13 de outubro de 2017

Capítulo 23

POR UM MOMENTO, achei que devia ser coincidência. Afinal, o que havia de tão especial numa estrela com olivinas? Alicia poderia ter simplesmente nascido em agosto e ter a pedra do seu mês de nascimento em meio àquela balbúrdia de colares que sempre usava.
No entanto, se havia algo em que eu acreditava mais do que nunca, era a crença de Sonya de que não existem coincidências no nosso mundo.
Sentei no chão e tentei encontrar a lógica naquilo tudo. Se o amuleto que Alicia usava era igual àquele, significava que ela também era uma poderosa usuária de magia tentando esconder suas habilidades. Será que sabia a respeito de Veronica? Será que estava tentando se proteger? Se sim, ela não teria agido de maneira tão despreocupada com o fato de Veronica estar na pousada. Logo, ou Alicia não sabia quem realmente era Veronica (o que seria mais uma coincidência suspeita) ou estava acobertando Veronica.
Será que Alicia estava aliada a Veronica?
Essa me pareceu a resposta mais provável. Embora Veronica atacasse usuárias de magia jovens e poderosas, era plausível que visse vantagens em ter uma como assistente. E, como havíamos notado, ela tinha vítimas de sobra para escolher. Assim, Alicia poderia ajudar e acobertar seus planos perversos, como quando um casal curioso chegasse fazendo perguntas.
Soltei um resmungo. Alicia esteve brincando com a gente desde o começo. Desde o segundo em que entramos pela porta com histórias sobre nosso aniversário de namoro e nossa “amiga” Veronica, ela sabia que estávamos mentindo. Sabia que não éramos realmente amigos de Veronica, e pode ter sido poderosa o bastante para impedir parte da compulsão de Adrian. Ela havia fingido acreditar em tudo, sendo prestativa a ponto de me ligar quando Veronica tinha voltado. Eu já não sabia o que era verdade. Não fazia ideia se Veronica tinha chegado a ir embora ou voltado depois. Tinha, porém, uma suspeita crescente de que meu carro não era o único que ela havia incapacitado.
Eu conseguia entender que ela havia usado a cruz para me encontrar, mas como localizara o Mustang? Quebrei a cabeça tentando achar alguma informação que pudesse ter nos identificado. A magia de espírito de Adrian havia confundido nossas aparências, acobertando qualquer ligação a nós. Então me lembrei. Alicia havia nos levado até a saída e admirado o Mustang. Uma pessoa inteligente, alguém que já estivesse alerta por causa da nossa visita, poderia ter anotado a placa e usado a informação para rastrear Adrian.
Mas por que furar os pneus? Para nos atrasar, claro. Lynne havia sido atacada naquela noite. E chegamos tarde demais para avisá-la.
Quanto mais eu repensava os acontecimentos das últimas semanas, mais começava a perceber que havíamos sido muito, muito descuidados. Havíamos acreditado que estávamos sendo muito cuidadosos em nos esconder de Veronica. Ninguém, nem mesmo a sra. Terwilliger, havia considerado que ela poderia ter uma cúmplice com a qual também deveríamos ficar atentos. E os pesadelos... haviam começado no dia em que Adrian e eu deitamos na cama de veludo. No dia em que minha granada escorregara, o que poderia ser o bastante para que Alicia sentisse a presença de uma usuária de magia na pousada.
Aquilo me levou de volta ao presente. A sra. Terwilliger. Precisava contar a ela o que havia descoberto. Liguei pela terceira vez. Ela não atendeu de novo. Embora sempre imaginasse a sra. Terwilliger realizando rituais noturnos, era inteiramente plausível que ela já estivesse na cama àquela altura. Será que uma coisa dessas poderia esperar até a manhã?
Logo decidi que não. Não podia. Estávamos lidando com usuárias de magia perigosas e violentas, e meu carro tinha acabado de ser atacado. Algo podia estar acontecendo enquanto eu ficava ali parada, tentando decidir. Eu teria que acordá-la... se é que conseguiria chegar até ela.
Levei só um segundo para tomar minha próxima decisão. Liguei para Adrian.
Ele atendeu no primeiro toque, mas pareceu desconfiado, o que era justo depois do que eu havia feito naquele dia.
— Alô?
Torci para que ele fosse o cara nobre que achava que ele era.
— Adrian, sei que as coisas estão mal entre nós e que talvez eu não tenha o direito de pedir, mas preciso de um favor. É sobre Veronica.
Ele não hesitou.
