13 de outubro de 2017

Capítulo 24

ME SENTI BEM MAL por ter incendiado a casa da minha professora.
A sra. Terwilliger, por razões óbvias, pareceu achar esse o menor dos males. Ela não tinha certeza se o seguro cobriria os danos, mas a seguradora foi bem rápida em mandar alguém para investigar a causa do incêndio. Ainda estávamos esperando o veredito deles sobre o que o seguro cobriria, mas pelo menos não encontraram nenhum sinal de restos mortais humanos. Parte de mim ficou aliviada por não ter matado ninguém de verdade, mas outra parte ficou com medo de que aquela não fosse a última vez que veríamos Alicia. Qual tinha sido a comparação boba de Adrian? O Moriarty do seu Sherlock Holmes. Era de se imaginar que levar cacos de vidro na cara e depois ser largada numa casa em chamas poderia deixar uma pessoa com rancor de você.
Uma investigação rápida acabou revelando que Veronica estava em um hospital de Los Angeles, internada como pessoa desconhecida. Visitar a irmã em coma se tornou a prioridade da sra. Terwilliger, e ela alimentou esperanças de talvez encontrar uma maneira de desfazer o feitiço. Embora estivesse muito ocupada agora, minha professora arranjava tempo para continuar insistindo que eu conhecesse seu clã, e aceitei por mais de um motivo. Um deles era que eu não podia mais continuar fingindo que não queria usar magia.
Outro era que não planejava ficar.
Ainda estava decidida a ir para o México com Marcus, e a semana passou voando. As provas finais do semestre foram tranquilas e, antes que eu me desse conta, chegou a sexta-feira, o dia anterior à viagem. Corri o risco de me despedir dos meus amigos. O mais seguro seria desaparecer sem deixar vestígios, mas eu confiava que todos eles, inclusive Angeline, guardariam meu segredo e fingiriam não saber de nada quando os alquimistas descobrissem que tinham uma desertora. Contei para Trey também. Por mais que nossa relação não estivesse muito boa, ele ainda era meu amigo e eu sentiria falta dele.
Com o passar do dia, o alojamento foi ficando cada vez mais silencioso, exceto pela música natalina que tocava sem parar no saguão. Sem querer excluir outras religiões, a sra. Weathers havia colocado também um menorá e um cartaz de “Feliz Kwanzaa”, a celebração africana dessa época do ano. O dia seguinte era oficialmente o último antes que todos tivessem de ir embora, e várias pessoas já estavam partindo para as férias de inverno. Eu havia terminado de fazer as malas, que, aliás, ficaram leves. Não queria carregar muito peso na bagagem, uma vez que não fazia ideia do que esperar do México.
Ainda precisava me despedir de duas pessoas: Adrian e Jill. Eu estava evitando os dois por motivos muito diferentes, mas o tempo estava acabando. Sabia que Jill estava a apenas um lance de escadas, mas Adrian era mais difícil. Tínhamos conversado algumas vezes depois do incêndio para discutir alguns detalhes práticos, mas ele logo ficou quieto. Nenhum telefonema, nenhuma mensagem, nenhum sonho. Talvez eu devesse ficar contente. Talvez devesse aproveitar a chance de partir sem nenhuma despedida dolorosa. Mas não conseguia. Meu peito doía com a ideia de não o ver nunca mais. Por mais que ele fosse o motivo de eu estar partindo, sentia que precisava de uma despedida.
Não é uma questão de despedida, Sydney. Você quer ver Adrian. Precisa ver Adrian.
E é exatamente por isso que tem de ir embora.
Finalmente me decidi e liguei para ele. Demorei tanto tempo para juntar coragem que mal consegui acreditar quando ele não atendeu. Resisti ao ímpeto de tentar mais uma vez logo depois. Não. Eu podia esperar. Ainda haveria tempo no dia seguinte e claro que... claro que ele não estava me evitando. Ou estava?
Decidi adiar a conversa com Jill até o dia seguinte também. Dizer adeus para ela seria tão difícil quanto, e não só por causa do que ela vira através do laço. Eu tinha certeza de que ela acharia que eu a estava abandonando. Na verdade, se eu ficasse e me envolvesse com Adrian, poderia ser pega e nunca mais conseguiria protegê-la. Se fosse embora e ficasse livre, pelo menos poderia tentar protegê-la de longe. Torci para que ela entendesse.
