19 de outubro de 2017

Capítulo 22

Sydney

QUANDO VOLTEI DA CASA DE ADRIAN, Zoe estava na cama, enroladinha e emburrada, segurando um livro que parecia não estar lendo. Por meio segundo, imaginei que ela pudesse estar com algum problema normal de adolescente, como uma nota baixa ou o fato de não ter com quem ir para a festa. Mas, pelo olhar que ela me lançou, ficou claro que eu era a responsável por seu mau humor. Ela nunca tinha gostado que eu vivesse ocupada, mas percebi que isso não era nada comparado com ficar do lado da nossa mãe. Para Zoe, era imperdoável.
— Zoe — eu disse, em tom de súplica. — Vamos almoçar fora ou alguma coisa assim. Escapar da comida do refeitório.
— Você não vive fazendo isso? — ela retrucou. — Tomando café com a sra. Terwilliger. Comendo cupcakes. — O ódio no seu olhar me fez hesitar.
— A questão não é a comida. É você. Quero conversar com você.
— Eu não. — Ela virou de costas para mim com seu livro. — Vá embora. Vá cuidar das suas coisas.
O problema era que, para variar, eu não tinha nada urgente para fazer, não até o encontro com Marcus à noite. A tinta estava pronta e eu não tinha nenhum trabalho mágico com a sra. Terwilliger que precisasse de atenção. Realmente tinha esperanças de reparar minha relação com Zoe, mas, pelo jeito, isso não aconteceria tão cedo. Mas sempre havia trabalhos da escola para fazer, então arrumei a mochila e saí rumo à biblioteca. Definitivamente não ficaria no quarto com toda aquela hostilidade por perto.
Estava no meio de uma tarefa sobre ácidos e bases quando uma sombra passou pela mesa. Ao erguer os olhos, dei de cara com Trey e Angeline, em pé ao meu lado, de mãos dadas. Não soube por quê, mas comecei a rir. Depois de toda a tensão e perigo dos últimos dias, o relacionamento deles era algo animador, por mais complicado que fosse.
— Você está bem, Melbourne? — Trey perguntou. — Bateu a cabeça ontem?
Sorri e fiz sinal para eles sentarem.
— Não, não. Só estou um pouco tonta de sono, nada de mais.
Angeline bocejou.
— A gente se divertiu bastante ontem à noite. Você devia ter vindo com a gente. Eddie falou que foi pra casa de Adrian ou alguma coisa assim.
— Sim, tinha que conversar com ele sobre Jill. — Outra bela mentira e, pela maneira como nenhum dos dois pestanejou, percebi que não duvidaram de mim nem por um segundo.
— Está tudo bem com ela? — A gravidade súbita de Angeline quase me fez rir de novo. Ela realmente levava aquilo a sério.
— Sim, sim — eu disse. — Tirando o fato de que ela fugiu pra caçar um Strigoi perigoso.
— Foi uma loucura — Trey disse, com os olhos brilhando. — Loucura, mas incrível.
— Não fazia ideia que você era tão bom com a espada. Pratica entre o trabalho de química e o treino de futebol?
Ele sorriu para mim.
— Cresci praticando.
— E como você vai conciliar aquilo com isso? — Abaixei os olhos para as mãos dos dois.
Eles ficaram mais sérios e Trey apertou a mão dela.
— Isso é mais importante. Não falei que precisava de um tempo para pensar no que fazer? Então, descobri que, no fundo, eu já sabia. Já sabia há muito tempo.
— É contra a forma como você foi criado — eu o lembrei. — Contra as crenças do seu grupo.
Ele não pareceu preocupado.
— As coisas mudam. Aquelas não são mais minhas crenças. Nem estou mais no grupo. Eles deixaram isso bem claro.
Senti a necessidade de ser o advogado do diabo.
— É tão fácil se afastar deles?
— Não estou me afastando tanto, estou? O objetivo original dos guerreiros era procurar e destruir Strigoi. Os líderes que se desviaram ao longo dos anos. — A alegria de antes voltou. — O que a gente fez ontem… Quer dizer, foi assustador pra caramba. Eu estava morrendo de medo, ainda mais quando ele me jogou no chão. Mas, ao mesmo tempo, pareceu certo. Como se eu tivesse nascido pra fazer aquilo, ajudar a extirpar o mal do mundo.
