3 de outubro de 2017

Capítulo 2

NÃO PREGUEI OS OLHOS NAQUELA NOITE. Em parte, simplesmente por causa do fuso horário. Meu voo de volta para Palm Springs estava programado para as seis da manhã, o que correspondia às três da madrugada no fuso horário a que meu corpo estava acostumado. Dormir parecia inútil.
E, claro, havia o detalhezinho de que era um tanto difícil relaxar depois de tudo o que eu havia presenciado no abrigo dos alquimistas. Quando não estava visualizando o olhar assustador de Liam, repetia mentalmente os alertas constantes que eu tinha ouvido contra os que se aproximavam demais dos vampiros.
A caixa de entrada cheia de e-mails do pessoal em Palm Springs não me ajudava em nada. Costumava checar o e-mail automaticamente pelo celular quando estava fora. Mas naquele momento, no quarto de hotel, diante daquelas mensagens, fiquei cheia de dúvidas. Será que as mensagens eram realmente de cunho profissional? Será que eram amigáveis demais? Será que ultrapassavam os limites do protocolo alquimista? Depois de ter visto o que acontecera com Keith, ficou mais evidente do que nunca que bastava muito pouco para arranjar problemas com a organização.
Uma das mensagens era de Jill, com o assunto: “Ai... Angeline”. Não era nenhuma surpresa, e não me dei ao trabalho de ler imediatamente. Angeline Dawes, dampira recrutada para ser a colega de quarto de Jill e garantir mais uma camada de segurança, vinha encontrando problemas para se adaptar a Amberwood. Ela estava sempre em apuros, e eu sabia que, independente do que estivesse acontecendo dessa vez, não havia nada que eu pudesse fazer na hora.
Outro e-mail era da própria Angeline. Também não li. O assunto era “ LEIA ISTO! MUITO ENGRAÇADO!”. Angeline tinha acabado de descobrir os e-mails. Aparentemente, ainda não havia descoberto como desativar a tecla Caps Lock. E encaminhava indiscriminadamente piadas, spams ou alertas de vírus. Por falar nisso... tivemos de instalar um software de proteção infantil no laptop dela, para bloquear certos sites e propagandas. Decidimos fazer isso depois que ela baixou quatro vírus por acidente.
Só o último e-mail na caixa de entrada me chamou atenção. Era de Adrian Ivashkov, o único em nosso grupo que não fingia ser estudante na Escola Preparatória Amberwood. Adrian era um Moroi de vinte e um anos, então seria um pouco forçado fazê-lo se passar por aluno do ensino médio. Ele estava no grupo porque sem querer criara um laço psíquico com Jill ao usar sua magia para salvar a vida dela. Todos os Moroi dominavam algum tipo de magia elemental, e a dele era o espírito — um elemento misterioso ligado à mente e à cura. O laço permitia que Jill visualizasse os pensamentos e as emoções de Adrian, o que era perturbador para ambos.
Estarem perto um do outro os ajudava a resolver alguns problemas do laço. Além disso, Adrian não tinha nada melhor para fazer.
O assunto da mensagem dele era: “MANDE AJUDA IMEDIATAMENTE”. Ao contrário de Angeline, Adrian conhecia as regras sobre o uso de maiúsculas e só as usava para criar um efeito dramático. Eu também sabia que, se tivesse alguma dúvida sobre quais e-mails estavam relacionados ao meu trabalho, aquele era, de longe, o menos profissional do conjunto. Adrian não era minha responsabilidade. Abri a mensagem mesmo assim.

Dia 24. A situação está piorando. Meus captores continuam encontrando novos métodos terríveis de tortura. Quando não está trabalhando, a agente Escarlate passa o tempo examinando amostras de tecido para vestidos de noiva e falando sem parar sobre quanto está apaixonada. Normalmente isso leva o agente Borscht Bobo a nos deliciar com histórias de casamentos russos que conseguem ser ainda mais chatas do que suas histórias usuais. Minhas tentativas de fuga fracassaram até o momento. Além disso, acabaram os cigarros. Qualquer socorro ou produto contendo nicotina que puder enviar será de grande ajuda.
— Prisioneiro 24601

Não pude evitar um sorriso. Adrian me enviava um e-mail desse tipo quase diariamente. Naquele verão, tínhamos descoberto que, através do espírito, era possível reverter a transformação daqueles que se tornaram Strigoi à força. Era um processo complicado e trabalhoso... ainda mais por existirem tão poucos usuários de espírito. Acontecimentos ainda mais recentes haviam sugerido que aqueles que fossem restaurados da transformação Strigoi nunca mais poderiam ser transformados novamente. Isso havia dado um novo ânimo aos alquimistas e aos Moroi. Se existisse uma maneira de evitar a conversão em Strigoi através da magia, monstruosidades como Liam não seriam mais um problema.
