19 de outubro de 2017

Capítulo 23

Adrian

SE EDDIE BEBESSE, era bem possível que me acompanhasse até algum bar. Ele não estava tão perturbado quanto eu por causa do desastre em que tínhamos nos metido, mas devia estar em segundo lugar na lista.
Depois que chegou de surpresa na casa de Jackie com aquela história, tentamos as coisas óbvias. Ligamos inúmeras vezes para o celular de Sydney. Fomos até o restaurante fechado. Não havia nenhum sinal dela… tampouco em Amberwood. Em menos de duas horas, seu quarto havia sido completamente esvaziado, e a administração tinha sido notificada de que Sydney Melrose e Zoe Ardmore estavam deixando a escola imediatamente. Sem endereço novo. Como era compreensível, os funcionários ficaram perplexos com nossa confusão, já que todos achavam que éramos parentes.
Marcus havia esperado na casa de Jackie, com medo de dar as caras no alojamento caso ainda houvesse alquimistas na área. Quando entrei na sala, ele se levantou, profundamente agitado. Jackie já estava de pé, andando de um lado para o outro.
— Descobriram alguma coisa? — ela perguntou.
Eddie fez que não enquanto fui até Marcus.
— Onde ela está? — perguntei, furioso. — Pra onde mandaram Sydney?
— Não sei — ele respondeu, abatido.
— Sabe sim! É isso que você faz. — Precisei resistir à vontade de chacoalhar seus ombros. — Você sabe dessas coisas, caramba! Finge ser um grande gênio do crime! Onde ela está?
Eddie se aproximou e me puxou pelo braço. Acho que ficou com medo de que eu chegasse a atacar Marcus.
— Calma — Eddie advertiu.
Marcus estava pálido.
— Sinto muito. Não sei mesmo onde ela está. Posso pensar, fazer algumas ligações… mas sem nenhuma informação, será infrutífero.
Pessoas normais não usavam a palavra “infrutífero”. Só pessoas inteligentes como os alquimistas. Sydney teria usado. Resmungando, me larguei em uma poltrona.
— Eles estavam falando que salvariam Sydney da perdição — Eddie disse. Ele ainda estava com a aparência péssima e nem tinha pensado em se limpar.
— Sim — Marcus disse, sombrio. — Aposto que é o que acham que estão fazendo. E podem esconder Sydney em muitos lugares… a maioria nem meus contatos conhecem. Os lugares para onde levam gente que nem ela… enfim, nem todos os alquimistas sabem onde ficam.
Gente que nem ela.
Eu estava me sentindo mal e enfiei a cara entre as mãos enquanto relembrava a história febril que Eddie havia nos contado.
— Aquele celular. Aquele maldito celular. — A culpa era minha. A culpa por ela ser pega era minha. Se eu não tivesse sido tão descuidado, não teria perdido em qualquer lugar. Quando levantei os olhos, vi que todos estavam olhando confusos para mim. Até Eddie, que tinha narrado a história, não entendia completamente a função do celular. Marcus se agitou de repente.
— Espere. Sei como a gente pode encontrar Sydney.
Perdi o fôlego.
— Como?
— Através de você — Marcus disse, animado. — Seus sonhos de espírito. Em algum momento ela vai ter que dormir. Você se encontra com ela e pergunta onde ela está.
Me afundei na poltrona. Senti vontade de rir. De chorar. De bater em alguma coisa.
— Não posso. Meu espírito está fora de serviço agora.
Pronto. O medo de não conseguir curar Sydney caso ela se ferisse vinha me atormentando desde o primeiro dia em que começara a tomar o estabilizador de humor. Em nenhum momento eu havia imaginado que era do sonho que precisaria. Mesmo sabendo que não havia jeito, tentei alcançar e tocar o espírito como costumava fazer. Nada aconteceu. Não era nem que eu não conseguia tocá-lo: ele simplesmente não estava lá.
