13 de outubro de 2017

Capítulo 19

NÃO SEI COMO, MAS PERDI DE NOVO.
Se Adrian fosse capaz de fazer cálculos de cabeça, poderia jurar que estava usando seus poderes para afetar a maneira como o dado rolava. O mais provável, porém, era que ele tinha um talento natural e inexplicável para Banco Imobiliário... ou muita, mas muita sorte. Apesar de tudo, foi divertido, e perder para ele era muito melhor do que ter Veronica me atormentando durante o sono. Ele continuou a me visitar em sonho nos dias seguintes e, embora eu nunca me sentisse completamente a salvo de Veronica, pelos menos não precisava gastar meus neurônios me preocupando com ela o tempo todo. Essa honra passou a ser da minha viagem para St. Louis no fim de semana, que chegou antes do que eu imaginava.
Depois que entrei no avião, me dei conta do que estava prestes a fazer. Aquele era o ponto de virada. Na segurança de Palm Springs, eu vinha conseguindo manter uma postura relativamente calma e controlada. St. Louis parecera muito longe até então.
Agora, as tarefas diante de mim pareciam colossais e um tanto malucas. Sem falar perigosas. Não havia nenhuma parte daquilo que não pudesse me meter em encrenca. Mentir para Stanton. Invadir servidores ultrassecretos. Até mesmo seduzir Ian para conseguir informações poderia ter consequências.
E, sinceramente, quem era eu para achar que conseguiria seduzi-lo e arrancar segredos dele? Eu não era como Rose ou Julia. Os homens se jogavam aos pés delas. Mas eu? Eu não tinha o menor traquejo social e o menor jeito com romance. Ian poderia até gostar de mim, mas isso não significava que eu tinha algum poder mágico sobre ele.
Claro, se essa parte do plano fracassasse, eu ficaria livre das outras tarefas.
Aquilo tudo era completamente opressivo e, enquanto eu olhava fixamente pela janela do avião, observando St. Louis se aproximar cada vez mais, meu medo foi crescendo. Minhas mãos estavam suadas demais para segurar um livro e, quando recusei comida, foi por causa do frio na barriga, não por uma obsessão com calorias.
Não conseguia decidir se ficava em um quarto de hotel ou na própria base, que hospedava alquimistas em visita como eu. No fim das contas, me decidi pelo hotel. Quanto menos tempo passasse sob o olhar vigilante dos meus supervisores, melhor.
Assim também não teria que me preocupar que minha roupa chamasse muita atenção. Não tinha seguido todas as sugestões de Adrian, mas o vestido que havia comprado para a viagem era um pouco mais chamativo do que eu usava normalmente no dia a dia. Certo, muito mais chamativo. Teria destoado completamente dos trajes simples e de cores neutras dos alquimistas. Mas, quando encontrei Ian no saguão do hotel para o jantar, percebi que tinha feito a escolha certa.
— Uau — ele disse, de olhos arregalados. — Você está incrível.
Pelo jeito, os instintos alquimistas dele não se ofenderam com a minha roupa. Era um vestido justo que ia até o meio da coxa, aberto nas costas e com um decote tão grande que me deixava constrangida, juntando os seios a um ponto que eu nem achava possível.
Qualquer modéstia que as mangas longas pudessem oferecer era desfeita pela combinação de tecidos: um forro bege coberto de renda preta e marrom. Dava a ilusão de que eu não estava usando nada por baixo. A vendedora havia me garantido que todas as partes do vestido deveriam ficar apertadas daquele jeito (pela primeira vez na vida, eu tinha pedido para experimentar um número maior) e que eu precisava de um salto de pelo menos dez centímetros para fazer o conjunto funcionar. Com a ajuda de vários grampos, eu tinha até conseguido prender o cabelo em um coque, o que não era nada fácil com meu corte em camadas.
Fiquei envergonhada enquanto atravessava o saguão, mas ninguém me lançou nenhum olhar estarrecido. Os poucos que recebi foram de admiração. O hotel era bem chique, e eu era só mais uma entre as várias mulheres usando vestido formal. Nada escandaloso ou fora do comum. Você consegue, Sydney. E usar um vestido revelador não devia ser tão difícil quanto invadir um servidor, certo?
Certo?
Sorri quando me aproximei de Ian e dei um rápido abraço nele, o que foi estranho — em parte porque era Ian, em parte porque eu me sentia nua naquele vestido. Esse lance de mulher fatal era mais difícil do que eu imaginava.
