23 de outubro de 2017

Capítulo 19

Sydney

COMI E COMI E COMI, e foi maravilhoso. Achei que não conseguiria comer tanto tão cedo, mas, depois de uma boa noite de sono, meu corpo parecia disposto a aceitar o alimento de que precisava. Pulinho dividiu aquele café da manhã gigante comigo, claro, e fiquei contente de ver que ele também parecia bem melhor.
Vesti outra camiseta colorida escolhida por Adrian (verde-água dessa vez) e fiquei em dúvida se descia para o cassino para torcer por ele. Eu sabia que ele ficaria feliz em me ver fora do quarto, mas toda vez que pensava em enfrentar a multidão lá embaixo, ficava tensa. Queria voltar para o mundo normal, mas simplesmente não estava pronta para certas coisas. Já era impressionante ligar o noticiário e ouvir referências a grandes acontecimentos que ocorreram enquanto eu estava na reeducação. Os jornalistas falavam sobre eles como se fossem de conhecimento geral, o que devia ser para todos que não haviam tido quatro meses da vida roubados.
Ficar a par das notícias mais importantes passou a ser meu objetivo principal e, depois de guardar tudo nas malas, sentei no sofá com Pulinho no colo enquanto ponderava nosso próximo passo. Depois daquele hotel, teríamos que pegar a estrada outra vez e, por mais que eu odiasse admitir, seríamos obrigados a trocar o Mustang por um carro menos chamativo. Em seguida, precisaríamos tomar a decisão que todos os Moroi enfrentavam ao escolher a melhor estratégia para ficar longe dos Strigoi: ir para um lugar muito povoado ou completamente deserto? As duas opções tinham seus prós e contras.
Uma batida na porta me deu um susto. Imediatamente, olhei para a maçaneta, para confirmar que a plaquinha de “Não perturbe” não estava lá. Nós a tínhamos pendurado do lado de fora na noite anterior. Continuei paralisada e esperei para ver se a pessoa reconheceria seu erro e iria embora. Alguns momentos depois, veio outra batida, dessa vez com:
— Arrumadeira. — Isso confirmou minhas suspeitas. O serviço de quarto bateria, se o hóspede tivesse feito um pedido, mas as arrumadeiras não. Nervosa, fui silenciosamente até a porta trancada e tomei coragem para dar uma olhada pelo olho-mágico. Uma jovem estava do lado de fora, com um sorriso simpático, usando o uniforme do hotel. Ela parecia inofensiva e pensei que talvez a placa tivesse caído.
Naquele momento, vi algo pelo canto do olho que chamou minha atenção. Uma sombra que não pertencia à jovem. A sombra se mexeu um pouco e percebi que havia outra pessoa ao lado dela, fora do campo de visão do olho-mágico. Talvez mais de uma. Sem fazer barulho, fui andando para trás e murmurei o feitiço que transformava Pulinho em uma estátua antes de colocá-lo dentro da sacola onde estavam nossas roupas. Peguei também a sacola da sra. Terwilliger, e comecei a pensar num plano de fuga. A janela do quarto não era grande. A sala tinha uma janela pequena de correr que dava para uma sacada... mas era o terceiro andar.
Entrei na sacada e avaliei minhas opções. Não tinha muitas. Nosso quarto dava para o estacionamento e não havia nada que pudesse suavizar minha queda. Embaixo da sacada havia outra e me perguntei se teria a capacidade física para descer escalando. Seis meses antes, teria dito que sim. Agora, não tinha tanta certeza. Antes que pudesse decidir, uma grande SUV estacionou e dois homens de óculos escuros desceram, se posicionando de maneira que pudessem me observar. Um deles tinha um fone no ouvido, e parecia estar falando baixinho.
Devia ser para o grupo que estava na porta do quarto, porque as batidas logo ficaram mais fortes. Eles também desistiram do disfarce de serviço de limpeza.
— Sydney, sabemos que está aí dentro. Não torne isso mais difícil do que já é. — Então ela passou o cartão do hotel na fechadura, mas, quando tentou abrir a porta, o trinco de segurança a impediu. Dei um passo para dentro e vi um olho surgir na fresta formada pela corrente. — Você não tem pra onde ir, Sydney.
— Fale para os seus homens que eles vão ter que se afastar do carro deles bem rápido! — gritei.
