3 de outubro de 2017

Capítulo 23

SONYA LEVOU ALGUNS DIAS PARA SE RECUPERAR, o que acabou atrasando seu retorno para a Pensilvânia. Quando ela estava pronta para ir ao aeroporto, me ofereci para levá-la de carro. O carro alugado havia sido encontrado, mas Dimitri o estava usando para limpar os rastros depois da missão. Em menos de vinte e quatro horas, os guerreiros tinham abandonado o complexo, que descobrimos ser alugado e usado normalmente para retiros. Eles não tinham deixado quase nenhum vestígio de sua presença, mas isso não impediu que os guardiões esquadrinhassem cada milímetro do complexo abandonado.
— Obrigada, de novo — Sonya disse para mim. — Sei como você deve estar ocupada.
— Não é incômodo nenhum. É fim de semana e, além disso, é para isso que estou aqui. Para ajudar vocês.
Ela riu baixinho. Sua recuperação nos últimos dias havia sido impressionante e, agora, estava tão bonita e radiante como sempre. O cabelo ruivo estava solto, caindo em ondas flamejantes que emolduravam os delicados traços de seu rosto.
— Verdade, mas parece que você tem ido muito além das atribuições do seu trabalho.
— Só estou contente que você esteja bem — respondi, sinceramente. Tinha me tornado próxima de Sonya e era triste vê-la partir. — Lá na arena... foi muito assustador.
Seu sorriso se desfez.
— Foi mesmo. Eu estava apagada na maior parte do tempo e não conseguia processar muito bem o que estava acontecendo ao redor. Mas lembro das suas palavras. Você foi incrível, sem falar da coragem de enfrentar aquela multidão só para me defender. Sei como deve ter sido difícil para você se opor à própria raça.
— Aquelas pessoas não são da minha raça — respondi, firme. Parte de mim se perguntou qual seria exatamente a minha raça. — O que vai acontecer com a sua pesquisa agora?
— Ah, vai continuar na Costa Leste. Dimitri também vai voltar logo pra lá, e temos outros pesquisadores que podem nos ajudar na Corte. Ter um usuário de espírito objetivo como Adrian ajudou muito e nós temos muitos dados para trabalhar, graças às amostras de sangue e as observações de aura. Vamos deixar Adrian continuar com a arte dele e entrar em contato só se precisarmos de mais alguma coisa.
Eu ainda não conseguira me livrar da culpa de que o sequestro de Sonya teria sido causado indiretamente pela minha recusa em doar sangue.
— Sonya, sobre o meu sangue...
— Não se preocupe com isso — ela interrompeu. — Você estava certa: eu fui insistente demais e precisamos nos focar no Dimitri primeiro. Além disso, parece que estamos avançando para conseguir ajuda alquimista.
— Sério? — Stanton parecia bem contrária a essa ideia quando nos falamos. — Eles concordaram?
— Não, mas disseram que vão dar um retorno ao nosso pedido.
— No caso deles — eu disse, rindo —, essa é uma resposta bem positiva.
Fiquei em silêncio por um tempo, pensando se isso significava que todos esqueceriam sobre meu sangue. Em meio aos guerreiros e ao possível auxílio dos alquimistas, sem dúvida meu sangue não era mais importante. Afinal, o primeiro exame não havia encontrado nada de especial. Não havia mais motivo para se preocupar com ele. Exceto que... eu estava um tanto preocupada. Afinal, por mais que temesse me submeter a novos experimentos, aquela pergunta inoportuna não saía da minha cabeça: por que aquela Strigoi não conseguira beber meu sangue?
A menção de Sonya sobre auras me fez lembrar de outra dúvida que não queria calar.
— Sonya, o que o roxo significa na aura de uma pessoa? Adrian disse que viu roxo na minha, mas não quis contar o que significa.
— Típico — ela comentou, rindo. — Roxo... Vejamos. Pelo que já observei, roxo é uma cor complexa. É espiritual, mas também impetuosa; tem a ver com pessoas que amam de uma maneira profunda e também buscam um chamado superior. É interessante porque tem muita profundidade. Branco e dourado costumam ser cores associadas a poderes superiores e à metafísica, enquanto vermelho e laranja estão mais ligados ao amor e aos instintos primitivos. O roxo meio que tem o melhor de cada uma dessas. Queria poder explicar melhor.
