19 de outubro de 2017

Capítulo 19

Adrian

ERA ANIVERSÁRIO DE SYDNEY e meu carro não estava dando partida.
— Você só pode estar tirando uma com a minha cara — eu disse, virando a chave pela centésima vez. O motor ameaçava e ameaçava, mas não ligava nunca. Soltei um resmungo e bati a cabeça no volante. — Isso não pode estar acontecendo.
— Algum problema?
Levantei o rosto e vi Rowena em pé ao lado da porta do motorista, que eu tinha deixado entreaberta.
Joguei as mãos para o alto.
— Como você pode ver.
Ela inclinou a cabeça para examinar o carro, deixando algumas de suas tranças lilás caírem para a frente.
— Essa lata-velha tem quantos anos?
— Cuidado com a língua, mocinha. Sydney ama este carro. Acho que mais do que me ama. Além do mais, você é uma artista. Pensei que apreciaria um carro clássico. Sabe, toda a história, a arte…
Ela balançou a cabeça.
— Prefiro carros modernos. Tenho um Prius.
Tentei dar partida no Mustang de novo. Sem sorte.
— Caramba, logo hoje. É aniversário da Sydney. A gente tinha planos.
— Chame um guincho e dou uma carona pra você. — Ela me deu um tapinha solidário no ombro. — Conheço um cara que trabalha numa oficina. Peço pra ele fazer um precinho camarada pra você.
— Não vai adiantar — eu disse, pegando o celular. — A menos que seja de graça. Estou duro pela próxima semana e meia.
— Comprou algum presente extravagante pra ela?
— Não exatamente. É uma longa história.
Eu acabara aceitando o fato de que não conseguiria encher Sydney de presentes. Não estava mais deprimido ou preocupado em vender as abotoaduras de tia Tatiana. Os remédios deviam estar ajudando com isso, mas havia outro motivo também. Depois do discurso motivador de Jill e do que tinha acontecido na Pensilvânia, bens materiais não tinham mais o apelo de antes. Claro que eu adoraria cobrir Sydney de diamantes, mas não precisava fazer isso. Havia coisas muito mais importantes entre nós. Eu estava satisfeito em preparar o jantar e aproveitar um tempo sozinho com ela. Era tudo o que importava agora. Nós dois.
Claro, eu tinha planejado passar parte desse tempo a sós no meu carro, que, naquele momento, parecia não estar funcionando. Eu podia não mergulhar mais num desespero a ponto de não conseguir sair da cama, mas ficava triste como qualquer pessoa quando meus planos não davam certo. Não abri a boca enquanto Rowena esperava comigo no estacionamento do campus e fiquei remoendo meu mau humor.
— Você é o exemplo perfeito do artista perturbado — ela ironizou. — Fez alguma aula pra aprender a ser desse jeito?
— Não, nasci com esse dom.
Ela sorriu e me cutucou.
— Anime-se. Levo você aonde precisar ir. Vamos salvar o dia, criança.
Era difícil continuar mal-humorado perto do rosto radiante dela. Além disso, eu não podia deixar que Sydney me encontrasse em casa à noite de bico. Ela precisaria de um milagre para fugir de Zoe naquela noite e adiar a celebração entre irmãs. Provavelmente pouparia muito estresse se simplesmente adiasse a comemoração comigo, mas celebrar no dia de verdade era importante para mim. Eu havia insistido por aquela noite e, agora, precisava fazer dar certo.
O guincho levou o Ivashmóvel embora, e eu e Rowena voltamos para a cidade. Eu tinha juntado todo o restante do dinheiro para comprar comida para o jantar, e Rowena quase teve um ataque cardíaco quando chegamos ao mercado e eu disse o que eu pretendia comprar.
— Lasanha congelada? Bolo pronto? Pensei que você amasse essa menina!
— Amo, mas não sou um estudante de culinária.
— Cassie é.
— Bom, ela não está aqui.
Rowena suspirou e pegou o celular.
— Sério, não sei como você vivia sem mim.
Uma hora depois, Cassie nos encontrou na minha casa com uma sacola de compras. Fiquei olhando enquanto elas esvaziavam ingredientes que eu nunca pensaria em usar, como andouille e quiabo. Tinha também uma garrafa de vinho branco.
— Sydney não bebe — eu disse a elas.
