13 de outubro de 2017

Capítulo 2

A SRA. TERWILLIGER SE RECUSOU a dizer qualquer outra coisa depois disso. Ela me levou de volta a Amberwood quase sem notar que eu estava ao seu lado. Só ficou murmurando sozinha coisas sem sentido, como “Não temos tempo suficiente” e “Preciso de mais provas”. Quando finalmente me deixou no alojamento, tentei pressioná-la para ver se conseguia mais informações.
— Por que a senhora disse que preciso me proteger? — perguntei. — Me proteger do quê?
Ela estacionou em local proibido de novo e ainda estava com a cabeça em outro lugar.
— Depois explico. Amanhã, na nossa sessão.
— Não posso — eu a lembrei. — Vou sair logo depois das aulas normais, lembra? Preciso pegar um voo. Falei para a senhora na semana passada. E ontem. E hoje.
Isso chamou a atenção dela.
— Falou? Nesse caso, faremos o que for possível. Verei o que posso adiantar para você de manhã.
Voltei para a cama, mas não consegui dormir muito. Quando cheguei à aula de história da sra. Terwilliger na manhã seguinte, ela cumpriu sua palavra. Antes que o sinal tocasse, foi até a minha carteira e me entregou um livro antigo com uma capa rachada de couro vermelho. O título estava em latim e a tradução seria Elementos de batalha, o que me deu um calafrio. Feitiços para criar luz e invisibilidade eram uma coisa. Eles tinham uma natureza prática que eu quase conseguia aceitar. Mas feitiços de batalha? Alguma coisa me dizia que eu teria ressalvas quanto a isso.
— Leitura para viagem — ela disse, com sua voz usual de professora atrapalhada. Porém, dava para ver em seus olhos uma centelha da apreensão da noite anterior. — Concentre-se apenas na primeira seção. Tenho certeza de que fará o trabalho minucioso de sempre... e um pouco mais.
Nenhum dos alunos que estavam chegando prestou atenção à nossa conversa. Minha última aula do dia era uma sessão de estudo independente sobre história da Antiguidade tardia, e a sra. Terwilliger era minha orientadora. Na maioria das vezes, ela usava a sessão como uma maneira indireta de me ensinar magia; por isso, me dar livros como aquele não era algo fora do comum.
— E — ela acrescentou —, se conseguir descobrir onde fica aquele quarteirão, seria muito útil.
Fiquei sem palavras por alguns segundos. Encontrar um quarteirão na área metropolitana de Los Angeles?
— É... uma área bem grande — eu disse finalmente, escolhendo as palavras com cuidado agora que havia pessoas ao redor.
Ela assentiu e ajeitou os óculos em cima do nariz.
— Eu sei. A maioria das pessoas não conseguiria. — E, com esse elogio distorcido, ela voltou para sua mesa na frente da sala.
— Que quarteirão? — outra voz perguntou.
Eddie Castile havia acabado de chegar e se acomodava numa carteira perto da minha.
Eddie era um dampiro, o que significava que possuía um DNA misto de humano e vampiro, passado adiante desde os tempos em que as duas raças se misturavam. No entanto, para todos os efeitos, ele era indistinguível de qualquer humano normal. Com cabelo e olhos castanho-claros, era também muito parecido comigo, o que ajudava a sustentar a história de que éramos gêmeos. Na verdade, Eddie estava em Amberwood como guarda-costas de Jill. Ela estava sendo perseguida por dissidentes dos Moroi, a raça dela. Por mais que não tivéssemos visto nenhum sinal deles desde que chegáramos a Palm Springs, Eddie estava sempre alerta e pronto para entrar em ação.
Guardei discretamente o livro de couro vermelho na bolsa.
— Nem queira saber. Mais uma das tarefas malucas dela. — Nenhum dos meus amigos, exceto Adrian, sabia que eu estava envolvida com magia sob instrução da sra. Terwilliger. Quer dizer, Jill também sabia, indiretamente. Todos os Moroi possuíam algum tipo de magia elemental. A magia de Adrian era de um tipo raro e poderoso chamado espírito, que conseguia realizar milagres de cura. Ele tinha usado essa magia para trazer Jill de volta à vida quando ela foi morta por mercenários. Assim, ela foi “beijada pelas sombras”, o que criou um laço psíquico entre os dois que permitia que Jill sentisse as emoções dele e, às vezes, enxergasse através dos olhos dele também. Por isso, Jill sabia mais sobre o que acontecia entre mim e Adrian do que eu gostaria.