Voltei para a sacada e peguei um dos amuletos que a sra. Terwilliger me dera. Como a maior parte do trabalho tinha sido feita durante a criação do amuleto, ele exigia apenas um feitiço pequeno para ser ativado. Disse as palavras e o lancei contra a SUV; em seguida, fiz um feitiço de ar secundário que o impeliu para mais longe do que eu conseguiria lançar sozinha.
Não sei se eles perceberam o perigo iminente ou se tinham sido avisados pelos colegas, mas os homens de óculos escuros saíram correndo e se jogaram no chão quando a SUV explodiu. Também me agachei, estremecendo com a onda de calor e feliz porque não havia ninguém lá que pudesse ter se machucado.
Depois que a explosão passou, não perdi tempo para levantar e escalar a beira da sacada. A grade e os arabescos serviram como apoio para os pés e as mãos, e não tive dificuldade para me segurar do lado de fora. Foi quando tentei descer e pular para a sacada vizinha que os resultados de quatro meses de atividade física mínima se revelaram. A força dos meus braços não era nada perto do que tinha sido e, de repente, mal conseguia me segurar ali, muito menos pular para a sacada de baixo. Fui descendo o máximo possível, até minhas mãos segurarem a parte inferior da sacada e meus pés ficarem pendurados a poucos centímetros da grade da outra. Seria fácil tocar nela se eu me soltasse. O difícil seria cair dentro da sacada, e não fora.
Os músculos dos meus braços estavam queimando, e minhas mãos começaram a escorregar.
— Sydney!
Reconheci a voz de Adrian, mas não consegui ver onde ele estava. Só dava para saber que estava em algum lugar atrás de mim, talvez perto da SUV.
— Solte! — ele gritou.
— Vou cair — respondi.
— Não vai, não!
Soltei as mãos e, por uma fração de segundo, não havia nada que me impedisse de cair no chão. Então, uma força invisível me empurrou para a frente, e tombei sobre a beira da sacada, caindo sem jeito, mas com segurança, dentro dela. Fiquei confusa, sem saber o que havia me salvado, até me voltar para Adrian, que estava parado no estacionamento, a uma distância segura da SUV em chamas. Os alquimistas de óculos escuros estavam indo na direção dele, e ele os derrubou com um campo de força invisível, a mesma força que tinha usado em mim.
Estremeci diante daquele tipo de magia, sabendo que exigia uma quantidade inacreditável de espírito e que ele não teria como usá-lo o dia todo.
— A porta está aberta? — ele gritou.
Tentei abrir e respondi que sim.
— Me encontre no lugar aonde esqueci de ir ontem. Vai!
Os alquimistas estavam começando a levantar e ele saiu em disparada do estacionamento, correndo para trás do carro em chamas. Sirenes soaram ao longe, e seguranças começavam a sair do prédio. Entrei às pressas no quarto de hotel em cuja sacada havia caído, aliviada ao ver que estava desocupado. Atravessei o quarto correndo e saí no corredor do segundo andar, pensando no que fazer em seguida. Me encontre no lugar aonde esqueci de ir ontem.
Fazia sentido não irmos para o carro. Era óbvio que os alquimistas estavam de olho nele. Mas o que ele queria dizer? Entendi um segundo depois. De um lado, o corredor levava a uma saída de emergência. Do outro, as escadas e o elevador levavam para o saguão e o cassino lá embaixo. Tentei pensar como uma alquimista e segui para a escada que dava para o saguão. A saída dos fundos com certeza estaria sendo monitorada.
No andar de baixo, encontrei o caos, que era exatamente do que eu precisava. Todo mundo tinha ouvido a explosão, mas ninguém sabia exatamente o que havia acontecido. Algumas pessoas estavam tentando sair, enquanto outras, ouvindo que o incêndio estava do lado de fora, queriam continuar lá dentro. Os seguranças do hotel pareciam indecisos, sem saber como proceder, até que um dos guardas decidiu finalmente que seria mais seguro levar as pessoas para uma saída que dava para o lado oposto do carro em chamas. Entrei rapidamente no meio da aglomeração de pessoas e tentei determinar se havia algum alquimista entre elas. Não fazia ideia se eles estavam com uniformes de hotel ou à paisana. O maior sinal de que uma pessoa era inofensiva era tentar me atropelar, muito mais preocupada consigo mesma do que comigo.
Estava quase chegando à porta quando fiz contato visual com um homem vestindo uma camisa de estampa tropical que estava definitivamente mais interessado em mim. Ele começou a empurrar as pessoas para abrir caminho, mas tive a sorte de estar perto do segurança que supervisionava a evacuação.