— E daí? — Cassie retrucou, pegando um saca-rolhas. — Essa é pra mim enquanto cozinho.
Rowena me olhou de soslaio. Depois que Sydney havia ido àquele bar, eu tinha certeza de que ela achava que eu deveria estar em um grupo de reabilitação. Talvez estivesse certa. Percebi que ela estava prestes a recriminar Cassie pela bebida e fiz que não precisava.
— Está tudo bem. — Para minha surpresa, percebi que estava mesmo. — Longe de mim interferir no gênio de uma cozinheira.
Cassie ergueu os olhos de sua taça.
— Ei, você vai ajudar. Eu é que não vou fazer esse gumbo sozinha.
— Quando penso em jantares românticos de aniversário, nunca penso em sopa.
— Sopa? — Ela quase engasgou com o vinho. — Você acha que isso é só uma sopa? Eu precisava de alguma coisa que você não conseguisse estragar enquanto espera a menina. Quanto mais ferver, melhor vai ficar e, quando ela chegar e sentir o gosto, vai ser sua pra sempre. Não precisa agradecer.
Apesar do que disse, Cassie não me obrigou a fazer muita coisa. Acho que estava com medo de que eu fizesse besteira, embora eu realmente estivesse tentando prestar atenção, na esperança de me aprimorar. Descascar pitu era um mistério para mim e nunca tinha ouvido falar de roux. Na verdade, cozinhar era divertido quando você tinha alguém que sabia o que estava fazendo. Quando o gumbo estava coberto e quase pronto, Cassie começou a misturar os ingredientes para os cupcakes de chocolate com hortelã. Ela tinha acabado de me dar uma colher pra mexer quando ouvi meu celular tocando. Eu costumava deixar no modo vibratório, mas, naquele dia, “Under Pressure”, do Queen, começou a tocar no volume máximo. Rowena e Cassie quase engasgaram de tanto rir.
Devolvi a colher e saí correndo para a sala, onde vi um número desconhecido no celular.
— Adrian? Aqui é Marcus. Estou de volta ao país.
Por um momento horripilante, imaginei Marcus chegando de surpresa no meio da nossa celebração de aniversário. Quase pude vê-lo tomando gumbo com a gente.
— A gente ainda está no Arizona, finalizando algumas coisas — ele continuou. — Mas o plano é chegar a Palm Springs no domingo. Imaginei que seria bom já ir combinando as coisas… e que seria melhor não falar diretamente com Sydney.
— Boa ideia. — O Celular do Amor era só para nós dois e o outro celular dela podia ser rastreado com facilidade pelos alquimistas. Sydney sempre tinha medo de ter problemas com eles, mas, na verdade, Marcus corria muito mais riscos. — Em que você está pensando?
— Você sabe quanta tinta ela fez?
Eu estivera por perto durante boa parte do processo.
— Mais ou menos o bastante para encher um balde.
— Humm. Acho que podemos nos encontrar no estacionamento de uma loja de materiais de construção. Pareceríamos clientes normais.
— Estacionar um ao lado do outro e trocar um balde de tinta? É, nem um pouco suspeito.
— Você tem uma ideia melhor? Nunca se sabe onde os alquimistas estarão de olho.
— É quase certeza que não vão estar vigiando uma professora de Sydney — eu disse. — A tinta está na casa dela mesmo. A gente se encontra lá e assim vocês têm uma chance de conversar também. Tenho certeza que Sydney vai querer dar algumas instruções.
— É uma boa ideia — ele disse, relutante. — Desde que vocês tenham certeza que essa professora é de confiança.
— Sem dúvida.
Dei o endereço e marcarmos um horário. Quando desliguei, Cassie e Rowena estavam rindo juntas enquanto mexiam nos cupcakes, então decidi deixar as duas sozinhas. Peguei o Celular do Amor e mandei uma mensagem para Sydney.
Robin Hood ligou. Ele vai encontrar você na casa da JT, domingo às 20h. Pode ser?
Ela respondeu imediatamente. Vou dar um jeito. Obrigada por marcar.
Ele achou que seria mais seguro falar comigo. Acha que consegue vir hoje?
Praticamente consegui ouvir o suspiro dela. Sim, mas foi difícil, e vai ser um saco compensar amanhã. Além disso, a gente teve outra briga por causa do divórcio. Depois te conto.
