13 de outubro de 2017

Capítulo 21

UMA PARTE DE MIM QUERIA muito que aquilo fosse mentira. Assisti ao vídeo mais três vezes, criando teorias malucas. Talvez mestre Jameson tivesse um irmão gêmeo que não fosse um fanático que odiava vampiros. Mas não. O vídeo não mentia. Quem mentia eram os alquimistas.
Eu não podia ignorar aquilo. Não podia esperar mais. Precisava resolver esse assunto imediatamente, se não antes.
Enviei uma mensagem para Marcus assim que o avião pousou: Vamos nos encontrar hoje. Sem joguinhos. Sem rodeios. HOJE.
Quando cheguei ao alojamento, ele ainda não havia respondido. O que será que estava fazendo? Relendo O apanhador no campo de centeio? Se eu soubesse em que buraco ele estava metido, teria ido para lá na mesma hora. Não havia nada a fazer além de esperar, então liguei para a sra. Terwilliger, tanto para me distrair como para conseguir um pouco de liberdade.
— Nenhuma novidade — ela me disse quando atendeu. — Ainda estamos observando e esperando... mas seu segundo amuleto está quase pronto.
— Não foi por isso que liguei — eu disse. — Preciso que a senhora me consiga uma extensão do toque de recolher hoje. — Eu me sentia mal por usar minha professora para algo totalmente não relacionado à busca por Veronica, mas precisava falar com Marcus.
— Ah, é? Vai me fazer uma visita surpresa?
— Hum... não. É pra outra coisa.
Ela viu graça naquilo.
— Agora você usa minha assistência para assuntos pessoais?
— Não acha que fiz por merecer? — repliquei.
A sra. Terwilliger riu, algo que eu não a ouvia fazer havia muito tempo. Ela aceitou meu pedido e prometeu ligar para a recepção do alojamento imediatamente. Assim que desligamos, meu telefone tocou com a resposta de Marcus. Tudo o que a mensagem continha era um endereço que ficava a meia hora de distância. Imaginando que ele estaria pronto para me atender, apanhei minha bolsa e peguei a estrada.
Considerando meus últimos encontros com Marcus, não teria ficado surpresa se ele me levasse a uma loja de departamentos ou a um bar de karaokê. Em vez disso, me deparei com uma antiga loja de música, do tipo que vendia discos de vinil. Na porta, estava pendurada uma grande placa em que se lia “FECHADO”, o que era reforçado pelas janelas escuras e pelo estacionamento vazio. Saí do carro e confirmei o endereço, me perguntando se o GPS havia me levado para o lugar errado. Minha ansiedade de antes deu lugar ao nervosismo. Como eu estava sendo descuidada! Uma das primeiras lições de Wolfe era evitar lugares perigosos e, no entanto, ali estava eu, me colocando em risco.
Então, do meio das sombras, ouvi alguém sussurrar meu nome. Me virei na direção do som e vi Sabrina surgir em meio à escuridão, portando uma arma, como sempre.
Talvez, se mostrasse para ela o revólver no meu porta-luvas, pudéssemos ter um momento de afinidade.
— Vá para os fundos — ela disse. — Bata na porta. — Sem dizer outra palavra, ela voltou para as sombras.
A entrada dos fundos parecia o tipo de lugar em que as pessoas pediam para ser roubadas, e fiquei me perguntando se Sabrina viria em meu socorro se fosse preciso. Bati na porta, quase esperando que me pedissem uma senha do tipo “iguana enferrujada”, como em uma sociedade secreta. Em vez disso, Marcus abriu a porta, já com um daqueles sorrisos com que sempre esperava me conquistar. Por mais estranho que parecesse, naquela noite me deixou mais à vontade.
— Oi, linda. Pode entrar.
Passei por ele e vi que estávamos no quartinho dos fundos da loja, cheio de mesas, prateleiras e caixas de discos e fitas cassetes. Wade e Amelia estavam encostados na parede na mesma posição, com os braços cruzados.
Marcus trancou a porta atrás de nós.
— Bom ver você inteira. Pela sua mensagem e pela sua cara, você encontrou alguma coisa.
A raiva que eu vinha guardando desde a minha descoberta explodiu com tudo. Peguei o laptop da bolsa e resisti à vontade de batê-lo com força em cima da mesa.
