19 de outubro de 2017

Capítulo 20

Sydney

RECUEI, AINDA DE JOELHOS, e inspecionei minha obra. Um galão de tinta que poderia ajudar a libertar outros alquimistas cansados do controle de seus superiores. Aquilo mudaria a maneira como Marcus realizava suas missões. Aquilo mudaria tudo.
O poder do que tinha feito com Marcus era parte do motivo por que eu havia concordado com a loucura de Neil. Era outra chance de uma descoberta incrível. Eu vinha pesquisando o tal Strigoi em Los Angeles nos relatórios alquimistas e descobri que Neil estava certo em suas suposições. Tudo indicava que o Strigoi agia em um território muito específico e costumava atuar sozinho. A principal teoria era de que era um recém-transformado. Embora não fossem muito bons em termos de organização, os Strigoi mais experientes sabiam da força que tinham em grupo. Se aquele era um iniciante, melhor para nós. Eu só torcia para que dois dampiros e uma bruxa capaz de lançar fogo bastassem para destruir aquele monstro.
Mas eu sabia muito bem que alguma coisa poderia dar errado, e por isso não tinha contado nada a Adrian. Odiava isso. Sabia que vários relacionamentos acabavam porque uma das pessoas era idiota e escondia uma informação importante. Quando começara a me envolver com ele, jurei que nunca faria uma coisa dessas. No entanto, eu também sabia que duas coisas aconteceriam se ele soubesse dos nossos planos. Uma era que insistiria em ir junto. A outra era que, se alguma coisa desse errado e um de nós se ferisse — ou, no pior dos casos, morresse —, ele nunca se perdoaria por não conseguir nos curar. Já vira isso no rosto dele, tanto antes quanto depois dos medicamentos. A onda do espírito podia ser viciante, mas o que realmente o atormentava era não poder ajudar os outros. Eu não poderia fazê-lo enfrentar esse medo.
Meu último motivo para mantê-lo fora da aventura era puramente egoísta: eu não podia correr o risco de que acontecesse alguma coisa com ele.
Tudo se despedaça.
Eu sabia que as palavras de Adrian eram fruto de seus estados contemplativos e metafísicos. Mesmo assim, elas me atormentavam, talvez porque eu entendesse o que ele estava falando. Havia uma perfeição no que a gente tinha, por mais que fosse em momentos furtivos, e, às vezes, parecia que estávamos dançando no fio de uma navalha e acabaríamos caindo. Enquanto contemplava minha missão com Neil e Eddie, pensei, amargurada, se seria ela que me separaria de Adrian. Tínhamos tanto medo de ser pegos por outras pessoas, mas talvez tudo se despedaçasse porque eu estava entrando em uma missão ao mesmo tempo nobre e imprudente.
O centro não aguenta.
Soltei um suspiro e levantei. Não havia nada a fazer agora. Eu estava decidida. Sydney Sage seria a inconsequente, para variar.
Ao voltar para o quarto, encontrei Zoe terminando a lição de casa. As coisas estavam um pouco mais tranquilas depois da briga sobre o aniversário na véspera, mas ainda havia muita tensão entre nós.
— Oi — cumprimentei, tirando o casaco.
— Oi — ela respondeu. — Terminou o trabalho para a sra. Terwilliger?
Ignorei o tom acusatório.
— Sim. O projeto maior está quase terminado, então acho que vou ter mais tempo livre agora. — Pensei que ela ficaria contente com isso, mas ela ainda parecia chateada, por isso tentei outra abordagem.
— Quer um cupcake? — Eu tinha trazido alguns e dito para ela que eram do Spencer’s, que tinha uma vitrine de doces bem estocada.
Zoe fez que não.
— É muito calórico. E também está quase na hora da janta.
— Você vai jantar com a gente? — perguntei, esperançosa. Assim como eu, ela tinha feito alguns amigos humanos e às vezes preferia ficar com eles em vez do grupo Moroi.
Percebi que ela estava hesitante, mas, depois de um tempo, abriu um sorriso inseguro que me encheu de esperança.
— Claro. — Ela queria que fôssemos irmãs. Mas, como eu, não sabia como fazer aquilo dar certo.
Um dia, pensei. Um dia vou dar um jeito em tudo. Adrian, Zoe. A vida vai ser mais tranquila.
