23 de outubro de 2017

Capítulo 20

Adrian

EU ESTAVA ESPERANDO VÁRIAS REAÇÕES ao meu pedido de casamento. Lágrimas não eram uma delas.
— Certo — eu disse, hesitante. — Acho que teria sido melhor com um anel, né?
Ela balançou a cabeça, limpando as lágrimas dos olhos furiosamente.
— Não, não... foi ótimo. Quer dizer, não sei. Não sei por que estou chorando. Não sei o que há de errado comigo.
Eu sabia o que estava errado. Ela tinha ficado presa por quatro meses, a maior parte dos quais passara no escuro, sujeita a tortura psicológica e física, ouvindo que tudo em que acreditava era errado e pervertido, que ela própria era errada e pervertida. Somado ao estresse da fuga, das várias fugas, por que tínhamos acabado de passar, não era de surpreender que estivesse perdendo o controle emocional. Seria difícil para qualquer pessoa se recuperar, mesmo a mais forte. Ela precisava de descanso, de tempo para curar suas feridas físicas e mentais, algo que aqueles malditos alquimistas não permitiriam que tivesse.
— Certo, continue — ela disse, alguns segundos depois. Ela estava se esforçando para se manter durona, para deixar todas essas emoções de lado porque achava que era isso que significava ser forte. Quis dizer que força não tinha nada a ver com esconder seus sentimentos, que não havia mal nenhum em se sentir assim depois de tudo por que ela havia passado. — Me explique como me casar aos dezenove anos vai resolver todos os nossos problemas.
Continuei de joelhos.
— Sei que casar não faz parte dos seus planos — eu disse. — Não por enquanto, pelo menos. Sei que o ideal seria você ir pra faculdade e deixar o casamento mais para a frente.
Ela assentiu.
— Tem razão. E não é porque eu não te amo, acredite. Nem consigo me imaginar casando com outra pessoa. Mas a gente é muito novo ainda...
— Eu sei. — Apertei as mãos dela com mais força. — Mas escute a minha ideia. Pensei nisso quando você falou que sabia que os Moroi protegeriam outro Moroi. Se a gente se casasse, você seria minha esposa, daí os Moroi teriam que proteger você também.
As palavras de Sydney tinham me lembrado de algo que Lissa dissera quando eu havia pedido sua ajuda: Se algum dos nossos estivesse em perigo nas mãos dos alquimistas, aí sim eu teria todo o direito de me envolver. Eu não tinha dúvida de que estaria seguro se voltasse para a Corte. Lissa me protegeria, mesmo que eu não fosse um bom amigo. Mas Sydney estava certa — não podia esperar as mesmas garantias. Até o gerente do hotel insinuara isso. Mas, se ela fosse a sra. Ivashkov...
Sydney franziu a testa.
— Você diz isso como se eu fosse ganhar cidadania por casar com alguém de outro país. Mas não acho que funciona assim entre Moroi e humanos. Não vou virar Moroi automaticamente por casar com você. Seu povo não vai me aceitar como uma igual. Eles vão surtar.
— Verdade — admiti. — Mas isso não significa que vão deixar minha esposa ser punida. A gente vai pra Corte e pode ficar em paz. — Ela não respondeu de imediato e seu silêncio me deixou nervoso. Comecei a ficar preocupado e encontrar problemas que não tinham a ver com a lógica questionável do meu plano. — Mas, se não tem certeza em relação à gente...
Ela voltou a se concentrar em mim.
— Ai, Adrian, não. Não é nada disso. É como falei. Nunca pensei em me casar tão nova, mas também não consigo me imaginar passando o resto da vida com outra pessoa. Sempre pensei que isso aconteceria algum dia. É só meio que um choque. E imagine também como vai ser a nossa vida. Se a gente buscar refúgio com os Moroi, vamos ter que ficar na Corte pra sempre? Vou poder ver a minha família de novo?