Você falou “saco”? É uma mulher completamente diferente com dezenove anos.
Fiz menção de guardar o celular quando vi duas ligações perdidas de Angeline de algumas horas antes. Fiquei pensando se ligava de volta ou não. Afinal, sempre havia a possibilidade de ela ter roubado um circular. Mas era óbvio que, se houvesse algum problema, Sydney saberia antes de mim. Angeline não havia deixado recado, então resolvi supor que estava tudo bem e que ela só tinha alguma dúvida aleatória.
Os cupcakes estavam no forno quando voltei para a cozinha e Cassie estava terminando de misturar uma tigela de cobertura.
— Espera, dá pra fazer essas coisas? — perguntei. — Pensei que só vinha em lata.
Ela tirou o excesso da colher na beira da tigela.
— Ro, tem certeza que confia nesse cara?
Rowena abriu um sorriso.
— Pra cozinhar, não. Mas em matéria de arte e boas intenções românticas, confio.
— Não esqueça conselhos de vida — eu disse. — Sou muito bom nisso também.
— Garanto que não esqueci — Rowena ironizou. Olhando ao redor, ela franziu a testa. — Essa casa é legal, mas nunca imaginaria que você tem uma namorada. Não tem fotos dela em lugar nenhum. Ela nunca deixa nada aqui? Um casaco ou bichinho de pelúcia?
Senti uma pontada no peito com essas palavras. Ela tinha razão. Pessoas normais deixavam que seus relacionamentos enchessem suas casas. No mínimo, deveria ter uma foto minha e de Sydney na porta da geladeira. Meu apartamento não dava sinais de que eu tinha uma namorada porque, para o resto do mundo, eu não tinha mesmo.
— Se conhecesse Sydney, saberia que ela nunca deixa nada para trás. — Não admiti a ausência de fotos. — É organizada demais. Sou eu quem costuma esquecer coisas.
Cassie apontou para o timer do forno.
— Acha que não vai esquecer de tirar os cupcakes e colocar a cobertura? Precisa esperar esfriar. A maioria das pessoas não espera.
— Claro. E, só pra provar, vou escrever aqui e…
Soou uma batida na porta e, por uma fração de segundo, tive medo de que Sydney tivesse chegado mais cedo. Por mais que Rowena e Cassie fossem apenas amigas, encontrar duas meninas no apartamento do namorado não devia ser uma surpresa de aniversário muito boa. Mas, quando olhei pelo olho mágico, fiquei surpreso ao ver Angeline.
Assim que abri a porta, ela foi entrando e jogou o cabelo ruivo para o lado.
— A gente precisa conversar e você não atende o telefone. Ah. — Seus olhos se focaram na cozinha. — Está acompanhado?
Rowena ironizou:
— Só nos sonhos dele.
Fiz as apresentações necessárias, fingindo que Angeline era minha prima, como costumávamos fazer em Palm Springs. Como não dava para saber o que sairia da boca dela, achei melhor me livrar de Rowena e Cassie o quanto antes.
— Vocês salvaram minha vida — eu falei para elas. — Sério. Isso é muito melhor do que lasanha congelada.
Rowena deu uma piscadinha para mim.
— Algo me diz que você compensaria com seu charme.
— Agora posso guardar o charme para outra coisa.
Até Cassie sorriu com essa.
— Não se esqueça de colocar a bala de hortelã amassada. E só coloque a cobertura…
— … quando tiverem esfriado — completei.
Levei as duas até a porta e ela continuou me dando instruções de última hora até eu fechar a porta.
Quando voltei para dentro, encontrei Angeline bisbilhotando na cozinha.
— Não toque em nada — adverti, vendo que ela estava prestes a erguer a tampa do gumbo. Ela tirou a mão.
— Por que elas salvaram sua vida? Pra que tudo isso?
— Para uma amiga.
— Uma amiga que vai pra cama com você?
— Uma amiga que não é da sua conta.
— Esses cupcakes parecem bons. — Ela olhou pela porta do forno. — Sabia que hoje é aniversário da Sydney? Se você fosse uma boa pessoa, me daria alguns pra levar pra ela.
— Pra começo de conversar, nem sei por que você está aqui. Ou como chegou.