Foi assim que entraram em cena Sonya Karp e Dimitri Belikov, ou, como Adrian os chamava em seus e-mails angustiados, “agente Escarlate” e “agente Borscht Bobo”. Sonya era uma Moroi; Dimitri, um dampiro. Os dois tinham sido transformados em Strigoi e foram restaurados pela magia do espírito. Eles haviam chegado a Palm Springs no mês anterior para trabalhar com Adrian numa espécie de grupo de estudos para encontrar uma forma de proteção contra a transformação em Strigoi. Era uma tarefa extremamente importante que, caso desse certo, poderia trazer grandes frutos. Sonya e Dimitri eram algumas das pessoas mais empenhadas que eu já tinha conhecido, o que não combinava muito com o estilo do Adrian.
Boa parte do trabalho eram experimentos maçantes e meticulosos, muitos deles envolvendo Eddie Castile, um dampiro que também estava infiltrado em Amberwood. Ele servia como cobaia de controle, já que, ao contrário de Dimitri, Eddie era um dampiro que nunca tinha tido experiências com a magia do elemento espírito e tampouco possuía um histórico Strigoi. Eu não podia fazer muito para ajudar Adrian e sua frustração com o grupo de pesquisa — e ele sabia disso. Só gostava de fazer drama e desabafar comigo. Cuidadosa com o que era ou não essencial ao mundo alquimista, estava prestes a excluir a mensagem, mas...
Uma coisa me fez hesitar. Adrian tinha assinado com uma referência a Os miseráveis, de Victor Hugo. Era um livro sobre a Revolução Francesa tão grosso que poderia facilmente ser usado como uma arma. Eu tinha lido a obra tanto para a matéria de francês como para a de inglês. Como Adrian ficava entediado só de ler um cardápio mais longo que o normal, era difícil imaginar que ele tivesse lido o livro de Victor Hugo independente da língua. Então como ele conhecia a referência? “Não interessa, Sydney”, disse uma voz alquimista rígida dentro da minha cabeça. “Exclua. Não é importante. O conhecimento literário de Adrian (ou a falta dele) não é da sua conta.”
Mas não consegui resistir. Precisava saber. Aquele era o tipo de detalhe que me deixava maluca. Respondi com uma mensagem rápida: Como você sabe sobre 24601? Me recuso a acreditar que tenha lido o livro. Viu o musical, não foi?
Cliquei em “Enviar” e recebi uma resposta quase imediata: Li o resumo na internet.
Típico. Ri alto, mas logo me senti culpada. Não devia ter respondido. Aquela era minha conta de e-mail pessoal, mas, se um dia os alquimistas decidissem me investigar, não teriam escrúpulos em acessá-la. Aquele tipo de mensagem era condenável, por isso excluí a troca de e-mails — não que fizesse alguma diferença.
Nenhum dado jamais se perdia realmente.
Ao aterrissar em Palm Springs às sete da manhã do dia seguinte, ficou dolorosamente óbvio que meu corpo tinha ultrapassado seus limites e não conseguiria mais viver de cafeína. Eu estava muito exausta. O café, em qualquer quantidade, já não me ajudaria mais. Quase caí no sono enquanto aguardava minha carona na saída do aeroporto. E, quando ela chegou, não percebi até ouvir chamarem meu nome.
Dimitri Belikov saiu do carro azul alugado e veio na minha direção, pegando minha mala antes que eu pudesse dizer uma palavra. Algumas mulheres que estavam por perto interromperam a conversa para admirá-lo.
Eu me levantei.
— Você não precisa fazer isso — eu disse, mas àquela altura ele já estava colocando minha bagagem no porta-malas.
— Claro que preciso — respondeu, as palavras matizadas por um leve sotaque russo e um sorriso. — Você parecia estar dormindo.
— Era tudo o que eu queria — eu disse, entrando no lado do passageiro.
Sabia que, acordada ou não, Dimitri teria pegado a mala de qualquer jeito. Fazia parte dele esse resquício de cavalheirismo no mundo moderno; estava sempre disposto a ajudar os outros.
