13 de outubro de 2017

Capítulo 1

NÃO ERA A PRIMEIRA VEZ que me arrancavam da cama para uma missão importantíssima.
Mas era a primeira que me faziam uma pergunta tão pessoal.
— Você é virgem?
— Hein? — Esfreguei os olhos sonolentos para me certificar de que não era um sonho bizarro. Um telefonema urgente havia me tirado da cama cinco minutos antes e estava difícil permanecer acordada.
Minha professora de história, a sra. Terwilliger, se aproximou e repetiu num sussurro dramático:
— Perguntei se você é virgem.
— Hum, sim...
Agora eu já estava completamente desperta e olhava de um lado para o outro no saguão do alojamento, para garantir que ninguém estava perto o bastante para presenciar aquela conversa maluca. Não tinha por que me preocupar. Tirando a recepcionista com ar entediado do outro lado do saguão, não havia mais ninguém, provavelmente porque nenhuma pessoa em sã consciência estaria acordada àquela hora da madrugada. Quando a sra. Terwilliger me acordou, tinha exigido que eu a encontrasse ali, pois era um assunto “de vida ou morte”. Ser interrogada sobre minha vida pessoal não era exatamente o que eu estava esperando.
Ela deu um passo para trás e suspirou, aliviada.
— Sim, claro. Claro que você é virgem.
Estreitei os olhos, sem saber se devia me sentir ofendida ou não.
— Claro? O que a senhora quer dizer com isso? O que está acontecendo?
Ela imediatamente voltou a ficar atenta e arrumou os óculos, que viviam deslizando pelo nariz.
— Não temos tempo para explicações. Precisamos ir. — Ela segurou meu braço, mas resisti e continuei onde estava.
— São três da manhã! — E então, para que ela entendesse a gravidade da situação: — No meio da semana!
— Não importa. — Ela se voltou para a recepcionista, do outro lado da sala. — Estou levando Sydney Melrose. A sra. Weathers pode brigar comigo sobre o toque de recolher amanhã.
A recepcionista pareceu assustada, mas não passava de uma estudante universitária contratada para ficar ali sentada durante a noite. Ela não era nada perto da formidável sra. Terwilliger, com seu porte alto e desengonçado e sua cara de passarinho. Quem realmente tinha autoridade para manter as garotas no alojamento era o segurança que ficava do lado de fora. Ele, porém, deu apenas um aceno simpático quando a sra. Terwilliger passou me arrastando. Isso me fez considerar quantas garotas ela já havia raptado no meio da noite.
— Estou de pijama — falei para ela. Foi a última queixa que consegui apresentar enquanto nos aproximávamos do carro dela, estacionado em local proibido. Ela dirigia um Beetle vermelho, com flores pintadas nos lados. Não sei por que isso não me surpreendeu.
— Não tem importância — ela disse, tirando as chaves de sua enorme bolsa de veludo.
Ao nosso redor, a noite desértica estava fria e silenciosa. Palmeiras altas pareciam enormes aranhas escuras contra o céu ao fundo. Acima das palmeiras, a lua cheia e um punhado de estrelas brilhavam. Cruzei os braços para me aquecer, tocando o tecido macio do meu roupão de microfibra. Debaixo dele, eu usava um pijama listrado de manga comprida e pantufas felpudas bege. O conjunto funcionava bem no aconchego do meu quarto, mas não era exatamente prático para uma noite em Palm Springs. Na verdade, sair de pijama não era exatamente prático em lugar nenhum.
Ela destravou o carro e entrei com cautela, desviando de copos de café usados e revistas antigas. Meu senso de organização se contorcia diante de uma bagunça daquelas, mas àquela altura esse era o menor dos meus problemas.
— Sra. Terwilliger — eu disse quando começamos a rodar pelas ruas. — O que está acontecendo? — Agora que tínhamos saído do alojamento, eu tinha esperança de que ela começasse a falar coisa com coisa. Eu não tinha me esquecido do comentário de que era uma questão “de vida ou morte” e estava começando a ficar nervosa.
Seus olhos estavam concentrados na estrada à frente e rugas de preocupação marcavam seu rosto magro.
— Preciso que você lance um feitiço.
