3 de outubro de 2017

Capítulo 21

EM FILMES, já tinha visto pessoas vendadas que conseguiam saber para onde estavam sendo levadas graças a um talento natural para sentir movimento e direção. Não era o meu caso. Depois de algumas curvas, já não sabia dizer em que parte de Palm Springs estávamos — ainda mais porque suspeitava que Trey estivesse fazendo um caminho cheio de voltas, para garantir que não estávamos sendo seguidos. O único momento em que me localizei foi quando entramos na interestadual, simplesmente pela sensação de correr livre na estrada. Não sabia em que direção estávamos indo e não tinha como dizer por quanto tempo viajamos.
Trey não parecia muito disposto a conversar, mas dava respostas curtas sempre que eu fazia alguma pergunta.
— Quando você se alistou nos caçadores de vampiros?
— Guerreiros da Luz — corrigiu. — Já nasci no meio disso.
— É por isso que você sempre fala em pressão familiar e que esperam muito de você, não é? É por isso que seu pai se preocupa tanto com seu desempenho atlético.
Tomei o silêncio do Trey como um sim e insisti, a fim de conseguir o máximo de informações possível.
— Com que frequência vocês têm esses... encontros? Vocês sempre fazem provas tão brutais? — Até pouco tempo, não havia nada que sugerisse que a vida de Trey fosse muito diferente da de qualquer outro atleta do ensino médio: ele tinha boas notas, um emprego e uma vida social ativa. Na verdade, pensando em todas as coisas que Trey fazia normalmente, era difícil imaginar que ele tivesse tempo para os guerreiros.
— Nós não temos encontros frequentes — ele respondeu. — Quer dizer, não os integrantes do meu nível. Esperamos até uma convocação, geralmente quando uma caçada está em andamento. Ou às vezes organizamos competições para testar nossa força. Nossos líderes viajam para certos lugares e, então, guerreiros de várias localidades se reúnem para se preparar.
— Se preparar para quê?
— Para o dia em que pudermos exterminar o mal dos vampiros de uma vez por todas.
— E você realmente acredita que essa caçada é o caminho? Que é a coisa certa a se fazer?
— Você já viu um deles? — ele perguntou. — Um dos mortos-vivos diabólicos?
— Já vi alguns.
— E não acha que eles precisam ser destruídos?
— Não é isso que estou tentando dizer. Não gosto nem um pouco dos Strigoi, acredite em mim. A questão é que Sonya não é um deles.
Mais silêncio.
Depois de um tempo, senti que estávamos saindo da estrada. Continuamos mais um pouco, até que ele reduziu a velocidade e entrou numa estrada de cascalho. Paramos logo depois e Trey baixou o vidro.
— Essa é ela? — perguntou uma voz de homem.
— Sim — Trey respondeu.
— Você desligou o celular dela?
— Sim.
— Leve a garota para dentro. Vão cuidar do resto da revista.
Ouvi o rangido de um portão sendo aberto e, em seguida, continuamos pela estrada de cascalho até entrarmos no que parecia uma área de terra batida. Trey estacionou e desligou o carro. Abriu sua porta ao mesmo tempo que alguém do lado de fora abria a minha. Uma mão no meu ombro me empurrou para a frente.
— Venha. Saia.
— Tome cuidado com ela — Trey advertiu.
Fui levada do carro para dentro de um prédio. Só quando ouvi uma porta sendo fechada e trancada tiraram a minha venda. Estava numa sala austera com paredes de reboco e lâmpadas expostas. Quatro outras pessoas estavam em volta de mim e Trey, três homens e uma mulher. Eles pareciam ter vinte e poucos anos, todos armados, entre eles os dois rapazes que me interpelaram no café.
— Esvazie a bolsa. — Era Jeff, o rapaz de cabelo preto moderninho, que usava um brinco dourado com o antigo símbolo do Sol.
Obedeci, jogando o conteúdo da bolsa em cima de uma mesa improvisada, composta por um pedaço de madeira sobre blocos de cimento. Enquanto examinavam o conteúdo, a mulher me revistou em busca de escutas. Ela tinha o cabelo oxigenado e a cara fechada, mas pelo menos a revista foi profissional e eficiente.
— O que é isso? — o loirinho do café perguntou, pegando um pequeno saco plástico recheado de ervas e flores secas. — Você não parece o tipo que usa drogas.
— É um pot-pourri — respondi prontamente.
— Você guarda um pot-pourri na bolsa? — ele perguntou, incrédulo.
Dei de ombros.
