30 de outubro de 2017

Capítulo 2

Sydney

— AI, ADRIAN.
Não havia mais nada que pudesse dizer enquanto limpava o sangue e a terra do rosto de Adrian com um pano úmido, afastando os fios rebeldes de seu cabelo castanho.
Ele abriu seu sorriso despreocupado e, sabe-se lá como, ainda parecia cheio de energia, apesar de destruído.
— Ei, não fica chateada, Sage. Apanhei mas também bati. — Ele se virou para Neil e disse, num murmúrio fingido: — Certo? Conta pra ela que também bati. Conta que soube me defender.
Neil abriu um sorriso suave, mas a mãe de Adrian falou antes dele.
— Adrian, meu filho, agora não é hora de fazer piadas.
Eu e minha sogra vampira discordávamos muito, mas estávamos de pleno acordo no momento. A nuvem negra da nossa briga de antes ainda pairava sobre nós, e não pude deixar de me sentir um pouco culpada por não ter insistido que ele ficasse. Deveria pelo menos ter falado para ele levar um guardião, já que esse não foi seu primeiro encontro com aqueles encrenqueiros. Normalmente os guardiões só acompanhavam os Moroi no mundo lá fora, onde os Strigoi eram um perigo real. Mas como o resto do povo de Adrian pensava que éramos aberrações da natureza por termos casado, as pessoas estavam se revelando bem agressivas. Tínhamos sofrido muitas ameaças e chacotas, embora nunca violência física. Foi estranho, mas ainda assim um grande golpe de sorte Eddie e Neil o encontrarem.
Eddie correra para o portão de entrada para escoltar a sra. Terwilliger à nossa casa. Estava tão perturbada com o estado de Adrian que mal tinha parado para pensar que motivo teria trazido minha ex-professora de história e mentora mágica à fortaleza real de uma raça secreta de vampiros. Por mais que uma parte de mim temesse que a visita dela não fosse por um bom motivo, não pude deixar de ficar animada com a perspectiva de vê-la. Fazia meses que a gente não se encontrava pessoalmente. Eu amava Adrian e não me importava com Daniella, mas a verdade era que estava louca para interagir com outras pessoas.
— Não quebrei nada — Adrian insistiu. — Acho que nem vou ficar com cicatriz. É uma pena. Acho que uma cicatriz aqui no rosto poderia acentuar muito meus maxilares já perfeitos, além de dar um toque rústico de masculinidade aos meus traços. Não que precise de mais masculinidade…
— Adrian, chega — eu disse, cansada. — Estou feliz que esteja bem. Poderia ter sido muito pior. E você deveria ir ao médico depois disso, só pra garantir.
Pela cara dele, deu para ver que estava prestes a soltar outro comentário sarcástico, mas teve a sensatez de apenas responder:
— Sim, amor.
Ele tentou fazer uma expressão angelical que só fortaleceu minha suspeita de que não seguiria meu conselho. Balancei a cabeça, sorrindo contra a vontade, e dei um beijo na bochecha dele. Adrian. Meu marido. Se um ano atrás alguém me dissesse que estaria casada, teria achado que era piada. Se me dissessem que estaria casada com um vampiro, teria achado loucura. Observando Adrian agora, senti o amor crescer repentinamente dentro de mim, apesar da tensão. Não conseguia mais imaginar minha vida sem ele. Era impossível. Se eu conseguia imaginar uma vida com ele que não envolvesse ficarmos presos num flat com minha sogra enquanto minha antiga organização e o povo dele nos insultavam e tramavam contra nós? Definitivamente. Havia diversos futuros que eu adoraria que tivéssemos, mas essa era a nossa situação até que alguma coisa espetacular acontecesse. Fora dos portões da Corte, minha organização queria me prender. Dentro, o povo de Adrian queria atacá-lo. Pelo menos estávamos seguros no flat. E o mais importante: estávamos juntos.
Uma batida na porta poupou Adrian de qualquer outra repreensão. Daniella abriu e Eddie surgiu diante de nós. Vê-lo me fazia sorrir quase sempre. Em Palm Springs fingíamos ser gêmeos, porque tínhamos o mesmo cabelo loiro-escuro e olhos castanhos. Mas, com o tempo, ele se tornou um verdadeiro irmão para mim. Eu conhecia poucas pessoas com a mesma coragem e lealdade dele. Tinha muito orgulho em chamá-lo de amigo e, por isso, ficava triste ao ver toda a dor que ele sentia por causa do desaparecimento de Jill. Ultimamente ele vivia com um ar atormentado constante e, às vezes, eu tinha medo de que não estivesse se cuidando. Ele quase não se barbeava mais e eu tinha a impressão de que o único motivo por que ainda comia era para manter o treinamento e continuar em forma para quando localizassem os sequestradores de Jill.