O humor dela melhorou um pouco enquanto descíamos as escadas e falei que ela poderia pegar o carro mais tarde naquela noite para praticar curvas. Pela primeira vez em muito tempo eu ficaria na escola à noite, então poderia dar uma chance para ela treinar com o Mazda. Admito que foi um tanto difícil ceder o carro depois do que eu e Adrian havíamos feito na noite anterior. As memórias estavam no meu corpo e, mesmo naquele momento, eu ficava sem fôlego só de lembrar. O luar, o toque dele. Nunca olharia para aquele carro da mesma maneira, mas meu sentimentalismo não era suficiente para mantê-lo longe de Zoe.
Na lanchonete, encontramos um clima estranho na mesa dos meus amigos. Jill era a única animada, principalmente porque tinha encontrado um par para a festa. Ela iria com um amigo de Micah, o ex-namorado dela.
— É só platônico — ela disse, lançando um olhar significativo para Neil. — Mas vai ser divertido tirar o uniforme pra variar. E é aqui, então segurança não vai ser um problema.
Neil assentiu, mas ficou claro para mim que não tinha ouvido uma palavra do que ela falou. Eddie também parecia distante, o que era surpreendente, já que, por mais que ele negasse gostar de Jill, costumava ter problemas com os meninos com quem ela saía. Ele e Neil estavam com o mesmo ar preocupado e isso disparou um alarme na minha cabeça de que alguma coisa havia acontecido. Quando os vira no dia anterior, os dois estavam pensando na viagem a Los Angeles, mas não pareciam tão taciturnos. Será que algum guardião tinha se adiantado e matado nosso Strigoi “fácil”?
A última peça do drama era Angeline. Ela não se esforçou nem um pouco para esconder a desconfiança. Adrian tinha me contado que ela passara na casa dele no dia anterior, e fiquei observando os olhares fixos que ela lançava para mim e para os meninos. Como vivia distraída, nunca teria imaginado que perceberia sinais tão sutis. Mesmo agora, apesar da vigilância, ela às vezes mudava de assunto aleatoriamente, como quando disse que bolo de carne não era um bolo de verdade ou quando perguntou por que precisava ter aula de digitação se a tecnologia acabaria desenvolvendo robôs para digitar por nós.
Quando começou a falar sem parar sobre o bolo de cenoura da lanchonete e que a cobertura de cream cheese não devia se chamar cobertura porque não era doce, não aguentei mais. Peguei minha bandeja vazia e levantei para pegar mais água. Não foi uma surpresa quando Eddie me seguiu até o outro lado da lanchonete.
— O que aconteceu? — perguntei. — Angeline ainda está criticando o bolo de cenoura?
— Não, agora ela está falando de bolos em geral e discutindo se é melhor passar a cobertura antes ou depois de esfriarem. — Ele soltou um suspiro. — Mas acho que você percebeu que tem mais alguma coisa acontecendo.
— Fale logo.
— A gente acabou de ver uns relatórios de guardiões sobre um grupo de Strigoi que está descendo pela costa. Todos têm certeza que eles vão acabar em Los Angeles.
Entendi na hora o que estava implícito.
— E vocês estão com medo de que acabem se juntando com aquele cara.
Ele fez que sim.
— Quer dizer, a gente não tem certeza, mas é uma nova variável a considerar. Parte do que tornava essa ideia menos maluca era que havia menos atividade Strigoi naquela região.
— O que a gente vai fazer, então? — Eu estava começando a ficar contagiada com a apreensão dele.
— Neil e eu achamos melhor ir amanhã. Os outros Strigoi provavelmente ainda não vão ter chegado, e amanhã é sexta-feira. Sabemos que esse cara gosta de atacar pessoas que vão pra balada.
Soltei um resmungo.
— Eu tinha combinado de comemorar meu aniversário com Zoe. Se eu cancelar… meu Deus. A situação vai ficar feia. As coisas já estão bem ruins entre a gente.
Ele assumiu um ar solidário, mas seus olhos ainda estavam resolutos.
— Pode ser nossa única chance.
Desviando o olhar de Eddie, me voltei para o outro lado do refeitório. Neil tinha ido embora e Zoe estava se levantando, provavelmente para pegar o carro. Angeline ainda estava falando sem parar com Jill, e fiquei me perguntando se era sobre teorias da conspiração. Ou talvez bolos. Ou robôs.
— Está bem — falei para Eddie. — Vou dar um jeito.
E dei, mas, como tinha dito, as coisas ficaram feias.
