19 de outubro de 2017

Capítulo 21

Adrian

— SYDNEY…
As palavras saíram sonolentas da minha boca quando a senti na cama. Então meu cérebro não conseguiu pensar em mais nada e perdi a voz quando ela se aproximou e me beijou. Eu a envolvi em meus braços e tive a surpresa extremamente agradável de descobrir que ela estava nua.
— O que está acontecendo? — perguntei. — Não que eu esteja reclamando. É só uma curiosidade intelectual.
— Fiz uma coisa meio perigosa — ela disse, nervosa. — Tá bom, não tem nada de “meio” nisso. Foi muito perigosa e, na verdade, bem idiota.
Então, ela começou a me contar uma história inacreditável sobre como Neil tinha convencido Eddie e ela a enfrentar um Strigoi. Tive que me segurar para não repreendê-la furiosamente por ter se arriscado daquela maneira. A lembrança terrível de quando caímos na armadilha de duas Strigoi e uma mordeu Sydney passou pela minha cabeça. Nem conseguia começar a entender como isso foi se repetir.
— Espere. — Eu me sentei enquanto enumerava mentalmente o elenco que ela havia descrito. — Todo mundo estava lá? Jill estava lá?
— Não era parte do plano — ela disse rápido, se sentando ao meu lado. — Isso foi ela e Angeline improvisando. E Trey também, acho.
Imaginar a morte de Sydney era terrível. Mas, de certa forma, imaginar a morte de Jill era ainda pior porque eu já tinha visto acontecer.
— Jill podia ter morrido — eu disse. — Nosso objetivo é mantê-la em segurança!
— Eu sei, eu sei. — Sydney encostou a cabeça no meu ombro. — Realmente não queria que ela fosse. Eddie também ficou bravo, mas não sei como está se sentindo agora, depois que ela deu um beijo nele.
— Depois que ela… o quê? Tá, depois a gente volta para essa parte. Meu Deus, Sydney. Por que não me contou que essas coisas estavam rolando?
— Porque você ia tentar me impedir. Ou ir junto. Acredite… eu sinto muito. Não quero esconder nada de você. Nunca. Quero sinceridade absoluta entre a gente. Só que… Bom, quero mais que você fique em segurança. — Ela me abraçou mais forte. — Não diga que não entende essa lógica.
— Claro que entendo! E sim, eu tentaria impedir você. Caramba, Sydney! — Segurei as mãos dela e fiquei surpreso ao ver que as minhas estavam tremendo. Imagens terríveis e sangrentas não paravam de passar pela minha cabeça. — Não é a mesma coisa que fugir pra tomar chá com as bruxas! É uma questão de vida ou morte. Se você morresse… se me deixasse…
— Eu sei — ela murmurou. — Eu sei.
De repente, seus braços me envolveram e sua boca comprimiu a minha em um beijo intenso que afastou todos os outros pensamentos enquanto ela me deitava de volta na cama. Havia uma urgência e uma intensidade queimando entre nós que eu nunca havia sentido antes, o que era impressionante, considerando nossa vida sexual ativa nos últimos tempos. Talvez fosse a proximidade da morte que nos levava a provar que estávamos vivos com tanta ferocidade. Tudo que eu sabia era que precisava dela, que precisava me perder na paixão e me aproximar o máximo possível dela… para que nunca a perdesse de novo.
Ela continuou me beijando intensamente, até que seus lábios rasparam de leve nos meus dentes. Foram apenas algumas gotas, mas, quando o gosto doce e metálico do sangue chegou à minha língua, um êxtase avassalador me preencheu. Ela se afastou sem fôlego e, ao olhá-la sob a luz tênue do quarto, pude ver o mesmo arrebatamento em seu rosto à medida que o toque sutil das endorfinas Moroi atingia sua corrente sanguínea. Seus lábios se abriram; seus olhos estavam arregalados de desejo. Soube então, sem sombra de dúvida, que ela deixaria que eu enfiasse as presas na sua garganta. Poderia ter seu sangue e seu corpo naquela noite se quisesse. E eu queria. O gosto do sangue me deixou maluco e faminto, não apenas por ser sangue, mas por ser o sangue dela. A essência dela. Eu ansiava por esse tipo de união absoluta com ela, por não ter mais nenhum limite entre nós, por vê-la se perder no prazer da onda de endorfinas. Ela teria deixado que eu fizesse de tudo. Talvez até quisesse… ou, pelo menos, a Sydney que sem querer sentiu o barato das endorfinas poderia querer. O problema era que eu não sabia ao certo se a Sydney de sempre, ainda que me amasse, faria a mesma escolha. E, até que eu tivesse certeza, aquele era um limite que não cruzaríamos, por mais que esse simples pensamento me deixasse maluco.