Essa era apenas uma das características marcantes de Dimitri. Só a beleza dele já bastava para fazer muitas perderem o rumo. Seu cabelo castanho-escuro estava preso em um rabo de cavalo curto, e os olhos da mesma cor eram misteriosos e sedutores. Ele era alto, tinha quase dois metros, superando alguns Moroi. Para mim era difícil distinguir dampiros de humanos, então precisava admitir que ele tinha uma pontuação bem alta na escala de beleza.
Além disso, ele emanava uma energia que afetava a todos, invariavelmente. Estava sempre alerta, pronto para lidar com qualquer imprevisto. Nunca o tinha visto baixar a guarda. Estava sempre pronto para o ataque. Era perigoso, sem dúvida, e me tranquilizava o fato de que estava do nosso lado. Sempre me senti segura perto dele, mas um pouco desconfiada.
— Obrigada pela carona — acrescentei. — Eu podia ter chamado um táxi.
Sabia que essas palavras eram tão inúteis quanto dizer que não precisava de ajuda com a mala.
— Não tem problema nenhum — garantiu, seguindo para a área residencial de Palm Springs. Limpou o suor da testa e, não sei como, isso o fez parecer ainda mais atraente. Apesar de ainda ser cedo, o calor já estava ficando pesado. — Sonya insistiu. Além disso, não temos experimentos hoje.
Franzi a sobrancelha. Aqueles experimentos, e o potencial espantoso que tinham de evitar o surgimento de outros Strigoi, eram de uma importância enorme. Dimitri e Sonya sabiam disso, e se dedicavam à causa — ainda mais nos fins de semana, quando Adrian e Eddie não tinham aula —, o que tornava aquela informação difícil de entender. Minha própria ética profissional não conseguia compreender por que não haveria pesquisa num domingo.
— Adrian? — presumi, pensando que talvez ele não estivesse “no clima” para pesquisas naquele dia.
— Também — Dimitri respondeu. — E estamos sem nossa cobaia de controle. Eddie disse que teve alguns problemas e não pôde vir.
Franzi ainda mais a testa. Que problemas Eddie poderia ter?
Eddie também era muito dedicado. Adrian às vezes o chamava de mini-Dimitri. Apesar de Eddie estar cursando o ensino médio, assim como eu, e portanto ter trabalhos a fazer, eu tinha certeza de que ele largaria qualquer lição de casa pelo bem maior. Eu só conseguia pensar em uma coisa que seria mais importante do que ajudar a encontrar uma “vacina” para a transformação em Strigoi. De repente meu coração acelerou.
— Jill está bem?
Ela tinha que estar. Ou alguém teria me dito, não? A principal função de Eddie em Palm Springs, assim como a minha, era mantê-la a salvo. Qualquer perigo que ela corresse teria prioridade sobre qualquer outra coisa.
— Ela está ótima — Dimitri respondeu. — Falei com ela mais cedo. Não sei exatamente o que está acontecendo, mas Eddie não teria se ausentado se não fosse por um bom motivo.
— Acho que sim — murmurei, ainda apreensiva.
— Você se preocupa tanto quanto eu — Dimitri brincou. — Não achava que isso fosse possível.
— Me preocupar faz parte do meu trabalho. Tenho que garantir que todos estejam bem o tempo todo.
— De vez em quando não faz mal garantir que você também esteja. Aliás, você vai perceber que isso acaba ajudando os outros também.
— Rose sempre tira sarro da sua “sabedoria de mestre zen” — ironizei. — É disso que estou tendo uma amostra? Se sim, então agora entendi por que ela não conseguia resistir ao seu charme.
Essa resposta me rendeu uma das raras gargalhadas sinceras de Dimitri.
— Acho que sim. Se perguntar a ela, Rose vai dizer que foram os empalamentos e as decapitações que a seduziram. Mas tenho certeza de que foi a sabedoria zen que ganhou seu coração.
Meu sorriso em resposta se desfez num bocejo. Conseguir fazer piadas com um dampiro era novidade para mim. Costumava ter ataques de pânico só de ficar numa sala junto com um deles ou um Moroi. Aos poucos, durante o último semestre, meu nervosismo começou a abrandar. Jamais me livraria da sensação de “diferença” que sentia em relação a todos eles, mas já havia avançado muito. Parte de mim sabia que era bom ainda ser capaz de distingui-los dos humanos, mas ao mesmo tempo também era bom ser flexível, para facilitar meu trabalho. “Mas não flexível demais”, avisou aquela voz alquimista no fundo da minha mente.