A espera me deu a oportunidade de cuidar de uma tarefa desagradável: devolver a arma para Malachi Wolfe. Eu nunca tinha ido à casa dele sem Adrian e, embora soubesse que não tinha por que ter medo de Wolfe, havia algo de perturbador em ir até o complexo sozinha.
Para minha surpresa absoluta, Wolfe me deixou entrar na casa quando cheguei. Estava complemente em silêncio.
— Cadê os cachorros? — perguntei.
— Treinando — ele respondeu. — Tenho um amigo que é treinador de cães profissional, e ele está dando umas aulas de discrição pra eles. Ele trabalhava com cães da polícia.
Eu não achava que discrição fazia parte do código genético dos chihuahuas. Claro que não falei isso, mas fiquei olhando assombrada para a cozinha de Wolfe. Eu esperava uma cozinha parecida com a de um navio. Em vez disso, encontrei um cômodo surpreendentemente gracioso, com papel de parede azul xadrez e um pote em forma de esquilo para guardar biscoitos. Se alguém me pedisse para descrever a cozinha que Wolfe nunca teria, eu teria descrito algo como aquilo. Não... espere. Na geladeira, havia alguns ímãs que pareciam shurikens. Isso, pelo menos, combinava mais com o Wolfe que eu conhecia.
Adrian vai ficar louco quando eu contar pra ele. Então lembrei que poderia não ver Adrian por muito tempo. Essa ideia destruiu todo o meu bom humor.
— Então, do que precisa? — Wolfe perguntou. Olhei para ele e de repente tive a estranha impressão de que o tapa-olho realmente estivera num olho diferente da última vez. Eu deveria ter prestado mais atenção. — Outra arma?
Voltei a me concentrar no que tinha ido fazer ali.
— Não. Nem precisei da primeira, mas obrigada por emprestar. — Tirei a arma da bolsa e a devolvi para ele.
Ele deu uma examinada na arma e depois a colocou dentro de uma gaveta.
— Resolveu seu problema? Ainda pode ficar com ela se quiser.
— Vou sair do país. Levar a arma para a fronteira pode me arranjar problemas.
— Entendi — ele disse. Ele pegou um pote de biscoitos e abriu a tampa, oferecendo para mim. Um cheiro incrível chegou às minhas narinas. — Quer um? Acabei de fazer.
Era realmente uma pena não poder contar tudo aquilo para Adrian.
— Não, obrigada. Já comi açúcar demais nas últimas semanas. — Achei que deveria ter um cartão fidelidade no Tortas e Tal.
— Acho que você está melhor agora. Não é mais só pele e osso. — Ele aprovou com a cabeça, o que foi muito estranho e um tanto assustador. — Então, pra onde estão indo?
— Para o Méxi... Ah, Adrian não vai comigo. Vou com outra pessoa.
— Sério? — Ele colocou o esquilo de volta no balcão. — Que surpresa. Sempre achei que, quando saíam daqui, vocês dois iam pra casa e faziam “sessões de treinamento” particulares.
Fiquei vermelha.
— Não! Não é nada desse tipo... Quer dizer, somos só amigos.
— Eu tinha uma amiga assim. Sally Dente-Prateado. — Ele assumiu aquela expressão distante que sempre surgia quando tinha uma história para contar.
— Desculpe, o senhor disse...
— Nunca conheci uma mulher como Sally — ele interrompeu. — Lutamos na Suíça juntos, sempre protegendo um ao outro. Escapamos vivos, mas por pouco, e ela queria voltar para os Estados Unidos e se casar. Eu não. Eu tinha sonhos, sabe. Era jovem naquela época, atraído pelo perigo e pela glória. Deixei Sally e fui morar com um xamã nas ilhas Órcades. Levei dois anos e muitos ritos de passagem para perceber meu erro, mas, quando voltei, não consegui mais encontrá-la. Quando fecho os olhos à noite, ainda consigo ver aquele dente brilhando como uma estrela. Isso me assombra, minha jovem. Me assombra.
