3 de outubro de 2017

Capítulo 20

ENCONTRAR TREY ERA MAIS FÁCIL falar do que fazer. Entrar no alojamento masculino num horário normal já seria difícil para mim. Mas, depois do toque de recolher, no meio da madrugada, era praticamente impossível. Precisei recorrer a opções criativas e liguei para Eddie enquanto levava Adrian até a casa dele. Uma coisa sobre a qual eu nunca precisava me sentir culpada era ligar para Eddie a qualquer hora do dia ou da noite.
Ele mantinha o toque bem alto (para a infelicidade de Micah, sem dúvida) e eu suspeitava que dormia com o celular ao lado do travesseiro.
— Alô? — A voz de Eddie soou alerta e disposta, como se não estivesse dormindo. Era simplesmente o jeito dele.
— Preciso que você tente acordar o Trey — disse a ele. — Sonya foi raptada e está sendo mantida em cativeiro num lugar estranho com um logotipo que é igual à tatuagem dele. Precisamos descobrir o que ele sabe.
Essa era a primeira vez que Eddie ouvia falar sobre o sequestro de Sonya, mas não pediu nenhuma informação extra, tampouco perguntou como eu havia descoberto a localização dela. Ele sabia que Sonya havia corrido perigo recentemente, e essa mensagem rápida era o bastante para fazê-lo entrar em ação. Não sabia o que realmente aconteceria quando Eddie encontrasse Trey, já que eu não teria como conversar com ele pessoalmente até a manhã seguinte. Mesmo assim, precisávamos começar por algum lugar.
— Certo — Eddie disse. — Eu cuido disso. Depois ligo para você.
Desligamos, e contive um bocejo.
— Lá vamos nós. Espero que Eddie consiga descobrir alguma coisa.
— De preferência, sem espancar Trey no caminho — Adrian ironizou, aconchegando-se no banco do passageiro, o único sinal de que também estava cansado com aquela longa noite. Fazia muito tempo que ele havia abandonado a rotina noturna, típica dos vampiros. — Isso limitaria muito o quanto vamos descobrir.
Franzi a sobrancelha.
— Se Trey estiver envolvido nisso, não tenho certeza se quero pegar leve com ele. Mesmo assim... não consigo acreditar que esteja.
— As pessoas vivem mentindo umas para as outras. Olhe para você. Acha que Trey sabe que você faz parte de uma sociedade secreta que ajuda a esconder os vampiros do resto do mundo?
— Na verdade... sim. — Parei no sinal vermelho e relembrei alguns comportamentos estranhos de Trey. — Tenho quase certeza de que ele sabe que Jill é Moroi. Não notou de imediato, mas desde que percebeu, ficou me dizendo para mantê-la escondida. Então, depois que Sonya foi atacada, disse para eu tomar cuidado. — Uma terrível descoberta tomou conta de mim. — Ele sabia. Sabia que eu era amiga de Sonya. Provavelmente sabia do ataque e nunca me disse nada!
— Não é nenhuma surpresa se o grupo dele estiver trabalhando contra o seu. — O tom de Adrian se abrandou. — Se faz você se sentir melhor, parece que ele estava em conflito se tentou avisá-la.
— Não sei se me faz sentir melhor. Ah, Adrian. — Estacionei na frente do prédio e vi o Mustang amarelo iluminado pela luz dos postes. — Você deixou o carro na rua. Sorte sua que não foi rebocado.
— Vou mudar de lugar — ele disse. — E não me olhe assim. É uma volta de menos de um quilômetro. Não estou quebrando suas regras.
— Só tome cuidado — murmurei.
Ele abriu a porta do Pingado e voltou o olhar para mim.
— Tem certeza de que quer voltar para a escola? Você vai ficar presa lá até amanhã de manhã.
— Não tem muita coisa que eu posso fazer até lá, de qualquer forma. Quero estar na escola no segundo em que puder falar com Trey. Por enquanto, vou apostar todas as minhas fichas no Eddie.
Adrian parecia relutante em me deixar sozinha, mas acabou concordando.
— Ligue se precisar de alguma coisa. Vou continuar tentando procurar Sonya nos sonhos dela. Não tive muita sorte até agora.
Um dos poderes mais perturbadores do espírito era a capacidade de entrar no sonho das outras pessoas.
— Será que ela não está dormindo?
— Ou isso ou foi drogada.
Nenhuma das opções era reconfortante. Ele me lançou um último olhar demorado antes de sair. Voltei para Amberwood, onde um segurança sonolento fez sinal para eu entrar sem nenhum comentário. A sra. Weathers já tinha ido embora havia um tempo, e seu substituto noturno não parecia muito interessado nas minhas idas e vindas. Enquanto subia a escada, meu celular tocou. Era Eddie.