Congelei enquanto tentava processar essas palavras. Não muito tempo antes, essa frase teria me causado repulsa e me feito protestar. Não que eu me sentisse à vontade agora. Magia ainda me dava arrepios. De dia, a sra. Terwilliger dava aulas no colégio particular onde eu estudava — a Escola Preparatória Amberwood —, e de noite, era uma bruxa. Ela dizia que eu também tinha uma afinidade natural para a magia e dera um jeito de me ensinar alguns feitiços, apesar dos meus esforços para resistir. Na verdade, eu tinha uma série de motivos para querer evitar tudo o que fosse mágico. Além de crenças enraizadas de que usar magia era errado, simplesmente não queria me envolver com outras questões sobrenaturais. Já passava meus dias trabalhando para uma sociedade secreta que mantinha os vampiros escondidos do mundo humano. Somado às tarefas da escola, era mais do que o suficiente para me manter ocupada.
No entanto, o treinamento mágico que recebi da sra. Terwilliger havia me tirado de algumas enrascadas um tempo antes, então eu já não o descartava tão rápido. Então a sugestão dela de que eu usasse magia não era a coisa mais estranha que estava acontecendo ali.
— Por que a senhora precisa que eu lance o feitiço? — perguntei. Havia pouco movimento na rua, mas de vez em quando faróis de carros lançavam uma luz fantasmagórica sobre nós. — A senhora é mil vezes mais poderosa do que eu. Não consigo fazer um décimo do que a senhora consegue.
— Poder é importante — ela admitiu. — Mas desta vez existem outros fatores e limitações em jogo. Não posso lançar esse feitiço em particular.
Cruzei os braços e me recostei no assento. Se continuasse me concentrando nos aspectos práticos, poderia ignorar o medo que crescia cada vez mais.
— E não podia esperar até amanhã?
— Não — ela respondeu, séria. — Não podia.
Alguma coisa em seu tom de voz me deu arrepios, e fiquei em silêncio pelo resto do trajeto. Estávamos deixando a cidade e os subúrbios, entrando nas áreas mais remotas do deserto. Quanto mais nos distanciávamos da civilização, mais escuro ficava. Depois que saímos da autoestrada, não havia postes ou casas à vista. Arbustos espinhosos ao longo do caminho criavam formas escuras que lembravam animais peçonhentos prestes a dar o bote. Não tem ninguém aqui, pensei. E ninguém em Amberwood sabe que estou aqui. Fiquei apreensiva ao me lembrar da pergunta sobre minha virgindade. Será que eu seria sacrificada em algum ritual profano? Desejei que tivesse levado o celular. Não que eu pudesse contar aos alquimistas, a organização da qual eu fazia parte, que estava passando tanto tempo com uma usuária de magia — a qual, ainda por cima, estava me ensinando a usá-la também. Melhor correr o risco de ser sacrificada do que enfrentar a fúria dos alquimistas.
Vinte minutos depois, a sra. Terwilliger finalmente estacionou no acostamento de uma estradinha de mão única que parecia levar diretamente a lugar nenhum. Ela saiu do carro e fez sinal para que eu fizesse o mesmo. Ali estava mais frio do que em Amberwood. Ao levantar os olhos para o céu, perdi o fôlego. Longe das luzes da cidade, as estrelas estavam em pleno brilho. Dava para ver a Via Láctea e uma dezena de constelações normalmente invisíveis a olho nu.
— Depois você olha para as estrelas — ela disse, seca. — Precisamos ser rápidas, antes que a lua avance mais.
Um ritual sob o luar, num deserto estéril, com sacrifício de uma virgem... onde eu tinha me metido? A maneira como a sra. Terwilliger me impelia para a magia sempre tinha me irritado, mas nunca pensei que ela representasse uma ameaça. Agora eu me repreendia por ter sido tão ingênua.
Ela colocou uma sacola de lona no ombro e seguiu para um trecho desolado de terra, pontilhado de rochas e vegetação irregular. Mesmo com aquele espetáculo celestial, não havia muita luz ali; no entanto, ela caminhava resoluta, como se soubesse exatamente aonde estava indo. Resignada, fui atrás, estremecendo enquanto atravessava o terreno rochoso. Minhas pantufas não tinham sido feitas para aquele tipo de solo.
