19 de outubro de 2017

Capítulo 1

Adrian

NÃO VOU MENTIR: entrar no quarto e encontrar sua namorada lendo um livro de nomes de bebê pode assustar um pouco.
— Não sou nenhum especialista — comecei, escolhendo as palavras com cuidado. — Quer dizer… na verdade, sou sim. E tenho quase certeza de que a gente precisa fazer certas coisas antes de começar a ler esses livros.
Sydney Sage, a namorada em questão e luz da minha vida, nem ergueu os olhos, embora um sorriso perpassasse seu rosto.
— É para a iniciação — ela disse, com um tom prático, como se estivesse falando sobre pintar as unhas ou fazer compras, e não sobre entrar para um clã de bruxas. — Preciso de um nome “mágico” para usar nas convenções.
— Certo. Nome mágico, iniciação. Mais um dia como outro qualquer na sua vida, né? — Não que eu pudesse falar alguma coisa, já que era um vampiro com a capacidade incrível mas complicada de curar e compelir pessoas.
Dessa vez, recebi um sorriso completo, e ela levantou os olhos. A luz do fim de tarde que entrava pela janela do meu quarto refletiu neles, salientando seu brilho amarelo-âmbar. Eles se arregalaram de surpresa quando ela notou as três caixas empilhadas que eu estava carregando.
— O que tem aí?
— Uma revolução musical — respondi, pondo-as no chão com reverência. Abri a primeira caixa, revelando um toca-discos. — Vi o cartaz de um cara vendendo no campus. — Abri outra caixa cheia de vinis e peguei Rumours, do Fleetwood Mac. — Agora posso ouvir música da forma mais pura.
Ela não pareceu impressionada, o que era surpreendente considerando que via meu Mustang 1967, que batizara de Ivashmóvel, como uma espécie de santuário sagrado.
— Tenho quase certeza de que música digital é tão pura quanto. Foi um desperdício de dinheiro, Adrian. Consigo pôr as músicas de todas essas caixas no meu celular.
— Consegue pôr no seu celular as outras seis que estão no carro?
Ela pestanejou, perplexa, e pareceu desconfiada.
— Adrian, quanto gastou nisso tudo?
Ignorei a pergunta.
— Ei, ainda consigo pagar o carro. Eu acho. — Pelo menos não precisava gastar com aluguel, já que o apartamento estava pago, mas eu tinha muitas outras contas. — Além disso, tenho um orçamento maior para esse tipo de coisa agora que alguém me fez parar de fumar e beber.
— Você bebia o dia todo! — ela exclamou. — Estou cuidando da sua saúde.
Sentei ao lado dela na cama.
— Assim como estou cuidando de você e do seu vício em cafeína. — Era um acordo que havíamos feito, formando um tipo de grupo de apoio. Eu tinha parado de fumar e passado a beber apenas uma dose por dia. Ela tinha trocado as dietas obsessivas por uma quantidade saudável de calorias e não tomava mais que uma xícara de café por dia. Por incrível que pareça, era mais difícil para ela do que para mim. Nos primeiros dias, achei que precisaria interná-la numa clínica de reabilitação para viciados em cafeína.
— Não era um vício — ela resmungou, ainda com rancor. — Era mais um… estilo de vida.
Ri e a puxei para um beijo, fazendo o resto do mundo desaparecer. Não existiam livros de nomes, discos ou vícios. Havia apenas ela e o gosto de seus lábios, a forma maravilhosa como conseguiam ser macios e ardentes ao mesmo tempo. O resto do mundo achava que ela era fria e rígida. Só eu conhecia a intensidade e o desejo escondidos dentro dela — quer dizer, eu e Jill, a menina que conseguia enxergar o que se passava na minha cabeça por causa do laço psíquico que compartilhávamos.
Quando deitei Sydney na cama, tive, como sempre, aquela sensação vaga e passageira de que o que estávamos fazendo era proibido. Humanos e Moroi não se misturavam desde que minha raça tinha se escondido do resto do mundo na Idade Média. Fizemos isso por segurança, achando que era melhor os humanos não saberem da nossa existência. Agora, meu povo e o dela (os que sabiam sobre os Moroi) consideravam relações como a nossa erradas e, em certos círculos, sinistras e perversas. Mas eu não me importava. Só ligava para ela e para a forma como seu toque me enlouquecia, por mais que sua presença calma aplacasse as violentas tempestades que se agitavam dentro de mim.
