13 de outubro de 2017

Capítulo 20

IAN ME ACORDOU CEDO na manhã seguinte com um telefonema. No começo, pensei que talvez quisesse me levar para a base antes que os outros alquimistas acordassem, mas descobri que ele só queria tomar café. Considerando que era ele quem me daria acesso, não pude recusar. Ele pretendia me levar para a base ainda de manhã, mas o convenci a irmos lá pelo meio-dia. Isso significava prolongar o café da manhã, mas o sacrifício valeria a pena. No entanto, eu estava usando calça cáqui e blusa de linho outra vez.
Espionagens à parte, vestidos de festa e bufês de café da manhã simplesmente não combinavam. No entanto, me dei ao luxo de abrir dois botões da camisa. Entrar na base desse jeito era praticamente escandaloso, e Ian pareceu fascinado com o ato de “rebeldia”.
O domingo na base estava muito mais calmo do que a noite anterior. Embora alquimistas nunca tivessem pausas de verdade em suas obrigações, a maior parte da base funcionava em horário comercial, durante a semana. Não tive problemas em passar pela recepção principal de novo, mas, como previsto, demoramos um pouco para conseguir entrar na área de segurança máxima. O rapaz em serviço não era o amigo que estava devendo um favor a Ian. Foi preciso esperar que ele saísse da sala dos fundos e, mesmo assim, Ian precisou insistir bastante para convencer o colega a me deixar entrar. Acho que ficou claro para os dois que Ian só estava tentando me impressionar. Por fim, o primeiro rapaz aceitou o que parecia ser um passeio inofensivo. Afinal, eu também era uma alquimista, e só estava fazendo um passeio pela biblioteca. O que poderia dar errado?
Eles revistaram minha bolsa e me fizeram passar por um detector de metal. Eu tinha dois feitiços em mente que poderia realizar sem componentes físicos, então, pelo menos, não teria que explicar cristais ou ervas. A parte problemática era um pen drive que havia escondido no sutiã. Eles poderiam não questionar se eu estivesse carregando na bolsa, mas não queria correr o risco de pedirem para retê-lo. No entanto, se o pen drive aparecesse no escaneamento, eu teria muito mais dificuldade para explicar por que estava escondido. Fiquei tensa ao passar pelo detector, me preparando para correr ou tentar um golpe de Wolfe. Mas, como eu esperava, ele era pequeno demais para ser detectado e nos deram permissão para entrar. Era um obstáculo a menos, embora isso não me deixasse menos tensa.
— Você acabou trocando isso pelo dinheiro que ele estava devendo a você? — perguntei enquanto Ian e eu descíamos em direção aos arquivos.
— Sim. — Ele fez uma careta. — Tentei trocar por metade do que ele me devia, mas era tudo ou nada pra ele.
— Então quanto este passeio está custando pra você?
— Cinquenta dólares. Mas vale a pena — ele acrescentou, rápido.
O jantar tinha sido mais ou menos o mesmo. Aquele fim de semana estava custando os olhos da cara para Ian, ainda mais porque só eu receberia uma recompensa. Não pude deixar de me sentir um tanto culpada, e precisei me lembrar várias vezes de que aquilo era por uma boa causa. Teria me oferecido para reembolsar todo aquele dinheiro, mas algo me dizia que isso ia contra tudo que eu vinha tentando conseguir com meus “encantos femininos”.
Os arquivos eram trancados com fechaduras eletrônicas que se abriram quando Ian passou seu cartão. Quando entramos, quase me esqueci de que aquilo era apenas um pretexto para o plano maior. Eu estava rodeada por livros, livros e mais livros, além de rolos de papel e documentos escritos em pergaminho. Itens antigos e delicados ficavam protegidos em caixas de vidro, acompanhados por anotações e plaquetas sobre como acessar suas cópias digitais nos computadores. Dois alquimistas, jovens como nós, trabalhavam em mesas e transcreviam livros antigos em seus laptops. Uma parecia muito animada com seu trabalho; o outro, entediado. Ele pareceu gostar da distração quando entramos.
Devo ter feito a expressão admirada como era esperada de mim, pois, quando me voltei para Ian, ele estava me observando com orgulho.
— Bem legal, né? — Pelo jeito, ser um bibliotecário supervalorizado havia se tornado um trabalho muito mais interessante para ele. — Venha.
