3 de outubro de 2017

Capítulo 22

OUTROS DISPAROS ECOARAM PELA ARENA, derrubando mais alguns guerreiros armados. Percebi que Dimitri e Eddie não estavam sozinhos, pois nenhum deles empunhava armas. Os tiros vinham do telhado do complexo ao redor da arena. O caos tomou conta quando os espectadores aglomerados levantaram-se agitados para entrar no meio da briga. Perdi o fôlego ao notar que muitos também tinham armas. Em choque, percebi que o guerreiro caído no chão ao meu lado não estava sangrando. Um pequeno dardo pendia em seu ombro. A munição dos atiradores de elite eram tranquilizantes. Quem eram eles?
Olhei novamente para a entrada e vi que outros homens que pareciam guardiões invadiram a arena e lutavam contra outros guerreiros, incluindo Chris, o que deu cobertura para que Dimitri e Eddie libertassem Sonya.
Ao vislumbrar um brilho loiro-avermelhado perto deles, reconheci o corpo ágil de Angeline. Eficiente, Dimitri cortou as amarras de Sonya e ajudou a levá-la até Eddie. Um guerreiro fervoroso veio correndo na direção deles e, sem perder tempo, Angeline o nocauteou, como se não passasse de um palestrante educativo.
Do meu lado, um dos mestres gritou:
— Peguem a garota alquimista como refém! Eles vão negociar por ela!
A garota alquimista. Certo. Ele estava falando de mim.
No calor do combate, quase ninguém o ouviu, exceto uma pessoa. A loira oxigenada tinha conseguido evitar os dardos de tranquilizante e correu na minha direção. De repente, perdi o medo com a descarga de adrenalina. Usando reflexos que mal sabia ter, peguei minha bolsa e tirei dela o tal “pot-pourri”. Rasguei o invólucro, fazendo o conteúdo voar ao meu redor, e gritei um encantamento em latim que se podia traduzir grosseiramente por algo como “não veja mais”. Comparando ao feitiço de localização, era surpreendentemente simples. Exigia força de vontade, claro, mas a maior parte da magia estava ligada aos componentes físicos, e não exigia horas de concentração como o outro. Senti o poder surgir através de mim quase instantaneamente, me preenchendo com um frenesi que não esperava.
A garota gritou e lançou as mãos aos olhos, deixando a arma cair. Gritos angustiados dos mestres ao meu lado indicaram que eles também haviam sido afetados. Eu havia lançado um feitiço de cegamento que afetava todos ao meu redor durante cerca de trinta segundos. Parte de mim sabia que usar magia era errado, mas de resto me senti triunfante ao deter alguns daqueles fanáticos armados, mesmo que temporariamente. Não perdi nenhum daqueles preciosos segundos. Pulei de onde estava sentada e corri através da arena, para longe do embate perto da entrada.
— Sydney!
Não sei como consegui ouvir meu nome em meio a toda aquela confusão. Olhando para trás, vi Eddie e Angeline carregando Sonya através da porta. Eles pararam, e uma expressão de sofrimento passou pelo rosto de Eddie enquanto olhava ao redor, avaliando a situação. Podia adivinhar o que se passava pela sua cabeça. Ele queria que eu fosse com eles. A maioria dos guerreiros reunidos ali tinha avançado correndo para o centro da arena, na tentativa de impedir o resgate de Sonya. Eles estavam em um número muito maior, como uma muralha entre mim e meus amigos. Mesmo se eu não tivesse de lutar contra ninguém, parecia impossível passar despercebida, principalmente porque muitas pessoas ainda gritavam sobre “a garota alquimista”.
Obstinada, fiz que não com a cabeça e gesticulei para que Eddie saísse sem mim. Apesar do conflito estampado em seu rosto, torci para que ele não tentasse atravessar a multidão para me resgatar. Apontei para a porta, voltando a insistir para que fosse embora. Sonya estava incapacitada. Eu encontraria uma saída. Sem esperar para ver o que ele faria, me virei e continuei a seguir o caminho para onde estava indo. Havia muito espaço aberto a percorrer, mas menos guerreiros para me impedir.