Eu havia falhado. Havia sido fraco, fraco demais para lidar com o lado negro do espírito. Tinha cedido aos comprimidos e agora não servia para nada. Será que o espírito voltaria se eu parasse de tomar os medicamentos? Quanto tempo demoraria? Naquele momento, não havia por que me perguntar essas coisas. Sydney estava desaparecida e nenhum de nós conseguia fazer nada, bem quando ela mais precisava.
Jackie pigarreou.
— Talvez eu consiga ajudar. Posso fazer um feitiço, o mesmo que ela fez para buscar sua amiga Moroi. Eu precisaria de uma mecha de cabelo dela.
Surgiu uma leve esperança dentro de mim.
— Deve ter um monte na minha casa.
Marcus arqueou a sobrancelha.
— Acho que aqui também pode ter… — Sem dizer mais nada, Jackie deu meia-volta e saiu correndo em direção à oficina. Eu a segui e fiquei olhando enquanto ela se ajoelhava diante de uma prateleira onde havia deixado que Sydney guardasse as coisas que não podiam ficar no dormitório.
A maior parte era parafernália mágica, coisas que Sydney não queria que Zoe encontrasse. Havia algumas mudas de roupa também, para o caso de ela derrubar alguma coisa com que estivesse trabalhando, Jackie explicou. Era o tipo de cuidado que Sydney tomaria. Também havia uma capa de veludo e alguns livros de feitiço. Com cuidado, desdobramos as roupas, procurando desesperadamente por fios de cabelo que pudessem ter caído. Encontrei um finalmente, fino e brilhante como ouro, perto da gola de uma camiseta roxa. Entreguei o fio para Jackie e abri a camiseta. Precisei me segurar para não chorar ali mesmo.
Era a camiseta que eu tinha feito para ela, roxa com um coração prateado flamejante. Em uma fração de segundo, nos vi de novo na fraternidade lotada e esfumaçada. Estávamos sentados um ao lado do outro e, quando tinha olhado em seus olhos, vi meu desejo refletido neles. Seu beijo havia desequilibrado meu mundo e eu soube que, daquele momento em diante, por mais que ela negasse, estávamos ligados um ao outro.
Segurei a camiseta e a puxei para o rosto. Ainda tinha o leve aroma do perfume dela.
— Vou ficar com essa.
Jackie assentiu.
— Vá lá com seus amigos. Vou demorar um pouco pra preparar as coisas.
— Você precisa encontrar Sydney — eu disse, a segurando pelo braço. Sabia que estava soando louco e desesperado… mas era como me sentia naquele momento. — Precisa. Se acontecer alguma coisa com ela… eu não vou aguentar… eu…
Lágrimas surgiram nos olhos de Jackie e, para minha surpresa, ela me abraçou.
— Vou fazer o possível. Mas, agora, você precisa se controlar.
Não sabia se tinha conseguido quando voltei para encontrar Eddie, Marcus e os outros, mas eles estavam tão perdidos em suas próprias preocupações que não perceberam as minhas. Eddie ergueu os olhos quando me aproximei. Seu rosto ainda estava cheio de sofrimento.
— Eu tentei — ele murmurou. — Adrian, eu tentei. Nunca a teria abandonado se soubesse. Teria ficado com ela até o fim. Teria dado minha vida e…
Fui obrigado a conter meus próprios sentimentos para lidar com os dele. Eddie havia perdido mais uma pessoa. Era azar, nada além disso. Ele era um dos guardiões mais incríveis e competentes que existiam, mas não conseguia acreditar em si mesmo, não diante daqueles fracassos. Ao olhar para ele, reconheci o ódio intenso por si mesmo que o consumia. Eu conhecia bem aquele sentimento.
— Eu sei — eu disse. — Não tinha nada que você pudesse fazer.
Ele balançou a cabeça e ficou olhando para o nada com o olhar perturbado.
— Fui um idiota. Não devia ter acreditado naquela história de feitiço. Depois do que ela fez com o fogo, pareceu… sei lá, real. Fazia sentido.
Abri um sorriso triste.
