23 de outubro de 2017

Capítulo 22

Adrian

SÓ RELAXAMOS DE VERDADE quando estávamos no jatinho particular de Olga Dobrova a caminho da Corte, que ficava do outro lado do país. Tinham nos avisado que, como aquele era uma avião pequeno, teríamos que parar para reabastecer, mas isso não me preocupou. Eles parariam em lugares discretos; além disso, os alquimistas não teriam coragem de atacar um avião Moroi sob ordens da rainha.
Dois guardiões estavam nos escoltando, mas, exceto por eles, tínhamos o jatinho só para nós. Os guardiões sentaram na frente, enquanto ocupei um banco confortável no fundo, apoiando os pés numa mesa grande. Sydney tinha entrado no banheiro pouco depois da decolagem, querendo pentear o cabelo depois que o helicóptero e o vento o bagunçaram.
— É o dia do meu casamento — ela havia explicado. — Mereço um pouco de dignidade.
Quando saiu, vi que tinha conseguido arrumá-lo quase como os cabeleireiros haviam feito antes. Não que eu me importasse. Para mim, ela estava linda com o cabelo rebelde e bagunçado pelo vento. Os guardiões acenaram educadamente quando ela passou por eles, ambos obviamente tensos e inseguros em sua presença. Ninguém os informara que eu estava levando uma esposa humana comigo, e ficou claro que, embora seu treinamento os tivesse preparado para muitas situações de risco, eles não tinham ideia do que fazer naquele cenário.
Dei um tapinha no colo enquanto ela se aproximava.
— Sente aqui, sra. Ivashkov.
Ela revirou os olhos.
— Sabe como me sinto em relação a isso — ela advertiu. Mas, para a minha surpresa, ela sentou no meu colo, embora talvez fosse porque Pulinho, que tinha acabado de ser despertado, havia se enrolado e adormecido na cadeira do outro lado da mesa.
Passei um braço em torno da sua cintura fina e, com a outra mão, ergui minha aquisição do armazém de vinhos.
— Olhe o que abri pra gente comemorar — eu disse. — Champanhe.
Sydney leu o rótulo.
— Aqui fala que é um Riesling espumante da Califórnia.
— É quase a mesma coisa — eu disse. — Estourou quando tirei a rolha e o moço da loja me deu essas taças de plástico de graça. Ele falou alguma coisa sobre buquê cítrico e vindima tardia. Não entendi direito, mas pareceu digno de uma celebração.
— Álcool reduz magia humana e Moroi — ela avisou.
— E este é o dia do nosso casamento — retruquei. — Sem falar que provavelmente será a única comemoração que vamos ter. Vai ser melhor ficarmos sóbrios na Corte... não que eu ache que vamos ter problemas piores lá. Comparado a tudo isso, a vida na Corte vai ser suave.
Estava esperando uma discussão, mas, para minha surpresa, ela assentiu e me deixou serviras duas taças, o que consegui fazer habilmente enquanto continuava com um braço ao seu redor. Ofereci um pouco para os guardiões, mas isso só os deixou ainda mais constrangidos.
— Sabe — Sydney disse, depois de um gole. — Até consigo sentir um gosto cítrico. Só um pouquinho. Como uma pitada de laranja. E é mais doce do que eu pensava, mas faz sentido se o moço falou que era uma variedade de vindima tardia. Quanto mais as uvas ficam na videira, mais retêm açúcar.
— Eu sabia — disse, triunfante. — Sabia que iria acontecer exatamente isso se conseguisse fazer você beber.
Ela inclinou a cabeça, confusa.
— Isso o quê?
— Deixa para lá. — Beijei seus lábios e fiquei olhando para seu rosto, finalmente acreditando que aquela mulher linda e corajosa era mesmo a minha esposa. Seu rosto estava encantador sob a luz do interior do jato, e torci para lembrar pelo resto da vida como ela estava agora. — Hum. Olhe só.
— O quê? — ela perguntou.
Toquei sua bochecha. A maior parte da maquiagem ainda estava impecável, mas parte da que cobria a tatuagem tinha saído em alguns lugares, revelando pedacinhos do lírio.
— Está ficando prateado — eu disse.
— Está? — Ela pareceu surpresa. — A do Marcus ficou, mas demorou anos depois que ele selou a tatuagem.