Mas nem por isso alardeávamos nossa relação. Na verdade, nosso romance era um segredo muito bem guardado, que exigia muitas escapadas e um planejamento cuidadosamente calculado. Mesmo naquele momento, nosso tempo era curto. Essa era nossa rotina durante a semana. Ela tinha uma sessão de estudo independente no último horário, ministrada por uma professora indulgente que a deixava sair mais cedo e correr até a minha casa. Tínhamos uma única hora preciosa para nos beijar ou conversar — normalmente, nos beijar, com ardor ainda maior devido à pressão do tempo — e, depois, ela voltava para a escola particular, na hora exata em que Zoe, sua irmã grudenta e vampirofóbica, saía da aula.
Sabe-se lá como, Sydney tinha um relógio interno que lhe avisava quando o tempo estava terminando. Acho que tinha a ver com seu talento inato de pensar em centenas de coisas ao mesmo tempo. Eu não. Nessas horas, meus pensamentos normalmente estavam concentrados em tirar a blusa dela e ver se, dessa vez, conseguiria me livrar do sutiã também. Até agora, nada.
Ela sentou com as bochechas avermelhadas e o cabelo loiro desgrenhado. Era tão bonita que fazia minha alma doer. Naqueles momentos, sempre queria pintá-la e imortalizar sua expressão. Seus olhos adquiriam uma suavidade que eu raramente via em outras ocasiões, uma vulnerabilidade total e absoluta em alguém que costumava ser reservada e analítica nas outras áreas da vida. Mas, por mais que eu fosse um pintor razoável, registrar Sydney em tela estava além da minha capacidade.
Ela pegou sua blusa marrom e a abotoou, escondendo a renda azul-turquesa com a camisa formal com que gostava de se resguardar. Tinha trocado os sutiãs durante o mês anterior e, por mais que eu sempre ficasse triste quando desapareciam, era bom saber que estavam lá, aqueles pontos coloridos e secretos na vida dela.
Enquanto ela caminhava até o espelho sobre a cômoda, invoquei um pouco da magia de espírito para vislumbrar sua aura, a energia que rodeava todos os seres vivos. A magia trouxe uma breve onda de prazer e, então, vi aquela luz reverberante em torno dela. Estava como sempre: o amarelo dos estudiosos balanceado com um roxo mais ardente de paixão e espiritualidade. Num piscar de olhos, a aura se apagou e, junto com ela, a euforia avassaladora do espírito.
Ela terminou de arrumar o cabelo e baixou os olhos.
— O que é isso?
— Hum? — Levantei e fui até ela, pondo os braços ao seu redor. Então, meu corpo ficou rígido ao ver o que tinha pegado: abotoaduras cintilantes com rubis e diamantes encravados. De repente, a ternura e a alegria que eu tinha acabado de sentir foram substituídas pela velha escuridão gélida. — Ganhei de presente da minha tia Tatiana faz alguns anos.
Sydney pegou uma delas e a estudou com um olhar de especialista. Então abriu um sorriso largo.
— Você tem uma fortuna aqui. Isso é platina. Se vender isso, vai ter pensão pro resto da vida. E todos os discos que quiser.
— Prefiro dormir numa caixa de papelão a vender isso.
Ela percebeu a mudança em mim e virou para me encarar, com o rosto preocupado.
— Ei, eu estava brincando. — Sua mão tocou meu rosto de leve. — Tudo bem. Está tudo bem.
Mas não estava. De repente, o mundo era um lugar cruel e inóspito, vazio desde a morte da minha tia, a rainha dos Moroi e única parente que nunca me julgou. Senti um nó na garganta e as paredes pareceram se fechar ao meu redor quando me lembrei de como ela havia sido apunhalada até a morte e as fotos divulgadas em todo canto para encontrar o assassino. Não importava que a assassina estivesse presa e condenada à morte. Isso não traria minha tia de volta. Ela havia partido para um lugar aonde não podia segui-la, ao menos não ainda, e eu estava ali, sozinho e insignificante e sem rumo…
— Adrian.
A voz de Sydney era calma mas firme e, lentamente, fui saindo daquele desespero que podia surgir tão rápida e intensamente, uma escuridão que vinha aumentando ao longo dos anos quanto mais eu usava o espírito. Era o preço daquele poder, e essas mudanças repentinas estavam ficando cada vez mais frequentes. Eu me concentrei nos olhos dela e a luz voltou ao mundo. Ainda sofria pela morte da minha tia, mas Sydney estava lá, minha esperança e minha âncora. Eu não estava sozinho. Não era incompreendido. Engolindo em seco, assenti e dei um sorriso frágil enquanto me libertava das garras sombrias do espírito. Por enquanto.