— É isso que ela faz. Ela é treinada para fazer as pessoas acreditarem no que diz. Para ser mais esperta do que os outros. Você não tinha chance. — Além disso, Sydney estava disposta a entregar a própria vida para salvar a de um amigo, mas ninguém a havia treinado para isso. Era algo que havia dentro dela.
Eddie não se convenceu tão facilmente, então deixei-o com seu sofrimento e me entreguei ao meu.
Einstein havia dito que, mesmo com o estabilizador de humor, as coisas tristes me deixariam mal e as felizes me deixariam contente. Ele tinha razão. Ali, com o mundo completamente destruído ao meu redor, senti como se nunca tivesse tomado aqueles medicamentos. O desespero sombrio e sufocante de que pensava ter me livrado caiu com tudo sobre mim, entrando em todas as partes do meu ser. Eu me odiava. Odiava minha vida porque Sydney não estava nela.
Minha angústia ficou me rodeando e foi como nos velhos tempos do espírito — só que eu não tinha o espírito. Se tivesse, não seria tão insuportavelmente inútil. Não tinha nada para oferecer a Sydney.
Absolutamente nada.
Mas Jackie tem. Se eu não conseguia me livrar daquele desespero sufocante, ao menos podia depositar esperanças em outra pessoa. Jackie daria um jeito. Ela encontraria Sydney e, de algum modo, talvez com o vodu de Marcus ou os punhos de Eddie, a traríamos de volta. Eu me agarrei àquele fiapo de esperança, alimentando aquela pequena chama até afugentar parte das trevas do meu coração. A culpa e o ódio de mim mesmo se aliviaram, e me obriguei a ser forte. Eu precisava ser forte por Sydney. Ela acreditava em mim.
Mas, quando Jackie voltou, pude ver em seu rosto que o feitiço não havia dado certo.
— Eu tentei — ela disse, com os olhos vermelhos. — Estabeleci uma conexão com ela, mas não consegui identificar nada substancial. Nenhuma imagem. Só escuridão.
— Ela está viva? — perguntei, mal reconhecendo minha voz.
— Sim — Jackie e Marcus disseram em uníssono. Olhei para os dois inquisitivamente. — Se estivesse morta, eu poderia ver pelo feitiço. — Jackie não elaborou mais.
— Os alquimistas não vão matar Sydney. Não é o estilo deles — Marcus disse. — Dão muito valor para o seu pessoal. Vão tentar mudar sua mente, fazer com que ela pense de outra forma.
— Reeducação — eu disse, desconsolado.
Ele abriu as mãos em um gesto desamparado.
— É daí que vem o nome.
— Mas não vão conseguir, vão? — Eddie perguntou. — Quer dizer, estamos falando de Sydney aqui. Ela vai ser a mesma pessoa… não vai? Ela pode lutar contra eles.
Marcus demorou um tempo para responder.
— Claro. — Ele não mentia tão bem quanto Sydney. Para mim, perguntou: — Ela não chegou a fazer tatuagem de sal nela mesma, chegou? — Fiz que não, mas pude ver pela sua expressão que ele já sabia a resposta. Eu não disse nada sobre a possibilidade não comprovada de que Sydney poderia estar protegida pelo uso de magia. Não tínhamos nada além da palavra de Inez, mas Sydney permanecera otimista e pretendia conduzir outros experimentos em si mesma quando tivesse tempo. Tempo que não tínhamos mais. “Quando tudo estiver mais calmo”, ela havia dito, “vamos ter uma chance.”
Fiquei acordado a noite toda, sem conseguir descansar. No dia seguinte, o grupo foi convocado para se encontrar na mansão de Clarence com uma alquimista chamada Maura. Ela tinha mais ou menos a idade de Sydney e o cabelo castanho em um corte simples. Estava usando o uniforme de Amberwood.
— Sou a nova alquimista em Palm Springs — ela disse, em um tom formal. — Sou sua conexão para lidar com quaisquer atritos que possam surgir entre os Moroi. Como sei que já se adaptou, princesa, duvido que tenhamos de interagir muito.