— Meu quarto dá de frente para a SUV que pegou fogo — eu disse a ele. — E vi aquele homem perto do carro pouco antes da explosão.
Uma denúncia como essa poderia ter sido facilmente descartada em outras circunstâncias, mas, como os detalhes do que havia acontecido não eram de conhecimento geral, o fato de eu mencionar que o carro era uma SUV aumentou minha credibilidade. Além disso, o guarda era jovem e tinha um ar de quem quer mostrar serviço. Ele deu um passo à frente, bloqueando o homem de camisa havaiana, que estava a poucos passos de mim agora.
— Com licença — o guarda disse —, posso falar com o senhor?
O homem, impaciente e focado em mim, cometeu o erro de tentar passar pelo guarda, que o empurrou para trás e começou a pedir reforço.
— Me solte! — o alquimista gritou. — Preciso passar!
— Senhor, preciso pedir que deite no chão!
Não fiquei para ver o que aconteceu. Deixei os dois brigando e finalmente saí do cassino.
Lá, outro guarda bem-intencionado estava tentando manter todas as pessoas evacuadas em um grupo organizado. Eu o ignorei e me separei imediatamente dos outros, tentando me localizar.
Tínhamos saído perto da entrada do hotel e, do outro lado de uma avenida movimentada, ficava o pequeno shopping aonde Adrian tinha ido na noite anterior. Comecei a correr na direção dele, desejando estar em uma cidade muito mais movimentada, como Las Vegas, onde haveria uma multidão na qual eu pudesse me misturar. No entanto, estava bem visível, e logo ouvi gritos. Olhei para trás e vi outras duas pessoas de óculos escuros vindo na minha direção. Estava mais exausta pela descida do que esperava, e o cansaço físico dificultava o uso de magia.
Estava chegando na faixa de pedestres que me levaria para o shopping do outro lado da rua e comecei a andar mais devagar. Transtornada, fiquei me perguntando qual seria o plano deles. Estávamos em público, em plena luz do dia. Eles achavam que poderiam simplesmente me capturar no meio da rua? Sim, percebi, era exatamente isso que fariam e, depois, arranjariam alguma desculpa para dar às testemunhas. Eles viviam fazendo isso com fenômenos sobrenaturais. Não devia ser difícil fazer o mesmo para explicar o sequestro de uma humana.
O farol abriu e atravessei a rua às pressas, o mais rápido que meus músculos fora de forma permitiam. Mas não era o suficiente. Os alquimistas estavam me alcançando. Atravessei o estacionamento do shopping e entrei direto na loja de departamentos de onde tinham vindo as minhas roupas. Sem olhar para trás para ver se meus perseguidores estavam perto, segui rapidamente até um corredor de material de escritório e murmurei aquele feitiço de invisibilidade mais fraco. Senti a magia me envolver e virei em outro corredor, caso eles tivessem visto onde eu entrara inicialmente. Ninguém veio atrás de mim, e fui desviando por entre os corredores até finalmente ver a entrada da loja. Um dos alquimistas estava parado na porta e imaginei que o outro estivesse procurando ali dentro. Como os dois estavam esperando me encontrar, o feitiço não se sustentaria se nossos caminhos se cruzassem. Eu tinha um amuleto de invisibilidade muito mais poderoso na sacola, mas odiaria desperdiçá-lo estando tão perto de encontrar Adrian. Tinha de achar outra saída, sem dar de cara com o alquimista que estava na loja, ou então distrair o que estava na porta.
Olhando em volta sem parar, fui ziguezagueando em direção a uma arara com roupas de banho que pareciam feitas de um material altamente inflamável. Criar fogo não era difícil para mim. Era capaz fazer uma bola de fogo com as mãos nas costas. O problema era que não queria atrair atenção imediatamente. Assim que o incêndio fosse notado, todas as atenções, inclusive a dos alquimistas, se voltariam para aquela direção, o que era o meu objetivo. Mas eu precisava estar bem longe quando isso acontecesse.