— Estou bem. — Vendo a descrença no rosto dela, dei-lhe um beijo na testa. — Mesmo. Você precisa ir, Sage. Senão Zoe vai estranhar e você vai se atrasar para o encontro com as bruxas.
Ela me olhou preocupada por mais alguns segundos e então relaxou um pouco.
— Certo. Mas se precisar de alguma coisa…
— Eu sei, eu sei. Ligo no Celular do Amor.
Ela voltou a sorrir. Fazia pouco tempo que tínhamos comprado celulares pré-pagos que a organização dos alquimistas, para a qual ela trabalhava, não conseguiria rastrear. Não que costumassem rastrear o celular normal dela, mas sem dúvida poderiam se tivessem alguma suspeita, e não queríamos deixar um rastro de mensagens e ligações.
— E farei uma visitinha hoje à noite — acrescentei. Seus traços voltaram a se endurecer.
— Adrian, não. É arriscado demais.
Outra vantagem do espírito era a capacidade de visitar as pessoas nos sonhos. Era um bom jeito de conversar, já que tínhamos pouco tempo acordados — e não o gastávamos conversando —, mas, como qualquer uso do espírito, apresentava um risco contínuo à minha sanidade. Ela ficava preocupada, mas eu achava que valia a pena para ficar com ela.
— Sem discussão — avisei. — Quero saber como vão as coisas. E sei que você quer saber sobre mim.
— Adrian…
— Vai ser rápido — prometi.
Relutante, ela concordou, sem parecer nem um pouco satisfeita, e eu a acompanhei até a porta.
Enquanto atravessávamos a sala, ela parou na frente de um pequeno aquário perto da janela. Sorrindo, ajoelhou-se e cutucou o vidro. Dentro, havia um dragão.
Sério. O nome exato era callistana, mas raramente nos referíamos a ele assim. Normalmente o chamávamos de Pulinho. Sydney o invocara de alguma dimensão demoníaca como uma espécie de ajudante. Na maior parte do tempo, ele parecia querer nos ajudar a comer todas as besteiras que eu tinha no meu apartamento. Nós dois estávamos ligados ao bichinho e, para mantê-lo saudável, precisávamos nos revezar tomando conta dele. Desde que Zoe se mudara, porém, minha casa era seu lar principal.
Sidney levantou a tampa do tanque e ofereceu a mão para que a criaturinha de escamas douradas subisse correndo. Ele a olhou com veneração, e eu não podia culpá-lo.
— Ele está nessa forma faz um tempo — ela disse. — Quer umas férias? — Pulinho podia existir em sua forma viva ou ser transformado numa estatuazinha, o que ajudava a evitar perguntas constrangedoras quando alguém vinha visitar. Mas só ela conseguia transformá-lo.
— Sim. Ele vive tentando comer minhas tintas. E não quero que me veja dando um beijo de despedida em você.
Ela fez um carinho de leve no queixo dele e falou as palavras que o transformavam em estátua. A vida era sem dúvida mais fácil assim, mas a saúde dele exigia que o libertássemos de vez em quando.
Além disso, tinha me apegado ao bichinho.
— Fico com ele um pouco — ela disse, colocando a pedra na bolsa. Mesmo inerte, era bom para ele ficar perto dela.
Livre dos olhinhos redondos do callistana, dei um longo beijo de despedida nela, daqueles que nunca terminam. Deixei as mãos no rosto dela.
— Plano de fuga nº17 — falei. — Fugir e abrir uma barraca de suco em Fresno.
— Por que Fresno?
— Parece um bom lugar pra tomar suco.
Ela sorriu e me beijou de novo. Os “planos de fuga” eram uma brincadeira entre nós, sempre mirabolantes e numerados ao acaso. Normalmente eu os inventava na hora. O triste, porém, era que passávamos muito mais tempo pensando neles do que em qualquer plano real. Era difícil, mas ambos sabíamos muito bem que estávamos vivendo cada momento, com o futuro incerto.
Romper aquele segundo beijo também foi difícil, mas por fim ela conseguiu e fiquei olhando enquanto se afastava. Meu apartamento parecia mais sombrio sem ela.