— Guardamos todo tipo de coisa na bolsa. Mas tirei todos os ácidos e substâncias químicas antes de vir para cá.
Ele descartou o pot-pourri como inofensivo e jogou numa pilha com outros itens liberados, como minha carteira, antisséptico para as mãos e um bracelete liso de madeira. Notei, então, que a pilha também incluía um par de brincos dourados em forma de discos, cobertos por espirais intrincadas e minúsculas pedras preciosas. Eram bonitos, mas eu nunca os vira antes.
Mas é claro que não chamaria a atenção para nada, ainda mais quando a mulher apanhou meu celular.
— Vamos destruir isso.
— Eu desliguei — Trey disse.
— Ela pode ligar de novo. Pode ser rastreado.
— Ela não faria isso — Trey argumentou. — Além do mais, isso é um pouco paranoico, não? Ninguém usa esse tipo de tecnologia no mundo real.
— Você que pensa — ela respondeu.
Ele estendeu a mão e disse:
— Dê o celular pra mim. Vou guardar comigo em segurança. Ela está aqui em missão de paz.
A mulher hesitou até Jeff assentir com a cabeça. Trey colocou o celular no bolso, o que me deixou grata. Havia muitos números salvos e daria um trabalhão cadastrá-los novamente. Depois que minha bolsa foi considerada segura, deram permissão para recolocar as coisas dentro dela e levá-la comigo.
— Certo — o loirinho disse. — Vamos para a arena.
Arena? Era difícil imaginar o que uma arena faria num lugar como aquele. A visão na travessa de prata não me mostrara nenhuma parte significativa do prédio, apenas que era térreo, com um aspecto velho e sujo.
Aquele salão parecia seguir bem essa temática. Se os folhetos antiquados serviam como exemplo da noção de estilo dos guerreiros, supunha que essa “arena” ficasse em algum tipo de garagem.
Não podia estar mais errada.
Tudo o que faltava às outras áreas de operação dos Guerreiros da Luz, eles haviam investido na arena — ou, como me disseram ser o nome oficial, Arena do Resplendor Divino do Ouro Sagrado. A arena tinha sido construída numa área cercada por várias construções. Eu não me atreveria a chamar aquilo de um simples pátio. Era maior, em um terreno de terra batida igual àquele em que estacionamos o carro. A infraestrutura estava longe de ser refinada ou altamente tecnológica, mas, enquanto observava aquilo tudo, não conseguia deixar de pensar no comentário de Trey de que os guerreiros haviam chegado à cidade naquela semana.
Porque terem montado aquilo tão rápido... era muito impressionante. E apavorante. Duas arquibancadas de madeira frágil foram erguidas em lados opostos do lugar. Uma abrigava cinquenta espectadores, em sua maioria homens, de várias idades, com olhares desconfiados e até mesmo hostis, voltados para mim enquanto eu era guiada arena adentro. Quase podia sentir seus olhares fixos cravados na minha tatuagem. Será que todos sabiam dos alquimistas e da nossa história? Sem exceção, vestiam roupas normais, mas avistei brilhos dourados aqui e ali. Muitos usavam algum tipo de ornamento — um broche, um brinco etc. —, fosse com o símbolo do Sol moderno ou antigo.
A outra arquibancada estava praticamente vazia. Três homens mais velhos, da idade do meu pai, estavam sentados um ao lado do outro, vestindo mantos amarelos cobertos por bordados dourados cintilando sob a luz laranja do poente. Nos elmos dourados que cobriam suas cabeças estava gravado o antigo símbolo do Sol, o círculo com o ponto no meio. Eles também me observavam, e procurei manter a cabeça erguida, tentando esconder o tremor nas mãos. Não conseguiria apresentar uma defesa convincente em favor de Sonya se parecesse intimidada.
Em torno da arena, dispostos em mastros, agitavam-se estandartes de todas as formas e tamanhos. Feitos de tecidos grossos e suntuosos, lembravam tapeçarias medievais. Obviamente não eram tão antigos, mas davam ao lugar uma aura luxuosa e cerimonial. Os desenhos nos estandartes eram muito variados. Alguns realmente pareciam ter vindo direto da Idade Média, exibindo combates entre cavaleiros estilizados e vampiros. A visão deles me causou arrepios. Realmente havia voltado no tempo, para a congregação de um grupo cuja história era tão antiga quanto a dos alquimistas. Outros estandartes eram mais abstratos, reproduzindo antigos símbolos alquimistas. Outros, ainda, pareciam modernos, retratando o mesmo sol tatuado nas costas de Trey. Me perguntei se aquela reinterpretação do sol tinha o objetivo de atrair a juventude moderna.