Fechei os olhos e invoquei uma faísca mínima na mão. Era difícil impedir que ela crescesse porque meu treinamento com a sra. Terwilliger tinha se focado em criar bolas de fogo grandes e poderosas. Essa, porém, precisava ser uma chama minúscula, como as que eu fazia na reeducação. Depois de criar a chama, a lancei contra um calção de banho cáqui — de propósito — e então me afastei o mais rápido possível, me agachando perto de uns carrinhos de compras. Embora surgisse um pouco de fumaça, o calção não pegou fogo tão rápido quanto eu imaginava e passei longos segundos agonizantes esperando as pessoas notarem. O alquimista na porta manteve sua posição e, para o meu espanto, vi o segundo se aproximando, obviamente sem saber que estava vindo na minha direção. Tentei pensar em uma maneira de sair do seu campo de visão quando alguém deu um grito perto da arara de roupas de banho e, finalmente, chamas de verdade irromperam do tecido barato.
O alquimista que estava vindo na minha direção parou e encarou as chamas enquanto o outro na porta também voltou o olhar, pasmo. Com a atenção dos dois desviada, consegui passar por eles e correr até a farmácia, três lojas à frente. Na porta, uma fila de idosos entrava em um ônibus rumo a LAS VEGAS e, na pressa, trombei com um deles. Ele piscou surpreso ao fazer contato visual comigo. Eu devia ter aparecido do nada, mas, como tantas vezes acontecia quando humanos se deparavam com o inexplicável, ele simplesmente balançou a cabeça e se virou para o ônibus.
Corri direto para o fundo da loja, em direção à farmácia, e encontrei Adrian no corredor de preservativos, onde sabia que ele estaria.
— Tomara que tenha escolhido um bom — eu disse.
— Graças a Deus — ele exclamou, me abraçando com força. — Foi horrível te deixar mas achei que teríamos mais chances se nos separássemos. Sabia que você era esperta o bastante pra vir pra cá.
— Para o lugar aonde você esqueceu de ir ontem à noite? — perguntei, com um sorriso. — Sim, entendi essa, mas alguns alquimistas me seguiram. Eles estão na loja de departamentos... que também está prestes a ser visitada pelos bombeiros. Queria ter pensado em alguma coisa menos chamativa.
— Pior do que eu não vai ser — ele disse. — Quando ouvi a explosão no cassino, empurrei um monte de alquimistas com o espírito pra conseguir escapar. Acho que não ficou óbvio que fui eu, mas esses lugares estão cheios de câmeras que vão ter algumas imagens bem questionáveis.
— Na verdade — eu disse —, é bem provável que os alquimistas tenham desativado as câmeras, ou sabotado o sistema pra que repita as mesmas imagens. Eles também não iriam querer ter suas atividades gravadas.
Adrian ficou aliviado.
— Isso é bom, pelo menos. Mas qual é o plano agora? Não é melhor ligar pro Marcus e pedir ajuda?
— Não — respondi. — Não quero que ele venha para cá e se arrisque com a cidade cheia de alquimistas.
— Como você acha que eles encontraram a gente? O carro?
Suspirei, me sentindo idiota por uma coisa que havia passado pela minha cabeça durante a fuga.
— Pra ser sincera, acho que eles tinham olhos e ouvidos em todas as cidades próximas do centro de reeducação, pra eventualidades como essa. Eles devem ter passado as nossas descrições e alguém nos denunciou. Talvez um empregado do hotel. Eu devia ter pensado nisso e nos levado pra mais longe antes de pararmos para passar a noite. É tudo culpa minha.
— Os únicos culpados são aqueles malucos que trancam pessoas em celas escuras no Vale da Morte — Adrian disse. — Pare de se culpar, Sage, e use esse lindo cérebro que eu conheço e amo.
Engoli em seco e fiz que sim, recuperando as forças.
— Certo. A gente precisa sair dessa cidade rápido e acho que sei como.
— Envolve fazer uma ligação direta pra roubar um carro? — ele perguntou, esperançoso. — Não aprovo por motivos morais, claro, mas Rose e Dimitri viviam fazendo isso e acho da hora.
Peguei sua mão e o levei para fora da farmácia.
— Meu plano é muito menos da hora.
Saímos e, como esperado, havia um caminhão de bombeiros e uma multidão cada vez maior em frente à loja de departamentos. Sem esperar para ver se havia alquimistas na multidão, entrei às pressas no ônibus de turismo, cujos passageiros tinham terminado de embarcar. O motorista olhou para nós, desconfiado.
— Vocês não estavam nesse grupo — ele disse.
Adrian olhou para os bancos do ônibus, notando todos os cabelos brancos e grisalhos.
— Muito observador — ele murmurou.
Dei um cutucão nele.
— Você teve sorte no cassino mais cedo?
Adrian entendeu a indireta e tirou a carteira do bolso.
— A gente gostaria de entrar no grupo — ele declarou.