Franzi a testa.
— Acho que os orcadianos não fazem ritos de passagem. Nem os xamãs.
Wolfe se aproximou e apontou um dedo para mim, seu olho arregalado.
— Aprenda com os meus erros, minha jovem. Não vá para as Órcades. Você não precisa de uma visão mística para enxergar o que está bem debaixo do seu nariz, está me ouvindo?
Engoli em seco.
— Sim, senhor.
Saí logo depois disso, pensando que estar num país diferente de Malachi Wolfe poderia ser uma boa ideia.
Na manhã seguinte, estava pronta para me despedir de Jill, mas ela foi mais rápida e apareceu na minha porta. Era a primeira vez que conversávamos de verdade desde a manhã seguinte ao último sonho com Adrian.
Ela entrou no quarto e franziu a testa ao ver minha mala.
— Você vai mesmo?
— Sim. E tenho certeza de que você sabe por quê.
Ela cruzou os braços e me olhou diretamente nos olhos, sem nada do constrangimento da última vez. Foi difícil aguentar aquele olhar penetrante.
— Sydney, você não precisa largar Adrian por minha causa.
— É mais complicado do que isso — eu disse automaticamente.
— Não é, não — ela disse. — Pelo que vi e ouvi, você só está com medo. Você sempre controlou todos os detalhes da sua vida. Quando não conseguiu, como com os alquimistas, encontrou um jeito de recuperar esse controle.
— Não tem nada de errado em querer controle — retruquei.
— Exceto que nem sempre dá para ter controle, e às vezes isso é bom. Ótimo, até — ela acrescentou. — E é assim com Adrian. Por mais que tente, você nunca vai conseguir controlar o que sente por ele. Não vai conseguir não amá-lo, e é por isso que está fugindo. Eu sou só uma desculpa.
Quem era ela para me dar sermão daquele jeito?
— Acha que estou mentindo sobre como é constrangedor que você veja tudo que acontece entre nós? Todos os detalhes mais íntimos ficam à mostra. Não posso fazer isso. Não consigo viver desse jeito.
— Adrian aprendeu.
— Ele teve de aprender.
— Exato. — Parte da agressividade dela diminuiu. — Sydney, ele me trouxe de volta dos mortos. É a coisa mais incrível que alguém já fez por mim. Não tenho como retribuir isso a ele, mas posso deixar que leve a vida do jeito que bem entender. Não espero que ele fique me protegendo por causa do laço, e não vou julgar o que ele faz... ou o que você faz. Um dia, vamos aprender a bloquear o laço.
— Um dia — eu repeti.
— Sim. E, até lá, faremos o melhor possível. Tudo o que vai conseguir indo embora é deixar três pessoas infelizes.
— Três? — Franzi a testa. — Estou protegendo você.
— Você acha mesmo que fico contente quando ele está triste? Acha que gosto da escuridão que toma conta dele? — Como eu não disse nada, ela insistiu. — Veja, não tenho a mesma reação física a você que ele tem, mas, quando ele está com você, ele fica tão feliz que isso irradia pra mim, e é uma das melhores sensações que já experimentei. Nunca estive apaixonada como vocês estão.
— Não estou... — Não consegui terminar a frase, e ela me olhou como quem sabia das coisas. Tentei outra tática. — Ficar aqui é arriscado, ainda mais com ele. Os alquimistas podem descobrir tudo... sobre ele, sobre minha tatuagem, sobre a sra. Terwilliger e sabe Deus o que mais.
— E, se não descobrirem, olhe só o que você ganha. Adrian. Todos nós. Magia. A chance de revelar os segredos deles. Sei que você adora essa vida. Por que desistir? Você é inteligente demais pra ser pega. E vamos ajudar você. Acha mesmo que Marcus e os Vingadores conseguem fazer muita coisa quando estão sempre fugindo dos alquimistas?
Balancei a cabeça.
— Eles são como eu. Eles me entendem.
Ela estava obstinada.
— Eles não são nem um pouco como você. Eles falam. Você age.
