23 de outubro de 2017

Capítulo 2

Adrian

— NÃO ME LEVE A MAL, mas você está um lixo.
Ergui a cabeça da mesa e abri um olho com dificuldade. Mesmo de óculos escuros — dentro da sala —, a luz era forte demais para minha cabeça latejante.
— Sério? — perguntei. — É possível não levar isso a mal?
Rowena Clark me lançou um olhar de censura tão parecido com os de Sydney que senti meu estômago revirar.
— Você pode levar isso como uma crítica construtiva. — Rowena torceu o nariz. — Você está de ressaca, né? Porque isso significaria que, tipo, você ficou sóbrio em algum momento. Mas como está cheirando a uma fábrica de gim, não tenho tanta certeza.
— Estou sóbrio. Quase. — Tomei coragem para tirar os óculos escuros e olhar direito para ela. — Seu cabelo está azul.
— Verde-água — ela corrigiu, tocando o cabelo timidamente. — E você já viu dois dias atrás.
— Vi? — Dois dias atrás tinha sido nossa última aula de multimídia na Faculdade Carlton. Eu mal conseguia lembrar das duas últimas horas. — Bom, é possível que eu não estivesse sóbrio naquele dia. Mas você está bonita — acrescentei, torcendo para que o elogio me livrasse da bronca. Não funcionou.
Na verdade, meus dias sóbrios na faculdade eram mais ou menos cinquenta por cento. Mas eu achava que o simples fato de estar indo às aulas me dava algum crédito. Quando Sydney foi embora — ou melhor, foi levada embora —, eu nem queria mais ir. Não queria ir a lugar nenhum nem fazer nada além de procurar minha namorada. Fiquei na cama por dias, esperando e usando o espírito para procurá-la no mundo dos sonhos. Mas não consegui estabelecer nenhuma conexão. Em qualquer hora do dia que tentasse, nunca conseguia encontrar Sydney dormindo. Não fazia sentido. Ninguém conseguiria ficar acordado tanto tempo. Era difícil entrar em contato com pessoas bêbadas, já que o álcool suprimia os efeitos do espírito e bloqueava a mente da pessoa, mas duvidava que ela estivesse tomando um coquetel atrás do outro com seus captores.
Eu poderia ter duvidado de mim mesmo e das minhas habilidades, ainda mais depois de ter usado por um tempo medicamentos que bloqueavam o espírito. Mas minha magia logo voltou com força total e não tive dificuldade para encontrar outras pessoas em sonhos. Eu podia ser incompetente em muitas coisas na vida, mas era de longe o melhor usuário de espírito para visitar sonhos. O problema era que eu só conhecia alguns outros usuários de espírito, então não tinha muito com quem me aconselhar sobre o motivo para não conseguir encontrar Sydney.
Todos os vampiros Moroi usavam algum tipo de magia elemental. A maioria era especialista em um dos quatro elementos físicos: terra, ar, água ou fogo. Poucos usavam o espírito e não havia muita coisa documentada sobre ele, ao contrário dos outros elementos. Ouvi muitas teorias, mas ninguém sabia ao certo por que eu não conseguia encontrar Sydney.
O assistente da professora pôs um montinho de papéis grampeados na minha frente e outro igual na frente de Rowena, me distraindo daqueles pensamentos.
— O que é isso?
— Hum, a prova final — Rowena disse, revirando os olhos. — Deixa eu adivinhar: você também não lembrava disso? Nem de quando me ofereci pra estudar com você?
— Eu devia estar distraído — murmurei, folheando as páginas, apreensivo.
A desaprovação de Rowena deu lugar à compaixão, mas o que quer que ela fosse dizer em seguida foi abafado pelo professor nos mandando ficar em silêncio e começar a trabalhar.
Olhei para a prova e me perguntei se teria como enrolar. Parte do que tinha me tirado da cama e me feito voltar à faculdade era saber como o estudo era importante para Sydney. Ela sempre tivera inveja da minha oportunidade, uma oportunidade que o cretino do pai dela lhe negara.