Todos ficamos olhando, desanimados. A essa altura, todo mundo sabia que Sydney havia sido levada embora, ainda que nem todos os motivos fossem conhecidos. Quem não sabia do nosso namoro achava que ela havia sido pega por se aproximar demais de nós, o que não estava muito longe da verdade. Maura entregou seu cartãozinho para cada um de nós.
— Aqui tem meu e-mail e meu número de telefone se precisarem entrar em contato. Têm alguma pergunta?
— Sim — eu disse. — Onde estão Sydney e Zoe Sage?
O sorriso de Maura era tão educado quanto o de um político, mas pude ver a frieza alquimista em seus olhos. Duvidava que ela conseguisse ficar no mesmo ambiente que eu se soubesse do passado de Sydney; mesmo assim, estava claro que tinha o desdém e a desconfiança que todos os alquimistas nutriam pela minha raça.
— Sinto muito — ela disse, fria. — Só vou aonde me mandam. Eles não compartilham informações confidenciais comigo. Você precisaria perguntar aos meus superiores para conseguir os detalhes da nova missão das irmãs Sage. — Pelo seu tom de voz, ela não achava que alguém me contaria. Nesse ponto, estávamos de acordo.
Eu não tinha tomado o estabilizador de humor naquela manhã, mas vinha sentindo pouca diferença ao longo do dia. Jackie me contara que poderia tentar outros feitiços de localização durante a lua nova, dali a duas semanas, e isso, somado à possibilidade de recuperar o espírito, era tudo que me mantinha longe de uma garrafa de vodca. Minha maior realização foi ir às aulas. Queria ficar na cama o dia inteiro.
Ou encher o saco de Marcus para saber novidades. Só ia a Carlton um dia após o outro por causa de Sydney. Ela iria querer que eu continuasse os estudos, não só por suas convicções educacionais, mas porque odiaria me ver mergulhado naquele desespero. Eu caminhava penosamente para o campus, feito um robô, e minhas roupas variavam entre o cinza e o preto.
Três dias depois que parei de tomar os medicamentos, tive certeza de que o humor sombrio havia voltado para ficar. Exatamente como antes.
Cinco dias depois, acordei e senti os primeiros vislumbres do espírito.
Quase chorei. Fazia tanto tempo e, quando estendi meus sentidos, tocando naqueles fios brilhantes e reluzentes de magia, senti como se só naquele momento estivesse respirando novamente. Uma parte essencial de mim estivera faltando. Como podia ter abandonado o espírito? Ainda não conseguia controlar ou usar a magia por completo, mas a doçura daquele poder era forte e revigorante. Foi o que me deu a primeira esperança desde o desaparecimento de Sydney, além da iniciativa de ligar para Lissa.
Abandonei meu mal-estar e, de repente, tinha energia para dominar o mundo.
— Você precisa entrar em contato com os alquimistas e descobrir onde Sydney está — falei para Lissa quando ela atendeu.
— Como assim… do que você está falando? — ela perguntou, desnorteada.
Pelo jeito, ninguém havia se dado ao trabalho de contar a ela sobre a mudança de regime em Palm Springs. Desde que Jill estivesse em segurança, os alquimistas não achavam que Lissa precisasse saber da logística. Mantive nosso relacionamento fora da explicação e contei que os alquimistas surtaram e levaram Sydney embora por ficar próxima demais de nós. Não estava muito longe da verdade.
— Que horrível — ela exclamou. Pude ouvir compaixão em sua voz. — Mas não há muito que eu possa fazer. Isso é problema deles, por mais terrível que seja. Não posso exigir nada deles, assim como eles não podem pedir nada aos meus súditos. Os alquimistas e os Moroi trabalham juntos, mas não controlamos uns aos outros.
— Você pode pelo menos perguntar? Por favor? — Tentei manter a voz firme e fiquei contente que não era uma videoconferência. Nem conseguia imaginar o que meu rosto revelaria.
— Eu pergunto — ela disse, relutante. — Mas não posso prometer nada.
