23 de outubro de 2017

Capítulo 1

Sydney

EU ACORDEI PARA A ESCURIDÃO.
Isso não era nenhuma novidade, visto que venho acordando para a escuridão nos últimos... bem, não sabia quantos dias. Poderia ser semanas ou até meses. Eu perdi a noção do tempo nesta pequena e gelada cela, com apenas um duro chão de pedra como cama. Meus captores me mantiveram acordada ou dormindo, a seu critério, com a ajuda de alguma droga que deixou impossível a contagem dos dias. Por um tempo, eu tive certeza de que estavam deslizando-o para mim pela água ou comida, então entrei em greve de fome. A única coisa que consegui foi uma alimentação forçada — algo que nunca, nunca quero experimentar novamente — e nenhuma escapatória da droga. Eu finalmente compreendi que estavam colocando-a através do sistema de ventilação, e diferentemente da comida, eu não poderia entrar em greve de ar.
Por um tempo, tive a ideia fantástica de que eu poderia acompanhar o tempo através do meu ciclo menstrual, a maneira como as mulheres das sociedades primitivas se sincronizavam pela lua. Meus captores, proponentes de limpeza e eficiência, tinham até provido produtos de higiene feminina para quando a hora chegasse. O plano falhou também, entretanto. Sendo abruptamente afastada das pílulas de controle de natalidade na hora da minha captura, resetou todos os meus hormônios e jogou meu corpo em ciclos irregulares que tornou impossível medir qualquer coisa, especialmente quando combinado com minha falta de sono. A única coisa da qual poderia ter certeza era de que não estava grávida, o que foi um grande alívio. Se eu tivesse o filho de Adrian para me preocupar, os alquimistas teriam poder ilimitado sobre mim. Mas era apenas eu neste corpo e eu poderia aguentar o que quer que me jogassem. Fome, frio. Não importava. Eu me recusava a deixá-los me quebrar.
— Você pensou sobre os seus pecados, Sydney?
A voz metálica e feminina reverberou pela pequena cela, parecendo vir de todas as direções de uma vez. Eu me puxei até uma posição sentada, puxando minha áspera túnica para os joelhos. Mais um hábito que qualquer coisa. A peça sem mangas era fina como um papel e não oferecia calor algum. A única coisa que provia era um senso de modéstia psicológico. Eles o haviam me entregado a meio caminho do meu cativeiro, dizendo ser um gesto de benevolência. Na realidade, eu acho que os alquimistas apenas não conseguiriam lidar comigo lá nua, especialmente quando eles viram que não conseguiriam o que esperavam comigo.
— Eu dormi — eu disse, sufocando um bocejo. — Sem tempo para pensar.
A droga no ar parecia me deixar sempre sonolenta, mas eles também me mandavam algum estimulante que dessa certeza de que eu ficaria acordada quando eles queriam, não importava o quão cansada eu estivesse. O resultado era que eu nunca estava completamente descansada — já que essa era sua intenção. Guerra psicológica funcionava melhor quando a mente estava cansada.
— Você sonhou? — perguntou a voz. — Você sonhou com redenção? Você sonhou com como seria ver a luz novamente?
— Você sabe que não.
Eu estava estranhamente falante hoje. Eles me faziam essas perguntas todo o tempo, e algumas vezes eu apenas ficava em silêncio.
— Mas se você quiser para de me alimentar com aquele sedativo por um tempo, talvez eu durma realmente e tenha sonhos para que possamos conversar sobre.
Mais importante, tendo uma noite de verdade que fosse livre das drogas significava que Adrian seria capaz de me contatar nos meus sonhos e me ajudar a sair desse buraco do inferno.
Adrian.
Ele era a razão de eu ser capaz de sobreviver nesta prisão.
E ele também era a razão de eu estar aqui em primeiro lugar.
— Você não precisa do seu subconsciente para lhe dizer o que seu consciente já sabe. — A voz me disse. — Você está contaminada e impura. Sua alma está envolta em trevas e você pecou contra o seu próprio tipo.
Eu suspirei para esta velha retórica, e mudei de posição tentando ficar mais confortável, embora fosse uma batalha perdida. Meus músculos estavam em um estado eterno de rigidez há anos já. Não havia nenhum conforto em ser encontrada nesta situação.
— Deve te entristecer — a voz continuou — saber que você quebrou o coração de seu pai.
Essa era uma nova abordagem, uma que me pegou de baixa guarda o suficiente para responder sem pensar.
— Meu pai não tem coração.
— Ele tem, Sydney. Ele tem.