— Sim! Não consigo acreditar. Vocês tinham razão. Sua teoria mirabolante estava certa. Os alquimistas estão mentindo! Enfim, alguns deles, pelo menos. Sei lá. Metade não sabe o que a outra metade está fazendo.
Pensei que Marcus fosse fazer algum comentário presunçoso ou, pelo menos, soltar um “eu avisei”. Mas seu rosto bonito estava triste e amargurado, o que me lembrou da foto que eu tinha visto dele e de Clarence.
— Droga — ele disse baixinho. — Estava torcendo pra você voltar com um monte de vídeos chatos. Amelia, troque de posição com Sabrina. Quero que ela veja isso.
Amelia pareceu decepcionada por ser mandada embora, mas não hesitou em obedecer à ordem. Quando Sabrina voltou, eu estava com o vídeo preparado no tempo certo. Eles se reuniram ao meu redor.
— Prontos? — perguntei. Eles assentiram, e pude ver o misto de emoções dentro de cada um. Ali estava a evidência da teoria da conspiração que eles tanto queriam provar. Ao mesmo tempo, as implicações eram arrasadoras, e os três entendiam muito bem o perigo potencial daquilo que estavam prestes a ver.
Comecei o vídeo. Durava apenas alguns segundos, mas eram segundos fortes em que a figura barbada surgia na tela. Ouvi Sabrina respirar fundo.
— É ele. Mestre Jameson. — Ela olhou para cada um de nós. — Esse lugar é mesmo alquimista? Ele esteve mesmo lá?
— Sim — Wade respondeu. — E quem está com ele é Dale Hawthorne, um dos diretores.
Isso ativou minha memória.
— Conheço esse nome. Ele tem o mesmo cargo de Stanton, não é?
— Mais ou menos.
— É possível que ela não saiba de uma visita como essa? — perguntei. — Mesmo na posição dela?
Quem respondeu foi Marcus.
— Talvez. Mas levar um guerreiro ali, mesmo num andar de segurança máxima, é muita coragem. Mesmo que ela não saiba da reunião, pode apostar que outras pessoas sabem. Se fosse completamente secreto, Hawthorne teria encontrado o mestre em outro lugar. Claro, a lista protegida também significa que não era uma coisa a que todo mundo tinha acesso.
Então era possível que Stanton não tivesse mentido para mim... pelo menos não sobre o fato de que os alquimistas estavam em contato com os guerreiros. Ela sem dúvida tinha mentido quando afirmara que os alquimistas não conheciam Marcus, visto que ele dissera ser um personagem famoso entre o alto escalão. Mesmo que ela não soubesse a respeito de mestre Jameson, isso não mudava o fato de que outros alquimistas — alquimistas importantes — tinham amigos perigosos. Eu poderia nem sempre gostar dos procedimentos deles, mas sempre quis acreditar que estavam fazendo o bem pelo mundo. Talvez estivessem. Talvez não. Eu já não sabia de mais nada.
Quando tirei os olhos da figura congelada de mestre Jameson, encontrei Marcus me observando.
— Você está pronta? — ele perguntou.
— Pronta pra quê?
Ele caminhou até outra mesa e voltou com uma caixinha. Quando a abriu, vi um pequeno frasco de líquido prateado e uma seringa.
— O que é... Ah. — De repente, entendi. — É o sangue pra romper a tatuagem.
Ele fez que sim.
— Quando elementos são tirados, ocorre uma reação que o deixa prateado. Demora alguns anos, mas, com o tempo, o dourado na sua pele vai ficar prateado também.
Todos estavam olhando para mim com expectativa, e dei um passo para trás.
— Não sei se estou pronta pra isso.
— Por que esperar? — Marcus perguntou, e apontou para o laptop. — Você viu o vídeo. Sabe do que eles são capazes. Vai continuar mentindo para si mesma? Não quer seguir em frente com os olhos abertos?
— Então... Quero, mas não sei se estou pronta para injetarem uma substância estranha em mim.
Marcus encheu a seringa com o líquido prateado.
— Posso demonstrar na minha tatuagem se fizer você se sentir melhor. Não vai me machucar, e você vai ver que não tem nenhum efeito colateral.
— Não temos certeza se eles fizeram alguma coisa comigo — protestei. Ele tinha um argumento lógico, mas eu ainda estava morrendo de medo de dar aquele passo. Podia sentir minhas mãos tremendo. — Pode ser um desperdício. Pode ser que não tenha nenhuma compulsão de lealdade em mim.