Ela me encarou por mais alguns segundos tensos, enquanto cada um de nós combatia seus próprios conflitos internos. Então, o momento de tentação passou e retomamos o beijo como se nada tivesse acontecido, com um ardor que destruiu a memória de seu sangue. Eu estava à deriva em um mar de desejo, me afundando em seus braços. A paixão de Sydney respondia à minha enquanto ela murmurava meu nome e se agarrava a mim com tanta força que suas unhas se cravaram na minha pele, como se ela tivesse medo de me perder caso me soltasse.
Depois, ela caiu ao meu lado, ainda se segurando em mim enquanto sua respiração ofegante voltava ao normal. Coloquei o braço em torno dela, sentindo meu coração bater freneticamente pelo que tinha acabado de acontecer. Eu não estava mais bravo — era difícil ficar depois uma transa como aquela. Estava mais assustado pelo fato de ela ter ficado tão perto da morte. Mas ela estava viva. Repeti isso diversas vezes enquanto a segurava firme. Ela estava viva e protegida em meus braços. Não iria a lugar nenhum.
E, para ser sincero, precisava admitir que entendia a lógica para ter guardado aquele segredo de mim. Não gostava, mas entendia. Se fosse o contrário, eu teria feito o mesmo para protegê-la. Além disso, eu não podia julgá-la porque também havia mantido segredo quando começara a tomar o estabilizador de humor.
A última parte importante naquilo tudo era que o risco valera a pena. Os resultados eram inegáveis. O sangue de Olive havia funcionado. De alguma forma, em meio a nossas tentativas e conjecturas, havíamos criado uma vacina mágica contra os Strigoi. Se ao menos houvesse um jeito de fazer uma réplica…
— Sabe — eu disse, pensando sobre o que ela contara da aventura —, Angeline e Neil realmente arrasaram. Nunca mais vou zoar os dois.
— Nunca? — Sydney ironizou.
— Bom, não vou zoar tanto, pelo menos.
— Eddie também “arrasou” — ela me disse.
— Sim, eu sei, mas esse é o normal dele. — Então, lembrei do que ela havia dito antes. — Espere. Você disse que Jill deu um beijo nele?
— Sim. Na verdade, foi bem romântico, como se ela dissesse: “Por que você arriscou sua vida, seu tonto?”. — Ela pensou um pouco. — Meio como acabou de acontecer entre a gente.
— É melhor que não tenha sido — resmunguei.
— Certo. Vamos só dizer que as motivações foram mais ou menos parecidas — ela corrigiu. Soltei um suspiro, fazendo uma nota mental para ter uma conversinha com Jill no dia seguinte. — Já que todo mundo está vivo, admito que essa história foi importante. O pessoal na corte vai pirar.
— E amanhã à noite vamos ver Marcus e entregar a outra coisa importante — ela lembrou. — Talvez seja tão maluco que dê certo.
— Sempre é — eu disse. Passei os dedos pelo ombro dela, que estava úmido de suor. Quando subi para o pescoço, meus dedos encontraram uma fina corrente de metal, e descobri que ela não havia tirado tudo. Ainda estava usando a cruz de madeira com glórias-da-manhã que eu tinha feito para ela e, não sei por quê, isso a deixava ainda mais atraente do que se estivesse completamente nua. — Plano de fuga nº45. — Entrar para uma colônia de nudismo nas ilhas Fiji.
— Tem dessas nas ilhas Fiji?
— Bom, tem que ser num lugar quente, né?
Eu ainda sentia o pânico de perdê-la, quase o bastante para me levar a outra consumação física. Mas, deitados ali, conversando no meio da noite, foram nossa mente e nosso espírito que acabaram se unindo.
Havia paz e felicidade no nosso abraço, e o equilíbrio que trazíamos à vida um do outro permitiu que eu caísse em um sono mais profundo do que havia muito tempo não sentia.