— Eu sei. Obrigado. — Tive uma ideia. — Você conheceu Sydney… será que poderia encontrá-la em um sonho de espírito? Estou tentando, mas com os medicamentos…
— Ah. — Ela fez uma pausa. — Eu adoraria… posso até tentar, mas não sou tão boa quanto você. Preciso conhecer a pessoa muito bem para fazer uma visita. Talvez você possa pedir para Sonya.
Era uma boa ideia e segui a sugestão, mais uma vez me agarrando a todas as esperanças possíveis.
Sonya e Sydney haviam ficado amigas, mas Sonya não era muito boa com os sonhos. Quando me ligou alguns dias depois, a notícia não foi animadora.
— Eu tentei — ela disse. — Mas não consegui. Acho que não tenho habilidade pra isso. Você é melhor nessas coisas.
— Talvez ela esteja acordada — eu disse, sem acreditar muito. Minhas esperanças mergulharam em profundezas sem fim mais uma vez, mas não ficaram baixas por muito tempo, pois, na manhã seguinte, consegui tocar o espírito.
Outra vez, tive aquela impressão de recuperar uma parte intrínseca de mim. Perdi o fôlego ao sentir a magia. Ela ardia dentro de mim, eufórica e gloriosa, e saí correndo para a rua de cueca e camiseta. Havia pouca gente lá fora, mas um homem passeando com o cachorro no quarteirão da frente me lançou um olhar surpreso. Sem hesitar, puxei o poder do espírito e a aura do homem se acendeu diante de mim, laranja e azul.
— Meu Deus — soltei o fôlego. Eu tinha a magia de volta. Conseguiria ajudar Sydney. Acenei para o vizinho e corri de volta para casa. Novamente no quarto, me acomodei e tentei invocar o estado onírico do espírito. Exigia uma certa tranquilidade, e minha euforia e agitação dificultavam o processo. Quando finalmente consegui entrar no estado de transe, porém, não encontrei Sydney.
Voltei ao mundo real e tentei pensar racionalmente. Se Sydney estivesse em algum lugar dos Estados Unidos, seria dia para ela também. E havia a possibilidade de que eu ainda tivesse de fortalecer um pouco meus poderes. Mas tinha me livrado da escuridão por um tempo, e me senti alçado nas asas da esperança, talvez naquele estado que Einstein havia advertido que era alto demais. Mas não conseguia entender por quê. Pela primeira vez em dias, achei que nem tudo estivesse perdido. Eu poderia salvar Sydney.
Essa sensação me deu tanta energia que mal consegui dormir nos quatro dias seguintes. Estava elétrico demais. Além disso, não queria perder nenhuma chance de me encontrar com ela nos horários em que pudesse estar dormindo. Meu controle do espírito estava com força total novamente e eu vivia entrando no transe onírico, na esperança de chegar até ela. Mas nunca conseguia. Às vezes, não fazia nenhuma conexão. Às vezes, sentia uma escuridão ou uma parede. O que quer que fosse, o resultado era o mesmo: nada de Sydney.
Meu humor estava começando a decair quando Jackie finalmente me ligou e disse que poderia tentar mais feitiços. Fui até lá, obediente, mas meu humor havia se estilhaçado, descendo até o outro extremo.
Menos por causa dos nossos fracassos (embora isso também me afligisse) do que por outros motivos. Eu havia me concentrado tanto em minhas tentativas que não passara muito tempo pensando em Sydney. O que estaria acontecendo com ela agora? Marcus não havia dado muitas informações sobre o que fariam com ela, e minha imaginação corria solta. Aquele ódio de mim mesmo voltou com tudo. Sydney estava sofrendo. Precisava de mim e eu não estava lá para ajudar.
Havia um carro desconhecido parado na frente da casa de Jackie e, quando ela me convidou para entrar, fiquei surpreso ao dar de cara com Jill e Eddie.
— O que está acontecendo? — perguntei.
