que não. Os Moroi nunca sofriam nenhum efeito colateral. Sonya, Jill... Elas podiam comer o que quisessem e ainda teriam aqueles corpos incríveis. Enquanto isso eu sofria por cada caloria e, ainda assim, não conseguia atingir aquele nível de perfeição. Caber no tamanho de calça que eu estava vestindo tinha sido uma grande vitória. Agora, comparando com a silhueta esguia de Sonya, me sentia enorme. De repente me arrependi da proposta de beber uma lata de refrigerante, mesmo tendo distraído Adrian. Pensei que podia relaxar, já que seria impossível ele passar um dia inteiro sem fumar. Eu nunca teria de pagar minha aposta supercalórica.
— Acho melhor voltarmos ao trabalho. Estamos perdendo tempo — Dimitri disse, colocando-nos de volta nos trilhos.
— Certo — Adrian disse. — Lá se foram cinco minutos valiosos de pesquisa. Está pronto para se divertir um pouco mais, Castile? Sei que você adora ficar sentado.
Como eles buscavam encontrar alguma coisa especial em Dimitri, Sonya e Adrian costumavam fazer os dois dampiros sentarem lado a lado e examinavam suas auras detalhadamente. A esperança era de que a conversão de Dimitri em Strigoi tivesse deixado algum sinal que ajudaria a explicar a imunidade dele contra uma nova transformação. Era um método válido, apesar de não ser prazeroso para alguém ativo como Eddie.
Mas é óbvio que ele não reclamava. Tinha o mesmo olhar firme e determinado de Dimitri.
— Do que vocês precisam?
— Queremos fazer outro estudo de aura — Sonya respondeu. Aparentemente, o pobre Eddie teria de ficar sentado por mais um tempo. — Da última vez nos concentramos em algum sinal de espírito. Agora queremos mostrar algumas imagens para vocês e ver se elas causam alguma mudança de cor nas suas auras.
Assenti, concordando. Muitos experimentos psicológicos tentavam técnicas parecidas, apesar de normalmente monitorarem reações psicológicas, e não auras místicas.
— Ainda acho que é uma perda de tempo — Adrian comentou. — Os dois são dampiros, mas isso não significa que devemos pressupor que qualquer reação diferente aconteça porque Belikov já foi Strigoi. Cada pessoa é única. E cada pessoa vai responder de maneira diferente a fotos de gatinhos ou aranhas. Meu pai, por exemplo, odeia gatinhos.
— Quem consegue odiar gatinhos? — Eddie perguntou.
— Ele é alérgico — Adrian disse, com uma careta.
— Adrian — Sonya disse —, já conversamos sobre isso. Respeito sua opinião, mas ainda assim acho que podemos aprender bastante com isso.
Na verdade, eu estava impressionada com o fato de Adrian ter uma opinião. Até então, achava que ele só estava seguindo o que Sonya e Dimitri o mandavam fazer, e que não pensava muito sobre os experimentos. E, embora eu não soubesse muito sobre as auras que rodeavam os seres vivos, entendia o argumento dele de que diferenças individuais poderiam atrapalhar a pesquisa.
— Todas as informações podem ser úteis nesse caso — Dimitri disse. — Ainda mais porque não encontramos nada até agora. Sabemos que existe alguma coisa diferente em quem já foi Strigoi. Não podemos descartar nenhuma oportunidade de analisá-la.
Adrian apertou os lábios e não protestou mais. Talvez porque se sentisse derrotado, mas tive a impressão de que simplesmente não queria entrar em conflito com Dimitri.
Quando ninguém mais estava prestando atenção em mim, levei um livro para a sala e tentei me manter acordada. Eles não precisavam da minha ajuda. Só tinha ido até lá para acompanhar Eddie. De tempo em tempo, verificava o andamento das coisas. Dimitri e Eddie observavam enquanto Sonya mostrava diferentes imagens no laptop. Adrian e Sonya, por sua vez, observavam os dampiros atentamente e faziam algumas anotações. Quase desejei ser capaz de ver os feixes de cor e luz, e imaginava se realmente havia diferenças significativas. Examinando Eddie e Dimitri, às vezes percebia uma mudança em sua expressão facial quando uma imagem particularmente fofa ou horripilante aparecia na tela, mas a maior parte do trabalho deles continuava um mistério para mim.
Curiosa, perguntei baixinho para Sonya quando estavam mais ou menos no meio do processo:
— O que vocês estão vendo?