— Ainda não mudou completamente — eu disse. — A maior parte ainda é dourada. Mas definitivamente tem um pouco de prata aqui e ali. Sombras pequenas ao redor do dourado. — Fui descendo os dedos do seu pescoço até seu ombro nu e delicado. — É bonito. Não se preocupe.
— Não estou preocupada, só surpresa.
— Talvez tudo que você fez nos últimos meses tenha acelerado o processo.
— Talvez — ela concordou. Ela deu outro gole e se recostou em mim com um suspiro satisfeito. — Imagino que, quando chegarmos à Corte, eles não vão nos deixar passar a lua de mel em paz numa suíte luxuosa, né?
Encolhi os ombros, sem querer que ela ficasse preocupada.
— Provavelmente vamos ter que responder a algumas perguntas chatas, nada de mais. O que é mais um motivo pra aproveitar a vida agora.
— Não vejo nada de mal em perguntas chatas — ela disse, com os olhos castanhos voltados para o nada. — Queria um pouco de paz. Sem drama. Sem situações perigosas. Estou tão cansada disso tudo, Adrian. Os alquimistas podem não ter me destruído, mas definitivamente me cansaram na reeducação. Estou farta de dor e violência. Quero ajudar a pôr um fim nisso... mas, primeiro, preciso de um descanso.
— A gente vai conseguir. — Senti uma pontada no coração ao lembrar dos momentos terríveis no terraço, quando ela enfrentara Sheridan em seu vestido cintilante, comandando o fogo como uma deusa vingativa. Fora uma visão linda e assustadora, exatamente como precisava ser para fazer Sheridan se render. Só eu entendia o preço que Sydney havia pagado por ser colocada naquela posição e, se eu pudesse evitar, ela nunca teria que passar por aquilo novamente.
— Estou orgulhosa de você — ela acrescentou, de repente. — Teve que usar tanto espírito durante tudo isso e conseguiu se manter no controle. Não que eu queira que isso vire um hábito, mas você mostrou que consegue domar o espírito sem nenhum efeito colateral grave.
Sim, tia Tatiana concordou. Mostrou mesmo.
A indecisão ardeu dentro de mim. Queria muito contar tudo para Sydney — afinal, ela era minha mulher —, mas admitir que eu era atormentado por um fruto da minha imaginação era demais. Além disso, depois que tudo estivesse resolvido, eu daria um jeito de me livrar de tia Tatiana e nada disso importaria mais.
Até parece, ela murmurou na minha cabeça.
Para Sydney, eu disse:
— É parte da nossa vida nova. Como falei, a partir de agora, só vamos navegar em águas tranquilas.
Servi mais vinho, mas, em vez de nos deixar em clima de festa, a segunda taça só aumentou a nossa exaustão. Aquele dia havia nos esgotado, mental, física e magicamente, e acabamos pegando no sono, com ela ainda no meu colo, sua cabeça no meu ombro. Suas últimas palavras antes de dormir foram:
— Queria ter guardado o buquê.
— Você fez o dia de alguma menina — eu disse, contendo um bocejo. — E vou te comprar peônias todo aniversário de casamento, pelo resto das nossas vidas.
De repente, fomos acordados por um dos guardiões constrangidos, com o jato já pousado. Olhei pela janela e vi que tínhamos aterrissado na Corte propriamente dita, um privilégio concedido a poucos. A maioria dos visitantes pousava num aeroporto regional ou alugava um carro em algum aeroporto maior, como o da Filadélfia. Ser amigo da rainha tinha suas vantagens. Notei também que parecia ser meio-dia lá fora, uma hora em que a maioria dos Moroi em horários vampíricos estava no sétimo sono. Torci para que isso significasse que seríamos colocados em um quarto por um bom tempo até todo mundo ter acordado.
Não tivemos essa sorte.
Do avião, fomos escoltados imediatamente até o palácio, onde disseram que Lissa “e outras pessoas” queriam falar com a gente o mais rápido possível. Não tivemos nem tempo para nos trocar e, embora eu nunca me cansasse de ver Sydney naquele vestido magnífico, sabia que, assim como eu, ela adoraria vestir uma calça jeans e uma camiseta. Mas, como não era uma opção, decidi jogar com o que tinha em mãos. Dei o nó na gravata-borboleta e vesti o paletó do smoking.