Mas minha preocupação com Eddie ficou em segundo plano quando quem o acompanhava entrou no flat. Atravessei a sala correndo e dei um grande abraço nela, que ficou surpresa. A sra. Terwilliger — nunca conseguiria chamá-la de Jackie, mesmo não sendo mais aluna dela — tinha mudado a minha vida em muitos sentidos. Ela havia assumido o papel de me ensinar os segredos de uma arte antiga, substituindo meu pai. Ao contrário dele, nunca me fez sentir mal em relação a mim mesma. Ela me encorajava e me apoiava, me fazendo sentir capaz mesmo que não fosse sempre perfeita. Falávamos por telefone desde que eu me estabelecera na Corte, mas só nesse momento percebi o quanto sentia falta dela.
— Puxa vida — ela disse com uma risadinha, tentando retribuir o abraço. — Não estava esperando essa recepção. — Sua tentativa de abraço ficou meio desengonçada por estar segurando uma sacola numa mão e o que parecia uma pequena caixa para transporte de animais na outra.
— Agora vai me deixar segurar isso? — Eddie insistiu, tirando a caixa da mão dela.
Ela cedeu e me deu um abraço de verdade. Ela tinha cheiro de patchuli e incenso, que me lembravam dos antigos dias felizes quando nos encontrávamos para treinar feitiços. Senti lágrimas brotarem nos olhos e logo dei um passo para trás para secá-las.
— Estou feliz que esteja aqui — eu disse, tentando ficar séria de novo. — Surpresa, mas feliz. Não deve ter sido uma viagem fácil.
— O que tenho para contar só poderia ser dito pessoalmente. — Ela ajeitou os óculos e encarou os outros na sala. — Neil, é um prazer vê-lo de novo. E, Adrian, que bom que Sydney finalmente transformou você num homem sério.
Ele sorriu com a brincadeira e apresentou Daniella, que foi educada mas manteve um pouco de distância. Os Moroi como ela, que costumavam viver reclusos na Corte, não tinham muitos amigos humanos. O conceito de humanos usuários de magia era tão esquisito para os Moroi quanto para os alquimistas, mas precisava admitir que Daniella se esforçava para entender tudo isso. Ela podia sempre chegar na hora errada e não entender uma indireta durante tentativas de momentos românticos, mas não tinha como negar que a vida dela também passara por muitas mudanças drásticas no último ano.
— Entra, entra — eu disse, fazendo sinal para a sra. Terwilliger. Recebíamos tão poucas visitas que quase tinha esquecido da hospitalidade básica. — Senta que vou pegar alguma coisa para você beber. Ou comer.
Ela fez que não enquanto me acompanhava até a cozinha. Os outros vieram atrás, exceto Eddie, que ainda estava segurando a caixa de transporte sem saber o que fazer com ela.
— Não preciso de nada — ela disse. — Talvez a gente nem tenha tempo. Na verdade, espero que não seja tarde demais.
As palavras dela me causaram um arrepio, mas, antes que pudesse responder, Eddie pigarreou e levantou a caixa, que, como pude ver, abrigava um gato.
— Hum, a senhora quer que eu faça alguma coisa em especial com a gata?
— Gato — a sra. Terwilliger corrigiu. — E o sr. Bojangles pode ficar esperando aí dentro enquanto conversamos. Além disso, se estiver certa, vamos precisar dele.
Adrian me lançou um olhar confuso ao ouvir isso e dei de ombros, também sem entender.
Nos reunimos em volta da mesa da cozinha. Sentei e Adrian ficou em pé ao meu lado, apoiando as mãos no meu ombro. Pela minha visão periférica enxergava os rubis e o ouro branco de sua aliança cintilando. A sra. Terwilliger sentou à minha frente e tirou uma caixa de madeira decorada da sacola. Era envolta por um desenho floral que parecia talhado à mão. Ela colocou a caixa na mesa e a empurrou na minha direção.
— O que é isso? — perguntei.