Eu não sabia que perguntas ela enfrentaria no dia seguinte. A desculpa da sra. Terwilliger já havia ajudado muito, mas sem dúvida Zoe estranharia que Sydney tivesse passado a noite fora. Talvez Sydney dissesse que tinha ficado acordada até tão tarde que acabou dormindo no sofá de Jackie. Enfim, na manhã seguinte pude ver pela determinação em seu rosto que ela resolveria o problema. Essa batalha era dela, não minha.
Ela vasculhou os ingredientes que Cassie havia deixado e encontrou o bastante para fazer panquecas para a gente. Não havia mel em casa, mas encontramos geleia de framboesa. Passamos um monte nas panquecas e foi a melhor coisa que eu já havia comido na vida. Sentados à mesa da cozinha, com as panquecas e o café, enquanto Sydney lia as notícias no celular e eu folheava o livro de poesia, tive certeza que poderia passar o resto da vida assim.
— Plano de fuga nº73 — eu disse. — Abrir um restaurante de panquecas na Suécia.
— Por que na Suécia?
— Porque eles não têm panquecas lá.
— Na verdade, têm sim.
— Viu, você já conhece o mercado.
Deixá-la em Amberwood foi um pouco triste, especialmente porque quebrava o encanto em que estávamos desde a noite anterior. Mas ambos tínhamos coisas para fazer e eu a veria mais tarde.
— Sabia que amo você? — A vontade de dar um beijo de despedida era tão grande que quase quebrei nossas regras.
Ela sorriu, linda e radiante sob a luz do fim da manhã.
— Não tanto quanto te amo.
— Ai, caramba. É um sonho realizado: ter um debate sobre quem ama o outro mais. Eu começo. Eu amo mais. Sua vez.
Sydney riu e abriu a porta do carro.
— Eu fiz aulas de debate. Você perderia contra minha lógica. Vejo você à noite.
Fiquei olhando enquanto ela se afastava e não fui embora até ela desaparecer dentro do prédio.
Recebi uma mensagem assim que entrei em casa. Por um momento, achei que fosse o Celular do Amor, mas então lembrei que eu era um idiota e tinha perdido o aparelho. Quando ligara para o café aonde tinha ido, me falaram que eles tinham alguns celulares na seção de achados e perdidos, e eu estava pensando em passar lá mais tarde. Enquanto isso, a mensagem no meu celular normal era de Lissa: Ligue o laptop. A gente precisa conversar cara a cara.
Eu tinha uma boa ideia do motivo e, quando nos conectamos, seu rosto radiante confirmou a minha suspeita.
— Ficou sabendo? — ela perguntou, eufórica.
— Sobre a viagem perigosa e completamente desautorizada que as crianças fizeram ontem à noite? Sim, fiquei.
Lissa ignorou o sarcasmo.
— Adrian! Isso é muito importante. É incrível. Um sonho transformado em realidade. Sei que eles não deviam ter ido sozinhos, mas já passou, eles estão a salvo e agora temos uma resposta.
— Eu sei.
Ela me lançou um olhar confuso.
— Você está surpreendentemente calmo sobre isso.
— Descobri ontem à noite. Tive bastante tempo pra processar. — Além disso, a ideia de que Sydney havia arriscado a vida diminuía um pouco o aspecto incrível da aventura aos meus olhos.
— Sabe o papel enorme que teve nisso, né? — Aqueles olhos verdes estavam cintilantes. — Descobriu o que ninguém mais tinha conseguido. Devemos tudo isso a você.
Encolhi os ombros.
— Vocês são espertas. Qualquer uma de vocês teria descoberto.
— Mas foi você quem descobriu. Agora a gente tem que encontrar um jeito mais eficiente de fazer isso, que não envolva a restauração de um Strigoi. — O entusiasmo dela vacilou. — Gostaria…
— Eu sei — respondi. Imaginava o que ela ia dizer. — Mas não posso, Lissa. Vou continuar com os remédios.
Ela assentiu, resignada.
— Imaginei. E é errado da minha parte pedir uma coisa dessas. Você parece bem, sabia? E não me diga que está sempre bem. Tem alguma coisa diferente em você. Uma luz. Uma felicidade. Não sei.
