13 de outubro de 2017

Capítulo 22

ABRI OS OLHOS, tonta pelo choque repentino de ser arrancada do sonho. Meu corpo estava lento e apertei os olhos diante da luz. A lâmpada que eu havia deixado acesa na noite anterior se somou à luz do sol que passava pela janela, mas meu celular mostrava que ainda era absurdamente cedo. Alguém bateu na porta e percebi que era isso que tinha me acordado. Ajeitei o cabelo e levantei da cama cambaleante.
— Se ela estiver precisando de um monitor de geografia agora, eu realmente vou para o México — murmurei. Mas não era Angeline que estava atrás da porta quando abri. Era Jill.
— Acabou de acontecer uma coisa grave — ela disse, entrando rapidamente. — Não comigo.
Se ela notou minha irritação, não demonstrou. Na verdade, examinando-a mais atentamente, percebi que ela parecia (ainda) não saber do que havia acontecido entre mim e Adrian. De acordo com o que eu havia aprendido, sonhos de espírito não eram compartilhados pelo laço, a menos que a pessoa que tinha recebido o beijo das sombras fosse levada diretamente para dentro do sonho.
Suspirei e sentei na cama, querendo voltar a dormir. O calor e a emoção do sonho estavam perdendo a força, e agora só me sentia exausta.
— Qual é o problema?
— Angeline e Trey.
Resmunguei.
— Ai, meu Deus. O que ela fez com ele agora?
Jill sentou na minha cadeira e assumiu um olhar firme e decidido. O que ela estava prestes a falar não devia ser nada bom.
— Ela tentou trazer Trey para o nosso alojamento ontem à noite.
— Como assim? — Eu realmente precisava dormir mais, porque meu cérebro estava tendo dificuldades para entender a lógica daquilo. — Ela não está tão dedicada à nota de matemática assim... está?
Jill ergueu uma sobrancelha.
— Sydney, eles não estavam estudando matemática.
— Então o que estavam... Ah. Ah, não. — Caí de costas na cama e fiquei olhando para o teto. — Não. Isso não pode estar acontecendo.
— Também tentei repetir isso para mim mesma — ela disse. — Não adiantou.
Eu me virei de lado para encará-la de novo.
— Certo, supondo que seja verdade, está rolando faz quanto tempo?
— Não sei — Jill parecia tão cansada quanto eu, e muito mais exasperada. — Você sabe como ela é. Tentei arrancar respostas dela, mas ela ficou repetindo que não era culpa dela e que simplesmente tinha acontecido.
— E o que Trey disse?
— Não consegui falar com ele ainda. Ele foi levado embora assim que eles foram pegos. — Ela abriu um sorriso triste. — O bom é que ele vai ter muito mais problemas do que ela, então não precisamos nos preocupar que ela seja expulsa.
Ah, não.
— Precisamos nos preocupar que ele seja expulso?
— Acho que não. Ouvi histórias de outras pessoas que fizeram isso e só ficaram em detenção por muito tempo ou coisa assim.
Pelo menos isso. E Angeline ficava tanto em detenção que eles teriam ainda mais tempo para ficar juntos.
— Bom, então acho que não há muito o que fazer. Quer dizer, as consequências sentimentais vão ser uma zona, claro.
— Então... — Jill mudou de posição, nervosa. — Era sobre isso que eu queria falar. Sabe, alguém precisa contar ao Eddie...
Eu levantei da cama em um salto.
— Eu é que não vou fazer isso.
— Ah, claro que não. Ninguém esperaria que você fizesse. — Eu não tinha tanta certeza, mas deixei que ela continuasse. — Angeline vai contar. É a coisa certa a fazer.
— Sim... — Eu ainda não tinha baixado a guarda.
— Mas alguém precisa falar com Eddie depois — ela explicou. — Vai ser difícil pra ele, sabe? Não podemos deixá-lo sozinho. Ele vai precisar de um amigo.
— Você não é amiga dele? — perguntei.
Ela ficou vermelha.
— Sim, claro. Mas não sei se seria certo considerando que... enfim, você sabe o que sinto por ele. É melhor ele ter alguém mais racional e objetivo por perto. Além disso, não sei se faria um bom trabalho.
— Acho que faria um trabalho melhor do que eu.
— Você é melhor nessas coisas do que pensa. Consegue deixar as coisas mais claras e...