Tirei as chaves do carro da bolsa e, relutante, entreguei-as para Eddie. Ele era a única pessoa em quem eu confiava para dirigir meu carro, por isso sempre lhe emprestava o Pingado quando saía da cidade, para o caso de ele precisar fazer alguma coisa pelo grupo.
— Toma. É bom ele estar inteiro quando eu voltar. Não deixe a Angeline nem chegar perto do banco do motorista.
Ele abriu um sorriso.
— Pode deixar, eu dou valor à minha vida. Mas acho que nem vou precisar dele. Tem certeza de que não quer uma carona até o aeroporto mais tarde?
— Você teria que perder aula — eu disse. A única coisa que me permitia sair da escola mais cedo era o caráter peculiar do meu estudo independente.
— Acredite, eu não ligo. Tenho prova de ciências. — Ele fechou a cara e abaixou a voz. — Já tinha odiado física da primeira vez, sabia?
Não consegui evitar um sorriso. Eu e Eddie tínhamos dezoito anos e havíamos terminado o ensino médio, eu estudando em casa e ele, numa academia de elite para os Moroi e os dampiros. No entanto, não dava para fingir que éramos alunos sem assistir às aulas. Embora eu não me importasse com o trabalho extra, Eddie não era tão apaixonado por conhecimento quanto eu.
— Não, obrigada — eu disse. — Pego um táxi.
O sinal tocou e Eddie se aprumou na carteira. Enquanto a sra. Terwilliger pedia ordem na sala, ele murmurou para mim:
— Jill está bem triste por não poder ir.
— Eu sei — respondi aos sussurros. — Mas sabemos que ela não pode ir.
— Pois é — ele concordou. — O que não sei é por que ela está tão brava com você.
Voltei a atenção para a sra. Terwilliger e o ignorei descaradamente. Jill era a única pessoa que sabia sobre a declaração de amor de Adrian, graças ao laço entre eles. Era uma das coisas que eu preferia que não fossem compartilhadas, mas Adrian não tinha como evitar. Embora Jill soubesse que romances entre vampiros e humanos eram errados, ela não conseguia me perdoar por ter magoado Adrian. Para piorar, provavelmente estava sentindo parte do sofrimento dele na pele.
Apesar de os nossos amigos não saberem o que tinha acontecido, estava claro que havia alguma coisa errada entre mim e Jill. Eddie havia percebido de cara e logo começou a me interrogar. Eu dera uma desculpa vaga, dizendo que Jill não tinha gostado de algumas regras que eu havia imposto para ela na escola. Eddie não se convenceu, mas Jill também ficara muda sobre a questão, deixando-o frustrado e sem saber o que estava acontecendo.
O dia letivo passou rápido e logo eu estava no táxi a caminho do aeroporto. Eu levava poucas coisas — só tinha uma pequena mala de mão e minha bolsa a tiracolo, ambas fáceis de carregar. Pelo que pareceu a centésima vez, tirei um pacotinho branco e prateado da bolsa e examinei seu conteúdo. Dentro, havia um enfeite caro de cristal reluzente, feito para ser pendurado na sacada ou na janela e refletir a luz. Era entalhado com duas pombas voando, voltadas uma para a outra. Depois de embrulhá-lo no papel de seda mais uma vez, voltei a guardá-lo na bolsa, torcendo para que fosse um bom presente para o evento ao qual me dirigia.
Eu estava indo para um casamento de vampiros.
Nunca tinha ido a um casamento de vampiros antes. Acho que nenhum alquimista tinha. Embora trabalhássemos com os Moroi para proteger sua existência, os alquimistas deixavam claro que não queriam nada além de um contato meramente profissional. Depois dos últimos acontecimentos, porém, os dois grupos decidiram que seria bom melhorar nossas relações. Como aquele era um casamento importante, eu e mais alguns alquimistas havíamos sido convidados.
Eu conhecia o casal e, em tese, estava animada para assistir ao casamento. Era o resto do evento que me deixava nervosa: uma reunião social gigantesca com vários Moroi e dampiros. Mesmo com outros alquimistas lá, estaríamos em grande desvantagem.