Durante todo o tempo, fiquei pensando: Menos de uma semana. Montaram isso em menos de uma semana. Viajaram para cá com tudo, prontos para levantar isso de uma hora para a outra a fim de fazer essas competições ou execuções. Eles podem ser primitivos, mas isso não faz deles menos perigosos.
Embora a grande multidão de espectadores tivesse a aparência agressiva, como algum tipo de milícia rural, era um alívio não parecerem armados. Só a minha escolta estava armada. Uma dúzia de armas já era demais para o meu gosto, mas, se aquilo fosse tudo, não era tão ruim assim — e restava esperar que mantivessem as armas apenas por ostentação. Chegamos à base da arquibancada vazia e Trey veio ficar ao meu lado.
— Este é o grande conselho dos Guerreiros da Luz — Trey disse. Em seguida, apontou para cada um deles. — Mestre Jameson, mestre Angeletti e mestre Ortega. Esta é Sydney Sage.
— Você é muita bem-vinda aqui, irmãzinha — mestre Angeletti disse com sua voz grave, sob a longa barba desgrenhada. — Uma oportunidade para a reconciliação de nossos grupos há muito se faz necessária. Seremos muito mais fortes depois que colocarmos nossas diferenças de lado e nos tornarmos um só.
Abri o sorriso mais cortês que consegui e decidi não chamar atenção à improbabilidade de os alquimistas aceitarem fanáticos com metralhadora em punho em nossas fileiras.
— É um prazer conhecer os senhores. Obrigada por permitirem minha visita. Gostaria de falar sobre...
Mestre Jameson levantou a mão para me deter. Seus olhos pareciam pequenos demais para o restante do rosto.
— Tudo a seu tempo. Primeiro, gostaríamos de mostrar a você a diligência com que treinamos nossos jovens para o embate na grande cruzada. Assim como vocês encorajam a excelência e a disciplina na mente, nós as encorajamos no corpo.
Após alguma deixa silenciosa, a porta por onde tínhamos acabado de entrar voltou a se abrir. Um rosto conhecido entrou na arena: Chris, o primo de Trey, com calças de ginástica e sem camisa. Era possível ver claramente o sol irradiado tatuado em suas costas. Com o olhar selvagem, caminhou até o centro da arena.
— Creio que já conhece Chris Juarez — mestre Jameson disse. — Ele é um dos finalistas nessa última rodada de combates. O outro, claro, você também conhece. É uma grande ironia que os primos estejam se enfrentando, mas também é conveniente, já que ambos fracassaram no primeiro ataque contra o demônio.
Estupefata, me voltei para Trey.
— Você? Você é um dos... competidores para matar Sonya? — Mal conseguia pronunciar essas palavras. Alarmada, voltei a me dirigir ao conselho. — Disseram que eu teria a chance de me pronunciar a favor de Sonya.
— Você terá — mestre Ortega afirmou, num tom que sugeria que seria um esforço em vão. — Mas, primeiro, devemos determinar o vencedor. Competidores, tomem seus lugares.
Notei então que Trey também estava usando calças esportivas, como se estivesse a caminho de um treino de futebol americano. Também tirou a camisa e, por falta do que fazer com ela, a entregou para mim. Eu a segurei e fiquei olhando para ele, ainda incapaz de acreditar no que estava acontecendo. O olhar dele encontrou o meu por um breve instante, mas logo se desviou. Ele se afastou em direção ao primo, e mestre Jameson me convidou para sentar.
Trey e Chris se encararam. Me senti meio envergonhada por analisar dois rapazes sem camisa, mas não havia nada de sexual acontecendo. Minhas impressões sobre Chris não mudaram muito desde que o conhecera. Tanto ele como Trey estavam em excelente forma, musculosos e fortes, com o tipo de corpo de quem treina e se exercita regularmente. A única vantagem de Chris, se é que havia alguma, era a altura dele, o que eu também havia notado antes. A altura dele. Como um raio, as memórias do ataque no beco voltaram à minha cabeça.
Pouco se podia ver dos agressores, mas o que carregava a espada era mais alto. Originalmente, Chris devia ser o encarregado de matar Sonya.
Outro homem vestido de manto surgiu pela porta. Seu manto tinha um corte um pouco diferente daquele dos conselheiros e exibia ainda mais bordados em ouro. Em vez de um elmo, portava um barrete parecido com o de um sacerdote, o que ele parecia ser já que Chris e Trey se ajoelharam diante dele. O sacerdote marcou suas testas com óleo e recitou algum tipo de bênção que não consegui ouvir. Então, para minha surpresa, fez o sinal contra o mal no ombro — o mesmo sinal dos alquimistas.