Jill parou de falar de repente. Seus olhos se arregalaram e, por um momento, parecia que ela estava vendo algo que eu não conseguia ver. Demorei um momento para entender. Não só parecia — era exatamente o que ela estava fazendo. Ela estava tendo um daqueles momentos em que ficava em sincronia com a mente de Adrian. Eu a vi piscar e, lentamente, voltar a se concentrar no meu quarto. Seus olhos se focaram em mim, e ela empalideceu. E assim, de repente, percebi que ela sabia.
Rose havia dito que, às vezes, no laço, era possível observar as memórias recentes de alguém mesmo que você não estivesse sintonizada com o laço naquele momento. Quando Jill olhou para mim, pude ver que ela havia visto tudo, todas as coisas que tinham acontecido entre mim e Adrian durante a noite. Era difícil dizer qual de nós estava mais horrorizada. Repassei tudo o que havia feito e dito, todas as posições comprometedoras em que havia me colocado, literal e figurativamente. Jill havia simplesmente me “visto” fazer coisas que ninguém nunca mais tinha visto... quer dizer, exceto Adrian, claro. E o que ela havia sentido? Como era me beijar? Passar as mãos dela, quer dizer, dele no meu corpo?
Era uma situação para a qual eu não estava nem um pouco preparada. Minhas indiscrições ocasionais com Adrian também haviam chegado até Jill, mas nós — especialmente eu — tínhamos ignorado. Naquela noite, porém, havíamos levado as coisas a um nível completamente diferente, que deixava Jill e eu atônitas e sem palavras.
Fiquei aflita por ela ter me visto tão vulnerável e exposta, e meu lado mais protetor estava preocupado com o simples fato de ela ter visto alguma coisa, ponto.
Ficamos olhando uma para a outra, perdidas em nossos próprios pensamentos, mas Jill se recuperou primeiro. Desviando os olhos, ela andou rápido até a porta.
— Hum, acho melhor eu ir embora, Sydney. Desculpe por ter incomodado você tão cedo. Acho que dava para ter esperado. Angeline vai conversar com Eddie ainda de manhã, então quando tiver um tempo para falar com ele, sabe, seria ótimo. — Ela respirou fundo e abriu a porta, ainda se recusando a me olhar nos olhos. — Preciso ir. Até mais. Desculpa de novo.
— Jill...
Ela fechou a porta e me afundei na cama, sem conseguir ficar de pé. Era oficial. Todos os resquícios de ardor e desejo que eu sentia por ter ficado com Adrian haviam desaparecido por completo diante da expressão de Jill. Até aquele momento, não havia entendido verdadeiramente o que significava me envolver com alguém que tinha um laço. Tudo o que Adrian dizia para mim, ela ouvia. Todo sentimento que ele tinha por mim, ela também tinha. Toda vez que ele me beijava, ela sentia...
Comecei a me sentir enjoada. Como Rose e Lissa haviam lidado com aquilo? Em algum lugar da minha mente atordoada, lembrei de quando Rose me contou que conseguia bloquear várias das experiências de Lissa, mas que tinha levado alguns anos para aprender a fazer isso. Adrian e Jill estava ligados pelo laço fazia poucos meses. O choque de saber o que Jill tinha visto lançou uma sombra sobre tudo o que havia de sensual e emocionante naquela noite. Eu me senti exposta. Me senti fácil e vulgar, ainda mais ao lembrar de como havia provocado as coisas. Aquela sensação de enjoo aumentou, e não houve como evitar a avalanche de sentimentos que se seguiu.
Eu havia me deixado perder o controle, tinha sido tomada pelo desejo. Não deveria ter feito nada daquilo, e não só porque Adrian era Moroi (embora, claro, esse também fosse um problema). A minha vida girava em torno de razão e lógica, e eu havia jogado ambas pela janela. Esses eram meus pontos fortes e, ao deixá-los de lado, eu tinha me tornado fraca. Ainda estava arrebatada pela liberdade e pelos perigos por que havia passado na noite anterior, sem mencionar que estava inebriada por Adrian e por ele ter me dito que eu era bonita e corajosa e “ridiculamente inteligente”. Eu havia me derretido com o olhar dele ao me ver naquele vestido absurdo. Saber que ele me desejava havia me desnorteado, fazendo com que eu também o desejasse...
Nada daquilo estava certo.