Minha temporada em Palm Springs com Eddie, Jill e os outros havia suavizado muito meus sentimentos em relação à raça deles. Eu me dava bem com aquele grupo e, agora, os considerava meus amigos. No entanto, por mais liberal que eu fosse nesse sentido, ainda compartilhava muito da inquietação que os alquimistas sentiam dentro do mundo dos vampiros. Os Moroi e os dampiros podiam não ser as criaturas maléficas que eu imaginava antes, mas definitivamente não eram humanos.
Parte de mim queria que meus amigos de Palm Springs me acompanhassem, mas isso estava fora de questão. O grande motivo para estarmos na Califórnia era manter Jill escondida e protegida daqueles que tentavam matá-la. Tanto os Moroi como os Strigoi costumavam evitar regiões desérticas e ensolaradas. Se ela aparecesse de repente numa grande festa Moroi, destruiria todo o objetivo da missão. Eddie e Angeline — outra dampira que a protegia em Amberwood — precisavam se manter afastados também. Só eu e Adrian havíamos sido convidados para o casamento e, felizmente, íamos em voos separados. Se alguém notasse que estávamos viajando juntos, atrairia atenção para Palm Springs, o que por sua vez poderia expor Jill. O voo de Adrian nem mesmo sairia de Palm Springs. Ele partiria direto de Los Angeles, a duas horas de viagem de Amberwood, para garantir que ninguém suspeitasse de uma ligação entre nós.
Meu voo faria escala em Los Angeles, o que me lembrou da tarefa da sra. Terwilliger. Encontrar um quarteirão no meio da área metropolitana de Los Angeles.
Claro, sem problema. A única coisa a meu favor era o fato de aquelas casas vitorianas serem inconfundíveis. Se eu conseguisse encontrar alguma sociedade histórica, havia uma boa chance de que pudessem me indicar áreas que correspondessem àquela descrição, o que afunilaria muito minha busca.
Cheguei ao portão de embarque do Aeroporto Internacional de Los Angeles uma hora antes do voo. Tinha acabado de encontrar uma posição confortável com o livro da sra. Terwilliger quando uma voz anunciou:
— Atenção, passageira Melrose. Por favor, compareça ao balcão de atendimento.
Senti um frio na barriga. Juntei minhas coisas e me dirigi ao balcão, onde fui atendida por uma alegre representante da companhia aérea.
— Sinto muito, mas seu voo sofreu overbooking — ela disse. Considerando sua voz animada e o grande sorriso em seu rosto, ela não parecia sentir tanto assim.
— O que isso quer dizer, exatamente? — perguntei, com um pavor crescente. — Tenho um lugar confirmado. — Eu lidava com burocracias o tempo todo, mas voos com overbooking eram uma coisa que nunca havia entendido. Como isso podia acontecer? Eles sabiam muito bem o número de lugares.
— Significa que a senhorita não entrará mais neste voo — ela explicou. — A senhorita e alguns outros voluntários cederam seus lugares para acomodar aquela família. Senão eles teriam que viajar separados.
— Voluntários? — repeti, olhando para onde ela apontou. Na sala de espera, uma família com sete crianças sorriu na minha direção. As crianças eram lindas e adoráveis, com olhos grandes e aquele tipo de fofura que vemos em musicais sobre órfãos que encontram novos lares. Furiosa, me voltei para a funcionária. — Como vocês podem fazer isso? Eu fiz o check-in com antecedência! Estou indo para um casamento, não posso perder esse voo!
A mulher tirou outro bilhete de passagem do balcão.
— Não se preocupe. Reservamos um lugar para a senhorita em outro voo para a Filadélfia, que vai sair antes. E a senhorita vai de primeira classe para compensar o transtorno.
— Pelo menos isso — eu disse. Ainda estava irritada com aquilo, por princípio. Gostava de ordem e de seguir os procedimentos. Qualquer mudança virava meu mundo de cabeça para baixo. Dei uma olhada na passagem e tomei um susto. — Está saindo agora!
Ela assentiu.
— Como eu disse, vai sair antes. Eu me apressaria se fosse a senhorita.
Naquele exato momento, ouvi o anúncio da última chamada para o meu voo, dizendo que todos os passageiros deveriam estar a bordo imediatamente, pois logo fechariam as portas da cabine. Eu não costumava falar palavrões, mas quase soltei um naquela hora, ainda mais porque meu novo portão de embarque era do outro lado do aeroporto. Sem dizer outra palavra, peguei as minhas coisas e desatei a correr o mais rápido possível, fazendo uma nota mental de enviar uma carta de reclamação à companhia aérea. Como que por milagre, cheguei um segundo antes de o avião fechar as portas para os passageiros, e a funcionária que trabalhava no portão me disse com ar severo que, da próxima vez, eu deveria me organizar para chegar mais cedo.