Acredito que, mais do que qualquer discurso sobre vampiros malignos ou o uso compartilhado de símbolos antigos, aquilo foi o que realmente deixou evidente o fato de que nossos dois grupos um dia tiveram um parentesco. O sinal contra o mal era uma pequena cruz traçada com a mão direita sobre o ombro. Sobrevivera entre os alquimistas desde os tempos antigos. Um calafrio percorreu meu corpo. Realmente já havíamos sido um único grupo.
Quando o sacerdote terminou, outro homem deu alguns passos adiante e entregou a cada um dos primos um bastão de madeira liso, bem parecido com o cassetete que policiais muitas vezes usam para reprimir as multidões. Trey e Chris se voltaram um contra o outro, assumindo posturas agressivas e portando os bastões em posição de ataque. Um burburinho de euforia correu a multidão, cujo desejo por violência só crescia. A brisa vespertina levantava poeira ao redor dos primos, mas nenhum deles vacilou. Me virei para o conselho, incrédula.
— Eles vão se atacar com aqueles bastões? — inquiri. — Eles podem se matar!
— Ah, não — mestre Ortega disse, calmo demais para o meu gosto. — Há anos que não ocorrem mortes nessas provas. Eles vão se machucar, claro, mas isso só fortalece os guerreiros. Todos os nossos jovens rapazes são ensinados a suportar a dor e continuar lutando.
Jovens rapazes — repeti. Meu olhar se dirigiu à garota loira que me levara até lá. Ela estava de pé, perto da nossa arquibancada, segurando a arma ao seu lado. — E as mulheres?
— Nossas mulheres também são fortes — mestre Ortega disse. — E sem dúvida são valorizadas. Mas nunca nem sonharíamos em deixá-las lutar nas arenas ou caçar vampiros ativamente. Parte do motivo é mantê-las em segurança. Estamos combatendo esse mal para o bem delas e das nossas crianças.
O homem que entregou os bastões anunciou as regras com uma voz sonora e retumbante que ecoou pela arena. Para o meu alívio, os primos Juarez não se espancariam irracionalmente. Havia um sistema de regras para o combate em que estavam prestes a entrar. Podiam se acertar apenas em determinadas partes do corpo. Acertar outras renderia penalidades. Um golpe bem-sucedido renderia um ponto. O primeiro a alcançar cinco pontos seria o vencedor.
Contudo, assim que o embate começou, ficou evidente que ele não seria tão civilizado quanto eu gostaria que fosse. Chris acertou o primeiro golpe imediatamente, atingindo Trey com tanta força que me arrepiei toda. Aclamações e gritos selvagens reverberaram na multidão sedenta por sangue, ecoados pelas vaias dos que torciam por Trey. Ele não demonstrou nenhuma reação e continuou tentando atingir Chris, mas pude notar que aquilo viraria um belo machucado depois. Ambos eram muito rápidos e alertas, capazes de desviar da maioria das tentativas de golpe. Saltavam em todas as direções, tentando pegar o outro desprevenido e levantando ainda mais poeira, que se grudava ao suor da pele deles. Me vi debruçada, com os punhos cerrados de tensão. Com a boca seca, não conseguia articular nenhum som.
De certo modo, aquilo me lembrou um pouco o treinamento de Eddie e Angeline. Sem dúvida, eles também saíam feridos. Nos treinos deles, porém, eles representavam guardião e Strigoi. Havia uma diferença entre isso e dois rapazes tentando causar o máximo de estrago possível um ao outro. Assistir a Trey e Chris fez meu estômago dar um nó. Não gostava de violência, muito menos num espetáculo bárbaro como aquele. Era como se tivesse sido levada de volta ao tempo dos gladiadores.
O fervor da multidão continuava a crescer. Em pé, torciam e incentivavam loucamente os dois primos. Suas vozes retumbavam pela noite no deserto. Apesar de ter sido golpeado primeiro, Trey claramente conseguia se manter firme. Eu observava enquanto ele lançava um golpe atrás do outro contra Chris e não sabia ao certo o que me repugnava mais: ver meu amigo ferido ou vê-lo ferindo outra pessoa.
— Isso é terrível — eu disse, quando finalmente recuperei a voz.