Quando me dei conta de que não conseguiria encontrar Sydney tão cedo — e, acredite, eu já havia tentado uma série de estratégias mundanas, além das mágicas —, decidi seguir em frente e fazer o que seria a vontade dela: terminar o semestre na faculdade.
Claro, nunca fui um dos alunos mais dedicados. Como a maioria das minhas aulas era de introdução à arte, os professores geralmente nos passavam desde que a gente entregasse alguma coisa. Foi a minha sorte, porque “coisa” era provavelmente a melhor descrição para algumas das porcarias que eu vinha criando nos últimos tempos. Eu mantinha uma média passável — por pouco —, mas essa prova poderia acabar comigo. Aquelas perguntas eram tudo ou nada, certo ou errado. Eu não podia simplesmente fazer um desenho ou um quadro meia-boca e contar com pontos pelo esforço.
À medida que tentava ao máximo responder às perguntas sobre desenho de contorno e desconstrução de paisagens, senti a depressão me sugar. E não era só porque eu provavelmente seria reprovado na matéria. Além disso, estaria decepcionando Sydney, que tinha altas expectativas em relação a mim. Mas, na verdade, o que era uma matéria comparada a todas as outras formas como eu havia falhado? Se nossos papéis estivessem invertidos, era provável que ela já tivesse me encontrado a essa altura. Ela era mais inteligente e criativa do que eu. Teria feito o extraordinário. Eu não conseguia lidar nem com o ordinário.
Passada uma hora, entreguei a prova torcendo para que não tivesse desperdiçado um semestre inteiro. Rowena já havia terminado e me esperava do lado de fora da sala.
— Quer sair pra comer alguma coisa? — ela perguntou. — Eu pago.
— Não, valeu. Preciso encontrar minha prima.
Rowena me lançou um olhar desconfiado.
— Você não vai dirigindo, vai?
— Estou sóbrio agora, obrigado — respondi. — Mas, se faz você se sentir melhor, não, vou de ônibus.
— Bom, então é isso, né? Último dia de aula.
Tomei um susto ao perceber que era verdade. Eu ainda tinha algumas aulas, mas nenhuma com ela.
— Tenho certeza de que a gente vai se ver — eu disse, fingindo confiança.
— Espero que sim — ela respondeu, parecendo preocupada. — Você tem meu número. Pelo menos tinha. Vou ficar aqui nas férias. Dá uma ligada pra mim e pra Cassie se quiser sair... ou se estiver a fim de conversar... sei que você está passando por uns tempos difíceis...
— Já passei por coisa pior — menti. Ela não sabia nem da metade e nem poderia saber, já que era uma humana comum. Rowena pensava que Sydney tinha terminado comigo e era terrível ver a compaixão dela. Mas eu definitivamente não podia falar a verdade. — E pode ter certeza de que vou ligar, então é bom ficar esperando. Te vejo por aí, Ro.
Ela deu um aceno triste e fui andando em direção ao ponto de ônibus mais próximo. Não era muito longe, mas eu estava suando quando cheguei. Era maio em Palm Springs e a primavera estava sendo substituída pelo calor opressivo do verão que se aproximava. Pus os óculos escuros enquanto esperava e tentei ignorar o casal que fumava perto de mim. Cigarros, pelo menos, eram um vício que não tinha retomado desde que Sydney fora embora, mas às vezes era difícil. Muito difícil.
Para me distrair, abri a mochila e dei uma olhada na estatuazinha dourada de dragão ali dentro. Passei a mão em suas costas, sentindo as escamas minúsculas. Nenhum artista poderia ter criado uma obra de arte tão perfeita porque, na verdade, não era uma escultura. Era um dragão de verdade — quer dizer, para ser preciso, era um callistana, um tipo de demônio benigno que Sydney havia invocado. Ele tinha se apegado a mim e a ela, mas só ela tinha o poder de transformá-lo entre suas formas viva e inerte. Infelizmente para Pulinho, ele ficou preso nesse estado desde que ela fora sequestrada. Segundo a mentora mágica de Sydney, Jackie Terwilliger, Pulinho ainda estava tecnicamente vivo, mas levando uma vida bastante infeliz, sem comida e sem atividades. Eu o levava para todo lugar, mesmo sem saber se ficar comigo significava alguma coisa para ele. Era de Sydney de quem ele realmente precisava, e eu o entendia. Também precisava dela.