— Que bom ver você de novo — eu disse. — Sei como deve ser inconveniente, tão em cima da hora.
Ian sacudiu a cabeça com tanta força que quase esperei ouvir um chocalho.
— Nã... não. Inconveniente nenhum.
Convencida de que ele tinha dado uma boa olhada, vesti meu casaco preto, e apontei para a saída.
— Vamos enfrentar o frio?
Ele correu na minha frente para abrir a porta. Alguns flocos de neve dispersos estavam caindo e pousaram no meu casaco e no meu cabelo. Meu hálito formava uma nuvem gélida no ar, e tive uma lembrança súbita de atravessar o terreno baldio com Adrian para usar o feitiço de clarividência. Mal sabia eu que procurar Marcus resultaria em cumprir missões para ele em um vestido justo.
Ian havia parado o carro no estacionamento em frente ao hotel. Ele dirigia um Corolla, que era ainda mais sem graça por ser branco. Um ambientador em formato de árvore ficava pendurado no espelho retrovisor, mas, em vez de ter o aroma de pinho tradicional, um pequeno rótulo chamava o perfume de “Cheirinho de carro novo”. Na verdade, fedia a plástico. Assumi uma expressão destemida. Marcus estava definitivamente me devendo uma.
— Fiz uma reserva para nós num restaurante de frutos do mar muito bom — ele disse. — É bem perto da base, então podemos ir para a cerimônia logo depois.
— Parece ótimo — eu falei. Eu nunca comia frutos do mar em um estado tão longe da costa.
O restaurante se chamava Esconderijo Fresco, o que não melhorou muito minha opinião sobre ele. Mesmo assim, eu precisava dar crédito pela tentativa de criar um ambiente romântico. A maior parte da iluminação vinha de velas, e um pianista no canto tocava músicas agradáveis. Outras pessoas bem-vestidas enchiam as mesas, rindo e conversando diante de taças de vinho e coquetéis de camarão. O recepcionista nos guiou até uma mesa no canto, coberta por uma toalha bordô e decorada com um ramalhete de orquídeas verdes. Eu nunca tinha visto uma tão de perto e fiquei sinceramente fascinada com sua aparência exótica e sensual. Se ao menos estivesse ali com qualquer outra pessoa...
Hesitei em tirar o casaco. Fazia com que me sentisse exposta, e precisei me lembrar das consequências da ligação entre alquimistas e guerreiros. Assim que o vestido foi revelado outra vez, tive o prazer de ver Ian se derreter de novo. Eu me lembrei do conselho de Adrian sobre autoconfiança e abri um sorriso convencido, na esperança de dar a impressão de que estava fazendo um grande favor a Ian ao permitir que ficasse na minha presença. E, para a minha surpresa total e absoluta, pareceu funcionar.
Inesperadamente me peguei com um pensamento perigoso: talvez não fosse o vestido que tinha poder ali. Talvez fosse eu.
Abri o cardápio e comecei a procurar uma opção de carne ou frango.
— O que você recomenda?
— O dourado é ótimo — ele disse. — O peixe-espada também.
O garçom parou ao nosso lado, e pedi uma salada Caesar de frango. Imaginei que eles não teriam como errar as anchovas no molho.
Ficamos sozinhos esperando, sem nada para fazer senão conversar. Ian começou:
— Acho que não pode me falar onde está, né?
— Desculpe, mas não posso. Sabe como é. — Passei exatamente meia colher de manteiga num pãozinho. Não queria exagerar, mas poderia me permitir um pouco de prazer já que havia pedido uma salada. — Posso dizer que estou em campo. Mas não posso contar muito mais.
Os olhos de Ian se desviaram do meu decote e se voltaram para a chama da vela.
— Tenho saudade disso, sabe. Ficar em campo.
— Você ficava, né? O que aconteceu? — Eu não tinha pensado muito sobre isso ultimamente, mas, quando Ian acompanhara Stanton e eu até a corte Moroi, ele havia sido tirado de seu posto para fazer a viagem. Ele tinha uma missão mais no sul, na Flórida ou na Geórgia, se eu não estivesse enganada.
— O que aconteceu foi que aqueles Moroi nos prenderam. — Ele se virou para mim e me surpreendi com a fúria em seu olhar. — Não lidei muito bem com isso.
— Nenhum de nós lidou.
Ele balançou a cabeça.