Nisso eu não tinha pensado. As maiores complicações que tinha previsto haviam sido as reações da minha família... e de outras pessoas, como Charlotte. Haveria problemas, sim, mas o que Sydney e eu estávamos enfrentando agora era muito mais importante. Eu estava preparado para lidar com as repercussões entre os Moroi, mas, para ser sincero, não tinha considerado o lado de Sydney. Não tinha respostas fáceis para as objeções dela, mas respondi com confiança, como se tivesse:
— Isso vai ser a curto prazo. Quer dizer, não sei o que significa “curto prazo”, mas, depois de um tempo, vai passar e vamos ficar livres para ir aonde quisermos e ver quem quisermos.
Sua expressão era cética.
— Como pode saber disso?
— Sabendo. E acredito que, o que quer que aconteça, vamos estar bem desde que estejamos juntos.
— Certo — ela disse, depois de pensar mais um pouco. — Só mais uma coisa. Tirando toda a questão de buscar refúgio com os Moroi, você acha que a nossa relação é forte o bastante pra isso? Casamento não é só um pedaço de papel.
Levantei e sentei ao lado dela.
— Sei que não — eu disse. — E sei que seria difícil, por vários motivos. Mas acho que a gente pode lidar com tudo que vier, desde que continue se amando desse jeito. — Pensei nos meus pais e no casamento de mentira deles. Sua relação parecia uma piada comparada a qualquer decisão precipitada que Sydney e eu pudéssemos tomar.
— Como sugere que a gente faça isso, então? — ela perguntou. — Tenho certeza de que este hotel tem uma capela, mas de jeito nenhum vamos conseguir casar aqui.
— Não — concordei. Nenhum ministro Moroi abençoaria a nossa união. — Mas, por enquanto, nenhum alquimista pode chegar perto deste lugar. Temos algum tempo pra sair. A gente pode simplesmente achar um cartório e... que foi? — Ela começou a chorar de novo.
— Nada, nada — ela disse. — É só que... não. Deixe pra lá.
— Fale — insisti.
— É só que... — Ela suspirou. — Todos os planos que eu tinha foram por água abaixo. A faculdade, minha família... e agora adiantar o casamento em vários anos. E até isso vai ser diferente. Sempre achei que, quando acontecesse, nossos amigos estariam lá, eu teria um vestido, o serviço completo. Sei que nada disso importa, e juro: não vejo nenhum problema em casar com você usando uma camiseta verde-água. É só que é tudo tão diferente. Preciso de um minuto pra me acostumar com todas essas mudanças.
Acariciei seu rosto.
— Não, não precisa. Não em relação a isso, pelo menos. Me dê um segundo.
Levantei e tirei o celular do bolso, procurando algumas coisas enquanto ela me olhava com curiosidade. Em poucos minutos, eu tinha um plano. Só torci para que ele não nos trouxesse mais problemas que soluções.
— Certo, vamos sair agora, enquanto os alquimistas ainda estão fora do hotel. Eles vão acabar encontrando um jeito de voltar, nem que seja cobrindo as tatuagens com maquiagem. Você tem mais algum amuleto de invisibilidade?
Ela fez que não.
— Posso lançar um feitiço de invisibilidade pequeno... mas não vai funcionar num lugar lotado como esse. As chances de trombar com alguém são altas demais.
— Deixe que eu escondo a gente então. Venha. — Peguei a mão dela. — A gente precisa sair daqui agora.
Descemos para o térreo e lancei uma onda de espírito que nos tornou imemoráveis, disfarçando nossos traços para quem nos visse de perto. Soube que estava funcionando quando passamos por um dos guardas que haviam me trazido mais cedo e ele não me notou. No entanto, aquilo não funcionaria para quem nos visse à distância. Eu não conseguia afetar a mente de pessoas que estivessem muito longe, por isso era essencial agir agora, antes que os alquimistas enviassem seus espiões. Guiei Sydney através dos túneis subterrâneos que ficavam sob o Hora das Bruxas e levavam até pontos importantes da Strip. Havia várias saídas e eu não tinha dúvidas de que, em breve, todas estariam sendo monitoradas pelos alquimistas. A minha esperança era que estivéssemos adiantados em relação a eles e que a saída que escolhi ainda não estivesse sendo vigiada.