O motorista balançou a cabeça.
— Não funciona assim. A viagem é organizada por uma companhia de turismo que depois faz um contrato com meu chefe pra... — Seus olhos se arregalaram quando Adrian ofereceu um monte de notas de cem dólares. Depois de um segundo de hesitação, o motorista pegou as notas e as enfiou no casaco. — Entrem aí. Acho que ainda tem alguns lugares vazios lá no fundo.
Os passageiros oficiais nos encararam espantados quando passamos por eles e nos acomodamos no último banco. Momentos depois, a porta se fechou e o motorista saiu do estacionamento. Adrian colocou um braço ao meu redor e deu um suspiro alegre.
— Mal posso esperar para contar isso para os nossos filhos. “Ah, querida, lembra aquela vez que a gente subornou o motorista pra embarcar num ônibus de turismo da terceira idade pra Las Vegas?”
Não consegui conter o riso.
— Muito romântico. Aposto que eles vão ficar impressionados.
Ele ainda estava sorrindo, mas era um sorriso triste.
— Na verdade, depois dos casamentos que vi nos últimos tempos, é bem romântico mesmo.
— Do que você está falando?
Seu sorriso desapareceu de vez.
— Nada de mais. É só que descobri que o casamento dos meus pais é uma farsa e minha mãe não vê problema nenhum em morar com um homem que a despreza desde que ele continue pagando as contas dela.
— Adrian — exclamei, colocando a mão sobre a dele. — Por que não me contou nada disso?
Seu sorriso voltou, mas ainda mais triste.
— Bom, meio que tinha outras coisas na cabeça.
Ele se debruçou para me dar um beijo na testa, mas suas palavras me fizeram lembrar de outra coisa que eu vinha ignorando: os meus pais.
— Você viu Carly — comecei. — Sabe o que aconteceu com minha família?
O trajeto para Las Vegas durou uma hora e meia, e Adrian resumiu o que havia descoberto sobre minha família e o divórcio. Meu coração se apertou. Não foi uma grande surpresa saber que meu pai tinha ganhado a custódia de Zoe, por mais esperança que eu tivesse de que minha mãe vencesse.
— Isso não significa que ela seja uma causa perdida — eu disse, tentando convencer mais a mim mesma do que Adrian. — Zoe ainda pode escapar de tudo isso.
— Talvez — ele concordou, mas era óbvio que não acreditava muito nisso.
Quando chegamos a Las Vegas, descobrimos que o ônibus estava levando os passageiros para o Tropicana. Descemos em frente ao hotel, onde a guia da companhia de turismo estava esperando para acompanhar os passageiros durante a próxima parte da jornada. Ela pareceu surpresa quando saímos e Adrian deu um aceno simpático ao passarmos por ela, como se nossa presença fosse completamente natural. Ela estava pasma demais para dizer ou fazer qualquer coisa.
Infelizmente, logo descobrimos que também havia gente esperando por nós.
— Adrian — avisei.
Ele seguiu meu olhar até um homem e uma mulher parados na porta do hotel, olhando diretamente para nós.
— Droga — Adrian disse.
Quase esperei uma segunda rodada do que tínhamos deixado para trás, com um ataque direto dos alquimistas. Em vez disso, a mulher tocou o braço de outro homem que estava de costas para nós. Ele se virou, revelando se tratar de um segurança. Ela falou alguma coisa e apontou na nossa direção. Ele veio imediatamente até nós, com os dois alquimistas atrás. Olhei ao redor, tentando ver se podíamos correr para algum lugar ou pelo menos pegar um táxi.
— São eles — a mulher estava dizendo. — Como eu disse.
— Com licença — disse o segurança. — Preciso que venham comigo e respondam algumas perguntas. Tenho informações de que vocês podem estar envolvidos em um assunto de interesse das autoridades.
— Adrian — eu disse, entredentes. — Não podemos ir com eles. — Eu sabia como essas coisas funcionavam. Se ficássemos em custódia da polícia ou mesmo do hotel, os alquimistas simplesmente fariam algumas mágicas burocráticas para que fôssemos entregues para eles.
Adrian encarou o guarda.
— Deve ter havido algum engano — ele disse, simpático. Havia um tom caloroso e doce em sua voz que envolveu até a mim. — Só estamos aqui pra nos divertir e gastar muito no cassino. São esses dois que estão causando problemas. Eles estão tentando desviar sua atenção do que realmente estão tramando.