— Então, demorou um século, mas finalmente acordei o colega de quarto do Trey — ele disse.
— E?
— Ele não está lá. E acho que também não esteve na última noite. Algum tipo de emergência de família.
— Nenhuma informação sobre quando ele volta? — Estava começando a achar que aqueles “problemas de família” de Trey eram muito mais perigosos do que eu pensava. Também podia apostar que ele não era o único com a tatuagem de sol.
— Não.
Acordei várias vezes ao longo da noite. Meu corpo estava exausto por causa da magia, mas a ideia de encontrar Sonya me pesava tanto que não conseguia me entregar completamente ao sono. Toda vez que acordava, checava o celular, com medo de ter perdido alguma ligação, embora ele estivesse no volume máximo. Acabei desistindo e levantei algumas horas antes de começarem a servir o café no restaurante. Depois de tomar banho, me vestir e ligar a cafeteira na potência máxima, o campus já estava aberto. Não que isso tenha feito alguma diferença.
Fiz duas ligações depois disso. A primeira para ver se Trey estava trabalhando. Imaginava que não estivesse, mas era uma boa justificativa para descobrir se ele tinha ido trabalhar nos últimos dias. Não tinha. A segunda foi para Stanton, comunicando o desaparecimento de Sonya. Falei que tínhamos uma pista que ligava um dos meus colegas de classe aos caçadores de vampiros e que era provável que Sonya estivesse presa num complexo industrial fora da cidade. Não entrei em detalhes sobre como fiquei sabendo disso, e Stanton ficou tão preocupada com o desaparecimento que não pediu detalhes.
No café da manhã, encontrei minha “família” sentada com Micah no restaurante do campus oeste. As feições angustiadas de Eddie, Angeline e Jill mostravam que todos já sabiam sobre Sonya. Micah falava animadamente sobre alguma coisa e tive a sensação de que a presença dele era o que impedia os demais de conversarem sobre o que realmente queriam. Quando Micah se virou para perguntar alguma coisa a Eddie, me aproximei da orelha de Jill e murmurei:
— Tire Micah daqui.
— Falo para ele ir embora? — ela perguntou, num sussurro.
— Se precisar, sim. Ou vá com ele.
— Mas eu quero...
Jill mordeu o lábio quando a atenção de Micah voltou para ela. Ela não parecia nada contente com o que precisava fazer, mas logo assumiu uma expressão resoluta que, nos últimos tempos, era frequente nela. Em seguida, apontou com a cabeça para o prato de Micah e perguntou:
— Ei, você está terminando? Preciso confirmar uma coisa com a srta. Yamani. Você vem comigo?
Micah abriu um sorriso.
— Claro.
Depois que foram embora, me virei para Eddie e Angeline.
— Algum sinal de Trey? — perguntei.
— Não — Eddie respondeu. — Chequei hoje de manhã de novo. O colega de quarto dele está começando a me odiar. Não posso culpá-lo por isso.
— Isso está me deixando louca! — exclamei, com vontade de bater com a cabeça na parede. — Estamos tão perto e ao mesmo tempo tão longe. Cada minuto que passa é um a menos na vida de Sonya.
Ele fechou a cara.
— Você tem certeza de que ela está viva?
— Estava ontem à noite — respondi.
Eddie e Angeline me olharam, confusos.
— Como você sabe disso? — Angeline perguntou.
— Hum, bem, eu... Não pode ser! — Meu queixo caiu quando olhei para trás de Eddie. — É o Trey!
Trey, com o olhar exausto, havia acabado de entrar no restaurante. Seu cabelo molhado mostrava que ele havia acabado de tomar banho, mas os machucados e arranhões espalhados por todo o corpo não podiam mais ser atribuídos ao futebol americano.
Antes que eu dissesse outra palavra, Eddie já estava em movimento, comigo e Angeline logo atrás dele. Estava achando que Eddie iria jogar Trey no chão ali mesmo. Em vez disso, parou na frente dele, bloqueando seu caminho para a fila do bufê. Cheguei bem no momento em que Eddie disse:
— Sem café da manhã pra você hoje. Você vai vir com a gente.
Trey estava prestes a protestar, mas então me viu ao lado de Angeline. Jill também surgiu de repente, depois de ter se livrado de Micah. Uma expressão triste passou pelo rosto dele, parecendo derrotado, e fez que sim com a cabeça, visivelmente exausto.
— Vamos lá fora.
Assim que nos afastamos da porta, Eddie agarrou Trey e o jogou contra a parede.