— Minha esperança era que você soubesse me dizer — ela falou. — Chegou para mim há algumas semanas. Deixaram na minha porta. No começo pensei que fosse algum presente do Malachi, embora não faça muito o estilo dele.
— Claro — Adrian concordou. — Granadas, coletes militares… esses são os presentes que ele costuma dar. — Malachi Wolfe era um professor de defesa pessoal de sanidade questionável com quem eu e Adrian fizemos um curso e que, inexplicavelmente, tinha conquistado o coração da sra. Terwilliger.
Ela abriu um sorriso rápido com o comentário de Adrian mas não tirou os olhos da caixa ao retomar a fala.
— Logo descobri que a caixa é fechada magicamente. Tentei todo tipo de feitiço de abertura, raros e comuns, sem sorte. Quem quer que tenha feito isso lançou um feitiço extremamente poderoso. Passei as últimas semanas esgotando meus recursos e, no fim, levei para Inez. Lembra dela, não?
— Ela é uma pessoa difícil de esquecer — eu disse, lembrando da respeitável e excêntrica velha feiticeira da Califórnia, que tinha todos os itens da casa decorados com rosas.
— É mesmo. Ela me falou que tinha um encantamento poderoso que poderia funcionar, mas ele falhou porque o feitiço na caixa é direcionado a uma pessoa específica. — A sra. Terwilliger parecia desapontada. — Não tinha me tocado disso. Obviamente, essa pessoa não sou eu. Inez considerou que a pessoa a quem a caixa se destina conseguiria abri-la com relativa facilidade, então concluí que você é a destinatária.
Isso me surpreendeu.
— Mas por que mandariam a caixa para você?
A sra. Terwilliger lançou um olhar irônico.
— Este não é exatamente um endereço fácil para entregar correspondências. Só queria ter descoberto antes. Tomara que o que tenha aí dentro não seja urgente.
Encarei a caixa sob uma nova perspectiva, sentindo ansiedade e medo crescentes.
— O que preciso fazer?
— Abrir — a sra. Terwilliger disse, simplesmente. — Embora aconselharia que os outros dessem um passo para trás.
Daniella obedeceu na hora, mas Adrian e os dampiros continuaram no mesmo lugar.
— Façam o que ela pediu — eu disse.
— E se for uma bomba? — Eddie perguntou.
— Devo conseguir minimizar qualquer dano a Sydney, mas não garanto nada ao resto de vocês — disse a sra. Terwilliger.
— “Devo conseguir”? — Adrian perguntou. — Pode ser o jeito dos alquimistas finalmente chegarem até você.
— Talvez, mas eles não gostam de magia humana. Não acho que recorreriam a isso. — Suspirei. — Por favor, só se afastem. Vou ficar bem.
Não tinha tanta certeza assim, mas, depois de um pouco mais de insistência, os meninos cederam. A sra. Terwilliger pegou uma bolsinha e espalhou um pó amarelo de cheiro forte na mesa. Ela murmurou um feitiço em grego e senti a magia — o meu tipo de magia — arder ao nosso redor. Fazia muito tempo que não sentia isso e fiquei surpresa com a emoção que me causou. Lançado o feitiço de proteção, ela apontou com a cabeça para mim, para me dar coragem.
— Abra, Sydney. Se apenas levantar a tampa não funcionar, tente um feitiço básico de abertura.
Pus a mão na tampa e respirei fundo. Nada aconteceu quando a puxei, mas isso era de se esperar. Mesmo se a sra. Terwilliger estivesse certa sobre o objeto ser direcionado a mim, não significava que seria completamente fácil. Enquanto tentava lembrar as palavras de um feitiço de abertura, perguntas óbvias se repetiam na minha mente: será mesmo para mim? Se sim, de quem? E, mais importante: por quê?
Proferi o feitiço e, embora a caixa tenha continuado igual, ouvimos claramente um estalido. Tentei erguer a tampa de novo e, dessa vez, ela saiu facilmente. Para melhorar, nenhuma bomba explodiu de dentro dela. Depois de um momento de hesitação, os meninos me rodearam para ver o que havia na caixa. Ao observar o interior, vi papéis dobrados e um único fio de cabelo em cima. O peguei com cuidado, trazendo-o para a luz. Era loiro.