O guarda franziu a sobrancelha enquanto era tomado pela compulsão. Estremeci, ao mesmo tempo impressionada e um pouco incomodada com o poder de Adrian. Os alquimistas também perceberam o que estava acontecendo.
— Ele está mentindo — o homem retrucou. — Você precisa prender e trazer os dois pra dentro. Vamos ajudar você a amarrá-los.
— Ajudar a nos amarrar? Sério? — Adrian perguntou. — Sabia que vocês curtiam a Idade Média. Só não sabia que estavam tentando viver nela. — Ele voltou a focar a energia no guarda. — Deixe a gente ir. Aquele táxi que acabou de estacionar é nosso. Não deixe que eles nos impeçam.
— Claro — disse o guarda.
Adrian me puxou na direção de um táxi que, de fato, havia acabado de estacionar. Os alquimistas tentaram vir atrás da gente, mas o segurança, ainda sob influência de Adrian, bloqueou o caminho deles. O homem chegou a dar um soco no guarda, permitindo que sua colega viesse correndo até o táxi. Adrian e eu já havíamos entrado, e ele fechou e trancou a porta enquanto ela socava a janela.
— Vai — ele disse ao motorista. — Rápido.
O motorista ficou bastante alarmado com a mulher batendo em seu carro, ainda mais quando o outro alquimista se juntou a ela.
— Vamos! — insisti.
Ele pisou no acelerador.
— Pra onde?
Por um momento, nenhum de nós respondeu. Então, eu disse:
— Hora das Bruxas.
Adrian me lançou um olhar incisivo.
— Tem certeza de que é uma boa ideia? — ele perguntou em voz baixa, enquanto o motorista entrava no meio do trânsito. — Os Moroi cooperam com os alquimistas.
— Estou arriscando. — Ao ver sua cara de surpresa, eu disse: — Estamos em Las Vegas, não estamos?
O táxi no levou até o meio da Strip e, quando estacionamos, avisei Adrian:
— Deve ter alguns alquimistas aqui esperando por nós. Não fique à procura deles e, se achar algum, finja que não viu. Entre direto e vá pro banheiro. Vou fazer o mesmo. Quando sair, não espere por mim. Vá jogar baralho ou alguma coisa do tipo. Deixe que eu te encontro.
Ele franziu a testa, mas não discutiu enquanto pagávamos e saíamos do táxi. Eu nunca tinha ido ao Hora das Bruxas, mas os alquimistas conheciam o lugar. Era um hotel-cassino dos Moroi e, embora muitos humanos o frequentassem, os proprietários faziam questão de que fosse cheio de coisas que atendessem às necessidades dos Moroi. Fomos direto para dentro e um recepcionista Moroi abriu a porta para nós com um sorriso simpático. O interior era igual ao de qualquer outro cassino de Las Vegas: uma série de luzes e sons e emoções fortes. Adrian seguiu as ordens perfeitamente, indo direto para os banheiros ao lado do saguão. Entrei no banheiro feminino e em uma das cabines.
Lá dentro, tirei da sacola o amuleto de invisibilidade da sra. Terwilliger e o coloquei em volta do pescoço, lançando o feitiço que o ativava. Mesmo com o amuleto para ajudar, ele exigia muita força, mas os resultados eram igualmente fortes. Duraria muito mais do que os feitiços que eu tinha lançado na reeducação e, agora, eu podia olhar as pessoas nos olhos. Só alguém que soubesse que Sydney Sage estava invisível bem à sua frente poderia ver através da magia do feitiço. Camuflada, saí do banheiro, esperando que outra mulher abrisse a porta primeiro.
Do lado de fora, Adrian estava saindo do banheiro masculino. Eu o segui enquanto ele pedia um drinque no bar e procurava uma mesa de pôquer. O drinque não era alcoólico, mas continha sangue, o que era um bônus daquele lugar visto que fazia tempo que ele não tinha um fornecimento. Depois que sentou e recebeu as cartas, cheguei por trás dele e sussurrei em seu ouvido:
Não se vire. Estou aqui com você, invisível. Se olhar para mim, pode quebrar o feitiço. Responda com a cabeça se entendeu.
Ele fez que sim.
Olhei ao redor e voltei a sussurrar:
— Acho que vi um alquimista até agora no salão, de olho em você. Jogue mais algumas rodadas. Ninguém vai tentar te pegar por enquanto. Eu não ficaria surpresa se mais um ou dois aparecessem logo.