— Vamos lá — eu disse para os guardiões.
Fomos levados até uma sala do palácio aonde eu não ia com frequência, visto que a maioria dos meus encontros com Lissa — e, antigamente, com minha tia — eram casuais. A sala em que entramos era usada para ocasiões muito mais formais, quando Lissa precisava ter reuniões de Estado e conduzir assuntos da realeza. Havia até um trono, embora fosse simples e elegante, feito de carvalho, sem nenhum adorno especial. Ela estava usando roupas bonitas, mas nada exagerado, e a única referência a seu título era a pequena tiara no topo do cabelo solto. Guardiões em silêncio formavam um círculo perto das paredes da sala, mas não prestei muita atenção neles. Estava mais interessado nas pessoas com quem Lissa conversava. Era um grupo heterogêneo, alguns sentados e outros em pé, mas todos ansiosos, como se estivessem esperando alguma coisa. Nós, me dei conta.
Rose, Dimitri e Christian estavam lá, o que não era nenhuma surpresa. Lissa não estaria sem seus confidentes, muito menos quando o assunto era eu. Marie Conta, uma Moroi mais velha que era uma conselheira formal, também estava ali. Ela apoiara e ajudara Lissa durante seu reinado polêmico, então fazia sentido que viesse para algo dessa natureza. Não foi nem tão inesperado ver meus pais presentes.
O que me pegou de surpresa — e a Sydney também, a julgar por como apertou minha mão — era que já havia alquimistas ali. E não eram quaisquer alquimistas: o pai de Sydney, sua irmã Zoe e um rapaz que demorei um tempo para identificar. Então me lembrei: Ian. Um cara que já fora apaixonado por Sydney.
Foi nessa confusão que entramos, no auge da nossa elegância nupcial.
Já tinha sido responsável por muitas situações de constrangimento ao longo da vida, mas essa era a primeira vez que deixava uma sala inteira completamente sem palavras. Olhos se arregalaram. Queixos caíram. Até os rostos impassíveis de alguns guardiões demonstraram espanto.
— Não falem todos ao mesmo tempo — ironizei.
O pai de Sydney levantou, com o rosto vermelho de fúria.
— Que abominação é essa?
Lissa, um pouco mais diplomática, perguntou:
— Adrian, isso é algum tipo de piada?
— Piada é acordar todo mundo pra isso — eu disse, brincando. — Quer dizer, sei que está todo mundo animado em ver a gente, mas não precisava...
— Exijo que a entreguem para nossa custódia imediatamente — exclamou o pai de Sydney. — Pra podermos pôr um fim nessa farsa antes que isso fique pior. Vamos assumir daqui.
— O sr. Sage diz que Sydney cometeu crimes terríveis entre os alquimistas — Lissa explicou. — Ele alega que você esteve envolvido, Adrian, mas que estão dispostos a ignorar os seus crimes se entregarmos Sydney, já que você é um dos meus súditos.
Me mantive firme.
— O único crime que cometemos foi tirar Sydney e um monte de infelizes daquele show de horrores que eles chamam de centro de reabilitação, onde eles iam deixar que ela fosse queimada viva. E sabe que crimes ela e os outros prisioneiros cometeram? Tratar dampiros e Moroi como gente. Imagine só.
— Segundo eles — Lissa continuou, com calma —, Sydney tentou botar fogo em alguns agentes deles ontem à noite.
— Foi um blefe — afirmei. — Eles ainda estão vivos, não estão?
— Isso é irrelevante — Ian cortou. Ele continuou sentado e, pela sua proximidade com Zoe, parecia que tinha transferido sua paixão de uma irmã Sage para a outra. — Não cabe a vocês julgarem os nossos agentes. Nós cuidamos disso.
Era agora, o momento da verdade.
— Bom, esse é o problema, vossa majestade. Sydney é uma de suas súditas agora que é minha esposa. Você disse que não me entregaria a eles porque estou sob sua proteção, certo? Está dizendo que entregaria minha esposa?
Isso fez toda a sala ficar em silêncio novamente até Lissa encontrar palavras.
— Adrian... foi esse o motivo de você fazer isso? — Ela apontou para Sydney e para mim ao dizer isso mas não conseguiu articular nada mais preciso. — Por que fez isso? Acha que ela vai ganhar cidadania Moroi ou coisa do tipo? Não é assim que funciona. De maneira nenhuma. Sei que se importa com ela...