Eu tinha falado a verdade para Rowena: estava sóbrio agora. E era de propósito. O longo trajeto de ônibus me dava a oportunidade perfeita de buscar Sydney. Embora eu não tentasse mais alcançar seus sonhos com a mesma frequência de antes, ainda fazia questão de ficar sóbrio algumas vezes por dia para procurar por ela. Assim que o ônibus começou a se mover e eu sentei no banco, acessei a magia de espírito de dentro de mim, me deliciando com a sensação incrível que proporcionava. No entanto, era uma alegria ambígua, mitigada pelo fato de que o espírito estava me enlouquecendo lentamente.
“Enlouquecer” é uma palavra feia, disse uma voz na minha cabeça. Pense que está ganhando um novo olhar para a realidade.
Estremeci. A voz na minha cabeça não era minha consciência nem nada do tipo. Era minha falecida tia Tatiana, antiga rainha dos Moroi. Ou melhor, era o espírito me fazendo alucinar com ela. Era comum ouvir sua voz quando meu humor estava especialmente pra baixo. Agora, desde que Sydney tinha sido levada embora, o fantasma da tia Tatiana era minha companhia constante. O lado bom — se é que existia algum — era que alguns dos efeitos colaterais de bipolaridade do espírito haviam ficado menos frequentes. Era como se a loucura do espírito tivesse mudado de forma. Será que era melhor ter conversas mentais com uma parente morta ou ficar sujeito a mudanças de humor drásticas? Para ser sincero, eu não fazia a menor ideia.
Vai embora, eu disse a ela. Você não é de verdade. Além disso, está na hora de eu procurar Sydney.
Assim que me liguei à magia, usei os sentidos para procurar por Sydney, a pessoa que eu conhecia mais do que qualquer outra no mundo. Encontrar uma pessoa adormecida que eu conhecesse pouco teria sido fácil. Encontrar Sydney — se ela estivesse dormindo — não exigiria esforço nenhum. Mas não consegui estabelecer nenhum contato e, depois de um tempo, soltei a magia. Ou ela estava acordada ou estava bloqueada para mim. Derrotado mais uma vez, peguei um frasco de vodca na mochila e me ocupei com ele no trajeto até Vista Azul.
Eu já estava meio alto, com o espírito bloqueado mas não a dor no peito, quando cheguei à Escola Preparatória Amberwood. As aulas da tarde tinham acabado de terminar e alunos de uniformes chiques se movimentavam entre os prédios, indo estudar ou fazer seja lá o que colegiais fizessem no fim do semestre. Fui andando até o alojamento feminino e esperei Jill Mastrano Dragomir vir me encontrar.
Enquanto Rowena só conseguia imaginar o que estava me perturbando, Jill sabia exatamente quais eram os meus problemas. Isso porque, aos quinze anos de idade, Jill tinha a “vantagem” de enxergar dentro da minha cabeça. No ano anterior, ela fora atacada por assassinos que queriam destronar sua irmã, a qual, por acaso, era rainha dos Moroi e amiga minha.
Tecnicamente, os assassinos tinham cumprido sua missão, mas eu trouxe Jill de volta à vida por meio de outras habilidades extraordinárias do espírito. Essa façanha de cura exigira muito de mim e também criara um laço psíquico que fazia com que Jill soubesse de tudo que eu sentia e pensava. Meu surto recente de depressão e alcoolismo estava sendo difícil para ela, embora, pelo menos, a bebida anestesiasse o laço de vez em quando. Se Sydney estivesse ali, teria me repreendido por ser egoísta e não pensar nos sentimentos de Jill. Mas Sydney não estava ali. A responsabilidade recaía apenas sobre os meus ombros e, pelo jeito, eu não era forte o bastante para sustentar esse peso.