Vários prédios cercavam a arena, alguns com portas e janelas. Segui na direção deles, embora não tivesse nada com que quebrar o vidro. Duas das portas tinham cadeados, mas duas não. A primeira que tentei abrir se revelou trancada por algum cadeado que eu não conseguia ver, e não abria de maneira nenhuma. Nervosa, corri para a segunda e ouvi um grito atrás de mim. A loira oxigenada tinha recuperado a visão e estava correndo na minha direção. Girei a maçaneta desesperadamente. Nada aconteceu. Tirei da bolsa o que os guerreiros haviam tomado por antisséptico para as mãos. Despejei o ácido na maçaneta de metal, e ela derreteu diante dos meus olhos. Confiei que aquilo tivesse destravado a fechadura e joguei o ombro contra a porta, fazendo-a ceder. Então, arrisquei olhar para trás. Minha perseguidora jazia no chão, vítima de um dardo tranquilizador.
Respirei aliviada e atravessei a porta. Estava esperando outra garagem como aquela a que tinha sido levada no começo; em vez disso, me vi em uma espécie de prédio residencial, cujos corredores vazios seguiam fazendo curvas de um lado para o outro, o que me deixou desorientada. Todos estavam no vale-tudo da arena. Passei por quartos improvisados, onde havia colchonetes, mochilas e malas parcialmente desfeitas. Quando notei o que parecia ser um escritório, hesitei diante do batente. Dentro, mesas dobráveis estavam cobertas por papéis, e me perguntei que informações úteis poderiam conter sobre os guerreiros.
Queria muito entrar e investigar. Aqueles guerreiros eram um mistério para os alquimistas. Quem podia saber quais informações secretas aqueles papéis continham? E se houvesse informações que poderiam proteger os Moroi? Hesitei por alguns segundos e, relutante, continuei andando. Os guardiões estavam usando tranquilizantes, mas os guerreiros tinham armas de verdade, armas essas que não teriam medo de apontar para mim.
Por fim, alcancei o outro lado do prédio e olhei pela janela. Estava tão escuro do lado de fora que mal conseguia enxergar. Não tinha mais a ajuda das tochas. A única coisa que podia dizer com certeza era que não estava mais perto da arena. Isso me bastava, embora fosse melhor se houvesse uma porta que levasse para o lado de fora. Precisava improvisar. Peguei uma cadeira e atirei-a contra a janela, me surpreendendo com a facilidade com que o vidro se quebrou. Alguns estilhaços caíram em mim, mas nenhum era grande o bastante para me machucar. Subindo na cadeira, consegui alcançar a janela sem ferir as mãos.
Fui recebida por uma noite escura e quente. Não se via sinal de luz elétrica à frente, apenas terras escuras. Pensei que aquele era um indício de que estava do lado oposto ao complexo a que Trey me trouxera. Não havia estradas, tampouco se ouvia o barulho da rodovia por onde viajamos. Também não havia sinal de vida em parte alguma, o que parecia um bom sinal. Felizmente, todos os guardas dos guerreiros que geralmente patrulhavam a área estavam ocupados combatendo os guardiões. Se Sonya já tivesse saído, minha esperança era de que os guardiões estivessem começando a bater em retirada — e me levassem junto pelo caminho. Mesmo se isso não acontecesse, não achava indigno caminhar de volta para a interestadual e pedir carona.
O complexo se esparramava para todos os lados e me confundia, e conforme seguia ao redor dele, sem ver sinal da estrada, comecei a ficar cada vez mais tensa. A que distância eu estava? Tinha um tempo muito limitado para sair daquela propriedade. Os guerreiros podiam estar me caçando naquele exato momento.
Também havia o pequeno problema de que, depois de atingir as extremidades do complexo, teria de lidar com a cerca elétrica. Mesmo assim, talvez fosse melhor parar de procurar a estrada e simplesmente seguir para o limite do acampamento dos guerreiros para ten...
Uma mão agarrou meu ombro, e soltei um grito.
— Calma, Sage. Não sou nenhum lunático armado. Lunático sim, armado não.
Olhei incrédula, sem conseguir distinguir o vulto alto e escuro à minha frente.
— Adrian? — Tinha a mesma altura e constituição física. Enquanto eu o fitava atentamente, tinha cada vez mais certeza. Suas mãos acalmaram o tremor dos meus ombros. Fiquei tão contente de encontrar um rosto amigo, de encontrar Adrian, que praticamente me afundei em seus braços, aliviada. — É você. Como me encontrou?
— Você é a única humana por aqui com uma aura amarela e roxa — ele disse. — Assim fica fácil de localizar.