— É a excelência no combate — mestre Angeletti corrigiu. — Não é nenhuma surpresa, já que os pais deles também são guerreiros extraordinários. Também lutaram muito na juventude. São aqueles ali, na primeira fileira.
Olhei para onde ele indicou e vi dois homens de meia-idade, lado a lado, com expressões exultantes, gritando frases de incentivo para os garotos. Nem precisava das palavras de mestre Angeletti para deduzir que eram parentes. Os traços da família Juarez eram tão fortes naqueles homens quanto em seus filhos. Os pais torciam com tanta sofreguidão quanto a massa, sem sequer vacilar quando Trey ou Chris eram machucados.
Eram exatamente como meu pai ou o pai de Keith: nada importava mais do que orgulhar a família e jogar de acordo com as regras do grupo.
Eu havia perdido a contagem dos pontos, até que mestre Jameson disse:
— Ah, isso vai ser bom. O próximo ponto determinará o vencedor. Sempre fico orgulhoso quando os competidores são tão equilibrados. Mostra que fizemos a coisa certa.
Não conseguia ver nada certo naquilo. Lágrimas ardiam nos meus olhos, sem que eu soubesse se eram por conta do ar seco e empoeirado ou apenas de nervosismo. O suor escorria nos corpos de Trey e Chris, ambos ofegantes pelo esforço do combate, cobertos de arranhões e ferimentos que se somavam às antigas marcas de batalha. A tensão na arena era evidente conforme todos esperavam para ver quem acertaria o golpe final. Os primos pararam por um instante, medindo um ao outro, percebendo que aquela era a hora da verdade. Aquele seria o golpe que contaria pra valer. Com o rosto ardente e exaltado, Chris foi o primeiro a se mover, lançando-se à frente a fim de acertar uma pancada contra o flanco de Trey. Prendi a respiração, levantando-me alarmada junto com a maior parte da multidão. O som era ensurdecedor. Ficou claro pela expressão de Chris que ele já podia sentir o gosto da vitória e me perguntei se ele já se imaginava dando o golpe que poria um fim a Sonya. O poente banhava seu rosto com uma luz sangrenta.
De tanto ver Eddie lutar, talvez eu tivesse aprendido o bastante dos princípios básicos para de repente me dar conta de uma coisa. O movimento de Chris fora impulsivo e descuidado demais. Dito e feito. Trey conseguiu desviar do golpe e soltei um suspiro de alívio. Me afundei novamente no assento. Aqueles que estavam certos de que ele estava prestes a ser eliminado bradaram em protesto.
Isso deu a Trey uma bela abertura para atingir Chris. Minha tensão voltou a crescer. Será que isso seria mesmo melhor? Trey “ganhar” o direito de tirar uma vida? Discutível. Trey não desferiu o golpe. Franzi a testa enquanto observava. Ele não pareceu se atrapalhar, mas algo não estava certo. Existe um ritmo na luta, em que instinto e respostas automáticas assumem o comando do corpo. Era quase como se Trey tivesse impedido deliberadamente seu próximo golpe instintivo, que dizia ataque agora! Ao fazer isso, ele abriu a guarda, levando um golpe de Chris, que o lançou ao chão. Pus a mão no peito como se sentisse o golpe na minha pele.
A multidão foi à loucura. Mesmo os mestres decorosos pularam dos assentos, gritando em aprovação ou pesar. Precisei me esforçar para continuar sentada. Todas as partes do meu corpo queriam descer correndo para ver se Trey estava bem, mas tinha a impressão de que algum membro armado da escolta atiraria ou me jogaria no chão antes que eu desse dois passos. Minha preocupação diminuiu um pouco, bem pouco, quando vi Trey se levantar, cambaleando. Chris deu uma palmadinha benevolente nas costas de Trey, abrindo um sorriso de orelha a orelha enquanto a multidão gritava seu nome.
Trey logo se retirou para a arquibancada lotada, dando espaço ao vencedor. Seu pai o recebeu com um olhar de desaprovação, mas não disse nada. O homem que lhes entregara os bastões se aproximou de Chris com a espada que eu havia devolvido. Chris a ergueu, recebendo ainda mais aplausos. Ao meu lado, mestre Jameson se levantou e clamou:
— Tragam a criatura!
Dificilmente poderia descrever Sonya Karp como “criatura” quando quatro guerreiros armados a arrastaram até o meio da arena coberta de pó. Suas pernas pareciam fraquejar e, mesmo à distância, pude notar que estava drogada. Era por isso que Adrian não conseguia chegar até ela através dos sonhos. Também explicava por que ela não havia usado nenhum tipo de magia para tentar escapar. Seu cabelo estava desgrenhado e ela usava as mesmas roupas que vestia naquela última noite no apartamento do Adrian. Estavam sujas, mas fora isso não parecia haver nenhum sinal de abuso físico no corpo dela.