— Do que você precisa?
— Você pode vir para Amberwood? Preciso da sua ajuda pra transgredir o toque de recolher e sair do alojamento.
Houve alguns segundos de silêncio.
— Sage, faz dois meses que estou esperando você dizer essas palavras. Quer que eu leve uma escada?
O plano já estava se formando na minha cabeça. Os guardas que patrulhavam à noite ficavam de olho no estacionamento estudantil, mas o terreno nos fundos quase não era vigiado.
— Consigo sair sozinha do prédio. Se você vier pela estrada e não pegar a entrada principal, vai ver uma estradinha de serviço que sobe a colina e passa atrás do meu alojamento. Estacione ali, perto do barracão de ferramentas, e encontro você assim que sair.
Quando ele respondeu, sua voz estava séria.
— Queria muito acreditar que você está me chamando para alguma aventura noturna incrível, mas não está, né? Deu alguma coisa errada.
— Muito errada — concordei. — Explico pra você no carro.
Rapidamente, vesti uma calça jeans limpa e uma camiseta, colocando por cima um casaco leve de camurça contra o frio da noite. Por segurança, também decidi pôr alguns suprimentos na bolsa. Se tudo desse certo, só avisaria a sra. Terwilliger e voltaria ao alojamento. Mas, considerando como as coisas andavam nos últimos tempos, não podia supor que seria tão simples. Levar a maleta dessa vez não seria nada prático, então tive que tomar algumas decisões rápidas sobre as substâncias químicas e os componentes mágicos de que poderia precisar. Enfiei alguns na bolsa e outros nos bolsos da calça e do casaco.
Quando estava pronta, desci até o quarto de Julia e Kristin. Elas já estavam de pijama, mas ainda não tinham ido dormir. Quando Julia me viu com o casaco e a bolsa, seus olhos se arregalaram.
— Legal — ela disse.
— Sei que você já saiu antes — eu disse. — Como você fez?
Não era raro os muitos encontros de Julia acontecerem fora dos horários permitidos pela escola, e tanto ela como Kristin já haviam comentado sobre suas proezas. Eu tinha esperança de que talvez Julia soubesse de algum túnel secreto e que eu não tivesse que arriscar nenhuma façanha acrobática maluca. No entanto, era exatamente isso o que eu precisava fazer. Ela e Kristin me levaram até a janela e apontaram para uma grande árvore plantada diante dela.
— Nosso quarto tem uma boa vista e acesso fácil — Kristin disse, orgulhosa.
Olhei para a árvore retorcida com desconfiança.
— Isso é fácil?
— Metade do alojamento já usou — ela disse. — Você também consegue.
— A gente deveria começar a cobrar — Julia refletiu, então me abriu um sorriso. — Não se preocupe. Vamos dar uma amostra grátis pra você hoje. Comece com esse galho aqui, passe para aquele e depois use aqueles ramos ali pra se segurar.
Achei curioso que uma pessoa que dissera na aula de educação física que badminton era um esporte “perigoso” não tivesse reservas em descer uma árvore do terceiro andar.
Claro, o antigo apartamento de Marcus ficava no quarto, e aquela escada de incêndio era mil vezes mais perigosa do que a árvore. Pensar em Alicia e na sra. Terwilliger me lembrou da importância daquela missão, e, decidida, acenei para Julia e Kristin.
— Vamos lá — eu disse.
Julia se animou e abriu a janela para mim. Kristin ficou olhando com o mesmo entusiasmo.
— Por favor, diga que você está saindo para encontrar um cara irresistível — ela pediu.
Parei quando estava prestes a passar pela janela.
— Na verdade, sim. Mas não do jeito que você está pensando.
Quando cheguei ao galho que Julia havia indicado, descobri que ela tinha razão. Era muito simples — tão simples, aliás, que fiquei surpresa por nenhum funcionário da escola ter notado essa rota de fuga tão fácil e cortado a árvore. Bom, melhor para nós que tínhamos de sair à noite. Alcancei o chão e acenei para minhas amigas, que ainda estavam olhando.