— Mas você também não tem certeza — ele argumentou. — E sempre tem um pouquinho de lealdade na primeira tatuagem. Não o bastante para fazer de você um robô escravo, mas enfim. Você não se sentiria melhor sabendo que tudo foi embora?
Eu não conseguia tirar os olhos da agulha.
— Vou me sentir diferente?
— Não. Exceto que vai poder abordar alguém na rua e começar a falar sobre vampiros. — Eu não sabia dizer se ele estava brincando ou não. — Mas aí só mandariam você para um hospício.
Será que eu estava pronta para aquilo? Será que realmente daria o próximo passo e me juntaria aos Vingadores de Marcus? Eu tinha passado no teste dele, como ele esperava. E, obviamente, aquele grupo não era inútil. Eles ficavam de olho nos alquimistas e nos guerreiros. Também pareciam querer o melhor para os Moroi.
Os Moroi... ou, mais especificamente, Jill. Não havia me esquecido do comentário de Sabrina de que os guerreiros estavam interessados em uma menina desaparecida. Quem mais poderia ser além de Jill? E será que esse tal de Hawthorne tinha acesso à localização dela? Será que tinha passado essa informação para mestre Jameson? E será que essa informação poderia colocar em risco as pessoas ao redor dela, como Adrian, por exemplo?
Eram perguntas para as quais eu não tinha resposta, mas precisava descobrir.
— Certo — eu disse. — Pode fazer.
Marcus não perdeu tempo. Acho que ficou com medo de que eu mudasse de ideia, o que talvez não fosse infundado. Sentei em uma das cadeiras e inclinei a cabeça para que ele conseguisse encostar na minha bochecha. Wade segurou minha cabeça com cuidado.
— Só pra garantir que você fique parada — ele disse, em tom de desculpas.
Antes que Marcus começasse, perguntei:
— Onde você aprendeu a fazer isso?
Ele estava com uma expressão solene por causa da tarefa, mas minha pergunta trouxe seu sorriso de volta.
— Tecnicamente não vou tatuar você, se é disso que está com medo — ele disse. Na verdade, eu estava com medo de muitas coisas. — São só algumas injeções, como se estivéssemos retocando.
— E o processo propriamente dito? Como você descobriu? — Eu deveria ter feito essa pergunta antes de sentar na cadeira. Mas não estava esperando fazer aquilo tão cedo, ou tão de repente.
— Um Moroi amigo meu criou a hipótese. Eu me ofereci como cobaia, e deu certo. — Ele voltou a ficar sério e ergueu a agulha. — Pronta?
Respirei fundo, sentindo como se estivesse à beira de um precipício. Era hora de pular.
— Sim.
Doía tão pouco quanto o retoque, só algumas picadinhas na pele. Incômodas, mas não exatamente doloridas. Na verdade, o processo nem foi longo, mas pareceu durar uma eternidade. Enquanto Marcus trabalhava, eu ficava me perguntando: o que estou fazendo? Por fim, Marcus deu um passo para trás e me observou com um brilho nos olhos. Sabrina e Wade também sorriram.
— Prontinho — Marcus disse. — Bem-vinda ao grupo, Sydney.
Tirei meu espelhinho da bolsa para olhar a tatuagem. Minha pele estava avermelhada por causa das picadas da agulha, mas, se o resto do processo também fosse como o retoque, a irritação passaria logo. Fora isso, o lírio não parecia diferente. Eu também não me sentia diferente. Não queria invadir a base alquimista e exigir justiça, nem nada do tipo. Aceitar o desafio dele de falar para alguém de fora sobre vampiros devia ser o melhor jeito de ver se a tatuagem havia sido alterada, mas eu não estava com vontade de fazer isso também.
— É só isso? — perguntei.
— Só isso — Marcus respondeu. — Depois que selarmos, você não vai ter que se preocupar com...
— Não vou selar.
Todos os sorrisos se fecharam.
Marcus pareceu confuso, como se tivesse ouvido errado.
— Você precisa selar. Vamos pro México no fim de semana que vem. Depois disso, os alquimistas nunca conseguirão pegar você.