— Ei, nem tudo são flores por aqui. Dia desses eu estava ouvindo The Wall. Cara, tenho várias opiniões sobre esse disco…
— Talvez outra hora — ela disse, abrindo um sorriso. — E, por enquanto, acho que você pode servir de conselheiro. Charlotte e eu trouxemos Strigoi de volta. Sonya foi restaurada. E você e eu trouxemos mortos de volta à vida.
— É um excelente currículo, Vossa Alteza.
— Entendeu o que eu quis dizer. Todos nós fizemos e vimos coisas suficientes para dar um jeito de isso funcionar. Não vamos deixar o espírito acabar com a gente. — A felicidade dela voltou. — Não quero glória e fama, Adrian, mas queria deixar algum tipo de legado. Pode ser isso. Não quero ser uma daquelas monarcas que “só reinou”. Quero fazer alguma coisa pelo meu povo.
— Você vai fazer muita coisa por nós, prima. Aliás, vai arrumar aquela lei da idade? E do quórum familiar?
— Pois é. — Ela ficou mais séria. — Aí é que está… ia contar para você depois. O conselho está prestes a votar sobre a regra de um parente e, pelo visto, temos todos os votos necessários.
— Caralho — eu disse, sem conseguir me conter. — Se passar… Jill estará em segurança. Poderá deixar Palm Springs.
O que significava que Sydney também teria que partir.
— Eu sei. E vai passar. Tenho certeza.
O mundo como eu conhecia mudou de repente.
— O que vai acontecer com ela?
— Ela vai poder voltar para a corte, frequentar a escola aqui, aprender as coisas da realeza. Tenho certeza de que vai querer ver a mãe dela também. — Lissa hesitou. — E gostaria de conhecer minha irmã melhor. Sei que vocês acham que a tratei mal.
— Você fez o que era preciso — respondi, o que não era nem uma concordância nem uma negação. As circunstâncias colocaram as duas em posições muito difíceis.
— Enfim, pode contar a novidade para ela, mas, fora isso, tente guardar segredo até a votação. Quando estiver tudo certo, a gente pode espalhar para o mundo.
Fiz que sim.
— Como Vossa Majestade mandar. — Percebi que ela estava prestes a desligar. — Ah, sua cara-metade mais feia está por aí? Preciso pedir uma coisa pra ele.
Um brilho de surpresa surgiu em seus olhos. Christian e eu não éramos muito amigos nos últimos tempos.
— Claro. Na verdade, ele está bem aqui. — Eu a vi se levantar e sair e, um segundo depois, Christian apareceu na tela com seu sorriso sarcástico de sempre.
— E aí? — ele perguntou. — Está querendo dicas pra arrumar o cabelo?
Perdi a voz por um segundo. A tia Tatiana podia não assombrar mais meus dias, mas viveria eternamente nas minhas lembranças. Todos os Ozera tinham uma forte semelhança física e, ao olhar para Christian, com seu cabelo negro e olhos azuis, vi sua tia, Tasha Ozera, na minha frente. O velho pânico e a antiga tristeza começaram a surgir dentro de mim, e, devagar, com cuidado, afastei esses sentimentos.
O que acontecera não tinha sido culpa de Christian. Éramos amigos. Eu conseguia lidar com aquilo.
— Dicas que você roubou de mim? Não, obrigado. Mas ouvi dizer que tem uma ótima receita de bolo de carne com bacon.
Valeu a pena ver a surpresa no rosto dele.
— Desde quando você cozinha? — ele finalmente conseguiu balbuciar.
— Ah, sabe. Sou um homem renascentista. Faço de tudo. Se tiver, me manda e tento fazer. Aviso se fizer alguma melhoria.
Ele reabriu o sorriso sarcástico.
— Está tentando impressionar uma garota?
— Cozinhando? — Apontei para o meu rosto. — Só preciso disso aqui, Ozera.
Quando finalizei a baboseira real, liguei para Jill. Queria dar a notícia sobre a lei pessoalmente. Teria gostado de levá-la para algum lugar, mas um dos dampiros teria insistido em ir também. Não estava a fim de um acompanhante, então combinamos de nos encontrar na escola para um piquenique entre “irmãos”. Estava um dia bonito e eu ainda tinha dois cupcakes. Pulinho tinha comido a maior parte naquela manhã antes de Sydney transformá-lo em pedra e levá-lo com ela para passarem um tempo juntos.