— Chegamos — Dimitri disse, estacionando em frente ao meu alojamento em Amberwood. Se ele notou minha mudança de humor, não comentou nada. — Você devia descansar um pouco.
— Vou tentar — respondi. — Mas primeiro preciso descobrir o que está acontecendo com Eddie.
— Se o encontrar — disse, assumindo uma expressão profissional —, leve-o para casa hoje à noite, para podermos trabalhar um pouco. Sonya iria adorar. Ela está com algumas ideias novas.
Concordei com a cabeça, lembrando que aquele era o padrão que precisávamos manter. Trabalho, trabalho, trabalho. Não podíamos esquecer dos nossos objetivos mais elevados.
— Vou ver o que consigo fazer.
Agradeci de novo pela carona e entrei, completamente decidida a cumprir minha missão. Então foi muito frustrante quando meus objetivos grandiosos logo caíram por terra.
— Srta. Melrose?
Virei na direção do chamado pelo sobrenome que eu tinha adotado em Amberwood. A sra. Weathers, a velha e rechonchuda responsável pelo alojamento, corria na minha direção. Seu rosto parecia cheio de preocupação, o que não era um bom sinal.
— Fico feliz que esteja de volta — ela disse. — Foi boa a visita familiar?
— Sim, senhora. — Se por “boa” ela quisesse dizer “assustadora e inquietante”.
A sra. Weathers fez um sinal para que eu me sentasse à sua mesa.
— Preciso conversar com você sobre sua prima.
Contive uma careta ao me lembrar do e-mail de Jill. Prima Angeline. Todos nós que frequentávamos Amberwood fingíamos ter algum tipo de parentesco. Jill e Eddie eram meus irmãos. Angeline, nossa prima. Isso ajudava a explicar por que estávamos sempre juntos e nos envolvíamos nos assuntos uns dos outros.
Sentei com a sra. Weathers e, saudosa, pensei na minha cama.
— O que aconteceu?
Ela soltou um suspiro.
— Sua prima está tendo problemas com nossas regras de vestuário.
Aquilo foi uma surpresa.
— Mas nós usamos os uniformes, senhora.
— Claro — ela respondeu. — Mas não fora das aulas.
Era verdade. Eu estava vestindo uma calça cáqui e uma blusa verde de manga curta, além da pequena cruz dourada que sempre usava. Fiz um inventário mental do guarda-roupa de Angeline, tentando me lembrar de alguma coisa que pudesse ter causado problemas. Talvez a parte mais preocupante fosse a falta de qualidade. Angeline viera dos Conservadores, uma comunidade mista de humanos, Moroi e dampiros que vivia na cordilheira dos Apalaches. Além de não terem luz elétrica nem água encanada, eles preferiam fazer suas próprias roupas ou então usá-las em farrapos.
— Na sexta à noite, ela estava usando um short jeans terrivelmente curto — a sra. Weathers continuou, com um arrepio. — Eu a repreendi imediatamente, e ela disse que aquela era a única maneira de se sentir confortável no calor da rua. Eu lhe fiz uma advertência e pedi que encontrasse um traje mais apropriado. No sábado, ela apareceu vestindo os mesmos shorts uma regata completamente indecente. Foi aí que suspendi sua prima no dormitório pelo resto do fim de semana.
— Sinto muito, sra. Weathers — respondi. Sinceramente, não fazia a menor ideia do que dizer além disso. Eu tinha passado o fim de semana inteiro envolvida na batalha épica para salvar a humanidade, e agora... um short jeans?
A sra. Weathers hesitou.
— Eu sei... Eu sei que essa questão não te diz muito respeito. É um problema dos pais dela. Mas, vendo como você é responsável e cuida do resto da sua família...
Suspirei.
— Sim, senhora. Vou cuidar disso. Obrigada por não tomar nenhuma medida mais drástica.
Subi as escadas, sentindo minha mala pequena ficar mais pesada a cada passo. Quando cheguei ao segundo andar, parei, sem saber direito para onde ir. Se subisse mais um lance de escadas, daria no meu dormitório. Mas aquele andar me levaria à “prima Angeline”. Relutante, entrei no corredor do segundo andar, sabendo que, quanto antes cuidasse daquilo, melhor.
— Sydney! — Jill Mastrano abriu a porta do quarto, com um brilho de alegria nos olhos verde-claros. — Você voltou!
— É o que parece — respondi, entrando no quarto atrás dela. Angeline estava lá também, deitada na cama com uma apostila. Tinha certeza de que aquela era a primeira vez na vida que eu a via estudando, mas a prisão domiciliar provavelmente havia limitado suas opções de recreação.