— Deve ser seu — disse a sra. Terwilliger. — Para selar um feitiço a uma pessoa específica, precisa de algo que seja parte do destinatário. Cabelo, unha, pele…
Fiz uma careta ao pensar nisso enquanto abria o primeiro papel e tentava não imaginar como alguém teria conseguido um fio de cabelo meu. Era um panfleto de um museu de robôs em Pittsburgh. Teria sido cômico se não fosse pelas palavras arrepiantes escritas na foto de um dos itens expostos no museu, o Raptorbot 2000: VEM BRINCAR, SYDNEY.
Perdi o fôlego e ergui os olhos abruptamente. Todos pareciam tão perplexos quanto eu. Não reconheci a letra.
— O que tem no outro papel? — Neil perguntou.
Ele também estava dobrado e era brilhante, como se tivesse sido arrancado de uma revista. À primeira vista, parecia algum tipo de anúncio de viagem. Eu o abri e observei uma foto de uma pousada em Palo Alto.
— O que isso tem a ver com um museu de robôs em Pittsburgh?
A sra. Terwilliger ficou tensa.
— Acho que não é esse lado que você tem que ver.
Virei a folha e fiquei sem ar com o que, ou melhor, com quem eu vi.
Jill.
Tinha quase esquecido desse anúncio. Séculos atrás — pelo menos era o que parecia —, Jill tinha feito alguns poucos trabalhos como modelo para uma estilista de Palm Springs. Eu nunca deveria ter permitido aquilo, sabendo que era uma falha de segurança enorme. A foto que estava encarando tinha sido feita em segredo, contra a minha vontade. Jill estava usando óculos escuros grandes e dourados, e um lenço azul-turquesa amarrado no longo cabelo cacheado. Ela estava com o olhar distante, voltado para um conjunto de palmeiras, e, a menos que a conhecessem bem, seria difícil saber quem era ela. Na verdade, seria difícil para a maioria das pessoas sequer reconhecer que ela era Moroi.
— Que droga é essa? — Eddie perguntou. Ele parecia prestes a arrancar a folha da minha mão. Poucas coisas o faziam perder a calma e a serenidade, mas a segurança de Jill era uma delas.
Balancei a cabeça, incrédula.
— Sei tanto quanto você.
Adrian se debruçou sobre a mesa e pegou a primeira folha.
— Não significa que Jill está sendo mantida em cativeiro num museu de robôs, né? Em Pittsburgh?
— A gente precisa ir — Eddie disse, furioso. Ele virou como se estivesse prestes a sair pela porta naquela mesma hora.
— Eu preciso ir — eu disse, apontando para o panfleto na mão de Adrian. — A caixa era pra mim. Tem até meu nome no bilhete.
— Você não vai sozinha — Eddie retrucou.
— Você não vai a lugar nenhum — Adrian disse. Ele colocou o papel de volta na mesa. — Antes da minha, hum, desavença com Wesley, tive uma conversa com Sua Majestade, que deixou bem claro que não temos permissão para sair da Corte.
Me senti cheia de tristeza e culpa ao encarar a foto de Jill. Jill… Desaparecida havia quase um mês. Esperamos desesperadamente por alguma pista e agora ela tinha vindo até nós. Mas, como a sra. Terwilliger tinha se perguntado: seria tarde demais? O que tinha acontecido enquanto essa caixa esperava por mim?
— Preciso ir — falei. — Não posso ignorar essa caixa. Adrian, você sabe disso.
Nossos olhares se cruzaram. Muitos sentimentos ardiam entre nós. Ele finalmente disse:
— Eu sei.
— Você não acha que Lissa realmente mandaria os seguranças me impedirem à força de sair, acha?
Ele suspirou.
— Não sei. Mas ela argumentou, com razão, que depois de todos os problemas que demos para ela ao ficar aqui seria muito pior se você saísse e fosse capturada pelos alquimistas. A gente poderia tentar sair escondido… mas não ficaria surpreso se estivessem fiscalizando os carros nos portões.
— Pensei que alguma coisa assim poderia acontecer — a sra. Terwilliger disse. Ela já tinha se recuperado do choque e estava retomando sua postura prática, o que eu achava extremamente reconfortante. — E foi por isso que vim preparada. Tenho um jeito de tirar você daqui sem que ninguém perceba, Sydney, se você estiver disposta. — Seu olhar se voltou para Adrian. — Mas receio que só possa ajudar Sydney.