Dei uma volta rápida pelo salão, notando que as principais salas de segurança e administração ficavam naquele andar, e depois voltei para perto de Adrian. Continuei monitorando o salão, conseguindo parar de vez em quando para avaliar seu modo de jogar. Ele era muito bom naquilo, e fiquei feliz por nunca ter aceitado seus convites para jogar strip pôquer. Também era boa, mas meu jogo se baseava em análise estatística. Eu não teria a mínima chance contra sua capacidade de ver a verdade nos outros jogadores.
Um segundo alquimista logo apareceu no salão.
— Certo — murmurei para Adrian. — Termine essa rodada e depois peça um quarto. Faça o registro com seu nome mesmo, não tem problema, e repita o número do quarto bem alto. Depois vá pra lá. Eles vão te seguir. Quando fizerem isso, não hesite em entrar numa briga que chame bastante atenção, mas tome cuidado pra deixar que ataquem primeiro. Deixe que eu cuido do resto. E, quando as autoridades vierem te questionar, lembre de falar quem você é e como ficou ofendido.
Ele obedeceu sem hesitar e o segui cuidadosamente até a recepção, me mantendo fora do seu campo de visão. Os alquimistas também o seguiram, ficando por perto. Quando ele pegou a chave, disse:
— Quarto 707, hein? Parece um número da sorte. — Os dois alquimistas trocaram olhares e seguiram para o elevador. Adrian pegou o elevador seguinte. Enquanto isso, entrei em um corredor vazio no primeiro andar e peguei um interfone, tomando cuidado para que não houvesse ninguém por perto para ver o aparelho flutuando no ar. Liguei para a segurança.
— Socorro! — exclamei. — Tem um homem sendo atacado no corredor do sétimo andar.
Depois disso, só podia torcer para que a aposta desse certo. Voltei para onde tinha visto que ficava a sala principal de segurança e esperei perto da entrada. Dez minutos depois, quatro seguranças do hotel desceram com Adrian e os dois alquimistas. O grupo entrou no escritório e entrei discretamente atrás deles, com cuidado para me manter fora do campo de visão de Adrian. Logo o gerente se juntou a nós.
— O que está acontecendo? — ele perguntou.
Um guarda começou a falar, mas Adrian o interrompeu.
— Vou te contar o que aconteceu! Eu estava lá, cuidando da minha vida, quando esses dois — ele apontou para os alquimistas — pularam em cima de mim sem motivo nenhum! Você faz ideia de quem eu sou? Sou Adrian Ivashkov. Você pode ter ouvido falar da minha falecida tia, sua majestade real, a rainha Tatiana Ivashkov, não? E talvez conheça uma das minhas melhores amigas, a atual rainha?
Isso chamou a atenção do gerente, e ele examinou os dois alquimistas. Estava claro que sabia quem e o quê eles eram.
— Não vemos muitos de vocês por aqui.
— Esse homem é um criminoso — um dos alquimistas protestou. — Ele e uma humana destruíram um dos nossos centros! É nosso direito levar os dois.
— Dois? — o gerente perguntou. — Só estou vendo um.
— Ela está aqui em algum lugar — insistiu o alquimista.
Um dos seguranças apontou para um grande monitor.
— Senhor, temos as imagens do cassino. O lorde Ivashkov estava sozinho. — Ele passou um vídeo de Adrian na mesa de pôquer e torci para que ninguém pensasse em checar as imagens de quando entramos no prédio. — E aqui está o ataque.
Outro vídeo mostrou os dois alquimistas de tocaia no sétimo andar quando Adrian saiu do elevador. Ficou claro que foram eles que atacaram primeiro, tentando agarrar e dominar Adrian com suas próprias armas tranquilizantes. Adrian lutou bem, não usando o espírito, como eu imaginava, mas dando um belo soco num deles. Wolfe teria ficado orgulhoso. Outros clientes saíram de seus quartos e logo chegaram os seguranças, separando todos.
— Isso é inaceitável — disse o gerente, furioso. — Vocês não podem entrar no meu hotel e atacar um Moroi! Não ligo para quem são. Vocês não têm o direito de fazer esse tipo de coisa.
— Ele é culpado de muitos crimes — disse o primeiro alquimista. — Você não tem o direito de impedir que o levemos para interrogatório.
— Cadê suas provas? — perguntou o gerente. — E cadê essa sua garota misteriosa? Está claro que vocês cometeram um engano. — Ele se voltou para outro guarda. — Mostre a saída pra eles.
