23 de outubro de 2017

Capítulo 21

Sydney

UMA FORÇA INVISÍVEL JOGOU OS ALQUIMISTAS CONTRA AS PAREDES, e não precisei perguntar para saber que aquilo era obra de Adrian. Senti sua mão nas minhas costas, me empurrando para a frente.
— Venha.
Saímos em disparada pelo saguão, sem olhar para trás, sabendo que os alquimistas não ficariam no chão por muito tempo.
— A gente só precisa chegar ao Lagoa Azul — ele disse.
— É uma piscina ou coisa assim? — perguntei. Era difícil acompanhar seu ritmo com aqueles sapatos e o vestido, e ele me puxou pela mão.
— É um hotel novo. No extremo sul da Strip.
— Extremo sul... — Puxei meu mapa mental da Las Vegas Boulevard. — Fica a quase dois quilômetros daqui!
— Desculpe — ele disse. — Não deu pra evitar. A gente tinha parâmetros bem específicos e eles eram um dos poucos lugares que se encaixavam.
Não pedi uma explicação enquanto chegávamos ao andar de jogos. Normalmente, teria ficado feliz com uma área lotada onde pudéssemos nos misturar, mas Adrian e eu não tínhamos muito como nos camuflar com aquelas roupas. O fato de que estávamos atravessando a multidão e trombando com as pessoas também não ajudava.
— Desculpe — gritei para trás, quando Adrian trombou com uma garçonete que estava levando uma bandeja de bebidas. Elas caíram em algumas pessoas espantadas numa mesa de vinte e um, mas não havia tempo para dizer mais nada. Olhei rápido para trás e não encontrei os alquimistas, mas vi sinais de um tumulto no meio do aglomerado de gente e concluí que nossos perseguidores estavam no nosso encalço.
O andar do cassino era um labirinto para mim, mas Adrian parecia saber aonde estava indo. Logo saímos pela porta da frente do Firenze, na entrada de carros que estava tomada por um tipo diferente de caos. A noite tinha caído e a quantidade de gente ao nosso redor havia aumentado muito. Era o horário em que as pessoas saíam em busca de prazer nos jogos, shows e outras diversões da cidade. Os alquimistas não tinham nos alcançado ainda, e olhamos ao redor tentando descobrir o que fazer.
— Cadê os táxis? — Adrian exclamou.
Um grupo de mulheres, vestidas para impressionar, estava perto de nós. Uma delas estava vestindo uma faixa de despedida de solteira e uma tiara de brilhantes, e o comportamento delas sugeria que já tinham começado a beber em homenagem à noiva. Elas soltaram vários ohs ahs quando nos viram.
— A gente também está esperando um táxi — disse a mulher mais próxima. — Alguns, na verdade.
— Vocês estão com problemas? — outra perguntou.
— Sim — eu disse, pensando rápido. — Fugimos pra casar e meu pai não aprova. Ele e meus parentes estão atrás de nós, tentando fazer a gente anular.
Não era uma mentira tão grande assim e elas exclamaram de emoção. Adrian olhou as integrantes do grupo e disse com a voz melosa:
— Seria ótimo se vocês deixassem a gente pegar esse próximo táxi. — Ergui os olhos e vi um táxi amarelo se aproximando.
Compulsão em massa era difícil, mas a bebida tinha diminuído a força de vontade delas. Na verdade, suspeitei que elas teriam ajudado de qualquer maneira em nome do romance.
Começaram a cochichar sobre amor verdadeiro e a futura noiva apontou para o táxi.
— Vão, vão!
Enquanto entrávamos, os alquimistas abriam as portas de vidro.
— Ei — gritei para as meninas, sacudindo o buquê. — Vão praticando! — Joguei o buquê na direção delas, mirando de propósito por cima e para trás delas, na direção dos alquimistas que estavam saindo. As meninas gritaram de alegria, se virando como uma matilha raivosa para se jogar atrás do buquê e dando de cara com nossos perseguidores espantados. Não vi como essa história se resolveu porque, a essa altura, já estava dentro do carro e Adrian dava ordens para o motorista.