Havia alguns postes de iluminação no terreno nos fundos do alojamento, exatamente para desencorajar estudantes desobedientes como eu. Também ficava dentro da rota de patrulha de um dos guardas, mas não era uma posição em que ele ficava parado o tempo todo. Ele não estava no meu campo de visão, então torci para que estivesse ocupado com a outra parte do terreno. Havia sombras suficientes no gramado para que eu pudesse ficar escondida durante todo o trajeto, até chegar à cerca dos fundos. Ela era bem iluminada e, na verdade, a única vantagem que eu tinha era que sabia escalar rápido e que o guarda ainda não havia dado sinal de vida. Novamente me apoiando na esperança de que o universo estava me devendo alguns favores, ainda mais depois de me enganar em relação a Alicia, engoli em seco e comecei a subir. Não ouvi nenhum grito quando caí do outro lado, e soltei um suspiro de alívio. Eu tinha conseguido. Voltar seria mais difícil, mas esse era um problema para mais tarde, um com que, se tudo desse certo, a sra. Terwilliger poderia me ajudar.
Encontrei Adrian esperando por mim no Mustang no lugar exato que eu havia indicado. Ele me olhou de esguelha enquanto ligava o carro.
— Cadê sua roupa de Mulher-Gato?
— Na lavanderia.
Ele sorriu.
— Claro. Agora, para onde vamos, e o que está acontecendo?
— Vamos para a casa da sra. Terwilliger — respondi. — E o que está acontecendo é que o inimigo estava embaixo do nosso nariz esse tempo todo.
Fiquei olhando para Adrian enquanto contava minhas revelações e vi sua expressão passar de incredulidade a apreensão à medida que eu falava.
— A aura dela era perfeita demais — ele disse depois que terminei. — Perfeitamente neutra, perfeitamente normal. Ninguém é assim. Mas não dei importância. Imaginei que talvez fosse só uma aura humana esquisita.
— Dá para influenciar a aparência da aura? — perguntei.
— Não tanto — ele respondeu. — Não sei muito sobre esses amuletos que vocês usam, mas imagino que foi um deles que distorceu a aparência da dela.
Me afundei no banco, ainda com raiva por não ter descoberto aquilo antes.
— O bom é que ela não sabe que descobrimos sobre sua relação com Veronica. Isso pode nos dar alguma vantagem.
Quando chegamos à casa da sra. Terwilliger, encontramos todas as luzes acesas, o que foi uma surpresa. Eu imaginava que ela estaria dormindo, embora definitivamente não fosse a primeira vez que ela não atendia o telefone. Mas, quando chegamos perto da casa e batemos na porta, ninguém atendeu. Adrian e eu nos entreolhamos.
— Talvez ela tenha saído com pressa — ele disse. Seu tom expressava o que as palavras não diziam. E se a sra. Terwilliger já houvesse descoberto o mesmo que nós e tivesse saído para confrontar Alicia e Veronica? Eu não tinha ideia do grau de poder de Alicia, mas as chances não pareciam promissoras.
Quando ninguém atendeu na segunda vez que bati, quase chutei a porta de tanta frustração.
— E agora?
Adrian girou a maçaneta e a porta simplesmente se abriu.
— Que tal esperarmos aqui dentro?
Fiz uma careta.
— Não sei se gosto da ideia de invadir a casa dela.
— Ela deixou a porta destrancada. É quase um convite. — Ele abriu a porta mais um pouco e olhou para mim com expectativa.
Não queria voltar para Amberwood antes de falar com ela, tampouco queria ficar sentada na frente da porta. Torcendo para que ela não ligasse se ficássemos à vontade, assenti, resignada, e entrei atrás de Adrian. A casa da sra. Terwilliger era a mesma de sempre, bagunçada e perfumada pelo cheiro de incenso. Parei de súbito.
— Espere. Tem alguma coisa errada. — Demorei alguns segundos para descobrir o que era e, quando percebi, não consegui acreditar que não havia me dado conta antes. — Os gatos sumiram.
— Droga — Adrian disse. — Você tem razão.
Pelo menos um vinha sempre cumprimentar os visitantes e os outros costumavam ficar em cima dos móveis, embaixo das mesas ou simplesmente ocupando o meio do piso. Mas, agora, não havia nenhum gato à vista.
Fiquei olhando, incrédula.
— O que será que pode...
Um som agudo de estourar os tímpanos me pegou de surpresa. Olhei para baixo e encontrei o dragão colocando a cabeça para fora da bolsa e tentando me escalar. Tarde demais, percebi que esquecera de fechar o aquário. Pelo jeito, ele havia entrado discretamente dentro da bolsa enquanto eu estava no quarto. O som que estava fazendo agora era parecido com o gritinho de fome, só que ainda mais irritante. Então, como se não bastasse isso, ele beliscou minha perna. Me abaixei e tentei tirá-lo de mim.
— Eu não tenho torta! O que você está tentando... Ahh!