Saímos dentro de um grande hotel na Strip. Não vimos nenhum sinal de estarmos sendo seguidos, então relaxei a magia do espírito enquanto atravessávamos o lugar. Não me demorei ali e simplesmente levei Sydney direto para o táxi parado do lado de fora. Entramos no carro e logo estávamos a caminho do cartório mais próximo, para tirar uma licença de casamento.
Pela primeira vez em muito tempo, a sorte estava do nosso lado e, quando chegamos, a fila era mínima, provavelmente por ser uma tarde no meio da semana. Chegada a nossa vez, mostramos nossas identidades e abri um sorriso para Sydney enquanto o oficial de justiça processava a papelada.
— Vai casar como você mesma, hein? Não como Misty Steele?
— Seria mais seguro, sem dúvida — ela disse, com um sorriso irônico. — Mas, se formos pedir asilo com os Moroi, precisamos fazer isso do jeito mais legal possível. Você vai casar com Sydney Sage, querendo ou não.
Dei um beijo na testa dela.
— É tudo que eu quero.
Nenhum alquimista nos atacou durante a missão, o que considerei um bom sinal. Com a licença de casamento em mãos, pegamos um táxi de volta à Strip, para outro hotel, este ao lado de um enorme shopping subterrâneo. Confirmei o endereço no celular e então guiei Sydney até o lugar que tinha pesquisado antes: uma empresa que arrumava as pessoas para casamentos rápidos em Las Vegas. Entramos numa parte cheia de vestidos de noiva e, mais para a frente, havia um salão de beleza. Uma atendente se aproximou assim que entramos.
— Vocês parecem um casal feliz — ela disse. Me perguntei se era verdade, considerando que ambos estávamos com medo de sermos seguidos. — Como posso ajudar?
— A gente vai se casar — eu disse. — E você tem duas horas pra dar tudo que ela quiser e precisar pra ficar pronta.
Até Sydney pareceu espantada.
— Adrian... — ela começou, nervosa.
— Vocês fazem cabelo e maquiagem? — perguntei, apontando para o salão. — Cuidem dela e a ajudem a encontrar um vestido. Um vestido bom, não um daqueles. — Apontei para uma arara perto de nós, com o anúncio VESTIDOS EM PROMOÇÃO.
— Adrian... — Sydney repetiu.
— Vou precisar de um smoking também — eu disse. Tirei um papel do bolso e peguei a caneta que a atendente estava segurando. — Essas são as minhas medidas. Escolha um que combine com o vestido dela. Confio no seu bom gosto. E façam tudo o que ela quiser também.
— Você vai sair? — Sydney perguntou, quando comecei a me afastar.
— Preciso fazer umas coisas. Mas volto em duas horas. — Ela e a atendente ainda estavam boquiabertas. — Ah — eu disse. — Acho que a gente precisa falar sobre dinheiro. Quase esqueci. — Peguei a caneta de novo e escrevi uma quantia significativa ao lado das minhas medidas. — Imagino que isso cubra todas as despesas? — Sydney levou um susto ao ver o número. A atendente apenas ergueu uma sobrancelha.
— Sim, senhor. Sem dúvida. Imagino que o senhor não tenha parte desse dinheiro adiantado.
— Não — respondi. — Mas não preciso. Tenho cara de gente honesta e você confia que vou voltar pra pagar a conta. — Liguei a compulsão no máximo e, depois de um momento de hesitação, a atendente concordou com a cabeça. O irônico era que eu poderia tê-la compelido para nos dar tudo de graça. No entanto, sabia que Sydney nunca me perdoaria por começar nosso casamento com esse tipo de truque, sem falar que a pobre mulher poderia ser demitida por causa disso. Dei um beijo no rosto de Sydney. — Divirta-se. Volto daqui a pouco.