— Vamos torcer pra que essa parte seja simples — Adrian disse, preocupado. — Como eles encontraram a gente?
— Difícil dizer. Talvez os olhos e ouvidos deles tenham nos visto em algum lugar. — Suspirei, desanimada. — Isso é culpa minha. Se eu não tivesse falado aquela bobagem sobre ter um casamento “de verdade”, já estaríamos fora dessa cidade há muito tempo.
Ele passou um braço ao meu redor.
— De jeito nenhum — ele disse. — Estou feliz que a gente tenha feito isso. Eles tiraram muita coisa de nós, mas não podem tirar este dia.
— Pelo menos — eu disse, contrariada —, eu deveria ter previsto que algo assim aconteceria e escolhido um vestido com mais mobilidade. Essa cauda de sereia prende as pernas, mas a moça da loja jurou que, se amarrasse do jeito certo nas costas, iria melhorar minha silhueta.
— Sua silhueta está ótima pra mim — ele disse, passando os dedos pelas pedras na tira do meu ombro.
Sorri para ele, então olhei ao redor, notando uma coisa.
— Por que estamos parados?
O motorista apontou irritado para o para-brisa.
— É típico a essa hora da noite. Todo mundo está indo para algum lugar. Vocês não têm hora marcada na capela, têm?
— Já casamos — Adrian disse.
— Que bom — o motorista disse, avançando alguns centímetros. Encontrei seus olhos no retrovisor. — Porque vocês podem ficar aqui por um bom tempo. O único jeito de escapar é de moto, como aqueles malucos lá atrás.
Adrian e eu nos viramos. Tudo que consegui ver no começo foi um mar de faróis na rua congestionada, mas então, bem para trás, avistei quatro faróis solitários avançando e costurando por entre os carros parados. Adrian, cuja visão era melhor que a minha, fez uma careta.
— Sydney, estou com um mau pressentimento.
— Precisamos sair — eu disse, decidida. — Agora.
Ele não me questionou e simplesmente entregou o valor no taxímetro, para espanto do motorista.
— Estão loucos? A gente está no meio de um milhão de carros!
Isso ficou óbvio quando saímos e tentamos chegar à calçada mais próxima. Buzinas soaram enquanto atravessávamos a Las Vegas Boulevard, mas pelo menos a maioria dos carros estava parada, então não corríamos tanto risco. Na verdade, os únicos veículos que pareciam estar indo a algum lugar eram as quatro motocicletas. Elas continuaram sua trajetória, tentando simplesmente avançar na pista, e pensei que as tínhamos enganado. Mas então, assim que chegamos à calçada, vi uma das motos fazer uma curva abrupta na nossa direção. As outras fizeram o mesmo logo em seguida.
A calçada estava cheia de gente e, assim como na rua, parecia que ninguém estava andando.
— Eles não vão atropelar um monte de pedestres, vão? — Adrian perguntou enquanto cortávamos caminho pela multidão o mais rápido possível.
— Acho que não — respondi —, mas é provável que alcancem a gente bem rápido a pé. E não vão hesitar em abandonar as motos. — Paramos quando um grupo de turistas com câmeras se recusou a abrir espaço, nos forçando a contorná-los. — Por que está todo mundo parado?
— Porque a gente está na frente do Bellagio — disse Adrian, erguendo os olhos para o hotel gigantesco. — Eles devem estar prestes a ligar as fontes. Tenho quase certeza que tem um bonde ou um monotrilho aqui que vai até a Strip. Só precisamos chegar até ele.
— Melhor do que ir a pé — eu disse. Sabia que não apenas meu vestido, mas também meus sapatos, estavam nos atrasando. Pelo menos, tivera o bom senso de recusar os saltos de doze centímetros que a atendente havia sugerido, mas mesmo aqueles mais baixos estavam começando a machucar meus pés.