— Não vou selar — repeti. — E não vou para o México. — Apontei para o laptop. — Olhe só o que consegui! Se continuar onde estou, posso descobrir outras coisas. Posso descobrir o que mais os alquimistas e os guerreiros estão tramando juntos. — Poderia descobrir se Jill estava correndo perigo. — Ficar marcada para sempre e virar uma dissidente seria o fim de todas essas oportunidades. Eu não teria como voltar atrás depois disso.
Acho que Marcus sempre conseguia o que queria, e minha revelação o pegou completamente desprevenido. Wade continuou a discussão.
— Você já não tem como voltar atrás. Deixará um rastro de migalhas atrás de si, Sydney. Olha só o que você fez. Além disso, já fez perguntas sobre Marcus. Mesmo que não esteja defendendo os Moroi, os alquimistas sabem que você passa muito tempo com eles. E, algum dia, alguém pode perceber que você esteve lá no dia em que as informações foram roubadas.
— Ninguém sabe que foram roubadas — eu disse prontamente.
— Você acha que ninguém sabe — Wade corrigiu. — Essas coisinhas bastam para levantar suspeita. Continue fazendo mais e você só vai piorar as coisas. Eles vão começar a notar e é aí que tudo irá pelos ares.
Marcus havia se recuperado do choque inicial.
— Exato. Ouça, se quiser continuar onde está até a gente ir pro México, tudo bem. Pense com calma. Depois disso, você precisa fugir. Vamos continuar trabalhando de fora.
— Vocês podem fazer o que quiserem. — Comecei a guardar meu laptop. — Eu vou trabalhar de dentro.
Marcus segurou meu braço.
— Você está cavando sua própria cova, Sydney! — ele disse, muito sério. — Vai ser pega.
Livrei meu braço.
— Vou tomar cuidado.
— Todo mundo comete erros — Sabrina disse, falando pela primeira vez em muito tempo.
— Vou correr esse risco. — Pendurei a bolsa no ombro. — A menos que vocês me impeçam à força.
Nenhum deles respondeu.
— Então estou indo. Não tenho medo dos alquimistas. Obrigada por tudo que fizeram por mim. Fico muito agradecida mesmo.
— Eu que agradeço — Marcus disse, enfim. Ele balançou a cabeça para Wade, que parecia prestes a protestar. — Por conseguir o vídeo. Para falar a verdade, não achava que você fosse conseguir. Pensei que fosse voltar de mãos abanando, mas mesmo assim eu teria rompido a tatuagem pra você. Como prêmio de consolação, sabe. Em vez disso, você confirmou a impressão que eu tinha: você é incrível. Seria muito útil para nós.
— Bom, vocês sabem como me encontrar.
— E você sabe como nos encontrar — ele disse. — Vamos ficar aqui a semana toda se mudar de ideia.
Abri a porta.
— Não vou mudar de ideia. Não vou fugir.
Amelia me deu tchau quando entrei no carro, sem saber que eu tinha acabado de desafiar seu querido líder. No caminho de volta para Amberwood, fiquei surpresa com a liberdade que estava sentindo, e não tinha nada a ver com a tatuagem. Era a noção de que eu havia desafiado a todos: os alquimistas, os guerreiros, os Vingadores. Não servia a ninguém, qualquer que fosse a causa. Era apenas eu, capaz de tomar minhas próprias decisões. Não era algo com que tivesse muita experiência.
E estava prestes a fazer algo drástico. Não tinha falado nada para Marcus e seu grupo porque estava com medo de que fossem mesmo me impedir. Quando voltei para Amberwood, fui direto para o quarto e liguei para Stanton. Ela atendeu no primeiro toque, o que considerei um sinal divino de que estava fazendo a coisa certa.
— Srta. Sage, que inesperado. Gostou da cerimônia?
— Sim — eu disse. — Foi muito inspiradora. Mas não é por isso que estou ligando. Nós temos um problema. Os Guerreiros da Luz estão atrás de Jill. — Eu não podia perder tempo.
— Por que eles fariam uma coisa dessas? — Ela pareceu genuinamente surpresa, mas, se havia algo em que eu acreditava com todo o coração, era que os alquimistas sabiam mentir muito bem.
— Porque sabem que, se o paradeiro de Jill vier à tona, a sociedade Moroi pode desmoronar. O foco deles ainda são os Strigoi, mas eles adorariam que a situação dos Moroi fosse de mal a pior.