— Cores — ela respondeu — que brilham ao redor dos seres vivos. Eddie e Dimitri têm cores diferentes, mas as mesmas reações. — Ela mudou a foto na tela para uma fábrica soltando fumaça preta contra um céu azul. — Nenhum dos dois gosta disso. As auras deles ficam mais escuras e atribuladas. — Passou para a imagem seguinte, com um sorriso nos lábios. Três gatinhos surgiram na tela. — E agora elas se aquecem. É muito fácil identificar afeto na aura. Até agora, eles estão reagindo da mesma maneira. Não há nenhum sinal na aura de Dimitri de que ele seja diferente de Eddie.
Voltei para o sofá.
Algumas horas depois, Sonya sugeriu uma pausa.
— Acho que já vimos tudo o que precisávamos. Obrigada, Eddie.
— Fico feliz em ajudar — ele disse, levantando da cadeira e se espreguiçando.
Ele parecia aliviado tanto pelo experimento ter acabado como por ter sido um pouco mais interessante do que ficar olhando para o nada. Ele era ativo e enérgico, não gostava de ficar parado.
— Se bem que... nós temos algumas outras ideias — ela acrescentou. — Vocês acham que conseguem aguentar mais um pouco?
É óbvio que ela perguntou isso no meio do meu bocejo.
Eddie me olhou, com pena.
— Eu vou ficar, mas você não precisa. Vá dormir. Eu arranjo outra carona para casa.
— Não, não — respondi, contendo outro bocejo. — Eu não ligo. Quais são as ideias novas?
— Queria fazer uma coisa parecida — Sonya explicou. — Mas, dessa vez, usaríamos sons em vez de imagens. Depois queria ver como eles respondem ao contato direto com o espírito.
— Acho que é uma boa ideia — eu disse, sem saber direito o que significava a última parte. — Vão em frente. Eu espero.
Sonya olhou ao redor e pareceu notar que eu não era a única que parecia cansada.
— Talvez devêssemos pegar um pouco de comida antes.
O rosto do Eddie se iluminou com a ideia.
— Eu vou — me ofereci. Eu já não ofegava sempre que os vampiros falavam de comida perto de mim, o que era um grande avanço. Sabia que eles não queriam dizer sangue, pelo menos não se os dampiros e eu estivéssemos envolvidos. Além disso, não havia nenhum fornecedor por perto. Fornecedores eram humanos que se voluntariavam para dar o sangue aos Moroi, por causa do barato que isso causava. Todos ali sabiam que era melhor nem fazer piada sobre isso perto de mim. — Tem um bom tailandês a alguns quarteirões daqui. Posso pedir para viagem.
— Eu ajudo — Adrian disse, animado.
— Eu ajudo — Sonya corrigiu. — Da última vez que você foi comprar alguma coisa, ficou duas horas fora. — Adrian fez cara feia, mas não negou a culpa. — Além do mais, nossas observações de aura foram idênticas. Você pode começar com os sons sem mim.
Sonya e eu anotamos os pedidos de todo mundo e saímos. Na verdade, eu não achava que precisasse de ajuda, mas imaginei que carregar comida para cinco pessoas, mesmo que por poucos quarteirões, podia ser trabalhoso. Mas logo descobri que Sonya tinha outros motivos para me acompanhar.
— É bom sair um pouco e esticar as pernas — ela comentou. Era fim de tarde, havia bem menos sol e calor, um clima que os Moroi adoravam. Caminhamos por uma rua secundária ladeada de prédios bonitos e pequenos comércios, em direção ao centro da cidade. À nossa volta erguiam-se palmeiras enormes, criando um contraste interessante com o eclético ambiente urbano. — Fiquei presa lá dentro o dia todo.
— Pensei que Adrian fosse o único que sentisse claustrofobia com o trabalho de vocês — ironizei.
— Ele é só quem mais reclama — ela explicou —, o que é meio engraçado, porque ele é quem acaba saindo mais, considerando as aulas e as pausas para fumar.
Tinha quase me esquecido dos dois cursos de arte que Adrian estava frequentando numa faculdade da cidade. Normalmente ele deixava os projetos mais recentes à mostra, mas não havia nenhum na sala nos últimos tempos. Só então percebi o quanto sentia falta deles. Eu podia até encher o saco dele, mas, às vezes, aqueles vislumbres artísticos da maneira como ele pensava eram fascinantes.