A não ser que estivesse errada, a voz soou um pouco satisfeita por ter me atingido.
— Ele lamenta muito a sua queda. Especialmente quando você se mostrava uma promessa para nós e nossa luta contra o mal.
Eu deslizei mais para que pudesse me encostar à parede rudemente cortada.
— Bem, ele tem uma outra filha que é muito mais promissora agora, então tenho certeza de que ele irá superar.
— Você quebrou o coração dela também. Ambos estão mais aflitos do que você possa imaginar. Não seria bom se você se reconciliasse com eles?
— Você está me oferecendo esta chance? — Perguntei cautelosamente.
— Nós temos lhe oferecido esta chance desde o começo, Sydney. Apenas diga as palavras, e iremos começar alegremente seu caminho para a redenção.
— Você está dizendo que isto não foi parte?
— Isto foi parte do esforço para te ajudar a limpar sua alma.
— Certo — eu disse. — Ajudando-me através de fome e humilhação.
— Você quer ver sua família ou não? Não seria legal sentar e conversar com eles?
Eu não respondi e ao invés tentei entender que jogo estava sendo jogado. A voz havia me oferecido muitas coisas ao meu cativeiro, a maioria deles objetos de conforto — calor, cama macia, roupas de verdade. Havia sido oferecida outras recompensas também, como o colar de cruz que Adrian havia feito para mim e comida de longe mais substancial e apetitosa que a sopa de aveia com a qual me deixavam viva. Eles até tentaram me deixar tentada com o último canalizando aroma de café. Alguém — possivelmente da família que se importa tanto comigo — deve tê-los dado pistas de minhas preferências.
Mas isso... a chance de ver e falar com as pessoas era algo totalmente novo junto. Admitidamente, Zoe e meu pai não eram exatamente o topo da minha lista de quem gostaria de ver agora, mas era o alcance maior daquilo que os alquimistas estavam me oferecendo que me interessava: uma vida fora desta cela.
— O que eu teria que fazer? — Eu perguntei.
— O que você sempre soube que teria que fazer — respondeu a voz. — Admitir sua culpa. Confessar seus pecados e admitir que você está pronta para se redimir.
Eu quase disse, Eu não tenho o que confessar. Foi o que eu disse a eles centenas de vezes antes disso. Talvez até milhares de vezes. Mas eu ainda estava intrigada. Encontrar outras pessoas significava que eles teriam que parar de envenenar o ar... certo? E se eu pudesse escapar disso, poderia sonhar...
— Eu digo essas palavras, e eu posso ver minha família?
A voz estava irritantemente condescendente.
— Não imediatamente, é claro. Terá que ser merecido. Mas você estará apta a seguir para o próximo estado de sua recuperação.
— Reeducação — eu disse.
— Seu tom faz parecer algo ruim — disse a voz — Nós fazemos isso para ajudar você.
— Não, obrigada. Estou começando a me acostumar com esse lugar. Seria uma pena deixá-lo.
Além disso, eu sabia que a verdadeira tortura começaria na reeducação. Claro, poderia não esgotar tanto meu corpo quanto aquela cela escura, mas seria lá que eles se focariam no controle mental. As condições penosas da cela eram apenas uma preparação, com o objetivo de me deixar fraca e impotente para que estivesse suscetível quando tentassem mudar minha mentalidade na reeducação. Para que agradecesse àqueles monstros pelo que fariam comigo.
Ainda assim, não conseguia deixar de pensar que, se saísse daquela cela, teria a chance de dormir e sonhar normalmente. Se entrasse em contato com Adrian, tudo poderia mudar. No mínimo, saberia que ele estava bem... se eu sobrevivesse à reeducação, claro. Podia especular o tipo de manipulação psicológica que tentariam usar sobre mim, mas não dava para ter certeza. Será que eu suportaria? Será que conseguiria manter a mente intacta, ou eles me fariam ir contra todos os meus princípios e entes queridos? Era o risco de sair daquela cela.
Também sabia que os alquimistas possuíam drogas e técnicas para fazer seus comandos “pegarem”, por assim dizer, e, embora fosse possível que eu estivesse protegida, graças ao uso regular de magia antes de ter sido aprisionada, ainda tinha medo de estar vulnerável. O único jeito seguro que conhecia de me proteger da compulsão alquimista era por meio de uma poção que eu já havia produzido e usado com bons resultados num amigo meu — mas não em mim mesma.