— Peguei o ônibus. — Angeline terminou a inspeção na cozinha e foi para a sala. — Tem alguma coisa estranha acontecendo.
Quase soltei uma gargalhada, mas ela estava séria.
— De que, hum, coisa estranha você está falando especificamente?
— Sydney, Neil e Eddie. Eles estão planejando alguma coisa. Vivem conversando e param sempre que chego perto.
Depois do que tinha acontecido na corte, não era nenhuma surpresa saber que Sydney e Neil andavam conversando. Eu não tinha dúvidas de que ela queria saber se estava tudo certo com a tatuagem — a qual, aliás, eu precisava ajudar Neil a decorar.
— Aconteceram muitas coisas na corte — eu disse para Angeline. — Coisas de que Sydney e Neil fizeram parte. Eles devem estar conversando sobre isso.
— Então por que Eddie está envolvido?
Boa pergunta. O papel dele era mais difícil de compreender, mas talvez Sydney só quisesse alguém que ouvisse suas ideias. Eu entendia por que ela preferiria Eddie a Angeline. Também era possível que Angeline estivesse exagerando o caráter secreto das conversas. De todo modo, confiava no quer que fosse que Sydney estivesse fazendo e, se ela não queria envolver Angeline, eu estava completamente de acordo.
— Ela não deve querer incomodar você, já que anda tão ocupada — eu disse. — Não está reprovando em inglês?
Angeline ficou vermelha.
— Não é culpa minha.
— Até eu sei que você não pode escrever um artigo na Wikipédia e usar como fonte. — Sydney estivera dividida entre horror e histeria quando me contou.
— Eu só aprimorei o conceito de “fonte primária”!
Sério, eu não sabia como tínhamos vivido tanto tempo sem Angeline. A vida devia ser tão sem graça antes dela.
— É a sua nota que você devia aprimorar — eu disse num tom quase tão responsável quanto o de Sydney. O timer do forno apitou e eu saí correndo para tirar os cupcakes. — Então pegue outro ônibus, pare de ficar imaginando teorias da conspiração e… ai, meu Deus. Você não deveria sair do campus sozinha!
O rosto dela mostrou que esse era o menor de seus problemas.
— Pensei que você podia me dar uma carona e inventar uma história se alguém disser alguma coisa.
— Meu carro está na oficina. Você vai ter que voltar sozinha. — Com cuidado, coloquei os cupcakes em cima do balcão. — E, por favor, não seja pega. Sydney não precisa desse tipo de encrenca.
— Sydney? Sou eu quem vai se encrencar — Angeline argumentou.
— Não, você vai ficar sentada enquanto ela arranja alguma desculpa pra você. — Eu preferia convidar Marcus para comer o gumbo de aniversário de Sydney do que não vê-la porque ela ficou sentada na sala do diretor de Amberwood tentando impedir que Angeline fosse expulsa. — Agora volte. Você é esperta. Consegue entrar sem ninguém perceber.
— Ainda acho que está rolando alguma coisa. — Quando me recusei a entrar na dela, Angeline apontou para os cupcakes. — Tem certeza de que não posso levar alguns?
— Não estão prontos. Falta a cobertura.
— Coloque agora. Eu ajudo. É besteira essa história de esperar esfriar.
Esse foi outro momento em que desejei ainda ter controle do espírito para poder compelir Angeline a ir embora. Finalmente, depois que arranjei algumas moedas para o ônibus, ela me deixou em paz para que eu pudesse terminar os preparativos do aniversário. Arrumei o apartamento e acendi algumas velas; então, vesti uma camisa verde-escura de que Sydney gostava. A essa altura, os cupcakes estavam prontos para a cobertura e, quando tomei coragem para experimentar o gumbo, vi que Cassie tinha razão. Era mais que uma simples sopa. Era divino.
Sydney apareceu umas oito e se deteve na porta.
— Está com cheiro de… camarão. E hortelã. E abacaxi.
— Jantar, sobremesa e isso aqui. — Apontei para a vela amarelo-brilhante. — Acabei de comprar. Chama “Sesta Havaiana”.
— Isso nem… Ah, não importa. — Ela fechou a porta e correu para me beijar. Foi um daqueles beijos ardentes que me faziam perder a noção de onde estava. — Meu melhor presente de aniversário até agora.
— Espere só pra ver — eu disse, fazendo um gesto grandioso para a cozinha.