— Não, digo, como me encontrou aqui no complexo?
— Vim com os outros. Eles me mandaram não vir, mas... enfim. — Sob a tênue luz do luar, mal consegui notar seu encolher de ombros. — Não sou muito bom em seguir ordens. Quando Castile saiu com Sonya dizendo que você tinha entrado por uma porta qualquer, pensei em dar uma olhada rápida nas redondezas. Acho que não era para ter feito isso também, mas os guardiões estavam meio ocupados.
— Você é maluco — vociferei, por mais que estivesse contente de saber que não tinha sido abandonada naquele lugar terrível. — Os guerreiros estão tão furiosos que matariam qualquer Moroi à primeira vista.
Ele puxou minha mão. Apesar do tom de brincadeira, suas palavras apresentavam um tom severo. Ele estava plenamente ciente do perigo que estávamos correndo.
— Então é melhor darmos o fora daqui.
Adrian me guiou de volta por onde eu tinha vindo, depois demos a volta para o lado oposto do prédio. Ainda não via as luzes da estrada, mas logo ele se virou e começou a correr na direção dos entornos do terreno.
Corri ao seu lado, ainda segurando sua mão.
— Para onde estamos indo? — perguntei.
— Os guardiões estão reunidos atrás do complexo para não serem vistos. Essa parte da cerca foi desativada, se você conseguir escalar.
— Claro que consigo. Sou quase um prodígio na educação física — salientei. — A pergunta é: você consegue, sr. Fumante?
A cerca começou a ficar visível conforme nos aproximamos, sobretudo porque seu contorno bloqueava a visão de algumas estrelas.
— É aquela parte. Atrás do arbusto bizarro — Adrian disse. Eu não conseguia ver nenhum arbusto, mas confiava nos olhos dele. — Depois, você vai encontrar uma estrada rural que os guardiões estão usando como ponto de encontro. Estacionei lá.
Paramos diante da cerca, ambos um tanto esbaforidos. Levantei os olhos.
— Tem certeza de que ela ainda está desativada?
— Estava quando entramos — Adrian respondeu, mas pude notar um tom de incerteza na sua voz. — Você acha que eles já se organizaram o bastante para consertar?
— Não — admiti. — Mas seria bom termos certeza. Quer dizer, a maior parte das cercas elétricas comerciais não machuca muito, mas nunca se sabe.
Ele olhou ao redor.
— Podemos atirar um graveto?
— Madeira não conduz eletricidade. — Remexi a bolsa e encontrei o que queria: uma caneta de metal com cabo de espuma. — Se tivermos sorte, a espuma vai bloquear o pior caso a cerca esteja mesmo ativada. — Me esforçando para não fazer uma careta, estendi a mão e encostei o tubo da caneta na cerca, quase esperando que uma carga intensa me lançasse para trás. Nada aconteceu. Devagar, passei a caneta pela cerca, já que a maioria das cercas elétricas tinha vibração intermitente. Era preciso contato contínuo. — Parece desligada — eu disse, respirando aliviada e me virando para Adrian. — Acho que podemos... Ahh!
Uma luz incandescente ardeu em meus olhos, me cegando e anulando a pouca visão noturna que tinha adquirido até ali. Adrian também soltou um grito.
— É a garota! — uma voz masculina exclamou. — E... um deles!
A luz da lanterna desviou do meu rosto e, embora manchas ainda dançassem na minha vista, pude identificar dois vultos grandes se aproximando rapidamente. Estariam armados? Minha mente disparou. Armados ou não, eles ainda eram uma ameaça óbvia já que, aparentemente, os guerreiros gostavam de surrar uns aos outros em seu tempo livre, enquanto Adrian e eu não.
— Não se mexam — um deles disse. Uma lâmina reluziu sob a luz da lanterna abaixada. Não era tão ruim quanto uma arma de fogo, mas também não era nada bom. — Vocês dois vão voltar com a gente lá pra dentro.
— Devagar — o outro acrescentou. — Sem nenhum truque.
Para o azar deles, eu ainda tinha alguns truques na manga. Rapidamente, coloquei a caneta de volta na bolsa e peguei outro suvenir da lição de casa da sra. Terwilliger: um bracelete circular fino de madeira. Antes que qualquer um dos guerreiros pudesse fazer alguma coisa, quebrei o círculo em quatro partes e as joguei no chão, declamando outro encantamento em latim. Voltei a sentir uma onda de poder e sua exultação. Os homens gritaram — eu havia lançado um feitiço de desorientação, que mexia com o equilíbrio das pessoas e tornava a visão turva e surreal. Funcionou de maneira muito parecida com o feitiço de cegamento, afetando todos ao redor.