— Onde está Sonya Karp? — Eddie demandou. Trey pareceu surpreso, o que era compreensível, considerando que, apesar de Eddie ser enxuto e musculoso, a maioria das pessoas subestimava sua força.
— Eddie, vai com calma! — sussurrei, olhando ao redor, apreensiva. Claro que eu tinha a mesma pressa que ele, mas nosso interrogatório não iria muito longe se um professor passasse por ali e pensasse que estávamos surrando um colega.
Eddie soltou Trey e deu um passo para trás, ainda com o mesmo brilho perigoso no olhar.
— Onde é esse complexo em que vocês estão mantendo Sonya?
Isso fez Trey reagir:
— Como vocês sabem disso?
— Quem faz as perguntas aqui somos nós — Eddie retorquiu. Ele não voltou a pôr as mãos em Trey, mas sua postura e proximidade não deixavam dúvidas de que chegaria a extremos se fosse preciso. — Sonya está viva?
Trey hesitou, e eu estava quase esperando que ele fosse negar que sabia de alguma coisa.
— S-sim. Por enquanto.
Eddie irrompeu novamente, agarrando e puxando Trey pelo colarinho.
— Juro que se você ou seus colegas malucos mexerem num fio de cabelo dela...
— Eddie — adverti.
Por um instante, Eddie não se mexeu; depois, relutante, soltou a camisa de Trey, mas permaneceu no mesmo lugar.
— Trey — comecei, mantendo o mesmo tom ponderado que havia acabado de usar com Eddie. Afinal, Trey e eu éramos amigos, não? — Você precisa nos ajudar. Por favor, nos ajude a encontrar a Sonya.
Ele fez que não com a cabeça.
— Não posso, Sydney. É para o bem de vocês. Ela é maligna. Não sei que artimanha usou com vocês nem como conseguiu criar essa ilusão que esconde sua verdadeira identidade, mas vocês não podem confiar nessa mulher. Ela vai se virar contra todos vocês. Nós vamos... vamos fazer o que for preciso.
As palavras estavam todas de acordo com a propaganda dos guerreiros. Mas havia algo no tom e na postura de Trey... Não sabia apontar o quê, mas algo me fazia duvidar dele. As pessoas zombavam da minha incapacidade de perceber indícios sociais, mas eu tinha quase certeza de que ele não estava totalmente disposto a fazer o que seu grupo queria que ele fizesse.
— Esse não é você, Trey — eu disse. — Conheço você o suficiente para saber que não mataria uma mulher inocente.
— Ela não é inocente. — Mais uma vez aquelas emoções conflitantes. Dúvidas. — Ela é um monstro. Vocês conhecem esses demônios. Sabem do que eles são capazes. Não os como ela — disse, apontando para Jill. — Mas os outros. Os mortos-vivos.
— Sonya parece morta-viva pra você? — Eddie indagou. — Você viu algum olho vermelho nela?
— Não — Trey admitiu. — Mas nós temos relatos. Testemunhas que a viram no Kentucky. Relatos de suas vítimas.
Era difícil manter o rosto tranquilo ao ouvir isso. Eu chegara a ver Sonya como Strigoi. Ela era horripilante e, se tivesse a oportunidade, acabaria comigo e com meus companheiros num piscar de olhos. Era difícil aceitar que, quando alguém era transformado em Strigoi, perdia o controle sobre seus sentidos e sobre sua alma. Essas pessoas perdiam o contato com sua humanidade (ou o correspondente Moroi, seja lá qual fosse), e já não eram as mesmas de antes. Sonya havia feito coisas muito, muito terríveis, mas não era mais aquela criatura das trevas.
— Sonya mudou — eu disse. — Ela não é mais um deles.
Os olhos de Trey se estreitaram.
— Isso é impossível. Vocês estão sendo enganados. Tem algum tipo de... não sei... magia negra envolvida.
— Isso não está nos levando a lugar nenhum — Eddie resmungou. — Ligue para Dimitri. Nós dois juntos conseguiremos arrancar dele a localização desse complexo. Já invadi uma prisão. Entrar nesse lugar não deve ser muito difícil.
— Ah, você acha, é? — Trey disse, abrindo um sorriso frio. — Aquele lugar é rodeado por cerca elétrica e repleto de homens armados. Além disso, ela está sob forte segurança. Você não pode simplesmente ir entrando.
— Por que ela ainda está viva? — Angeline perguntou. Ela pareceu notar o quanto aquilo soou estranho e logo acrescentou: — Quer dizer... fico feliz que ela esteja. Mas, se vocês acham que ela é tão perversa, por que já não deram um fim nela? — Ela lançou um olhar para mim e meus amigos. — Desculpa.