— Não, faz sentido — eu disse, virando na entrada para carros do aeroporto. — Bem, mais ou menos. Não parece muito comigo.
— Na verdade essa não é nenhuma ciência exata. E ele está certo: tem mesmo em você... — Tínhamos parado no meio-fio e percebi que ela me estudava minuciosamente. — Nunca tinha notado antes. Quer dizer, claro que a cor sempre esteve aí, mas todas as vezes que olhava pra você, só via o amarelo da maioria dos intelectuais. Adrian não é nenhum adepto de leitura de auras como eu, por isso me surpreende um pouco ele ter percebido uma coisa que eu não vi.
Ela não era a única. Espiritual, impetuosa... Eu era mesmo assim? Será que Adrian me considerava assim? A ideia me aqueceu por dentro. Fiquei contente e... confusa.
Sonya pareceu prestes a comentar outra coisa sobre o assunto, mas mudou de ideia, pigarreou e disse:
— Bem, aqui estamos nós. Obrigada pela carona.
— Sem problemas — respondi, com a cabeça ainda imersa em visões roxas. — Boa viagem.
Ela abriu a porta do carro e então parou.
— Ah, trouxe uma coisa pra você. Clarence me pediu para entregar.
— Clarence?
Sonya vasculhou a bolsa e encontrou um envelope.
— Aqui. Ele queria muito que isso fosse entregue em mãos... Sabe como ele é quando fica animado com alguma coisa.
— Sei. Obrigada.
Sonya saiu com a bagagem e a curiosidade me fez abrir o envelope antes de ir embora dali. Dentro, havia uma foto mostrando Clarence e um rapaz, mais ou menos da minha idade, que parecia humano. Abraçados, eles sorriam para a câmera. O rapaz tinha o cabelo loiro, liso, quase roçando o queixo, e lindos olhos azuis que se destacavam no rosto bronzeado. Sua beleza era chocante e, por mais que os olhos também parecessem sorrir, notei uma tristeza neles.
Fiquei tão absorta pela beleza dele que demorei para perceber sua tatuagem. Era na bochecha esquerda, um desenho abstrato composto por meias-luas de diferentes tamanhos e orientações agrupadas, dispostas juntas de forma a lembrar um cacho. Era bonita e exótica; a forte tinta azul combinava com os olhos dele. Olhando o desenho mais de perto, notei alguma coisa familiar naquele formato e podia jurar entrever um tênue brilho dourado contornando os traços azuis. Quase deixei a foto cair tamanha foi minha surpresa. As meias-luas tinham sido tatuadas sobre um lírio alquimista. Olhei para o verso da foto, em que um nome fora rabiscado:
Marcus.
Marcus Finch, que os guerreiros alegaram ser ex-alquimista. Marcus Finch, que os alquimistas alegaram não existir. O mais estranho daquilo era que, a menos que contassem pessoas aprisionadas como Keith, não havia nada parecido com “ex-alquimistas”. Era um trabalho para a vida inteira. Ninguém podia simplesmente abandonar. Mesmo assim, aquele lírio ocultado falava por si próprio. A menos que Marcus tivesse usado um nome falso e conseguido enganar os alquimistas, Stanton e os demais mentiram para mim quando disseram não saber quem ele era. Mas por quê? Será que havia acontecido alguma espécie de rompimento? Uma semana antes, eu teria dito que era impossível Stanton não ter me dito a verdade sobre ele. Agora, porém, sabendo a cautela com que as informações eram — ou não — compartilhadas, não dava para ter certeza.
Fiquei observando a foto por mais alguns instantes, aprisionada pelo mistério daqueles olhos azuis. Então guardei a fotografia e voltei para Amberwood, decidida a manter segredo sobre ela. Se os alquimistas queriam negar a existência de Marcus Finch para mim, eu deixaria que continuassem mentindo até descobrir por quê.
Isso reduzia minhas pistas à história de Clarence e aos guerreiros. Mesmo assim, já era um começo.
Algum dia eu encontraria esse Marcus Finch e conseguiria as respostas que buscava.