— Aqui — ela disse quando chegamos a uma pequena clareira. Com cuidado, pôs a sacola no chão e se ajoelhou para remexer dentro. — Vai ter que servir.
O deserto, tão implacavelmente quente de dia, ficava frio à noite. Ainda assim, eu estava suando, mais por nervosismo do que pela temperatura ou pelo pijama quente. Amarrei o roupão mais firme, fazendo um nó perfeito. Achava esse tipo de detalhe rotineiro reconfortante.
A sra. Terwilliger tirou da bolsa um grande espelho oval com uma moldura de prata ornamentada, colocou-o no meio da clareira, olhou para o céu e então mudou um pouco a posição do objeto.
— Venha aqui, srta. Melbourne. — Ela apontou para um ponto à frente dela, do outro lado do espelho. — Sente-se e fique numa posição confortável.
Em Amberwood, eu era conhecida pelo nome de Sydney Melrose, em vez de Sydney Sage, meu nome verdadeiro. A sra. Terwilliger tinha entendido errado no primeiro dia de aula e, infelizmente, o sobrenome pegou. Segui as instruções dela, por mais que não conseguisse ficar muito confortável ali. Estava quase certa de que tinha ouvido algum animal grande se mexendo atrás dos arbustos e acrescentei coiotes à minha lista mental de perigos que estava enfrentando, logo abaixo de “uso de magia” e “falta de café”.
— Bom, então vamos começar. — A sra. Terwilliger me examinou com olhos que pareciam sombrios e assustadores na noite deserta. — Você está usando alguma coisa de metal? Precisa tirar.
— Não, eu... Ah. Espera.
Coloquei as mãos em torno do pescoço e desatei uma corrente de ouro delicada com uma pequena cruz. Fazia anos que eu tinha aquele colar, mas recentemente o havia dado a outra pessoa, para reconfortá-lo. Ele me devolvera pouco tempo antes, por meio de nossa amiga em comum, Jill Mastrano Dragomir. Ainda conseguia me lembrar do olhar furioso no rosto dela quando veio até mim na escola e enfiou a cruz na minha mão sem dizer uma palavra.
Fiquei olhando para a cruz, que brilhava sob o luar. Senti um frio na barriga ao pensar em Adrian, o garoto para quem eu havia entregado o colar. Acontecera antes de ele declarar seu amor por mim, o que me pegara completamente desprevenida algumas semanas antes. Mas talvez eu não devesse ter ficado tão surpresa. Quanto mais recordava o passado, coisa que fazia o tempo todo, mais começava a encontrar indícios que deveriam ter me alertado sobre os sentimentos dele. Eu simplesmente estivera cega demais para perceber na época.
Claro, não teria importado mesmo que eu tivesse percebido. Adrian não servia nem um pouco para mim, e isso não tinha nada a ver com seus muitos vícios ou seu potencial para a loucura. Ele era um vampiro. Tudo bem, era um Moroi — um dos vampiros vivos e benignos —, mas não fazia diferença. Humanos e vampiros não podiam ficar juntos. Esse era um ponto em que os Moroi e os alquimistas concordavam plenamente. Eu ainda estava espantada por Adrian ter declarado aqueles sentimentos. Estava espantada não só por ele ter aqueles sentimentos, mas também por ter reunido coragem para me beijar, por mais que o beijo tivesse me deixado tonta e sem fôlego.
Tive que rejeitar o Adrian, claro. Meu treinamento não me permitiria fazer outra coisa. Nossa situação em Palm Springs nos obrigava a conviver constantemente em ocasiões sociais, o que estava sendo difícil desde a declaração. O problema, para mim, não era só o mal-estar que se estabelecera entre nós. Eu... Bem, eu sentia falta dele.
Antes daquele desastre, éramos amigos e passávamos muito tempo juntos. Tinha me acostumado com o sorriso sarcástico dele e com as piadas que sempre fazíamos um com o outro. Antes de essas coisas desaparecerem, não tinha noção do quanto me importava com elas. Do quanto precisava delas. Eu me sentia vazia por dentro... o que era ridículo, claro. Por que eu estava dando tanta importância para um vampiro?