— É uma boa pergunta — Eddie disse.
Trey levou um bom tempo para responder. Tive a impressão de que ele estava dividido entre a obrigação de manter os segredos do grupo e a vontade de justificar seus atos para nós.
— Porque todos nós estamos sendo testados — ele respondeu, finalmente. — Para ver quem é digno de fazer a execução.
— Meu Deus — Jill disse.
— Por isso todos esses machucados — eu disse. Meu temor de violência doméstica não estava tão errado assim. — Você está competindo para matar uma mulher que não fez nada contra você.
— Pare de dizer isso! — Trey gritou, parecendo realmente perturbado. — Ela não é inocente.
— Mas você não tem tanta certeza — falei. — Ou tem? Seus olhos não conseguem acreditar no que seus amigos caçadores dizem.
Ele fugiu da acusação.
— Minha família espera isso de mim. Todos precisam tentar, ainda mais depois do nosso fracasso no beco. Perdemos a autorização de matar a vampira por causa daquilo, por isso o conselho ordenou que fizéssemos esses testes, para nos redimirmos e provarmos que estamos à altura da tarefa. — Conseguir “autorização” para matar alguém era repulsivo, mas a outra parte do que ele disse me deixou em choque.
— Você estava lá — eu disse, incrédula. — No beco e... foi você! Foi você que me segurou! — O ataque me voltou à memória, assim como a surpresa e a hesitação do meu agressor.
O rosto de Trey confirmou aquilo.
— Eu sabia que você era amiga deles. Bastava olhar pra vocês pra saber, por mais que não tenha notado vocês dois a princípio — ele disse, dirigindo-se a Eddie e Angeline. Trey se voltou para mim. — Reconheci sua tatuagem quando te conheci. Só ignorei porque não achava que você estivesse envolvida nos mesmos problemas que eu. Pensei que só andasse com vampiros inofensivos; não podia imaginar que estaria lá naquela noite. Nunca quis ferir você. Ainda não quero e é por isso que você precisa esquecer essa história.
— Isso está me cansando — Eddie disse. Era um milagre sua paciência ter durado tanto tempo. — Precisamos invadir esse lugar e...
— Espera, espera. — Uma ideia estava se formando na minha cabeça... e era mais uma ideia maluca. — Trey, você disse que Eddie não pode simplesmente ir entrando naquele lugar. Mas eu posso?
— Do que você está falando? — Trey perguntou, com um misto de desconfiança e perplexidade no rosto.
— Você sabe o que eu sou. Você sabe o que eu faço. — Trey assentiu com a cabeça. — Nossos grupos já foram um só. Aqueles homens que me pararam na rua disseram até que deveríamos trabalhar juntos. Os guerreiros querem os recursos dos alquimistas.
— Então, o quê? Você quer fazer uma troca? — Trey perguntou, franzindo a testa.
— Não. Só quero conversar com esse conselho de vocês. Explicar por que Sonya não é... hum, por que ela não é mais o que era antes. Existe um Moroi que usa um certo tipo de magia que pode mostrar a vocês...
— Não — Trey disse de imediato. — Nenhum deles pode entrar lá dentro. Eles são tolerados, nada mais do que isso. Vocês, híbridos, também não são permitidos. — Mais uma vez, dirigia-se a Eddie e Angeline. Nunca tinha ouvido o termo “híbridos” antes, mas seu sentido era claro.
— Certo — respondi. — Só humanos. Eu sou humana. Seu grupo quer trabalhar com o meu. Me deixe ir com você. Desarmada. Vou falar com seus líderes e...
— Sydney, não — Eddie protestou. — Você não pode ir pra lá sozinha! Pelo amor de Deus, eles tentaram decapitar Sonya. E lembra o que Clarence disse sobre os radicais que o perseguiam?
— Não ferimos humanos — Trey respondeu, com firmeza. — Ela estará segura.
— Eu acredito em você — eu disse a ele. — E também sei que nunca deixaria nada de mal acontecer comigo. Veja, você não está curioso para saber por que Sonya não é mais como antes? Pode aceitar a possibilidade de que o seu grupo esteja cometendo um grave erro? Você disse que toleram os Moroi. Ela é Moroi. Deixe-me explicar. Não estou pedindo nada além de uma chance de me pronunciar.
— E uma garantia de segurança — Angeline acrescentou, quase tão revoltada quanto Eddie, que aprovou as palavras dela com um aceno de cabeça. — Vocês se importam com esse lance de honra, não é? Precisam prometer que ela vai ficar segura.
— É a honra que nos leva a fazer o que fazemos — Trey respondeu. — Se prometermos que ela vai ficar segura, ela vai ficar.