— Sério que você acabou de usar a palavra “extirpar”? — ironizei.
Ele balançou a cabeça, rindo.
— Do meu ponto de vista, não estou fazendo nada muito diferente do que me ensinaram. Os Strigoi são maus. Precisamos detê-los. Consigo fazer isso do meu jeito, sem os guerreiros. Do jeito certo.
— E eu posso ajudar — Angeline declarou. Seus olhares se cruzaram, e achei que fossem começar a se beijar ali mesmo. — Vamos começar nosso próprio grupo.
— Os guardiões têm regras rígidas sobre o que os dampiros fazem — adverti.
— Eu não sou uma guardiã — ela disse simplesmente. — Não sigo ordens deles. E, enfim, os Moroi não estavam falando sobre caçar aqueles monstros mesmo?
— Sim.
A rainha estava com tantos problemas que esse devia ter vazado. Mas, realmente, havia cada vez mais interesse em fazer ataques preventivos contra Strigoi, usando Moroi e guardiões. Durante séculos, os Moroi acharam que era imoral usar magia como arma. Com o passar do tempo, foi ficando mais claro que a magia poderia ser a chave para a segurança de sua nação.
— Certo — continuei, surpresa ao notar que minha voz estava um pouco agressiva. — Então os guerreiros vão deixar você agir por conta própria. Mas o que acha que eles vão fazer quando descobrirem que você está envolvido com uma dampira? Vocês não estão exatamente guardando segredo.
Ele deu de ombros.
— Não, mas eles não têm espiões aqui. Mesmo se descobrirem, tudo que preciso fazer é aguentar um sermão. Eles não vão me punir nem nada. Por que você está tão incomodada com isso? Por que está fazendo tantas perguntas? Não estava do nosso lado?
— Ela é uma alquimista — Angeline disse, estranhamente sábia. — É o jeitinho deles. — Ainda mais surpreendente foi que ela largou a mão de Trey. — Desculpe. Isso deve ser meio… nojento para você, Sydney. A gente devia ter mais respeito.
Era difícil saber o que era mais absurdo: o fato de Angeline ser atenciosa a esse ponto ou a ideia de eu estar desconfortável com aquilo.
Afinal, para ser sincera, o motivo por que eu estava tão incomodada era que estava com inveja. Não era um sentimento que eu costumava ter, mas ali estava ele, vivo e forte dentro de mim. Eu estava com muita, muita inveja por eles poderem ficar juntos tão abertamente. Sem se esconder. Sem medo de retaliação. Trey estava dando tão pouca importância a ser pego pelos guerreiros. Um mês antes, teria ficado péssimo se eles o censurassem. Agora, tendo aceitado seus sentimentos, via a fúria dos guerreiros como algo sem importância. Afinal, pelo jeito, no máximo eles dariam uma bronca nele. Apesar de toda a barbárie, os guerreiros não eram como os alquimistas, que achavam necessário eliminar e desinfetar seus problemas. Quis chorar e gritar para o mundo que não era justo, mas sabia que não tinha esse direito. A vida era injusta para muitas pessoas. Eu não era especial, e aquele era o destino que me fora dado.
— Não — eu disse, tentando sorrir. — Estou feliz por vocês. Mesmo.
Depois de alguns segundos, eles decidiram acreditar em mim e retribuíram o sorriso. Meu celular vibrou com uma mensagem e vi que era de Adrian: Tudo em pé? Respondi: Por mim, sim. Depois que Trey e Angeline foram embora, tentei me animar pensando que veria Adrian naquela noite. As coisas poderiam ser piores, pensei. Por mais que não fôssemos livres, ainda conseguíamos nos ver diariamente.
No entanto… eu estava chegando a um ponto em que isso não era o bastante. Eu queria ir para a cama com ele todas as noites, não só para transar, mas para acordar com ele de manhã. Queria comer panquecas juntos. Queria que saíssemos com o casal de amigas dele. Queria uma vida com ele. Queria uma vida só minha.
