19 de outubro de 2017

Capítulo 24

Sydney

FOI O FRIO QUE FINALMENTE ME DESPERTOU. Tinha entrado e saído de um sono sem sonhos por um período indefinível, e não fazia ideia de quanto tempo havia se passado desde que estivera na van com minha família. A julgar pela boca seca e pela cabeça grogue, ainda havia um pouco da droga correndo no meu sangue, mas eles deviam ter diminuído a dosagem para que eu pudesse recuperar a consciência.
O chão em que eu estava deitada era de concreto duro e irregular que não retinha calor, e meu desconforto era ainda maior porque estava úmido, aumentando o frio que sentia em meus ossos.
Devagar e desajeitadamente, consegui me sentar, de modo que pudesse envolver os braços ao redor de mim mesma em uma tentativa frágil de reter o calor no corpo. Não devia estar mais do que dez graus na cela úmida, e o fato de eu estar sem roupas não ajudava muito.
A cela também era escura. Escura feito breu. Eu já havia ficado na escuridão antes, mas aquela era especialmente impenetrável. Não havia nada, nem um fio de luz, a que meus olhos pudessem se ajustar. Aquela escuridão era quase tangível, pesada e sufocante. Precisei confiar nos meus outros sentidos para ter uma ideia do ambiente e, pelo silêncio funesto, vi que minha audição não serviria de grande coisa.
Meus dentes começaram a tremer e aproximei os joelhos do corpo, estremecendo de dor quando o piso áspero arranhou minha pele. Fiquei o mais aconchegada possível, sem acreditar que até pouco tempo atrás eu estava em um deserto. Quanto tempo teria se passado? Não fazia ideia, tampouco sabia onde estava agora. A droga havia interrompido a passagem do tempo. Podia fazer dias ou minutos desde que haviam me raptado.
— Olá, Sydney.
A voz veio sem aviso, aparentemente de todos os lados da cela, ecoando das paredes. Era de mulher, mas um pouco sintetizada, como se ela estivesse falando através de um filtro. Eu não disse nada, mas ergui a cabeça e olhei para a frente sem me abalar. Se aquele quarto estava equipado com um sistema de som caro, também devia ter câmeras de visão noturna que permitiam aos alquimistas me ver. Eles tentariam bloquear meus sentidos, mas era óbvio que fariam de tudo para ficar com a vantagem.
— Você sabe onde está? — a voz perguntou.
Precisei engolir a seco algumas vezes até minha língua conseguir formular palavras.
— Sendo mantida em cativeiro por um bando de voyeurs doentes que ficam excitados trancafiando uma menina pelada?
— A doente aqui é você, Sydney. — A voz não transmitia qualquer emoção. — A escuridão que está cercando você não é nada comparada à que corrompeu sua alma. Estamos aqui para ajudar você a expulsar essas trevas.
— Pode me ajudar a arranjar roupas e um cobertor, em vez disso?
— Você está sendo renascida nesse mundo, com frio e sem roupas, recebendo uma nova chance de se salvar.
Pousei a cabeça nos joelhos e não respondi. Eles podiam disfarçar com as metáforas que quisessem, mas eu sabia perfeitamente que aquela forma de privação era uma técnica psicológica para tentar me fazer perder o controle. As palavras a seguir confirmaram essa ideia.
— Quanto mais você cooperar com sua salvação, mais confortável será sua estadia.
Como em resposta, meu estômago roncou, e mais uma vez me perguntei quanto tempo havia se passado.
— Não precisa, não. Não quero ser salva.
— Tudo com que você entrou foi destruído, com uma exceção. É um sinal da nossa boa vontade. Não estamos fazendo nada disso por crueldade. Queremos ajudar você.
Continuei em silêncio.
— Esse item está na sua cela se você quiser — a voz acrescentou.
Já estavam começando os jogos mentais dos alquimistas. Eu não sabia o que esperar da reeducação. Ela ficava envolta em mistério, sem dúvida para inspirar medo. No entanto, torturas físicas e mentais pareciam conclusões óbvias. Quando se quer modificar uma pessoa, é preciso acabar com ela antes.
A voz não disse mais nada e decidi não entrar na manobra deles. No entanto, quanto mais ficava ali parada, mais curiosidade sentia. Com que item eles queriam me tentar? Se é que realmente havia algum.
Eu sabia que não deveria entrar na deles. Sabia que a rebeldia era o melhor caminho. Mas a curiosidade continuou a me atormentar e eu realmente não sabia o que mais havia no quarto. Explorar não faria mal.
Eu me levantei, surpresa ao descobrir como minhas pernas estavam fracas. Eu me sentia um pouco tonta, mas, em meio às trevas, pelo menos não sentia o quarto girar. Com cuidado, avancei com os braços estendidos. Não demorei muito para encontrar uma parede. A superfície era tão fria quanto as outras, mas a textura era mais suave e havia fendas, como de tijolos ou ladrilhos. Seriam compartimentos para microfones e câmeras?
Minha inspeção foi curta. A cela parecia ter seis por dois metros. Não havia nenhuma porta, pelo menos que eu conseguisse perceber. Um vaso sanitário pequeno e uma pia ficavam em um canto, sem dúvida para aumentar a humilhação do experimento. Tateando, consegui abrir a torneira. A água que saiu era um gelo, mas não senti nenhum gosto ou cheiro estranho, e coloquei um pouco nas mãos para beber, me sentindo sedenta de repente. Perto da pia, na parede, havia um compartimento para sabão, que cheirava a antisséptico. Quase abri um sorriso. Mesmo em meio a prisões e tortura, os alquimistas precisavam manter seus padrões de higiene.