Decidimos que nosso objetivo era a porta principal do Bellagio, uma meta dificultada pelas multidões eufóricas e cada vez maiores perto das fontes. Precisamos dar uma volta enorme para conseguir avançar, o que também nos distanciou do caminho direto até a porta. Tínhamos acabado de atravessar as fontes quando olhei para trás e vi os quatro alquimistas correndo na nossa direção, se importando muito menos em empurrar as pessoas do que nós.
— Não sabia que os alquimistas tinham recrutas tão musculosos — Adrian comentou.
— Às vezes eles terceirizam seguranças pra...
Minha frase foi cortada pelas exclamações de euforia quando as fontes ganharam vida de repente. As correntes de água subiram centenas de metros no ar e soaram as notas de abertura de “Viva Las Vegas”. Adrian começou a correr novamente, mas eu o contive.
— Espere — eu disse.
Os alquimistas tinham aberto caminho até bem perto das fontes, para a indignação daqueles que estavam esperando fazia mais tempo. O quarteto olhou ao redor, aproveitando o ponto de observação mais elevado para nos procurar. Fiz contato visual com um deles e ele apontou na minha direção. Graças às longas horas de prática direcionando a energia dos elementos, invoquei a magia para controlar a essência da água perto de nós. Os alquimistas tinham dado apenas alguns passos na nossa direção quando fiz um dos jatos da fonte se dobrar, quase como um braço, até eles. Tinha mais facilidade em usar um elemento puro do que antigamente, mas não era nenhuma Moroi usuária de água. Meu controle do jato era desajeitado, e um pouco da água caiu nas pessoas que estavam ao redor dos alquimistas. Cerrei os dentes e concentrei toda a minha magia e energia para dar o máximo de solidez possível ao jato. Ele envolveu os alquimistas e os ergueu no ar, gerando gritos de espanto e flashes de câmeras. A essa altura, a magia já exigia demais de mim, mas atingiu meu objetivo. Eu tinha levado os alquimistas para cima da fonte, e soltei a magia, fazendo com que eles caíssem. Eles tombaram lá dentro, jogando água para todos os lados.
— Uau — disse uma pessoa ao meu lado. — Não tinha isso no show na última vez que vim.
Enquanto eu e Adrian voltávamos correndo para o hotel, a ex-alquimista dentro de mim não pôde deixar de se sentir alarmada com aquela demonstração pública do sobrenatural, ainda mais registrada por tantas câmeras. Aquilo ia contra tudo que haviam me ensinado sobre esconder o mundo paranormal das pessoas comuns, mas tentei me consolar com a ideia de que, pelo menos, ninguém seria capaz de identificar exatamente o que a fonte tinha acabado de fazer. E, se os alquimistas estivessem mesmo preocupados com a reação do público, eu não tinha dúvidas de que conseguiriam inventar uma história para os noticiários.
Entramos no Bellagio sem dificuldades, e tive um segundo para admirar as lindas flores de vidro no saguão enquanto Adrian perguntava a um funcionário como chegar à estação de bonde. O caminho era reto, mas tivemos que sair do hotel de novo. Não tivemos coragem de diminuir a velocidade e fizemos o caminho quase correndo, o que já chamava bastante atenção. Tudo que os alquimistas precisariam fazer quando conseguissem sair da água seria perguntar se alguém tinha visto um noivo e uma noiva correndo por ali. Minha única esperança era que os seguranças os detivessem e que houvesse um bonde na estação quando chegássemos.
Não havia, mas demorou só cinco minutos e ninguém apareceu nesse meio-tempo. Entramos e nos afundamos no banco, exaustos.
— Recupere o fôlego — Adrian disse. — Vamos até o fim da linha.
Assenti, exausta pela corrida e pelo uso intenso de magia. Cruzei as pernas e tirei um dos sapatos para massagear os pés. Uma mulher sentada do outro lado usando tênis de corrida azuis ficou admirando meus sapatos.
— São lindos — ela disse.