Quando cheguei, fiquei surpresa ao encontrar Jill sentada na frente do alojamento. Ela estava na sombra, claro, podendo aproveitar o clima agradável sem toda a intensidade do sol. Tínhamos acabado de entrar numa espécie de outono californiano, embora vinte e sete graus não fosse a temperatura que eu costumava associar ao clima fresco do outono. Jill parecia absorta, mas sorriu ao me ver.
— Ei, Sydney. Queria falar com você. É difícil encontrar você sem seu celular.
Fiz uma careta.
— Pois é, preciso arranjar outro. Está bem difícil.
Ela assentiu, compassiva.
— Você levou Sonya?
— Sim. Ela já está a caminho da Corte e de Mikhail e, se tudo der certo, de uma vida mais calma também.
— Que bom — ela disse, antes de desviar os olhos e morder o lábio.
Conhecia Jill o bastante para reconhecer os sinais de que ela estava se preparando para me contar alguma coisa. Também sabia que era melhor não insistir, por isso esperei pacientemente.
— Eu terminei — ela disse, finalmente. — Falei para Micah que está tudo terminado... de vez.
Senti o alívio tomar conta de mim. Menos um problema para me preocupar.
— Sinto muito — eu disse. — Imagino como deve ter sido difícil.
Ela tirou um cachinho do rosto enquanto refletia.
— Sim. E não. Eu gosto dele. Queria continuar saindo com ele... como amigos, se ele quisesse. Mas não sei. Ele não levou numa boa... E nossos amigos em comum... Eles não estão muito felizes comigo agora. — Me esforcei para não soltar um suspiro. O status de Jill em Amberwood havia avançado tanto, e agora tudo tinha ido pelos ares. — Mas é melhor assim. Micah e eu vivemos em mundos diferentes, e eu não teria futuro ao lado de um humano mesmo. Além do mais, tenho pensado muito sobre o amor... tipo, um amor épico. — Ela levantou os olhos para mim por um instante, com o rosto mais calmo. — E não era isso que nós tínhamos. Acho que, para ficar com alguém, é isso que preciso sentir.
Pensei que amor épico era um pouco demais para alguém da idade dela, mas achei melhor não dizer isso.
— Você vai ficar bem?
Ela voltou à realidade.
— Sim, acho que sim. — Ela entreabriu um sorriso. — E, depois que isso passar, talvez Eddie queira sair algum dia desses. Longe do campus, claro, já que somos “parentes”.
As palavras dela eram quase uma repetição do que ele dissera naquela noite na casa de Clarence, e fiquei pasma conforme me dava conta.
— Você não sabe... Pensei que soubesse, já que Angeline é sua colega de quarto.
Jill franziu a testa.
— Do que você está falando? O que eu não sei?
Ai, meu Deus. Por quê? Por que logo eu tinha que dar aquela notícia? Por que não podia estar enfurnada no quarto ou na biblioteca fazendo alguma coisa agradável, como a lição de casa?
— Eddie... bem, ele chamou Angeline para sair. Não sei quando isso vai acontecer, mas ele resolveu dar uma chance a ela. — Ele não tinha pegado meu carro emprestado, então imaginei que ainda não tivessem saído.
Jill parecia ter levado uma facada.
— Como assim? Eddie e Angeline? Mas ele... ele não a suporta...
— Alguma coisa mudou — eu disse, sem graça. — Não sei exatamente o quê. Não é como... um amor épico, mas eles ficaram mais próximos nas últimas semanas. Sinto muito.
Jill parecia mais devastada com isso do que com o término com Micah. Ela desviou o olhar e conteve as lágrimas.
— Tudo bem. Quer dizer, eu nunca incentivei Eddie. Ele ainda deve achar que estou com Micah. Por que ele ficaria me esperando? Ele precisa ficar com alguém.
— Jill...
— Está tudo bem. Eu vou ficar bem. — Ela parecia muito triste, mas, surpreendentemente, seu rosto conseguiu ficar ainda mais melancólico. — Ah, Sydney. Você vai ficar tão brava comigo.
Eu ainda estava pensando na vida amorosa dela, e fiquei completamente confusa com a mudança de assunto.
— Por quê?
Ela enfiou a mão na mochila, tirando uma revista de capa brilhante. Era uma espécie de guia de turismo sobre o sul da Califórnia, com artigos e anúncios publicitários que exaltavam a região. A revista estava marcada numa página e folheei até chegar nela. Era uma propaganda da Lia Stefano, uma colagem de fotos com várias criações suas cobrindo uma página inteira.