Zoe estava de mau humor quando voltou do treino de baliza, e torci para que não tivesse batido em nada. No dia seguinte, depois das aulas, seu humor ainda estava péssimo, acabando com todas as chances que eu poderia ter de sair ilesa. Não havia o que fazer senão seguir em frente e dar a má notícia de que meu aniversário seria adiado mais uma vez. Ela estava quase em lágrimas ao fim da “conversa”.
— Por que você faz essas coisas? — ela berrou. — Qual é o seu problema? Quando vim para cá, pensei… pensei que tudo seria ótimo. Pensei que seríamos uma equipe!
— E somos — eu disse. — Estamos fazendo muita coisa, e achei… enfim, achei que você estava começando a se dar bem com os Moroi e os dampiros.
— Sim, mas não é com eles que quero passar meu tempo. É com você, Sydney. A minha irmã! Por que tudo é mais importante do que eu?
Avancei para dar um abraço nela, mas ela me empurrou.
— Zoe, você é importante. Amo você. Mas tem muita coisa que preciso fazer. É assim que nosso trabalho funciona. Às vezes a gente precisa se distanciar da família por um tempo.
— A gente não está distante! Eu estou bem aqui. — Ela limpou os olhos, furiosa. — Você disse que tinha terminado aquele negócio com a sra. Terwilliger! — Mais uma vez, eu havia confiado na velha justificativa, simplesmente porque era uma das poucas coisas sobre as quais ela não podia discutir.
— Era para ter terminado, mas agora a gente descobriu uma biblioteca em Pasadena que tem uma coisa de que a gente precisa. Lembra aquele cara maluco que eu falei que ela está namorando? — Consegui dar uma risada sem graça. — Eles vão a uma exposição de cachorros hoje, então ela só vai estar livre à noite. O bom é que a biblioteca fica aberta até…
— Não ligo pra sua biblioteca idiota! — Zoe me encarou com os olhos frios. Quase dava para tocar naquele gelo. — Quero saber uma coisa, Sydney. E não minta nem fuja da pergunta. O que você vai dizer na audiência?
Essa me pegou de surpresa. Eu estava prestes a contar uma mentira, mas, ao encarar a intensidade nos olhos dela, não consegui.
— Vou falar a verdade — eu disse.
— Que verdade?
— Que tanto a mamãe como o papai têm coisas boas a oferecer. A mamãe não é uma pessoa má, Zoe. Você sabe disso.
O rosto dela estava impassível.
— E, se perguntarem com quem você acha que eu deveria ficar, o que você vai responder?
Olhei em seus olhos, tão parecidos com os meus.
— Com a mamãe.
Ela caiu na cama como se eu tivesse lhe dado um soco.
— Por que faria isso comigo?
— Porque a mamãe ama você — respondi simplesmente. — E você devia ter uma vida normal antes de se comprometer com esta.
— Já me comprometi — ela me lembrou, apontando para a tatuagem na bochecha.
— Não é tarde demais. — Queria poder contar sobre a tinta de sal, mas era óbvio que ela não estava preparada para isso. — Zoe, quando vim para cá, tive a primeira chance na vida de fazer o que as outras pessoas fazem. Ter relacionamentos normais.
— É — ela disse, cheia de ódio. — Eu sei.
— Não é frívolo. É maravilhoso. Eu adoro. Queria que você tivesse essa vida.
— Não parece nenhuma crença alquimista que eu já tenha ouvido.
— E não é… porque estou falando com você como irmã, não como alquimista.
— Você vive alternando entre as duas coisas. Como sabe qual ser em cada momento?
Encolhi os ombros.
— Instinto.
Zoe se levantou. Sua expressão deixou claro que ela não estava convencida.
— Vou sair. Vejo você na mansão de Clarence.
As palavras dela me lembraram que aquela era uma noite de fornecimento e, quando caí na cama, desconsolada, desejei já estar lá. Peguei o Celular do Amor e mandei uma mensagem para Adrian. Mal posso esperar pra ver você hoje. Precisava de você agora. Ele não respondeu imediatamente, talvez porque estivesse fazendo algum trabalho para a faculdade. Continuei escrevendo mesmo assim porque era bom desabafar. Amo você. O centro vai aguentar e, algum dia, a gente vai se livrar de tudo isso.