— Me importo com ela? — exclamei. Foi então que me dei conta de que ninguém entendia de verdade. Todas as vezes que eu atormentara Lissa para ajudar Sydney nos últimos meses, ela presumira que tinha sido motivado por sentimentos de amizade. E, agora, ela e as outras pessoas da Corte achavam que aquilo não passava de um golpe maluco que eu havia inventado para conseguir o que queria. Só os alquimistas faziam ideia da sinceridade dos meus sentimentos, mas, aos seus olhos, esses sentimentos eram errados e pervertidos. — Lissa, eu amo Sydney. Não casei com ela por brincadeira! Casei porque sou apaixonado por ela e quero passar o resto da minha vida com ela. E esperava que, como minha soberana, você fosse me apoiar e proteger a mim e a meus entes queridos, ainda mais porque duvido que essas pessoas tenham alguma prova concreta dos crimes de que estamos sendo acusados. Você falou no mês passado que não pode assumir nenhum risco por alguém que não seja seu súdito. Bom, sei que tecnicamente ela não é sua súdita nem Moroi, mas eu sou e, se as promessas que você fez pra mim, como membro do seu povo, realmente significam alguma coisa, elas se estendem a Sydney também. Nós somos casados. Ela é minha família agora. Estamos ligados um ao outro pelo resto das nossas vidas e, se você vai deixar que eles a levem à força, pode me pôr pra fora também.
Lissa foi pega de surpresa, mas Jared Sage — que, me dei conta, era meu sogro agora — não demonstrou nada além de desprezo.
— Isso é ridículo. Humanos e Moroi não podem se casar. Esse é o nosso costume e o de vocês também. Esse casamento não vale nada.
— Segundo o estado de Nevada, vale sim — eu disse, com um sorriso. — Temos os documentos para provar. Me arranjem um laptop que posso mostrar as fotos do casamento pra vocês.
A expressão de Rose era difícil de decifrar. Eu tinha certeza de que ela estava tão chocada quanto todos com aquela revelação, mas algo me dizia que teria uma atitude parecida com a de nossos amigos em Palm Springs: aceitação e apoio.
— Lissa — ela disse —, deixe os dois ficarem. Não entregue Sydney.
Marie Conta, ao lado do trono de Lissa, se debruçou e murmurou algo no ouvido da rainha. Pela expressão de Marie, imaginei que fosse exatamente o oposto do que Rose tinha dito.
Dessa vez, Ian se levantou.
— Não cabe a você tomar essa decisão! — ele exclamou, incrédulo. — O destino de Sydney Sage não está nas suas mãos. Você não tem o direito de...
— Ivashkov — Sydney interrompeu. Era a primeira vez que ela falava desde que entramos na sala.
Ian voltou sua expressão furiosa de Lissa para ela.
— O quê?
— Ivashkov — ela repetiu, com um rosto que era o retrato da serenidade. Só eu conseguia notar como ela estava nervosa pelo suor de sua mão. Os alquimistas tinham dado um golpe baixo mandando aqueles três. — Meu nome é Sydney Ivashkov agora, Ian.
— Nada disso! — o pai dela exclamou, furioso. — Estou cansado dessa palhaçada. Eu mesmo vou levar você à força, se é isso que preciso fazer pra salvar sua alma dessa depravação.
Ele avançou na nossa direção e, num piscar de olhos, Dimitri se colocou entre nós e ele.
— Sr. Sage — ele disse, mantendo a calma. — Ninguém vai levar ninguém à força daqui a menos que sua majestade, a rainha, solicite.
Todos os olhos se voltaram para Lissa. Seu rosto era altivo e tranquilo, mas sua aura a denunciava. Nós a tínhamos colocado numa posição que nenhuma monarca Moroi jamais tivera de enfrentar. Me sentia um pouco mal por isso, considerando que éramos amigos, mas me mantive firme. Todas as palavras do meu voto de casamento tinham sido sinceras e eu faria o que fosse preciso para manter Sydney em segurança.