— Que número você calça? — perguntei.
— Trinta e seis.
— Eu também. Quer trocar?
Seus olhos se arregalaram.
— Está falando sério?
— Preciso de alguma coisa azul pra completar o visual. — Ergui um sapato branco com adornos de cristal cintilantes. — São da Kate Spade.
Sua amiga a cutucou.
— Troca! — ela murmurou.
Pouco depois, eu estava calçando sapatos novos. Eles podiam não me salvar das bolhas que eu já havia adquirido, mas, quando chegamos ao ponto seguinte, meus pés estavam me agradecendo pela troca. O tule na parte de baixo do vestido caía sobre eles e ninguém conseguia ver o que havia por baixo. Nenhum alquimista estava esperando por nós na saída do bonde e caminhamos quase tranquilamente até o Lagoa Azul. Por cinco minutos, fantasiei que estávamos ali em nossa lua de mel, olhando as paisagens como um casal comum. Essa doce ilusão se desfez quando entramos no saguão do hotel e vimos uma mulher de terno encostada na parede. Ao nos ver, ela se empertigou imediatamente e falou alguma coisa no fone.
— Ela está pedindo reforços — eu disse, notando que a mulher estava nos observando mas não se mexia. — Eles tiveram a tarde inteira pra infiltrar espiões em todos os hotéis enquanto eu me arrumava.
Adrian não se abalou.
— Ignore. A gente está livre pra ir agora. Eles não podem mais nos impedir. — Ele seguiu direto para a recepção e perguntou: — Com licença, pode nos dizer onde fica o heliponto?
Fiquei quase tão surpresa ao ouvir essas palavras quanto o recepcionista.
— Vocês têm autorização pra acessar o heliponto? É uma área de segurança máxima, não fica aberta à maioria dos hóspedes do hotel. — Ele nos examinou, em dúvida. — Vocês são hóspedes?
— Não — Adrian respondeu. — Mas estamos esperando uma, hum, carona lá em cima. A qualquer minuto vai chegar um helicóptero da Academia Olga Dobrova pra nos pegar. — Essa foi outra surpresa. Olga Dobrova era uma escola Moroi pequena e relativamente nova perto da fronteira entre a Califórnia e o norte de Nevada.
O recepcionista digitou alguma coisa no computador.
— Quais são seus nomes? — Dissemos e ele balançou a cabeça. — Desculpe. Vocês não estão na lista de pessoas autorizadas a subir lá.
— Pode dizer pelo menos se ele chegou? — Adrian exclamou. — Ele está aqui por nossa causa!
O homem balançou a cabeça de novo.
— Desculpe, mas não posso ajudar o senhor a menos que consiga autorização. Próximo, por favor.
Adrian fixou os olhos nele.
— Não, você vai...
— Ele disse que não pode te ajudar.
Um homem impaciente numa camiseta do Elvis empurrou Adrian com o ombro para passar, seguido por uma mulher e um grupo de crianças usando a mesma camiseta. Todos começaram a falar ao mesmo tempo, contando uma história sobre o ar-condicionado quebrado em seu quarto. Desanimados, saímos do caminho e notei que a alquimista tinha ido embora.
— O que está acontecendo? — perguntei.
— Planos perfeitos indo por água abaixo — Adrian murmurou. — Esse era o presente de casamento de Jill: nosso plano de fuga de Las Vegas. Ela convenceu Lissa de que eu estava correndo um risco sério e pediu que ela mandasse um helicóptero pra cá, pra levar nós dois para a Dobrova. Depois pegaríamos um dos jatinhos particulares deles de volta pra Corte. Seria uma viagem longa, com todos os reabastecimentos, mas evitaria lugares públicos e outros encontros com os alquimistas. Jill falou que o helicóptero estava programado pra pousar aqui, mas acho que ninguém pensou que, pra chegarmos até ele, precisaríamos de algum tipo de autorização.