— De jeito nenhum — ele disse, prontamente. — Se ela for, vou também.
— Não — falei devagar. — Ela tem razão.
Ele ergueu a sobrancelha.
— Olha, você corre muito mais riscos do que eu saindo daqui. Não vou deixar você se arriscar enquanto fico aqui em segurança, então não…
— Não é isso — interrompi. Um momento depois, me corrigi. — Quer dizer, quero você em segurança, mas escuta só o que você acabou de dizer. Se eu sair daqui, corro mais riscos porque os alquimistas estão me procurando. Mas eles não estão procurando agora porque acham que estou escondida com você em segurança. E, enquanto continuarem pensando isso, não vão se esforçar muito para me encontrar. Ninguém me vê andando pela Corte, mas veem você quando vai para o fornecimento. Se nós dois desaparecêssemos de repente, os alquimistas poderiam desconfiar que a gente saiu. Mas se as pessoas continuarem vendo você…
Adrian fez uma careta.
— Então vão pensar que você também continua aqui, escondida dos vampiros maus.
— Você me daria cobertura — eu disse, colocando a mão sobre a dele. — Sei que não gosta da ideia, mas ajudaria muito. Vai permitir que eu circule mais livremente por aí e tente entender qual é a relação entre isso e Jill — expliquei, apontando com a cabeça para o panfleto do robô.
Ele levou alguns momentos para responder. Dava para ver que sabia que meu argumento estava certo, mas continuava não gostando da ideia.
— É só que me incomoda pensar em você sozinha lá fora enquanto fico aqui sem fazer nada.
— Ela não vai estar sozinha — Eddie disse. — Não tenho nenhuma missão e não tem ninguém atrás de mim. Posso entrar e sair livremente da Corte.
— Eu também — disse Neil.
— Um de vocês precisa ficar com Adrian — discordei. — Para evitar que o que aconteceu hoje se repita. Neil, pode ser você? Eddie, você vem comigo para dar uma olhada nisso?
Falei como se fosse um pedido, um favor até, mas sabia que não havia nada no mundo que Eddie preferisse fazer agora do que procurar por Jill.
— O negócio é o seguinte — Adrian começou a dizer, depois que os dampiros concordaram —, vou ficar aqui e dar cobertura para você, mas assim que houver um jeito de encontrar vocês sem estragar nosso disfarce, eu vou, hein.
Encarei seus olhos de novo, desejando poder dizer várias coisas para ele. Por exemplo, que sentia muito pela nossa briga de antes, que não estava tentando controlá-lo… Que estava preocupada. Que o amava tanto que só queria o bem dele. Minha esperança era que ele soubesse disso tudo. Naquele momento, tudo que pude fazer com tantas testemunhas foi concordar com a cabeça.
A sra. Terwilliger encarou todos nós.
— Todo mundo já decidiu o papel corajoso que vai assumir? — ela perguntou, brincalhona. Então abriu um sorriso para mim. — Sydney, você não parece muito preocupada em relação a como pretendo tirar você daqui.
Dei de ombros.
— Confio na senhora. Se me diz que tem um jeito, acredito. Qual é o plano?
Depois que ela me falou, um silêncio caiu sobre a sala. Todos a encaramos estupefatos, até Adrian dizer finalmente:
— Puxa. Por essa eu não esperava.
— Acho que ninguém esperava por essa — Eddie admitiu.
A atenção da sra. Terwilliger estava voltada para mim.
— Você topa, Sydney?
Engoli em seco.
— Acho que não existe outra opção. E é melhor a gente não perder tempo.
— Espera — Adrian disse —, posso trocar uma palavrinha a sós com a minha esposa antes da brincadeira começar?
— Claro — disse a sra. Terwilliger, com um gesto teatral.
Adrian me puxou para longe e gritou para os outros:
— Conversem entre si. — Ele me levou até nosso quarto sem dizer nada até fechar a porta. — Sydney, você sabe que isso é loucura, né? E eu não costumo ter essa opinião sobre as coisas.
Abri um sorriso e o puxei para perto de mim.
— Eu sei. Mas nós dois sabemos que não posso deixar de seguir uma pista que pode nos levar até Jill.
Sua expressão ficou mais melancólica.
— Queria poder fazer mais do que só dar cobertura para você — ele disse. — Mas, se é o que precisa ser feito… — Ele suspirou. — O que também parece loucura é você sair daqui depois de passarmos tanto tempo lutando para ficar juntos.