Outras reflexões foram deixadas para depois quando senti um cansaço profundo. A essa altura, já sabia que não dava para resistir e deitei no chão, permitindo que um sono pesado e sem sonhos caísse sobre mim, sepultando as ideias de liberdade. Mas, antes que a droga me derrubasse, disse o nome dele mentalmente, usando-o como um amuleto para me manter firme.
Adrian.
Um tempo indefinido depois, acordei e encontrei comida na cela. Era o mingau de sempre, algum tipo de cereal quente de caixinha que devia ser fortificado com vitaminas e minerais para, na medida do possível, me manter saudável. Mas chamar aquilo de “cereal quente” era generosidade. “Morno” seria mais adequado. Eles o deixavam o mais insosso possível. Com ou sem gosto, comi automaticamente, sabendo que precisava manter as forças para quando saísse daquele lugar.
Se é que um dia vou sair daqui.
Esse pensamento traiçoeiro surgiu antes que eu pudesse impedir. Era um medo que vinha me assombrando, a possibilidade de me manterem ali para sempre, de eu nunca mais ver as pessoas que amava — Adrian, Eddie, Jill, ninguém. De nunca mais praticar magia. De nunca mais ler um livro. Este último pensamento me atingiu com força porque, naquele dia, por mais que os devaneios sobre Adrian me ajudassem a atravessar as horas sombrias, eu daria tudo por algo tão mundano quanto um romance barato para ler. Aceitaria até uma revista ou um panfleto. Qualquer coisa que não fosse a escuridão e aquela voz.
Seja forte, repeti para mim mesma. Seja forte por você. Seja forte por Adrian. Ele faria o mesmo, não faria?
Sim, faria. Onde quer que estivesse, ainda em Palm Springs ou em outro lugar, eu sabia que Adrian nunca desistiria de mim, e precisava estar à altura. Tinha que estar pronta para quando estivéssemos juntos novamente. Tinha que estar pronta para o nosso reencontro.
Centrum permanebit. As palavras em latim ecoaram na minha cabeça, me dando forças. Significavam “o centro vai aguentar” e eram inspiradas em um poema que Adrian tinha lido.
Nós somos o centro agora, pensei. E eu e ele vamos aguentar, custe o que custar.
Terminei a refeição miserável e fui me lavar na pequena pia no canto da cela, tateando o caminho na escuridão até chegar ao lado do pequeno vaso sanitário. Um banho ou ducha de verdade estavam fora de questão (embora eles já tivessem oferecido isso como recompensa) e eu precisava me limpar diariamente (ou o que achava que era diariamente) com uma toalha de rosto e água fria com cheiro de ferrugem. Era humilhante saber que eles estavam observando com suas câmeras de visão noturna, mas ainda era mais digno do que ficar suja. Eu não daria essa satisfação a eles. Continuaria sendo humana, embora estivessem me acusando justamente do contrário.
Quando estava limpa o suficiente, voltei a me encolher na parede, batendo os dentes enquanto a pele molhada tremia sob o ar frio. Será que algum dia me sentiria aquecida de novo?
— Sydney, falamos com seu pai e sua irmã — a voz disse. — Eles ficaram tristes em saber que você não queria vê-los. Zoe até chorou.
Fiz uma careta por dentro, me arrependendo de ter entrado no jogo deles da última vez. Agora a voz achava que chantagem familiar exercia algum efeito sobre mim. Como eles podiam achar que eu gostaria de ver as pessoas que haviam me trancado naquele lugar? Os únicos membros da minha família com quem eu queria falar — minha mãe e minha irmã mais velha — não deviam estar na lista de visitas, ainda mais se meu pai tivesse vencido o divórcio. Esse resultado era algo que eu queria saber, mas não ia revelar meu interesse.
— Você não se arrepende da dor que causou a eles? — perguntou a voz.
— Acho que são eles que deviam se arrepender da dor que me causaram — retruquei.
— Eles não queriam te causar nenhuma dor. — A voz parecia estar tentando me consolar, mas eu só queria socar quem estivesse por trás dela, e olha que não sou uma pessoa violenta. — Eles fizeram o que fizeram para te ajudar. É tudo que estamos tentando fazer. Eles adorariam ter a chance de conversar com você e se explicar.
— Aposto que sim — murmurei. — Se é que vocês falaram com eles. — Eu estava me odiando por manter uma conversa com meus captores. Fazia tempo que não falava tanto. Eles deviam estar adorando.
— Zoe perguntou se pode trazer um latte de baunilha light pra você quando vier. Dissemos que sim. Tudo que queremos é uma visita civilizada, para vocês sentarem e terem uma conversa sincera, que cure sua família e especialmente sua alma.