Ignorei o comentário e entrei no avião, onde fui recebida por uma aeromoça muito mais simpática — ainda mais quando viu minha passagem de primeira classe.
— Srta. Melrose, seu lugar é logo ali — ela disse, apontando para a terceira fila da cabine. — É um prazer tê-la conosco.
Ela me ajudou a colocar a mala de mão no compartimento superior, o que se provou uma tarefa difícil, pois os passageiros que chegaram cedo tinham tomado a maior parte do espaço. Exigiu muita criatividade para rearranjar o espaço e, quando finalmente conseguimos, quase desmaiei no assento, exausta pela onda inesperada de adrenalina. Lá se fora minha viagem relaxante. Mal tive tempo de prender o cinto e o avião já começou a se preparar para a decolagem. Um pouco mais calma, tirei o folheto de segurança do saquinho para poder acompanhar a apresentação da aeromoça. Por mais que viajasse com frequência, sempre achava importante ficar a par dos procedimentos de segurança.
Estava observando a aeromoça prendendo uma máscara de oxigênio quando senti um cheiro inebriante e familiar ao meu lado. Em meio a todo o caos para chegar ao voo, não tinha me dado ao trabalho de examinar quem estava no assento ao lado do meu.
Adrian.
Fiquei olhando para ele, sem conseguir acreditar. Ele me observava, se divertindo, e sem dúvida estivera esperando para ver quanto tempo eu levaria para notar sua presença. Nem me dei ao trabalho de perguntar o que estava fazendo ali. Sabia que ia embarcar no Aeroporto Internacional de Los Angeles e, por uma reviravolta maluca do acaso, eu tinha ido parar justamente no voo dele.
— É impossível — exclamei. Meu lado cientista estava embasbacado demais para que eu percebesse a situação constrangedora em que havia me metido. — Uma coisa é ser transferida para outro voo... Mas ir parar logo do seu lado? Sabe quais são as chances de isso acontecer? É inacreditável.
— Alguns diriam que foi o destino — ele disse. — Ou talvez não existam tantos voos para a Filadélfia assim. — Ele ergueu uma taça cheia de um líquido transparente para mim. Como eu nunca tinha visto Adrian beber água, tive que supor que era vodca. — Bom ver você, aliás.
— Ah, você também.
Os motores ganharam vida, e o barulho me poupou da conversa por alguns momentos. Comecei a cair na realidade. Eu estava presa num voo de cinco horas com Adrian Ivashkov. Cinco horas. Cinco horas sentada a poucos centímetros dele, sentindo o aroma daquela colônia cara e encarando aqueles olhos que diziam muito. O que eu podia fazer? Nada, claro. Não havia para onde ir, nenhuma rota de fuga, já que mesmo os passageiros de primeira classe não tinham permissão para usar os paraquedas. Meu coração começou a bater mais rápido enquanto buscava alguma coisa para dizer. Ele estava me observando em silêncio, ainda com aquele sorrisinho sarcástico, esperando que eu iniciasse a conversa.
— Então — eu disse enfim, olhando fixamente para as mãos. — Como vai, ahn, o seu carro?
— Deixei na rua. Imaginei que ficaria bem enquanto eu estivesse fora.
Levantei a cabeça rapidamente, boquiaberta.
— Deixou na rua? Vão chamar o guincho se o carro ficar lá a noite toda!
Adrian estava rindo antes que eu terminasse de falar.
— Então é assim que se faz para despertar uma reação calorosa em você, hein? — Ele meneou a cabeça. — Não se preocupe, Sage. Eu estava brincando. Está guardadinho em segurança no estacionamento do prédio.
Senti meu rosto ficar quente. Odiava ter caído na piada dele e estava até um pouco envergonhada por ter surtado por causa de um carro. Claro, não era um carro qualquer. Era um lindo Mustang clássico que Adrian havia comprado pouco tempo antes. Na verdade, ele tinha feito isso para me impressionar, e fingiu que não sabia dirigir com câmbio manual para passar mais tempo comigo enquanto eu ensinava para ele. Eu achava o carro incrível, mas ainda não acreditava que ele tinha se dado tanto trabalho só para ficar comigo.