Era surpreendente ver Jill daquele jeito, tão confiante e tão mais sensata do que uma garota normal da sua idade. Era um pouco irritante também. Se ela era tão sensata, por que não conseguia entender quanta coisa estava em risco?
— Jill, ficar é muito arriscado... em todos os sentidos.
— Claro que é! — ela exclamou, com os olhos ardentes de raiva. — Tudo na vida que vale a pena tem seus riscos. Se for pro México, você vai se arrepender... e acho que sabe disso.
Meu celular tocou, interrompendo minha resposta. Era Eddie. Ele quase nunca me ligava, e o pânico tomou conta de mim.
— Qual é o problema? — perguntei.
Ele pareceu desconcertado.
— Acho que não é um problema... só uma coisa inesperada. Jill está com você? Vocês precisam descer. Estamos aqui fora.
Ele desligou e fiquei completamente confusa.
— Que foi? — Jill perguntou.
— Uma coisa inesperada, parece.
Descemos até o saguão, sem mais nenhuma menção a Adrian. Quando saímos, encontramos Eddie e Angeline, que estavam claramente evitando olhar um para a cara do outro. Parado perto deles estava um menino alto e bonito, com cabelo preto bem cortado e olhos azuis brilhantes. Ele estava com uma expressão séria, e examinava a área.
— Ele é um dampiro — Jill murmurou para mim.
Os olhos dele se concentraram em nós duas quando nos aproximamos, e sua expressão agressiva relaxou um pouco.
— Jill, Sydney — Eddie disse. — Este é Neil Raymond. Ele vai ficar com a gente aqui.
Neil fez uma reverência tão grande para Jill que foi uma surpresa não bater com a cabeça no chão.
— Princesa Jillian — ele disse com a voz grave. — É uma honra servir a Vossa Alteza. Farei o melhor trabalho que minhas habilidades permitirem, mesmo que signifique sacrificar minha própria vida.
Jill deu um passo para trás, analisando-o com olhos arregalados.
— O-obrigada.
Eddie olhou de um para o outro, franzindo um pouco a testa.
— Neil foi enviado como reforço. Parece que você reclamou que Jill não tinha proteção suficiente, é isso? — Ele se dirigiu mim e, a menos que estivesse enganada, havia um tom acusatório em sua voz.
— Não... eu... Ah. Acho que sim. — Quando estava tentando corrigir a situação com Stanton, uma de minhas queixas havia sido de que nunca achava que Jill estava protegida. Acho que essa era a resposta de Stanton. Era inesperado, como Eddie havia dito, mas proteção nunca era demais. Pela maneira como estava medindo Neil, Jill também não pareceu ver mal nenhum naquilo.
Apertei a mão dele.
— Bom ter você aqui, Neil. Eles vão fazer você se passar por mais um primo?
— Só um aluno novo — ele respondeu. Melhor. Nossa “família” estava correndo o risco de dominar Amberwood.
Eu teria gostado de conhecer Neil um pouco mais, mas meu tempo estava acabando. Marcus viria me pegar em breve para irmos à estação de trem, já que a situação de Pingado havia sido declarada perda total. Acho que essa foi mais uma despedida.
Eu disse tchau para todos antes de ir pegar minha mala, fingindo que só precisava terminar alguma tarefa. Eddie, Angeline e Jill sabiam a verdade, e pude ver a mágoa e a tristeza nos olhos deles, especialmente nos de Jill. Torci para que ficassem bem sem mim. Quando desci as escadas de novo, vi que Jill era a única que ainda estava lá.
— Esqueci de dar isso a você — ela disse, me estendendo um pequeno envelope. Meu nome estava escrito do lado de fora, e reconheci a letra.
— Tentei falar com ele e pensei que estivesse me evitando. Esse é o jeito dele de me dar tchau? — Fiquei desapontada por não poder ver Adrian pessoalmente uma última vez. Talvez uma carta fosse melhor do que nada, mas queria partir com aqueles olhos lindos ainda frescos na memória. — Ele... ele está muito magoado? — Não conseguia suportar a ideia de ferir os sentimentos dele.