Três circulares passaram e Jill não estava em nenhum. Esse era o dia da semana que costumávamos nos ver e eu estava tomando cuidado para me manter fiel ao compromisso, mesmo que não estivesse me mantendo fiel a mais nada na vida. Tirei o celular do bolso e mandei uma mensagem para ela: Ei, tô aqui. Tá tudo bem?
Ela não respondeu e comecei a sentir uma pontada de preocupação. Depois da tentativa de assassinato, Jill tinha sido enviada a Palm Springs para se esconder entre os humanos, pois o deserto era um lugar onde nem a nossa espécie nem os Strigoi — os vampiros mortos-vivos do mal — gostariam de estar. Os alquimistas, uma sociedade secreta empenhada em manter humanos e vampiros longe uns dos outros, tinham mandado Sydney para garantir que tudo corresse com tranquilidade. Os alquimistas queriam evitar uma guerra civil entre os Moroi, e Sydney tinha feito um bom trabalho ajudando Jill a passar por todo tipo de percalços. O erro de Sydney fora se envolver romanticamente com um vampiro. Isso meio que ia contra o processo operacional dos alquimistas de manter humanos e vampiros separados, e a organização reagira com brutalidade e eficácia.
Desde que Sydney fora levada embora e sua substituta de cara azeda, Maura, chegara a Palm Springs, as coisas andavam relativamente tranquilas para Jill. Não havia nenhum sinal de perigo e até tínhamos ouvido que ela poderia voltar à sociedade Moroi quando o ano letivo terminasse, no mês seguinte. Esse tipo de desaparecimento não era comum e, como não recebi nenhuma resposta, mandei uma mensagem para Eddie Castile.
Enquanto Jill e eu éramos Moroi, ele era um dampiro, membro de uma raça mestiça de humanos e vampiros. Sua espécie era treinada para defender a nossa e ele era um dos melhores. Infelizmente, suas formidáveis habilidades de batalha não tinham sido suficientes quando os alquimistas foram atrás de Sydney, pois ela o enganara para fazer com que se separassem. Ela tinha se sacrificado para salvar a pele dele, algo que Eddie não conseguia superar. A humilhação destruíra o ardente romance entre ele e Jill, pois o guardião não se achava mais digno de uma princesa Moroi. No entanto, ainda era seu guarda-costas e eu sabia que, se alguma coisa acontecesse a ela, ele seria o primeiro a saber.
Mas Eddie também não respondeu à minha mensagem, assim como os dois outros dampiros que trabalhavam como seguranças dela. Era estranho, mas tentei me tranquilizar: o silêncio deles devia significar que tinham se distraído juntos e estavam bem. Jill apareceria logo mais.
O sol estava me incomodando de novo, então dei a volta no prédio e achei um banco sob a sombra das palmeiras. Me acomodei nele e logo caí no sono, tanto por ter ficado até tarde no bar na noite anterior como por ter bebido todo o frasco de vodca. Mais tarde, o som de vozes me acordou e vi que o sol tinha se movido bastante no céu. Sobre mim, estavam os rostos de Jill e Eddie, junto com nossos amigos, Angeline, Trey e Neil.
— Ei — eu disse com a voz rouca, sentando com dificuldade. — Onde vocês estavam?
— Onde você estava? — Eddie perguntou, com um tom de acusação.
Os olhos verdes de Jill se suavizaram ao olhar para mim.
— Não tem problema. Ele ficou aqui o tempo todo. Esqueceu. Dá pra entender por quê... Quer dizer, ele está passando por um período difícil.
— Esqueci o quê? — perguntei, olhando impaciente de um para o outro.
— Deixa pra lá — Jill disse, evasiva.
— O que eu esqueci? — exclamei.
Angeline Dawes, outra guardiã dampira de Jill, foi direta como sempre:
— O desfile de fim de semestre da Jill.