— Sim, mas… — Hesitei, odiando dizer o que veio em seguida: — Não dá pra dizer que era isso que a gente imaginava.
— Como assim? — ele perguntou, mas dava para ver que sabia a resposta.
— Adrian, não tenho dúvidas que amo você e que quero uma vida com você. Mas esta vida em particular… escondidos dos nossos povos, com a sua mãe em cima da gente… Sei lá. Talvez um pouco de espaço seja bom pra nós.
Seus olhos verdes se arregalaram.
— Você quer ficar longe de mim?
— Não, claro que não! Mas quero reavaliar as coisas, descobrir como a gente pode conseguir aquela vida que queríamos. — Suspirei. — E, claro, ainda mais que isso…
— Precisamos encontrar Jill — ele completou.
Assenti e encostei a cabeça no peito dele, ouvindo as batidas ritmadas do seu coração. Aquela emoção de antes voltou ao pensar no último ano e em tudo que passamos juntos. Precisáramos manter nossa relação em segredo e, depois que ela foi descoberta, os alquimistas me mantiveram prisioneira e tentaram fazer uma lavagem cerebral em mim para me trazer de volta ao rebanho deles. Todo momento que tinha com Adrian era uma dádiva valiosa, mas desfrutar disso, virar as costas para Jill… bom, isso seria egoísta.
— Encontrar Jill é mais importante do que a nossa relação agora — eu disse.
— Eu sei — ele concordou, me dando um beijo na testa. — E um dos motivos por que te amo é que você não tem dúvida de que precisa fazer isso. E me deixaria fazer o mesmo se fosse ao contrário.
— A gente é assim — eu disse simplesmente.
— Juro que, assim que encontrar uma maneira de sair em segurança sem que ninguém perceba, vou atrás de você. Você não vai estar sozinha.
Toquei meu coração.
— Nunca estou. Sempre sinto você aqui.
Ele encostou os lábios nos meus num longo e maravilhoso beijo, do tipo que mandava ondas de calor até meus dedos do pé e me fez lembrar que havia uma cama logo atrás de nós. Interrompi o beijo antes que nos distraíssemos sem querer.
— Volto logo — eu disse, dando mais um abraço nele. — E, se tudo correr como o planejado, vou trazer Jill.
— Se tudo correr como o planejado — ele rebateu —, vamos receber uma ligação a qualquer minuto dizendo que quem quer que estivesse com Jill a soltou depois que a lei foi alterada e ela está a caminho de casa agora.
Sorri ao ouvir isso, mas era um sorriso triste.
— Seria bom.
Nos beijamos de novo e voltamos para a cozinha. Percebi então que, embora eu e Adrian estivéssemos bem, não tínhamos exatamente esclarecido a briga de antes. Ainda havia muitos problemas a resolver, e o maior deles era seu uso constante da magia de espírito. Tinha perdido a chance e agora só me restava esperar o melhor dele.
Enquanto isso, a sra. Terwilliger já tinha transformado nossa cozinha numa oficina de feitiços. Frascos e sacos de ingredientes estavam sobre a mesa e ela fervia água no fogão. Ela polvilhou alguma coisa na água e o vapor logo assumiu a fragrância de anis-estrelado.
— Ótimo, ótimo — ela disse, quase sem tirar os olhos do recipiente. — Você voltou. Mede duas colheres de chá daquele pó de beterraba pra mim, por favor?
Parei ao lado dela e tive uma breve sensação de déjà-vu. Era fácil sentir que tinha voltado àqueles tempos que praticávamos juntas. Não que fossem tempos muito tranquilos. Aprender magia com ela tinha sido uma tarefa árdua, tanto do ponto de vista físico como mental, e eu sempre tinha outras pressões, como meus problemas com Adrian e com os outros. No entanto, essa lembrança era boa, ainda mais porque eu sentia falta desse tipo de trabalho mágico. Eu ainda praticava, mas raramente lançava algo dessa magnitude aqui na Corte. O feitiço que, segundo ela, faria minha fuga dar certo exigia que trabalhássemos por algumas horas. Adrian e os outros tentaram se distrair da melhor maneira possível. Eddie saiu para buscar uma muda de roupa, já que ninguém sabia exatamente o que iria acontecer em Pittsburgh.
Jill, pensei em silêncio. Por favor, que a gente chegue a esse museu de robôs e encontre Jill lá, vendendo bilhetes de entrada.