— Então peça a eles — reiterei. — Por favor? Você faria isso por mim? Como amigo?
Trey assumiu uma expressão condoída. Havia um tempo, ele dera a entender que me devia uma por ter ajudado a colocar um fim no esquema de tatuagens ilícitas no mês anterior. Qualquer amigo seria obrigado a cumprir essa promessa, ainda mais um com tamanho senso de honra. Eu também sabia que outras coisas, além da honra, estavam em jogo ali. Eu e Trey éramos amigos, e tínhamos muito mais em comum do que eu imaginava. Nós dois fazíamos parte de grupos que queriam controlar nossas vidas, muitas vezes de maneiras nada agradáveis. Também tínhamos pais autoritários. Se Trey e eu não tivéssemos objetivos tão opostos, poderíamos rir daquilo tudo.
— Vou pedir — Trey concordou. Algo me dizia que ele também estava pensando no que tínhamos em comum. — Porque é para você. Mas não posso prometer nada.
— Então peça agora — Eddie grunhiu. — Não temos tempo a perder. E acho que Sonya também não.
Trey não refutou. Eu hesitei, reconsiderando se aquela era uma boa ideia. O que aconteceria se perdêssemos Trey de vista? Seria melhor se realmente o tivéssemos levado até Dimitri? E Sonya... quanto tempo ela ainda tinha?
— Agora — insisti. — Você precisa entrar em contato com eles agora. Não vá para a aula. — Aquela foi provavelmente a primeira e a última vez que eu disse essas palavras.
— Eu juro — Trey prometeu. — Vou ligar pra eles agora.
O sinal tocou, pondo fim à nossa reunião. No entanto, se tivéssemos a chance de salvar Sonya naquele exato momento, sabia que todos os meus amigos teriam saído do campus imediatamente. Deixamos Trey ir e ele voltou para o alojamento, em vez de seguir para as salas. Angeline, recém-liberada da suspensão, partiu com Jill, enquanto Eddie e eu fomos juntos para a aula de história.
— Isso foi um erro — ele disse, com o rosto sombrio, olhando na direção que Trey seguira. — Ele pode desaparecer, e aí vamos perder a única chance que temos de salvar Sonya.
— Não acho que ele vá desaparecer — respondi. — Eu conheço Trey. Ele é uma boa pessoa e pude ver que, mesmo que ache que os Strigoi precisam ser exterminados, ele não tem tanta certeza a respeito de Sonya. Ele vai fazer o possível. Acho que está dividido agora, entre aquilo que ensinaram para ele durante a vida toda e o que está começando a ver por conta própria.
Parece alguém que você conhece?, perguntou uma voz dentro de mim.
Admito que tinha esperanças de que Trey fosse dar uma resposta imediatamente, por exemplo, já na aula de química. Mas ele também não apareceu lá, nem em nenhum outro lugar da escola durante o dia todo. Pensei que essas coisas deviam levar um tempo, e minha paciência e confiança foram recompensadas no fim do dia com uma mensagem: Tentando ainda. Alguns estão dispostos a conversar. Outros precisam ser convencidos.
Quando mostrei a Eddie, ele não considerou a mensagem de Trey uma prova concreta. Porém, eu imaginava que Trey não iria dizer nada se tivesse dado o fora da cidade. Eddie queria se reunir com Dimitri para discutir uma estratégia a partir dos desdobramentos recentes. Então decidimos ir em grupo para o centro. Convoquei todos para que nos reuníssemos na frente do alojamento leste em meia hora. Jill foi a primeira a chegar e parou de repente ao me ver.
— Nossa, Sydney... o seu cabelo.
Levantei os olhos da mensagem que estava digitando para Brayden, dizendo que não poderia sair naquele final de semana.
— O que que tem?
— O jeito como as camadas estão penteadas. Enquadra seu rosto perfeitamente.
Ela estava me olhando daquele jeito estranho de novo.
— Pois é — eu disse, tentando mudar de assunto. — Foi... um bom corte. Desculpe por ter feito você se livrar do Micah hoje de manhã.
Levou alguns segundos, mas a mudança de assunto a fez sair do transe induzido pelo meu cabelo.
— Ah, não. Tudo bem. Quer dizer, as coisas estavam ficando meio estranhas entre a gente mesmo.
— Ah, é? — Micah parecia falante como sempre da última vez que o vi. — Vocês ainda estão com problemas?