Com grande esforço, levantei e consegui escolher as roupas para o dia. Cambaleei até o chuveiro feito um zumbi e fiquei tanto tempo no banho que perdi o café da manhã. Não tinha importância. Não teria conseguido comer nada mesmo, não com todas as emoções que estavam fervilhando dentro de mim. Mal falei com as pessoas enquanto passava pelos corredores, e foi só quando sentei na sala da sra. Terwilliger que finalmente me lembrei que havia outras pessoas no mundo, com seus próprios problemas.
Mais especificamente, Eddie e Trey.
Eu tinha certeza de que eles não estavam tão traumatizados quanto Jill e eu pelos acontecimentos da noite anterior. Mas ficou claro que ambos haviam tido uma manhã difícil. Nenhum deles falou ou fez contato visual com ninguém. Acho que era a primeira vez que eu via Eddie ignorar o ambiente. O sinal me interrompeu antes que eu tivesse a chance de dizer alguma coisa, e passei o resto da aula olhando para os dois, preocupada.
Eles não pareciam estar prestes a se meter em alguma loucura movida pela testosterona, o que era um bom sinal. Me senti mal por ambos — especialmente por Eddie, que havia sido o mais enganado — e me preocupar com eles me ajudou a não pensar no meu próprio drama. Um pouquinho, pelo menos.
Ao fim da aula, quis falar antes com Eddie, mas a sra. Terwilliger me interpelou. Ela me entregou um grande envelope amarelo que parecia conter um livro. Aparentemente, os feitiços que eu precisava aprender não acabavam nunca.
— Algumas das coisas de que conversamos — ela me disse. — Estude assim que puder.
— Certo. — Guardei o envelope dentro da bolsa e olhei ao redor em busca de Eddie, mas ele já havia ido embora.
Trey estava na minha aula seguinte, e sentei ao lado dele, como sempre. Ele me olhou de esguelha e então desviou os olhos.
— Então — eu disse.
Ele abanou a cabeça.
— Não comece.
— Não vou começar nada.
Ele ficou quieto por alguns segundos e então se virou para mim com o olhar febril.
— Eu não sabia, juro. Sobre ela e Eddie. Ela nunca mencionou e, claro, eles não falam sobre isso aqui. Eu nunca teria feito isso com ele. Você precisa acreditar.
Eu acreditava. Apesar de todos os defeitos de Trey, ele era honesto e tinha um bom coração. Se alguém havia se comportado mal naquela história, era Angeline.
— Na verdade, estou mais surpresa por você ter se envolvido com alguém como ela. — Não precisava elaborar que “alguém como ela” se referia ao fato de ela ser dampira.
Trey enfiou a cabeça na carteira.
— Eu sei, eu sei. É que tudo aconteceu tão rápido. Num dia ela estava atirando um livro na minha cabeça. No outro, a gente estava se pegando atrás da biblioteca.
— Ai. Eu não precisava ficar sabendo dessa parte. — Levantei os olhos e vi que nossa professora de química ainda estava organizando a mesa, o que nos dava mais algum tempo. — E agora, o que você vai fazer?
— O que você acha? Preciso terminar. Não deveria ter deixado chegar tão longe.
A Sydney de três meses antes teria dito que era óbvio que ele precisava terminar. Mas esta Sydney disse:
— Você gosta dela?
— Sim, eu... — Ele parou e então abaixou a voz. — Acho que amo Angeline. É muita loucura? Depois de só algumas semanas?
— Não... Não sei. Não sou muito boa em entender essas coisas. — Na verdade, queria dizer que era péssima. — Mas, se é assim que você se sente... talvez... talvez não devesse jogar isso fora.
Os olhos de Trey se arregalaram, e sua tristeza se transformou em choque.
— Você está falando sério? Como pode dizer uma coisa dessas? Mais do que ninguém, você sabe como as coisas funcionam. Vocês têm as mesmas regras que nós.
Eu mal podia acreditar nas minhas próprias palavras.
— O grupo dela não, e eles parecem viver bem.
Por um momento, pensei ver uma faísca de esperança nos olhos dele, mas então ele balançou a cabeça.
— Não posso, Sydney. Você sabe que não. Mais cedo ou mais tarde vai acabar em desastre. Tem um motivo para as nossas raças não se misturarem. E, se algum dia a minha família descobrir... Cara. Nem consigo imaginar. Eu nunca mais teria como voltar.
— Você quer mesmo voltar?