Ele não precisou falar duas vezes. Começamos a explorar toda a sala de arquivos, que se estendia muito mais além do que eu havia imaginado a princípio. Os alquimistas prezavam pelo conhecimento, o que ficava claro com aquele acervo, que remontava a séculos atrás. Eu ficava olhando para as prateleiras, querendo ler todos os volumes. Eles vinham em diferentes línguas e abarcavam uma variedade de tópicos úteis para o ofício: química, história, mitologia, sobrenatural... Era vertiginoso.
— Como vocês organizam? — perguntei. — Como dá para encontrar alguma coisa?
Ian apontou para pequenas plaquetas nas estantes que eu não havia notado. Elas traziam códigos alfanuméricos que não faziam parte de nenhum sistema de arquivamento que eu conhecia.
— Elas catalogam tudo. E o diretório está aqui.
Ian me levou até um painel sensível ao toque instalado na parede. Toquei nele e apareceu um menu de opções: AUTOR, PERÍODO, TEMA, LÍNGUA. Apertei TEMA e fui levada por uma série de tópicos cada vez mais específicos até finalmente perceber que estava pesquisando por “magia” na seção de sobrenatural. O painel me deu uma lista de títulos, cada um com seu próprio código no sistema de organização.
Para a minha surpresa, realmente havia vários livros sobre magia, e fiquei morrendo de curiosidade. Os alquimistas tinham registros de bruxas? Ou era tudo especulação? O mais provável era que fossem livros moralistas pregando como seria pervertido para humanos tentar aquelas façanhas.
— Posso dar uma olhada em alguns livros? — perguntei. — Sei que não posso ficar sentada lendo a tarde toda, mas é que tem tanta história... só quero fazer parte disso por um tempinho. Ficaria devendo uma para você.
Para falar a verdade, não achei que a frase funcionaria de novo, mas funcionou.
— Claro. — Ele apontou para uma salinha nos fundos. — Preciso organizar algumas coisas. Me encontra aqui de novo em uma hora?
Agradeci várias vezes e então voltei à tela sensível ao toque. Queria muito investigar os livros de magia, mas precisava me lembrar do motivo de estar ali. Como já estava nos arquivos, poderia muito bem fazer uma pesquisa que ajudasse a causa. Naveguei pelos menus até encontrar a seção de história antiga dos alquimistas. Eu tinha esperança de encontrar uma referência a caçadores de vampiro em geral ou aos guerreiros em específico. Não tive essa sorte. O melhor que poderia fazer era seguir os códigos das várias estantes que detalhavam a formação dos alquimistas. A maioria dos livros era densa e escrita em estilo antiquado. Os mais antigos nem eram em inglês.
Passei os olhos por alguns e logo percebi que uma tarefa como aquela levaria muito mais do que uma hora. Os livros mais recentes não mencionavam os guerreiros, o que não era nenhuma surpresa, visto que essas informações agora eram escondidas. Se eu fosse encontrar alguma referência a caçadores de vampiros, seria nos livros mais antigos. Eles não ofereciam muito em termos de índices e sumários, e eu não tinha como ler tudo. Ao lembrar da minha verdadeira missão ali, coloquei os livros de lado depois de uns dez minutos e fui atrás de Ian. Aquela tensão de antes retornou, e comecei a suar frio.
— Ei, tem algum banheiro aqui?
Torci para que não tivesse. Eu vira um no corredor quando tínhamos chegado àquele andar. Parte do meu plano dependia de sair dos arquivos.
— Descendo o corredor, perto das escadas — ele disse. Algum problema de trabalho estava exigindo a atenção dele e, com sorte, faria com que não reparasse na hora. — Bate na porta quando voltar. Vou falar para os escribas abrirem pra você.
Durante todo o dia, eu tinha sentido um frio na barriga que vinha tentando ignorar. Agora não havia como fugir. Era hora do impensável.
Não havia espaço para sutilezas na segurança alquimista. O corredor tinha uma câmera em cada ponta. Elas ficavam voltadas uma para a outra, proporcionando uma imagem longa e contínua do corredor. Os banheiros ficavam no fim do corredor, quase diretamente embaixo de uma câmera. Entrei no feminino e verifiquei que não havia ninguém nem câmeras lá dentro. Pelo menos ali os alquimistas permitiam um pouco de privacidade.