Mais tarde, quando buscamos Adrian para ir à casa de Clarence, precisei resistir à vontade de sair do carro e correr para os seus braços. Estava com muita coisa na cabeça. Zoe. A viagem para Los Angeles. Não esperava que Adrian lutasse minhas batalhas por mim, mas queria que me desse coragem antes delas.
Ele fez isso sem perceber, quando tivemos um breve momento a sós. Eu tinha saído para jogar fora os restos de comida na cozinha e ele me seguiu um minuto depois.
— Oi — eu disse.
Minha mão tremia de vontade de tocar nele.
— Está tudo bem? — ele perguntou. Eu podia ver o mesmo desejo em seus olhos. — Você não parecia muito bem lá na sala. Quer dizer, sempre está bem bonita, mas… enfim, você entendeu.
— Tive uma briga com Zoe. Os detalhes não importam. O resumo é que ela me odeia agora. — Encolhi os ombros. — Essa é minha vida. Recebeu minhas mensagens?
— Ah. — Ele desviou o olhar. — Era isso que eu queria falar com você… Eu, hum, meio que perdi o Celular do Amor.
Como assim? — Meu mundo balançou. — Adrian! Aquele celular é um registro de tudo que acontece entre a gente. Por favor, me diga que você deletava tudo depois que lia.
A expressão culpada dele me disse que não.
— Relaxa. Não perdi no QG alquimista nem nada do tipo. Tenho quase certeza de que esqueci num café com Rowena ontem. Não tem meu nome nem nada. Clarence vai me emprestar o carro, então vou voltar lá e pegar.
Eu ainda não conseguia impedir o frio que se agitava na minha barriga.
— Isso pode ser um desastre.
— Como? Se não estiver simplesmente embaixo de uma mesa e alguém encontrar, vai no máximo ficar rindo das nossas conversas bobas. Ninguém vai pensar: “Rá! Prova de um romance proibido entre uma humana e um vampiro”.
Ele me fez sorrir, como sempre fazia, mas mesmo assim continuei preocupada. Jill entrou na cozinha nesse exato momento e sorriu ao nos ver. Ela não acompanhava mais nosso relacionamento em primeira mão, mas eu tinha certeza de que sabia que havíamos passado para o próximo nível.
— Boa notícia — ela disse, baixinho. — Acho que você tirou Angeline da sua cola. Ela estava tentando me convencer de que você, Neil e Eddie estavam fazendo coisas escondido. Deve achar que você está namorando um deles.
Ri com a piada, contente por Jill também não estar desconfiada da viagem a Los Angeles.
— Claro, porque não teria problema nenhum ela pensar uma coisa dessas.
Ela ia dizer mais alguma coisa, mas foi interrompida quando outras pessoas entraram para deixar os pratos. Isso também pôs fim à minha conversa com Adrian, e o máximo que pude fazer foi trocar um olhar profundo com ele antes de sair. Torci para sobreviver àquela noite e vê-lo novamente.
Eddie, Neil e eu pegamos o carro para Los Angeles. Só falamos durante o trajeto de duas horas para repassar o plano, o que fizemos centenas de vezes. Os dois estavam armados com estacas de prata e eu tinha praticado o feitiço de fogo o máximo possível. Antigamente, precisaria de materiais físicos e muita concentração. Agora, poderia lançá-lo dormindo.
A gente vai conseguir, eu ficava repetindo. É um ótimo plano.
Encontramos a balada que nosso Strigoi gostava de frequentar. Logo entendi o porquê. Era barulhenta e cheia de gente, e os seguranças não se esforçavam muito para conferir a idade das pessoas, o que significava que havia muitos jovens desavisados. O lugar também era cercado por ruelas escuras e tortuosas, a maioria deserta, exceto pelos bêbados cambaleando de volta para casa. Havia muitos cantos e sombras onde se esconder.
— Aqui — Eddie decidiu. Demos a volta no quarteirão e encontramos um beco sem saída ao lado de um prédio em péssimo estado. Marcus teria se sentido em casa. A janela do segundo andar estava quebrada e, quando Eddie subiu pela lata de lixo, encontrou um apartamento vazio e destruído. — Vamos esperar aqui.