— Não, não. Eu realmente não lidei bem. Meio que perdi a cabeça. Eles me mandaram para o controle de raiva depois disso.
Quase deixei o pãozinho cair. Por essa eu não esperava. Se me pedissem para citar dez pessoas que precisavam de controle de raiva, Ian não estaria nem no fim da lista. Meu pai, por outro lado, estaria perto do topo.
— Por... por quanto tempo você ficou lá? — gaguejei.
— Duas semanas, e depois me deixaram sair.
Eu não sabia a intensidade da raiva que ele havia sentido para ser levado ao controle de raiva, mas achei interessante que duas semanas foram o bastante para os alquimistas o considerarem pronto para trabalhar de novo. Enquanto isso, o esquema de Keith de usar os Moroi para ganhar dinheiro havia feito com que merecesse pelo menos dois meses na reeducação — talvez mais, já que eu não ouvia notícias dele fazia tempo.
— Mas eles não me deixaram mais trabalhar em campo — Ian acrescentou. — Acho que não posso ficar perto dos Moroi por um tempo. É por isso que estou preso aqui.
— Nos arquivos.
— Sim.
— Não parece tão ruim — eu disse a ele. Não era totalmente mentira. — Um monte de livros.
— Não se engane, Sydney. — Ele começou a despedaçar o pão de centeio. — Só sou um bibliotecário supervalorizado.
Talvez, mas não era com isso que eu estava preocupada. Minha preocupação era que, segundo Wade, os arquivos ficavam em um andar protegido, logo acima da sala de vigilância que abrigava as imagens de segurança. Ele havia me desenhado um mapa de cada andar, fazendo questão de que eu memorizasse a planta e os melhores jeitos de entrar e sair.
— Mesmo assim, eu adoraria ver — eu disse. — Quer dizer, a história que eles contêm é fascinante. — Também não era totalmente mentira. Eu me debrucei, pousando os cotovelos na mesa, e tive o prazer de ver os olhos dele descerem para o meu decote. Não era tão difícil. Para falar a verdade, não sabia por que não tinha começado a usar meus “encantos femininos” muito antes. Claro, não sabia que tinha algum encanto feminino até aquele momento. — Você poderia me levar em um tour? Nos arquivos, especificamente. Você parece o tipo de pessoa com acesso a... muitos lugares.
Ian engasgou com o pãozinho. Depois de um acesso de tosse, olhou para o meu rosto, depois para meu decote (de novo) e depois novamente para meu rosto.
— Hum, eu adoraria, mas não é exatamente aberto ao público... quer dizer, nem mesmo pro público alquimista. Só quem tem autorização especial de pesquisador pode entrar. Mas podemos visitar as partes de acesso geral do prédio.
— Ah. Entendi. — Baixei os olhos para o prato, fazendo um leve beicinho, mas não disse mais nada. Quando o garçom chegou com a comida, torci para que meu silêncio estivesse fazendo com que ele reconsiderasse o que poderia estar perdendo.
Por fim, Ian não conseguiu aguentar mais. Ele pigarreou, talvez porque ainda estivesse com pão preso na garganta.
— Bom, talvez eu consiga... sabe, o problema é levar você para os andares de segurança máxima. Se a gente passasse pelo posto de controle, não seria difícil levar você até os arquivos, ainda mais se eu estiver trabalhando.
— Mas você não pode fazer nada em relação ao posto de controle principal? — provoquei, como se todo homem de verdade devesse ser capaz de fazer isso.
— Não, quer dizer... talvez. Tenho um amigo que trabalha lá. Não sei se ele vai trabalhar amanhã, mas, mesmo assim, talvez possa ajudar. Ele está me devendo uma grana, então posso usar isso como moeda de troca. Acho.
— Ah, Ian. — Abri um sorriso que esperava ser tão bom quanto o de Marcus. — Que incrível. — Eu me lembrei do que Adrian havia dito. — Vou ficar devendo uma pra você se fizer isso por mim.
Ele ficou visivelmente contente com a minha reação, e fiquei me perguntando se Adrian estava certo sobre a interpretação de “ficar devendo uma”.
— Ligo pra você hoje à noite, depois da cerimônia — Ian disse. Ele parecia determinado agora. — Tomara que dê certo antes do seu voo amanhã.