— Adrian Ivashkov é meu súdito — Lissa declarou finalmente. — E, como tal, tem todos os direitos e privilégios dessa posição. Sua esposa veio aqui em busca de asilo, e vou conceder esse refúgio a ela. Ambos estão sob minha proteção agora e, durante a permanência deles na Corte, vocês não terão jurisdição sobre eles. Não liberarei nenhum dos dois à sua custódia, ainda mais porque de fato não vi nenhuma evidência de seus supostos crimes.
— O crime deles está bem na sua frente, sem a menor vergonha na cara! — Ian exclamou.
O pai de Sydney obviamente concordava.
— Isso é um ultraje! Se fizer isso, vai ter que lidar com a fúria de toda a organização alquimista! Agora acha que pode sair impune das coisas que faz? Somos nós que acobertamos vocês! Sem nós, vocês não seriam nada. Como acham que vão existir em sociedade sem a nossa ajuda? Sem nós...
— O mundo inteiro saberia da existência dos vampiros — disse Sydney, com frieza. — Vão permitir que isso aconteça, pai? Não está preocupado que outros humanos fracos possam cair nas garras deles se os alquimistas não os ajudarem a se esconder?
A expressão do seu pai ficou cada vez mais sombria e ele parecia prestes a dizer um monte de coisas. Em vez disso, respirou fundo e se voltou para Lissa.
— Os alquimistas são aliados poderosos. Vocês não querem ver que tipo de inimigos nós seríamos.
— Obrigada pelo conselho. — Lissa parecia inabalável, mas vi sua aura tremular. — Glen? — ela chamou, se dirigindo a um dos guardiões perto da porta. — Você e os outros guardiões podem fazer a gentileza de escoltar o sr. Sage e os demais com segurança para fora da Corte?
O guardião fez uma reverência e deu um passo à frente, chamando outros cinco guardiões.
— Sim, sua majestade.
Os guardiões levaram os alquimistas para fora da sala, embora eles continuassem protestando e fazendo ameaças até estarem bem longe. Pelo menos, dois deles. Zoe não havia dito uma única palavra durante a discussão — simplesmente observara a irmã com os olhos arregalados e angustiados. Não sabia se ela se sentia culpada por ter mandado Sydney para a reeducação ou se estava apenas em choque com as novidades. Ao meu lado, Sydney tremia.
Não devia ter sido fácil para ela ver sua família sendo levada à força daquele jeito. Ainda segurando sua mão, dei um passo à frente quando o silêncio constrangedor voltou a cair.
— Obrigado, Lissa. Você não faz ideia...
Lissa ergueu a mão para me deter, uma mão que usou em seguida para esfregar a testa, como se tivesse dor de cabeça.
— Não, Adrian. Você é que não faz ideia dos problemas que isso me causou. Estou feliz por você, mesmo. Mas por hoje cansei de falar. Preciso dormir pra pensar direito nessa história e na crise que isso pode causar. Vamos arrumar um lugar para vocês e...
— Espere um minuto. — Para o meu espanto, foi meu pai quem deu um passo à frente naquele momento e, pela sua expressão, fiquei surpreso por não ter apoiado Jared Sage na discussão anterior. — Você está dizendo que vai deixar essa... essa história de... casamento passar? Que vai tratar isso como se fosse... de verdade?
Lissa, que realmente parecia exausta, suspirou.
— Pra eles parece bem de verdade, lorde Ivashkov, e isso basta pra mim.
— Pensei que você só estivesse fingindo para tirar aqueles alquimistas daqui! Você não pode agir como se esse casamento fosse legítimo. Nenhum Moroi civilizado desceu ao ponto de... — Meu pai mordeu a língua, olhando Sydney de cima a baixo. Ele veio na nossa direção com uma velocidade que até os guardiões teriam admirado e teve a audácia de pegar a mão de Sydney. — Reconheço essas pedras! São da sua tia! Como ousa? Teve a coragem, a audácia, de colocar uma fortuna em joias da rainha nas mãos dessa... dessa... fornecedora!
Tirei a mão de Sydney da dele.
— Pai — eu disse baixo —, um dos meus princípios na vida é não me meter em briga com crianças, animais ou velhos ignorantes. Mas vou abrir uma exceção se você tocar ou ofender minha mulher de novo.
— Nathan — minha mãe advertiu, chegando ao lado dele. — Ela é sua nora agora. Mostre um pouco de respeito.
Meu pai voltou sua ira contra ela.
— Não vou fazer nada do tipo! Isso é um absurdo, um ultraje. É...