Avancei e empurrei um dos agressores para trás. Ele caiu com facilidade, incapacitado demais para resistir. O outro estava tão fora de si que deixou a lanterna cair e já estava quase no chão por conta do desequilíbrio.
Mesmo assim, acertei um belo chute em seu peito para garantir que continuasse agachado, enquanto pegava a sua lanterna. Não precisava muito dela com a visão noturna de Adrian à disposição, mas aqueles dois ficariam perdidos no escuro depois que os efeitos do feitiço passassem.
— Sage! O que você fez comigo?
Ao me virar, vi que Adrian estava se agarrando à cerca para continuar em pé. Na ânsia de deter os guerreiros, esqueci que o feitiço afetava todos ao meu redor.
— Ah — eu disse. — Desculpa.
— Desculpa? Minhas pernas não estão funcionando!
— Na verdade, é o seu ouvido interno que não está. Venha. Segure-se na cerca e comece a subir. Uma mão depois da outra.
Também me agarrei à cerca e o incitei a continuar. Não era a cerca mais difícil de escalar — não estava eletrificada nem tinha arame farpado — e tê-la como apoio anulava parte da desorientação de Adrian. Mesmo assim, estávamos subindo muito devagar. Aquele feitiço durava um pouco mais do que o de cegamento, mas infelizmente eu sabia bem que, assim que Adrian voltasse ao normal, os guerreiros também voltariam.
Apesar de todas as dificuldades, chegamos ao topo da cerca. Passar para o outro lado era muito mais difícil, e eu precisei fazer muitas acrobacias para ajudar Adrian e ainda me manter firme. Por fim, coloquei Adrian na posição para descer.
— Tudo bem — eu disse. — Agora simplesmente faça o contrário do que estava fazendo, uma mão embaixo da...
Um pé ou mão escorregou e Adrian despencou no chão. Não era uma queda tão grande e sua altura ajudava um pouco, embora ele não estivesse em condições de usar as pernas e cair de pé. Estremeci.
— Ou você pode pegar o atalho — eu disse.
Desci rapidamente e o ajudei a levantar. Além da debilidade causada pelo feitiço, ele não parecia ter sofrido outros danos. Colocando um braço em torno dele e deixando que apoiasse o peso em mim, tentei correr na direção da estrada que ele havia mencionado, que agora estava um pouco mais visível. Porém, “correr” era difícil. Era complicado manter Adrian em pé e eu não parava de tropeçar. Mesmo assim, aos poucos fomos nos distanciando do complexo, o que já era bom. O estado de Adrian o deixava pesado e desajeitado, e sua altura dificultava muito.
Então, sem aviso, os efeitos do feitiço passaram e Adrian se recuperou instantaneamente. Suas pernas reganharam a firmeza e seu andar desajeitado se endireitou. De repente, parecia que era ele quem estava me carregando e praticamente tropeçávamos um no outro tentando nos ajustar.
— Você está bem? — perguntei, ao soltá-lo.
— Agora, estou. Que raios foi aquilo?
— Não importa. O que importa é que aqueles sujeitos também se recuperaram. Talvez eu tenha golpeado com força suficiente para atrasá-los. — Isso parecia meio improvável. — Mesmo assim, corra.
Corremos e, apesar dos pulmões de um fumante inveterado, as pernas longas de Adrian compensavam. Ele conseguia me ultrapassar com facilidade, mas reduzia a velocidade para continuarmos lado a lado. Sempre que começava a se adiantar, voltava a segurar minha mão. Ouvimos gritos atrás de nós e apaguei a lanterna para ficarmos menos visíveis.
— Ali — Adrian disse. — Está vendo os carros?
Aos poucos, em meio à escuridão, surgiram dois carros utilitários esportivos, ao lado de um Mustang amarelo muito mais chamativo.
— Bem escondido — murmurei.
— A maioria dos guardiões já foi embora — Adrian disse. — Mas não todos.