— O que os alquimistas queriam? — Jill perguntou. Ela sentou na cama com as pernas cruzadas e, distraidamente, começou a brincar com os cachos castanho-claros de seu cabelo.
Dei de ombros.
— Burocracia. Coisa chata. Parece que as coisas estavam um pouco mais animadas por aqui — respondi, com um olhar incisivo para Angeline.
A dampira levantou da cama num pulo, o rosto furioso e os olhos azuis inflamados.
— Não foi culpa minha! Aquela Weathers estava completamente louca! — exclamou, com um leve sotaque sulista arrastando as palavras.
Dei uma avaliada rápida em Angeline, e não havia nada alarmante. Sua calça jeans era gasta, mas decente, assim como a camiseta. Até sua vasta cabeleira, de um tom loiro-avermelhado, estava domada, bem presa num rabo de cavalo, para variar um pouco.
— O que diabos você vestiu para deixar a mulher tão irritada, então?
Com a cara fechada, Angeline foi até o guarda-roupa, de onde tirou o short jeans mais esfarrapado que eu já tinha visto na vida. Pensei que ele fosse se desfazer na minha frente. Além disso, era tão curto que eu não me surpreenderia se deixasse a calcinha dela à mostra.
— Onde você comprou isso?
— Eu que fiz — disse, quase parecendo orgulhosa.
— Com o quê, um serrote?
— Eu tinha duas calças jeans — ela respondeu, pragmática. — Estava tão quente que tive a ideia de transformar uma delas em um short.
— Ela usou uma faca da cantina — Jill interferiu, prestativa.
— Não encontrei nenhuma tesoura — Angeline se justificou.
Ai, minha cama. Onde estava a minha cama naquela hora?
— A sra. Weathers também mencionou uma blusa indecente — eu disse.
— Ah — Jill disse. — Era minha.
— Como assim? — perguntei, erguendo a sobrancelha. — Sei que você não tem nenhuma roupa “indecente”.
No mês anterior, antes de Angeline chegar a Amberwood, eu e Jill dividimos o quarto.
— E a blusa não é indecente mesmo — Jill concordou. — Só que não é exatamente do tamanho de Angeline.
Alternei o olhar entre as duas e entendi. Jill era alta e magra, como quase todos os Moroi — uma silhueta invejada pelos estilistas humanos, e que eu mataria para ter. Ela até chegou a trabalhar como modelo por um tempo. Com aquele tipo físico vinham seios modestos. Já os de Angeline... Bem, não eram assim tão modestos. Se ela usasse uma regata do tamanho de Jill, era de se esperar que o modelo da blusa seria alargado além dos limites da decência.
— Jill usa essa regata o tempo todo e nunca se mete em encrenca — Angeline disse, na defensiva. — Não achei que eu fosse ter problemas se pegasse emprestada.
Eu estava começando a sentir dor de cabeça. Ainda assim, achei que aquela situação era menos problemática do que a vez em que Angeline foi pega se agarrando com um garoto no banheiro masculino.
— Bom, isso é fácil de resolver. Nós podemos, quer dizer, eu posso, já que você está presa aqui, ir comprar algumas roupas do seu tamanho hoje à noite.
— Ah — Angeline disse, subitamente mais animada —, não precisa. Eddie já está cuidando disso.
Se Jill não estivesse concordando com a cabeça, eu pensaria que era uma piada.
— Eddie? Eddie está comprando roupas pra você?
— Não é um amor? — Angeline respondeu com um suspiro sorridente.
Um amor? Não, mas eu sabia por que Eddie faria isso. Comprar roupas decentes para Angeline devia ser a última coisa que ele gostaria de fazer, mas ele faria mesmo assim. Como eu, ele entendia o significado do dever. Então entendi por que Eddie havia cancelado os experimentos e por que não explicara seus motivos.
Na mesma hora, peguei o celular e liguei para ele. Eddie atendeu de imediato, como sempre. Eu tinha certeza de que ele nunca ficava a mais de um metro do celular.
— Oi, Sydney. Que bom que você voltou. — Ele fez uma pausa. — Você voltou, né?
— Sim, estou com Jill e Angeline. Soube que você andou fazendo umas comprinhas.
— Nem me fale — disse com um suspiro. — Acabei de chegar no meu dormitório.
— Não quer trazer as compras para cá? Aliás, preciso do carro de volta.
Houve um instante de hesitação.