Ele me ajudou a subir e assumimos uma posição que nos escondia quase por completo na escuridão, enquanto nos dava uma boa visão da rua. Neil esperou embaixo, torcendo para o Strigoi morder a isca. Ele tinha feito exercícios intensos antes de sairmos, suando para que o Strigoi sentisse seu cheiro com mais facilidade. Os Strigoi gostavam muito mais de beber sangue de dampiros que de humanos, e adoravam ainda mais o sangue Moroi — e era por isso que eu não queria Adrian nessa aventura. Se nossa vítima sentisse o cheiro de Neil, ele seria uma isca irresistível. Imaginamos que, se o Strigoi sentisse o cheiro de Eddie, o confundiria com o de Neil. O meu estaria misturado ao dos outros humanos da área.
Depois disso, não havia o que fazer além de esperar. Nosso Strigoi normalmente atacava em um horário específico, e tínhamos chegado com antecedência. Torci para que ele estivesse em sua toca enquanto montávamos a armadilha. Também torci para que ele realmente aparecesse naquela noite, senão nossa viagem teria sido em vão.
Quando aconteceu, foi tudo tão rápido que achei que tinha imaginado. O Strigoi saltou do prédio à nossa frente, caindo com facilidade no chão e derrubando Neil com um único movimento. Abafei um grito. Se o Strigoi tivesse olhado ao redor, teria visto nossa janela. Ele devia estar muito animado por encontrar um dampiro sozinho.
Neil estava preso no chão, sem chance de pegar à estaca. Quando o Strigoi se debruçou, ele começou a balbuciar:
— Espere… me transforme… me torne igual a você… me desperte…
O Strigoi parou, e então deu uma gargalhada.
— Despertar você? Sabe há quanto tempo não pego um dampiro? Não vou desperdiçar meu sangue com você. Vou saborear o seu até a última gota.
— Posso te ajudar. Posso te servir. — Não tinha dúvida de que o pavor na voz de Neil era verdadeiro, e mesmo assim ali estava ele, se oferecendo em sacrifício pelo bem maior. Eu queria chorar, mas precisava me manter forte e esperar pela minha parte. — Posso ajudar você a encontrar outros dampiros… e Moroi…
Quando o Strigoi voltou a rir, Eddie se aproximou da minha orelha, tão perto que seus lábios quase me tocaram. Os Strigoi tinham uma ótima audição.
— Ele é forte — Eddie murmurou. — E antigo. Muito antigo. A gente se enganou.
Neil gritou quando o Strigoi mordeu seu pescoço. Eddie ficou tenso, e segurei seu braço.
— Espere. A gente precisa saber.
Eu sabia a agonia que Eddie devia estar sentindo porque eu também a sentia. Ambos queríamos ajudar Neil. Não fazer nada, mesmo que por alguns segundos, ia contra tudo o que nos definia. Os gritos de Neil viraram gemidos de dor e, quando o Strigoi continuou a beber, eu soube a terrível verdade. A tatuagem era um fracasso e…
O Strigoi ergueu a cabeça de repente.
— O que tem de errado com você? — ele rosnou.
Era tudo o que Eddie precisava ouvir. Em um segundo, ele saltou da janela, caindo quase com a mesma leveza que o Strigoi. Eddie já estava com a adaga de prata em mãos quando caiu, mas, para nossa surpresa, o Strigoi se adiantou. Eddie tinha razão. Antigo e poderoso. Talvez antigo e poderoso demais para nós.
Eddie e o Strigoi entraram em uma dança mortal enquanto eu esperava uma oportunidade. Sabíamos que, se a luta se desse em um espaço pequeno, uma bola de fogo poderia nos incinerar também. Minhas instruções haviam sido claras e diretas. Usar o fogo apenas se o Strigoi matasse ou transformasse meus amigos. Eu seria o último recurso, mas desejei que houvesse uma maneira de ajudar Eddie antes disso, porque estava claro que o trabalho tinha sobrado para ele. Neil, ainda que estivesse vivo, estava fora da luta.
Eddie, por sua vez, foi esplêndido. Fazia tempo que eu não o via em ação, e tinha quase esquecido que o irmão adotivo com quem eu fazia piadas e almoçava era um guerreiro letal. Ele fez o Strigoi sofrer para conseguir o que queria, errando só uma vez, quando um golpe potente o jogou contra a parede de tijolos. Ele se recuperou imediatamente, mas pude prever o inevitável. Uma série de pequenos golpes, pequenos ferimentos… teriam seu preço. Combinados com a força e a resistência superiores do Strigoi, seria só uma questão de tempo.