Dessa vez, não pude evitar me levantar. A garota loira imediatamente pôs a mão no meu ombro, fazendo-me me sentar novamente. Contemplei Sonya, desejando desesperadamente poder ajudá-la, mas sabia que estava impotente. Reprimindo o medo e a fúria, voltei a me sentar lentamente na arquibancada e me virei para o conselho.
— Vocês disseram que eu teria a chance de falar. — Lembrei de seu senso de honra. — Vocês deram sua palavra. Ela não significa nada pra vocês?
— Nossa palavra significa tudo — mestre Ortega disse, parecendo ofendido. — Você terá a sua oportunidade.
Atrás da guarda de Sonya vieram dois outros homens puxando um bloco de madeira enorme com tiras para prender os braços. Parecia ter vindo diretamente de um cenário de filme medieval, e meu estômago se revirou quando me dei conta do objetivo dele: decapitação. A escuridão estava aumentando, o que levou os homens a trazerem tochas que lançavam uma luz sinistra e bruxuleante ao redor da arena. Era impossível acreditar que estava na Califórnia em pleno século XXI: me senti transportada para um castelo bárbaro.
E, de fato, aqueles caçadores eram bárbaros. Um dos guardas de Sonya a empurrou para a frente, fazendo com que caísse de joelhos, e forçou a cabeça dela contra a superfície do bloco de madeira, enquanto prendia suas mãos com as tiras de couro. Considerando como estava desorientada, não era preciso usar nem metade da força que ele empregou. Não podia acreditar que eram capazes de agir com tamanha certeza de serem os donos da verdade quando estavam prestes a pôr fim à vida de uma mulher que sequer conseguia oferecer alguma resistência. Todos gritavam pedindo pelo sangue dela e me senti prestes a vomitar.
Mestre Angeletti se levantou e um silêncio tomou conta da arena.
— Nós nos reunimos aqui, vindos de todas as partes do país, para um acontecimento grandioso. É um dia raro e abençoado quando de fato temos um Strigoi em cativeiro. — Porque ela não é Strigoi, pensei, enfurecida. Eles nunca conseguiriam capturar um Strigoi vivo. — Eles atormentam os humanos decentes como nós, mas hoje enviaremos uma de volta para o Inferno, uma que é particularmente perigosa por sua capacidade de ocultar sua verdadeira natureza e fingir ser um dos demônios mais benignos, os Moroi, com os quais ainda haveremos de lidar um dia. — Um burburinho de aprovação correu pelo amontoado de gente. — Antes de começarmos, porém, uma irmã alquimista gostaria de se pronunciar em favor dessa criatura.
A aprovação desapareceu, sendo substituída por murmúrios e olhares furiosos. Tensa, me perguntei se os guardas que apontavam suas armas para mim se voltariam contra um dos membros de seu grupo caso eu fosse atacada. Mestre Angeletti ergueu as mãos e os silenciou.
— Vocês precisam mostrar respeito à nossa irmãzinha — ele disse. — Os alquimistas são nossos semelhantes e, outrora, formamos um único grupo. Seria um acontecimento da grande importância se pudéssemos voltar a unir forças.
Com isso, sentou-se e fez um gesto na minha direção. Nada mais foi dito e supus que isso significava que o palco era meu. Não sabia ao certo como ou onde deveria fazer minha defesa. O conselho tomava as decisões, mas pensei que aquilo era algo que todos deveriam ouvir. Me levantei e esperei que a garota armada impedisse que eu me movesse, mas ela não impediu. Lenta e atentamente, desci a arquibancada e parei no meio da arena, com cuidado para não me aproximar demais de Sonya. Imaginei que aquilo não acabaria bem.
Mantive o corpo de frente para o conselho, mas virei a cabeça esperando alcançar os demais. Já havia feito relatórios e apresentações em público antes, mas sempre numa sala de conferência. Nunca havia me dirigido a uma multidão irada, muito menos havia tratado de assuntos relacionados aos vampiros com um grupo tão gigantesco. Em sua maioria, os rostos lá em cima estavam cobertos por sombras, mas eu conseguia imaginar os olhos loucos e sedentos por sangue cravados em mim. Minha boca ficou seca e, como muito raramente acontecia, minha mente deu um branco. Um momento depois, consegui vencer o medo (ainda que não por completo) e me concentrei no que queria dizer.