— Eu queria ver os feitiços — Jill respondeu. Ela me lançou um olhar inquisitivo. — E queria conversar com você também.
— Como você sabia que a gente… — parei no meio da frase. Claro. Assim como todo o resto, o laço havia sido restaurado. Jill estava em sincronia comigo de novo e, a julgar por seu olhar abatido, estava sendo arrastada pelos meus humores malucos.
— Adrian — ela disse, baixinho. — Você precisa dormir.
— Não posso. Você sabe que não posso. Não posso correr o risco de perder uma chance. Ela tem que dormir e preciso ficar acordado para encontrar com ela.
— Faz dias que você está tentando. Está na hora de admitir que tem alguma coisa errada. Tem alguma coisa bloqueando você.
Ela tinha razão, mas eu não queria admitir. Queria acreditar que, se tentasse mais ou achasse o momento certo, encontraria Sydney. Eu tinha falado com Lissa em um sonho fazia pouco tempo, quando ela me contou que não conseguira nada com os alquimistas, então sabia que ainda possuía a habilidade.
— Não importa — eu disse, obstinado. — Jackie vai encontrar Sydney. Vai dar um jeito nisso. Tem duas coisas que você pode fazer, certo?
— Sim — ela respondeu. — Uma só pode ser feita neste momento lunar. A outra pode ser feita a qualquer hora… só precisa de muita magia e alguns ingredientes que eu não tinha. Demorei para achar todos.
— Então vamos lá.
O feitiço da lua nova precisava ser feito ao ar livre. Ela tinha montado um altar coberto de incenso e outros itens, e ficamos longe, esperando em um silêncio tenso. Para nós, aquilo não passava de palavras e gestos ininteligíveis, e fiquei pensando nas vezes que estivera com Sydney enquanto Jackie realizava feitiços. Sydney conseguia sentir a magia e sempre perdia o fôlego, com o olhar maravilhado, enquanto observava sua mentora. Naquele momento, não senti nada além de uma guerra entre medo e esperança dentro do meu peito.
Quando Jackie finalmente se ergueu e voltou para onde estávamos, balançou a cabeça, triste.
— Nada. Desculpe. Vamos tentar o outro.
Ela lançou o outro dentro de casa, uma façanha espetacular que criava um grande disco giratório em pleno ar. O poder que exigia quase fez com que ela desmaiasse, e eu a peguei quando ela começou a cair.
— Nada também. — Só então, vendo como ela estava à beira de lágrimas, entendi o quanto se preocupava com Sydney. — Pensei que um deles funcionaria. Mas tudo que encontro é uma parede escura. — Nós a ajudamos a voltar para a sala, e comecei a vasculhar sua cozinha em busca de comida. Uma coisa que havia aprendido era que usuárias de magia exaustas precisavam de calorias. — Tive uma experiência parecida com minha irmã, quando ela estava em coma.
Jill recuou.
— Acha que Sydney está em coma? Eles a machucariam?
— Não sei muito sobre os métodos deles — Jackie disse, enquanto me agradecia pelo suco de maçã que ofereci. — Ainda tenho certeza de que está viva, mas nada além disso.
Voltei a sentar no sofá de dois lugares e entrei no transe onírico. Parecia improvável que eu encontrasse alguma coisa se Jackie não tinha encontrado, mas precisava tentar. Como temia, não havia nada além de escuridão. Estava ficando difícil saber onde terminava a escuridão dela e onde começava a minha.
Quando voltei, os outros estavam me observando com o olhar sombrio.
— Vá pra casa, Adrian — Jill disse. — Descanse um pouco. Você poderá ajudar melhor se estiver com força total.
— Sou incapaz de ajudar Sydney — eu disse.
Quando estava com ela, fosse no calor da paixão ou apenas conversando, não achava possível caber tanto amor no meu peito. Agora, não achava possível caber tanto desespero. E não apenas no meu peito. Todas as partes do meu corpo sofriam da mesma forma. As pessoas brincavam que um dia eu teria uma intoxicação alcoólica, mas a toxina que realmente acabaria comigo era essa.