Fiquei olhando para eles sem entender e então lembrei. Uma das atividades extracurriculares de Jill era um clube de costura. Ela havia começado como modelo, mas, quando isso se provou perigoso e público demais para alguém na posição dela, passou a desenhar as peças nos bastidores — e descobriu que era muito boa nisso. Ela passara o último mês falando sobre um grande desfile que o clube estava organizando como projeto de fim de semestre, e fora bom vê-la animada com alguma coisa de novo. Eu sabia que ela também estava sofrendo por causa de Sydney e, somando a minha depressão transferida e o fim do namoro com Eddie, ela estava vivendo uma época tão sombria quanto a minha. O desfile e a chance de mostrar seu trabalho tinham sido um ponto de luz para ela, pequeno em comparação com o resto, mas de uma importância monumental na vida de uma adolescente que precisava de um pouco de normalidade.
E eu tinha perdido.
Trechos de conversas voltaram à minha mente: ela me falando a hora e o dia, e eu prometendo que estaria lá, dando meu apoio. Ela tinha até me lembrado na última vez que a gente se viu naquela semana, mas em seguida fui celebrar a Quinta da Tequila num bar perto do meu prédio. Dizer que o desfile dela me escapara da memória era um eufemismo.
— Droga, desculpa, Belezinha. Tentei mandar mensagem... — Ergui o celular para mostrar a eles, mas o que acabei mostrando foi o frasco de vodca. Enfiei-o de volta na mochila às pressas.
— A gente teve que desligar o celular durante o desfile — Neil explicou. Ele era o terceiro dampiro no grupo, uma adição recente a Palm Springs. Aos poucos eu passara a gostar dele, talvez porque estivesse sofrendo também. Neil estava perdidamente apaixonado por uma dampira que tinha desaparecido, embora, diferentemente de Sydney, o silêncio de Olive Sinclair se devesse a problemas pessoais e não a um sequestro alquimista.
— Bom... e como foi? — arrisquei. — Aposto que suas coisas eram incríveis, não?
Eu estava me sentindo tão incrivelmente idiota que mal conseguia suportar. Podia não conseguir lutar contra os alquimistas que haviam levado Sydney. Podia não estar preparado para uma prova. Mas, pelo amor de Deus, pelo menos devia ter ido ao desfile de Jill! Só precisava chegar lá, sentar e aplaudir. Não consegui fazer nem isso, e o peso do fracasso ficou subitamente esmagador. Uma neblina negra encheu minha mente, destruindo meu humor, me fazendo odiar tudo e todos, mas principalmente eu mesmo. Não era nenhuma surpresa eu não conseguir salvar Sydney. Não conseguia nem cuidar de mim mesmo.
Não precisa cuidar de si mesmo, tia Tatiana sussurrou na minha cabeça. Deixe que eu cuido de você.
Uma faísca de compaixão surgiu nos olhos de Jill conforme ela sentia aquele humor sombrio caindo sobre mim.
— Foi ótimo. Não se preocupe, depois te mostro as fotos. Tinha um fotógrafo profissional registrando tudo e ele vai colocar na internet.
Tentei conter as trevas e abri um sorriso tenso.
— Fico feliz em saber. Bom, que tal a gente sair para comemorar então? O jantar é por minha conta.
Jill pareceu triste.
— Eu e Angeline íamos comer com nosso grupo de estudos. Quer dizer, acho que posso cancelar. Ainda falta um mês para as provas, então posso...
— Esquece — eu disse, me levantando. — Alguém nesse laço precisa estar pronto para as provas. Vá estudar. Depois a gente conversa.
Ninguém tentou me impedir, mas Trey Juarez logo me alcançou. Ele devia ser o membro mais estranho do nosso círculo: um humano que já fizera parte de um grupo de caçadores de vampiros. Trey tinha cortado relações com eles, primeiro porque não passavam de um bando de psicopatas e, segundo, porque se apaixonara por Angeline, contra toda e qualquer razão ou lógica. Os dois eram os únicos no grupo que pareciam ter uma vida amorosa feliz e eu sabia que tentavam maneirar as demonstrações de afeto pelo bem de nossas almas infelizes.
— E como exatamente você vai pra casa? — Trey perguntou.
— Quem disse que vou pra casa? — repliquei.
— Eu. Você não tem nada que sair pra beber. Está um lixo.