— Entendi. — Eu nunca sabia se ela fazia essas pausas para organizar os pensamentos ou se era só pelo efeito dramático. — E como exatamente você ficou sabendo disso?
— Aquele menino que eu conheço que foi dos guerreiros. Ainda nos damos bem, e ele está com o pé atrás em relação a eles. Ele mencionou ter ouvido falar sobre uma menina desaparecida que poderia causar vários problemas se fosse encontrada. — Talvez fosse errado colocar Trey no meio daquela mentira, mas eu realmente duvidava de que Stanton fosse interrogá-lo tão cedo.
— E você imaginou que fosse a Dragomir.
— Claro — exclamei. — Quem mais poderia ser? A senhora conhece outras meninas Moroi? É óbvio que é ela!
— Acalme-se, srta. Sage. — A voz dela era inexpressiva e imperturbável. — Não precisa se exaltar.
— Precisamos agir! Se há uma chance de os guerreiros estarem de olho nela, precisamos tirá-la de Palm Springs imediatamente.
— Essa — ela disse, incisiva — não é uma possibilidade. Foi preciso muito planejamento para colocá-la na posição atual.
Não acreditei nesse argumento nem por um segundo. Metade do nosso trabalho era controlar danos e nos adaptar a situações que mudavam rapidamente.
— Ah, é? E vocês contaram com a possibilidade de aqueles psicopatas caça-vampiros a encontrarem?
Stanton ignorou a indireta.
— Você tem alguma evidência de que os guerreiros realmente têm informações concretas sobre ela? Seu amigo forneceu algum detalhe?
— Não — admiti. — Mas mesmo assim precisamos fazer alguma coisa.
— Não tem nenhum “nós” aqui. — Sua voz inexpressiva se tornou cortante. — Não é você quem decide o que vamos fazer.
Quase protestei, mas me contive. O pavor se instalou em mim. O que eu tinha acabado de fazer? Minha intenção tinha sido levar Stanton a tomar alguma atitude real ou ver se, sem querer, ela revelaria que sabia de algum contato com os guerreiros. Eu pensara que mencionar Trey me daria credibilidade, considerando que obviamente não poderia contar o verdadeiro motivo que me fazia temer pela segurança de Jill. No entanto, em algum momento, havia passado de um pedido para uma exigência. Tinha quase dado uma ordem para ela aos berros. Esse não era o comportamento típico de Sydney. Não era o comportamento típico dos alquimistas. O que era mesmo que Wade havia dito? Deixará um rastro de migalhas atrás de si, Sydney. Será que eu agira daquela maneira porque havia rompido a tatuagem?
Aquilo não era uma migalha. Era um pão inteiro. Eu estava à beira da insubordinação e, de repente, pude imaginar a lista de que Marcus sempre me advertia, aquela que registrava todas as coisas suspeitas que eu andava fazendo. Será que Stanton já estava atualizando essa lista naquele exato momento?
Eu precisava corrigir aquela situação, mas como? Como poderia retirar o que havia dito? Minha mente estava em disparada e levei vários segundos para me acalmar e começar a pensar racionalmente. A missão. Concentre-se na missão. Stanton entenderia.
— Desculpe — eu disse, por fim. Fique calma. Seja respeitosa. — Só estou... só estou preocupada com a missão. Vi meu pai na cerimônia, sabe. — Esse era um fato que ela poderia conferir. — A senhora deve ter visto como estavam as coisas na noite em que saí de casa. Como a nossa relação estava mal. Eu... preciso que ele se orgulhe de mim. Se tudo for pelos ares aqui, ele nunca vai me perdoar.
Ela não respondeu, e torci para que isso significasse que estava ouvindo com atenção... e acreditando em mim.