Ela me seguiu e ficou olhando boquiaberta.
— Você fez roux?
— Se por “fez” você quer dizer “supervisionou”, então sim, eu fiz.
Comemos na mesa de centro, sentados no chão da sala sob a luz de velas, como dois meses antes. Eu nunca imaginaria que era possível ela ficar mais bonita do que naquele vestido vermelho maravilhoso, mas, a cada dia, ela provava que eu estava errado. Deixamos Pulinho sair, e ele se enrolou perto de Sydney, comendo pedacinhos de andouille.
Confessei sobre as minhas ajudantes de cozinha, o que fez com que ela me achasse ainda mais fofo. Jill estava certa, essa imperfeição me levaria mais longe do que qualquer perfeição. O sorriso de Sydney se desfez quando ela contou sobre seu dia.
— Zoe ficou furiosa. Nossa relação regrediu muito. Falei pra ela que tinha que fazer coisas para a sra. Terwilliger, como sempre, e que seria melhor a gente sair todo mundo junto no fim de semana para comemorar meu aniversário. Mais tempo e tudo mais. — Ela balançou a cabeça. — Zoe não acreditou. Todo o trabalho que tive pra ficar de bem com ela… jogado no lixo. Ela disse que eu estava negligenciando a missão por motivos pessoais e que só queria adiar o passeio para que aquelas criaturas pudessem vir com a gente. Mas essa nem foi a pior parte. Falei uma coisa que não deveria.
— Que iria passar o aniversário com uma dessas criaturas? — Mas claro que, se uma coisa tão terrível tivesse acontecido, ela não estaria ali.
Sydney entreabriu um sorriso.
— Falei que, se ela realmente gostasse de mim, me deixaria passar o aniversário como eu bem entendesse, como minha mãe fez no meu aniversário de doze anos.
— O que aconteceu quando você fez doze anos?
— Ah, ela se ofereceu para levar nós três, exceto meu pai, que estava fora da cidade, a um jantar de comemoração, mas eu não quis. Tinha acabado de sair um livro que eu estava esperando e a única coisa que eu queria fazer era ler a noite toda.
— Ai, meu Deus — eu disse, tocando a ponta do nariz dela. — Você é muito fofa.
Ela deu um tapinha na minha mão.
— Enfim, Carly e Zoe queriam muito sair pra comer, mas minha mãe falou: “É aniversário dela. Vamos deixar Sydney fazer o que quer”.
— Sua mãe é legal.
— Muito. — Ela ficou olhando para o nada por alguns segundos, com a luz das velas refletindo em seus olhos. — Enfim, mencionar minha mãe foi a pior coisa que eu podia ter feito com Zoe hoje. Eu estava tentando convencê-la a testemunhar a favor da guarda conjunta, para que pudesse morar com os dois. Acho que ela estava considerando… mas daí perguntou pro meu pai. E, enfim… ele teve muito a dizer. Bastou uma conversa pra fazer lavagem cerebral nela de novo, então, quando mencionei minha mãe, Zoe começou a falar sem parar que precisávamos lembrar que ela era uma pessoa horrível. Sem parar. — Ela soltou um suspiro. — Acho que a única coisa que me livrou do discurso foi quando disse que consegui permissão para ela praticar baliza sozinha no estacionamento da escola.
— Ah, sim, o caminho para o coração de uma mulher é o carro. Ouvi dizer que isso é tradição na família Sage.
Seu sorriso começou a voltar.
— O problema é que ela ainda é muito jovem em tantos sentidos. Num minuto, quer a carteira. No outro, tem o poder de me denunciar por quebrar regras alquimistas. É perigoso, ainda mais porque ela acha que sabe de tudo.
Juntei os pratos vazios e me levantei.
— E, como todos nós sabemos, só existe uma irmã Sage que sabe de tudo.
— Nem tudo. Não sei essa receita ainda — ela falou. — Mas preciso pegar. Estava incrível.
— Acho que a gente deveria ir para New Orleans em vez de Roma. — Coloquei alguns cupcakes em um prato e peguei uma velinha e meu isqueiro. Pulinho ficou observando com interesse, especialmente os cupcakes. — Plano de fuga nº37: Fugir para New Orleans e vender confetes de Carnaval a preços altíssimos para turistas desavisados. Menos sol. Menos problemas com a língua. Aposto que seria atraente se eu aprendesse a falar com sotaque cajun.