Antes que eu pudesse responder, alguém me agarrou por trás. Numa manobra que teria deixado Wolfe orgulhoso, consegui dar um chute para trás que ele tinha se esforçado muito para ensinar. Peguei meu agressor de surpresa e ele me soltou, mas seu companheiro me jogou no chão.
Três vultos correram dos carros em nossa direção e se lançaram contra os agressores. Graças ao sobretudo inconfundível, percebi que era Dimitri quem liderava o grupo.
— Saiam daqui — ele gritou para mim e para Adrian. — Sabem o ponto de encontro. Vamos dar cobertura para vocês. Dirijam rápido; pelo jeito eles não vão demorar muito para pegar a estrada.
Adrian me ajudou a levantar e continuamos a correr juntos. Na queda, tinha machucado o tornozelo e por isso me movia devagar, mas Adrian me ajudou a seguir em frente e deixou que eu me apoiasse nele. Enquanto isso, meu coração ameaçava saltar pela boca, mesmo quando chegamos à segurança do Mustang. Ele me guiou para o lado do passageiro.
— Você consegue entrar?
— Estou bem — respondi, entrando devagar no carro, sem querer admitir que a dor piorava cada vez mais.
Esperava não ter nos atrasado demais. Não conseguiria aceitar a ideia de ser responsável pela captura de Adrian. Satisfeito, Adrian correu para o lado do motorista e deu partida. O ronco do motor ganhou vida e ele seguiu as ordens de Dimitri ao pé da letra — saiu cantando pneu numa velocidade que me causou inveja. Parecia improvável haver algum policial no meio daquela estrada rural. Olhei para trás algumas vezes, mas, ao chegarmos à interestadual, ficou claro que ninguém havia nos seguido. Suspirei aliviada e recostei a cabeça no assento, mas estava muito longe de ficar calma. Não podia supor que estávamos seguros.
— Certo — eu disse. — Como vocês conseguiram me achar?
Adrian não respondeu imediatamente. Quando respondeu, pude notar que foi com grande relutância.
— Eddie pôs um rastreador na sua bolsa lá em casa.
— Quê? Não pode ser! Eles me revistaram.
— Então, tenho certeza de que não parecia uma escuta. Não sei o que ele acabou arranjando. Ele pegou com o seu grupo, na verdade. Assim que Trey confirmou a sua visita hoje, Belikov ligou para todos os guardiões num raio de duas horas, tentando recrutar apoio. Ele ligou para os alquimistas também e os convenceu a disponibilizar alguns equipamentos.
Havia tantas loucuras no que ele tinha acabado de dizer que eu não sabia por onde começar. Todo o transporte e a negociação tinham se passado sem que eu me desse conta. E, mesmo quando tudo estava decidido, ninguém me disse nada sobre aquilo. Para completar, os alquimistas estavam envolvidos? Ajudando os guardiões a me rastrear?
— Os brincos — eu disse. — Foi daí que eles surgiram. O rastreador devia estar num deles. Nunca teria imaginado.
— O que não é nenhuma surpresa, considerando como vocês trabalham.
Comecei a absorver tudo o que tinha acontecido naquela noite. Meu último medo perdeu força, sendo substituído pela raiva.
— Você mentiu pra mim! Todos vocês mentiram! Deviam ter me dito o que estavam fazendo, que estavam me rastreando e planejando uma invasão! Como você pôde esconder isso de mim?
Ele soltou um suspiro.
— Eu queria contar, juro. Falei várias vezes que precisavam colocar você na jogada. Mas todo mundo estava com medo que você se recusasse a levar o equipamento se soubesse dele. Ou que cometeria algum deslize e acabaria revelando o plano para aqueles malucos. Mas eu não acreditava nisso.
— E ainda assim não se deu ao trabalho de me dizer — vociferei, ainda furiosa.
— Eu não podia! Eles me fizeram prometer.
Por algum motivo, a traição dele me magoou mais do que a dos outros. Eu tinha passado a confiar em Adrian totalmente. Como ele pôde fazer aquilo comigo?
— Ninguém acreditava que eu conseguiria convencer os guerreiros, então simplesmente fizeram planos de emergência sem mim. — Não importava que eu realmente não tivesse conseguido convencê-los. — Alguém devia ter me contado. Você devia ter me contado.
Havia dor e uma angústia sincera em sua voz.
— Estou te dizendo: eu queria contar. Mas eu não tinha escapatória. De todas as pessoas, você é quem deveria saber melhor como é ficar encurralado entre dois grupos, Sage. Além disso, lembra o que eu falei antes de você entrar no carro de Trey?