Às vezes isso me deixava furiosa. Por que ele havia destruído uma coisa tão boa entre nós? Por que me fazia sentir tanta falta dele? E o que ele esperava que eu fizesse? Ele devia saber que era impossível ficarmos juntos. Eu não podia sentir nada por ele. Não podia. Se vivêssemos entre os Conservadores — um grupo de vampiros, humanos e dampiros incivilizados — talvez pudéssemos... não. Mesmo que eu sentisse alguma coisa por ele — e vivia repetindo a mim mesma que não sentia —, era errado até que a gente cogitasse um relacionamento.
Agora Adrian falava comigo o mínimo possível. E sempre, sempre me observava com tormento em seus olhos verdes, o que me causava uma dor no coração e...
— Ah! O que é isso?
Tomei um susto quando a sra. Terwilliger despejou uma tigela cheia de folhas e flores secas na minha cabeça. Eu estava tão concentrada na cruz e nas lembranças que fui pega de surpresa.
— Alecrim — ela respondeu prontamente. — Hissopo. Erva-doce. Não faça isso. — Eu tinha levantado a mão para tirar algumas folhas do cabelo. — Você vai precisar para o feitiço.
— Certo — falei, voltando a me concentrar. Com cuidado, coloquei a cruz no chão, tentando tirar aqueles olhos muito verdes da cabeça. — O feitiço que só eu posso fazer. Por que mesmo?
— Porque precisa ser feito por uma virgem — ela explicou. Tentei não fazer uma careta. As palavras da sra. Terwilliger implicavam que ela não era mais virgem e, mesmo fazendo sentido para uma mulher de quarenta e poucos anos, não era uma ideia sobre a qual eu gostaria de pensar muito. — Além disso, a pessoa que estamos procurando se protegeu contra mim. Mas por você ela não está esperando.
Olhei para o espelho reluzente e entendi.
— É um feitiço de clarividência. Por que não fazemos o que eu já fiz?
Não que eu estivesse morrendo de vontade de repetir aquele feitiço. Meu objetivo tinha sido encontrar uma pessoa, o que me obrigara a ficar horas olhando fixamente para uma travessa com água. No entanto, agora que sabia como usá-lo, tinha certeza de que poderia fazer de novo. Além do mais, não gostava nem um pouco da ideia de tentar um feitiço sobre o qual não sabia nada. Palavras e ervas eram uma coisa, mas o que mais ela poderia exigir de mim? Que eu vendesse minha alma? Desse meu sangue?
— Aquele feitiço só funciona para encontrar alguém que você conhece — ela esclareceu. — Este permite encontrar alguém que você nunca viu na vida.
Franzi a testa. Por mais que não gostasse de magia, gostava muito de resolver problemas, e os desafios que a magia apresentava viviam me intrigando.
— Como vou saber por quem procurar, então?
A sra. Terwilliger me mostrou uma foto. Meus olhos já haviam se acostumado à escuridão, e observei o rosto de uma bela jovem. As semelhanças entre ela e minha professora eram impressionantes, apesar de não ser tão óbvias inicialmente. Diferente do cabelo castanho e sem brilho da sra. Terwilliger, o daquela mulher era escuro, quase preto. Ela também estava muito mais glamorosa, com um vestido de cetim preto completamente diferente das roupas hippies que a sra. Terwilliger costumava usar.
Apesar dessas diferenças, as duas tinham as maçãs do rosto altas e os mesmos olhos aquilinos.
Levantei os olhos.
— Ela é sua parente.
— Minha irmã mais velha — a sra. Terwilliger confirmou, com a voz surpreendentemente inexpressiva. Mais velha? Eu chutaria que aquela mulher era pelo menos uns dez anos mais nova.
— Ela está desaparecida? — perguntei. Quando usei o feitiço de clarividência pela primeira vez, foi para encontrar uma amiga que havia sido sequestrada.
Os lábios da sra. Terwilliger se retorceram.
— Não do jeito que você está pensando. — De sua sacola de lona que parecia não ter fundo, ela tirou um pequeno livro de couro e o abriu em uma página marcada. Olhando para onde ela apontou, consegui identificar palavras em latim escritas à mão que descreviam o espelho e a mistura de ervas que ela havia jogado em cima de mim. Na sequência, estavam as instruções de como fazer o feitiço. Sem derramamento de sangue, felizmente.