Ele não respondeu. Em vez disso, disse apenas:
— Não tem como dar certo. Acabou. — Eu nunca o tinha visto tão triste.
A aula começou e pôs fim à nossa conversa.
Não vi Eddie no restaurante na hora do almoço. Jill estava sentada com Angeline numa mesa no canto e parecia estar dando um forte sermão. Ela poderia não se sentir à vontade consolando Eddie, mas pelo jeito não tinha problema algum em defendê-lo. Eu não queria ouvir as justificativas de Angeline ou olhar nos olhos de Jill, então peguei um sanduíche e fui comer do lado de fora. Não tinha tempo para procurar Eddie no restaurante do alojamento masculino, por isso mandei uma mensagem.
Quer tomar café depois?
Não fique com pena de mim, ele respondeu. Eu não achava nem que ele fosse responder, então já era alguma coisa.
Só quero conversar. Por favor.
A mensagem seguinte não veio tão rápido, e quase pude imaginar a batalha mental que ele estava travando. Tá, mas depois do jantar. Tenho um grupo de estudos. Um momento depois, acrescentou: Mas não no Spencer’s.
Trey trabalhava no Spencer’s.
Agora que o drama de Angeline podia esperar, voltei à confusão que era minha própria vida amorosa. Não conseguia tirar a expressão de Jill da cabeça. Não conseguia me perdoar por ter perdido o controle. E, agora, estava com as palavras de Trey ecoando na minha mente. Mais cedo ou mais tarde vai acabar em desastre. Tem um motivo para as nossas raças não se misturarem.
Como se invocado pelos meus pensamentos, Adrian me mandou uma mensagem.
Quer pegar o dragão hoje?
Eu tinha me esquecido completamente do callistana. Ele ficara com Adrian enquanto eu estava em St. Louis, e agora era a minha vez. Como Adrian não conseguia transformá-lo de volta em quartzo, o dragão tinha ficado em sua verdadeira forma durante todo o fim de semana.
Pode ser, respondi.
Senti um frio na barriga quando fui até a casa dele mais tarde. Eu tivera o resto do dia para pensar sobre minhas alternativas e finalmente me decidi por uma das mais extremas.
Quando ele abriu a porta, seu rosto estava iluminado... até ver o meu. Sua expressão ficou ao mesmo tempo triste e exasperada.
— Ah, não — ele disse. — Lá vem.
Entrei.
— Lá vem o quê?
— Você dizendo que o que aconteceu ontem à noite foi um erro e nunca mais pode se repetir.
Desviei os olhos. Era exatamente o que eu ia dizer.
— Adrian, você sabe que não tem como dar certo.
— Porque Moroi e humanos não podem ficar juntos? Porque você não sente o mesmo que eu sinto por você?
— Não — respondi. — Quer dizer, não só é isso. Adrian... Jill viu tudo.
Ele pareceu levar alguns segundos para entender.
— Como ass... Ah. Droga.
— Pois é.
— Eu nem tenho pensado mais nisso. — Ele sentou no sofá e ficou olhando para o nada. O callistana entrou correndo na sala e se empoleirou no braço do sofá. — Quer dizer, sei que acontece. Até conversamos sobre isso em relação a outras garotas. Ela entende.
— Entende? — exclamei. — Ela tem quinze anos! Você não pode fazer a menina passar por isso.
— Você até podia ser inocente aos quinze, mas Jill não é. Ela sabe como as coisas funcionam.
Não conseguia acreditar nos meus próprios ouvidos.
— Mas não sou uma das outras garotas! Vejo Jill todo dia. Sabe como é difícil olhar para a cara dela, sabendo que ela me viu fazendo aquilo? Ai, meu Deus, e se tivessem acontecido outras coisas?
— Então o que isso quer dizer, exatamente? — ele perguntou. — Você finalmente tinha mudado de ideia e agora vai terminar as coisas por causa dela?
— Beijar você não é “mudar de ideia”.
Ele me olhou longamente.
— Não foi só um beijo, srta. Eu Aprendo Rápido.
Tentei não demonstrar como me sentia envergonhada dessa frase.
— É exatamente por isso que acabou. Não vou deixar Jill ver uma coisa dessas de novo.
— Então você admite que poderia voltar a acontecer.
— Teoricamente, sim. Mas não quero correr o risco.
— Então vai simplesmente evitar ficar sozinha comigo?
— Vou evitar você, e ponto. — Respirei fundo. — Vou pro México com Marcus.