— Você se importaria de passar aqui? Isto é, se Jill estiver bem. Ela está bem, não é? Não precisa de mim? Porque, se precisar...
— Ela está ótima. — O alojamento dele não era muito longe, mas eu estava louca por um cochilo. Mesmo assim, acabei concordando, como sempre fazia. — Tá. Encontro você no saguão em uns quinze minutos?
— Tudo bem. Valeu, Sydney.
Assim que desliguei, Angeline me perguntou, assanhada:
— Eddie está vindo?
— Não, eu é que vou até lá — respondi.
Seu sorriso se desfez.
— Ah, tudo bem, tenho que ficar aqui, de qualquer jeito. Mal posso esperar para poder treinar de novo. Queria passar mais tempo com ele.
Eu não tinha notado como Angeline estava se dedicando ao treinamento. Ela parecia realmente animada com a ideia de treinar.
Saí do quarto e fiquei surpresa ao perceber Jill atrás de mim quando a porta fechou. Seus olhos estavam arregalados e preocupados.
— Sydney... Desculpa.
Olhei para ela, curiosa, me perguntando se ela também tinha feito alguma coisa errada.
— Por quê?
Ela apontou para a porta.
— Pela Angeline. Eu devia ter me esforçado mais para mantê-la longe de encrenca.
— Esse não é o seu trabalho — respondi, quase dando um sorriso.
— Sim, eu sei... — ela disse, baixando os olhos e deixando o cabelo cair no rosto. — Mesmo assim. Sei que eu devia ser mais como você. Em vez disso fico só... Você sabe, curtindo.
— Você está no seu direito — respondi, tentando ignorar o comentário sutil sobre mim.
— Mesmo assim, eu devia ser mais responsável — ela argumentou.
— Você é responsável — garanti. — Ainda mais em comparação com Angeline.
Em Utah, minha família tinha um gato que sem dúvida era mais responsável que Angeline. O rosto de Jill se iluminou, e me despedi para poder deixar a mala no quarto. A chegada de Angeline e meu trabalho na prisão de Keith me renderam um quarto só para mim no alojamento, algo que eu estimava muito. Dentro dele, tudo era calmo e organizado. Meu mundo perfeito. O único lugar em que o caos da minha vida não entrava. A cama perfeitamente arrumada estava pedindo para que eu dormisse ali. Implorando, na verdade. Logo mais, prometi. Assim espero.
Amberwood era dividida em três campi: leste (onde ficava o alojamento das meninas), oeste (onde ficava o dos meninos) e central (onde ficavam os prédios acadêmicos). Um ônibus circulava entre eles seguindo horários fixos, mas as pessoas corajosas podiam ir andando de um a outro naquele calorão. Normalmente eu não ligava para a temperatura, mas caminhar parecia trabalhoso demais naquele dia. Então peguei o circular até o campus oeste e tentei me manter acordada.
O saguão do alojamento masculino era muito parecido com o das meninas, com pessoas andando de um lado para o outro, estudando para entregar os trabalhos da escola a tempo ou simplesmente curtindo o domingo de folga. Olhei ao redor, mas Eddie ainda não tinha chegado.
— Oi, Melbourne.
Virei e vi Trey Juarez vindo em minha direção, com um sorriso largo no rosto bronzeado. Ele era do último ano, como eu, e me chamava de Melbourne desde que uma das nossas professoras se mostrou incapaz de decorar o sobrenome Melrose. Sinceramente, com tantos nomes para decorar, era uma surpresa que eu mesma ainda lembrasse quem eu era.
— Oi, Trey — respondi. Trey era uma verdadeira estrela do time de futebol americano da escola, e também era muito inteligente, por mais que tentasse esconder. Então nos dávamos muito bem, e o fato de eu tê-lo ajudado a restaurar seu status de melhor jogador no mês anterior contribuiu para que eu tivesse mais moral com ele. Ele estava com a mochila pendurada num dos ombros. — Finalmente vai terminar aquele relatório do laboratório de química?
— Pois é — respondeu. — Eu e metade das líderes de torcida. Quer vir com a gente?
Revirei os olhos.
— Não sei por quê, mas tenho a impressão de que não vai rolar muito trabalho. Além do mais, vim encontrar Eddie.
Ele deu de ombros e tirou uns fios rebeldes de cabelo preto dos olhos.
— Não sabe o que está perdendo. Vejo você amanhã. — Ele deu alguns passos e então voltou a me encarar. — Ei, você está ficando com alguém?