— Você é a segunda pessoa que me diz isso hoje.
— Bom, então acho que está na hora de começar a ouvir — ele disse, me levando para o estacionamento dos estudantes. — Vem, eu te levo.
Não seria um grande esforço para ele porque a gente dividia o apartamento.
Não foi sempre assim. Antes, ele era um aluno interno em Amberwood, e morava na escola junto com os outros. Seu antigo grupo, os Guerreiros da Luz, tinha os mesmos preconceitos que os alquimistas contra a interação entre humanos e vampiros. Enquanto os alquimistas lidavam com isso escondendo a nossa existência dos humanos, os guerreiros usavam um método muito mais brutal e caçavam vampiros. Eles diziam que só iam atrás dos Strigoi, mas também não eram nem um pouco amigos dos Moroi ou dampiros.
Quando o pai de Trey descobriu sobre Angeline, tomou uma atitude diferente da do pai de Sydney. Em vez de sequestrar o filho e fazê-lo desaparecer sem deixar vestígio, o sr. Juarez tinha simplesmente renegado o rapaz e cortado seu dinheiro. Para a sorte de Trey, as aulas já estavam pagas até o fim do ano letivo. O dormitório e a comida não, por isso o alojamento de Amberwood despejara Trey alguns meses antes. Ele aparecera na minha porta, oferecendo-se para pagar o aluguel com o mísero salário que ganhava trabalhando em um café, só para poder terminar o ensino médio em Amberwood. Eu o recebi de braços abertos e recusei o dinheiro, sabendo que era o que Sydney teria desejado. Minha única condição era nunca voltar para casa e dar de cara com ele e Angeline dando uns amassos no meu sofá.
— Sou um imbecil — resmunguei, depois de vários minutos de silêncio constrangedor no carro dele. — Fiz besteira. Ninguém tem pedido muito de mim. Agora não, pelo menos. Eu só precisava lembrar do desfile dela e nem isso consegui.
— Tem muita coisa ruim rolando na sua vida — ele disse, diplomático.
— Tem na de todo mundo. Quer dizer, olha só pra você. Sua família inteira finge que você não existe e se esforçou pra te expulsar da escola. Você deu a volta por cima, manteve suas notas e continuou nos esportes, e ainda conseguiu arranjar uma bolsa de estudo. — Soltei um suspiro. — Enquanto isso, é provável que eu tenha sido reprovado numa matéria introdutória de arte. Em mais de uma, na verdade, se tiver mais provas nessa semana... o que é bem possível. Nem sei direito.
— É, mas eu ainda tenho Angeline. E isso faz todas as outras coisas valerem a pena. Enquanto você... — Trey não conseguiu terminar a frase e vi uma expressão de dor perpassar seu rosto bronzeado.
Meus amigos de Palm Springs sabiam sobre mim e Sydney. Eles eram os únicos no mundo Moroi (ou no mundo humano, que encobria a existência dos Moroi) que sabiam da nossa relação. Tinham ficado tristes pelo que acontecera, tanto por mim quanto por ela. Também adoravam Sydney. Não como eu, claro, mas ela era uma pessoa extremamente leal que inspirava um afeto profundo em seus amigos.
— Também sinto falta dela — Trey disse baixinho.
— Eu devia ter feito mais — falei, me afundando no banco.
— Você fez o possível e o impossível. Mais do que eu teria conseguido. E não estou falando só de visitar sonhos. Tipo, você foi atrás do pai dela, pressionou os Moroi, infernizou a vida da Maura... fez tudo que dava pra fazer.
— Sou bom em irritar as pessoas — admiti.
— Você está num beco sem saída, só isso. Eles são muito bons em guardar segredos. Mas em algum momento vão deixar escapar alguma coisa, e você vai aproveitar essa brecha. E vou estar lá, do seu lado. Todos nós vamos.
Ele não costumava fazer esses discursos otimistas, mas mesmo assim não me animei muito.
— Não sei como vou encontrar essa brecha.
Trey arregalou os olhos.
— Marcus.
Balancei a cabeça.
— As pistas dele não deram em nada também. Faz um mês que não vejo o cara.