— Como assim? — Adrian se levantou em um salto e veio até mim. Recuei imediatamente. — E aquela história de trabalhar disfarçada?
— Isso só funciona se eu continuar disfarçada! Acha que vou conseguir isso me encontrando com você às escondidas?
— Você já passa metade do tempo comigo! — Não sabia se ele estava bravo ou não, mas estava visivelmente chateado. — Ninguém percebe. Vamos tomar cuidado.
— Basta um deslize — eu disse. — E não sei mais se consigo confiar em mim mesma. Não posso correr o risco de os alquimistas descobrirem sobre nós. Não posso expor Jill ao que faríamos juntos. Eles vão mandar outro alquimista pra cuidar dela e, se tudo der certo, Stanton vai tomar uma atitude em relação aos guerreiros.
— Jill sabe que não posso deixar minha vida de lado.
— Mas você precisa — retruquei.
Agora ele ficou bravo.
— E você sabe disso porque é especialista em negar a si mesma as coisas que quer. E agora vai fugir do país para garantir que nunca mais vai ser feliz.
— Exatamente. — Fui até o callistana e recitei o encantamento que o retornava à forma inerte. Coloquei o cristal dentro da bolsa e criei coragem para lançar o olhar mais frio possível para Adrian. Deve ter sido forte porque ele parecia ter levado um tapa na cara. Ver a dor em seu rosto partiu meu coração. Eu não queria ferir os sentimentos dele. Não queria deixá-lo para trás. Mas que escolha eu tinha? Muita coisa estava em risco.
— Não tem mais volta — eu disse. — Tomei minha decisão, Adrian. Vou embora neste fim de semana, então, por favor, não torne as coisas mais difíceis do que já são. Queria que continuássemos amigos. — Meu tom fez parecer que estávamos fechando um negócio.
Caminhei até a porta e Adrian correu atrás de mim. Não conseguia suportar a agonia no rosto dele e precisei de toda a minha força de vontade para não desviar os olhos.
— Sydney, não faz isso. Você sabe que é um erro. No fundo, você sabe.
Não respondi. Não consegui responder. Fui embora, me obrigando a não olhar para trás. Estava com muito medo de que minha determinação vacilasse, e era exatamente por isso que precisava ir embora de Palm Springs. Não estava mais segura perto dele. Ninguém deveria ter o direito de exercer esse poder sobre mim.
Tudo o que queria era me esconder no quarto e chorar. Por uma semana. Mas nunca havia descanso para mim. Tudo girava em torno dos outros, e meus próprios sonhos e sentimentos eram deixados de lado. Por isso, eu não estava na melhor posição para dar conselhos amorosos a Eddie quando nos encontramos naquela noite. Felizmente, ele estava absorto demais nas próprias emoções para perceber as minhas.
— Nunca deveria ter me envolvido com Angeline — ele me disse. Estávamos num café do outro lado da cidade. Ele havia pedido um chocolate quente e mexia nele fazia quase uma hora.
— Você não sabia — eu disse. Era difícil manter minha parte da conversa quando eu ficava me lembrando da dor nos olhos de Adrian. — Você não tinha como saber, ainda mais no caso dela. Ela é imprevisível.
— E é por isso que eu não deveria ter me envolvido. — Ele finalmente pousou a colher na mesa. — Relacionamentos são perigosos mesmo quando você não se envolve com uma pessoa como ela. E eu não tenho tempo pra esse tipo de distração! Estou aqui por Jill, não por mim. Nunca deveria ter me deixado envolver nessa história.
— Não tem nada de errado em querer ficar com alguém — eu disse, diplomática. A menos que essa pessoa vire seu mundo de ponta-cabeça e faça você perder o controle.
— Talvez quando me aposentar eu tenha tempo. — Não consegui perceber se ele estava falando sério. — Mas não agora. Jill é minha prioridade.
Eu não tinha por que me fazer de cupido, mas precisava tentar.
— Você já pensou seriamente em ficar com Jill? Sei que gostava dela. — E tinha certeza absoluta de que ainda gostava.
— Isso está fora de questão — ele disse com firmeza. — Como você sabe muito bem. Não posso pensar nela desse jeito.
— Ela pensa em você desse jeito. — As palavras saíram da minha boca antes que eu pudesse me conter. Depois do meu próprio desastre amoroso naquele dia, uma parte de mim queria muito que pelo menos alguém fosse feliz. Não queria que ninguém sofresse como eu.