— Eles me seguiram o dia todo — Adrian disse. — Como vou saber que não vão voltar?
— Ninguém vai intimidar nossos cidadãos — rosnou o gerente. — Alertem todos os funcionários. Vasculhem o lugar em busca de alquimistas, assim como os arredores e os túneis. Retirem todos da propriedade e liguem pra Corte. Você está seguro enquanto estiver conosco, lorde Ivashkov.
— Obrigado — Adrian disse, com gravidade. Ele levantou. — Se esse assunto estiver terminado, vou voltar para o meu quarto e fazer as minhas ligações para a Corte.
Protestando sem parar, os alquimistas foram levados para fora, e o gerente guiou Adrian até o elevador, oferecendo todo tipo de desculpas e compensações pelo que havia acontecido.
Quando Adrian finalmente ficou sozinho no elevador, entrei atrás dele e disse:
— Não se vire ainda. Não posso ser filmada.
— Tudo correu de acordo com o plano? — ele perguntou.
— Tudo e mais um pouco.
Ele segurou a porta do quarto do hotel um pouco mais para que eu pudesse entrar atrás dele.
Depois que fechou, entrei na sua frente e disse:
— Tcha-ran! — O feitiço se desfez e ele me deu um abraço forte que me tirou do chão.
— Isso — ele disse — foi genial. Como sabia o que iria acontecer?
— Não sabia — respondi. — Não com certeza. — Ele me pôs no chão e sentei no sofá. — Mas estava bem confiante de que a gerência Moroi não deixaria que levassem você sem provas, o que os alquimistas não têm. Imagino que Marcus tenha desativado as câmeras no Vale da Morte. Eles só poderiam acusar você com base em testemunhas oculares e eu sabia que isso não valeria aqui. As autoridades alquimistas teriam que fazer queixas formais à rainha. Já eu... bom, essa é outra história. Eles poderiam ter me entregado. Os Moroi não têm motivo pra me proteger, por isso a invisibilidade.
Adrian sentou ao meu lado e me deu um beijo na bochecha.
— Já falei isso antes, mas vou repetir: você é genial, Sage. Não paro de encontrar novas razões para te amar, e achava que isso era impossível.
— Genial coisa nenhuma — eu disse, me recostando no sofá. Lágrimas se formaram nos meus olhos. Odiei aquilo. Odiei que os alquimistas tivessem me deixado daquele jeito. Eu nunca fora tão emotiva antes! Sempre recorria à lógica quando os problemas surgiam, não às lágrimas, mas, agora, tudo que queria era ficar em posição fetal e chorar. O estresse da reeducação e todos aqueles ataques estavam me exaurindo. — Devia ter deixado você seguir Marcus. Não sei se a gente vai conseguir despistar os alquimistas. Você me considera esperta, mas com quem acha que aprendi tudo isso? Você viu o que eles conseguem fazer? Tinham agentes esperando em todas as cidades vizinhas do Vale da Morte. Depois devem ter visto a gente entrar naquele ônibus de turismo, descoberto aonde ele estava indo e nos encontrado no Tropicana. Então ou rastrearam a placa do táxi até aqui ou já tinham agentes esperando, já que possivelmente viríamos pra cá. — Olhei nos olhos de Adrian. — Como vamos escapar disso? Como vamos fugir de um grupo que tem olhos e ouvidos em toda parte? Quem pode nos proteger? Não podemos ficar usando invisibilidade e compulsão pro resto da vida! Não podemos nos esconder nesse hotel pra sempre!
Eu sabia que estava histérica, mas a calma de Adrian só deixou isso mais claro.
— Acho que tenho uma ideia — ele disse. — Uma ideia que vai nos proteger... mas não sei o que você vai achar dela.
— Sou toda ouvidos — garanti.
Ele hesitou por um momento e então assentiu, decidido. Em seguida, para o meu espanto total e absoluto, se ajoelhou à minha frente e segurou minhas mãos.
— Sydney Katherine Sage — ele disse, com os olhos verdes cheios de amor e convicção. — Sei que não passo de um Moroi atormentado e caloteiro, mas você me daria a honra de casar comigo?

Um comentário:

  1. O meu Deus como assim ...rsrs nao sei se choro o morro de felicidades....acho que os dois e lindo....de mais ver como ele ficou diferente adulto....e ela tambem...e muito bom mesmo....outro bromance...dos bons com tudinho que faz o coracao bater mais rapido

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Boa leitura :)