— Parece simples demais — comentei, desconfiada. Eu tinha aprendido que feitiços com poucos passos e componentes normalmente exigiam muita energia mental. O outro feitiço de clarividência tinha me feito desmaiar.
Ela assentiu, adivinhando meus pensamentos.
— Exige muita concentração, mais do que o último. Mas, apesar de você não querer ouvir isso, sua força cresceu tanto que imagino que vá achar este mais fácil do que o outro.
Franzi a testa. Ela estava certa. Eu realmente não queria ouvir aquilo.
Ou queria?
Parte de mim sabia que eu deveria me recusar a participar daquela loucura. Outra parte estava com medo de que ela me abandonasse no deserto se eu não a ajudasse. E outra parte ainda estava morrendo de curiosidade de ver como aquilo tudo funcionaria.
Depois de respirar fundo, recitei o encantamento do livro e então coloquei a foto no centro do espelho. Repeti o encantamento e tirei a foto. Em seguida, me debrucei sobre ele e fiquei olhando para a superfície translúcida, tentando clarear a mente e entrar em sintonia com o luar e a escuridão. Uma onda de energia atravessou meu corpo, muito mais rápido do que eu esperava. No entanto, nada mudou no espelho de imediato.
Somente meu reflexo me encarava de volta, com a luz tênue desbotando meu cabelo loiro, que estava terrível por eu ter dormido em cima dele e pelo monte de ervas secas emaranhadas.
Aquela energia continuou a se acumular dentro de mim, tornando-se surpreendentemente quente e alegre. Fechei os olhos e mergulhei dentro dela. Foi como se estivesse flutuando sob o luar, como se eu fosse o luar. Poderia ficar ali para sempre.
— Está vendo alguma coisa?
A voz da sra. Terwilliger era uma interrupção indesejável àquele estado de euforia, mas, resignada, abri os olhos e me voltei para o espelho. Meu reflexo havia desaparecido. Uma névoa prateada pairava em frente a uma casa, mas eu sabia que ela não era física. Era produzida magicamente, uma barreira mental para impedir que eu visse o que havia atrás dela. Fortalecendo o meu desejo, fiz com que minha mente atravessasse a barreira e, depois de alguns instantes, a névoa se desfez.
— Vejo uma casa. — Minha voz ecoou insólita na noite. — Uma casa vitoriana. Vermelho-escura, com uma varanda coberta e arbustos de hortênsia na frente. Uma placa também, mas não consigo ler.
— Consegue me dizer onde fica a casa? — A voz da professora parecia muito distante. — Olhe ao redor.
Tentei me afastar para estender a visão além da casa. Demorou alguns segundos, mas, aos poucos, a imagem se abriu como se eu estivesse assistindo a um filme, revelando as casas vizinhas, todas parecidas: vitorianas com grandes varandas e plantas trepadeiras. Era um belo e perfeito fragmento de história no mundo moderno.
— Nada exato — eu disse a ela. — Só uma rua residencial antiga.
— Vá mais para trás. Veja o panorama geral.
Obedeci. Era como se eu estivesse flutuando em direção ao céu, observando aquele quarteirão de cima como um pássaro. As casas se estendiam a outros quarteirões que, por fim, davam lugar a áreas industriais e comerciais. Continuei me afastando. Essas áreas foram se tornando cada vez mais densas. Mais e mais ruas se cruzavam dentro delas. Os prédios foram ficando cada vez mais altos até que, por fim, se materializaram num horizonte conhecido.
— Los Angeles — eu disse. — A casa fica nos arredores de Los Angeles.
Ouvi uma tomada de fôlego súbita, seguida por:
— Obrigada, srta. Melbourne. Isso é tudo.
De repente, uma mão cruzou meu campo de visão, desfazendo a imagem da cidade. Também desfez o estado de euforia em que eu me encontrava. Não estava mais flutuando, tampouco era feita de luz. Caí com tudo na realidade, de volta para a paisagem desértica e rochosa e meu pijama abafado. Estava exausta e trêmula, prestes a desmaiar. A sra. Terwilliger me entregou uma garrafa térmica com suco de laranja, que bebi com vontade. Assim que os nutrientes chegaram ao meu organismo e me fortaleceram, comecei a me sentir um pouco melhor. O uso intenso de magia esgotava o açúcar no sangue.