— Os senhores estão cometendo um engano — comecei. Minha voz saiu baixa e pigarreei, me forçando a projetar o som com mais força. — Sonya Karp não é Strigoi.
— Temos registros dela no Kentucky — mestre Jameson interrompeu. — Testemunhas que a viram matar.
— Isso porque ela era Strigoi naquela época, mas não é mais. — Não parava de pensar que a tatuagem me impediria de falar, mas aquele grupo já sabia bastante sobre o mundo dos vampiros. — No ano passado, os alquimistas descobriram muito sobre os vampiros. Os senhores devem saber que os Moroi, que vocês denominam “demônios benignos”, praticam magia elemental. Recentemente descobrimos a existência de um tipo novo e raro de magia, ligado a poderes psíquicos e à cura. Esse poder tem a capacidade de restaurar um Strigoi à sua forma original, seja ela humana, dampira ou Moroi.
As negativas logo se tornaram frenéticas. A mentalidade de massa em ação. Foi preciso mestre Jameson para silenciá-los novamente.
— Isso — ele disse, simplesmente — é impossível.
— Documentamos três, ou melhor, quatro casos de pessoas com quem isso aconteceu. Três Moroi e um dampiro que já foram Strigoi e agora retornaram à sua identidade e alma prévias. — Falar sobre Lee no presente não era exatamente verídico, mas não precisava entrar em detalhes. Além do mais, descrever um ex-Strigoi que queria voltar a ser Strigoi provavelmente não ajudaria a minha causa. — Olhem para ela. Ela parece Strigoi? Ela está sob o sol. — Não havia muito sol restante, mas mesmo aqueles raios remanescentes do ocaso seriam suficientes para matar uma Strigoi. Pela maneira como eu suava de medo, poderia muito bem estar sob sol escaldante. — Vocês dizem que isso é obra de alguma magia perversa, mas em algum momento a viram na forma Strigoi aqui em Palm Springs?
Ninguém admitiu imediatamente. Por fim, mestre Angeletti disse:
— Ela derrotou nossas forças na rua. É óbvio que retomou sua verdadeira forma.
— Não — desdenhei. — Quem derrotou suas forças foi Dimitri Belikov, um dos melhores guerreiros dampiros do mundo. Sem ofensa, mas apesar de todo o treinamento, seus soldados não tiveram a menor chance contra dele. — Recebi olhares ainda mais agressivos, o que me fez perceber que aquela provavelmente não fora a melhor coisa a se dizer.
— Vocês estão sendo enganados — mestre Angeletti disse. — Não é nenhuma surpresa, já que seu grupo vem se envolvendo com os Moroi por trás dos panos há muito, muito tempo. Vocês não são como nós, que descemos até as trincheiras. Não enfrentam os Strigoi cara a cara. Eles são criaturas malignas e sedentas por sangue que precisam ser destruídas.
— Concordo com isso. Mas Sonya não é Strigoi. Olhem para ela. — Eu estava ganhando coragem, e minha voz crescia e se tornava mais clara na noite deserta. — Os senhores ficam se vangloriando por terem capturado um monstro terrível, mas tudo o que estou vendo é uma mulher drogada e amarrada. Belo trabalho. Realmente um inimigo digno.
Ninguém no conselho parecia tão tolerante comigo quanto antes.
— Nós apenas a subjugamos — mestre Ortega disse. — É um indício da nossa proeza termos conseguido isso.
— Os senhores subjugaram uma mulher inocente e indefesa. — Não sabia se trazer à tona esse argumento ajudaria alguma coisa, mas imaginei que mal não poderia fazer considerando a visão tão distorcida e cavalheiresca que eles tinham das mulheres. — E sei que os senhores já cometeram erros antes. Sei sobre Santa Cruz. — Não tinha ideia se aquele era o mesmo grupo de homens que perseguiram Clarence, mas estava apostando que o conselho pelo menos tinha conhecimento daquilo. — Alguns de seus zelosíssimos membros perseguiram um Moroi inocente. Os senhores reconheceram o erro na época quando Marcus Finch lhes disse a verdade. Não é tarde demais para corrigir este erro também.
Para minha surpresa, mestre Ortega abriu um sorriso.
— Marcus Finch? Você está elevando Marcus Finch a algum status de herói?
Não, na verdade não. Nem sabia quem ele era. Mas se era um humano que conseguira convencer aquele povo maluco do que era certo, então devia ter algum tipo de integridade.