— Leia a carta — ela respondeu, com um ar misterioso. — E lembre-se, Sydney. A questão aqui não sou eu. São vocês. Você pode controlar todas as outras coisas, mas não isso. Desapegue e admita seus sentimentos.
Foi assim que nos despedimos, e fui me sentar no meio-fio para esperar Marcus. Fiquei olhando para o envelope, observando o modo como Adrian havia escrito meu nome. Quase o abri três vezes... mas perdi a coragem em todas. Por fim, vi o carro de Marcus chegando, e enfiei o envelope dentro da bolsa.
Assim que me buscou, Marcus começou a falar empolgado sobre seus grandes planos para o futuro. Eu mal conseguia ouvir. Só ficava pensando em Adrian e no vazio que seria minha vida sem ele. Marcus e eu havíamos ficado de encontrar Wade e Amelia na estação de trem, mas eu não conseguia imaginar algum deles me entendendo como Adrian, apesar de serem humanos e de terem um passado parecido com o meu. Nenhum deles teria o humor ácido ou seria tão perturbadoramente compreensivo como ele. E, brilhando sob todas essas emoções, estavam as memórias mais quentes... a maneira como havíamos nos beijado, a maneira como eu me sentia nos braços dele...
— Sydney? Está prestando atenção?
Pestanejei e me voltei para Marcus. Acho que era mais um daqueles momentos em que ele não conseguia acreditar que alguém não estava fascinado por tudo o que ele dizia.
— Desculpe — eu disse. — Estou com a cabeça meio longe.
Ele abriu um sorriso.
— Bom, então tente pensar em praias e margaritas, porque sua vida está prestes a mudar.
Praias e margaritas eram tudo o que ele tinha na cabeça.
— Você esqueceu a parte de selar a tatuagem. A menos que seu tatuador também seja um bartender.
— Lá vem você de novo, bonita e divertida. — Ele riu. — Vai ser muito legal.
— Quanto tempo vamos ficar lá?
— Bom, primeiro vamos cuidar das tatuagens. É a coisa mais importante. — Fiquei aliviada de ver que ele estava levando aquilo a sério. — Depois vamos aproveitar o lugar por algumas semanas sem chamar muita atenção. Então voltamos e vamos atrás de outros alquimistas insatisfeitos.
— E então repetimos tudo de novo? — perguntei. No espelho retrovisor, conseguia ver o horizonte de Palm Springs desaparecendo enquanto seguíamos de carro para o norte. Senti uma pontada de saudade no peito. — Aliciar outras pessoas para conseguir informações importantes e depois as libertar?
— Exato.
Seguimos em silêncio por mais um minuto enquanto eu processava as palavras dele.
— Marcus, o que vocês fazem com as informações que reúnem? O que vão fazer a respeito de mestre Jameson?
— Continuar encontrando evidências — ele respondeu prontamente. — Essa é a maior pista que já tivemos. Agora sabemos que vale a pena insistir e procurar mais.
— É mais do que uma pista. Por que não passar essa informação aos Moroi?
— Os alquimistas negariam tudo. Além disso, não queremos ser precipitados.
— E daí se eles negarem? — perguntei. — Pelo menos os Moroi vão ter uma vantagem.
Ele me olhou de soslaio de um jeito que me lembrou um pai tentando ser paciente com o filho. À nossa frente, vi a placa indicando a estação de trem.
— Sydney, sei que está ansiosa, mas confie em mim. É assim que fazemos as coisas.
— Não sei se é o jeito certo.
— Você tem muitas ideias para alguém que acabou de entrar. — Ele riu baixinho. Queria que parasse com aquilo. — Só espere e vai acabar entendendo.
Não gostei daquela atitude condescendente.
— Acho que já entendi. E quer saber? Acho que vocês não fazem nada. Quer dizer, descobriram uma informação impressionante... mas e agora? Vão ficar esperando? Vocês ficam fugindo e se escondendo. Como isso vai ajudar em alguma coisa? Suas intenções são boas... mas só são isso: intenções. — Eu quase podia ouvir a voz de Jill na minha cabeça: Eles falam. Você age.
Ironicamente, Marcus estava sem palavras.