E uma das fotos era de Jill.
Levei um tempo para perceber. A foto era de perfil, e Jill estava usando óculos escuros e um chapéu fedora, além do lenço de pavão que Lia havia dado para ela. O cabelo encaracolado de Jill caía atrás dela e os traços de seu rosto estavam lindos. Se não a conhecesse tão bem, nunca a teria identificado naquele figurino chique, embora, para qualquer um que soubesse o que procurar, estivesse óbvio que ela era uma Moroi.
— Como? — perguntei, exasperada. — Como isso foi acontecer?
Jill respirou fundo, pronta para assumir a culpa.
— Quando ela trouxe as fantasias e me deu o lenço, perguntou se podia tirar uma foto para ver como as cores sairiam. Ela estava com alguns acessórios no carro e eu os coloquei também. Ela queria provar que, com a cobertura certa, poderia esconder minha identidade. Mas eu nunca pensei... Quer dizer, ela não disse que ia usar. Deus, estou me sentindo muito idiota.
Talvez não idiota, mas ingênua sem dúvida. Quase amassei a revista. Estava furiosa com Lia. Parte de mim queria processá-la por usar a foto de uma menor sem autorização, mas havia problemas muito maiores. Qual seria a circulação da revista? Se a foto de Jill ficasse restrita à Califórnia, talvez ninguém fosse reconhecê-la.
Mesmo assim, uma modelo Moroi poderia causar espanto. Quem poderia prever os problemas que isso iria nos causar?
— Sydney, me desculpa — Jill disse. — O que posso fazer para consertar isso?
— Nada — respondi —, além de se manter longe de Lia. — Estava me sentindo mal. — Vou dar um jeito isso. — Mas realmente não sabia como. Só podia rezar para que ninguém notasse a foto.
— Faço o que for preciso se você tiver alguma ideia. Eu... Ah. — Seus olhos se ergueram para alguém atrás de mim. — Talvez seja melhor conversarmos depois.
Olhei para trás. Trey estava vindo na nossa direção. Mais um problema para resolver.
— Acho que é uma boa — respondi. O sofrimento e a publicidade de Jill teriam de esperar. Ela saiu quando Trey chegou ao meu lado.
— Melbourne — ele disse, tentando abrir um de seus velhos sorrisos, mas vacilando um pouco.
— Não sabia que ainda estava na cidade — eu disse. — Achei que tivesse fugido com os outros.
Os guerreiros tinham sumido. Trey havia dito que eles viajavam para as “caçadas” deles, e mestre Angeletti também mencionara ajuntamentos em várias partes do país. Supunha que cada um havia retornado ao lugar de onde viera. E pensei que Trey também iria desaparecer simplesmente.
— Não — ele disse. — É aqui que eu estudo e onde meu pai quer que eu fique. Além disso, os outros guerreiros nunca tiveram uma base permanente aqui em Palm Springs. Eles se mudam para onde...
Ele não conseguiu terminar a frase, então terminei por ele:
— Para onde haja uma pista sobre monstros que vocês podem executar com brutalidade?
— Não é bem assim — ele disse. — Achávamos que ela era Strigoi. Ainda achamos.
Estudei seu rosto, o rosto que antes via como amigo. Tinha certeza de que ele ainda era meu amigo.
— Mas você, não. Por isso desistiu da luta.
— Eu não desisti — ele protestou.
— Desistiu, sim. Eu vi você hesitando quando podia ter derrubado Chris. Você não queria vencer. Não queria matar Sonya porque não tinha certeza se ela era Strigoi.
Ele não negou.
— Ainda acho que todos eles precisam ser exterminados.
— Eu também. — Então, reconsiderei. — A menos que haja uma maneira de salvá-los, mas isso é incerto. — Apesar de tudo o que havia dito enquanto defendia Sonya, não achava bom deixá-lo a par dos segredos e dos experimentos. — Se os guerreiros viajam pelo mundo, o que vai acontecer da próxima vez que eles vierem para essa região? Ou mesmo para Los Angeles? Você vai se juntar a eles de novo? Vai viajar para a próxima caçada?