Lançar o feitiço de invisibilidade foi fácil. Sair foi um pouco mais complicado. A posição das câmeras me fez pensar que a porta do banheiro era muito rente à parede para que conseguissem dar uma boa visão dela. A porta se abria para dentro, então consegui sair discretamente, confiante de que nenhuma câmera havia pegado uma porta se abrindo misteriosamente. O maior problema foi a porta da escada. Ficava no campo de visão de uma das câmeras. A sra. Terwilliger havia dito que o feitiço de invisibilidade me protegeria de fotos e vídeos. Por isso, não tinha medo de ser vista. Simplesmente precisava correr o risco de a câmera gravar a porta se abrindo sozinha.
Embora soubesse que havia guardas assistindo às imagens das câmeras ao vivo, havia muitas para que eles examinassem todas a cada segundo. Se não aparecesse nenhum movimento súbito naquela câmera, eu duvidava que algum guarda notaria. E, se as coisas continuassem tranquilas naquele andar, ninguém teria motivo para rever as imagens. Já o andar de operações... bom, se tudo corresse de acordo com o plano, aquele domingo sonolento estava prestes a ficar muito mais agitado.
Entrei e saí discretamente das escadas, abrindo a porta o mínimo possível. O andar de operações tinha ainda mais segurança do que o de arquivos, com portas pesadas de aparência industrial que exigiam códigos e cartões de acesso. Eu não tinha a ilusão de que conseguiria invadir alguma delas. Entrar na sala de segurança, assim como o resto daquela missão, exigia uma estranha combinação de sorte e lógica. O que mais se podia esperar de alquimistas era a pontualidade. Eu sabia como os horários deles costumavam funcionar. A pausa para o almoço acontecia pontualmente em horas típicas: onze, meio-dia e uma. Esse era o motivo pelo qual eu havia pedido para Ian marcar nossa visita nesse horário — assim, poderia ficar relativamente certa de que alguns funcionários estariam entrando e saindo da sala. Faltavam cinco minutos para o meio-dia, e cruzei os dedos para que alguém saísse logo.
No fim das contas, alguém entrou. Um homem veio assobiando pelo corredor. Quando se aproximou da porta, o cheiro de hambúrguer denunciou seu pedido de almoço. Prendi a respiração enquanto ele passava o cartão e digitava os números. A fechadura soltou um estalo, e ele abriu a porta. Entrei apressada atrás dele e passei pela porta sem ter de segurá-la ou abri-la mais. Infelizmente, ele parou antes do que eu imaginava, e esbarrei nele. Me afastei imediatamente, e ele olhou ao redor, sobressaltado.
Por favor, não pense que tem uma pessoa invisível aqui. Seria horrível chegar tão longe e ser descoberta logo agora. Felizmente, subterfúgios mágicos não eram a primeira coisa em que os alquimistas pensavam para justificar algo estranho. Depois de mais alguns segundos de confusão, ele deu de ombros e cumprimentou um dos colegas.
Wade havia descrito a sala com perfeição. Uma parede era coberta por monitores, alternando entre visões de diferentes câmeras. Alguns guardas ficavam de olho nas imagens, enquanto outros trabalhavam em computadores. Wade também havia dito qual dos computadores continha os arquivos de que eu precisava. Eu me aproximei dele, tomando cuidado para evitar outros contatos acidentais. Uma mulher já estava sentada na estação.
— Eu estava pensando em comida tailandesa — ela disse a um dos colegas. — Só preciso terminar esse relatório.
Não! Ela estava prestes a sair para o almoço. Para que o plano desse certo, isso não poderia acontecer. Se ela saísse, o computador travaria, e eu precisava dele acessível. Ela estava atrasada para o almoço, o que significava que eu tinha que agir logo.
Aquela sala não era livre de vigilância. Até os vigilantes eram vigiados. Felizmente, só havia uma câmera. Escolhi um computador com a tela virada para a câmera e me posicionei atrás dele. Vários fios saíam de trás do painel e as ventoinhas giravam constantemente lá dentro. Coloquei a mão em cima do painel e fiz mais um exame rápido. A parte de trás do computador não ficava ao alcance da câmera, mas não seria nada bom se ficasse no campo de visão de alguém. No entanto, todo mundo parecia ocupado. Era hora de agir.