Chegamos à altitude de voo e a aeromoça voltou com outra bebida para Adrian.
— Alguma coisa para a senhorita? — ela perguntou.
— Uma Coca Diet — respondi automaticamente.
Adrian me repreendeu depois que ela saiu:
— Você podia ter pegado uma de graça na classe econômica.
Revirei os olhos.
— Vou passar as próximas cinco horas sendo infernizada? Nesse caso, vou para a classe econômica e deixo algum passageiro sortudo tomar o meu lugar.
Adrian ergueu as mãos num gesto apaziguante.
— Não, não. Fique à vontade. Vou me distrair sozinho.
Por “se distrair sozinho”, ele queria dizer fazer as palavras cruzadas de uma das revistas de bordo. Peguei o livro da sra. Terwilliger e tentei ler, mas estava difícil me concentrar com Adrian ao lado. Eu ficava olhando de soslaio para ele, em parte para ver se ele estava olhando para mim e em parte só para examinar seu rosto. Era o mesmo Adrian de sempre, com aquela beleza irritante, aquele cabelo castanho desgrenhado e aquele rosto belamente esculpido. Jurei que não voltaria a falar com ele, mas, quando percebi que ele não estava escrevendo fazia um tempo e batia ruidosamente com a caneta na mesinha, não consegui me conter.
— Que foi? — perguntei.
— “Inventor da máquina descaroçadora de algodão”, sete letras.
— Whitney — respondi.
Ele se debruçou e escreveu a resposta.
— “Domina a escala de Mohs”, oito letras.
— Diamante.
Cinco palavras depois, percebi o que estava acontecendo.
— Ei — eu disse. — Não vou cair nessa.
Ele me olhou com cara de inocente.
— Cair no quê?
— Você sabe o quê. Você está me enrolando. Sabe muito bem que não consigo resistir a...
— ... mim? — sugeriu.
Apontei para a revista.
— Conhecimentos gerais. — Me virei de costas para ele e abri o livro com um gesto dramático. — Tenho trabalho a fazer.
Senti Adrian olhando por sobre meu ombro e tentei ignorar aquela proximidade.
— Pelo visto Jackie ainda está fazendo você se esforçar para a aula dela. — Adrian conhecera a sra. Terwilliger havia pouco tempo e eu não sabia como tinha aberto o caminho para tamanha intimidade.
— Isso está mais para uma atividade extracurricular — expliquei.
— Sério? Pensei que fosse contra seus princípios mexer com essas coisas mais do que o necessário.
Fechei o livro, frustrada.
— E é! Mas então ela disse... — Engoli as palavras, lembrando que não deveria conversar com Adrian mais do que o estritamente necessário. Era muito fácil cair em velhos hábitos amigáveis com ele. Parecia certo, mas, obviamente, não era.
— Ela disse o quê? — ele instigou, gentilmente.
Levantei os olhos para ele e não vi sinal de presunção ou sarcasmo. Não vi nem mesmo aquela mágoa devastadora que vinha me atormentando nas últimas semanas. Ele parecia sinceramente preocupado, o que, por um momento, me distraiu da tarefa da sra. Terwilliger. Aquela atitude fazia um contraste drástico com o que havia acontecido logo depois do nosso beijo. Eu estava tão nervosa com a ideia de viajar ao lado de Adrian, mas ali estava ele, pronto para me apoiar. Por que a mudança?
Hesitei, sem saber o que fazer. Desde a noite anterior, vinha repetindo sem parar as palavras da sra. Terwilliger e aquela visão na minha cabeça, tentando descobrir o sentido delas. Adrian era a única pessoa que sabia do meu envolvimento com ela e com a magia — com a exceção de Jill — e, até aquele momento, eu não tinha percebido o quanto queria conversar sobre aquilo com alguém. Então cedi e contei a ele toda a história da minha aventura no deserto.
Quando terminei, fiquei surpresa com a seriedade em seu rosto.
— Uma coisa é ela tentar ensinar meia dúzia de feitiços pra você. Mas arrastá-la para o meio de uma situação perigosa é outra coisa completamente diferente.
A intensidade de sua preocupação me surpreendeu um pouco, mas talvez não devesse.
— Pelo jeito que ela disse, não parece ser culpa dela. Ela parecia bastante preocupada com... bem, o que quer que isso tudo signifique.
Adrian apontou para o livro.
— E isso pode ajudar de algum modo?