Ele congelou.
— Ela... Não. Não pode ser.
— Sim.
Toda uma gama de emoções passou pelos olhos de Eddie. Incredulidade. Esperança. Alegria. E, então... resignação. Ele pegou a colher de novo e voltou a mexer o chocolate compulsivamente.
— Sydney, sabe que não posso. Mais do que ninguém, você sabe como é preciso se focar no trabalho. — Essa era a segunda vez naquele dia que alguém me falava “mais do que ninguém, você...”. Acho que todo mundo tinha uma ideia preconcebida de mim.
— Você deveria pelo menos tentar — eu disse. — Olhe bem pra ela da próxima vez que estiverem juntos. Veja como ela reage.
Parecia que ele ia tentar, o que considerei uma pequena vitória. De repente, seu rosto ficou alerta.
— O que aconteceu com você e Marcus? A viagem pra St. Louis. Você descobriu alguma coisa sobre Jill?
Escolhi o que diria a seguir com muito cuidado, tanto porque não queria preocupá-lo como porque não queria que ele tomasse nenhuma atitude drástica que, mesmo sem querer, acabaria revelando minhas transações com Marcus.
— Descobrimos algumas evidências de que os guerreiros falaram com os alquimistas, mas nada que mostre que estejam trabalhando juntos ou que realmente tenham planos em relação a ela. Também tomei algumas atitudes pra garantir que ela fique protegida.
Ainda não tinha ouvido nenhuma notícia de Stanton e não tinha certeza se essa última parte daria resultados. Mas Eddie pareceu aliviado e eu não queria estressá-lo ainda mais naquele dia. Seu olhar passou para algo atrás de mim e ele colocou o chocolate quente ainda intacto sobre a mesa.
— Está na hora de ir.
Olhei para o relógio atrás de mim e vi que ele tinha razão. Ainda tínhamos tempo de sobra antes do toque de recolher, mas não queria arriscar. Terminei meu café e o segui até a saída. O sol estava sumindo no horizonte, colorindo o céu de vermelho e roxo. A temperatura tinha finalmente abaixado para níveis normais, mas aquilo ainda não parecia inverno para mim. Havia vários carros mal estacionados em frente ao café, por isso eu havia parado o Pingado nos fundos, a fim de evitar que alguma pessoa descuidada batesse nele ao abrir a porta.
— Obrigado pelo apoio moral — Eddie disse. — Às vezes você realmente parece uma irmã...
Foi então que meu carro explodiu. Quer dizer, mais ou menos.
Preciso admitir que a reação de Eddie foi incrível. Ele me jogou no chão, protegendo meu corpo com o dele. A explosão havia sido ensurdecedora, e gritei quando uma espécie de espuma caiu na minha cara.
Espuma?
Eddie se levantou com cautela, e fiz o mesmo. Meu carro não tinha explodido em chamas nem nada assim. Em vez disso, estava cheio de uma substância branca que tinha estourado com tanta força que havia derrubado as portas e quebrado as janelas. Nos aproximamos da lambança e, atrás de nós, ouvi pessoas saindo do café.
— Que porra foi essa? — Eddie perguntou.
Toquei na espuma em meu rosto e a examinei na ponta dos dedos.
— É aquilo que tem dentro do extintor de incêndio — respondi.
— Mas como é que foi parar no seu carro? — ele perguntou. — E tão rápido? — Olhei pra ele quando a gente estava saindo. — Você que é a especialista em química. Será que podia acontecer uma reação tão rápido?
— Talvez — admiti. Naquele momento, estava chocada demais para realmente pensar em alguma fórmula. Passei a mão no capô do Pingado e quis chorar. Eu estava à beira de um ataque de nervos. — Meu pobre carro. Primeiro o do Adrian, agora o meu. Por que as pessoas fazem coisas assim?
— Os vândalos não se importam — disse uma voz atrás de mim. Olhei para trás e vi um dos baristas, um homem mais velho que imaginei ser o dono do café. — Já vi coisas assim antes. Malditos pirralhos. Vou ligar pra polícia por você. — Ele pegou o celular e se afastou.
— Não sei se vamos conseguir chegar antes do toque de recolher agora — eu disse a Eddie.
Ele me deu um tapinha solidário nas costas.
— Acho que, se você mostrar o boletim de ocorrência no alojamento, eles vão entender.