— Vocês poderiam fazer tanta coisa — continuei. — Quando descobri quem você era, me pareceu ter todo o potencial do mundo. Na verdade, ainda tem. Mas esse potencial está sendo desperdiçado. — Ele parou o carro no estacionamento da estação de trem, ainda completamente boquiaberto.
— De onde está tirando essas coisas? — ele perguntou finalmente.
— De mim — respondi. — Porque não sou como vocês. Não posso não fazer nada. Não posso fugir. E... não posso ir com vocês.
Foi bom dizer aquelas coisas... e pareceu certo. Durante toda a semana, meu cérebro vinha me dizendo que a coisa certa a fazer era ir embora antes que a situação com Adrian e os alquimistas fosse por água abaixo. E, sim, provavelmente era a coisa mais inteligente a se fazer. Meu coração não concordara plenamente em nenhum momento, mas eu vinha tentando ignorá-lo. Foi só quando ouvi Jill e Marcus que percebi que, pelo menos dessa vez, meu cérebro deveria optar pela solução menos lógica.
Precisei dar crédito a Marcus. Ele realmente parecia preocupado, não só incomodado por não conseguir o que queria.
— Sydney, sei que você está apegada a esse lugar e a essas pessoas, mas não é mais seguro pra você ficar aqui. Não é seguro pra você ficar em lugar nenhum, não enquanto os alquimistas estiverem de olho em você. Não enquanto sua tatuagem estiver vulnerável.
— Me disseram recentemente que tudo na vida que vale a pena tem seus riscos — eu disse, sem conseguir conter o sorriso. Nunca pensei que citaria uma frase de Jill.
Marcus deu um soco no painel.
— Isso é besteira sentimental! Parece bom na teoria, mas a realidade é completamente diferente.
— Que tipo de realidade você poderia ter criado se tivesse ficado com os alquimistas? — perguntei. — Quanta coisa você poderia ter descoberto?
— Nenhuma se tivesse sido pego — ele respondeu, categórico. — E, por mais que você nos considere inúteis, já libertamos dezenas de alquimistas. Ajudamos Clarence e os Moroi.
— Vocês não são inúteis, Marcus. Fazem um bom trabalho. Mas vamos seguir caminhos diferentes. Vou ficar e fazer as coisas do meu jeito. Não foi isso que você disse quando nos conhecemos? Que íamos ajudar os Moroi nos nossos próprios termos? Esses são os meus.
— Você está desperdiçando seu tempo!
— O tempo é meu. Faço o que quiser com ele — eu disse. Adrian havia me dito exatamente a mesma coisa no voo para o casamento, quando prometera que continuaria me amando de longe. Fiquei com pena de Marcus, ainda mais porque ele estava realmente contando que eu iria com ele.
Ele segurou minha mão.
— Sydney, por favor, não faça isso — ele pediu. — Por mais confiante que se sinta, por mais cuidadosa que pense que é, as coisas vão sair do seu controle.
— Elas já saíram — eu disse, abrindo a porta de passageiro. — E vou parar de lutar contra elas. Obrigada por tudo, Marcus. Mesmo.
— Espere, Sydney — ele me chamou. — Só me diz uma coisa.
Olhei para trás e esperei.
— De onde surgiu isso? Quando você me ligou pra falar que vinha com a gente, disse que tinha se dado conta de que era a coisa mais inteligente a fazer. O que fez você mudar de ideia?
Abri um sorriso que esperava ser tão deslumbrante quanto os dele.
— Descobri que estou apaixonada.
Pego de surpresa, Marcus olhou ao redor, como se esperasse ver meu objet d’amour no carro com a gente.
— E você acabou de descobrir isso? Teve algum tipo de visão?
— Não precisei — respondi, pensando na viagem fracassada de Wolfe para as Órcades. — Estava bem debaixo do meu nariz esse tempo todo.

2 comentários:

  1. Ahhhhhhhhhhhh *.*

    Pelo Anjo Sydney achei mesmo que ela ir pro México.
    Tadinho do Adrian, mais uma decepção. .

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  2. !!!<3 <3 <3 Malachi Wolfe MELHOR PERSONAGEM <3 <3 <3!!!

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Boa leitura :)