— É o que nosso filho quer — minha mãe declarou. — E vou ficar ao lado dele.
Olhei nos olhos dela e senti meu coração ficar mais leve. Eu não tinha pedido desculpas a ela depois da nossa briga. Nem tinha tentado responder às suas ligações e mensagens. Não tinha sido por falta de amor, mas por preocupação com Sydney. Naquele momento, olhando para a minha mãe, fiquei surpreso ao ver algo nela que não havia antes: independência.
— Pelo amor de Deus, Daniella — meu pai gritou. — Não aumente ainda mais a lista de erros estúpidos que você já cometeu na vida. Se quiser voltar pra casa comigo hoje, fique quieta e...
— Não — ela disse, interrompendo-o mais uma vez. — Na verdade, não quero voltar pra casa com você, nem hoje nem nunca.
— Você não sabe o que está falando — ele murmurou, raivoso. — Nem as consequências que isso vai ter.
— Na verdade, Nathan, sei perfeitamente.
Ergui os olhos para Lissa, que parecia bastante surpresa com essa nova reviravolta no drama.
— Sua majestade — eu disse. — Você disse que arranjaria um lugar pra mim e pra minha esposa ficarmos. Tem como conseguir um pra minha mãe também?
Lissa podia se preocupar com a reação dos alquimistas, mas não tinha nenhum medo em relação ao meu pai.
— Sim — ela disse. — Tenho certeza de que isso pode ser arranjado.
Quando finalmente saímos, uma pequena multidão tinha se reunido do lado de fora do palácio. Os boatos haviam se espalhado enquanto estávamos lá e os curiosos tinham aparecido, mesmo tão tarde. As roupas de casamento diziam tudo, e pude ver o choque e a descrença no rosto de muitos, incluindo o de Charlotte. Não esperava que ela estivesse ali.
Assim como a minha mãe, não tinha falado com ela desde que saíra da Corte e era óbvio que nada poderia tê-la preparado para me ver com uma noiva humana. Ela parecia tão chocada que fiquei com medo de que fosse desmaiar. Estava retorcendo as mãos com força e, quando passamos, vi de relance um pouco de sangue onde ela havia se arranhado.
Não longe dela estava Wesley Drozdov. Ao contrário de todo mundo ali, ele não parecia espantado. Na verdade, tinha um sorriso no rosto, um sorriso perverso.
Apreensivo, lembrei do que tinha falado a Sydney no avião, que a partir dali tudo seria tranquilo. A vida na Corte vai ser suave. De repente, me perguntei se era mesmo verdade, e fiquei aliviado quando eu, ela e minha mãe passamos pelos curiosos.
Rose e Dimitri nos escoltaram até o prédio de hóspedes e tiveram a delicadeza de não nos encher de perguntas, embora Rose claramente estivesse se contendo muito. Foi admirável como manteve o autocontrole até Sydney sentar no saguão do prédio de hóspedes enquanto eu fazia o nosso registro. A ponta de um dos tênis dela apareceu debaixo do vestido e Rose não conseguiu mais se segurar.
— Esses sapatos são incríveis — ela elogiou. — Eles têm alguma história?
Sydney abriu um sorriso.
— Têm muitas histórias.
— Amanhã, Rose — eu disse. — Deixe a gente descansar hoje e amanhã te damos o furo de reportagem. Assim você também vai ter tempo de nos arranjar um presente de casamento. Não fizemos uma lista em lugar nenhum, mas estamos precisando de alguns pratos e de um liquidificador.
— Lorde Ivashkov? — chamou o recepcionista, parecendo envergonhado por ter que nos interromper. — Sinto muito, mas estamos com poucos quartos, devido a algumas reformas e um grupo de turistas búlgaros. Não temos dois quartos, mas há uma suíte familiar capaz de acomodar todo o grupo.
Olhei para Sydney e para a minha mãe, ambas se esforçando para manter o rosto neutro. Dei de ombros.
— Bom, somos uma família agora.
Rose e Dimitri se despediram depois que estava tudo em ordem e nós três subimos para a suíte. Destranquei a porta e, por impulso, tomei Sydney nos braços e a carreguei para dentro.
— Sei que tecnicamente ainda não é a nossa casa — eu disse —, mas com todas as irregularidades nesse casamento, acho que a gente precisa manter algumas tradições.