— Não. — Trey apontou enquanto estacionava o carro na frente do prédio. — Marcus está ali.
Dito e feito. Lá, sentado no degrau de entrada do prédio, estava Marcus Finch, o ex-alquimista rebelde que tinha encorajado Sydney a pensar por conta própria e que vinha tentando encontrá-la, também sem sucesso. Abri a porta antes mesmo que Trey parasse o carro.
— Ele não estaria aqui se não tivesse novidades — eu disse, eufórico.
Saí do carro e corri pela grama; a letargia de antes substituída por uma sensação de urgência. Era agora. Marcus tinha conseguido. Marcus tinha encontrado respostas.
— O que foi? — perguntei. — Achou Sydney?
— Não exatamente. — Marcus levantou e passou a mão pelo cabelo loiro. — Vamos entrar pra conversar.
Trey estava quase tão ansioso quanto eu enquanto acompanhávamos Marcus até o apartamento. Ficamos olhando para ele com a mesma postura, com os braços cruzados diante do peito.
— E então? — perguntei.
— Consegui uma lista de locais que podem ser centros de reeducação — Marcus começou, não parecendo tão entusiasmado quanto deveria com uma notícia dessas.
Segurei o braço dele.
— Isso é incrível! Vamos começar a procurar e...
— São trinta lugares — ele me interrompeu abruptamente.
Soltei o braço dele.
— Trinta?
— Trinta — ele repetiu. — E não sabemos exatamente onde ficam.
— Mas você acabou de dizer...
Ele ergueu a mão.
— Vou explicar primeiro, depois você fala. Essa lista que minhas fontes arranjaram contém cidades nos Estados Unidos que os alquimistas consideraram para estabelecer o centro de reeducação e alguns outros centros operacionais. É de alguns anos atrás e, embora minhas fontes confirmem que eles acabaram construindo o prédio de reeducação numa delas, a gente não sabe com certeza qual cidade foi escolhida... nem em que lugar da cidade construíram o prédio. Temos como descobrir? Claro, e conheço gente que pode começar a procurar. Mas vamos ter que fazer isso cidade por cidade, o que vai demorar um pouco.
Todo o entusiasmo e a esperança que eu tinha sentido ao ver Marcus desapareceram.
— Deixe-me adivinhar: “um pouco” quer dizer alguns dias?
Ele fez uma careta.
— Vai ser caso a caso, dependendo das dificuldades que tivermos em cada cidade. Pode demorar alguns dias para tirar cada uma da lista. Talvez algumas semanas.
Eu não achava que poderia me sentir pior do que tinha me sentido por causa da prova e de Jill, mas, pelo jeito, estava enganado. Me joguei no sofá, derrotado.
— Algumas semanas vezes trinta. Isso pode levar mais de um ano.
— A menos que a gente tenha sorte e ela esteja numa das primeiras cidades. — Mas dava para ver que nem ele achava isso provável.
— É, só que nos últimos tempos a gente não anda tendo muita sorte — comentei. — Não sei por que isso mudaria agora.
— É melhor do que nada — Trey disse. — É a primeira pista de verdade que temos.
— Preciso achar o pai dela — murmurei. — Vou compelir aquele filho da mãe até ele me dizer onde ela está. — Todas as tentativas de localizar Jared Sage haviam falhado. Uma vez consegui dar um telefonema, mas ele desligou na minha cara. Compulsão não funcionava tão bem por telefone.
— Mesmo que o encontre, é provável que ele não saiba — Marcus disse. — Eles guardam segredos uns dos outros, exatamente pra se proteger de confissões forçadas.
— E aqui estamos nós. — Levantei e fui para a cozinha preparar um drinque. — Novamente sem saída. Volte ano que vem, quando confirmar que sua lista não deu em nada.
— Adrian... — Marcus começou, parecendo perdido como nunca o vira antes. Ele costumava ser o garoto propaganda da confiança e da arrogância.
A resposta de Trey foi mais pragmática:
— Chega de beber. Você já tomou demais hoje, cara.