Eu o recompensei escutando atentamente a todas as suas palavras pelo resto do jantar, como se nunca tivesse ouvido nada tão fascinante. Enquanto isso, meu coração estava acelerado com a ideia de que agora eu estava a um passo de cumprir a tarefa de Marcus, a um passo de talvez provar uma conexão entre um bando de fanáticos armados e a organização a que eu tinha servido toda a minha vida.
A salada era minúscula, então aceitei ver o cardápio de sobremesas depois do prato principal. Ian sugeriu que dividíssemos, mas achei essa ideia um pouco íntima demais para o meu gosto, sem falar que era anti-higiênica. Acabei comendo uma fatia de torta de limão sozinha, confiante que ainda faltava muito para atingir dois quilos. Quando Adrian me dissera que eu pareceria mais saudável se ganhasse um pouquinho de peso, ele havia acrescentado que eu poderia aumentar o tamanho do meu sutiã. Eu nem conseguia imaginar o que isso faria por aquele vestido.
A base alquimista em St. Louis ficava dentro de um complexo industrial gigantesco sob a fachada de uma fábrica. Instituições Moroi — a corte e suas escolas — normalmente fingiam ser universidades. Era irônico o fato de “criaturas da noite” viverem em meio a jardins lindamente planejados, enquanto “servos da luz”, como nós, se escondiam em prédios feios e sem janelas.
Dentro, porém, tudo era limpo, reluzente e organizado. Uma recepcionista fez nosso registro de entrada quando chegamos ao guichê principal e nos deu passagem, junto com muitos outros que haviam chegado para a cerimônia. Havia lírios dourados por toda a parte. Para muitos, era um evento familiar muito animado, e várias crianças arrastavam seus pais alquimistas. Tive uma sensação estranha ao olhar para aquelas crianças que haviam nascido dentro do mundo alquimista. Fiquei pensando como elas se sentiriam dali a dez anos. Será que estariam animadas em assumir o desafio? Ou começariam a questionar o que haviam aprendido?
A base tinha três andares acima do nível do solo e cinco abaixo. Seria difícil para pessoas comuns simplesmente entrarem ali, mas, mesmo assim, tomávamos precauções, mantendo as salas mais normais no andar principal. Enquanto percorríamos o corredor em direção ao auditório, passamos pelo departamento financeiro, de viagem e de manutenção. Todas as salas tinham janelas abertas que davam para o corredor, mantendo o ideal alquimista de que não tínhamos nada a esconder.
As salas de segurança máxima no subsolo, porém, não eram tão acessíveis.
Eu já tinha visitado aquela base uma vez para um seminário de treinamento, que, aliás, havia acontecido no mesmo auditório em que entramos para a cerimônia. Apesar do tom espiritual do evento, o salão quase não lembrava uma igreja. Alguém havia se dado ao trabalho de decorar as paredes com guirlandas de sempre-viva enfeitadas com laços vermelhos e de colocar vasos de bico-de-papagaio no palco. O salão tinha equipamento audiovisual de última geração, incluindo uma tela gigante que dava uma visão grandiosa de tudo o que acontecia no palco. O auditório era tão bem pensado que até quem estava sentado nos cantos mais extremos tinha uma boa visão, por isso imaginei que a tela servisse só para dar destaque.
Ian e eu nos sentamos perto do meio do auditório.
— Você não vai tirar seu casaco? — ele perguntou, esperançoso.
Eu é que não deixaria o vestido à mostra naquele retiro de cinza, marrons e colarinhos altos. Além do mais, se continuasse com o casaco, daria algo para ele esperar ansioso. Adrian se orgulharia da minha capacidade de manipular o sexo oposto... e não pude deixar de imaginar se ele seria capaz de resistir àquele vestido. Claramente, eu estava ficando autoconfiante demais com meu novo poder.
— Estou com frio — eu disse, apertando o casaco. Era meio ridículo, visto que as luzes do palco e o grande número de pessoas já estavam deixando o salão abafado, mas imaginei que, como estava frio lá fora, a mentira poderia passar impune.
Para alguém que costuma ser tão fria, até que você consegue esquentar bem rapidinho.
— Sydney? É você?
Congelei, não pela surpresa de ouvir meu nome, mas pela voz que o havia dito. Eu reconheceria aquela voz em qualquer lugar. Lentamente, desviei os olhos de Ian e encarei meu pai. Ele estava parado ao nosso lado, usando um casaco de lã pesado, com flocos de neve em seu cabelo loiro-escuro já um pouco grisalho.