Eu já ia dizer que não, mas então um pensamento surpreendente me passou pela cabeça. Eu costumava interpretar as coisas de um jeito muito literal. As minhas amigas de Amberwood, Kristin e Julia, estavam tentando me treinar nas sutilezas da vida social do colégio. Uma das principais lições era que aquilo que as pessoas diziam nem sempre era o que tinham em mente, ainda mais em questões amorosas.
— Você... está me chamando para sair? — perguntei, surpresa.
Era só o que me faltava. O que eu iria responder? Diria que sim? Que não? Não fazia ideia de que ajudá-lo com as lições de química poderia ser atraente. Eu devia ter mandado Trey fazer o trabalho sozinho.
Trey pareceu tão surpreso quanto eu com a ideia.
— Quê? Não, claro que não.
— Graças a Deus — respondi.
Gostava do Trey, mas não tinha o menor interesse em sair com ele, ou ter que descobrir um jeito delicado de dizer “não”.
Ele me lançou um olhar contrafeito.
— Não precisa ficar tão aliviada.
— Desculpe — eu disse, tentando disfarçar o embaraço. — Mas por que você perguntou?
— Porque conheci o cara perfeito para você. Tenho certeza de que é a sua alma gêmea.
Agora tínhamos voltado a um território que eu conhecia: lógica contra falta de lógica.
— Não acredito em alma gêmea — retruquei. — É estatisticamente improvável que exista uma única pessoa ideal para cada um no mundo.
Mesmo assim, por um milésimo de segundo, desejei que fosse possível. Seria bom ter alguém que entendesse algumas coisas que passavam pela minha cabeça.
— Tá — Trey disse, revirando os olhos. — Não uma alma gêmea. Que tal alguém com quem você poderia sair de vez em quando e se divertir?
— Não tenho tempo para isso.
E realmente não tinha. Manter o grupo inteiro em ordem e fingir que era uma estudante já ocupava todo o meu tempo.
— Acredite em mim, tenho certeza de que você iria gostar dele. Ele frequenta uma escola pública e acabou de começar a trabalhar no Spencer’s. — Spencer’s era o café onde Trey trabalhava, o que sempre me garantia descontos. — Um dia desses ele estava falando sem parar sobre a diferença entre respiração aeróbica e disaeróbica, e eu fiquei pensando como ele era igualzinho a você.
— É anaeróbica — corrigi. — E continuo não tendo tempo. Desculpe.
Precisava admitir que estava terrivelmente curiosa para saber como aquele assunto tinha vindo à tona entre os baristas, mas achei melhor não encorajar Trey.
— Tudo bem — ele disse. — Depois não vá me dizer que nunca tentei ajudar você.
— Nem em sonho — garanti. — Ah, ali está Eddie.
— Bom, eu vou indo. Até mais, pessoal. — Trey fez uma continência irônica para mim e Eddie. — Não esqueça a minha oferta caso queira um bom ficante, Melbourne.
Trey saiu e Eddie me lançou um olhar atônito.
— Trey chamou você para sair?
— Não. Ele só quer me empurrar para um colega de trabalho dele.
— Talvez não seja uma má ideia.
— É uma péssima ideia. Vamos lá fora.
Sob o calor desértico, que parecia ignorar que estávamos em pleno outono, levei Eddie até um banco ao lado das paredes do alojamento. A sombra irregular de algumas palmeiras próximas nos refrescava um pouco. As pessoas tinham certeza de que a temperatura estava prestes a diminuir, mas eu não via o menor sinal de mudança. Eddie me entregou as chaves do carro e uma sacola de uma das lojas da cidade.
— Precisei chutar o tamanho — ele disse. — Na dúvida, escolhi os maiores. Achei que era mais seguro.
— Também acho. — Sentei no banco e remexi as compras dele. Calça jeans, cáqui, e algumas camisetas coloridas sem estampa. Todas as peças eram muito práticas, do tipo que um menino sem firulas como Eddie escolheria. Aprovei. — O tamanho parece certo. Que olho bom você tem! Vamos ter que mandá-lo fazer compras mais vezes.
— Se precisar — respondeu, sério. Não consegui conter o riso.
— Eu estava brincando. — Coloquei as camisetas de volta na sacola. — Duvido que tenha sido divertido. — O rosto de Eddie continuava seríssimo. — Ah, vai. Está tudo bem. Não precisa bancar o estoico comigo. Sei que não foi divertido para você.
— Estou aqui para cumprir minha função. Não importa se é divertido ou não.