Levei as outras caixas que estavam no carro para dentro e examinei os tesouros que havia nelas. A maioria dos vinis era dos anos 1960 e 1970, com alguns dos anos 1980 aqui e ali. Não estavam organizados, mas nem pensei em arrumá-los. Quando Sydney parasse de pensar que tinham sido um desperdício de dinheiro, não conseguiria se conter e acabaria arrumando-os por artista, gênero ou cor. Por enquanto, coloquei a vitrola na sala e peguei um álbum ao acaso: Machine Head, do Deep Purple.
Eu ainda tinha algumas horas até o jantar e me agachei diante de um cavalete, olhando para a tela em branco enquanto pensava sobre o trabalho para a aula de pintura a óleo avançada: um autorretrato. Não precisava ser exatamente igual. Podia ser abstrato. Podia ser qualquer coisa, desde que me representasse.
E eu não sabia o que fazer. Seria capaz de pintar qualquer pessoa que conhecia. Ainda que não conseguisse capturar exatamente aquele olhar de arrebatamento que Sydney tinha em meus braços, poderia retratar a aura ou a cor dos olhos dela. Poderia recriar o rosto melancólico e frágil da minha amiga Jill Mastrano Dragomir, uma jovem princesa Moroi. Poderia pintar rosas flamejantes em homenagem à minha ex-namorada, que havia partido meu coração mas, mesmo assim, ganhado minha admiração.
Mas eu mesmo? Não sabia o que fazer. Talvez fosse só um bloqueio artístico. Talvez eu só não me conhecesse. Enquanto olhava fixamente para a tela, cada vez mais frustrado, lutei contra a ânsia de ir até o armário de bebidas esquecido e pegar um copo. O álcool nem sempre me tornava um bom artista, mas costumava inspirar alguma coisa. Quase conseguia sentir o gosto da vodca. Poderia misturar com suco de laranja e fingir que estava sendo saudável. Meus dedos tremeram e meus pés quase me levaram até a cozinha, mas resisti. A seriedade nos olhos de Sydney brilhou na minha mente e voltei a me concentrar na tela. Eu podia fazer aquilo sóbrio. Havia prometido que só tomaria uma dose por dia e vinha me mantendo fiel à promessa. E, por enquanto, precisava daquela dose no fim do dia, quando ia me deitar.
Eu não dormia bem. Nunca tinha dormido, em toda a minha vida, então qualquer ajuda era bem-vinda. Mas minha decisão de ficar sóbrio não me trouxe inspiração e, às cinco da tarde, a tela continuava em branco. Levantei e me alonguei, sentindo o retorno daquela velha escuridão. Fiquei mais nervoso que triste dessa vez, além de frustrado por não conseguir pintar. Meus professores de arte diziam que eu tinha talento, mas, em horas como aquela, eu me achava o moleque mimado que a maioria das pessoas pensava que eu era, destinado a uma vida de fracassos. Era especialmente deprimente quando me comparava a Sydney, que sabia tudo sobre todas as coisas e se daria bem em qualquer carreira que escolhesse. Esquecendo o problema entre vampiros e humanos, eu precisava pensar o que tinha para oferecer a ela. Não conseguia nem pronunciar metade das coisas que a interessavam, muito menos conversar sobre elas. Se um dia conseguíssemos ter uma vida normal juntos, ela sairia para pagar as contas e eu ficaria em casa fazendo faxina. E nem nisso era muito bom. Se ela só quisesse chegar em casa à noite e encontrar um cara bonito com um cabelo legal, pelo menos isso eu podia garantir.
Eu sabia que esses medos que me consumiam estavam sendo ampliados pelo espírito. Nem todos eram reais, mas era difícil ignorá-los. Dei as costas para o quadro e saí, na esperança de encontrar alguma distração na noite que caía. O sol estava se pondo e o anoitecer do inverno em Palm Springs mal pedia um casaco leve. Era o período favorito dos Moroi, quando ainda havia luz, mas não o bastante para incomodar. Conseguíamos lidar com um pouco de luz, ao contrário dos Strigoi, os vampiros mortos-vivos que matavam para conseguir sangue. O sol os destruía, o que era uma vantagem para nós. Toda ajuda para lutar contra eles era bem-vinda.