Alguma coisa passou voando por cima da minha cabeça e bateu na parede atrás de mim com um esguicho alto. Algumas gotas úmidas caíram na minha bochecha e começaram a arder. Foi uma surpresa não ouvir o chiado de pele queimando.
— Sydney! — Adrian gritou.
Me virei para onde ele estava olhando e me deparei com Alicia parada no batente entre a sala e a cozinha. A palma de sua mão estava voltada para nós, com uma substância cintilante e gosmenta. Provavelmente a mesma que estava queimando minha pele agora. Quase passei a mão para limpar aquilo, mas fiquei com medo de que passasse para os meus dedos. Tentei simplesmente ignorar.
— Sydney — Alicia disse, animada. — Ou eu deveria dizer “Taylor”? Imaginei que veria vocês dois de novo. Mas não tão cedo. Parece que o problema no seu carro não atrasou vocês hoje.
— Já sabemos de tudo — eu disse a ela, ainda de olho naquela gosma. — Sabemos que você está trabalhando para Veronica.
O ar petulante dela vacilou por um momento, superado pela surpresa.
— Trabalhando para Veronica? Faz séculos que me livrei dela.
— Se livrou de... — Fiquei sem entender por alguns segundos. Então, as outras peças do quebra-cabeça se juntaram. — É você quem está absorvendo o poder daquelas meninas. E daquela bruxa em San Diego. E... de Veronica Terwilliger.
Eu havia localizado Veronica na pousada com o feitiço de clarividência. Quando a sra. Terwilliger tentou um feitiço de localização diferente, não conseguiu nada. Eu tinha imaginado que era porque Veronica tinha algum tipo de escudo. Mas, naquele momento, tive certeza de que era porque Veronica já estava em coma. Não havia uma mente ativa para a sra. Terwilliger encontrar porque Alicia havia consumido a de Veronica.
A sra. Terwilliger...
— Você está aqui atrás dela — eu disse. — Não de mim.
— As menos treinadas são alvos mais fáceis — Alicia disse. — Mas não têm o mesmo poder de bruxas experientes, que podem ser absorvidas com a mesma facilidade se você as derrubar antes. Não preciso de juventude, como Veronica precisava; só do poder. Quando ela me mostrou como o feitiço funcionava, consegui pegá-la num momento de distração. Aquela outra universitária me deu forças para conseguir vencer Alana Kale. — Onde eu tinha ouvido esse nome? Alana... ela era do clã da sra. Terwilliger. — E agora, finalmente, posso apanhar minha maior presa: Jaclyn Terwilliger. Pra falar a verdade, não tinha certeza se conseguiria acabar com ela, mas parece que ela vem se cansando muito nas últimas semanas. Tudo para proteger sua querida aprendiz.
— Não sou... — Não consegui terminar a frase. Estava prestes a dizer que não era aprendiz da sra. Terwilliger, mas... será que não era mesmo? Eu não estava mais brincando com magia. Tinha entrado de verdade no ramo. E, agora, precisava proteger minha mentora, assim como ela havia me protegido. Se não fosse tarde demais.
— Onde ela está? — perguntei.
— Perto — Alicia disse, claramente adorando estar com a vantagem. — Queria que você não tivesse descoberto tudo isso. Você teria dado uma ótima presa depois que aprendesse um pouco mais. Claro que não é nada perto de Jaclyn. Hoje, ela é o grande prêmio.
— Diga onde ela está — Adrian ordenou, com um tom de voz poderoso que eu reconheci.
O olhar de Alicia passou de mim para ele.
— Ah, faça-me o favor — ela zombou. — Não perca tempo com sua compulsão de vampiro. Percebi o que estava acontecendo depois daquela primeira visita de vocês, quando achei difícil me lembrar dos seus rostos. — Ela mostrou uma pedra de jade no meio de seu amontoado de colares. — Fiz este depois daquele dia. Me deixa imune aos seus “encantos”.
Um amuleto que resistia à magia dos vampiros? Seria útil ter um no meu repertório. Pesquisaria sobre ele... se conseguisse sobreviver àquela noite.
Vi Alicia se preparar para lançar aquela gosma de novo e desviei com um pulo, puxando Adrian comigo em direção à sala. A substância respingou atrás de nós. Tirei da bolsa uma flor seca de cardo e joguei na direção de Alicia, gritando um encantamento em grego que a cegaria. Ela fez um leve aceno e riu da minha cara.
— Sério? — perguntou. — Esse feitiço de cegueira corretiva? Talvez você não seja um prodígio tão grande assim.