Quando voltei para o quarto, vi que Zoe tinha saído. Nossa relação ainda estava um caos, mas, pelo menos, ela tinha levantado da cama. Várias vezes eu vira aquele tipo de comportamento depressivo em Adrian e não queria que ninguém mais passasse por isso. Vamos dar um jeito nisso, de algum modo. Não havia outra escolha.
Faltando mais ou menos uma hora para eu sair para a casa da sra. Terwilliger, chegou outra mensagem de Adrian: Mudança de planos. Vamos nos encontrar naquele restaurante que fechou no Indian Canyon.
A notícia foi uma surpresa. Marcus avisou?
Adrian demorou para responder. Sim.
Bom. Combinava com Marcus. Quando eu trabalhara com ele da última vez, ele vivia mudando o lugar onde nos encontrávamos, muitas vezes de última hora. Ele achava mais seguro assim. Talvez tivesse razão.
Aquele lugar dá medo à noite, escrevi.
Por isso mesmo. Não se preocupe. Vamos estar todos lá.
Certo. Preciso parar antes para pegar as coisas.
Eu pego para você.
Foi então que me dei conta: a gente estava usando os Celulares do Amor. Eu tinha pegado o meu sem nem pensar. Você achou o celular!
Pois é.
Senti um alívio e uma felicidade. A essa altura, deveria ter aprendido a não duvidar de Adrian.
Te amo, escrevi. Até mais tarde.
Esperei uma resposta, mas, como não veio, comecei a me preparar para sair. O restaurante ficava a vinte minutos de distância, em um lugar bem remoto, longe da estrada principal. Enquanto arrumava a mochila, não parava de pensar em como o lugar era desolado. Como havia pensado, era ideal para Marcus, mas não era o tipo de lugar aonde eu iria sozinha. Eu não tinha medo dele, mas sim de pessoas menos nobres. Uma das lições de Wolfe era evitar entrar em situações perigosas e, ainda que o comentário de Adrian de que todos estariam lá houvesse me tranquilizado, achei melhor levar um pouco mais de precaução por desencargo de consciência.
Liguei para Eddie.
— Oi — eu disse. — Quer sair pra resolver uma coisa comigo?
— Da última vez que você me pediu isso, fomos encontrar um bando de alquimistas rebeldes.
— Bom, tomara que tenha sido divertido, porque é isso que vou fazer hoje. — Eu o conhecia havia tempo suficiente para saber exatamente como convencê-lo. — Preciso ir para um lugar remoto, no meio do nada. Neil e Angeline vão estar aqui para proteger Jill.
Alguns segundos se passaram.
— Está bem. Quando a gente vai?
— Agora mesmo.
Eddie estava calmo e animado quando o peguei mais tarde, então imaginei que tivesse falado com os outros dampiros no pouco tempo que demorei para passar no alojamento dele. Eddie não ficava com Jill vinte e quatro horas por dia, mas parecia achar que ela ficava especialmente vulnerável quando ele não estava no campus. Apesar das diferenças entre eles, eu sabia que ele se sentia melhor tendo Neil como proteção extra.
— É difícil acreditar que todo mundo está tão tranquilo depois de ontem — comentei, notando seu bom humor.
— Neil não está — Eddie disse. — Ele parece estressado. Quer dizer, não está triste nem nada. Ficou feliz com o resultado. Acho que só é difícil aceitar que a solução de um grande mistério está nele. Neil estava tentando explicar ontem à noite quando a gente saiu.
— Sinto muito por ter perdido — eu disse. Eu não sentia tanto assim, não quando lembrava da noite urgente e acalorada com Adrian.
— Sydney… — O bom humor de Eddie desapareceu e, mesmo mantendo os olhos na estrada, seu tom deixou claro que algo sério estava por vir. — Sobre isso. Sobre ter ido para a casa de Adrian…
Senti um nó na garganta e não consegui responder na hora.
— Não fale sobre isso — eu disse. — Por favor.
— Não, a gente precisa conversar.
Eddie sabia. Eddie sabia e, se o assunto não fosse tão grave, eu teria rido. Ele não prestava atenção em seus próprios relacionamentos, mas os guardiões eram treinados para vigiar e observar. Eddie era assim e, sem dúvida, havia notado todas as coisinhas entre mim e Adrian. Tentávamos nos esconder dos alquimistas, mas nos esconder de nossos amigos, que nos conheciam e nos amavam, era impossível.