— Pode apostar — ela riu.
Pus Sydney no chão e minha mãe abriu um sorriso educado. Ainda que tivesse me defendido e partilhado seu destino conosco, mas eu a conhecia. Demoraria um pouco para começar a gostar de uma nora humana.
— Obrigado, mãe — eu disse, dando um abraço nela.
— Pensei que tinha aprendido uma lição na prisão — ela disse. — Mas só quando você foi embora realmente caí em mim. Não posso dizer que essa situação é ideal, mas prefiro levar esse tipo de vida com você a não ter você de jeito nenhum... nem meu respeito por mim mesma.
Eu a soltei do abraço.
— Estou orgulhoso de você, mãe. A gente vai dar um jeito. Você vai ver só. Vai ser ótimo. Vamos ser uma grande família feliz.
As duas mulheres da minha vida não pareceram muito confiantes em relação a isso, mas ambas pareciam confiantes em relação ao seu amor por mim, o que por enquanto era o suficiente. Minha mãe logo descobriu que conseguiria esconder seu desconforto encontrando coisas para criticar nas nossas acomodações, que eram tão luxuosas quanto as minhas últimas, só que maiores. Ela continuou na sala fazendo isso e fiquei aliviado em finalmente levar Sydney para o quarto, onde pudemos ter um pouco de privacidade.
Ela sentou na cama e tirou os tênis azuis.
— Não sei que parte desse dia parece mais surreal.
Sentei ao seu lado.
— Esse é o lance. É tudo real, especialmente a parte mais importante: você e eu, juntos pra sempre, com o nosso casamento reconhecido aos olhos dos humanos e dos Moroi.
— Mas não de boa vontade. — Seu sorriso se fechou. — Metade da minha família não quer me ver de novo nunca mais. E a metade que quer me ver... bom, acho que não vai ser possível.
— Vai sim — eu disse. — Vou cuidar disso. — Eu estava agindo com mais confiança do que sentia, e tinha certeza de que ela sabia disso. Ela havia acabado de cortar relações com sua família, com sua raça, por mim. Embora nunca tivesse passado pelo que ela estava passando, prometi a mim mesmo que a ajudaria em tudo que fosse possível.
— Você estava certo. — Ela me puxou para perto. — Sobre conseguirmos proteção. Apesar de todas as complicações, você deu um jeito.
— Nós demos um jeito, e essas complicações não vão durar. Por enquanto, podemos descansar e aproveitar as recompensas. — Eu estava falando com coragem, sem demonstrar os medos que sentia. Depois de ver as reações do pai dela, do meu pai e até de Wesley, tinha a sensação incômoda de que não teríamos a paz que ela queria tão cedo. Mas me recusei a demonstrar isso. Pelo menos naquele dia. — E tenho um monte de recompensas em mente. A menos que você queira dormir.
Ela lançou os braços ao redor do meu pescoço e roçou os lábios nos meus.
— Depende. Você passou na farmácia no caminho pro armazém de vinho, né?
— Se passei na farmácia? Comprei tudo que tinha lá, Sydney. Não quero repetir o que aconteceu da última vez.
Ela riu e deixou que eu a deitasse na cama, quando comecei o processo excitante e ligeiramente frustrante de tentar descobrir como tirar aquele vestido complicado. No fim, porém, valeu o esforço e, quando estávamos dormindo nos braços um do outro, nus exceto pelas alianças de casamento, soube que todos os esforços tinham valido a pena. Todos os sofrimentos e provações por que passamos tinham levado àquele momento de perfeição.
Estávamos exatamente onde deveríamos estar.
Fui acordado horas depois por uma batida na porta e pela voz suave da minha mãe.
— Adrian? Você tem visita.
Sydney se remexeu em meus braços, linda e tranquila sob a luz do fim de tarde que entrava pelas persianas, iluminando seu corpo. Ela estava tão maravilhosa e sexy que estava considerando fingir que não tinha ouvido minha mãe quando houve uma batida mais forte.
— Adrian? Sydney? É Rose. A gente precisa conversar.
Isso acordou Sydney e eliminou todas as chances de um encontro romântico matinal. Nos vestimos e saímos para a sala de estar da suíte. Lá, minha mãe estava sentada com Rose e Dimitri. Quase repreendi Rose por não ter conseguido esperar para ouvir as histórias das nossas aventuras eletrizantes... mas então reparei em seu rosto.