Adrian abriu um pequeno painel na parede ao nosso lado. Eu nem tinha notado, porque estava distraída demais temendo que ela derretesse meu rosto. Vi a mão dele se mexer rápido e, subitamente, estávamos mergulhados na escuridão.
— Isso sim é cegueira corretiva — ele murmurou.
Alicia praguejou. Fiquei paralisada pela escuridão ao meu redor. Por mais que aprovasse qualquer tentativa de deixar Alicia mais lenta, também fiquei meio perdida. Senti a mão de Adrian segurar a minha. Sem dizer uma palavra, ele me puxou para o fundo da sala de estar. Eu o segui rápido, confiando em sua visão superior de vampiro para nos guiar. Já conseguia ouvir Alicia entoando alguma coisa e tive certeza de que ela logo invocaria um feitiço de criação de luz. Ou, então, um que magicamente consertasse caixas de fusível.
— Cuidado — Adrian murmurou. — Escada.
Dito e feito. Senti meu pé bater em um degrau de madeira. Descemos correndo, o mais rápido e silenciosamente possível, até o porão. Meus olhos ainda não haviam se ajustado à escuridão, e me perguntei se não tínhamos acabado de entrar em um calabouço secreto. Mas, enquanto ele me guiava por entre caixas amontoadas, percebi que o porão era usado simplesmente como um depósito comum. Havia um monte de tralhas ali. Depois de ver a casa já bagunçada da sra. Terwilliger, fiquei curiosa para saber o que mais ela teria.
— Foi uma boa ideia — eu disse com a voz mais baixa que consegui. — Mas agora estamos presos aqui dentro. Seria melhor se tivéssemos conseguido sair.
— Eu sei — ele respondeu, também aos sussurros. — Mas ela estava perto da porta, e não deu tempo de quebrar uma janela.
Acima de nós, o assoalho rangia enquanto Alicia caminhava pela casa.
— É só uma questão de tempo — eu disse.
— Estava torcendo que fosse suficiente para você pensar em alguma coisa para tirar a gente daqui. Não dá para usar aquelas bolas de fogo? Você era ótima com elas.
— Não aqui dentro. Ainda mais no porão. Vai incendiar a casa toda. E ainda não sabemos onde a sra. Terwilliger está. — Fiquei quebrando a cabeça. A casa era pequena e não havia muitos lugares onde Alicia pudesse ter escondido a sra. Terwilliger. E eu precisava partir do princípio de que ela realmente estava presa em algum lugar, já que ainda não havia aparecido em nosso auxílio. Pelo que Alicia disse, parecia que ela ainda não havia sugado o poder da sra. Terwilliger, então, com sorte, ela só estava incapacitada.
— Deve haver alguma coisa que você possa fazer — Adrian disse, apertando minha mão. — Você é genial e anda lendo todos aqueles livros de feitiços.
Era verdade. Eu vinha lendo toneladas de informações nos últimos meses, informações que nem deveria ter aprendido — mas, naquele momento de terror, minha mente não conseguia focar em nada.
— Esqueci tudo.
— Não esqueceu, não. — A voz dele era calma e reconfortante na escuridão. Ele empurrou meu cabelo para trás e me deu um daqueles beijinhos na testa. — Relaxe e se concentre. Ela não vai demorar pra descer atrás de nós. Precisamos acabar com ela ou, pelo menos, atrasá-la para conseguir escapar.
Suas palavras sensatas me concentraram e permitiram que as engrenagens de lógica que guiavam minha vida voltassem a funcionar. Raios de luz atravessavam as pequenas janelas no porão, permitindo que meus olhos se ajustassem ao breu e eu conseguisse distinguir alguns vultos no cômodo. Ainda podia ouvir Alicia caminhando pelo andar de cima, então soltei a mão de Adrian e fui de mansinho até a escada. Fazendo alguns arcos graciosos com a mão, entoei um feitiço na escada e voltei rapidamente até onde estava Adrian, reencontrando o abrigo de seu braço.
— Certo — eu disse. — Acho que isso deve atrasar Alicia um pouquinho.
— O que você fez? — ele perguntou.
Naquele exato momento, ouvimos a porta no topo da escada se abrir. Uma luz se projetou para baixo, embora continuássemos na sombra.
— Vocês não têm alternativa — ouvi Alicia dizer. — Não têm pra onde... Ahh!
Houve uma série de baques surdos enquanto ela deslizava escada abaixo, até cair no chão com um estrépito.