— Vai me dar um sermão? — perguntei, séria. — Falar que eu estou quebrando regras definidas há séculos para preservar a pureza de nossas raças?
— Quê? — Ele ficou em choque. — Não, claro que não.
Tomei coragem e olhei para ele.
— O que quer dizer com “claro que não”?
— Sydney, sou seu amigo. Sou amigo dele. Nunca vou julgar vocês, e é óbvio que nunca vou condenar vocês.
— Muitas pessoas acham que o que a gente está fazendo é errado. — Era estranho, mas era surpreendentemente bom falar do meu relacionamento com Adrian com outra pessoa.
— Bom, não sou uma delas. Se vocês querem… não é da minha conta.
— De repente está todo mundo tão liberal em relação a isso — eu disse, contemplativa. — Acabei de ouvir uma coisa parecida de Trey e Angeline… quer dizer, sobre o relacionamento deles. Não sobre o… de outras pessoas.
— Acho que nosso namoro fracassado pode ter ajudado nisso — ele disse, mais tranquilamente do que eu esperava, considerando que ela o havia traído. — Ela falava tanto sobre o povo dela que, depois de um tempo, não parecia mais estranho. E, enfim, minha raça existe porque humanos e Moroi ficavam juntos e tinham filhos antigamente.
Senti meus lábios se abrirem em um sorriso.
— Adrian diz que não seria justo para o mundo se a gente tivesse filhos, juntando o poder insuperável do nosso charme, inteligência e beleza.
Eddie deu uma gargalhada, coisa que eu não via com frequência. Quando percebi, estava rindo também.
— É, imagino Adrian falando uma coisa dessas. E acho que essa é a questão… o verdadeiro motivo de eu não achar estranho vocês dois juntos. Vai contra toda a lógica, mas, de algum modo, vocês… funcionam.
— Contra toda a lógica — repeti. — E não é que é verdade?
Parte do seu bom humor diminuiu.
— Mas não é isso que me preocupa. Nem a parte moral da história. O que me preocupa são os alquimistas. Por quanto tempo vocês vão conseguir continuar desse jeito?
Suspirei enquanto virava na saída para o ponto de encontro.
— Enquanto o centro aguentar.
O velho restaurante, com o nome pouco criativo de Bob’s, era visível da autoestrada à luz do dia. À noite, a história era outra. As lâmpadas dos postes haviam queimado fazia tempo, e grande parte do estacionamento de cascalho ficava mergulhada na escuridão. A única luz de verdade, depois que desliguei o carro, vinha de uma lâmpada perto dos fundos do prédio. Era o tipo de lugar onde assassinos em série, sem-teto e Marcus Finch costumavam ficar, e as duas primeiras categorias eram o motivo de eu ter trazido Eddie comigo.
O Porsche de Clarence ainda não havia chegado, mas havia uma grande van estacionada por perto.
— Ai, Deus — eu disse. — Só quero ver quantos recrutas Marcus trouxe.
Eddie não falou nada. Todas as reflexões amorosas haviam passado, e ele tinha entrado no modo de guardião. Esse era o tipo de lugar que acionava todos alarmes em sua cabeça, e eu sabia que seu treinamento havia tomado conta e que ele estava observando todos os cantos. Até caminhava à minha frente e chegou à porta antes de mim. As janelas estavam cobertas, mas pensei ter visto um pouco de luz lá dentro. Eddie virou a maçaneta, empurrou a porta e entrou…
… em uma emboscada.
Não consegui identificar nenhum traço distintivo. Todos estavam de preto, usando máscaras. Acho que estavam esperando que eu chegasse sozinha, porque só um deles pulou em cima de Eddie, e seus olhos se arregalaram quando Eddie não só se esquivou dele, como o agarrou e o jogou para o outro lado da sala, em cima de outra pessoa.
— Sydney, corre! — Eddie gritou.
Meu instinto imediato era não deixar Eddie para trás, mas, quando ele me empurrou porta afora, entendi que iria comigo. Saímos em disparada pelo estacionamento, mas vimos mais dois vultos de preto saindo da van, no meio do caminho entre nós e o carro. Eddie segurou minha mão e me guiou na direção oposta, para trás do restaurante, até um campo arenoso e escuro que se estendia além da vista.