Dirigi até Vista Azul, um bairro a dez minutos do centro da cidade que abrigava a Escola Preparatória Amberwood, o internato particular que Sydney e o resto do nosso grupo heterogêneo frequentavam. Normalmente Sydney era a motorista do grupo, mas essa honra duvidosa havia recaído sobre mim naquela noite, enquanto ela saía às pressas para sua reunião clandestina com o clã das bruxas.
Todo o grupo estava esperando no meio-fio em frente ao alojamento feminino quando estacionei. Inclinei-me sobre o banco de passageiro e abri a porta.
— Todos a bordo — eu disse.
Eles entraram correndo. Eram cinco agora, além de mim, o que daria um sete da sorte se Sydney estivesse lá. Quando chegamos a Palm Springs, éramos só quatro. Jill, o motivo por que estávamos ali, sentou-se correndo ao meu lado e abriu um sorriso.
Se Sydney era a principal força tranquilizante na minha vida, Jill era a segunda. Ela só tinha quinze anos, sete a menos que eu, mas possuía um encanto e uma sabedoria irradiantes. Sydney podia ser o amor da minha vida, mas Jill me entendia como ninguém. Era meio difícil não entender, com nosso laço psíquico. Ele havia sido criado quando usei o espírito para salvar a vida dela no ano anterior. E quando digo salvar, estou falando sério. Jill esteve tecnicamente morta — por menos de um minuto, mas morta.
Usei o poder do espírito para realizar um milagre de cura e trazê-la de volta à vida antes que ela partisse para o outro mundo. Isso nos ligou com um laço que lhe permitia ver e sentir o que se passava na minha cabeça — mas não o contrário.
Pessoas trazidas de volta à vida daquele jeito eram chamadas de “beijadas pelas sombras”, e só o nome bastaria para perturbar qualquer um. Jill tinha o azar extra de ser uma das duas remanescentes de uma linhagem minguante da realeza Moroi. Isso ainda era novidade para ela, e sua irmã, Lissa, rainha Moroi e grande amiga minha, precisava que Jill permanecesse viva para continuar no trono. Quem se opunha ao governo liberal de Lissa queria a morte de Jill, para invocar uma antiga lei que exigia que o monarca tivesse outro membro vivo na família. Assim, alguém teve a ideia supostamente genial de mandar Jill se esconder no meio de uma cidade humana no deserto. Afinal, que vampiro ia querer morar lá? Era uma pergunta que eu vivia me fazendo.
Os três guarda-costas de Jill sentaram no banco traseiro. Eram todos dampiros, uma raça mestiça que remontava à época em que humanos e vampiros ainda viviam juntos. Eles eram mais fortes e rápidos que o resto de nós, o que os tornava guerreiros ideais na batalha contra os Strigoi e os assassinos da realeza. Eddie Castile era o líder do grupo, um guardião sólido e confiável que estava com Jill desde o início. Angeline Dawes, a ruivinha esquentada, era um pouco menos confiável. Na verdade, não era nem um pouco confiável, mas arrasava nas lutas. O mais novo reforço do grupo era Neil Raymond, também conhecido como Alto, Certinho e Chato. Por motivos que eu não entendia muito bem, Jill e Angeline pareciam achar que o comportamento rígido dele era sinal de caráter nobre. O fato de que tinha estudado na Inglaterra e adquirido um leve sotaque britânico parecia excitar o estrogênio delas ainda mais.
A última integrante do grupo ficou parada na porta do carro, recusando-se a entrar. Zoe Sage, a irmã de Sydney.
Ela se debruçou na janela e me encarou com olhos castanhos quase iguais aos de Sydney, mas um pouco menos dourados.
— Não tem lugar — ela disse. — Não cabe todo mundo no seu carro.
— Não é verdade — eu disse para ela. Seguindo a deixa, Jill se aproximou de mim. — Cabem três neste banco. O último dono até colocou um cinto de segurança extra. — Embora fosse mais seguro para os tempos modernos, Sydney quase tivera um ataque cardíaco ao saber da mudança no estado original do Mustang. — Além disso, somos uma família, certo? — Para termos acesso fácil uns aos outros, tínhamos dito em Amberwood que éramos todos irmãos ou primos. No caso de Neil, porém, os alquimistas tinham finalmente desistido de inventar um parentesco porque as coisas já estavam ficando ridículas.