— Gelo invisível nos degraus — eu disse a Adrian.
— Sei que não devo dizer isso — ele falou —, mas acho que amo você ainda mais agora.
Peguei a mão dele e tentei não pensar em como suas palavras mexiam comigo, mesmo naquela situação de vida ou morte.
— Venha.
Saímos do nosso esconderijo e encontramos Alicia estatelada no chão, tentando se levantar. Uma bola prateada pairava perto dela, balançando de acordo com seus movimentos. Ao nos ver, ela resmungou e fez menção de lançar algo contra nós. Eu havia previsto isso e já tinha um amuleto pronto. Balancei-o pelo fio de seda e pronunciei algumas palavras rápidas enquanto passávamos por ela. Um breve escudo cintilante reluziu entre nós, por tempo suficiente para absorver os pequenos dardos brilhantes que ela lançou em nossa direção. O escudo era parecido com o que a sra. Terwilliger havia usado no parque, mas precisava ser invocado na hora e não durava muito tempo.
Não sabia o que Alicia planejava fazer em seguida, mas obviamente algo de ruim estava por vir. Lancei um feitiço preventivo que nunca havia usado antes, um daqueles que a sra. Terwilliger havia dito para que eu nem me desse ao trabalho de tentar. Exigia muita energia e era poderoso se usado do jeito certo, mas parecia simples e tinha efeitos interessantes. Basicamente fiz com que Alicia voasse para o outro lado do porão com uma rajada de poder no exato segundo em que ela estava prestes a levantar. Ela caiu de costas numa pilha de tralhas de Natal. Uma caixa de enfeites despencou, se espatifando no piso duro ao lado dela.
Lançar o feitiço me deixou tonta, mas consegui continuar andando. Invoquei uma bola de fogo quando cheguei à escada, mas a mantive na mão, segurando-a baixo como se fosse jogar uma bola de Skee-Ball. Minha intenção era apenas levá-la comigo. Esperava que ela derretesse o gelo e, depois dos primeiros passos, percebi que estava certa.
— Cuidado — Adrian alertou. — Os degraus ainda estão molhados.
Chegamos ao topo da escada, mas Alicia já estava subindo atrás de nós. Dos primeiros degraus, ela usou o mesmo feitiço que eu havia usado contra ela, lançando uma rajada de energia invisível contra mim e Adrian que nos jogou no chão. Eu vinha segurando a bola de fogo, apesar da advertência da sra. Terwilliger de que isso drenava meu poder. Quando Alicia me derrubou, a bola voou da minha mão e caiu no sofá. Como ele estava coberto por um tecido barato que parecia vir diretamente dos anos 1970, não foi uma grande surpresa quando rapidamente pegou fogo.
O bom foi que o incêndio resolveu o problema da escuridão. O ruim foi que a casa poderia cair em cima de nós. O callistana, que não tinha sido rápido o bastante para nos acompanhar quando descemos a escada, veio correndo até mim. Só tive uma fração de segundo para tomar uma decisão.
— Procure a sra. Terwilliger no resto da casa — eu disse a Adrian. — Vou deter Alicia.
O fogo crescente criava sombras estranhas no rosto dele, ressaltando sua angústia diante dessa proposta.
— Sydney.
— Essa é uma daquelas horas em que você precisa confiar em mim sem questionar  — eu disse. — Vá logo! Encontre a sra. Terwilliger e tire-a daqui.
Vi milhares de emoções perpassarem seu rosto antes de ele obedecer e sair correndo em direção ao outro lado da casa. O fogo estava se espalhando rapidamente pela sala de uma maneira que só podia ser mágica. A fumaça crescente me deu uma ideia, e lancei um feitiço que a intensificou, criando uma muralha enevoada na entrada que dava para a escada do porão. Ela permitiu que eu e o dragão recuássemos um pouco antes de Alicia aparecer e abrir a fumaça com a mesma facilidade com que abriria uma cortina.
— Aquilo doeu — ela disse.
Lancei um feitiço que deveria envolvê-la em teias de aranha, mas elas caíram antes mesmo de chegar até ela. Era muito frustrante. Eu havia decorado tanta coisa, mas aqueles feitiços “corretivos” não estavam funcionando. Foi então que entendi por que a principal estratégia da sra. Terwilliger havia sido me esconder e ocultar minhas habilidades. Como eu poderia enfrentar Veronica? Alicia a havia derrotado, sim, mas provavelmente só depois de enfraquecê-la como havia feito com a sra. Terwilliger.