— Qual é o problema? — perguntei.
Ela e Dimitri trocaram olhares.
— Jill está desaparecida.
— Como assim, Jill está desaparecida? — perguntei. — Ela está na escola. Recebi uma mensagem dela ontem. Ela organizou a nossa viagem.
— E estava com os três guardiões — Sydney acrescentou. — Eddie voltou, certo?
— Sim — Rose respondeu. — Todos os três dampiros estavam no campus. Angeline estava até no quarto quando ela foi levada.
— Espere... Angeline viu o que aconteceu? — perguntei.
— Não — Dimitri respondeu. — É isso que é estranho. Angeline foi dormir com Jill no quarto... e quando acordou ela não estava mais lá.
— Ela não ouviu nem viu nada. Jill simplesmente desapareceu num passe de mágica. — Rose estalou os dedos. — Angeline está se sentindo péssima.
Senti uma pontada no peito e o mundo começou a girar. Jill... desaparecida? Não era possível. Não depois de tudo que tinha feito por ela. Eu tinha trazido aquela garota de volta à vida! Aquilo não podia estar acontecendo. Tinha alguma coisa errada. Eddie não deixaria isso acontecer.
Viu?, comentou tia Tatiana. Falei que vocês nunca teriam paz. De um jeito ou de outro, alguma coisa sempre vai acontecer. O bom é que você me tem aqui pra ajudar.
Sydney afundou na cadeira, com as mãos no colo.
— Angeline está se sentindo péssima? Eu me sinto péssima! Jill era minha principal responsabilidade, o motivo de eu estar lá! Se eu não tivesse ido embora...
— Não faça isso — avisei, passando o braço em volta dela. Era tanto para me consolar como para reconfortá-la. — Você não foi embora. Você foi levada. Isso não é culpa sua de jeito nenhum. — Me voltei para os outros, tentando desesperadamente entender aquilo. Se conseguisse pensar logicamente, não entraria em pânico. — Precisamos encontrar Jill. Vocês têm alguma pista?
— Ainda não, mas temos pessoas vasculhando loucamente cada centímetro daquele lugar, atrás de qualquer pista. — Rose suspirou, melancólica. — Faltava só um mês pra ela voltar pra cá.
— Bom, a gente vai ajudar — eu disse. — Coloque a gente num voo pra lá. — Sydney concordou com a cabeça, ansiosa.
— Vocês são doidos? — Rose perguntou. — Espere, não precisa responder. Vocês dois não vão a lugar nenhum. Não há nada que possam fazer lá agora.
— Além disso, aquela proteção que se esforçaram tanto para conseguir ontem à noite não se estende para além dos limites da Corte — Dimitri nos lembrou. — Vocês precisam ficar aqui, para sua própria segurança, até outras precauções serem tomadas. E também não queremos nenhuma atenção desnecessária voltada para Jill. — Ele olhou para minha mãe. — Isso significa, lady Ivashkov, que o que a senhora acabou de ouvir não pode sair desta sala. Enquanto Jill estiver desaparecida, ninguém pode provar que ela está viva ou morta. E, se ninguém tiver como provar isso...
— Ninguém pode provar que a rainha tem uma parente viva — Sydney completou.
Eu não tinha conseguido tirar essas conclusões tão rápido. Ainda estava pensando em Jill... Jill, minha doce e bondosa Jill, desaparecida sem deixar vestígio. Só agora eu entendia as consequências disso.
— A votação ainda não aconteceu — murmurei. — A votação pra mudar a lei.
— Exatamente — Rose disse, com uma expressão sombria. — E, se descobrirem o sumiço de Jill, Lissa pode perder o trono.

2 comentários:

  1. Finalmente...
    Torci muito por esses dois. I LOVE SIDNEY
    Agora esse último livro será primoroso. Vai ter muita ação para achar Jill e ainda tem esse fato dos dois serem casados, apesar de achar que esse último livro não abordará muito isso. Se abordar será ainda melhor.

    Ass: Roberto

    Obs: Tem vários comentários que eu fiz sem assinar. HEUHEUHEU

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  2. não consigo parar de pensar que isso tem um dedinho dos alquimistas....

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Boa leitura :)