Embora ele estivesse falando em “nós”, me perguntei se Lissa sabia que eu estava com ele ou se Jill a convencera a usar os recursos da realeza com base em uma história parcialmente verdadeira sobre a segurança de Adrian.
Adrian logo se reanimou.
— Certo. Não tem problema. Temos dinheiro e compulsão. Assim que a família Elvis sair, a gente fala com o cara de novo e... — Seus olhos varreram o saguão, observando vários empregados em suas tarefas. — Não, deixa pra lá. A gente não precisa dele. Alguém aqui vai abrir a boca e explicar o caminho pro heliponto. Não importa se o hotel acha que a gente não deveria estar lá. O importante é embarcarmos.
Dois empregados pareciam não fazer a menor ideia de onde ficava o heliponto, mas um dos porteiros hesitou e Adrian aproveitou a oportunidade.
— Você não precisa fazer nada — Adrian garantiu. — Só me diga onde fica que te dou cem dólares.
O homem ainda hesitava, balançando a cabeça.
— Vocês nunca vão conseguir chegar lá. O elevador não chega naquele andar na torre Starlight sem o cartão de acesso correto, e acho que ninguém aqui tem esse cartão. Mas...
— Mas? — Adrian repetiu. Ele não estava exatamente usando compulsão, mas sem dúvida parecia muito atraente. Pelo menos para mim.
— Um cartão de hóspede comum leva você pro topo da torre Aurora. De lá, você pode pegar o corredor oeste, onde tem uma porta que dá pro terraço. Desse terraço, teoricamente, dá pra andar pela ponte de manutenção e subir a escada pro heliponto. — Ele olhou para o meu vestido, cético. — Teoricamente.
— Teoricamente funciona pra nós — Adrian disse. — Mas não somos hóspedes. Te dou mais cem se conseguir uma chave de acesso genérica pra gente.
— Fácil — o rapaz disse. — Mas não tenho como te dar uma que destranque a porta pro terraço.
— A gente dá um jeito — eu disse, torcendo para que fosse verdade.
O porteiro cumpriu sua palavra e, alguns minutos depois, nos entregou uma chave eletrônica de hóspedes. Adrian deu o dinheiro para ele e seguimos para o elevador que levava à torre Aurora.
— Quanto a gente ainda tem? — perguntei.
— Não muito — Adrian admitiu. — Uns duzentos dólares. Mas, quando estivermos no voo de volta à Corte, isso não vai importar.
As indicações e a chave deram certo e, em pouco tempo, estávamos na porta que dava para o terraço. Era uma porta de vidro reforçado, dividida em dois painéis, e um aviso alertava que um alarme dispararia se ela fosse aberta.
— Se for aberta — murmurei. — O que será que acontece se a gente tirar um dos painéis de vidro? Acho que conseguimos passar.
— Está pensando em quebrar? — Adrian perguntou. — O Pulinho está na forma de estátua, certo? Talvez a gente consiga quebrar o vidro com ele.
— Estava pensando numa solução mais elegante.
Entre os presentes da sra. Terwilliger, encontrei uma bolsinha de ervas de cheiro forte. Eu as espalhei sobre o painel de vidro inferior, que era maior, e confirmei o feitiço no livro que ela havia mandado. Depois de fazer tanta magia improvisada, um feitiço tradicional, com todos os ingredientes, era praticamente um luxo. Fiz o movimento com as mãos sobre o vidro e entoei as palavras em grego. Momentos depois, o painel começou a derreter feito gelo, pingando até formar uma poça no chão. A poça logo se solidificou, mas a metade inferior da porta estava aberta e exposta ao ar de fora. O melhor de tudo foi que nenhum alarme disparou.
— Não tenho dúvida — Adrian disse. — Casar com você foi um ótimo negócio.
Nos abaixamos para atravessar a abertura e cruzamos o terraço, que era cheio de canos com saídas de ar e placas de manutenção. Felizmente, a passarela que ligava aquela torre à Starlight, que era mais alta, era sólida e firme, mas a escada na lateral do prédio dava medo.