— Não — a resposta dele foi dura, quase grosseira.
Senti uma esperança nascer.
— Você decidiu sair do grupo?
Era difícil ler as emoções que se acumulavam no rosto do Trey, mas nenhuma parecia feliz.
— Não. Eles decidiram nos cortar, meu pai e eu. Fomos expulsos.
Fiquei parada por alguns momentos, procurando as palavras certas. Não gostava dos guerreiros ou do envolvimento de Trey com eles, mas não era exatamente isso que eu buscava.
— Por minha culpa?
— Não. Sim. Sei lá. — Ele encolheu os ombros. — Indiretamente sim, acho. Eles não culpam você pessoalmente ou mesmo os alquimistas. Puxa, eles ainda querem se juntar aos alquimistas. Eles acham que vocês apenas se comportaram de sua maneira desorientada de sempre. Mas eu? Eu insisti em deixar você entrar, jurei que tudo correria bem. Então eles me culparam pela falta de discernimento e pelo desastre que aconteceu depois. Outros também estão sendo acusados: o conselho por concordar, a segurança por não impedir a invasão... mas isso não me deixa melhor. Meu pai e eu fomos os únicos exilados.
— Eu... sinto muito. Não imaginei que nada assim fosse acontecer.
— Você não tinha como imaginar — ele respondeu, pragmático, embora seu tom ainda fosse triste. — De certa forma, eles têm razão. Fui eu quem colocou você lá dentro. A culpa é toda minha e eles estão castigando meu pai pelo que eu fiz. Isso é o pior. — Trey estava se fazendo de indiferente, mas eu conseguia enxergar a verdade. Ele havia se esforçado tanto para impressionar o pai e acabara lhe causando a pior humilhação de todas. As palavras que Trey disse a seguir confirmaram isso: — Os guerreiros eram a vida do meu pai. Ser expulso desse jeito... Bem, ele não está encarando isso muito bem. Preciso encontrar um jeito de voltar. Por ele. Não acho que você saiba onde tem algum Strigoi fácil de matar, sabe?
— Não — respondi. — Ainda mais porque nenhum deles é fácil de matar. — Hesitei, sem saber como continuar. — Trey, o que isso significa para nós? Vou entender se não pudermos mais ser amigos... já que eu, bem, arruinei a missão da sua vida.
Um de seus velhos sorrisos passou de leve por seu rosto.
— Nada está definitivamente arruinado. Eu falei: vou dar um jeito de resolver isso. E, se não for matando um Strigoi, vai saber? Talvez, se eu aprender mais sobre o seu grupo, eu possa criar uma ponte entre os dois para todos trabalharmos em harmonia. Isso me daria alguns pontos.
— Sua tentativa é bem-vinda — respondi, diplomática, por mais que achasse que isso realmente não iria acontecer e ele soubesse disso.
— Bom, vou pensar em alguma coisa então, algum grande feito para chamar a atenção dos guerreiros e fazer com que eu e meu pai sejamos aceitos de volta. Preciso fazer isso. — Sua expressão voltou a esmorecer, mas então o vestígio de um sorriso reapareceu, ainda que com traços de tristeza. — Sabe outra coisa que é um saco? Agora não posso sair com Angeline. Andar com você é uma coisa, mas, mesmo banido, não posso arriscar ser amigo de Moroi ou de dampiros. Muito menos ficar com uma. Quer dizer, já sabia que ela era dampira antes, mas podia me fazer de bobo. Aquele ataque na arena meio que acabou com a possibilidade disso. Os guerreiros também não gostam deles, sabe. Dampiros ou Moroi. Adorariam que eles fossem derrotados também; só acham que seria muito difícil e menos importante agora.
Algo naquelas palavras me causou um calafrio, especialmente porque lembrei do comentário casual dos guerreiros sobre um dia virem a destruir os Moroi. Claro que os alquimistas não adoravam os dampiros ou Moroi, mas também não chegavam perto de desejar a destruição deles.
— Preciso ir. — Trey enfiou a mão no bolso e me entregou algo que me deixou contente: meu celular. — Imaginei que estaria sentindo falta.