Entendi também por que a sra. Terwilliger me dissera para conseguir uma arma, a qual, me dei conta agora, eu havia deixado no carro.
O feitiço de gelo havia funcionado porque Alicia não estava esperando por ele. O único outro que havia surtido efeito fora a rajada de poder, um feitiço avançado em função do qual eu ainda estava fraca. Percebi que seria preciso mais um daqueles. Eu não fazia ideia se tinha a capacidade para lançar um segundo, mas tentar era minha única chance de...
Gritei ao sentir o que parecia ser um choque elétrico de mil volts passar pelo meu corpo. O gesto de Alicia havia sido sutil, e ela nem havia falado nada. Caí de novo, me contorcendo de dor enquanto ela caminhava a passos largos na minha direção, com o rosto triunfante. Com bravura, o dragão se colocou entre nós, e ela simplesmente o chutou para o lado. Ouvi o grito agudo do callistana enquanto ele escorregava pelo piso.
— Talvez devesse absorver você — Alicia disse. Os choques diminuíram, e consegui me sentar ali enquanto recuperava o ar. — Você pode ser minha quinta vítima. Posso voltar atrás de Jaclyn daqui a alguns anos. Você se revelou muito mais poderosa do que eu imaginava... e tem uma inteligência que irrita. Até que se esforçou hoje.
— Quem disse que acabei? — consegui dizer.
Lancei o primeiro dos feitiços avançados em que consegui pensar. Talvez inspirada pelos enfeites de Natal estilhaçados, me veio à mente a imagem de cacos partidos. O feitiço não exigia palavras nem componentes físicos, apenas um suave movimento com a mão. O resto foi tirado de mim, um escoamento de energia e poder que doeu quase tanto quanto o feitiço elétrico que Alicia havia acabado de usar.
Mas os resultados foram impressionantes.
Na mesa de centro da sra. Terwilliger (agora em chamas) havia um pêndulo de Newton com cinco bolinhas. Usei o feitiço de transmutação nelas, forçando-as a sair de sua forma esférica e se quebrar em lâminas finas e afiadas. Elas se libertaram das cordas sob o meu comando. Essa foi a parte fácil.
A parte difícil foi, como a sra. Terwilliger havia dito, realmente atacar alguém. Não só fazer com que a pessoa levasse um tombo — isso não era tão ruim. Mas um ataque físico de verdade, um que eu sabia que poderia causar ferimentos graves e diretos, era uma questão completamente diferente. Por mais terrível que Alicia fosse, por mais que houvesse tentado me matar e quisesse sacrificar a sra. Terwilliger e inúmeras outras, ainda assim era uma pessoa viva, e não era da minha natureza usar a violência ou tentar tirar a vida de alguém.
Era, porém, da minha natureza salvar a minha vida e a das pessoas que eu amava.
Criei coragem e comandei as lâminas na direção dela. Elas a atingiram no rosto. Alicia gritou e tentou desesperadamente arrancá-las, mas, ao fazer isso, perdeu o equilíbrio e rolou escada abaixo. Ouvi o grito agudo que soltou ao cair no porão. Embora não pudesse vê-la, sua lanterna mágica a seguiu alegremente até lá embaixo.
Meu triunfo durou pouco. Eu estava mais do que simplesmente tonta — estava prestes a desmaiar. O calor e a luz do fogo eram opressivos, mas minha visão estava obscurecida pelo cansaço de lançar um feitiço para o qual ainda não estava preparada. Agora, tudo o que eu queria era fechar os olhos e deitar no chão, onde estava quentinho e confortável...
— Sydney!
A voz de Adrian me tirou da tontura, e consegui abrir os olhos pesados para olhar para ele. Ele me envolveu em seus braços e me pôs de pé. Quando viu que minhas pernas não estavam reagindo, simplesmente me carregou no colo. O dragão, que não havia sofrido nenhum ferimento grave ao ser chutado, se agarrou na minha camisa e entrou correndo na bolsa, que ainda estava pendurada no meu ombro.
— Onde... sra. Terwilliger...
— Não está aqui — Adrian disse, correndo em direção à porta. O incêndio agora estava se espalhando pelas paredes e pelo forro. Embora ainda não houvesse chegado à frente da casa, nosso caminho estava cheio de fumaça e cinzas. Nós dois estávamos tossindo e meus olhos lacrimejavam. Adrian chegou à porta e girou a maçaneta, gritando quando sua mão foi queimada. Então simplesmente arrombou a porta com um chute, e saímos para a liberdade do ar puro da noite.