Sonya me atualizou rapidamente sobre seus planos de casamento durante o curto caminho até o restaurante tailandês. Eu achava o namoro dela com o dampiro Mikhail Tanner impressionante em vários aspectos.
Primeiro porque dampiros e Moroi não costumavam se envolver em relacionamentos sérios. Em geral, eram só aventuras casuais que resultavam na geração de mais dampiros. Além do escândalo de seu envolvimento, Mikhail quis caçar Sonya quando ela era Strigoi para libertá-la daquele estado perverso. Rose fizera o mesmo com Dimitri, acreditando que a morte era preferível a ser um Strigoi. Mikhail fracassou, mas o amor deles permaneceu tão forte durante aquele período difícil que, quando contra todas as expectativas ela foi restaurada, eles imediatamente voltaram a ficar juntos. Eu mal conseguia imaginar um amor como aquele.
— Ainda estamos escolhendo as flores — ela continuou. — Hortênsias ou lírios. Acho que sei em qual você vai votar.
— Na verdade, eu diria hortênsias. Já tem lírios demais na minha vida.
Ela riu da minha resposta e, de repente, ajoelhou-se diante de um canteiro de flores cheio de gladíolos.
— Mais do que você imagina. Tem lírios aqui neste canteiro.
— Não está na época de lírio — observei.
— Nada fica fora de época. — Sonya olhou de um lado para o outro discretamente e, então, pousou os dedos na terra. Momentos depois raios verdes surgiram e foram crescendo cada vez mais alto, até o copo de um lírio vermelho se abrir no topo. — Ah, os dos alquimistas são brancos... Ei, você está bem?
Eu havia recuado tanto na calçada que quase tinha ido parar na rua.
— Você... você não devia fazer essas coisas. Alguém pode ver.
— Ninguém viu — ela disse ao se levantar. Sua expressão ficou mais suave. — Sinto muito. Às vezes esqueço como você se sente em relação a isso. Foi errado da minha parte.
— Está tudo bem — respondi, não muito convicta.
A magia dos vampiros sempre me dava calafrios. Precisar de sangue já era ruim o bastante. Mas ser capaz de manipular o mundo através da magia era ainda pior. Por mais bonito que aquele lírio fosse, ele tinha um aspecto sinistro. Não deveria existir naquela época do ano.
Não conversamos mais sobre magia e logo chegamos à área principal do centro, onde ficava o restaurante tailandês. Fizemos o pedido gigantesco para viagem e nos disseram que levaria uns quinze minutos para ficar pronto. Aguardamos do lado de fora, admirando o centro de Palm Springs no pôr do sol. Os últimos clientes saíam das lojas que fechavam, e os restaurantes estavam cheios de pessoas que iam e vinham. Vários tinham mesas na calçada, e conversas entre amigos zuniam à nossa volta. Um grande chafariz, ladrilhado em cores brilhantes, fascinava as crianças e inspirava os turistas a parar para tirar uma foto. Sonya se distraía facilmente com a variedade de plantas e árvores que embelezavam as ruas da cidade. Mesmo se não tivesse a habilidade do espírito de afetar coisas vivas, ela ainda seria uma jardineira e tanto.
— Ei! Srta. Melrose!
Ao me virar, fiquei tensa ao ver Lia DiStefano vindo na minha direção. Lia era estilista e tinha uma loja no centro de Palm Springs. Eu não havia me dado conta de que estávamos em frente à loja dela. Senão, teria esperado dentro do restaurante. Lia era baixinha, mas tinha uma presença avassaladora, realçada pelo estilo cigano extravagante que usava para se vestir.
— Faz semanas que estou tentando falar com você — ela disse, depois de atravessar a rua. — Por que não me atende?
— Ando bem ocupada — respondi, séria.
— Sei. — Lia colocou as mãos no quadril e tentou me olhar de cima a baixo, o que foi um tanto curioso, já que eu era bem mais alta. — Quando você vai deixar sua irmã desfilar para mim de novo?
— Sra. DiStefano — respondi, paciente —, eu já expliquei para a senhora. Ela não pode mais. Nossos pais não gostam. Nossa religião não permite que fotografem nosso rosto.