Eu precisava agir. Não podia ficar parada e deixar Eddie ser aniquilado enquanto era capaz de fazer alguma coisa. Lançar uma bola de fogo ainda não era seguro, mas eu poderia criar uma bela distração.
Pulei pela janela, usando a lata de lixo como degrau para descer até o chão. Foi uma desgraça depois da saída incrível de Eddie. Meu pé caiu de mau jeito, e eu tropecei. Nem precisei criar uma distração mágica porque o Strigoi me percebeu imediatamente. Ele empurrou Eddie para trás e disparou na minha direção.
O medo tomou conta de mim quando encarei o olhar fixo naquele rosto cadavérico. No entanto, apesar da vontade irresistível de gritar, ergui a mão e invoquei uma pequena bola de fogo. Minha esperança era assustá-lo o bastante para que Eddie tivesse a chance de enfiar à estaca nele. Para minha surpresa, não funcionou. Ele segurou meu punho e me jogou contra a parede de tijolos. A chama desapareceu, e soltei um grito.
— Não tente essa brincadeira comigo, bruxa — ele grunhiu. — Conheço seu tipo. Conheço seus truques. Seu sangue pode até ser proibido, mas seu pescoço quebra como o de qualquer pessoa.
Pude ver a minha morte nos olhos dele, e não foi medo que senti, mas tristeza, uma tristeza enorme e avassaladora por todas as coisas que nunca faria. Eu nunca voltaria a ver Adrian, nunca construiria uma vida com ele, nunca teria os filhos perfeitos sobre os quais ele brincava. Mesmo as pequenas coisas assumiram um ar terrível de perda. Eu nunca almoçaria com meus amigos novamente, nunca ouviria Angeline fazer seus comentários absurdos. Nunca daria um jeito na minha relação com Zoe.
Foi incrível como tantas coisas passaram pela minha cabeça em um milésimo de segundo. E era incrível como as pequenas coisas da vida se tornavam gigantescas quando se estava prestes a perdê-las.
De repente, o Strigoi deu meia-volta, antecipando um avanço de Eddie. Ele se esqueceu de mim enquanto pulava sobre Eddie outra vez, e não perdi tempo para correr em direção ao corpo caído de Neil. Estava tentando arrastá-lo para longe da luta quando dois vultos entraram correndo no beco. A princípio, pensei que pessoas da festa tinham topado com a gente por acaso. Então os reconheci.
Angeline e Trey.
— Não acredito — eu disse.
Ela estava desarmada, mas Trey estava portando uma espada, a arma favorita dos Guerreiros da Luz.
A presença deles surpreendeu o Strigoi por um segundo, o bastante para que Eddie o empurrasse com força e finalmente desse um golpe ofensivo de verdade. Trey se aproximou pelo outro lado, brandindo a espada perto do pescoço do Strigoi. Angeline me ajudou a levar Neil para longe do perigo e depois se ajoelhou ao lado dele. Ele piscou algumas vezes e sua mão se moveu em direção ao bolso, onde pude ver um brilho prateado. Angeline pegou à estaca e a segurou enquanto observávamos o desenrolar do combate diante de nós.
O Strigoi estava preso entre Eddie e Trey, mas não parecia intimidado. Media os dois e pude adivinhar seus pensamentos. Mesmo armado e treinado, um humano como Trey era o alvo mais fácil. Seria melhor acabar com ele imediatamente ou cuidar da ameaça maior antes? O Strigoi escolheu a primeira opção, avançando contra Trey enquanto se esquivava de um ataque de Eddie. O impacto jogou Trey no chão, mas custou um momento de atenção do Strigoi, que Eddie aproveitou para acertar um golpe violento com a estaca.
O Strigoi soltou um uivo de dor, mas não recuou. Ele conseguia atacar e se defender sem esforço aparente. Ninguém ganhava terreno e minha frustração só crescia. Eu me sentia de mãos atadas e tentei me lembrar de algum feitiço que pudesse usar. Tinha um vasto repertório na ponta dos dedos, mas, com a maneira irregular como todos se moviam, não tinha como ter certeza de que não machucaria um dos meus amigos.
Eddie fez um ataque desesperado e conseguiu derrubar o Strigoi no chão. Sem que fosse preciso nenhuma comunicação, Trey avançou com a espada para decapitar o monstro. Mas o Strigoi voltou a nos frustrar. Ele se levantou em um salto, dando um chute giratório que derrubou os dois. Pelo jeito, decidiu mudar de tática e avançou contra Eddie dessa vez, e até eu pude ver que ele estava se levantando devagar demais.