Por algum motivo, eu duvidava que seria tão fácil.
Lá pelas quatro da madrugada, eu e a sra. Terwilliger terminamos nosso trabalho. Ainda faltava praticamente metade do dia no horário vampírico, ao qual tinha me acostumado, mas ela estava exibindo sinais de cansaço. Sabia que ela estava louca por um café, mas a cafeína reduzia a eficácia da magia, e ela precisara lançar pequenos feitiços ao longo do trabalho. O último, porém, era meu e, com a aproximação do fim, comecei a questionar o que exatamente estava prestes a fazer.
— Talvez seja mais fácil simplesmente me enfiar no porta-malas — eu disse, segurando uma xícara com a bebida que tínhamos preparado.
— É bem provável que revistem os carros quando vocês saírem — Adrian falou. — Ainda mais o dela. Lissa deixou bem claro que não quer que a gente saia.
Comecei a levar a poção até o lugar onde a sra. Terwilliger estava erguendo um espelho. Uma nova preocupação caiu sobre mim.
— Você acha que ela vai me deixar voltar quando descobrir que saí?
Ninguém tinha uma resposta para isso até a sra. Terwilliger dizer, pragmática:
— A gente sempre pode trazer você de volta do mesmo jeito que estamos tirando você daqui.
Fiz uma careta e encarei a xícara na minha mão, pensando em como me sentiria em relação a isso depois. Na sala, a sra. Terwilliger tinha se adiantado posicionando o espelho grande do quarto de Daniella. Depois ela levou a caixa de transporte de animal de estimação até perto dele e abriu a portinha. Um gato branco com manchas malhadas, o sr. Bojangles, saiu e sentou calmamente em frente ao espelho. Talvez estivesse se admirando.
— Você sabe as palavras? — a sra. Terwilliger perguntou.
Assenti e ajoelhei ao lado do gato. Tinha memorizado o feitiço ao longo da nossa jornada de trabalho.
— Mais alguma coisa que precise saber antes disso acontecer?
— Só lembre de encarar o gato depois de lançar o feitiço — a sra. Terwilliger falou.
Me virei para os outros uma última vez.
— Vejo vocês em breve, acho.
— Boa sorte — disse Neil.
Adrian me encarou por um longo momento, transmitindo um milhão de mensagens sem dizer nada. Senti um nó na garganta quando a sensação de antes retornou.
Nós tínhamos lutado tanto para chegar até ali e lá estava eu indo embora. Não indo embora, disse a mim mesma. Indo salvar Jill. O que eu e Adrian tínhamos conversado antes era verdade. Nós nos amávamos, mas não éramos egoístas a ponto de simplesmente virar as costas para uma amiga.
Abri um pequeno sorriso para ele e então bebi a poção. Tinha um gosto levemente apimentado, não exatamente desagradável, mas também não seria algo que beberia por prazer. Quando esvaziei a xícara, a deixei de lado e me concentrei no espelho, particularmente no reflexo do gato. O sr. Bojangles ainda estava sentado calmamente e imaginei que a sra. Terwilliger havia escolhido esse gato em particular por causa da personalidade tranquila. Invoquei a magia dentro de mim, ignorando o resto do mundo e me concentrando apenas no feitiço. Murmurei as palavras em latim, ainda encarando o gato. Além de esforço físico, o feitiço exigia muito do meu emocional e, quando terminei de falar e a magia começou a fazer efeito, me senti exausta.
Meus olhos estavam no gato, mas, aos poucos, minha percepção dele foi mudando.
Na verdade, minha percepção mudou completamente. Não enxergava mais o tom laranja do gato, ele estava cinza. O desenho de sua pelagem se acentuou de repente. Notei mais nuances e detalhes nas manchas malhadas. Além disso, o ambiente parecia incrivelmente claro, como se as luzes tivessem sido acesas. Pisquei algumas vezes para tentar acalmar essa sensação e notei que estava ficando cada vez mais perto do chão. Alguma coisa caiu sobre minha cabeça, ocultando minha visão, e me sacudi para sair de debaixo dela. Era minha camisa. Ao encarar o espelho de novo, me vi de frente ao reflexo de dois gatos.
Um deles era eu.
— Caramba.