No mês anterior, a silhueta perfeita e os deslumbrantes traços etéreos de Jill haviam atraído a atenção de Lia. Como ter sua foto espalhada por aí era bastante perigoso para uma foragida, só concordamos em deixar Jill desfilar para Lia porque as modelos usariam máscaras. Desde então, Lia vinha pegando no meu pé para que eu deixasse Jill modelar novamente. Era uma situação difícil, porque eu sabia que Jill queria muito, mas ela também entendia que a segurança devia vir em primeiro lugar. Alegar que fazíamos parte de uma religião obscura já havia explicado nossos comportamentos estranhos muitas vezes, então imaginei que, com isso, Lia sairia do meu pé. Mas não foi o caso.
— Nunca vi os pais de vocês — Lia disse. — Tenho observado sua família. Já entendi como funciona. Você é a autoridade. É você que preciso convencer. Vou publicar um anúncio de duas páginas dos meus lenços e chapéus numa revista muito importante, e Jill é perfeita para o trabalho. O que preciso fazer para conseguir que ela modele? Você quer uma parte do pagamento?
— Não é uma questão financeira — respondi, com um suspiro. — Não podemos mostrar nosso rosto. Mas, se você quiser colocar uma máscara nela de novo, fique à vontade.
— Não posso fazer isso — Lia disse, fechando a cara.
— Então temos um impasse.
— Deve haver alguma coisa. Todo mundo tem um preço.
— Sinto muito.
Nenhum dinheiro no mundo me faria faltar ao dever com Jill e os alquimistas.
O gerente do restaurante avisou pela janela que nosso pedido estava pronto, o que felizmente nos livrou de Lia. Sonya esboçou um riso maroto enquanto carregávamos as sacolas rua abaixo em direção à casa de Adrian.
O céu ainda estava purpúreo com os últimos raios de sol, e a luz dos postes atravessava as folhas das palmeiras, criando formas estranhas na calçada.
— Algum dia você imaginou que sua missão aqui envolveria fugir de estilistas petulantes? — Sonya perguntou.
— Não — admiti. — Sinceramente, nunca imaginei metade das coisas que esse trabalh...
— Sonya?
Um rapaz surgiu aparentemente do nada, bloqueando o caminho. Eu não o conhecia, e ele parecia um pouco mais velho do que eu. Seu cabelo preto era cortado bem rente, e ele encarava Sonya com curiosidade.
Ela parou abruptamente e franziu a testa.
— Eu conheço você?
— Claro — ele respondeu, animado. — Jeff Eubanks. Lembra?
— Não — ela respondeu educadamente, após examiná-lo por alguns instantes. — Você deve ter me confundido com outra pessoa. Desculpe.
— Não, não — ele disse. — Tenho certeza de que é você. Sonya Karp, não é? Nós nos conhecemos no Kentucky no ano passado.
Sonya se empertigou. Ela havia morado no Kentucky quando era Strigoi. Eu sabia que não deviam ser memórias agradáveis.
— Desculpe — ela repetiu, com a voz tensa. — Não sei do que você está falando.
O rapaz não se deu por vencido e continuava sorrindo como se eles fossem grandes amigos.
— É uma viagem e tanto do Kentucky para cá, hein. O que traz você aqui? Acabei de ser transferido no trabalho.
— Houve algum engano — interrompi, seca, empurrando Sonya adiante. Não sabia qual engano poderia ser exatamente, mas a reação de Sonya era o suficiente. — Temos que ir.
O rapaz não nos seguiu, mas Sonya permaneceu em silêncio no caminho para casa.
— Deve ser difícil — eu disse, sentindo que devia falar alguma coisa. — Encontrar pessoas do seu passado.
— Não é esse o caso. Tenho certeza. Nunca vi esse cara.
Eu tinha pensado que ela só queria evitar qualquer associação com o fato de ter sido Strigoi.
— Tem certeza? Ele não era só um conhecido casual?
— Os Strigoi não conhecem humanos casualmente — ela disse, com um olhar desdenhoso. — Aquele cara não devia saber quem sou.
— Ele era humano? Não era dampiro?
Eu não conseguia perceber a diferença, mas os Moroi sim.
— Humano, sem dúvida.
Sonya tinha parado de novo e olhado para trás, na direção do vulto do rapaz, que se afastava. Acompanhei seu olhar.
— Deve haver algum motivo para ele ter te reconhecido. Ele parece bem inofensivo.
Com isso, ela sorriu novamente.
— Ah, Sydney. Pensei que você já tivesse passado tempo suficiente conosco para saber.
— Saber o quê?
— Que nada é tão inofensivo quanto parece.

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