Quase protestei, mas achei melhor não. Afinal, aquela era minha filosofia também, não era? Sacrificar minhas próprias vontades por um bem maior? Eddie era muito dedicado àquela missão. Ele nunca saía da linha. E eu não esperava nada menos do que concentração total vindo dele.
— Então isso significa que você está disposto a fazer alguns experimentos hoje à noite? — perguntei.
— Clar... — Ele parou e reconsiderou. — Jill e Angeline vão?
— Não, Angeline ainda está presa no quarto.
— Graças a Deus — ele disse, visivelmente aliviado.
A reação dele deve ter sido minha maior surpresa daquele dia. Não conseguia imaginar por que ele estaria tão aliviado. Além de sua lealdade por ser guardião de Jill, ele era louco por ela. Faria qualquer coisa por ela, mesmo que não fizesse parte do trabalho, mas se recusava a confessar seus sentimentos. Achava-se indigno de uma princesa. Uma ideia incômoda me passou pela cabeça.
— Você está... evitando Jill por causa da relação dela com Micah?
Micah dividia o quarto com o Eddie. Era um bom rapaz, mas fazia Eddie reviver traumas dignos de terapia porque se parecia demais com Mason, o falecido melhor amigo de Eddie. Além disso, Micah tinha uma relação estranha de pseudonamoro com Jill. Nenhum de nós estava contente com isso, já que, exceto para os Conservadores, relacionamentos entre humanos e Moroi ou dampiros eram um grande tabu. No fim das contas, decidimos que não dava para impedir que Jill tivesse uma vida social, e ela jurou que não havia nada sério ou físico acontecendo entre ela e Micah. Eles só passavam muito tempo juntos. E flertavam sem parar.
Ele não sabia a verdade a respeito dela, e eu me perguntava até que ponto ele iria querer avançar no relacionamento deles. Eddie insistia que era melhor Jill ter um relacionamento casual com um humano do que se envolver com um dampiro “indigno” como ele, mas eu tinha certeza de que vê-los juntos devia ser torturante.
— Claro que não — respondeu, ríspido. — Não é Jill que eu quero evitar. É Angeline.
— Angeline? O que ela fez dessa vez?
Eddie passou a mão no cabelo, parecendo frustrado. O tom de seu cabelo loiro-acastanhado não era muito diferente do meu, loiro-escuro. Nossas semelhanças facilitavam a tarefa de fingir que éramos gêmeos.
— Ela não me deixa em paz! Está sempre soltando uns comentários insinuantes quando estou por perto... e nunca para de olhar para mim. À primeira vista, isso pode até não parecer assustador, mas é. Ela está sempre me observando. E eu não consigo evitá-la porque ela está sempre com Jill, e é minha obrigação manter Jill em segurança.
Relembrei algumas interações recentes entre eles.
— Você tem certeza de que está interpretando os sinais corretamente? Nunca percebi nada.
— É porque você não percebe esse tipo de coisa — ele disse. — Você não imagina quantas desculpas ela encontra para encostar em mim.
Depois de ter visto o short que ela fez, eu conseguia imaginar, sim.
— Hum, talvez eu possa conversar com ela.
Com isso, Eddie voltou imediatamente à postura totalmente profissional:
— Não, isso é problema meu, é minha vida pessoal. Eu resolvo.
— Tem certeza? Porque eu posso...
— Sydney — ele me interrompeu delicadamente —, você é a pessoa mais responsável que eu conheço, mas não é essa sua função aqui. Não precisa cuidar de tudo e de todos.
— Eu não me importo — respondi automaticamente. — E essa é minha função aqui.
Mas, ao dizer isso, refleti se era mesmo verdade. Parte da inquietação que senti no abrigo subterrâneo voltou à tona, fazendo-me questionar se o que eu fazia era realmente por responsabilidade alquimista ou pelo desejo de ajudar aqueles que, contrariando o protocolo, tinham se tornado meus amigos.
— Viu? Agora você está usando o mesmo tom que usei há pouco. — Ele levantou e abriu um sorriso. — Quer ir comigo até a casa de Adrian? Para sermos responsáveis juntos?
As palavras dele pretendiam ser um elogio, mas soaram parecidas demais com o que os alquimistas haviam me dito. E a sra. Weathers. E Jill. Todo mundo achava que eu era tão admirável, tão responsável, tão controlada.
Mas, se eu era mesmo tão admirável, por que nunca tinha certeza se estava fazendo a coisa certa?

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Boa leitura :)