Na verdade, sim. Quase que palavra por palavra. Aconteça o que acontecer, quero que você saiba que nunca duvidei da sua missão. É muito inteligente e corajosa.
Me recostei ainda mais no assento e senti que estava à beira das lágrimas. Adrian estava certo. Eu sabia como era ter a lealdade dividida entre dois grupos diferentes. Entendi a posição em que ele esteve. Mas certo egoísmo da minha parte preferia que a lealdade dele tivesse pendido mais para mim. Ele tentou, uma voz na minha cabeça me disse. Ele tentou me avisar.
No fim, o ponto de encontro de que Dimitri havia falado era a casa de Clarence, que fervilhava de guardiões, uns fazendo curativos nos ferimentos dos outros. Não houve mortes de nenhum dos lados, algo com que os guardiões tomaram muito cuidado. Os Guerreiros da Luz já os consideravam perversos e corruptos.
Não precisavam de mais lenha na fogueira.
Não que o ataque daquela noite fosse ajudar muito. Eu não tinha a menor ideia de como os guerreiros iriam reagir e se teriam alguma retaliação letal na manga. Supunha que os guardiões e os alquimistas haviam levado isso em consideração. Amargamente, me perguntei se algum deles conversaria comigo sobre isso.
— Já sei que não adianta me oferecer para curar você — Adrian me disse, enquanto passávamos por um grupo de guardiões. — Sente na sala enquanto pego alguns cubos de gelo pra você.
Estava prestes a dizer que eu mesma poderia pegar, mas a dor no meu tornozelo só estava aumentando. Com um aceno, me separei dele e abri caminho em direção à sala. Alguns guardiões que eu não conhecia estavam lá, na companhia de um Clarence radiante. Para minha surpresa, Eddie e Angeline também estavam na sala, sentados lado a lado — de mãos dadas?
— Sydney! — ele exclamou. Imediatamente, soltou a mão de Angeline e correu na minha direção, me deixando estupefata com um abraço. — Graças a Deus você está bem. Foi terrível deixar você lá. Não era parte do plano. Era para eu ter levado você Sonya.
— Pois é, então talvez da próxima vez alguém possa me deixar a par do plano — eu disse, em tom acusatório.
Eddie se encolheu.
— Sinto muito por isso. Desculpa mesmo. A gente só...
— Sei, sei. Não acharam que eu concordaria, estavam com medo de que alguma coisa desse errado etc. etc.
— Desculpa.
Não o perdoei inteiramente, mas estava cansada demais para insistir no assunto.
— Só me responde uma coisa — eu disse, baixando a voz. — Você estava de mãos dadas com Angeline?
Ele ficou vermelho, o que parecia um absurdo depois de toda a agressividade que havia demonstrado no complexo.
— É... sim. Só estávamos... conversando. Quer dizer... Acho que vamos sair um dia desses. Não na escola, claro, já que todo mundo lá acha que somos parentes. E acho que não vai ser nada sério. Quer dizer, ela ainda é meio doidinha, mas não é tão terrível quanto eu pensava que fosse. E hoje ela foi incrível na batalha, de verdade. Acho que talvez eu deva tirar da cabeça aquela fantasia com Jill e tentar ter um relacionamento normal. Se você me emprestar seu carro.
Senti meu queixo cair até o chão.
— Claro — respondi. — Longe de mim impedir um novo romance. — Será que eu deveria dizer a ele que, no fim das contas, talvez Jill não fosse uma fantasia tão grande assim? Não queria me intrometer. Eddie merecia ser feliz, mas eu não conseguia não me sentir culpada por ter dito a Jill que ele poderia estar interessado nela. Torci para não ter complicado as coisas ainda mais.
Adrian voltou com uma bolsa de gelo. Sentei numa poltrona e ele me ajudou a colocá-la sobre o tornozelo depois que apoiei o pé num banquinho. O gelo começou a anestesiar a dor e eu relaxei, torcendo para não ter quebrado nada.
— Não é emocionante? — Clarence perguntou. — Finalmente vocês puderam ver os caçadores de vampiros com seus próprios olhos!
Acho que não seria capaz de descrever aquela noite com tanto entusiasmo, mas precisava admitir que ele tinha razão em um ponto.
— O senhor estava certo — eu disse. — Peço desculpas por não ter acreditado antes.