— Então... Acho que eu é que estou. Gosto muito dele. Adoro sair com ele e com os amigos dele. Mas fico lembrando o tempo todo que nada pode acontecer entre a gente. Hoje de manhã, por exemplo. Existe uma série de coisas acontecendo de que ele não pode fazer parte. E eu não suporto a ideia de ficar mentindo para ele ou mantendo-o longe da minha vida. Acho que preciso fazer isso... de vez. Terminar tudo. Sei que já disse isso antes, mas agora é pra valer.
— Pode contar com a gente se precisar — eu disse. Tecnicamente, eu estava sendo sincera, mas se Jill viesse chorando depois me pedindo conselhos, eu não saberia bem o que dizer. Talvez conseguisse encontrar um livro sobre como aconselhar pessoas passando por fim de namoro antes que ela terminasse de fato.
Ela abriu um sorrisinho torto.
— Sabe o que é engraçado? Quer dizer, não quero sair pulando de um cara para o outro, e eu ainda gosto do Micah, mas estou começando a notar como Eddie é um cara legal.
— Ele é ótimo — confirmei.
— Relacionamentos entre Moroi e dampiros costumam ser desaconselhados quando eles são mais velhos, mas agora... Digo, conheci alguns que ficaram juntos na São Vladimir. — Ela riu, constrangida. — Eu sei, eu sei... Não devia nem estar pensando nisso. Um menino de cada vez. Mas, mesmo assim... quanto mais vejo Eddie... Ele é tão corajoso e confiante. Faria qualquer coisa por nós, sabe? Parece um herói dos contos de fada, só que no mundo real. Mas ele é tão dedicado que eu acho que nunca se interessaria por uma garota como eu. Não tem tempo para namorar.
— Na verdade — eu disse —, acho que ele se interessaria muito por você.
— Sério? — ela disse, arregalando os olhos.
Queria contar tudo a ela. Em vez disso, como Eddie me pedira para deixar que ele mesmo cuidasse dos problemas pessoais, escolhi as palavras cuidadosamente para não revelar seus segredos.
— Ele vive falando como você é inteligente e competente. Acho que realmente existe essa possibilidade. — Ele também dizia que não era digno do amor dela, mas essa ideia poderia perder força se Jill tomasse a iniciativa.
Ela ficou pensativa, e nada mais foi dito sobre o assunto quando Eddie e Angeline se aproximaram. Fomos para a cidade de carro, deixei Jill e os dois dampiros na casa de Adrian e fui resolver algumas coisas. Esperar por Trey era agonizante e eu precisava me distrair. Além disso, estava com poucas provisões alquimistas e queria garantir que estivesse com força total antes de qualquer aventura no terreno dos guerreiros.
O celular tocou enquanto empacotava as coisas. Era Trey; saí da loja de ervas para atender a ligação.
— Tudo certo — ele disse. — Pode vir. Vão receber você hoje à noite... só você.
Adrenalina e ansiedade correram pelo meu corpo. Naquela noite. Parecia surpreendentemente cedo, mas era exatamente isso que eu queria. Precisava tirar Sonya daquele lugar.
— Vou levar você até lá às sete — Trey continuou. — E... bem, desculpa, mas você vai ter que ir vendada. E vou ficar de olho para garantir que não seremos seguidos. Se nos seguirem, o acordo será cancelado.
— Entendo — respondi, embora a venda tornasse a incursão muito mais assustadora. — Estarei esperando. Obrigada, Trey.
— Mais uma coisa — ele acrescentou. — Queremos a espada de volta.
Combinei com ele para me pegar no prédio de Adrian, já que imaginava que Eddie e Dimitri teriam muitas recomendações para fazer antes do encontro. E liguei para eles assim que terminei a ligação com Trey, para falar que estava tudo acertado. Também liguei para Stanton para atualizá-la dos fatos. Pensei que deveria ter consultado ela antes, mas queria ter uma resposta definitiva de Trey primeiro.
— Não gosto nem um pouco da ideia de você ir até lá sozinha — ela disse. — Mas parece improvável que machuquem você. Eles parecem respeitar os humanos, especialmente nós. E, se houver alguma chance de tirar Karp de lá... Bem, isso evitaria uma crise entre nós e os Moroi. — O tom de Stanton, porém, me dizia que, mesmo achando que eu estaria segura, ela não estava tão otimista em relação a Sonya. — Tenha cuidado, srta. Sage.
O apartamento de Adrian estava carregado de tensão quando cheguei. Dimitri, Eddie e Angeline estavam visivelmente agitados, talvez porque fossem ficar de fora da ação. Surpreendentemente, Adrian também parecia inquieto, embora eu não conseguisse entender por quê. Jill o observava, preocupada, e mantinha o olhar fixo nos olhos dele, sem dúvida recebendo mensagens invisíveis através do laço. Por fim, ele desviou o olhar, como se terminasse uma conversa. Jill suspirou e foi se juntar aos outros na cozinha.