Criei uma bola de fogo, das menores. Eu a mantive na mão e a pousei junto ao painel. Apesar do tamanho, invoquei o maior calor que consegui. Não exatamente azul, mas quase lá. Logo surtiu efeito e, em questão de segundos, as cordas e o painel começaram a derreter. O cheiro de plástico queimado chegou até mim, e o computador começou a soltar fumaça. Foi o suficiente. Fiz a bola de fogo sumir e me afastei correndo do computador. Todos tinham percebido que ele estava queimando a essa altura, e um alarme disparou. Houve gritos de surpresa, e alguém pediu um extintor de incêndio aos berros. Todos se levantaram de suas cadeiras para olhar, incluindo a mulher que estava no computador que eu precisava usar.
Não havia tempo a perder. Sentei imediatamente na cadeira e inseri o pen drive. Com luvas, peguei o mouse e comecei a clicar pelos diretórios. Wade não havia conseguido me ajudar muito nesse aspecto. Tínhamos esperança de que encontrar os arquivos seria intuitivo. Enquanto isso, eu estava plenamente ciente do passar do tempo, e de que alguém poderia notar um mouse se mexendo sozinho. Mesmo depois de apagar o fogo, os alquimistas continuaram perto do computador fumegante, tentando imaginar o que teria acontecido. Superaquecimento não era um problema raro, mas uma chama surgindo tão rápido definitivamente era. Aqueles computadores continham informações extremamente importantes.
Parecia haver milhões de diretórios. Olhei alguns candidatos prováveis, mas nunca chegava a lugar nenhum. Cada vez que ficava sem saída, xingava mentalmente o tempo perdido. Os alquimistas não ficariam longe por muito tempo. Por fim, depois de muita busca estressante, encontrei um diretório de imagens antigas de vigilância. Continha pastas ligadas a todas as câmeras do prédio, incluindo uma chamada POSTO DE CONTROLE PRINCIPAL. Cliquei nela e encontrei arquivos nomeados por data. Wade havia dito que, depois de um tempo, aqueles arquivos eram armazenados, mas o dia de que eu precisava ainda estava lá. As câmeras gravavam um quadro por segundo. Multiplicado por vinte e quatro horas, isso gerava um arquivo gigantesco, mas não do tamanho que uma filmagem contínua criaria. O arquivo cabia no meu pen drive, e comecei a transferência.
A conexão era rápida, mas, mesmo assim, era uma transferência e tanto. A tela me disse que ainda faltavam dez segundos. Dez segundos! A dona do computador poderia voltar a qualquer momento. Eu me dei ao luxo de dar mais uma olhada nos alquimistas. Eles ainda estavam apurando o mistério. O problema de cientistas como nós era que uma falha tecnológica como aquela era fascinante. Além disso, não passou pela cabeça de nenhum deles considerar uma explicação sobrenatural. Eles ficaram lançando teorias uns para os outros e começaram a desmontar o computador derretido. A cópia dos arquivos terminou, e me levantei correndo da cadeira, no exato segundo em que a mulher começou a voltar para lá. Eu estava plenamente preparada para arriscar mais uma “porta fantasma” enquanto os outros estavam distraídos, mas o alarme de incêndio havia chamado a atenção de outras pessoas no corredor. Alquimistas entravam e saíam com tanta frequência que não vi problema em segurar a porta por tempo suficiente para passar por ela despercebida.
Praticamente corri de volta para o andar dos arquivos e precisei me acalmar quando entrei no banheiro de novo. Desfiz o feitiço de invisibilidade e esperei que minha respiração voltasse ao normal. Coloquei o pen drive de volta no sutiã e as luvas de volta na bolsa. Dei uma olhada no espelho e achei que estava parecendo inocente o bastante para voltar aos arquivos.
Uma escriba me deixou entrar. Era a menina concentrada, e o olhar que me lançou deixou claro que abrir a porta para mim era um desperdício de tempo. Ian ainda parecia atolado de trabalho, o que foi um alívio. Eu tinha ficado fora tempo demais para uma ida ao banheiro, e estava com medo de que ele estivesse se perguntando onde eu estava. As coisas teriam sido ainda piores se ele tivesse mandado a menina me procurar, tanto porque eu não estaria no banheiro como porque ela ficaria muito incomodada com a interrupção.
Na seção de história, me sentei com um livro que peguei ao acaso e fiquei fingindo ler. Estava nervosa e inquieta demais para entender as palavras, por mais que tentasse me acalmar. Os alquimistas não tinham motivo para suspeitar que eu havia causado o fogo. Não tinham motivo para pensar que eu havia roubado informações. Não tinham motivo para desconfiar que eu estivesse ligada a qualquer parte daquilo.