— Oi, pai — eu disse. Então, vi quem estava ao lado dele. — Zoe?
Precisei me segurar para não pular em cima dela e lhe dar um abraço. Eu não via nem falava com minha irmã mais nova desde a noite em que tinha sido tirada da cama e enviada para a missão em Palm Springs. Era a missão que ela achava que eu tinha roubado dela, apesar de todos os meus protestos. Era a missão que a havia afastado de mim.
Olhei para ela agora, tentando avaliar em que pé estávamos. Ela não demonstrou um ódio ostensivo, como no nosso último encontro, o que era um bom sinal. Infelizmente, também não estava muito simpática e afetuosa. Parecia estar com um pé atrás, me observando com cuidado, quase com desconfiança. Notei que não tinha um lírio dourado na bochecha ainda.
— Que surpresa ver você aqui — meu pai disse.
Suas palavras de despedida haviam sido “não me envergonhe”; portanto, não fiquei exatamente espantada com suas baixas expectativas.
— São as festas — eu disse. Forçar um sorriso foi muito mais difícil do que vinha sendo com Ian. — É importante estar com o grupo. Conhece Ian Jansen?
Ian, de olhos arregalados, avançou e apertou a mão de meu pai. Ficou claro que não estava esperando conhecer meus pais tão cedo.
— É um prazer conhecer o senhor.
Meu pai assentiu com gravidade e alternou o olhar de mim para ele. Qualquer surpresa que houvesse tido em me ver ali havia sido superada por me ver com um “namorado”. Olhando de soslaio para Ian, tentei imaginá-lo através dos olhos de alguém como meu pai. Arrumado, respeitador, alquimista. O fato de que Ian me entediava era irrelevante. Duvidei que meu pai pensasse muito sobre meus namoros, mas, se pensasse, provavelmente não teria imaginado que eu ficaria com um bom partido como aquele.
— O senhor gostaria de sentar com a gente? — Ian perguntou. Precisava dar crédito a ele: havia superado seu choque inicial e estava agora agindo como um perfeito pretendente. — Seria uma honra.
A princípio, pensei que estava exagerando. Então percebi que conhecer meu pai poderia realmente ser uma honra. Jared Sage não era nenhum astro do rock, mas tinha uma reputação entre os alquimistas que, para os padrões deles, era extraordinária. Meu pai pareceu gostar da bajulação e aceitou. Ele sentou ao lado de Ian.
— Sente com a sua irmã — ele disse a Zoe, apontando para mim com a cabeça.
Zoe obedeceu, mas ficou olhando fixo para a frente. Entendi, então, que também estava nervosa. Ao olhar para minha irmã, percebi quanta saudade sentia dela.
Havíamos herdado os olhos castanhos do nosso pai, mas ela tinha o cabelo castanho da nossa mãe, o que me deixava com um pouco de inveja. Zoe também parecia muito mais arrumada do que da última vez que a tinha visto. Ela estava com um vestido bonito de caxemira marrom-escuro e não tinha um único fio de cabelo fora do lugar. Algo em sua expressão me incomodou, mas demorei para perceber exatamente o quê. Logo me dei conta. Ela parecia mais velha. Parecia quase adulta, como eu. Imaginei que era besteira da minha parte ficar triste, visto que ela já tinha quinze anos, mas parte de mim queria que ela continuasse uma menininha para sempre.
— Zoe — eu disse baixinho, embora não precisasse me preocupar que os homens ouvissem. Meu pai estava interrogando Ian. — Faz muito tempo que eu queria falar com você.
Ela fez que sim.
— Eu sei. A mamãe me fala sempre que você liga. — Mas ela não deu nenhuma desculpa para evitar minhas ligações.
— Desculpe pela maneira como deixei as coisas. Nunca quis magoar você ou puxar seu tapete. Pensei que estava fazendo um favor a você, evitando que se envolvesse.
A boca dela ficou tensa e algo firme brilhou em seus olhos.
— Não ligo de me envolver. Quero me envolver, você sabe disso. E teria sido ótimo! Estar no campo com quinze anos. Eu poderia ter começado uma carreira brilhante. O papai ficaria orgulhoso.
Escolhi minhas palavras com muito cuidado para não ofendê-la.
— Sim, mas um ano a mais com o papai vai ser realmente, hum, brilhante. Ele tem muita experiência, e você vai ficar feliz por poder aprender o máximo possível antes de começar, acredite. Mesmo se tiver que esperar por uma missão aos dezesseis, ainda vai estar na nossa frente.