Comecei a conversar com Adrian, mas Eddie me chamou com um gesto.
— Estamos discutindo se você deve ou não levar uma arma — ele disse.
— Bem, a resposta é não — retruquei imediatamente. — Nem pensar! Eles vão me vendar. Acham que não vão me revistar também?
— Deve haver um jeito — Dimitri disse. Como estávamos sob o ar-condicionado, ele vestia seu sobretudo. — Não posso deixar você entrar lá desarmada.
— Não vou correr perigo — respondi, sentindo como se estivesse repetindo aquele mantra o dia todo. — Eles podem ser loucos, mas Trey disse que, se eles deram a palavra deles, não vão me fazer mal.
— Sonya não tem essa garantia — Dimitri observou.
— Nenhuma arma vai me ajudar a salvar Sonya além dos meus argumentos. E vou estar armada até os dentes com eles.
Os dampiros ainda não pareciam satisfeitos com isso. Voltaram a discutir entre si enquanto eu levantava para pegar água. Adrian gritou da sala:
— Tem refrigerante diet na geladeira.
Abri o refrigerador. De fato, havia todo tipo de refrigerante lá. Aliás, nunca tinha visto tanta comida na vida: outro fruto da generosidade de Nathan Ivashkov. Peguei uma lata de Coca Diet e sentei ao lado de Adrian no sofá.
— Obrigada — eu disse, abrindo a lata. — Melhor que isso, só se você tivesse sorvete italiano.
Ele arqueou a sobrancelha.
— Sorvete? Isso é sobremesa, Sage.
— Pois é — admiti. O assunto mundano era reconfortante em meio a toda aquela tensão. — É culpa sua por ter falado disso ontem. Agora não consigo parar de pensar no sorvete. Quis tomar um ontem à noite no jantar e Brayden me convenceu a não pedir; talvez seja por causa disso que fiquei ainda mais obcecada. Já aconteceu isso com você? Não conseguir ter alguma coisa e isso só aumentar a vontade?
— Sim — ele respondeu, amargurado. — Acontece o tempo todo.
— Por que você está tão desanimado? Também acha que eu deveria levar uma arma? — Era muito difícil imaginar para onde as mudanças de humor de Adrian poderiam levá-lo.
— Não, eu entendo o seu ponto de vista e acho que está certa — ele disse. — Não que eu aprove a ideia de você ir até lá.
— Preciso ajudar Sonya — eu disse.
Ele me examinou e abriu um sorriso.
— Eu sei. Queria poder ir com você.
— Ah, é? Você iria me proteger e me tirar de lá como ameaçou fazer ontem? — brinquei.
— Ei, se fosse preciso, sim. Você e Sonya. Era só colocar uma em cada ombro. Muito másculo, não?
— Muito — respondi, contente de vê-lo voltar a fazer piadas.
Seu sorriso se desfez e ele ficou sério de novo.
— Queria te perguntar uma coisa. O que é mais assustador: entrar no esconderijo de um bando de humanos doidos assassinos, ou ficar com alguns vampiros e meio-vampiros inofensivos, ainda que um pouco excêntricos? Eu sei das reservas que vocês, alquimistas, têm em relação a nós, mas a lealdade à sua espécie é tão forte que... sei lá... as pessoas em particular não importam?
Aquela era uma pergunta incrivelmente profunda para Adrian. Também me fazia lembrar da minha incursão pelo esconderijo alquimista onde Keith estava. Lembrei como o pai de Keith não se importava com o caráter do filho, desde que ele não mantivesse boas relações com os vampiros. Também me lembrei da obstinação dos guerreiros no beco em não ouvir qualquer verdade que não a deles. E, por fim, olhei para os dampiros discutindo na cozinha, ainda buscando meios secretos de manter Sonya e eu em segurança, a qualquer custo.
Voltei a olhar para Adrian.
— Eu ficaria com os vampiros. A lealdade à espécie tem limites.
Algo no rosto de Adrian se transformou, mas eu mal prestei atenção. Estava surpresa demais ao perceber que as palavras que acabara de pronunciar corresponderiam a uma grave traição no mundo dos alquimistas.
Mais tarde, Eddie e Angeline saíram para buscar o jantar, e deixei que fossem com o meu carro contanto que Eddie dirigisse. Enquanto eles estavam fora, Dimitri tentou me passar mais algumas técnicas de defesa pessoal, mas era difícil aprender muito em tão pouco tempo. Ficava lembrando de Wolfe nos dizendo para evitar locais perigosos. O que ele diria se soubesse que eu estava prestes a entrar no esconderijo de um bando de caçadores de vampiros armados?