— Acho que sim. — Passei os dedos sobre a capa e sobre as palavras em latim. — Tem feitiços de proteção e ataque, coisas um pouco mais pesadas do que já fiz. Já não estou gostando nem um pouco, e olha que nem são os mais avançados. Ela me falou para pulá-los.
— Você não gosta de magia, ponto final — ele me lembrou. — Mas, se os feitiços puderem proteger você, talvez seja melhor não ignorar o que ela disse.
Eu odiava admitir que ele tinha razão, pois só o incentivava a continuar.
— Sim, mas apenas queria saber do que estou tentando me proteger... Não. Não podemos fazer isso.
Sem perceber, eu tinha voltado a agir como antigamente, falando com Adrian daquele jeito tranquilo e sossegado de antes. Não só isso: estava tratando Adrian como um confidente. Ele pareceu assustado.
— Fazer o quê? Parei de pedir ajuda nas palavras cruzadas, não parei?
Respirei fundo, juntando forças. Sabia que aquele momento iria chegar, por mais que quisesse adiá-lo. Só não esperava que chegasse durante uma viagem de avião.
— Adrian, precisamos conversar sobre o que aconteceu — declarei. — Entre nós.
Ele pensou sobre minhas palavras por alguns momentos.
— Então... pelo que parece, nada aconteceu entre nós.
Criei coragem para olhar para ele.
— Exatamente. Desculpe pelo que aconteceu... pelo que eu disse, mas era tudo verdade. Precisamos superar aquilo e seguir em frente. É pelo bem do nosso grupo em Palm Springs.
— Engraçado, porque eu superei — ele disse. — É você quem está trazendo esse assunto à tona agora.
Voltei a ficar vermelha.
— Mas é culpa sua! Você passou as últimas semanas todo temperamental e chateado, mal falando comigo. E quando falava, era sempre para soltar alguma indireta. — Num jantar algum tempo antes na mansão de Clarence Donahue, uma das aranhas mais assustadoras que já vi na vida entrou na sala. Reunindo toda a minha coragem, peguei aquele bichinho abominável e o joguei no jardim. O comentário de Adrian sobre meu ato de bravura foi: “Nossa, não sabia que você enfrentava as coisas que a assustam. Pensei que normalmente saísse correndo e gritando, e depois fingisse que elas não existem”.
— Você está certa sobre minha atitude — ele disse agora, assentindo. Mais uma vez, parecia extraordinariamente sério. — Me desculpe.
— Sério? — Eu não conseguia formar frases direito. — Então... você deixou de lado todas aquelas... coisas? Deixou de, hum, sentir aquilo? — Eu não conseguia dizer com todas as letras. Deixou de estar apaixonado por mim?
— Ah, não — ele disse, sorridente. — De jeito nenhum.
— Mas você acabou de falar...
— Deixei de ficar magoado — ele disse. — Deixei de ser temperamental... Quer dizer, sempre sou meio temperamental. É isso que define Adrian Ivashkov. Mas parei com os excessos. Eles nunca me levaram a lugar nenhum com Rose. Não vão me levar a lugar nenhum com você.
— Nada vai levar você a lugar nenhum comigo! — exclamei.
— Disso não tenho tanta certeza. — Ele assumiu um ar introspectivo que foi ao mesmo tempo inesperado e intrigante. — Você não é uma causa tão perdida quanto ela. Quer dizer, com Rose eu tinha que superar o amor profundo e épico entre ela e um deus da guerra russo. Nós dois só temos que superar algumas centenas de anos de tabus e preconceitos arraigados entre as nossas raças. Tranquilo.
— Adrian! — Eu estava começando a perder a cabeça. — Isso não é uma piada.
— Eu sei. Pra mim não é mesmo. E é por isso que não vou dificultar as coisas pra você. — Ele fez uma pausa dramática. — Simplesmente vou amar você, quer você queira ou não.
A aeromoça voltou com toalhas quentes, interrompendo nossa conversa, deixando aquelas palavras um tanto perturbadoras pairando entre nós. Eu estava confusa demais para conceber uma resposta antes de ela finalmente voltar para recolher as toalhas.
— Queira ou não? O que isso quer dizer?
Adrian fez uma careta.
— Desculpe. Soou mais assustador do que eu pretendia. Só quis dizer que não me importo se você disser que não vamos ficar juntos. Não me importo se achar que eu sou uma das criaturas mais perversas e abomináveis que caminham sobre a terra.