— É, tomara que... Ai. A polícia. — Corri para o lado do passageiro e encarei a parede de espuma, desolada.
— Qual é o problema? — Eddie perguntou. — Além do óbvio, quer dizer.
— Preciso mexer no porta-luvas. — Abaixei a voz. — Tem uma arma lá dentro.
Ele não acreditou no que ouviu.
— O quê?
Eu não disse mais nada, e ele me ajudou a abrir caminho em meio à espuma. Estávamos ambos cobertos por ela quando cheguei perto do porta-luvas. Depois de confirmar que não havia ninguém atrás de nós, peguei a arma rápido e a coloquei discretamente dentro da bolsa. Estava prestes a fechar o porta-luvas quando algo brilhante chamou minha atenção.
— Impossível — eu disse.
Era a minha cruz, a dourada que eu havia perdido. Eu a peguei e derrubei imediatamente, gritando de dor. O metal havia me queimado. Considerando que a substância da espuma era fria, não parecia provável que tivesse esquentado a cruz.
Envolvi a mão na manga da camisa e voltei a pegar a cruz com cuidado.
Eddie espiou por sobre meu ombro.
— Você sempre usa essa cruz.
Fiz que sim com a cabeça e continuei olhando fixamente para ela. Uma sensação terrível tomou conta de mim. Achei um paninho na bolsa e embrulhei a cruz antes de guardá-la. Então, peguei o celular e liguei para a sra. Terwilliger. Caixa postal. Desliguei sem deixar mensagem.
— Qual é o problema? — Eddie perguntou.
— Não sei direito — respondi. — Mas acho que não é nada bom.
Eu ainda não havia desenvolvido a capacidade de sentir resíduos mágicos, mas tinha quase certeza de que algo tinha sido feito com a cruz, algo que resultara na morte espumosa do Pingado. Alicia não havia conseguido encontrar a cruz. Será que Veronica tinha voltado ao hotel e a pegado? Se sim, como havia me localizado? Eu sabia que itens pessoais poderiam ser usados para rastrear alguém, embora os mais comuns fossem fios de cabelo e pedaços de unha. Para uma bruxa tão avançada quanto Veronica, no entanto, era provável que um objeto como aquele pudesse servir também.
Veronica podia ter me encontrado. Mas, nesse caso, por que destruir meu carro em vez de sugar minha vida?
A polícia chegou logo depois e anotou nossos depoimentos. Em seguida chegou o guincho. Pude ver pelo rosto do motorista que não havia muitas esperanças para o Pingado. Ele levou meu pobre carro embora e, depois, um dos policiais fez a gentileza de nos levar de volta a Amberwood. Contra todas as previsões, conseguimos chegar a tempo.
Assim que entrei no quarto, tentei ligar para a sra. Terwilliger de novo. Ela não atendeu.
Esvaziei minha bolsa em cima da cama e vi que havia juntado vários itens ao longo do dia. Um deles era uma rosquinha que havia pegado no café. Coloquei no aquário junto com o cristal de quartzo e invoquei o callistana. Ele logo saiu correndo atrás da rosquinha.
Peguei a cruz e vi que agora estava fria. Qualquer que fosse o feitiço que havia sido usado nela, já havia se desfeito. A arma estava ao lado dela, e logo a escondi dentro da bolsa outra vez. Restou o envelope da sra. Terwilliger, que eu havia ignorado o dia todo. Talvez, se não estivesse tão distraída com questões pessoais, poderia ter salvado o Pingado.
Peguei o livro de feitiços e senti alguma coisa sacudir dentro do envelope. Era outro envelope menor. Nele, havia uma mensagem da sra. Terwilliger: Aqui tem outro amuleto para disfarçar suas habilidades mágicas, só por precaução. É um dos mais poderosos que existem e exigiu muito trabalho, então tome cuidado com ele.
Senti aquela culpa familiar que me atacava sempre que ela me ajudava tanto. Abri o envelope menor e encontrei um pendente prateado de estrela com olivinas. Levei um susto.
Eu já tinha visto aquele amuleto — aquele amuleto poderoso e feito com cuidado para esconder fortes habilidades mágicas.
Eu o tinha visto no pescoço de Alicia.

2 comentários:

  1. Tenho uma forte impressão de que a alicia é a verônica. .. ferrooooou! !

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    1. Néee! Com certeza deve ser ela! Verônica enganou todo mundo!

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Boa leitura :)