Meu coração bateu mais rápido, e não era pela promessa do café. A voz estava confirmando o que já tinha sugerido antes. Uma visita de verdade, sentar, tomar café... aquilo só poderia acontecer fora da minha cela. Se a oferta fosse real, eles nunca trariam meu pai e Zoe para aquele lugar — não que meu objetivo fosse vê-los. O que eu queria era sair dali. Ainda acreditava que era capaz de ficar lá para sempre, de suportar o que quer que eles fizessem contra mim. E era. Mas o que estava conseguindo com isso? Só provava que eu era durona e rebelde, e, por mais que me orgulhasse dessas coisas, elas não estavam me levando para perto de Adrian. Nem de Adrian, nem de nenhum dos meus amigos. Eu precisava sonhar. Para sonhar, precisava me livrar da sedação contínua.
E não era só isso. Se saísse daquela cela pequena e escura, talvez conseguisse praticar magia. Talvez descobrisse para qual parte do mundo tinham me levado. Talvez pudesse me libertar.
Mas primeiro precisava sair daquela cela. Eu tinha pensado que ficar ali fosse um ato de bravura, mas, de repente, suspeitei que sair fosse o verdadeiro teste de coragem.
— O que você acha, Sydney? — A voz parecia entusiasmada, quase ansiosa, o que contrastava com o tom altivo e imperioso a que eu havia me acostumado. Eles nunca tinham despertado meu interesse antes. — Gostaria de dar seus primeiros passos para limpar sua alma... e ver sua família?
Há quanto tempo eu definhava naquela cela, entrando e saindo desse estado de consciência perturbado? Ao tocar o torso e os braços, notei que tinha perdido bastante peso, o tipo de perda que levava semanas. Semanas, meses... eu não fazia ideia. E, enquanto estava ali, o mundo continuava dando voltas, um mundo cheio de gente que precisava de mim.
— Sydney?
Não querendo parecer muito ansiosa, tentei me esquivar.
— Como sei que posso confiar em vocês? Que vão me deixar ver minha família se eu... começar essa jornada?
— O mal e a mentira não fazem parte do nosso caminho — disse a voz. — Somos adeptos da luz e da honestidade.
Mentirosos, pensei. Fazia anos que eles mentiam para mim, dizendo que pessoas boas eram monstros e tentando ditar como eu deveria seguir a minha vida. Mas não importava. Só precisava que mantivessem a palavra em relação à minha família.
— Vou ter... uma cama de verdade? — Consegui deixar a voz embargada. Os alquimistas tinham me ensinado a ser uma excelente atriz e, agora, veriam seu treinamento em ação.
— Sim, Sydney. Uma cama de verdade, roupas de verdade, comida de verdade. E pessoas com quem conversar... pessoas que vão te ajudar se você ouvir.
Essa última parte fechou o acordo. Se fossem me manter perto de outras pessoas regularmente, não poderiam mais drogar o ar. Naquele momento, senti que ficava mais alerta e agitada. Eles estavam mandando o estimulante pelo sistema de ventilação, e a droga me deixava ansiosa, querendo tomar decisões por impulso. Era um bom recurso sobre uma mente cansada e estava funcionando — só não do jeito como eles queriam.
Por hábito, levei a mão à clavícula, tocando uma cruz que não estava mais lá. Não deixe que eles me mudem, orei em silêncio. Permita que eu mantenha minha sanidade. Permita que eu suporte o que está por vir, seja lá o que for.
— Sydney?
— O que preciso fazer? — perguntei.
— Você sabe o que precisa fazer — a voz respondeu. — Sabe o que precisa dizer.
Levei a mão ao peito e as palavras agora não eram uma oração, mas uma mensagem silenciosa para Adrian: Espere por mim. Seja forte e também serei. Vou lutar e resistir a tudo que me aguarda. Não vou te esquecer. Nunca vou te abandonar, apesar de todas as mentiras que terei de contar a eles. Nosso centro vai aguentar.
— Você sabe o que precisa dizer — a voz repetiu. Ela estava quase salivando.
Limpei a garganta.
— Pequei contras os meus e deixei minha alma ser corrompida. Estou pronta para expurgar essa escuridão.
— E quais foram os seus pecados? — a voz perguntou. — Confesse o que você fez.
Isso era mais difícil, mas consegui encontrar as palavras. Para chegar mais perto de Adrian e da liberdade, eu era capaz de falar qualquer coisa.
Respirei fundo e disse:
— Me apaixonei por um vampiro.
E, de repente, fui cegada pela luz.

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Boa leitura :)