Por uma fração de segundo, as palavras dele me levaram de volta no tempo, para o momento em que ele havia dito que eu era a criatura mais linda que já tinha caminhado sobre a terra. Aquelas palavras continuavam me perturbando tanto quanto da primeira vez. Pensei em nós dois sentados naquela sala escura, sob a luz de velas, e ele me olhando de um jeito que ninguém nunca tinha...
Chega, Sydney. Foco.
— Você pode achar o que quiser, fazer o que quiser — Adrian continuou, sem desconfiar dos pensamentos que me traíam. Havia uma calma extraordinária em sua voz. — Simplesmente continuarei amando você, mesmo sendo um caso perdido.
Não sei por que aquilo me escandalizou tanto. Dei uma olhada ao redor para ter certeza de que ninguém tinha ouvido.
— Eu... Como assim? Não. Você não pode!
Ele inclinou a cabeça enquanto me observava com atenção.
— Por que não? Não a machuca nem nada. Já falei que não vou incomodá-la se não me quiser. E se quiser... Bem, seria incrível. Então qual é o problema de eu amar você de longe?
Eu não sabia exatamente.
— Você... você não pode!
— Por que não?
— Você... você precisa superar isso — consegui dizer. Sim, parecia um bom motivo. — Precisa encontrar outra pessoa. Sabe que eu não... que eu não posso. Enfim, você sabe. Está perdendo seu tempo comigo.
Ele se manteve firme.
— O tempo é meu. Faço o que quiser com ele.
— Mas isso é loucura! Por que você faria uma coisa dessas?
— Porque não consigo evitar — ele respondeu, encolhendo os ombros. — E, ei, se eu continuar amando você, talvez um dia consiga fazer você me amar também. Na verdade, tenho quase certeza de que já está meio apaixonada por mim.
— Não estou! E tudo o que você disse é ridículo. Não faz o menor sentido.
Adrian voltou para suas palavras cruzadas.
— Bom, pense o que quiser. Mas saiba que, por mais que as coisas pareçam normais entre a gente, eu ainda estarei aqui, apaixonado por você, e vou me importar mais com você do que qualquer outro cara, seja ele maligno ou não.
— Não acho que você seja perverso.
— Viu? As coisas já parecem um pouco mais promissoras. — Ele bateu a caneta na revista de novo. — “Poeta vitoriana romântica”, oito letras.
Não respondi. Adrian tinha me deixado sem palavras. Ele não voltou a mencionar esse assunto perigoso durante o resto do voo. Na maior parte do tempo, ficou na dele e, quando falava, era sobre assuntos perfeitamente seguros, como nosso jantar ou o casamento. Qualquer pessoa que sentasse ao nosso lado nunca saberia que havia algo estranho entre nós.
Mas eu sabia.
Aquilo me consumia. Era avassalador. E, conforme o voo continuava e, mais tarde, aterrissava, eu não conseguia mais olhar para Adrian da mesma forma. Sempre que fazíamos contato visual, eu me lembrava das palavras dele: eu ainda estarei aqui, apaixonado por você, e vou me importar mais com você do que qualquer outro cara.
Parte de mim se sentia ofendida. Como ele podia dizer isso? Como podia ter a audácia de me amar, querendo eu ou não? Eu tinha dito para ele não me amar! Ele não tinha esse direito.
E a outra parte de mim... A outra parte estava com medo.
Se eu continuar amando você, talvez um dia consiga fazer você me amar também.
Era ridículo. Não era possível fazer uma pessoa amar você só porque você a amava.
Não importava o quão charmoso, bonito e engraçado ele fosse. Um alquimista e um Moroi nunca poderiam ficar juntos. Era impossível.
Tenho quase certeza de que já está meio apaixonada por mim.
Completamente impossível.

4 comentários:

  1. Agora sou eu tô implorando, Sydney por favor fica com o Adrian!!! E ele pareceu um garotinho dizendo: "Se eu continuar amando você, talvez um dia consiga fazer você me amar também." Partiu o meu coração <3 <3 <3!!!

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  2. 'Não havia para onde ir, nenhuma rota de fuga, já que mesmo os passageiros de primeira classe não tinham permissão para usar os paraquedas.' kkkkkkkkk Ah, pobre Sydney..

    Adrian se declarando, é de morrer. <3

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Boa leitura :)