Não reconheci a voz de Adrian na hora. Ainda era humana o bastante para entender a linguagem, mas minhas novas orelhas processavam os sons de uma maneira completamente diferente. Ouvia melhor com elas, e os barulhos comuns de antes ficaram mais altos. Tive pouco tempo para ponderar sobre isso pois duas mãos de repente me ergueram do chão e me enfiaram na caixa de transporte. A porta se fechou.
— Melhor não arriscar confundir os dois — a sra. Terwilliger disse.
— Onde você vai botar o outro? — perguntou Daniella.
— Onde você quiser — disse a sra. Terwilliger. — Não posso levá-lo comigo. Os guardas me viram entrar com um gato. Precisam me ver sair com um só.
— O quê? — A voz da minha sogra soou ainda mais aguda nos meus ouvidos. — Essa criatura vai ficar? — Fazia sentido. Sua nora se transformar num bicho? Sem problema. Ter que cuidar de um gato? Ataque histérico.
— Vou buscar uma caixa de areia e ração de gato para vocês — Neil disse, prestativo.
Do outro lado da grade de metal da minha caixa, surgiu a cara de Adrian de repente, me encarando.
— E aí, gatinha? Tudo bem aí dentro?
Por força do hábito, tentei responder, mas tudo que saiu foi um meio miado.
O mundo começou a girar quando levantaram a caixa no ar, me obrigando a tentar ficar de pé ainda sem estar acostumada com meus novos sentidos.
— Não temos tempo pra papo furado — disse a sra. Terwilliger. — Precisamos ir.
Adrian deve tê-la seguido, porque seu rosto apareceu de novo na portinha.
— Toma cuidado, Sage. Te amo.
A sra. Terwilliger e Eddie se despediram e seguiram para a porta. Atravessamos o prédio e saímos. Sabia que ainda era noite por ter olhado no relógio antes, mas o mundo que enxergava pelas aberturas na caixa parecia bem diferente daquele com que estava acostumada. Os postes de luz espalhados iluminavam ainda mais a escuridão para minha visão aperfeiçoada e, mesmo não reconhecendo todo o espectro de cores, conseguia enxergar muito além do que meus olhos humanos permitiriam. O feitiço ia durar por volta de uma hora, mas meus acompanhantes mantiveram um ritmo bom, atravessando rapidamente os terrenos da Corte até o estacionamento de visitantes.
Lá, a sra. Terwilliger pediu o carro alugado com que tinha entrado e colocou minha caixa de transporte no banco de trás. Não conseguia ver muito bem o que havia ao nosso redor, mas ainda podia ouvir tudo. No portão principal, guardiões questionaram a sra. Terwilliger sobre sua visita, querendo saber por que Eddie estava com ela.
— Estou de licença agora — ele respondeu em um tom enérgico, mas não na defensiva. — Tenho assuntos pessoais para tratar fora da Corte e ela me ofereceu uma carona.
— Sei que as estradas por aqui são meio perigosas à noite — acrescentou a sra. Terwilliger. — Então é bom ter companhia.
— É só esperar que o sol vai nascer em menos de uma hora — disse o guardião.
— Não tenho tempo — ela respondeu. — Tenho que pegar um voo.
Como Adrian tinha previsto, os guardiões revistaram o carro minuciosamente, e ouvi um deles murmurar para o outro:
— Verifique se não há nenhum passageiro clandestino.
Minha ansiedade aumentou e tive uma sensação estranha de bater o rabo de um lado para o outro.
Um rosto dampiro apareceu na minha frente e fez uns estalos com a língua.
— Oi, gatinho.
Não respondi, com medo de soltar um miado agressivo.
Os guardiões finalmente nos liberaram e, logo depois, estávamos na estrada, livres do lugar que, ao mesmo tempo, tinha sido meu refúgio e minha prisão no último mês. A sra. Terwilliger dirigiu por mais meia hora para ficarmos longe o suficiente da Corte, e então parou o carro no acostamento de uma rodovia rural. Depois de estacionar, abriu a caixa no banco traseiro e colocou uma pilha de roupas ao meu lado. Atrás dela, pude discernir vagamente o céu se iluminando.
— Prontinho — ela disse, voltando para o banco da frente. — Acho que devia ter dito antes… mas é muito mais fácil entrar no feitiço do que sair.

Um comentário:

  1. Kkkkkkkkkkkkkkl..

    Gente pareceu os livrs do H.P agora ...

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Boa leitura :)