Zoe olhou para o lugar vago durante vários segundos. Por mais que o assento realmente fosse longo, ela ficaria apertadinha com Jill. Zoe estava em Amberwood fazia um mês, mas ainda tinha todas as reservas e preconceitos do seu grupo em relação a vampiros e dampiros. Eu os conhecia muito bem porque Sydney também os tivera. Era irônico porque a missão dos alquimistas era manter o mundo dos vampiros escondido dos outros humanos, que eles consideravam incapazes de lidar com o sobrenatural.
Os alquimistas eram movidos pela crença de que minha raça era uma parte perversa da natureza que devia ser ignorada e mantida longe dos humanos, senão os corromperíamos com nossa maldade. Apesar dessa aversão, eles nos ajudavam e eram úteis em situações como a de Jill, quando era preciso fazer negociações secretas com autoridades humanas e funcionários da escola. Eram ótimos em fazer as coisas acontecerem. Assim, Sydney tinha sido recrutada no começo para facilitar a vida de Jill no exílio, já que os alquimistas não queriam uma guerra civil entre os Moroi. E havia pouco tempo mandaram Zoe como aprendiz, tornando um pé no saco esconder nossa relação.
— Não precisa ter medo — eu disse. Não podia ter falado nada que a motivasse mais. Ela queria se tornar uma superalquimista, principalmente para impressionar o pai delas, que, pelo que concluí depois de várias histórias, era um grande babaca.
Zoe respirou fundo, desconfortável. Sem dizer outra palavra, entrou ao lado de Jill e bateu a porta, apertando-se o máximo possível contra ela.
— Sydney devia ter deixado o SUV — ela murmurou um pouco depois.
— Onde está Sage, aliás? A mais velha, quero dizer — corrigi, dando partida no carro. — Não que eu não goste de ser o chofer de vocês. Devia ter me trazido um quepe preto, Belezinha. — Cutuquei Jill, que me cutucou de volta. — Podia me fazer um no clube de costura.
— Ela saiu para fazer um projeto da sra. Terwilliger — Zoe respondeu, em tom desaprovador. — Ela vive fazendo essas coisas. Não entendo por que uma pesquisa de história precisa levar tanto tempo.
Mal sabia Zoe que o tal projeto envolvia a iniciação de Sydney no clã da professora. A magia humana ainda era estranha e misteriosa para mim — e completamente detestável para os alquimistas —, mas, pelo jeito, Sydney tinha um talento natural para a coisa. Não era nenhuma surpresa: ela tinha um talento natural para tudo. Havia vencido seus medos da magia, assim como vencera o medo que tinha de mim, e agora estava completamente imersa no aprendizado do ofício, ao lado de sua mentora estabanada mas amável, Jackie Terwilliger. Dizer que os alquimistas não aprovariam era um eufemismo. Na verdade, era difícil saber o que os deixaria mais furiosos: que ela estivesse aprendendo as artes arcanas ou namorando um vampiro. Seria cômico se não fosse pelo meu medo de que os fanáticos mais violentos entre eles fizessem algo terrível com Sydney caso ela fosse descoberta. Era por isso que a companhia constante de Zoe tinha tornado tudo mais perigoso nos últimos tempos.
— Porque é a Sydney — Eddie disse, do banco de trás. Pelo espelho retrovisor, vi o sorriso tranquilo no rosto dele, embora houvesse uma atenção constante em seus olhos, sempre alertas para qualquer perigo. Ele e Neil haviam sido treinados pelos guardiões, uma organização de dampiros treinados para proteger os Moroi.
— Dedicar-se cem por cento a uma tarefa é pouco para ela.
Zoe meneou a cabeça, não vendo tanta graça quanto a gente.
— É uma aula idiota. Ela só tem que passar.
Não, pensei. Ela tem que aprender. Sydney não se alimentava de conhecimento só por vocação. Fazia isso porque adorava estudar. O que adoraria mais do que qualquer outra coisa era se entregar à intensidade acadêmica da faculdade, onde poderia aprender tudo o que quisesse. Em vez disso, tinha sido criada para o negócio da família, obedecendo quando os alquimistas a mandavam para novas missões. Já tinha se formado no ensino médio, mas tratava esse segundo último ano tão seriamente quanto tinha tratado da primeira vez, louca para aprender tudo o que pudesse.
Algum dia, quando tudo isso acabar e Jill estiver em segurança, vamos fugir. Eu não sabia para onde, nem como, mas Sydney resolveria esses detalhes. Fugiria das garras dos alquimistas e viraria a dra. Sydney Sage, Ph.D., enquanto eu… bom, eu faria alguma coisa.