— Por que não? — indaguei. — Ele conseguiu distinguir o certo do errado.
Então, até o velho mestre Angeletti deu uma risadinha.
— Nunca pensei que veria uma alquimista elogiar o senso de “certo e errado” dele. Pensei que suas visões sobre isso fossem imutáveis.
— Do que vocês estão falando? — Não queria fugir do assunto, mas não conseguia entender aqueles comentários.
— Marcus Finch traiu os alquimistas — mestre Angeletti explicou. — Você não sabia? Pensei que um alquimista renegado fosse a última pessoa que você usaria para sustentar sua defesa.
Fiquei sem palavras por um momento. Ele estava dizendo... que Marcus Finch fora um alquimista? Não. Não poderia ser. Se tivesse sido, Stanton saberia quem ele era. A menos que ela tenha mentido quando afirmou não ter nenhum registro dele, uma voz na minha cabeça advertiu.
Aparentemente, mestre Jameson já havia ouvido o bastante de mim.
— Agradecemos sua visita e respeitamos sua tentativa de defender aquilo em que acredita. Também estamos contentes por ter presenciado a força que desenvolvemos. Espero que transmita essa notícia à sua ordem. Pelo menos, suas tentativas aqui demonstraram o que nós já sabíamos há muito tempo: nossos grupos precisam um do outro. Os alquimistas claramente reuniram muitos conhecimentos ao longo dos anos que nos poderiam ser muito úteis, assim como nossa força poderia ser útil a vocês. Mesmo assim — ele disse, olhando para Sonya com uma careta —, a questão agora continua sendo que, apesar de suas intenções, você realmente foi enganada. Mesmo que exista uma minúscula chance de você estar certa, de que ela seja mesmo uma Moroi... não podemos correr o risco de que ela ainda esteja corrompida. Mesmo que ela acredite ter sido restaurada, ainda pode estar sob uma influência subconsciente.
Voltei a ficar muda — mas não só porque, aparentemente, havia perdido a causa. As palavras do mestre Jameson eram quase idênticas às que o pai de Keith me dissera quando contou que seu filho seria levado de volta à reeducação. O sr. Darnell ecoara o sentimento de que não se podia correr o risco de que existisse algum vestígio sutil influenciando Keith. Eram necessárias medidas extremas. Nós somos iguais, pensei. Os alquimistas e os guerreiros. Os anos nos separaram, mas chegamos ao mesmo lugar, tanto nos objetivos como nas atitudes cegas.
E, então, mestre Jameson pronunciou a fala mais chocante de todas:
— E se ela for mesmo Moroi, não vai ser nenhuma grande perda. Mais dia, menos dia, iremos atrás deles também, assim que derrotarmos os Strigoi.
Congelei ao ouvir aquelas palavras. A garota loira avançou e, mais uma vez, me forçou a sentar na primeira fileira da arquibancada. Não ofereci resistência, tamanho era meu choque com o que acabara de ouvir. O que queriam dizer com ir atrás dos Moroi? Sonya podia ser apenas o começo, depois viria o resto dos meus amigos, e depois Adrian...
Mestre Angeletti me fez voltar ao presente ao se dirigir a Chris com um gesto magnânimo:
— Pelo poder divino a nós concedido para trazer luz e pureza a este mundo, você está autorizado a destruir essa criatura. Comece.
Chris ergueu a espada, com um brilho fanático no olhar. Um brilho de felicidade, até. Ele queria fazer aquilo. Queria matar. Dimitri e Rose mataram inúmeras, inúmeras vezes, mas nenhum deles jamais me dissera que sentia alguma alegria naquilo. Eles estavam contentes em fazer o que era certo e defender os outros, mas não sentiam prazer em causar a morte. Sempre fui ensinada que a existência dos vampiros era errada e perversa, mas o que eu estava prestes a presenciar era uma verdadeira atrocidade. Aqueles eram os verdadeiros monstros.
Eu queria gritar, chorar ou me atirar na frente de Sonya. A morte de uma pessoa brilhante e generosa aconteceria a qualquer momento. Então, sem o menor aviso, o silêncio da arena foi rompido pelo som de tiros. Chris parou e ergueu a cabeça, surpreso. Tive um sobressalto e olhei imediatamente para a direção da escolta armada, me perguntando se eles haviam assumido por conta própria a função de esquadrão de fuzilamento. Eles pareciam tão surpresos quanto eu — a maioria, pelo menos. Dois não demonstraram emoção alguma: estavam caídos no chão.
E foi então que Dimitri e Eddie irromperam na arena.

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