Foi quando aconteceu o impensável. Uma densa névoa branca se ergueu de repente do chão coberto por poças d’água, envolvendo e cegando o Strigoi por um momento. Foi então que Angeline agiu. Todos tinham se esquecido dela, inclusive eu. Ela se ergueu de onde estava ao meu lado, avançou sem hesitar e enfiou a adaga de prata nas costas do Strigoi. Ele gritou. Não foi o bastante para matar a criatura, mas foi o suficiente para que Eddie se recuperasse e enfiasse a própria estaca no coração dele. O Strigoi se debateu um pouco, numa última tentativa de se salvar, e então caiu inerte. Reinou o silêncio enquanto todos continham a respiração.
— O que você está fazendo aqui? — Eddie perguntou.
— Salvando vocês — Angeline disse. — Eu sabia que tinha alguma coisa acontecendo.
— Não estou falando com você — ele retrucou. Ele derrubou à estaca e passou por ela, na direção da entrada do beco. Havia uma figura alta e magra parada ali, com o cabelo refletindo a luz do poste. Jill. Lembrei do momento em que a água no chão tinha se transformado em névoa e tudo fez sentido.
— Você não deveria estar aqui! — Eddie exclamou, parando diante dela. Foi uma das poucas vezes em que o vi bravo. Sem dúvida, nunca o vira bravo com ela. Ele lançou um olhar furioso para Angeline antes de se voltar para Jill outra vez. — Eles não deviam ter trazido você.
— Tenho o direito de estar aqui, sim — ela retrucou. — Quando Angeline finalmente nos convenceu, eu sabia que precisávamos ajudar. E ajudamos.
Eddie não se deu por vencido.
— Não importa o que eles fizeram. Se querem colocar a vida em risco, é problema deles. Mas uma princesa como você não tem o direito de se meter em perigo.
— Uma princesa como eu não tem o direito de ficar parada quando seus súditos estão em perigo.
— Você tem ideia do que poderia ter acontecido se…
— Ah, cale a boca — ela disse, se aproximando dele. Ele recuou, surpreso, mas, quando ela o beijou, a tensão abandonou seu corpo.
Balancei a cabeça e desviei o olhar.
— Caramba — eu disse, para ninguém em particular. — Essa noite está cheia de surpresas.
Passado o perigo imediato, consegui examinar Neil com mais atenção. Ele estava fraco e atordoado devido à perda de sangue e às endorfinas do Strigoi, mas tinha sobrevivido.
— Ei — eu disse, tocando seu rosto de leve. Ele levantou os olhos entorpecidos, sem me reconhecer. — Você conseguiu. Provou que a tatuagem funciona. Temos um jeito de impedir que os Strigoi bebam nosso sangue. — Mesmo que, tecnicamente, o sangue de Olive não impedisse a transformação, os Strigoi não beberiam sangue suficiente da pessoa tatuada para completar o processo.
Neil abriu um sorriso confuso e cerrou os olhos.
— Precisamos hidratá-lo — Eddie disse. Jill estava a alguns metros dele agora, mas ele tinha um ar surpreso e apaixonado. — Vamos voltar para o carro.
Enquanto ele e Trey ajudavam Neil a se levantar, cuidei do Strigoi, destruindo o corpo com substâncias alquimistas. Enquanto observava aquele rosto horripilante se desfazer em fumaça, tive um momento de clareza surreal. Eu me lembrei daqueles segundos assustadores, quando tinha pensado que tudo que amava e conhecia, tudo que me tornava quem eu era, desapareceria desse mundo. Eu e meus amigos tínhamos acabado de brincar com a morte, combatendo aquele demônio. Ele tinha sido destruído, mas o risco fora enorme. A qualquer momento, o Strigoi podia ter ganhado terreno e matado um ou mesmo todos nós. A vida e a morte eram tão próximas, e oscilávamos entre elas. Mas, naquela noite, vencemos a morte. Estávamos vivos e o mundo era belo. A vida era bela, e eu me recusava a desperdiçar a minha.
Ao voltar para os carros, Angeline e Trey se gabaram de ter ficado de tocaia para nos seguir.
— Eu sabia — ela disse. Ela estava de mãos dadas com Trey e eu não tinha a energia mental para pensar sobre aquilo naquele momento. — Sabia que alguma coisa ia acontecer hoje.