Senti uma mão delicada tocar meu braço e baixei os olhos rapidamente. Jill me encarava com carinho em seus olhos brilhantes cor de jade. Ela sabia em que eu estava pensando, sabia das fantasias que costumava inventar. Retribuí com um sorriso frágil.
Atravessamos a cidade até os arredores de Palm Springs, onde ficava a casa de Clarence Donahue, o único Moroi louco o bastante para morar naquele deserto antes de aparecermos no outono anterior. O velho Clarence era meio maluco, mas havia acolhido nosso grupo confuso de Moroi e dampiros e nos deixava usar sua fornecedora/governanta. Os Moroi não precisavam matar para tomar sangue, como os Strigoi, mas precisávamos beber pelo menos algumas vezes por semana. Felizmente, havia muitos humanos no mundo que ficavam felizes em nos dar seu sangue em troca das endorfinas causadas pela mordida dos vampiros.
Encontramos Clarence na sala, sentado em sua enorme poltrona de couro e lendo um livro antigo com uma lupa. Ele levantou os olhos, espantado com nossa chegada.
— Vocês aqui numa quinta! Que surpresa agradável!
— Hoje é sexta, sr. Donahue — Jill disse, com doçura, inclinando-se para dar um beijo no rosto dele.
Ele a olhou com carinho.
— É mesmo? Mas vocês não vieram aqui ontem? Enfim, não importa. Tenho certeza que Dorothy vai ter o maior prazer em servir vocês.
Dorothy, a velha governanta dele, realmente sentia muito prazer em nos servir. Havia tirado a sorte grande quando eu e Jill chegamos em Palm Springs. Moroi mais velhos não bebiam tanto sangue quanto os mais jovens e, embora Clarence ainda pudesse lhe dar um barato ocasional, as nossas visitas frequentes a deixavam quase constantemente chapada. O que ninguém além de Jill sabia era que, embora o grupo só trouxesse Jill duas ou três vezes por semana, eu vinha todos os dias beber o sangue de Dorothy. Devia ser por isso que Clarence estava tão confuso em relação ao dia da semana. Eu nunca tinha ficado sedento por sangue em momentos íntimos com Sydney, e achava que nunca ficaria. No entanto, por mais que ela tivesse superado seus medos em relação aos vampiros, o fato de eu beber sangue ainda a deixava um pouco nauseada, e eu não queria correr o risco de pensar em mordê-la no calor do momento. Outros Moroi faziam esse tipo de coisa entre si e com os dampiros, mas eu não faria isso com ela. Era o corpo dela que eu queria, não o sangue.
Jill foi correndo até Dorothy.
— Posso ir? — A velhinha fez que sim, ansiosa, e as duas saíram para acomodações mais privadas.
Um olhar de repulsa passou pelo rosto de Zoe, mas ela não falou nada. Sua expressão e a forma como sentou longe de todos a deixavam tão parecida com a Sydney de antigamente que quase sorri.
Angeline estava praticamente pulando no sofá de ansiedade.
— O que tem pra jantar? — Ela tinha um sotaque sulista estranho por ter crescido numa comunidade rural de Moroi, dampiros e humanos nas montanhas, que era o único lugar, até onde eu sabia, em que viviam livremente juntos e casavam entre si. Todos os outros de suas respectivas raças os viam com um misto de horror e fascínio. Por mais interessante que fosse essa brecha, morar com eles nunca havia passado pela minha cabeça nas minhas fantasias sobre o futuro. Eu odiava acampar.
Ninguém respondeu. Angeline olhou de um para outro.
— E então? Por que não tem comida aqui? — Os dampiros não bebiam sangue e podiam comer os alimentos normais dos humanos. Os Moroi também precisavam desse tipo de comida, mas não nas mesmas quantidades. Já o metabolismo rápido dos dampiros requeria muita energia.
Aqueles encontros regulares haviam se tornado uma espécie de jantar familiar, não apenas de sangue, mas também de comida normal. Era uma boa maneira de fingir que levávamos uma vida comum.
— Sempre tem comida — ela comentou, caso nunca tivéssemos percebido. — Gostei daquele prato indiano que a gente comeu um dia desses. Masala-alguma-coisa, ou seja lá o que for. Mas acho que não deveríamos comer mais lá até eles começarem a chamar de comida nativo-americana. É mais politicamente correto.
— Normalmente é a Sydney quem cuida da comida — Eddie disse, ignorando a tendência que Angeline tinha de mudar de assunto.