Sydney correu atrás de mim e me pegou pelo braço.
— Adrian, o que vai fazer? Nem você consegue tanto dinheiro em duas horas.
Dei outro beijo nela.
— Vou realizar seu sonho, Sage. Confie em mim. E, se os alquimistas aparecerem... — Parecia improvável, mas precisávamos estar preparados. — Faça o que for preciso pra escapar. A gente se encontra em um sonho ou através de Marcus.
— Tome cuidado — ela disse, ainda preocupada.
— Sempre — menti.
Voltei para o shopping, tentando esconder minha tensão. A coisa mais segura e inteligente a fazer teria sido fugir de Vegas e casar em outra cidade. Mas, além do fato de que casamentos rápidos eram a especialidade ali, eu realmente queria fazer um dos sonhos dela virar realidade. Minha esperança era que não tivéssemos de pagar um preço muito alto por isso.
Meu celular vibrou com uma mensagem de texto, e olhei para a tela, com medo de ser algum aviso funesto de Marcus. Em vez disso, encontrei uma mensagem de Jill.
Isso é tão romântico! É como se estivesse vendo um filme.
Valeu, respondi. Alguma sugestão?
Não, você está se virando bem sozinho. Eddie está furioso que vocês foram embora. Talvez se sinta melhor depois dessa.
Era um alívio saber que ele estava com ela de novo e que nada de mal tinha acontecido quando peguei seu segurança emprestado para o resgate. Escrevi: Guarde segredo por enquanto. Depois se prepare para as repercussões. Isso se eu conseguir tirar a gente daqui.
Talvez eu consiga ajudar com essa parte, ela respondeu. Não conseguia imaginar como ela faria isso, mas ela não mandou mais mensagens e logo me distraí com outras tarefas.
Não demorei para chegar ao meu destino: uma joalheria que comprava e vendia joias. Não era tão decadente quanto uma casa de penhores, mas o princípio era o mesmo. Afinal, era Las Vegas. Ao entrar, fui cumprimentado por um senhor de cabelos brancos, que perguntou como poderia me ajudar. Respirando fundo, fiz o impensável e tirei do bolso uma das abotoaduras de tia Tatiana.
— O que me daria em troca disto?
Ele prendeu o fôlego enquanto pegava a abotoadura e a examinava com uma lupa.
Como pode fazer isso comigo?, gritou tia Tatiana. Como pode jogar fora as minhas joias?
Não estou jogando fora, respondi. Isso é importante. É para o meu futuro.
Um futuro com uma humana!
Um futuro com a mulher que eu amo, respondi. Eu te amo, tia Tatiana, mas você morreu. Sydney está aqui e meu lugar é com ela. Essas abotoaduras não ajudam ninguém guardadas na gaveta.
O fantasma de tia Tatiana continuava revoltado. Você está me traindo!
Eu estava me sentindo um pouco mal, mas continuava decidido. Certa vez, havia levado um único rubi das abotoaduras até uma casa de penhores, com a intenção de comprá-lo de volta depois. Eu o havia recuperado, por pouco, e a experiência fora traumática. Agora, não teria como voltar atrás. Não só estava entregando uma abotoadura inteira como estava desistindo dela para sempre. Com nossas limitações de tempo, não teria como ganhar o suficiente e voltar ali para comprá-la de volta. Era o meu sacrifício pelo sonho de Sydney.
A quantia que ele ofereceu foi baixa, claro, e fomos negociando. Quase fechamos um preço (embora ainda fosse menor do que o valor da abotoadura) quando coloquei minha próxima jogada em ação e tirei do bolso a segunda abotoadura.
— Me dê essa quantia — eu disse. — E te ofereço este acordo: quero essas pedras em um anel de noivado de ouro branco. Depois, preciso de duas alianças de casamento lisas. Pode ficar com a platina como pagamento. Vale muito mais do que você vai me dar em troca. Ah, e preciso disso pronto pra daqui a uma hora.