— Foi útil? — perguntei, depois de beber toda a garrafa. Uma voz importuna na minha cabeça começou a me repreender por causa das calorias no suco, mas a ignorei. — Era isso que a senhora queria saber?
A sra. Terwilliger abriu um sorriso triste.
— Foi útil, sim. Agora, se era isso que eu queria saber... — Ela voltou o olhar para o horizonte. — Não, não exatamente. Minha esperança era que você visse outra cidade. Uma muito, muito longe.
Peguei minha cruz e voltei a prendê-la no pescoço. Aquele objeto familiar me trouxe uma sensação de normalidade depois do que eu havia feito. Também fez com que me sentisse culpada, ao me lembrar da euforia que a magia tinha me proporcionado. Os humanos não deveriam usar magia, muito menos gostar de usá-la. Ao passar os dedos pela cruz, me peguei pensando em Adrian outra vez. Será que ele tinha chegado a usá-la? Ou só a tinha guardado para ter sorte? Será que seus dedos tinham traçado a forma da cruz como os meus viviam fazendo?
A sra. Terwilliger começou a juntar suas coisas. Quando se levantou, fiz o mesmo.
— O que isso quer dizer exatamente? — perguntei. — O fato de eu ter visto Los Angeles?
Eu a segui até o carro e ela não respondeu de imediato. Quando respondeu, sua voz soou estranhamente sinistra.
— Quer dizer que ela está mais perto de mim do que eu gostaria. Quer dizer também que, querendo ou não, você vai ter que aperfeiçoar suas habilidades mágicas muito, muito rápido.
Parei, sentindo uma raiva súbita. Aquilo já era demais. Eu estava exausta e com dor no corpo todo. Ela havia me arrastado até ali, no meio da noite, e agora tinha a presunção de me falar uma coisa dessas, sabendo como eu me sentia em relação à magia?
O pior era que as palavras dela me assustavam. O que eu tinha a ver com tudo aquilo? Aquele feitiço era dela, do interesse dela. No entanto, ela tinha me dado aquela ordem com tanta força e firmeza que pareceu que eu era o motivo de termos ido parar no meio do nada.
— Mas... — comecei.
A sra. Terwilliger deu meia-volta e se aproximou até ficar a apenas alguns centímetros de mim. Engoli em seco todas as palavras indignadas que estava prestes a soltar. Ela não estava exatamente assustadora, mas com uma intensidade no olhar, muito diferente da professora distraída com quem eu estava acostumada. Ela também parecia... amedrontada. Vida ou morte.
— Sydney — ela disse, usando meu primeiro nome, o que era raro. — Garanto que não é nenhum truque da minha parte. Você vai aperfeiçoar suas habilidades, querendo ou não. E não é porque sou malvada, nem porque estou tentando realizar algum desejo egoísta. Nem mesmo porque odeio ver você desperdiçar seu potencial.
— Então por quê? — perguntei baixinho. — Por que preciso aprender mais?
O vento soprava ao nosso redor, fazendo voar algumas folhas e flores secas do meu cabelo. As sombras que projetávamos assumiram uma aparência sinistra, e a luz do luar e das estrelas, antes com um aspecto tão sublime, parecia agora fria e inóspita.
— Porque — a sra. Terwilliger disse — é para sua própria proteção.

8 comentários:

  1. Respostas
    1. O Feitiço Azul, terceiro livro de Bloodlines

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    2. Karina, a seta de avançar depois do ultimo capitulo do ultimo livro do Magnus está encaminhando para cá.

      ~D

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    3. Se avançar a partir de qualquer livro, ele pulará para postagens aleatórias, o início de algo novo, fic, sorteio... É que coloco o post principal no final do livro, não no início

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  2. Aaaaa qué maravilha!!!! Ela vai virar uma bruxinha ❤❤❤❤❤❤❤❤❤❤❤❤❤❤

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  3. Já começa emocionante assim... UAU!!!

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  4. Uau. Tá ficando sinistro essa professora.

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  5. Karina quando vai colocar o quarto livro da saga??

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Boa leitura :)