— Sim! — Ansiosa, peguei e liguei o celular. Até então não sabia se o teria de volta e estava prestes a comprar um novo. Aquele já tinha três meses e estava praticamente ultrapassado mesmo. — Obrigada por guardar. Ah. Nossa! — exclamei, olhando para a tela. — Tem, tipo, um milhão de mensagens de Brayden. — Não tinha falado com ele desde a noite do desaparecimento de Sonya.
Trey retomou o olhar malandro que eu tanto gostava de ver nele.
— Melhor ir, então. O amor verdadeiro não espera ninguém.
— Amor verdadeiro, hein? — Meneei a cabeça, exasperada. — Bom ter você de volta.
Isso me rendeu um sorriso sincero.
— Até mais.
Assim que fiquei sozinha, mandei uma mensagem para Brayden: Desculpa pelo sumiço. Perdi meu telefone por três dias.
Sua resposta foi quase imediata: Estou no trabalho; daqui a pouco tenho um intervalo. Quer passar aqui?
Considerei. Como não tinha que salvar nenhuma vida, aquele parecia um bom momento. Respondi dizendo que estava saindo de Amberwood naquela hora mesmo.
Brayden tinha deixado meu latte preferido pronto quando cheguei ao Spencer’s.
— Com base na hora em que você saiu, calculei quando precisaria fazer para estar quente quando você chegasse.
— Obrigada — respondi, pegando o café e me sentindo um pouco culpada por me emocionar mais ao ver o café do que ao ver Brayden.
Ele disse para o outro barista que ia fazer uma pausa e me levou para uma mesa mais afastada.
— Não vai demorar muito — Brayden disse. — Sei que você deve ter um monte de coisas para fazer no fim de semana.
— Na verdade, as coisas estão começando a ficar mais tranquilas — eu disse.
Ele respirou fundo, mostrando o mesmo nervosismo que eu já o vira assumir ao me chamar outras vezes para sair.
— Sydney — ele disse, numa voz formal —, acho que a gente devia parar de sair.
Parei no meio de um gole.
— Peraí... O quê?
— Sei como deve ser horrível pra você — ele acrescentou. — E admito que não é nada fácil pra mim também. Mas, diante dos últimos acontecimentos, ficou claro que você ainda não está pronta para um relacionamento.
— Últimos acontecimentos?
Ele assentiu, sério.
— A sua família. Você cancelou vários de nossos encontros para ficar com eles. Por mais que eu ache admirável esse tipo de devoção familiar, simplesmente não posso ter um relacionamento tão volátil.
— Volátil? — Eu ficava repetindo palavras-chaves que ele pronunciava e, por fim, me obriguei a retomar o controlar. — Então... deixe-me ver se entendi: você está terminando comigo?
Ele pensou um pouco.
— Sim. Sim, estou.
Fiquei esperando alguma reação interna. Alguma tristeza desmedida. Meu coração se partindo. Mas tudo o que sentia era um pouco de surpresa e perplexidade.
— Hum — eu disse.
Para Brayden, essa pareceu uma reação angustiada.
— Por favor, não torne as coisas mais difíceis do que já são. Admiro muito você. Acho que você é a garota mais inteligente que já conheci. Mas simplesmente não posso me envolver com alguém tão irresponsável como você.
Olhei fixamente.
— Irresponsável?
Brayden concordou de novo com a cabeça.
— Sim.
Não sei bem onde começou — talvez entre o estômago e o peito — mas, de repente, uma gargalhada incontrolável se apoderou de mim. Não conseguia parar. Precisei colocar o café na mesa para não derrubar.
Mesmo depois, precisei afundar o rosto nas mãos para secar as lágrimas de riso.
— Sydney? — Brayden perguntou, cauteloso. — Isso é algum tipo de reação histérica de sofrimento?
Levei quase um minuto para me acalmar a ponto de responder a pergunta.
— Ah, Brayden. Você me fez ganhar o dia. Me deu uma coisa que jamais pensei que teria. Obrigada. — Peguei o café e me levantei. Ele parecia completamente perdido.
— ... De nada?
Saí da cafeteria, ainda rindo como uma idiota. No último mês, todas as pessoas viviam me dizendo o quanto eu era responsável, disciplinada, exemplar. Fui chamada de muitas coisas. Mas nunca, nunca mesmo, tinha sido chamada de irresponsável.
E não é que eu gostei?

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