Passada a uma hora, Ian veio a meu encontro e fingi estar desapontada por ter que ir embora. Na verdade, estava louca para dar o fora daquele prédio o mais rápido possível. Ele me levou até o aeroporto e não parou de falar sobre a próxima vez em que nos veríamos. Fiquei sorrindo e concordando com a cabeça, como ele esperava de mim, mas o lembrei de que o trabalho tinha que vir em primeiro lugar e que minha posição era especialmente desgastante. Ele ficou visivelmente decepcionado, mas não tinha como negar minha lógica. O bem maior dos alquimistas vinha em primeiro lugar. Felizmente ele não tentou um daqueles beijos ridículos de novo, embora sugerisse que marcássemos uma conversa por vídeo qualquer hora. Falei para ele me mandar um e-mail, embora prometesse a mim mesma que jamais abriria um e-mail dele.
Não relaxei até o avião decolar, quando a possibilidade de ser descoberta pelos alquimistas parecia bem mais baixa. Meu lado mais paranoico ficou com medo de que houvesse um grupo esperando por mim no aeroporto de Palm Springs, mas, até lá, eu tinha algumas horas de paz.
Eu havia imaginado que simplesmente entregaria o pen drive para Marcus e deixaria por isso mesmo. Mas agora, com o arquivo em mãos, a curiosidade foi mais forte. Eu precisava solucionar aquele mistério. Será que o Z. J. que havia visitado os alquimistas era mesmo o mestre Jameson?
Com um copo de café na mão, abri o arquivo e comecei a assistir.
Mesmo com um quadro por segundo, o vídeo durou uma eternidade. A maior parte não mostrava nada além de um posto de controle pacato, e os momentos mais interessantes eram quando os guardas mudavam de posição ou faziam intervalos. Muitos alquimistas entravam e saíam, mas, considerando a duração total do vídeo, eram poucos e esparsos. Até Ian apareceu uma vez, para começar seu turno.
Eu não estava nem na metade quando o avião começou a descer. Desanimada, me preparei para uma noite com mais do mesmo quando voltasse ao alojamento. Pelo menos conseguiria fazer um café decente para aguentar aquilo. Quase fiquei tentada a simplesmente jogar o arquivo nas mãos de Marcus no dia seguinte e deixar que ele tivesse o trabalho de assistir o vídeo... mas aquela vozinha incômoda insistindo para que eu descobrisse a verdade por conta própria acabou vencendo. Não era uma questão de mera curiosidade. Eu não achava que Marcus fosse realmente fabricar evidências, mas, se pudesse ver com os próprios olhos que...
Lá estava ele na tela.
Ele não estava usando aqueles mantos exagerados, mas não havia como confundir sua barba antiquada. Ele usava roupas casuais de executivo e parecia estar sorrindo com algo que um homem ao seu lado dizia. O homem tinha um lírio na bochecha, mas não era ninguém que eu conhecia.
Mestre Jameson. Com os alquimistas.
A conspiração de Marcus e dos outros Vingadores tinha dado frutos. Um lado mais desconfiado de mim queria acreditar que aquilo era uma montagem, que talvez eles tivessem alterado o vídeo e plantado aquilo lá. Mas não. Eu mesma tinha copiado o arquivo de um servidor alquimista. Era possível que Marcus tivesse outros agentes infiltrados trabalhando para ele, mas aquilo não havia sido fácil para mim, mesmo com a ajuda de magia. Além disso, por que Marcus teria tanto trabalho para me fazer acreditar naquela história? Se fosse alguma trama perversa para que eu me juntasse a ele, havia vários outros meios que ele poderia ter tentado, com evidências muito mais fáceis de forjar.
Meus instintos me diziam que aquilo era verídico. Eu não tinha me esquecido das semelhanças entre nossos rituais ou do fato de que os guerreiros queriam que nossos grupos se unissem. Os alquimistas e os guerreiros podiam não ser melhores amigos ainda, mas alguém havia ao menos concedido uma reunião ao mestre Jameson. A questão era: o que havia acontecido nessa reunião? Será que o alquimista do vídeo tinha mandado Jameson embora de mãos abanando? Ou será que os dois estavam juntos agora?
Fosse qual fosse o resultado, era uma prova irrefutável de que alquimistas e guerreiros ainda estavam em contato. Stanton me dissera que apenas os vigiávamos e que não tínhamos interesse em ouvir o que eles tinham a dizer.
Não era a primeira vez que mentiam para mim.

Um comentário:

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Boa leitura :)