— Mais atraente ainda, você quer dizer. Sabe, aposto que Wolfe lutou contra jacarés no rio de New Orleans.
— Aposto que ele domou os jacarés para fugir dos piratas. — Voltei para a sala e sentei ao lado dela com o prato.
— Aposto que fez os dois — ela disse. Ficamos em silêncio por um segundo e depois desatamos a rir.
— Certo, aniversariante. — Coloquei um dos cupcakes na frente dela e enfiei a velinha nele. O isqueiro, embora não fosse usado havia um mês, acendeu o pavio. — Faça um pedido.
Sydney abriu um sorriso ainda mais radiante do que a chama diante dela, e se debruçou. Trocamos um olhar rápido, e senti uma pontada ao mesmo tempo doce e amargurada no peito. O que ela estaria desejando? Roma? New Orleans? Qualquer lugar que não ali? Como manda o figurino, ela não disse o desejo em voz alta e só apagou a velinha.
Bati palmas, assobiei e depois parti para meu cupcake, louco para saber que sabor tinham as minhas criações. E, considerando que eu tinha feito o trabalho árduo de passar a cobertura e decorar, achei que tinha sim o direito de chamá-los de meus. Cassie só tinha comprado os ingredientes, inventado a receita e feito todas as medições e misturas.
— Não imaginava que cupcakes depois de gumbo cairiam tão bem. — Sydney parou para lamber a cobertura dos dedos e, por um momento, perdi todas as funções cognitivas superiores.
— Era parte do plano de Cassie — eu disse, por fim. — Ela falou que os amassos são sempre mais gostosos depois de hortelã.
— Uau. Ela é mesmo um gênio da culinária. — Ela terminou de lamber a cobertura e limpou as mãos delicadamente com um guardanapo. — Por falar em amassos… você deixou o Mustang preparado?
— Ah. Então. — Eu tinha quase me esquecido disso. — Não entre em pânico, mas…
— Ai, não. O que você fez?
Ergui as mãos.
— Calma, não fiz nada.
Fiz um breve resumo do que tinha acontecido e vi o olhar sedutor dela se transformar em tristeza.
— Pobre carro. Vou ter que ligar pra oficina amanhã e descobrir qual o problema. A gente devia levá-lo para um lugar especializado.
— Ai. Não sei nem se eu vou ter dinheiro para essa oficina.
Ela colocou a mão sobre a minha.
— Eu pago.
Tinha a impressão de que ela falaria isso e que não teria como discutir.
— Vai me resgatar?
— Claro. É o que a gente faz. — Ela se aproximou, rápido. Pulinho tentou entrar no meio, mas eu o empurrei para o lado. — Eu resgato você, você me resgata. A gente fica alternando sempre que o outro precisa. E, se faz você se sentir melhor, pense que estou resgatando o Ivashmóvel, não você.
Ri e coloquei o braço em torno da sua cintura.
— Muito melhor. Mas, agora que não tenho carro, não vou conseguir cumprir minha promessa de aniversário.
Sydney pensou por alguns segundos.
— Bom. Eu tenho um carro.
Uma hora depois, prometi nunca mais fazer piada com o Mazda.
Aquela acabou sendo uma das nossas noites mais intensas e, sem dúvida, uma das mais inventivas também, considerando a falta de espaço do banco traseiro. Quando estávamos deitados juntos depois, embaixo do lençol que eu havia tido o cuidado de levar, tentei gravar todos os detalhes na minha cabeça. A suavidade de sua pele, a curva de seu quadril. A doce leveza que ardia na minha alma, por mais que eu sentisse o corpo letárgico de contentamento.
Sydney se levantou de repente e abriu o teto solar.
— É isso que eu chamo de aniversário — ela disse, triunfante. Uma meia-lua prateada reluzia sobre nós por entre os galhos.
Antes de tirarmos a roupa, ela havia dado uma volta no quarteirão para ter certeza de que não havia ninguém nos seguindo. Por mais que não tivesse motivos para achar que os alquimistas estivessem no seu encalço, ela tendia a ser precavida. Satisfeita, acabou estacionando em um ponto estratégico na minha rua, cheio de árvores e na frente de uma casa vazia a um quarteirão do meu prédio. Claro que, mesmo assim, alguém poderia passar e nos ver, mas as chances eram muito pequenas naquela escuridão.