— Não acredito que foi você quem fez — Jill disse, entre uma mordida e outra, quando nos encontramos. Outra vantagem do fim do laço era que eu podia exagerar meu papel na cozinha.
— Não acredito que você entrou numa caçada improvisada a um Strigoi sem me contar — eu disse, cortante.
Ela suspirou.
— Eu ia contar, mas não tive tempo. Aconteceu tudo tão rápido. Num minuto era uma corrida, no outro estávamos no meio da ação.
— Sim. Fiquei sabendo disso também… de como você teve “um pouco de ação”.
Suas bochechas ficaram vermelhas.
— Não foi bem assim. Foi só um beijo. E depois a gente conversou. Mais ou menos. Ele disse que “precisava pensar”. Seja lá o que isso quer dizer. — Ela soltou outro suspiro, mas apaixonado dessa vez. — Ele não deve ter gostado do beijo e provavelmente está tentando encontrar um jeito de me dar um fora sem me magoar.
— Ele retribuiu o beijo? — perguntei.
— Sim, mas acho que o peguei de surpresa.
— Belezinha, ele é um guardião. Nunca é pego de surpresa. — Observei divertido o sorriso que ela abriu. — Já passou da hora de você ter seu próprio romance — acrescentei. — Em vez de ficar espiando o meu.
O sorriso se alargou de orelha a orelha.
— Sinto falta de fazer parte dele — ela disse. — Parece pervertido, mas não é. Eu não gostava da parte voyeur, mas era incrível sentir todo aquele amor.
— Tenha paciência. Sua hora vai chegar. — O sol ainda estava forte, mas estávamos na sombra, e me deitei no lençol que havia levado. — Contanto que não chegue no meio de outras batalhas mortais contra Strigoi, o.k.?
— Aquilo foi perigoso — ela admitiu. — Não só pra mim, mas também para o reinado de Lissa… Sei as consequências que minha morte teria.
Voltei a sentar.
— Por falar nisso…
Contei a novidade para Jill, que em breve ela poderia sair da lista de mais procurados dos inimigos de Lissa. Contei que ela poderia levar uma vida normal — ou o mais normal possível, considerando que era uma princesa cuja meia-irmã era a rainha de uma nação. Os olhos dela se arregalaram tanto que achei que não haveria espaço para eles no rosto dela.
— Eu poderia ver minha mãe… — Ela conteve as lágrimas. — Me acostumei a ficar aqui… mas sinto tanta falta dela. Queria ver minha mãe de novo.
Afaguei seu ombro, me recusando a demonstrar que ela não era a única sentindo falta da mãe. Então ela deixou esses sentimentos de lado.
— O que vai acontecer com os outros se eu for embora? Todo mundo vai ir também, né? Pra novas missões?
— Acho que sim. Não teriam por que ficar.
— Sydney também iria embora — Jill se deu conta.
Fiz que sim. Tinha pensado nisso quando Lissa me contou.
— O que você vai fazer?
— Não sei — respondi sinceramente. — Vim pra cá por sua causa. E ainda quero ajudar, você sabe disso. Mas será que preciso ficar por perto agora que não temos mais o laço? E como vou seguir Sydney para a próxima missão dela? Agora a gente tem a desculpa do trabalho pra se ver. Se eu desse a volta ao mundo atrás dela… Enfim, não teria como explicar.
— Ela poderia sair dos alquimistas. Marcus saiu. — A compaixão nos olhos dela me deixou emocionado. — Vocês poderiam ir para algum lugar. Continuam fazendo planos de fuga?
Virgínia Ocidental. Roma. New Orleans. Ilhas Fiji. Suécia.
— Não passam de brincadeiras — eu disse, me sentindo triste por motivos que não conseguia explicar. — Preciso conversar com ela sobre isso. Ela nem sabe da notícia e a votação ainda nem aconteceu.
Mas antes precisávamos entregar a tinta para Marcus. Mandei uma mensagem para Sydney quando voltei para casa, tomando cuidado com as palavras, já que não tinha mais o Celular do Amor. Tudo em pé? Ela logo respondeu: Por mim, sim.
O dia demorou para passar, principalmente porque eu estava com saudades e queria vê-la. Fiz alguns trabalhos e fui até o café, onde me decepcionei ao descobrir que meu celular não havia aparecido. Minha última esperança era que alguém o tivesse encontrado numa sala de aula e entregado para os seguranças da Carlton. Senão, precisaríamos de novos Celulares do Amor.