Era preciso subir três andares, o que não era uma distância enorme quando já tínhamos subido vinte, mas estar de vestido sem dúvida complicava as coisas, mesmo com sapatos mais adequados.
Todos os medos que eu podia ter foram varridos quando ouvimos os sons de um helicóptero por perto. Trocamos olhares animados.
— Vá na frente — Adrian disse ao pé da escada, pegando a sacola da minha mão. — Se acontecer alguma coisa, uso o espírito pra te segurar.
Discordei com a cabeça.
— Não, vá você. Vai ter guardiões no helicóptero. É melhor se eles virem um Moroi antes. Acho que consigo invocar magia de ar suficiente se escorregar.
— Acha? — ele perguntou, enfático.
— Não pretendo escorregar.
Ele me beijou e começou a subir. O vento batia ao meu redor enquanto eu observava com expectativa, o corpo tenso enquanto ele fazia o trajeto cuidadoso um degrau por vez. Mas ele não escorregou nem vacilou. Em pouco tempo, chegou ao topo e pisou no terraço mais alto.
Acenou para mim e então deu alguns passos para trás que o tiraram do meu campo de visão. O helicóptero estava fazendo mais barulho e torci para que Adrian estivesse esclarecendo a situação com os guardiões de Dobrova.
Então chegou a minha vez. Meus sapatos novos eram firmes e as restrições do vestido não importavam tanto pois os degraus da escada eram bem próximos um do outro. Aquela escada não tinha sido feita para atrapalhar. Estava lá para os operários da manutenção e fora projetada para ser o mais fácil possível para eles. Minhas dificuldades vinham de outras coisas, como o fato de o vestido e o véu serem soprados pelo vento, e a vertigem que sofri quando cometi o erro de olhar para baixo. Las Vegas se estendia sob mim, com seu espetáculo noturno de luzes cintilantes que era maravilhoso, mas também aterrorizante quando me dei conta da altura em que estava.
Mas também não escorreguei e, depois do que pareceram três horas, cheguei ao terraço e avistei o helicóptero e o heliponto.
E então as coisas ficaram realmente feias.
O helicóptero estava lá, mas não conseguia pousar porque dois alquimistas — ou guardas contratados por eles — estavam parados bloqueando a pista de pouso. Dois outros alquimistas estavam mais perto da escada, com as armas apontadas para mim. Não foi isso, porém, o que me deixou paralisada. O que fez meu coração querer saltar pela boca foi a visão de Adrian, no lado oposto do terraço, de joelhos. Uma arma também estava apontada para ele, tão perto que tocava sua cabeça...
... e era Sheridan que a segurava.
— Estou decepcionada — ela disse, precisando gritar para ser ouvida sobre o barulho do helicóptero. As hélices batiam violentamente e o vento batia contra todos nós. — Se fosse você, estaria a dez estados de distância agora. Em vez disso, a encontro apenas algumas horas depois da última vez que a vi.
Não consegui formular uma resposta nem algum pensamento coerente. Só conseguia olhar para Adrian, com aquela arma apontada para sua cabeça. Nenhuma tortura que havia enfrentado nesses últimos meses havia me causado o mesmo terror que senti ao pensar em perdê-lo. Tudo por que lutei, todas as dificuldades, todas as vitórias... nada disso importaria se alguma coisa acontecesse a ele. Sem ele, não teria tido coragem de me transformar na pessoa que era. Sem ele, não teria descoberto o verdadeiro sentido de viver e de amar a vida.
Centrum permanebit. Ele era meu centro e não havia nada que eu não fosse capaz de fazer, nada que não fosse capaz de entregar, para mantê-lo em segurança.
Ao olhar em seus olhos, soube que ele sentia exatamente o mesmo.
Diante do meu silêncio, Sheridan retomou as provocações.