Eu corria rápido, mas sabia que Eddie precisava diminuir a velocidade para que eu conseguisse acompanhá-lo. Também sabia que qualquer tentativa de dizer para ele fugir sem mim seria em vão. A grama no campo era irregular e esparsa, e havia pouquíssimas árvores. Por alguns momentos, não houve som nenhum além dos nossos passos e da nossa respiração ofegante. Então, atrás de nós, ouvi gritos… e disparos.
Eddie conseguiu olhar para trás sem diminuir o ritmo.
— Eles estão vindo — ele disse. — São uns sete. Com lanternas. E armas, pelo jeito.
— Olhe — exclamei. À nossa frente, pude ver mais duas lanternas vindo da direção para onde estávamos indo.
Ele não disse nada, apenas me puxou para a direita, me jogando no chão em uma vala que sua visão superior tinha encontrado. Fiquei de barriga para baixo e ele se abaixou ao meu lado, de maneira protetora. A maneira como a vala estava trinchada oferecia um pouco de proteção, e uma árvore fina e solitária ao lado oferecia um pouco mais. Meu coração estava acelerado, e tentei me acalmar para que minha respiração não nos denunciasse. Acima de mim, Eddie estava perfeitamente rígido, com todos os músculos tensos e pronto para saltar se necessário.
Os gritos dos nossos perseguidores se aproximaram, sobretudo pedindo direções uns aos outros e se perguntando onde eu e Eddie estávamos. Deitada ali, torcendo para que passassem reto por nós, fiquei me perguntando sem parar quem eram eles. Claro que não eram Marcus e seus Vingadores. Mas eram pessoas que queriam nos capturar — ou, melhor, me capturar — a ponto de organizar uma armadilha elaborada, e havia apenas um grupo que eu conseguia pensar que cabia nessa descrição.
Os alquimistas.
Era o que eu temia havia tanto tempo; só não imaginava que fosse acontecer daquele jeito. Milhões de perguntas correram pela minha cabeça. Estavam ali havia quanto tempo? Tinham capturado Adrian e Marcus também?
— Sydney!
A voz conhecida me fez perder o fôlego. Era meu pai.
— Sydney, sei que você está aqui em algum lugar. Se ainda tiver algum bom senso e decência, saia e se renda.
Um bom negociador poderia ter feito aquele discurso com um tom calmo e suplicante. Meu pai não. Estava implacável e insensível como sempre, fazendo todas as palavras soarem como um insulto.
— Vai ser muito mais fácil assim — meu pai continuou. — E, quanto àquele… rapaz. Não vamos precisar dele. Ele pode ir embora se você vier conosco. — Ouvi quando ele perguntou com a voz mais baixa: — É ele?
Uma voz de menina respondeu.
— Não, não é ele.
Notei pelo leve endurecimento na postura de Eddie que ele também reconheceu a voz de Zoe.
— É para o seu próprio bem — meu pai gritou, sem parecer nem um pouco bondoso. — É para o bem da sua alma. Para sua humanidade. Sabemos de tudo. Encontramos o celular. Venha para que possamos salvar você de mais profanações.
O celular. O celular desaparecido de Adrian. Tinha ficado com tanto medo de que ele voltasse para nos atormentar, apesar do comentário despreocupado de Adrian de que não haveria problema a menos que alguém soubesse que o celular era dele. De certo modo, ele tinha razão, porque, pelo jeito, sabiam que era dele. Alguém sabia que não era o celular de um estranho qualquer apaixonado. Como? Será que o haviam seguido até a escola e roubado dele lá? Era um mistério que eu não tinha tempo para tentar decifrar.
Reinou um silêncio enquanto todos esperavam que eu me rendesse. Eddie e eu mal respirávamos. De repente, a luz de uma lanterna iluminou nosso esconderijo. Eddie saltou antes que o homem pudesse gritar por reforço. Desferiu um soco com tanta força que o lançou ao chão, depois agarrou minha mão sem hesitar por um segundo. Outro homem surgiu e conseguiu acertar um soco nele. Eddie o jogou para o lado e continuou me levando enquanto eu cambaleava. Ele deve ter avaliado o caminho menos cercado, porque eu não vi nenhuma luz à nossa frente. Outra arma disparou e ouvi meu pai gritar:
— Espere, senão pode acertar Sydney! Não atire a menos que tenha uma boa mira no dampiro.