E, por falar em álcool… pela primeira vez em um mês, senti vontade de beber. Queria beber muito. Queria beber até desmaiar dentro da minha própria escuridão, até ser incapaz de sentir qualquer coisa porque não conseguia passar nem mais um momento me sentindo daquela maneira. O álcool entorpeceria o espírito e a capacidade de sonhar, mas os sonhos não estavam sendo de grande ajuda para Sydney mesmo.
— Não — Jill disse, adivinhando meus pensamentos. Ela se sentou ao meu lado. — Ainda existe esperança.
— Existe? — Encostei a cabeça em seu ombro, sem saber como ela conseguia pensar que havia esperança, ainda mais tendo uma linha direta com meu coração.
Pelo canto do olho, vi Pulinho em cima de uma mesa de canto. Eu o havia deixado ali desde a noite em que Sydney fora levada embora, o que era errado da minha parte.
— O que vai acontecer com ele? — perguntei para Jackie. — Existe alguma maneira de trazê-lo de volta?
Seus olhos recaíram sobre o dragão brilhante.
— Não. Ela é a única pessoa que pode fazer isso. Se ficar com ele, pode ajudar, mesmo nessa forma, mas, se ele nunca sair desse estado, vai ficar fraco e doente. Claro, depois que passar um ano, vai voltar para a dimensão dele… mas é triste e claustrofóbico ficar nesse estado tanto tempo.
— Sei como ele se sente — murmurei. Pena que não podia levar Pulinho para beber comigo. Ele sairia arrotando fogo depois.
Eddie fitou Pulinho com desprezo, mas imaginei que era mais contra si mesmo do que contra o dragão.
— Sou um idiota — ele murmurou. Era um refrão que eu vinha ouvindo com frequência da boca dele. — Não devia ter acreditado nela. Gritei aquele “feitiço” várias vezes no campo, e tudo que fiz foi dar mais tempo para que a levassem embora.
— Sydney estava protegendo você — Jill disse.
— Meu trabalho era proteger Sydney — ele resmungou.
Jackie terminou o suco e virou para um pacote de biscoitos.
— Que feitiço ela mandou você recitar?
Eddie franziu a testa.
— Cent… centrum remanebit. É um feitiço de verdade, pelo menos?
— Não que eu saiba. — Jackie lançou um olhar compreensivo que ele nem chegou a notar. — Mas, se fizer você se sentir melhor, é latim. Muitos feitiços são em latim.
— O que significa? — Jill perguntou.
Eu ainda estava encostado nela, mas minha cabeça estava nos bares mais próximos. Os do centro da cidade eram melhores, mas eu poderia encontrar gente conhecida se fosse para Carlton. Queria ficar sozinho ou não?
— Bom, centrum quer dizer centro — Jackie respondeu. — Remanebit é um verbo no futuro. “Permanecer” é uma tradução possível. Ou talvez “suportar”. Junto, quer dizer alguma coisa como “o centro permanecerá”.
Ergui a cabeça de repente.
— Aguentar — murmurei, com a voz embargada. — O centro vai aguentar.
As últimas palavras de Sydney. Não para Eddie, mas para mim.
O resto do meu autocontrole caiu por terra, e me levantei de maneira abrupta. Jill me puxou pela mão.
— Adrian…
— Vejo vocês depois. — Caminhei em direção à porta, parando para pegar Pulinho e guardá-lo dentro da jaqueta.
O centro vai aguentar.
Será, Sydney? Pensei. Porque estou despedaçado.
— Aonde você vai? — Eddie perguntou.
— Pra rua — respondi. — Plano de fuga n º82: ir para algum lugar onde não tenha que sentir nada por um tempo.
Ele trocou um olhar preocupado com Jill e perguntou:
— Quando você volta?
Centrum remanebit.
Balancei a cabeça e virei as costas.
— Não importa.

Um comentário:

  1. Gente, to morrendo! Sabia que isso ia acontecer, mas mesmo assim, aaahh!

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Boa leitura :)