— Quero fazer um bom trabalho aqui. Quero cumprir nossos objetivos e manter Jill escondida. Mas já houve tantas complicações que ninguém previu... Primeiro Keith, e agora os guerreiros. Nunca tenho certeza de que ela está completamente protegida, mesmo com Eddie e Angeline. Isso acaba comigo. E... — Eu não era nenhuma atriz capaz de fingir lágrimas, mas fiz o melhor que pude para fazer uma voz embargada. — E nunca me sinto protegida. Falei para a senhora, quando pedi para ir à cerimônia, como é terrível estar com os Moroi. Eles estão por toda parte, e os dampiros também. Eu como com eles. Vou para a aula com eles. Estar entre alquimistas nesse fim de semana salvou a minha vida. Não estou tentando fugir das minhas obrigações. Entendo que precisamos fazer sacrifícios. E agora já não fico tão mal entre eles, mas às vezes o estresse é insuportável. Por isso, quando ouvi essa história dos guerreiros, perdi o controle... fiquei pensando que poderia fracassar. Desculpe. Não deveria ter levantado a voz com a senhora. Estava descontrolada, e isso é inaceitável.
Cortei meu discurso e fiquei tensa esperando a resposta dela. Com sorte, tinha falado o bastante para que Stanton desconsiderasse a ideia de que eu fosse uma dissidente.
Claro, eu poderia ter acabado de me fazer passar por uma alquimista completamente fraca e instável que precisava ser retirada daquela missão. Se isso acontecesse... bom, nesse caso talvez eu teria de aceitar a oferta de Marcus sobre o México.
A pausa típica dela foi especialmente angustiante dessa vez.
— Entendo — ela disse. — Enfim, levarei tudo isso em consideração. Essa missão é de importância crucial, acredite em mim. Suas preocupações foram ouvidas e decidirei a melhor atitude a ser tomada.
Não era exatamente o que eu queria ouvir, mas, se tudo desse certo, ela seria fiel à sua palavra. Queria muito acreditar que estava sendo sincera.
— Obrigada, senhora.
— Mais alguma coisa, srta. Sage?
— Não, senhora. E... me desculpe, senhora.
— Desculpas anotadas.
Clique.
Eu vinha andando de um lado para o outro enquanto falava e agora fiquei parada encarando o celular. Minha intuição me dizia que realmente tinha feito com que Stanton tomasse alguma atitude. O mistério era se essa atitude seria benéfica ou catastrófica para mim.
Foi difícil dormir depois do telefonema e, dessa vez, não tinha nada a ver com Veronica. Eu estava agitada demais, nervosa demais com o que havia acontecido com Marcus e Stanton. Tentei recuperar aquela sensação de liberdade, mas foi só uma faísca dessa vez, fraquejando diante das minhas novas inseguranças. Ainda assim, era melhor do que nada.
Caí no sono em torno das três. Tive a vaga impressão de que se passaram algumas horas até eu ser tragada para um dos sonhos de Adrian, de volta ao salão da festa de casamento.
— Finalmente — ele disse. — Estava quase desistindo. Pensei que você fosse passar a noite inteira acordada. — Ele havia parado de usar o terno naqueles sonhos, provavelmente porque eu sempre aparecia de calça jeans. Naquela noite, ele também estava de jeans, e com uma camiseta preta lisa.
— Eu também. — Retorci as mãos e comecei a andar de um lado para o outro ali também. O nervosismo de antes se transferiu para o sonho. — Aconteceram muitas coisas hoje à noite.
O sonho parecia real, sólido. Adrian estava sóbrio.
— Você não acabou de voltar? Quanta coisa pode ter acontecido?
Quando contei, ele meneou a cabeça, abismado.
— Caramba, Sage. Com você é tudo ou nada mesmo. As coisas nunca ficam paradas na sua vida.
Parei na frente dele e me apoiei numa mesa.
— Eu sei, eu sei. Você acha que acabei de fazer uma grande besteira? Meu Deus, talvez Marcus estivesse certo e tivesse um pouco de compulsão na tatuagem me forçando a ser leal. Eu fico livre por uma hora e saio completamente da linha com a minha chefe.
— Você parece ter encoberto seu rastro — ele disse, embora sua testa estivesse um pouco franzida. — Mas eu ficaria desapontado se mandassem você para um lugar menos estressante. Seria a pior coisa que poderia acontecer, pelo que você disse.
Comecei a rir, mas de nervosismo.
— O que deu em mim? Estava fazendo coisas malucas muito antes de Marcus romper a tatuagem. Encontrar rebeldes, caçar feiticeiras do mal, até comprar aquele vestido! Gritar com Stanton é só mais uma maluquice numa longa lista. É como falei pra você no Tortas e Tal: não sei mais quem eu sou.
Adrian sorriu e segurou minhas mãos, se aproximando de mim.