Meus olhos não viam muita coisa ali, e eu precisava confiar na visão de Eddie.
— Acho que essa área só vai dar em montes e deserto — ele disse. — Vamos fugir e nos esconder lá enquanto for necessário. — Para Eddie, sobreviver no deserto por alguns dias devia ser fácil. — Depois a gente vai para casa e pensa em alguma coisa.
Pensa em alguma coisa. Em que exatamente? Negociar com as pessoas que tentaram me sequestrar e matar Eddie? Ele fez uma curva súbita para a esquerda, e entendi o porquê quando vi uma luz na direção em que estávamos seguindo. Não havia como saber até onde a rede deles se estendia. O disparo seguinte foi mais próximo, mais do que eu esperava. Significava que alguém tinha avistado Eddie e estava se aproximando de nós. Era surpreendente, considerando que não era fácil alcançar um dampiro a pé.
Não, não alcançar um dampiro — me alcançar. Eddie não estava correndo em seu ritmo normal. Estava correndo no meu ritmo. Talvez, no ritmo dele, pudesse fugir e correr para o meio do deserto, mas não enquanto eu estivesse com ele. Eu era humana, e meu pé ainda estava doendo por causa da queda desajeitada no beco na noite anterior.
Eddie não vai me abandonar, pensei, desesperada. Ele nunca vai me deixar. É a mim que eles querem, e estão pouco ligando pra ele. Ele pode viver ou morrer, não importa para os alquimistas. Mas, se for ele que os estiver impedindo, vão atirar e destruir seu corpo.
— Eddie — eu disse, ofegante. — Precisamos nos separar.
— Nunca.
Essa resposta não foi uma surpresa. A surpresa foi que, de todas as coisas embaralhadas na minha cabeça, as palavras de Abe Mazur se destacaram: Não pense, por um instante, que não faria coisas terríveis e abomináveis para salvar alguém que amo. Como era Abe, eu obviamente tinha pensado que ele faria coisas terríveis e abomináveis contra outras pessoas. Mas, com Eddie se segurando a mim, as palavras assumiram um significado completamente distinto. Naquele momento, eu soube que faria qualquer coisa para salvar Eddie — meu amigo, que eu amava.
Mesmo que fosse obrigada a fazer algo terrível e abominável contra mim mesma.
Pude ouvir gritos e o som de passos. Eles estavam se aproximando. E as armas também. E, mesmo no auge do pavor, com o coração prestes a explodir no peito, consegui soltar uma mentira alquimista sem esforço.
— Sabe o que fiz com o fogo? Posso fazer outro feitiço como aquele. Não exatamente igual, mas tão bom quanto. Estou com um objeto, um amuleto, mas precisa ser usado à distância. Se a gente se separar e eu distrair todo mundo, você pode lançar o feitiço. É um feitiço de sono. Todos vão cair, exceto eu, que estou protegida.
— Não sei lançar feitiços — ele disse. — Por que você não lança e eu distraio todo mundo?
— Porque você seria atingido também. E pode lançar, sim. A magia está no artefato. Basta dizer as palavras para ativá-la.
Com a mão livre, consegui vasculhar a bolsa enquanto corria. Tirei Pulinho, em sua forma inerte, e o entreguei para Eddie, junto com as chaves.
— Pegue as chaves, já que consegue dar partida no carro mais rápido quando fugirmos. Para o feitiço, erga o dragão — eu disse, ofegante. — E diga centrum remanebit.
— Cen… o quê?
— Centrum remanebit — eu disse com firmeza. — Diga três vezes, com o rosto voltado para todo mundo, mas tome cuidado para manter distância. Se alguém pegar você e interromper, o feitiço se volta contra você.
— Não posso! Não posso deixar você. Vamos encontrar outro jeito.