— Admito que todo esse plano de casamento em Vegas dá uma bela história de amor. Infelizmente também dá uma bela história de idiotice, ainda mais por pedirem a certidão com seus nomes de verdade. Monitoramos agências locais do governo por precaução, mas não achava que vocês iriam se entregar tão facilmente. Claro, reservar uma capela extraoficial foi inteligente. Precisamos ligar pra quase todas na cidade, dizendo que tínhamos um “presente de casamento surpresa” pra vocês. Eles fingiram ignorância no Firenze até que um dos coordenadores lembrou de um colega falando com o seu “marido” ali.
— Deixe Adrian ir — gritei. — Sou eu que vocês querem, não ele.
— Claro — ela respondeu. Seu rosto estava mais macabro do que bonito no estranho jogo de sombras ali em cima, causado pela mistura das luzes do helicóptero e de lâmpadas menores no terraço. — Venha devagar e se entregue para um dos meus agentes que libero seu vampiro.
— A aura dela está cheia de mentiras, Sydney — Adrian berrou. Sheridan pressionou a arma com mais força na sua cabeça e mandou que ele ficasse quieto.
Sabia que mentir era da natureza dela, mas era difícil saber se estava mentindo sobre ferir Adrian. Haveria consequências por matar um Moroi daquele jeito, ainda mais um nobre, e diante de testemunhas. Na porta do helicóptero que nos sobrevoava, avistei uma figura sombria e musculosa, sem dúvida um dos guardiões da Academia Olga Dobrova. Ele não devia saber o que estava acontecendo ali embaixo, mas não tinha dúvidas de que, se soubesse, estaria ao meu lado lutando para salvar Adrian. Eu adoraria o apoio de um guardião, mas se fizesse alguma coisa, Adrian poderia sair ferido caso Sheridan fosse rápida no gatilho. Havia muitas incógnitas e eu precisava tomar controle da situação logo.
Mais magia elemental se acendeu dentro de mim, e juntei o feitiço da bola de fogo com uma improvisação. Uma parede de chamas saiu do chão, se espalhando até formar uma enorme muralha em torno dos dois alquimistas mais perto de mim e dos dois que bloqueavam a pista de pouso. A quantidade de magia necessária para invocar o fogo e para alimentá-lo era assombrosa, e me esforcei para manter o rosto frio, escondendo toda a tensão.
— O que está fazendo? — Sheridan exclamou.
— Oferecendo um acordo — respondi. — Você me entrega Adrian e pode ter seus quatro agentes de volta. Vivos.
Sheridan não se moveu, e sua arma também não, mas sem dúvida havia medo em seu rosto quando seus olhos se voltaram para os alquimistas presos entre as chamas. Eles pareciam ainda mais aterrorizados e não estavam mais apontando as armas. Em vez disso, andavam para trás em direção uns aos outros, tentando se manter longe do fogo. Os que estavam na pista de pouso chegaram a sair dela de tanto medo, andando de costas até estarem quase encostando em seus colegas. Isso me permitiu estreitar o cerco e liberar a pista, mas o helicóptero ainda não tentou descer com as chamas relativamente próximas.
— Eles sabem o risco — Sheridan gritou. — Preferem morrer a deixar que as trevas prevaleçam neste mundo. Estão preparados.
— E você? — perguntei. — Está preparada pra assistir?
Com um movimento da mão, reduzi o círculo de chamas, obrigando os alquimistas a se aglomerar. O círculo mais estreito me ajudava, mas a dificuldade para manter o fogo continuava sendo excruciante. Precisava manter o círculo cerrado o bastante para que os alquimistas sentissem o calor mas não fossem realmente feridos. Ouvir seus gritos de pavor fez meu estômago revirar. Aquilo me trouxe lembranças de tudo que eu havia sofrido na reeducação. Durante quatro meses, minha vida tinha sido cheia de medo e intimidação. Estava cansada de tudo aquilo. Queria paz. Não queria machucar aquelas pessoas. Não queria nem assustá-las. Sheridan tinha me levado àquele ponto e eu a odiava por isso, a odiava por me fazer agir como uma pessoa violenta.