— Bom, em primeiro lugar, o especialista em maluquices aqui sou eu, e isso não é nada. E quanto a você, tem sido a mesma guerreira bonita, corajosa, ridiculamente inteligente e viciada em café desde o dia em que nos conhecemos. — Finalmente ele colocou “bonita” no topo da lista de adjetivos. Não que eu devesse me importar.
— Puxa-saco — zombei. — Você não sabia nada sobre mim quando a gente se conheceu.
— Sabia que era bonita — ele disse. — Só torci para que fosse o resto também.
Ele sempre tinha aquele brilho nos olhos quando elogiava minha aparência, como se estivesse vendo muito além disso. Era intenso e desorientador... mas eu não me importei. E essa não foi a única coisa que me perturbou. Como ele tinha se aproximado tanto de mim sem que eu percebesse? Era como se tivesse habilidades secretas de espião. Suas mãos estavam quentes nas minhas; nossos dedos, entrelaçados. Eu ainda tinha um resquício daquela alegria de antes dentro de mim, e estar junto dele intensificava esse sentimento. O verde de seus olhos estava lindo como sempre, e fiquei me perguntando se os meus tinham o mesmo efeito sobre ele. Havia um pouco de amarelo-âmbar misturado com o castanho que uma vez ele havia dito que parecia ouro.
Ele é a única pessoa que nunca me diz o que fazer, percebi. Ah, claro, me pedia muitas coisas, sempre bajulando e com muita lábia. Mas não exigia nada de mim, não como os alquimistas ou Marcus. Até mesmo Jill e Angeline costumavam começar seus pedidos com “Você tem que...”.
— Por falar naquele vestido — ele acrescentou —, ainda não o vi.
Ri baixinho.
— Você não aguentaria.
Ele arqueou a sobrancelha.
— É um desafio, Sage? Eu aguento muita coisa.
— Não considerando o nosso histórico. Sempre que uso alguma roupa minimamente atraente, você perde o controle.
— Não é totalmente verdade — ele disse. — Eu perco o controle com qualquer roupa que você usar. E aquele vestido vermelho não era “minimamente atraente”. Era um pedaço do céu na terra. Um pedaço do céu vermelho e sedoso.
Eu deveria ter revirado os olhos. Deveria ter dito que não estava ali para fazer o que ele queria. Mas havia algo nos olhos dele e na maneira como me sentia naquela noite que me fez querer ver a sua reação. Romper a tatuagem não havia mudado nada entre nós, mas, somado a tudo que eu tinha feito naquela semana, me fez criar coragem. Pela primeira vez, quis correr um risco com ele, apesar de todos os meus velhos argumentos racionais. Além disso, não havia perigo em deixá-lo dar uma olhada.
Manipulei o sonho como ele havia me ensinado. Alguns momentos depois, o vestido curto de renda substituiu o jeans e a blusa. Criei até os saltos, o que aumentou minha estatura. Ainda não estava tão alta quanto ele, mas o pequeno aumento havia aproximado nossos rostos.
Os olhos dele se arregalaram. Ainda segurando minhas mãos, deu um passo para trás a fim de examinar o conjunto todo. Havia algo de quase tangível na maneira como seu olhar percorreu meu corpo. Eu praticamente sentia todos os lugares em que seus olhos pousavam em mim. Quando eles voltaram a encontrar os meus, minha respiração estava arquejante e eu sabia muito bem que não havia muita roupa entre nós. Talvez houvesse sim algum perigo em deixá-lo dar uma olhada.
— Um pedaço do céu? — consegui perguntar.
— Não — ele respondeu. — Do outro lugar. Onde vou arder por pensar o que estou pensando.
Ele se aproximou de mim novamente. Suas mãos soltaram as minhas e passaram para a minha cintura, e notei que não era a única com a respiração pesada. Ele me puxou para perto, unindo nossos corpos. O mundo era puro calor e eletricidade, denso com a tensão ao nosso redor, e só faltava uma faísca para essa tensão explodir. Eu estava me equilibrando à beira de outro precipício, o que não era fácil fazer de salto alto.
Pus os braços em torno do pescoço dele e, dessa vez, fui eu quem o puxou para perto.
— Droga — ele murmurou.
— Que foi? — perguntei, sem tirar os olhos dos dele em nenhum momento.
Ele passou as mãos no meu quadril.
— Não era para eu beijar você.