Cada palavra que saía da minha boca fazia com que eu me sentisse mal, mas Zoe pareceu convencida. Eu não ficava incomodada com o fato de ela querer fazer parte da causa, mas me doía o quão óbvio era que ela só estava fazendo aquilo para impressionar nosso pai.
— Acho que sim. E estou aprendendo muito mesmo. Mas queria ter pelo menos uma experiência em campo, mesmo que não fosse no meu próprio posto. É só teoria com o papai. Nunca nem vi um Moroi.
— Tenho certeza de que ele vai dar um jeito nisso. — Eu não gostava de encorajar aquilo, mas, pelo menos, ela estava conversando comigo.
As luzes diminuíram, pondo fim à nossa conversa. A música de um órgão encheu o salão, e o aroma de olíbano pairou ao nosso redor. Incenso e resina eram ingredientes comuns em magia, e minha mente logo começou a fazer associações com o livro de feitiços que eu havia meticulosamente copiado. “Olíbano é usado para curar queimaduras. Também pode ser usado para lançar feitiços de adivinhação ou purificação...”
Interrompi essa linha de pensamento imediatamente. Embora estivesse quieta, pensar sobre magia no meio de uma cerimônia sagrada dos alquimistas era um sacrilégio. Me mexi, desconfortável, imaginando o que todas aquelas pessoas pensariam se soubessem a verdade sobre mim: que eu praticava magia e que havia beijado um vampiro...
Os sacerdotes alquimistas eram chamados de hierofantes. Eles davam bênçãos e ofereciam conselhos morais quando necessário. No dia a dia, usavam ternos, mas, para aquela ocasião, o hierofante principal estava usando mantos que me trouxeram à mente a lembrança desagradável do que alguns dos guerreiros vestiam. Era outro lembrete de que tínhamos história em comum — e, talvez, um futuro em comum. Marcus estava certo. Aquele era um mistério que eu precisava resolver, qualquer que fosse minha decisão sobre o rompimento da tatuagem.
Eu havia participado de cerimônias como aquela algumas vezes, e sabia as orações em latim de cor. Cantei com o resto da congregação e ouvi atentamente enquanto o hierofante reafirmava nossos objetivos, sua voz ecoando pelo sistema de som. Embora a religião alquimista tivesse algumas relações fracas com o cristianismo, havia pouquíssimas menções a Deus, Jesus ou mesmo o Natal. A maior parte do sermão foi sobre nossa obrigação de ajudar a proteger a humanidade da tentação de seguir os Strigoi que ofereciam uma imortalidade profana. Essa recomendação, ao menos, não era exagerada.
Eu tinha ouvido histórias sobre — e até visto com meus próprios olhos — o que acontecia quando humanos decidiam servir aos Strigoi. Os Strigoi prometiam transformar seus servos como recompensa. Esses humanos os ajudavam a espalhar sua maldade e eles próprios se tornavam monstros, mesmo antes da transformação. Manter esses vampiros nefastos escondidos era para o bem dos humanos fracos, incapazes de se proteger. Prestei ainda mais atenção quando o hierofante mencionou os Moroi em seu sermão, como um meio para atingir o fim de derrotar os Strigoi. Ele não inspirava sentimentos exatamente carinhosos ou calorosos em relação a eles, mas, pelo menos, também não clamou a favor da destruição dos Moroi e dampiros.
Concordei com boa parte da mensagem, mas ela não inspirou o mesmo ardor em mim como antigamente. E, quando o hierofante começou a falar com sua voz monótona sobre dever, obediência e o que era “natural”, comecei a me sentir desligada. Quase desejei que ele falasse mais sobre o divino, como aconteceria na cerimônia de uma igreja normal. Considerando tudo o que vinha acontecendo na minha vida, não seria mal ter uma ligação com uma força superior. Em alguns momentos, enquanto escutava o hierofante, pensava se tudo o que ele estava dizendo tinha sido simplesmente inventado por um bando de gente reunida na Idade Média, sem nenhuma ordem sagrada.
Ao fim da cerimônia, estava me sentindo uma traidora. Talvez a brincadeira de Adrian estivesse certa: eu nem precisava de Marcus para romper a tatuagem e minha ligação com o grupo. Ao olhar para meus companheiros e para os outros alquimistas no salão, ficou claro que eu estava sozinha ali. Todos pareciam cativados pelo sermão, devotados à causa.