Os vizinhos estavam se reunindo do lado de fora, e pude ouvir sirenes ao longe. Alguns ficaram olhando para nós, curiosos, mas a maioria estava paralisada demais pelo incêndio que tomava conta da casa da sra. Terwilliger. Adrian me levou até o Mustang e, com cuidado, me encostou no carro, mas continuou com o braço ao meu redor.
Ficamos olhando assombrados para o incêndio.
— Juro que procurei, Sydney — ele disse. — Não consegui encontrar Jackie na casa. Talvez ela tenha fugido. — Torci para que ele estivesse certo. Senão, havíamos acabado de abandonar minha professora de história para uma morte entre as chamas. — O que aconteceu com Alicia?
— Da última vez que vi ela estava no porão. — Senti um nó no estômago. — Não sei se ela vai sair de lá. Adrian, o que foi que eu fiz?
— Você estava se defendendo. E me defendendo. E, com sorte, defendendo Jackie. — Ele apertou o braço ao meu redor. — Alicia era do mal. Pense no que ela fez com as outras bruxas... no que queria fazer com vocês.
— Nunca suspeitei de nada — eu disse, em choque. — Eu me achava tão inteligente. E, toda vez que falava com ela, pensava que era só uma menina besta e distraída. Enquanto isso, ela estava rindo pelas minhas costas e prevendo meus passos o tempo todo. É humilhante. Não conheço muita gente assim.
— O Moriarty do seu Sherlock Holmes? — ele sugeriu.
— Adrian — eu falei. Foi tudo que precisei dizer.
De repente, ele voltou a olhar para mim, notando minha roupa pela primeira vez naquela noite, agora que meu casaco estava aberto.
— Você está usando a camiseta da EIA?
— Pois é, nunca travo batalhas mágicas sem...
Um miado repentino chamou minha atenção. Olhei ao redor até ver um par de olhos verdes me observando de trás de um arbusto do outro lado da rua. Consegui me endireitar e vi que minhas pernas, embora fracas, já sustentavam meu peso. Dei alguns passos vacilantes em direção ao arbusto, e Adrian imediatamente correu para o meu lado.
— O que você está fazendo? Você precisa de ajuda — ele disse.
Apontei.
— Precisamos seguir aquele gato.
— Sydney...
— Me ajude — eu pedi.
Ele não conseguiu resistir. Novamente me apoiando com o braço, me ajudou a atravessar a rua na direção do gatinho. Ele correu na nossa frente no meio de dois arbustos e então se virou para olhar na nossa direção.
— Ele quer que a gente o siga — eu disse a Adrian.
E foi o que fizemos, cortando caminho por entre casas e ruas até que, quando estávamos a cerca de quatro quarteirões da casa, o gato disparou para dentro de um parque. Toda energia que eu ainda tinha quando comecei a correr atrás dele havia acabado. Eu estava de novo tonta e ofegante, e tendo de me esforçar para não pedir que Adrian me carregasse. Alguma coisa no meio do parque chamou minha atenção e me proporcionou uma última explosão de adrenalina para correr até lá.
Deitada na grama, estava a sra. Terwilliger.
Ela estava acordada, felizmente, mas parecia quase tão exausta quanto eu. Lágrimas e marcas de sujeira sugeriam que havia passado por maus bocados. Ela conseguira escapar de Alicia, mas não sem um combate. Por isso que não tínhamos conseguido encontrá-la dentro da casa. Ao me ver, ela piscou, surpresa.
— Você está bem — ela disse. — E me encontrou.
— Os gatos nos trouxeram até aqui — eu disse, apontando. Todos os treze estavam sentados pelo parque, cercando sua dona, se certificando de que ficaria bem.
Ela olhou ao redor e abriu um sorriso fraco e cansado.
— Viu? Falei que gatos são úteis.
— Callistanas também não são nada mau — eu disse, olhando para a bolsa. — Aquele gritinho irritante pra cacete me salvou de levar um monte de ácido na cara.
Adrian botou a mão no peito, fingindo estar horrorizado.
— Sage, você acabou de falar um palavrão!
Levantando os olhos, a sra. Terwilliger o notou pela primeira vez.
— Você também está aqui? Desculpe por tê-lo arrastado para o meio dessa bagunça. Você não tinha nada a ver com isso.
— Tudo bem — Adrian disse, sorrindo. Ele pousou a mão no meu ombro. — Certas coisas não têm preço.

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