E talvez por me tornar uma pessoa violenta.
— Se matar meus agentes, mato seu marido — ela me disse.
— E então nada vai me impedir de voltar o fogo contra você — retorqui. — Em todos os cenários, eu saio livre. Está disposta a escolher o que resulta em você e seus colegas sendo queimados vivos?
— Você não vai fazer isso — ela disse, mas, mesmo com todo o barulho e caos ao nosso redor, pude sentir sua insegurança.
— Ah, não? — Eu não conseguiria aproximar as chamas ainda mais dos alquimistas sem causar ferimentos, mas consegui fazer as paredes incandescentes crescerem. Os olhos de Sheridan se arregalaram e precisei de muita determinação para agir como se não estivesse ouvindo nem me importando com os gritos de pavor dos alquimistas. — Experimenta, Sheridan! Experimenta pra ver do que sou capaz! Pra ver o que eu não faria por ele!
Com outro gesto, as paredes de fogo ficaram mais altas novamente, causando novos gritos.
A magia estava me deixando tonta, mas mantive o olhar frio enquanto encarava Sheridan. Ela achava que eu era uma criminosa sem coração que havia virado as costas para a humanidade. Acreditava também que eu estava profunda e loucamente apaixonada por um vampiro por quem faria qualquer coisa. Só uma dessas crenças era verdadeira, mas eu precisava convencê-la de ambas.
— Experimenta! — gritei mais uma vez.
— Certo, Sydney, calma. — Sheridan olhou para mim e para os outros alquimistas, que não estavam visíveis atrás do círculo de fogo. — O que quer que eu faça? — ela gritou finalmente.
— Entregue a arma para Adrian — eu disse.
A tensão era avassaladora enquanto ela considerava. Eu estava prestes a perder o controle sobre a magia e tinha medo de que sua indecisão revelasse meu blefe. Mas ela finalmente tirou a arma da cabeça de Adrian e a entregou para ele. Ele a pegou e, sem perder tempo, correu até mim, com o rosto pálido e preocupado.
— Continue apontando a arma pra ela — eu disse. Para Sheridan, ordenei: — Quando eu abaixar o fogo, mande seus homens colocarem as armas no chão e as mãos na cabeça.
Com um alívio que quase me fez cair de joelhos, soltei a magia. As paredes de fogo desapareceram e Sheridan imediatamente gritou os comandos que eu tinha dado. Os alquimistas obedeceram e, depois de desarmados, mandei que fossem até o lado oposto do terraço, onde ela estava. Acima de nós, o helicóptero estava finalmente tentando pousar, agora que o fogo estava apagado.
— Todos vocês, deitem no chão — eu disse para Sheridan e para os outros alquimistas. — E nem pensem em se mexer até o helicóptero estar bem longe. Vamos, Adrian.
Atravessamos o terraço devagar na direção do helicóptero, nos posicionando de maneira a vigiar os alquimistas. Adrian manteve a arma apontada na direção deles, embora eu suspeitasse que não conseguiria atingir nenhum com precisão, mesmo se quisesse. Um guardião que eu não conhecia estava na porta do helicóptero, parecendo confuso, o que era compreensível.
— Como estou feliz em te ver — Adrian disse para ele.
— Fico feliz em ajudar — respondeu o guardião, constrangido. Ele olhou para os alquimistas no chão. — Embora ache que deveria ter feito mais. O que está acontecendo?
— Não se preocupe, você já está fazendo muita coisa — Adrian disse. — A gente pode ir agora?
O guardião apontou para o helicóptero.
— Depois do senhor, lorde Ivashkov. — Ele hesitou. — O senhor é mesmo Adrian Ivashkov, certo?
— Sou eu mesmo — Adrian disse. Ele me puxou para a frente. — E essa é a minha esposa.

2 comentários:

  1. Agora o bicho vai pegar, ou, as coisas vão esquentar.

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  2. Aaah, to muito feliz <3

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