— Não tem problema.
— O quê?
— Não tem problema se eu beijar você.
Era difícil surpreender Adrian Ivashkov, mas consegui quando trouxe sua boca para perto da minha. Eu o beijei e, por um momento, ele ficou pasmo demais para retribuir. Isso durou, hum, mais ou menos um segundo. Então a intensidade que eu passara a conhecer tão bem voltou com força total. Ele me guiou para trás, me levantando para que eu sentasse em cima de uma das mesas. A toalha foi empurrada para trás, derrubando alguns copos. Ouvi o que parecia ser um prato de porcelana se espatifando no chão.
Toda a lógica e a razão que eu costumava ter haviam desaparecido. Não havia nada além de pele e paixão, e eu não mentiria para mim mesma — pelo menos não naquela noite. Eu o queria. Arqueei as costas, sabendo muito bem que aquilo me deixava vulnerável e que era um convite para ele. Ele aceitou o convite e empurrou minhas costas sobre a mesa, descendo o corpo sobre o meu. Aquele beijo avassalador passou da minha boca para a nuca. Ele desceu a alça do meu vestido e também do sutiã, expondo meu ombro e dando a seus lábios mais pele para conquistar. Um copo rolou da mesa e caiu, logo seguido por outro. Adrian parou o beijo e abri os olhos. Ele estava com um olhar exasperado.
— Uma mesa — ele disse. — Uma droga de uma mesa.
Alguns momentos depois, a mesa havia desaparecido. Eu estava no apartamento dele, na sua cama, e fiquei contente por não haver mais talheres nas minhas costas.
Completada a mudança, seus lábios voltaram a encontrar os meus. A urgência da minha resposta surpreendeu até a mim. Nunca pensei que seria capaz de agir tão instintivamente, de me afastar tanto da razão que costumava guiar meus atos. Minhas unhas se cravaram nas costas dele, e ele desceu os lábios pelo meu queixo até o meio do meu pescoço. Continuou descendo até chegar à base do decote do vestido. Soltei um gemido e ele beijou todo o entorno do decote, só o bastante para me provocar.
— Não se preocupa — ele murmurou. — Você vai continuar com o vestido.
— Ah, é? Essa decisão é sua por acaso?
— Sim — ele respondeu. — Você não vai perder sua virgindade em um sonho. Se é que isso é possível. Não quero pensar no lado filosófico da questão. Além do mais, não precisamos apressar as coisas. Às vezes vale a pena se demorar na jornada por um tempo antes de chegar ao destino.
Metáforas. Era o preço de ficar com um artista.
Eu estava prestes a dizer isso. Mas então sua mão subiu pela minha perna e voltei a me envolver. Eu podia até continuar com o vestido, mas ele não via mal em tomar algumas liberdades. Aquela mão entrou sob o vestido, subindo pela minha perna até chegar ao quadril. Senti um ardor por dentro e me concentrei completamente no toque daquela mão. Ela estava se movendo devagar demais, e a segurei, pronta para fazê-la avançar.
Adrian riu e pegou meu punho, tirando a minha mão e a segurando contra os lençóis.
— Nunca pensei que seria mais devagar que você.
Abri os olhos e encontrei os dele.
— Eu aprendo rápido.
Todo aquele ímpeto selvagem e ardente dentro de mim deve ter transparecido, porque ele prendeu a respiração e seu sorriso se desfez. Ele soltou meu punho e segurou meu rosto nas mãos, aproximando o dele a apenas um centímetro do meu.
— Meu Deus, Sydney. Você é...
O ardor em seus olhos se transformou em surpresa, e ele olhou para cima de repente.
— Que foi? — perguntei, sem saber se aquela era alguma parte estranha da “jornada”.
Ele fez uma careta e começou a desaparecer diante dos meus olhos.
— Estão acordando você.

2 comentários:

  1. Ahhhhhhh morri >·<

    Também pensei a mesma coisa, é possível perder a virgindade num sonho?.

    Cara, to com muito medo pela Sydney...

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  2. Quando as coisas estão, finalmente, no vamo que vamo!!! Famoso Ripa na Chulipa!!! Porquêêêê Richelle Mead você me faz sofrer assim!!!! Sydrian is love, Sydrian is Life <3!!! <3!!! <3!!!

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Boa leitura :)