Ela voltou a se aconchegar sob o lençol, repousando a cabeça no meu peito.
— Estou ouvindo seu coração — ela disse.
— Você confere de vez em quando pra ter certeza que não sou um morto-vivo?
Ela respondeu com um riso leve, seguido por um longo beijo sensual na nuca.
Apertei as mãos em seu corpo e de novo tentei memorizar aquele momento. Havia tanta perfeição na maneira como nossos corpos estavam entrelaçados. Não parecia possível que, fora da santidade daquele carro iluminado pelo luar, houvesse um mundo de que precisávamos nos esconder, um mundo que queria nos separar. Pensar no que nos rodeava fazia o que havia entre nós parecer muito mais frágil.
— “Tudo se despedaça, o centro não aguenta…” — murmurei.
— Está citando Yeats agora? — ela perguntou, incrédula, erguendo um pouco a cabeça. — Esse poema é sobre o apocalipse e a Primeira Guerra Mundial.
— Eu sei.
— Você tem umas escolhas poéticas muito estranhas depois do sexo.
Sorri e passei os dedos pelo cabelo dela. Naquela luz, não parecia nem dourado nem prateado, mas uma cor estranha entre as duas. Mesmo no auge do amor e do contentamento, eu podia sentir a melancolia Ivashkov surgindo dentro de mim.
— Bom… é que às vezes acho que isso é bom demais pra ser verdade. Eu não teria conseguido criar nada tão perfeito num dos meus sonhos de espírito. — Eu a puxei para perto e encostei minha bochecha contra a dela. — E sou pessimista o bastante pra saber que a gente sempre acaba acordando dos sonhos.
— Isso não vai acontecer — ela disse. — Porque isso não é um sonho. É de verdade. Ou, enfim, fazemos ser verdade. Você chegou à parte do “noventa e nove” do Edgar Allan Poe nos seus poemas?
— O Poe não escreve sobre morte e coisas do gênero? — E ela me acusava de citar poetas pouco românticos.
Ela virou para o outro lado e ficou remexendo nas roupas que estavam no chão do carro. Um pouco depois, ergueu o celular e fez uma busca.
— É assim: “Os noventa e nove se bastam com os sonhos, mas a esperança de renovar o mundo é do centésimo homem, que se dedica gravemente a tornar esses sonhos realidade”. — Ela jogou o celular de volta na pilha e se enrolou em mim outra vez, pousando a mão no meu peito. — É por isso que a gente é diferente. Parece um sonho, mas estamos tornando esse sonho realidade. E o que é real, o que fazemos… nada de ruim pode acontecer com isso.
Segurei as mãos dela e dei um beijo em cada uma.
— Como você foi virar a romântica sonhadora e eu o pessimista?
— Acho que a gente acabou pegando um do outro. E não faça piada — ela advertiu.
— Não dá margem, então.
Abri um sorriso, mas aquela nuvem de melancolia continuou pairando sobre mim, por maior que fosse a felicidade de estar deitado com ela. Eu nunca tinha pensado que poderia amar uma pessoa daquele jeito. Também nunca tinha pensado que teria tanto medo de perder alguém. Será que todos os apaixonados se sentiam assim? Abraçavam a pessoa amada com força e acordavam aterrorizados no meio da noite, com medo de ficar sozinhos? Era uma sensação inevitável quando se amava alguém tão profundamente? Ou éramos só nós dois, que andávamos à beira de um precipício, que convivíamos com esse pânico?
Aproximei o rosto a poucos centímetros do dela.
— Eu te amo tanto.
Ela piscou de um jeito que reconheci. Fazia aquilo quando achava que poderia chorar.
— Eu também te amo. Ei. — Ela ergueu a mão e a pousou na minha bochecha. — Não fique assim. Vai dar tudo certo. O centro vai aguentar.
— Como você sabe?

— Porque nós somos o centro.

2 comentários:

  1. Caramba. To sentindo que o' centro' vai se ferrar, isso sim... :/

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  2. Sydrian é o melhor casal sim!!! Amo muito eles junto, eles são tão maravilhosos que o meu coração quase se parte... <3 <3 <3!!!

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Boa leitura :)