— Não, não vamos. — Eu estava ficando cansada e meu pé doía cada vez mais. Se Eddie percebesse, sabia que ele tentaria me carregar, o que só pioraria as coisas. — Essa é nossa chance. Eles são muitos, mas a gente pode acertar todos com um só golpe. Por favor, Eddie. Você disse que era meu amigo. Eu sou sua amiga. Confie em mim. Sei o que estou fazendo.
Atiraram outra vez e a bala acertou o chão a meio metro de nós, soltando areia para o ar.
— Vou para lá — Eddie disse, apontando com Pulinho. — Você vai para a esquerda. Parece que não tem ninguém lá. Se tentar chamar atenção, não vão ter tempo de pegar você antes de eu lançar o feitiço… certo?
— Certo. — Apertei a mão dele e tentei não chorar. — Você consegue. E lembre-se: sou sua amiga.
— Centrum remanebit.
— Centrum remanebit — repeti. Eddie soltou minha mão e nos separamos. Ele saiu correndo em direção à direita, mas, em vez de seguir na direção oposta, dei meia-volta e corri na direção de onde tinha vindo. Logo alcancei meus captores.
— Não vou resistir — eu disse baixinho enquanto eles me seguravam pelos braços. — Mas vocês precisam me levar para o meu pai agora. Me tirem daqui. Só vou falar com ele.
Torci para que me dessem ouvidos e que estivéssemos longe o bastante quando Eddie se desse conta de que eu tinha mentido e voltasse para o meio do perigo. Meus captores me levaram praticamente arrastada, mas atenderam ao meu pedido e acabamos chegando a tempo. Fazia parte da eficiência alquimista. Eles tinham uma missão. Queriam completá-la da maneira mais rápida e completa.
Sem máscaras, meu pai e Zoe estavam perto de onde o campo encontrava o estacionamento. Eu estava tão exausta que queria desabar, mas me mantive firme, mesmo quando a escolta me soltou e me empurrou. Olhei meu pai diretamente nos olhos.
— Eddie saiu pra chamar ajuda — eu disse friamente. — Se quiser evitar um banho de sangue com os guardiões, é melhor irmos agora.
Ele soltou um resmungo.
— Pelo menos você tem um pouco de bom senso. — Ele apontou com a cabeça para a van. — Levem minha filha para lá.
Meus captores me arrastaram e me empurraram para dentro, até um banco longo. A van tinha uma disposição estranha, e as costas do meu assento davam para as costas dos bancos de motorista e de passageiro, de modo que eu ficava virada para o fundo da van. Outro alquimista se sentou ao meu lado, e mais dois se sentaram na frente, fora do meu campo de visão. Segundos depois, meu pai e Zoe entraram e se sentaram nos bancos à minha frente, o que me permitia ver seus rostos. Tive a impressão de que havia outros veículos para os demais escondidos no terreno. Eu mal tinha prendido o cinto de segurança quando o alquimista ao meu lado agarrou minhas mãos e as amarrou atrás das costas. Ligaram a van e partimos em meio a uma nuvem de cascalho e poeira. Torci para que os outros alquimistas fugissem antes que Eddie voltasse. Não queria nenhum confronto que pudesse colocá-lo em perigo.
Pairava um silêncio pesado na van. Só meu pai e Zoe mantiveram os rostos descobertos, e voltei o olhar contra ela.
— Você me denunciou.
Ela não estava preparada para a dureza no meu olhar e na minha voz. Engoliu em seco.
— Foi… foi você quem se denunciou. Fez coisas horríveis. Deixou que eles corrompessem sua mente.
— A questão é essa mesmo? — perguntei. — Ou é porque eu ia testemunhar a favor da mamãe?
Meu pai fez uma careta.
— Isso é para ensinar o verdadeiro sentido de família para você. Claro que a responsabilidade também é minha. Quando você fugiu com aquela dampira, eu deveria ter imaginado que isso aconteceria. Deveria ter intervindo naquela época, mas fui sentimental demais.
Soltei um risada amargurada.
— Sério? Sentimental? Não acredito que você consegue falar isso sem rir. — Eu me voltei para Zoe. — Você roubou o celular?
Ela fez que não.
— Encontrei no carro.
Qualquer outra risada, triste ou irônica, murchou dentro de mim. Claro. Adrian havia percebido que o celular desaparecera no dia seguinte ao meu aniversário. Devia ter caído da calça dele quando espalhamos as roupas no banco traseiro.