Quando não encontrei mais nada, voltei para o meu lugar no chão.
— Boa — eu disse. — Acho que você me pegou.
Nada. Depois de alguns segundos, tive a ideia de começar a tatear o chão. Eu sabia que eles estavam olhando e precisei esquecer a vergonha enquanto rastejava pela cela, passando as mãos em todos os centímetros ásperos. No fim, porém, a única coisa que consegui foram joelhos ralados.
— Não tem nada aqui — eu disse. — Tomara que tenham gostado do show. Andei ensaiando.
De repente, uma luz brilhante se acendeu. Depois da escuridão, o choque me fez gritar e cobrir os olhos.
— Dói, não é? — a voz perguntou. — Depois de viver nas trevas, é difícil voltar para a luz.
Demorei muito tempo para me acostumar. Mesmo quando consegui tirar as mãos, precisei manter os olhos semicerrados. Olhei à frente e vi que a luz vinha de um quadrado na parede. Como eu havia imaginado, parecia haver vários compartimentos ali. Aquela superfície em particular era de vidro, me permitindo olhar dentro dela. Era pequena, mas grande o bastante para conter aquelas luzes ofuscantes…
… e a cruz de Adrian.
A rebeldia que eu vinha tentando manter começou a ruir, mas logo me recuperei, sabendo que não podia demonstrar meus sentimentos. Mesmo assim, não resisti e passei os dedos na superfície de vidro enquanto olhava para a pequena cruz de madeira com dor no coração. Não tinham feito nada com ela. Estava exatamente igual, com as delicadas glórias-da-manhã pintadas, e pendurada em uma corrente fina.
— Você não tem o direito de usar esse símbolo sagrado — a voz disse. — Mas consideramos um bom sinal que estivesse portando um item como esse. Isso nos diz que, por mais decaída e corrompida que tenha se tornado, um lado seu quer voltar ao caminho da integridade e da pureza.
— Já estou nesse caminho — eu disse, sem conseguir tirar os olhos da cruz. — Já estou nele faz tempo.
— Não. Você se desviou desse caminho e se deixou corromper. Você se maculou com um mundo perverso e profano, contrário a todas as leis da natureza e da salvação. Quando admitir isso, quando confessar seus pecados, vai poder recuperar sua cruz.
Minha mão ainda se manteve pressionada ao vidro, tremendo com a ânsia de tocar a cruz, para ter um pedaço de Adrian ao qual me segurar. O frio que ainda me atormentava perdeu força por um momento quando lembranças de Adrian inundaram minha mente e meu peito. Adrian, com seu sorriso irônico e seus olhos verdes de tirar o fôlego. Adrian, me segurando com firmeza em seus braços e me mantendo perto de seu coração. Adrian, lutando contra seus tormentos para fazer a coisa certa. Adrian, com sua fé infinita em mim.
Se eu pudesse segurar a cruz, se pudesse ter essa conexão… sem dúvida os obstáculos e a distância entre nós não significariam nada. Poderia suportar qualquer tortura que me lançassem.
Essa é uma delas, me dei conta. Uma recompensa que estão me oferecendo. Eles queriam que eu pegasse a cruz. Se eu cedesse, se reconhecesse as acusações, não estaria mais próxima de Adrian. Por mais que quisesse a cruz, aceitar ficar com ela significaria me voltar contra ele, virar as costas para tudo pelo que eu vinha me esforçando tanto. Aos poucos e com dificuldade, fui soltando a mão e cerrando o punho.
Não precisava de nenhum objeto para me lembrar do amor dele. Eu já levava Adrian no meu coração e isso me bastaria para sobreviver.
— Não tenho nada a confessar — eu disse, entredentes.
— Você tem muito a confessar — a voz disse. — Mas precisa começar aos poucos. Dê um passo no caminho da redenção. Diga: “Pequei contra os meus e deixei minha alma ser corrompida. Estou pronta para expurgar essa escuridão”. Diga essa palavras e as coisas serão muito mais fáceis para você. Poderá ficar com a cruz. Poderá conseguir um cobertor. Poderá ter comida. De um jeito ou de outro, vamos expurgar essa escuridão, mas, se você não cooperar, teremos que empregar métodos que você vai achar um tanto… desagradáveis.
Senti uma pontada de medo surgir dentro de mim, mas enfrentei com determinação. Lancei um último olhar sedento para a cruz e tentei não me concentrar no objeto em si, mas no amor nos olhos de Adrian quando a tinha dado para mim. Dei meia-volta e fui até o outro lado da cela.
— Não tenho nada a confessar — repeti.
— Assim você não nos deixa escolha — a voz disse. — Isso nos desaponta e nos deixa muito, muito tristes.
A luz da caixa se apagou, mergulhando a cruz — e eu — na escuridão. Senti minha cabeça girar e percebi que, de algum modo, eles estavam colocando aquela droga de novo no meu corpo, me levando de volta para um mundo sem sonhos. Teria sido a água?
De um jeito ou de outro, vamos expurgar essa escuridão, mas, se você não cooperar, teremos que empregar métodos que você vai achar um tanto… desagradáveis.
— Certo — consegui dizer, antes de cair no chão. — Vamos ver o que vocês têm pra mim.

Um comentário:

  1. Imagina se eles soubessem quem deu a cruz...
    Ain, tadinha da Sydney </3

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Boa leitura :)