Pechinchamos mais alguns detalhes, mas ele sabia que estava conseguindo um bom negócio. Finalmente chegamos a um acordo e ele me mostrou uma seleção de alianças. Não tinha muito tempo e escolhi um anel de noivado simples em que ficaria o diamante retangular com os rubis menores de cada lado. Tinha planejado comprar duas alianças simples, mas ele me mostrou um par de ouro branco com pequenos rubis em volta que achei bonito. Pareciam um tributo às abotoaduras que haviam sido sacrificadas por aquele plano maluco. Assinei tudo, peguei meu dinheiro e o lembrei que tinha apenas uma hora.
Dali, fui ao cassino mais próximo que possuía uma mesa de pôquer de apostas altas, fazendo uma ligação muito importante no caminho. Jogar aquela quantidade de dinheiro era um tanto assustador, ainda mais sabendo que eu tinha tão pouco tempo e que havia tanta coisa em risco. Se perdesse, não teria tempo de recuperar o dinheiro, e muitos planos iriam pelo ralo.
Mantive a calma e me recusei a entrar em pânico, tratando aquilo como um jogo qualquer e confiando na minha velha habilidade de ler auras. Fiquei repetindo a mim mesmo que os jogadores ali não eram diferentes dos outros contra os quais já havia jogado. Só estavam apostando quantias muito maiores.
Uma hora depois, deixei a mesa com o suficiente para cobrir todas as despesas do casamento, além de uma passagem para fora de Las Vegas. Voltei para o joalheiro, que tinha cumprido a promessa. Enfiei os anéis no bolso e fiz mais uma ligação e duas paradas: uma em uma farmácia e outra num armazém de vinhos. Com um suspiro aliviado, percebi que tinha completado minhas últimas tarefas. Só faltava o casamento propriamente dito. Voltei para a loja de núpcias, surpreso ao descobrir que estava dentro do tempo planejado.
As duas últimas horas tinham sido tão frenéticas, tão cheias de ansiedade, que eu sentia como se o tempo estivesse acelerado, precisando fazer tudo agora agora agora. Por isso, foi surreal quando entrei na loja e vi Sydney...
... e o tempo como eu conhecia parou.
Tinha falado sério quando dissera para ela escolher o que quisesse. Não me importava. Ela realmente poderia ter aparecido no altar com uma camiseta verde-água que eu teria casado com ela com o coração transbordando de amor. Apesar disso, tinha algumas suspeitas de que tipo de vestido ela escolheria. Meu palpite principal era algo mais recatado, talvez até com mangas longas. Ou talvez um vestido mais simples, com mangas curtas, nada muito enfeitado. Afinal, era Sydney. Eu esperava pragmatismo dela.
O que não esperava era aquele glamour de filmes antigos. O vestido caía perfeitamente, mostrando um corpo que não parecia magro demais, com dobras de organza e adornos de cristal. Logo abaixo dos quadris, se abria em uma cauda de sereia, com tules que também eram decorados com brilhantes. Apenas uma fita delicada de renda e cristal pousava em seu ombro; o outro estava nu. Seu cabelo, mais longo do que de costume, tinha sido amarrado num coque simples na altura da nuca e preso por um pente de cristais, e um longo véu transparente descia dele. Brincos grandes e cintilantes eram suas únicas joias, e um mestre habilidoso da maquiagem havia coberto todos os sinais da sua fadiga recente — bem como o lírio dourado — sem ficar excessivo. Estava perfeito.
Ela estava perfeita. Radiante. Gloriosa. Uma miragem.
— Acho que eu devia ficar de joelhos de novo — eu disse, quase sem voz.
Ela abriu um sorriso nervoso e passou a mão no vestido cintilante.
— Só me diga que pode pagar por tudo isso, porque acho que vou retirar o que disse sobre casar de camiseta.
— Posso pagar — eu disse, ainda fascinado pela sua beleza.
Ela me cutucou.
— Então é melhor ir se vestindo.