Quando fui para a casa de Jackie depois, foi Marcus quem abriu a porta, acompanhado por dois caras que eu não conhecia. Os dois tinham tatuagens de lírio na bochecha, sem o selo azul. Fiquei me perguntando se eram as cobaias dele.
— Adrian — Marcus disse, dando um passo à frente para apertar minha mão.
— Marcus — retribuí. Era difícil acreditar que havíamos chegado àquele ponto considerando que eu tinha tentado dar um soco na cara dele um minuto depois de nos conhecermos.
— Esses são Jamie e Chad. Acabei de buscar os dois no Novo México.
Apertei a mão deles também, e Jackie entrou na sala. Abri um sorriso, contente de verdade por vê-la.
— Sempre um prazer. — Ela colocou uma bandeja de chá e limonada na mesa, e me deu um beijo no rosto.
— Não vai encontrar o namorado hoje? — perguntei.
Seus olhos brilharam de alegria.
— Bom, não posso sair quando vou ser anfitriã de uma reunião clandestina, não é? Fique tranquilo, vou dar toda a privacidade a vocês. E, se está preocupado com meu relacionamento com Wolfe, fique tranquilo também porque a gente vai sair mais tarde e as coisas estão indo maravilhosamente bem entre nós.
— Não estou preocupado. No máximo, confuso e um pouco perturbado. Mas não é nenhuma surpresa as coisas estarem dando certo. Aposto que você faz Wolfe comer na palma da sua mão, sua destruidora de corações.
Ela riu.
— Ai, Adrian, que bom que Sydney mantém você por perto como entretenimento.
— Só pode ser por isso mesmo — Marcus ironizou, agradecendo com a cabeça ao aceitar um copo de limonada. — E, por falar nela… estou surpreso por não ter chegado uma hora adiantada.
Olhei para o relógio. Na verdade, ainda faltavam cinco minutos para o horário marcado.
— Até um mês atrás ela chegaria. Mas agora a irmã dela foi mandada pra cá e a vida está um pouco mais… difícil.
Marcus arqueou a sobrancelha.
— Ah, é? Pode falar mais?
Jackie pegou um gato malhado.
— Acho que é a minha deixa para sair. Podem me chamar se precisarem de alguma coisa, e mandem Sydney ir me cumprimentar antes de ir embora.
Sentei na sala com Marcus e seus Vingadores. Escolhi um lugar estratégico, ocupando o sofá de dois lugares para que ninguém sentasse lá até que Sydney chegasse. Quer dizer, pelo menos nenhum outro ser humano. Assim que me acomodei, três gatos pularam no sofá e se deitaram confortavelmente ao meu lado.
— Recrutaram a irmã de Sydney — expliquei para Marcus. — E trouxeram a menina para a missão de Amberwood. Ela tem muita coisa para provar e está desconfiada das atividades de Sydney. Fica questionando quando Sydney passa muito tempo fora ou parece simpática demais com os Moroi.
O rosto de Marcus foi ficando mais grave enquanto eu falava.
— Avisei Sydney. Falei que isso poderia acontecer. Ela devia ter fugido comigo.
Apontei para o balde de tinta que Jackie tinha trazido.
— Se ela tivesse ido, não teria feito isso. Ela pode ter mudado toda a maneira como você trabalha, Robin Hood. Tinta que rompe o controle alquimista para sempre e que eles não podem ver? Você pode colocar agentes duplos em toda parte.
— Eu sei. — Ele lançou um olhar para Jamie e Chad, que estavam admirando seu líder, extasiados. — E, acredite, pensei sobre isso. Mas é muito perigoso. Os alquimistas são bons em descobrir traidores.
— Ela também é boa — eu disse, com firmeza.
— Eu sei. Mas, como falei pra ela antes, ninguém consegue ser bom a toda hora. Em algum momento, acaba cometendo um deslize. Pequenas coisas. Pequenas migalhas.