Eddie e Angeline ficaram fora por um tempo e, quando finalmente voltaram, estavam furiosos com a demora do restaurante.
— Achei que não voltaríamos a tempo — Eddie disse. — Estava com medo de que você não comesse antes da missão.
— Nem sei se consigo comer — admiti. Apesar das minhas palavras corajosas de antes, estava começando a ficar nervosa. — Ah, pode ficar com elas, para o caso de precisar do carro.
Ele tinha acabado de colocar as chaves na minha bolsa.
— Tem certeza?
— Absoluta.
Ele deu de ombros e então pegou as chaves de novo. Para minha surpresa, Adrian o observava com os olhos apertados e parecia incomodado com alguma coisa. Não estava conseguindo acompanhar as mudanças de humor dele naquele dia. Ele se levantou e caminhou até Eddie. Depois de alguns momentos, se afastaram ainda mais de nós e pareceram ter uma discussão aos sussurros, envolvendo algumas olhadelas para mim. Todos os demais pareciam pouco à vontade com a situação e, de repente, irromperam a falar sobre todo e qualquer assunto. Só conseguia olhar de um lado para o outro, sentindo que havia perdido alguma coisa importante.
Trey me ligou às sete em ponto, dizendo que estava me esperando na frente do prédio. Eu me levantei da cadeira, peguei a espada e respirei fundo.
— Me desejem sorte.
— Eu acompanho você até lá fora — Adrian disse.
— Adrian — Dimitri advertiu.
Adrian revirou os olhos.
— Eu sei, eu sei. Não se preocupe. Eu prometi.
Prometeu o quê? Ninguém falou mais nada. Não era uma caminhada muito longa porque ele morava no térreo, mas, assim que saímos, segurou meu braço com suavidade. Um choque perpassou meu corpo, tanto pelo toque quanto pelo gesto inesperado. Suas poucas demonstrações de carinho costumavam ser com Jill.
— Sage — ele disse. — Tome cuidado. De verdade. Não vá bancar a heroína; tem uma cambada de heróis aqui dentro. E... aconteça o que acontecer, quero que você saiba que nunca duvidei da sua missão. É muito inteligente e corajosa.
— Do jeito que você fala, parece que já aconteceu e não deu certo — eu disse.
— Não, não. Eu só... só quero que você saiba que eu confio em você.
— Está bem — respondi, sentindo-me um tanto confusa. Voltei a ter a sensação de que estavam me escondendo alguma coisa. — Espero que meu plano funcione.
Eu precisava ir embora, para longe do toque de Adrian, mas não conseguia. Por algum motivo, estava hesitante em ir. Havia segurança e conforto ali. Depois que saísse, entraria na cova dos leões. Permaneci mais alguns instantes na segurança daquele círculo que havíamos formado, e então me afastei, relutante.
— Por favor, tome cuidado — ele repetiu. — Volte a salvo.
— Eu vou voltar. — Sem pensar, tirei a cruz do pescoço e a pressionei contra a mão dele. — Desta vez, fique com ela pra valer. Apegue-se a ela até eu voltar. Se ficar preocupado demais, olhe para ela e saiba que preciso voltar para buscá-la. Ela combina muito com roupas cáqui e de cores neutras.
Temia que ele a devolvesse, mas em vez disso simplesmente assentiu e segurou a cruz com força. Saí me sentindo um pouco vulnerável sem ela, mas torcendo para que o deixasse mais calmo. De repente, meu desconforto pareceu pequeno comparado ao meu desejo de que Adrian ficasse bem.
Sentei no banco do passageiro do carro de Trey e imediatamente lhe entreguei a espada. Ele parecia tão angustiado quanto antes.
— Tem certeza de que quer ir adiante com isso?
Por que todo mundo ficava me perguntando aquilo?
— Tenho. Certeza absoluta.
— Deixe-me ver seu celular.
Entreguei o celular a ele, ele desligou e me devolveu junto com uma venda.
— Vou confiar em você para colocar a venda em si mesma.
— Obrigada.
Comecei a colocá-la e então, num impulso, olhei para trás, em direção ao prédio, uma última vez. Adrian ainda estava lá, parado, com as mãos no bolso e o rosto preocupado. Ao perceber meu olhar, ele entreabriu um sorriso e estendeu a mão em sinal de... quê? Adeus? Uma bênção? Não consegui identificar, mas aquilo fez eu me sentir melhor. A última coisa que vi foi o reflexo da cruz sob a luz do sol, imediatamente antes de cobrir os olhos com a venda, mergulhando na escuridão.

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