A atendente teve o maior prazer em me mostrar o vestiário, e mais prazer ainda ao ver o dinheiro. O smoking que elas haviam escolhido era clássico e elegante. A atendente confirmou se eu queria comprar em vez de alugar, e disse que sim. Para alugar, precisaria de um cartão de crédito, e queria usar o meu o mínimo possível, para não deixar rastros. Quanto mais pudesse gastar em dinheiro vivo, melhor.
Os olhos de Sydney estavam brilhando quando saí do vestiário. Me sentia ridículo perto de todo o seu brilho, mas ela me jurou que eu estava incrível. A atendente me ajudou a prender uma peônia branca no paletó e notei que Sydney estava segurando um pequeno buquê de peônias rosa em uma mão. Na outra, estava com as duas sacolas que vínhamos carregando desde que viemos para Nevada e, agora, tínhamos mais duas para acrescentar à coleção.
Conseguimos juntar tudo numa só antes de sair da loja e ela lançou um olhar intrigado para a sacola do armazém de vinhos.
— Pra que é essa?
— Pra nossa lua de mel — respondi.
— Pensei que a sacola da farmácia fosse pra isso — ela disse.
— Ela também — prometi.
Terminamos de pagar tudo e saímos de mãos dadas, completando a última parte da jornada a pé. Nosso destino era o Firenze, um hotel novo de tema italiano que estava ligado ao shopping. Sydney estava um pouco tímida por andar no meio da multidão com toda a sua elegância nupcial, mas essa não era uma visão rara em Las Vegas. As pessoas sorriam ao passarmos e muitos nos davam os parabéns. Atraímos mais atenção do que gostaríamos, mas gostei de fingir que todas as pessoas por que passávamos eram convidados do nosso casamento. Além disso, estava mais do que orgulhoso por exibir minha noiva incrível.
Quando chegamos à entrada do Firenze, recebi uma mensagem de Jill. Li e um grande sorriso se abriu no meu rosto.
— Que foi? — Sydney perguntou.
— Espere só pra ver — eu disse. — Acabamos de receber um grande presente de casamento.
O Firenze, como a maioria dos grandes resorts de Las Vegas, tinha uma área de capelas de casamento, e levei Sydney até lá através do cassino. Um homem com o uniforme do hotel estava andando nervoso de um lado para o outro em frente às capelas e parou ao nos ver.
— Você é Adrian? — ele perguntou.
— Em carne e osso.
Ele pareceu aliviado.
— Certo, vocês têm dez minutos pra entrar e sair antes que eu me meta em encrenca. Uma festa grande reservou essa área e eles vão começar a aparecer daqui a pouco.
— É todo o tempo de que precisamos — eu disse, entregando um maço de notas ao homem.
— Por aqui — ele disse, nos guiando até uma porta marcada como CAPELA TOSCANA. Ele a abriu para nós.
Sydney me lançou um olhar surpreso.
— Você subornou o moço pra gente casar?
— Os melhores lugares agendam com antecedência, até em Las Vegas. — Fiz sinal para ela entrar. — Esse era o único jeito de te levar pra Itália.
Ela entrou e riu, olhando ao redor com encanto. A capela era pequena, projetada para caber cerca de cinquenta pessoas, e estava pintada com a ideia americana de esplendor da Itália. Murais nas paredes representavam campos de uvas, enquanto o teto abobadado estava coberto de anjos. Um exagero de ornamentos dourados em todo o salão era de um gosto questionável, mas, pela maneira como os olhos dela estavam brilhando, nada disso importava.
Na frente da capela havia um altar coberto de flores. Um oficial de justiça estava parado atrás dele, com um dos fotógrafos do hotel por perto. Eu também devia dinheiro para eles. O rapaz que nos deixara entrar trabalhava no serviço de reservas e tive que jogar uma lábia no telefone mais cedo, prometendo fazer aquela negociação ilícita valer a pena para ele caso conseguisse nos arrumar um quarto e o pessoal necessário. Deixamos a sacola em um banco vazio e começamos a nos aproximar do oficial quando me lembrei de uma coisa.