Mantive a expressão indiferente e fingi estar interessado no gato malhado que ronronava no meu colo, mas, por dentro, a apreensão tomou conta. Pequenas coisas. Como sexo no carro. Ou passar a noite em casa. Ou me buscar em uma loja de penhores. Qualquer coisa que um espião dos alquimistas pudesse descobrir. Tínhamos entrado nessa bem preparados, mas Marcus tinha razão. Fomos ficando cada vez mais descuidados. Quando levantei a cabeça, ele estava me examinando com os olhos azuis brilhantes.
Poderia até não saber dos detalhes, mas sabia em que eu estava pensando: ela havia cometido algum deslize.
— Você conseguiria levar Sydney daqui? — perguntei. — Se ela quisesse?
Ele assentiu.
— Acho que sim.
— Para onde? — Virgínia Ocidental. Roma. New Orleans.
— Ainda não sei. Para algum lugar onde ela pudesse ser útil, mas ficasse a salvo. — Marcus caiu em silêncio por alguns momentos e pude notar que realmente se preocupava com ela e com todos os outros recrutas. — Ela iria?
— Ela vai — eu disse, com firmeza, sem deixar transparecer como seria difícil convencê-la a fugir. E eu vou com ela.
Marcus mergulhou em seus próprios pensamentos por alguns segundos e depois olhou para o celular.
— Onde ela está? Estou louco para saber mais sobre essa tinta.
Também olhei para o relógio. Ela estava quinze minutos atrasada. Eu não conseguia me lembrar de nenhuma vez em que Sydney tivesse chegado atrasada na vida. Pegando o celular, tentei pensar em uma mensagem neutra e escrevi: Está tudo certo no mundo? Como ela não respondeu imediatamente, tomei como um bom sinal.
— Ela deve estar a caminho — expliquei para Marcus. — Não manda mensagem enquanto dirige.
Ele quis saber mais sobre a tinta, então dei um resumo muito vago que não mencionava a magia de Sydney. Não lembrava dos detalhes geológicos, mas foi o suficiente para deixar Marcus intrigado, assim como a notícia sobre a “vacina contra Strigoi”. Imaginei que não seria um segredo por muito tempo, e Marcus também não era nenhum amiguinho dos mortos-vivos.
Quando passaram mais quinze minutos, comecei a ficar preocupado. Quebrei o silêncio e liguei para ela, sabendo que ela atenderia por viva-voz. Em vez disso, fui mandado para a caixa postal. Os olhos aguçados de Marcus me observaram.
— Adrian, o que está acontecendo? — ele perguntou.
— Não s… Pronto.
Um carro estacionou na entrada. Quase imediatamente, ouvimos a porta ser batida com força e, em seguida, batidas fortes e frenéticas na porta de Jackie. Fiquei um pouco surpreso por Sydney não ter simplesmente entrado. Jackie apareceu no meio da confusão, mas abri a porta antes…
… e dei de cara com Eddie.
Suas roupas estavam sujas e esfarrapadas, e o lado direito do seu rosto estava vermelho e inchado. Ele estava com um olhar agitado e quase insano que nunca tinha visto antes. Uma sensação terrível tomou conta de mim, e a escuridão, o desespero e o medo que vinham me deixando em paz nos últimos tempos começaram a surgir no meu peito. Soube, antes mesmo que Eddie dissesse uma palavra, o que tinha acontecido. Soube por causa do sofrimento em seu rosto, um sofrimento como o que eu vira nele quando não conseguira salvar Mason. Soube porque tive a impressão de que meu rosto refletia a mesma coisa.
— Qual é o problema? — Jackie exclamou.
Mas os olhos de Eddie estavam voltados apenas para mim.
— Adrian — ele disse, sem fôlego. — Eu tentei, juro que tentei. Mas eram muitos. Não consegui impedir. — Ele deu um passo à frente e me segurou pelo braço. — Eu tentei, mas pegaram Sydney. Foi uma armadilha. Não sei onde ela está. Ela me enganou, caramba! Eu nunca a teria deixado se ela não tivesse me enganado!
Ele enfiou a mão livre no bolso do casaco e tirou um dragãozinho dourado. Ele o ofereceu para mim, mas não consegui pegá-lo.
Marcus havia se juntado a nós.
— Do que vocês estão falando? O que aconteceu?
Fechei os olhos por um segundo. Eu ainda não sabia dos detalhes, mas sabia o resultado final.
— Tudo se despedaçou — eu disse, finalmente pegando o dragão. — O centro não aguentou.

Um comentário:

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