— Você fez bem — eu disse a ela. — Muito bem mesmo. — Seus olhos arregalados mostraram que ela estivera esperando uma bronca. Talvez merecesse uma, mas eu não estava no clima. Nós a tratávamos como uma piada, mas ela tinha lutado contra o demônio com tanta coragem quanto Eddie ou Neil. Ao olhar de relance para Trey, que estava tentando esconder a espada sob o casaco, percebi que ele era um de nós também. Assim como Jill.
— Na verdade, eu não acreditei — Jill disse, com um sorrisinho. — Quando Angeline me disse que estava indo, fui avisar você. Zoe falou que você tinha saído e foi então que percebi que realmente poderia estar acontecendo alguma coisa, então vim junto.
Angeline ficou boquiaberta.
— Você estava indo me dedurar? Foi por isso que veio?
Jill deu de ombros.
— Deu tudo certo no fim.
— Desta vez — eu disse. Eu não estava a fim de dar bronca, mas depois seria preciso. Eddie tinha razão. Não havia problema que o resto de nós fizesse coisas imprudentes, mas o motivo de estarmos ali em primeiro lugar era proteger Jill. Tudo teria ido pelos ares se o Strigoi tivesse vencido.
No meu carro, fizemos um curativo no ferimento de Neil e demos água e suco de laranja para ele. Aos poucos, se livrou das endorfinas e sorriu ao se tocar do que tínhamos feito. Acho que ainda não tinha percebido que Jill estava lá, senão não estaria tão animado.
— Deu certo mesmo. Conseguimos. — Ele soltou um riso leve, e tentei lembrar se já o vira rir antes. — A gente vai ouvir muito quando ficarem sabendo.
Eddie sorriu em resposta e notei uma amizade sincera entre eles.
— Duvido que a bronca vá durar muito quando a gente contar os resultados.
— Qual é o plano agora? — Trey perguntou. — Já passou do toque de recolher.
— Vocês assinaram a saída? — Eddie perguntou. Eles fizeram que não. — A gente também não. O plano era ficar fora a noite toda e voltar às escondidas amanhã quando as coisas estivessem movimentadas. Se tudo der certo, ninguém vai perceber nada. Nenhum dos nossos colegas de quarto vai nos dedurar.
— A gente podia ir para a casa de Clarence ou de Adrian — Angeline sugeriu.
— Estou com fome — Neil murmurou.
— Conheço um lugar vinte e quatro horas ótimo — Trey disse. — Vamos comemorar a vitória com fritura.
Fizemos os planos e voltamos para Palm Springs. Assim que Eddie, Jill e eu estávamos na estrada, eu disse:
— Preciso ver Adrian. Pode me deixar na casa dele e levar o carro. Ele me dá uma carona de volta.
Eddie pareceu completamente surpreso.
— Por que você precisa ver Adrian?
— Só preciso. — Não quis inventar uma desculpa, e Eddie não era o tipo que me encheria de perguntas. O máximo que recebi foi um olhar curioso quando chegamos ao prédio. Sua curiosidade se transformou em pânico quando ele se tocou que eu ia deixá-lo sozinho com Jill.
— Boa sorte — eu disse ao sair, sem saber ao certo quem precisaria de mais. — Me liga se acontecer alguma coisa com Neil. — Ele tinha voltado com Trey e Angeline e eu achava que não teria problemas. Estava conseguindo ficar em pé quando saímos, e os dampiros se curavam rápido.
Eddie estacionou e segui para o prédio de Adrian. Ainda não havia me esquecido da adrenalina de antes, quando estivera tão perto de perder a vida.
Destranquei a porta do apartamento com a minha chave; estava escuro e silencioso. Era incrível como ele andava dormindo bem. Entrei em seu quarto na ponta dos pés e o encontrei deitado só de cueca, enrolado nos lençóis e com um braço sobre a cabeça. A luz de um poste na rua brilhava tênue em seu rosto, iluminando um raro momento de paz durante o sono. Ele estava tão bonito que quase acreditei no comentário dele de que vivíamos em um sonho.
Mas aquilo era realidade, e estávamos vivos. Estávamos vivos e eu precisava desesperadamente me lembrar disso. Sem hesitar mais, tirei a roupa e me deitei ao seu lado.

Um comentário:

  1. Não consigo me livrar do pressentimento de que vai dar mto ruim

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Boa leitura :)