— Ah, espere. Você precisa disso antes.
Peguei a mão de Sydney e coloquei o anel de noivado em seu dedo. Ela perdeu o fôlego diante das pedras cintilantes e me olhou alarmada, entendendo de onde tinha vindo o financiamento daquela aventura.
— Adrian, eram da sua tia.
Eu a guiei adiante.
— E agora são suas.
O oficial sabia das nossas limitações de tempo e realizou a cerimônia mais básica, se atendo apenas ao que era legalmente necessário dizer no estado de Nevada. Mas acrescentou uma parte de sua autoria, palavras que queimaram dentro de mim e que repeti mentalmente enquanto inseria o pequeno círculo cintilante de rubis no dedo de Sydney:
— Até agora, vocês levaram suas vidas sozinhos. Todas as decisões que tomaram foram tomadas individualmente. Agora, e pelo resto dos seus dias, suas vidas estarão ligadas uma à outra. Todas as decisões que tomarem serão para os dois. O que um fizer afetará o outro. Vocês são uma família, uma equipe... inseparável e indestrutível.
Eram palavras fortes para alguém como eu, que havia levado uma vida bastante egoísta. Mas, ao olhar nos olhos brilhantes de Sydney e ver a esperança e a alegria que irradiavam dela, me senti digno daquele discurso. Estava pronto para dar esse passo conjunto, e tinha consciência de que tudo que fizéssemos dali em diante afetaria nós dois e, futuramente, nossa família. Essa era a maior decisão que eu havia tomado na vida... e a que tomei com mais alegria.
Quando os votos foram feitos e os anéis trocados, o oficial nos pronunciou marido e mulher. Puxei Sydney e dei um beijo nela, cheio de amor e vida e felicidade pelo que aguardava por nós. Quando finalmente nos separamos, o oficial acrescentou:
— É com muito prazer que apresento ao mundo Adrian e Sydney Ivashkov.
O sorriso de Sydney murchou um pouco e não pude conter um resmungo.
— Ah, não. Que foi?
Ela riu.
— Nada, nada. É só que sempre pensei que eu manteria meu sobrenome. Ou pelo menos colocaria um hífen.
— Sério? — eu disse. — E você só me fala isso agora? Me deve outro beijo por isso.
Eu a puxei para perto e acabei ganhando dois beijos. Assinamos a papelada com o oficial de justiça e, depois, paguei ele e o fotógrafo. Também comprei o cartão de memória da câmera ali mesmo, apesar dos protestos do fotógrafo de que ele normalmente retocava as fotos e as colocava na internet.
— Não temos tempo — eu disse, brandindo a varinha mágica do dinheiro. Funcionava tão bem quanto a compulsão.
Feito isso, juntamos nossas coisas e nos despedimos do nosso pedacinho da Itália.
— E agora? — Sydney perguntou, enquanto seguíamos para a porta de mãos dadas.
— Agora saímos daqui e, acredite, vamos com estilo.
O moço das reservas segurou a porta para nós, aliviado ao ver que sua travessura tinha acabado. Eu o agradeci mais uma vez e saí para o saguão de entrada...
... onde um grupo de alquimistas estava à nossa espera.

3 comentários:

  1. Que capítulo carinhoso.
    Sou apaixonado por Sidney, mas cuide bem dela Adrian.

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  2. TÔ MUITO FELIZZZZZZZZZZZZ!!!!!!!!!!! TÔ CHORANDO MAS ESTOU MAIS FELIZ!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! <3 <3 <3!!!!

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  3. Aimeu deus eu adoro os dois... Mas um casamento rapido assim me deixa com uma impressão de " isso aqui é um golpe de estado e não um casamento"...Massss sendo geminiano q sou...AAAAAADDDDDDOOOOOORRRREEEEEIIIIIIIIIIIIIII!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!Ass:Guilis

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Boa leitura :)