— Normalmente, não — corrigi. — Sempre.
O olhar de Angeline se voltou para Zoe.
— Por que não se lembrou de pegar alguma coisa pra gente comer?
— Porque esse não é meu trabalho! — Zoe ergueu a cabeça. — Estamos aqui para manter o disfarce de Jill e garantir que ela fique escondida. Não tenho que fornecer comida pra vocês.
— Fornecer em que sentido? — perguntei. Eu sabia muito bem que era maldade dizer uma coisa dessas, mas não consegui resistir. Ela levou um tempo para entender o duplo sentido. Primeiro ficou pálida, depois vermelha de raiva.
— Nenhum! Não sou empregada de vocês. E a Sydney também não. Não entendo por que ela faz tudo pra vocês. Só deveria cuidar das coisas essenciais para sobrevivência. Pedir pizza não é uma delas.
Fingi um bocejo e me recostei no sofá.
— Talvez ela ache que, se estivermos bem alimentados, vocês duas não parecerão tão apetitosas.
Zoe ficou horrorizada demais para responder e Eddie me lançou um olhar furioso.
— Chega. Não é tão difícil pedir pizza. Deixem que eu faço isso.
Quando ele terminou a ligação, Jill voltou com um sorriso no rosto. Pelo jeito, havia presenciado a conversa. O laço não ficava ativo o tempo todo, mas parecia estar forte naquele dia. Acabado o dilema da pizza, todo mundo entrou numa camaradagem inesperada — quer dizer, todo mundo menos Zoe, que só ficava olhando e esperando. As coisas estavam surpreendentemente cordiais entre Angeline e Eddie, apesar do recente namoro desastroso dos dois. Ela tinha superado e agora fingia estar obcecada por Neil. Se Eddie ainda estava magoado, não demonstrava, o que era típico dele. Sydney tinha me contado que ele estava secretamente apaixonado por Jill, outra coisa que era bom em esconder.
Eu aprovaria a relação dos dois, mas Jill, assim como Angeline, fingia estar apaixonada por Neil. As duas estavam mentindo, mas ninguém, nem mesmo Sydney, acreditava em mim.
— Gostou do que a gente pediu? — Angeline perguntou para Neil. — Você não falou nada.
Neil balançou a cabeça, impassível. O cabelo castanho dele tinha um corte insuportavelmente curto e eficiente. Era o tipo de coisa prática que os alquimistas adorariam.
— Não posso perder tempo com coisas bobas como pepperoni e cogumelos. Se tivesse frequentado minha escola em Devonshire, entenderia. Em uma das matérias do segundo ano, nos deixaram sozinhos num pântano para aprendermos técnicas de sobrevivência. Depois que você passa três dias comendo galhos e arbustos, aprende a não discutir sobre a comida que vem até você.
Angeline e Jill suspiraram como se aquela fosse a coisa mais máscula que já tivessem ouvido. Eddie estava com uma expressão que refletia o que eu pensava: sem saber se o cara era tão sério quanto parecia ou só um bom ator com falas apaixonantes.
O celular de Zoe tocou. Ela olhou para a tela e levantou afobada.
— É meu pai. — Sem olhar para trás, atendeu e saiu correndo da sala.
Eu não era o tipo intuitivo, mas senti um calafrio na espinha. O sr. Sage não era o tipo de pai carinhoso que ligava para dizer oi em horário comercial, quando sabia que Zoe estava em missão alquimista. Se havia algum problema com ela, também havia com Sydney. E isso me preocupou. Mal prestei atenção no resto da conversa enquanto contava os segundos até Zoe voltar. Quando finalmente entrou na sala, seu rosto pálido indicava que havia alguma coisa errada. Algo ruim tinha acontecido.
— O que foi? — perguntei. — Sydney está bem? — Tarde demais, percebi que não deveria ter demonstrado nenhuma preocupação especial com Sydney. Nem nossos amigos sabiam da nossa relação.
Felizmente, toda a atenção estava voltada para Zoe.
Devagar, ela meneou a cabeça, com os olhos arregalados e incrédulos.
— N-não sei. São meus pais. Eles vão se divorciar.

2 comentários:

  1. O divórcio dos pais da Sydney e da Zoe, só era questão de tempo... Nem sei como essa mulher aguentou tanto tempo, provavelmente por causa das filhas...

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  2. Essa zoe é muito chata 😒

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