Ele abriu um sorriso complacente.
— Tudo bem, querida. Acho que eu também não teria acreditado num velho lelé da cuca.
Sorri de volta e então me lembrei de uma coisa.
— Sr. Donahue... o senhor disse que, quando encontrou os caçadores antes, um humano chamado Marcus Finch interveio em seu nome.
Clarence assentiu, encantado.
— Sim, sim. Muito bom rapaz aquele Marcus. Queria poder encontrá-lo de novo algum dia.
— Ele era um alquimista? — perguntei. Ao notar a confusão dele, apontei para a minha bochecha. — Ele tinha uma tatuagem como a minha?
— Como a sua? Não, não. Era diferente. É difícil explicar.
Me debrucei, interessada.
— Mas ele tinha uma tatuagem na bochecha?
— Sim. Você viu na foto?
— Que foto?
O olhar de Clarence se distanciou.
— Podia jurar que tinha mostrado algumas fotos antigas, de quando Lee e Tamara eram pequenos... Ah, bons tempos.
Precisei me esforçar para não perder a paciência. Às vezes era difícil manter os momentos de coerência de Clarence estáveis.
— E Marcus? O senhor tem uma foto dele também?
— Claro. Uma muito bonita de nós dois juntos. Qualquer dia eu encontro para mostrar a você.
Queria pedir a ele que me mostrasse naquela hora mesmo, mas a sua casa estava tão amontoada de gente que não parecia o momento certo.
Dimitri chegou logo depois, com os últimos guardiões que haviam ficado no complexo. Imediatamente perguntou sobre Sonya, que, pelo que tinham me falado, estava descansando no quarto. Adrian se ofereceu para cicatrizar os ferimentos dela, mas Sonya estava com clareza de espírito suficiente para recusar, dizendo que só precisava de sangue, repouso e deixar os efeitos das drogas passarem naturalmente.
Depois de se tranquilizar com essa notícia, Dimitri veio falar diretamente comigo, baixando os olhos de sua altura imponente para onde eu estava sentada com minha bolsa de gelo.
— Desculpe — ele disse. — A essa altura, você já deve ter descoberto o que aconteceu.
— Que eu fui enviada para uma situação de risco com metade das informações de que precisava? — perguntei. — Pois é, ouvi dizer.
— Não sou fã de mentiras e meias verdades — ele disse. — Queria que tivesse outro jeito. Nós tínhamos muito pouco tempo, e essa pareceu a melhor alternativa. Ninguém duvidava da sua capacidade de argumentar e ganhar a causa. Era na capacidade dos guerreiros de ouvir e enxergar a razão que não acreditávamos.
— Entendo por que vocês não confiavam no meu plano. — Notei que Adrian, ao meu lado, se encolheu quando eu disse “vocês”. Não quis dizer nada de mais com aquilo, mas percebi como soava condescendente e alquimista, Nós contra Eles. — Mas ainda não consigo acreditar que os alquimistas tenham topado e aceitado me manter por fora da situação.
Não havia mais nenhuma cadeira vazia, então Dimitri simplesmente se sentou no chão, de pernas cruzadas.
— Não sei muito quanto a isso. Como eu disse, foi tudo muito rápido e, quando conversei com Donna Stanton, ela achou que seria mais seguro se você não soubesse o que iria acontecer. Se faz você se sentir melhor, ela foi muito firme em insistir que cuidássemos de sua segurança quando chegássemos lá.
— Talvez — respondi. — Seria melhor se ela tivesse pensado em como eu me sentiria quando descobrisse que não confiaram a mim informações tão importantes.
— Ela pensou, sim — ele replicou, parecendo um pouco incomodado. — Ela disse que você não se importaria, porque entende a importância de não questionar as decisões dos seus superiores e sabe que o que eles fazem é para o bem de todos. Ela chamou você de uma alquimista exemplar.
Não questione. Eles sabem o que é melhor. Não podemos correr nenhum risco.
— Claro que ela disse — falei. Eu nunca questiono nada.

3 comentários:

  1. Aguenta Coraçao!! Quanta Adrenalina amoooo...

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  2. Tô até meio tonta com esse capítulo, e olha que eu nem participei da briga...

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  3. Muito intenso!

    Quando que a Sydney e o Adrian vão dar uns beijinhos hein? ;)

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Boa leitura :)