— Quem decide isso sou eu — retruquei. Em vez de realmente fazer um drinque, acabei pegando duas garrafas de bebida aleatórias. Ninguém tentou me impedir quando entrei no quarto e bati a porta.
Antes de começar minha festinha solitária, tentei encontrar Sydney mais uma vez. Não foi fácil, porque ainda estava sob o efeito da vodca da tarde, mas consegui controlar o espírito depois de algumas tentativas. Como sempre, não encontrei nada, mas a certeza de Marcus de que ela estava nos Estados Unidos tinha me dado esperanças. A noite estava começando na Costa Leste e eu precisava tentar, caso ela tivesse ido dormir mais cedo. Pelo jeito, não era o caso.
Logo me entreguei às garrafas, precisando desesperadamente esquecer de tudo. Da faculdade. De Jill. De Sydney. Nunca pensei que fosse possível ficar tão deprimido, ter emoções tão sombrias e profundas a ponto de não conseguir transformá-las em um sentimento construtivo. Quando minha relação com Rose terminou, pensei que nenhuma perda poderia ser mais terrível. Estava errado. Nós nunca tivemos nada muito significativo. O que perdi com ela foi só uma possibilidade.
Mas com Sydney... com Sydney eu tinha tudo, e perdi tudo. Amor, compreensão, respeito. A sensação de que poderíamos nos tornar pessoas melhores por causa um do outro e de que poderíamos suportar qualquer coisa desde que estivéssemos juntos. Só que não estávamos mais juntos. Tínhamos sido separados à força e eu não sabia o que iria acontecer agora.
O centro vai aguentar. Essa foi a frase que Sydney cunhou para nós a partir de “O segundo advento”, um poema de William Butler Yeats. Às vezes, nos meus momentos mais sombrios, eu temia que as palavras originais fossem mais adequadas: Tudo se parte, o centro não aguenta.
Bebi até esquecer tudo, acordando no meio da noite com uma dor de cabeça avassaladora. Também estava com náusea, mas, quando fui cambaleando até o banheiro, não consegui vomitar nada. Só me senti horrível. Talvez porque a escova de cabelo de Sydney ainda estivesse lá, me lembrando dela. Ou, talvez, porque eu não tinha jantado, nem lembrava a última vez que bebera sangue. Não era de admirar que estivesse naquele estado. Eu havia desenvolvido uma tolerância a álcool tão grande ao longo dos anos que quase nunca passava mal com bebida, então devia ter ido longe demais dessa vez. A coisa inteligente a fazer teria sido me hidratar, bebendo litros de água, mas, em vez disso, retomei o comportamento autodestrutivo. Voltei para o quarto para tomar outro drinque e só consegui me sentir ainda pior.
Minha cabeça e meu estômago se acalmaram lá pelo amanhecer, e o máximo que consegui foi um sono agitado. Ele foi interrompido algumas horas depois por uma batida na porta. Na verdade, acho que foi uma batida bem leve, mas, por causa dos resquícios da dor de cabeça, parecia mais uma marreta.
— Vá embora — eu disse, olhando para a porta com os olhos turvos.
Trey enfiou a cabeça para dentro.
— Adrian, tem uma pessoa aqui que quer falar com você.
— Já ouvi o que Marcus Vingador tinha pra dizer — retruquei. — Não tenho mais nada pra conversar com ele.
A porta se abriu mais um pouco e uma pessoa passou por Trey. Embora qualquer movimento fizesse minha cabeça girar, consegui sentar e olhar direito. Senti o queixo cair e achei que estava alucinando. Não teria sido a primeira vez. Normalmente, eu só imaginava a tia Tatiana, mas a pessoa à minha frente estava bem viva, linda sob a luz do sol matinal que iluminava suas feições delicadas e seu cabelo loiro. Mas ela não podia estar ali.
— Mãe? — eu disse, com a voz rouca.
— Adrian. — Ela atravessou o quarto e sentou ao meu lado na cama, tocando meu rosto com delicadeza. Sua mão parecia fria contra minha pele febril. — Adrian, está na hora de voltar pra casa.

Um comentário:

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