Então me dei conta. Não tinha caído. Tinha sido tirado. Por mim. Quando li para ele a citação dos “noventa e nove” de Poe, peguei o primeiro celular que encontrei, o que não foi difícil, considerando que tínhamos quatro ao todo. Eu não tinha prestado atenção de quem era o telefone e não tinha sido cuidadosa ao jogá-lo de volta na pilha de roupas para poder ficar nua com Adrian outra vez.
— Mas tinha outras coisas também — Zoe disse, com os olhos brilhando por trás das lágrimas. — O jeito como você falava e ria perto deles. O jeito como vivia desaparecendo. Os cupcakes.
Minha rigidez vacilou, sobretudo porque estava confusa.
— Os cupcakes?
— Você disse que tinha comprado. Mas, na lanchonete, naquele dia, quando Angeline estava reclamando sobre o bolo, ela começou a falar sem parar sobre os cupcakes de chocolate com hortelã que Adrian tinha feito. Alguma coisa sobre esperar esfriar para colocar a cobertura.
Foi outro momento horrível, mas ao mesmo tempo risível. Cupcakes e sexo de aniversário no carro tinham sido a minha desgraça.
Não, Sydney, pensei. Não se coloque num pedestal. Você cometeu deslizes muito antes disso.
A voz dela estava trêmula.
— Vamos salvar você.
— Não preciso ser salva — retorqui. — Não tem nada de errado comigo. Você deveria ter vindo conversar comigo antes de começar tudo isso. — Tentei gesticular, mas minha mão estava presa. — A gente poderia ter conversado. Sou sua irmã.
— Não, Sydney. — O olhar duro e inexpressivo em seu rosto era assustadoramente parecido com o de nosso pai. — Você é só mais uma alquimista e vou tratá-la como tal, assim como me mandou fazer.
Suas palavras me atingiram fundo, e meu pai logo aproveitou meu momento de fragilidade.
— Eles fizeram uma lavagem cerebral em você e nós vamos desfazer o estrago — ele disse. — Vai ser muito mais fácil se você cooperar.
— Eu já falei: não tem nada de errado comigo! — Explodi com uma raiva que não sabia que existia dentro de mim, deixando o medo e a tristeza de lado. — Vocês é que estão iludidos há séculos com preconceitos e superstições. Os Moroi e dampiros são exatamente iguais a nós, mas têm mais honra e decência.
Eu não estava esperando pelo tapa. Apesar de todos seus defeitos, meu pai nunca tinha batido em nós, mas o golpe forte que me deu deixou claro que não tinha reservas morais contra esse tipo de disciplina. Minha cabeça foi lançada para o lado e mordi a língua.
— Você não sabe os sacrifícios que estou fazendo por você — ele murmurou, com os olhos gélidos. O olho de vidro de Keith demonstrava mais emoção. — Não faz ideia da sorte que tem por estarmos fazendo isso por você. As trevas corromperam tanto sua alma que não sei quanto tempo vai demorar para corrigir. Mas vamos conseguir. Não importa a dificuldade ou o tempo, vamos desfazer o que aquele Moroi fez com você.
Consegui abrir um sorriso, sentindo o gosto de sangue na boca.
— Tem certeza, pai? Porque ele fez de tudo comigo.
Os olhos do meu pai se voltaram para o assento atrás de mim. Eu me encolhi ao sentir a picada da agulha no pescoço. O mundo girou, meu corpo ficou leve e senti um formigamento. O rosto dele e de Zoe flutuaram na minha frente por alguns segundos e então mergulhei na escuridão.

4 comentários:

  1. Nossa... Sydney LACRADORA, PODEROSA, FATAL!!! Amo muito a Sydney assim, toda malvadona, não dando a F*ck pro pai dela e para os alquimistas!!! Continua assim Sydney PLEASE <3 <3 <3

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  2. Nossa, esse capitulo foi extremamente estressante e intenso, mas mesmo depois de tudo, não esperava por essa ultima fala dela, meu deus to até arrepiada.

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  3. Meu Deus que capitolo foi esse

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  4. Ela está cagand* pros alquimistas

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Boa leitura :)