Mais uma vez, me veio a lembrança perturbadora dos guerreiros e sua devoção fanática. Não, não, por mais que os alquimistas possam ser culpados de alguma coisa, não temos nada a ver com aquele comportamento maluco. E, no entanto... percebi que era um pouco mais complexo do que isso. Os alquimistas não disparavam antes de perguntar, tampouco faziam com que seus membros lutassem uns contra os outros. Éramos civilizados e racionais, mas tínhamos a tendência de fazer o que nos mandavam. Era essa a semelhança, e ela poderia ser perigosa.
Meu pai e Zoe saíram comigo e Ian.
— Não foi incrível? — ela perguntou. — Ouvir aquilo... enfim, fico muito contente que o pai decidiu ter mais uma alquimista na família. É bom aumentar nossos números.
Será que essa tinha sido realmente a motivação dele? Ou ele tinha tomado a decisão porque não confiava mais em mim depois que ajudei Rose?
Era irritante que a única conversa que conseguia ter com Zoe girasse em torno da retórica alquimista, mas aceitei, depois do silêncio dos últimos meses. No fundo, sentia saudade de conversar como antigamente. Eu queria aquilo de volta. Embora ela estivesse um pouco mais animada, aquela velha intimidade que antes existia entre nós ficara para trás.
— Queria que tivéssemos mais tempo — eu disse, quando nossos grupos estavam prestes a se separar no estacionamento. — Tem tanta coisa que quero dizer a você.
Ela sorriu, e havia uma sinceridade nesse sorriso que me enterneceu. Talvez a distância entre nós pudesse ser reparada.
— Eu também. Desculpe por... enfim, o jeito como as coisas aconteceram. Tomara que a gente se encontre de novo em breve. Eu... estava com saudades.
Isso quase me derrubou, e o abraço dela ainda mais.
— Vamos nos encontrar logo, prometo.
Ian, que meu pai parecia ver agora como futuro genro, me levou de volta para o hotel e não conseguia parar de falar efusivamente sobre como tinha sido incrível conhecer Jared Sage. Quanto a mim, ainda conseguia sentir o abraço de Zoe na pele. Ele prometeu que entraria em contato comigo na manhã seguinte sobre o tour pelos arquivos. Então, para a minha confusão, fechou os olhos e se aproximou. Levei um momento para entender que ele estava esperando um beijo de boa-noite. Sério? Era assim que ele tentava conseguir um beijo? Será que já tinha beijado alguém na vida? Até Brayden havia demonstrado um pouco mais de paixão. E, claro, nenhum menino chegava aos pés de Adrian nesse quesito.
Como não fiz nada, ele finalmente abriu os olhos. Dei outro abraço nele — com o casaco — e disse ter ficado muito contente por ele ter conhecido meu pai. Ele pareceu satisfeito com isso.
Adrian fez sua visita noturna depois que dormi. Naturalmente, quis saber os detalhes do vestido. Também ficou tentando descobrir como exatamente eu tinha convencido Ian e pareceu se divertir com os poucos detalhes que contei a ele. Mas, na maior parte do tempo, eu não conseguia parar de falar sobre Zoe. Adrian logo desistiu dos outros assuntos e simplesmente ficou ouvindo enquanto eu lhe contava todos os detalhes.
— Ela falou comigo, Adrian! — Andei de um lado para o outro pelo salão do casamento, mexendo as mãos, eufórica. — E não estava brava. No fim, estava até feliz em me ver. Sabe o quanto isso significa pra mim? Assim, sei que você não tem irmãos, mas ter alguém que você não vê faz tempo aceitar você de volta...
— Não sei como é — ele disse baixinho. — Mas posso imaginar.
Eu estava concentrada demais na minha alegria naquela hora, mas, depois, fiquei pensando se ele estava se referindo à mãe, que estava presa.
— É bom ver você tão feliz — ele acrescentou. — Não que andasse triste, mas estava com muita coisa na cabeça.
Não consegui conter o riso, e parei de andar por um momento.
— Está dizendo que bruxas do mal e espionagem são estressantes?
— Não. — Ele veio na minha direção. — É o nosso dia a dia. Mas estou indo pra cama agora. Acho que você consegue se virar sem mim hoje.
Ele vinha me visitando todas as noites desde o sonho de Veronica. A maioria das viagens era curta agora, mas, mesmo assim, eu sabia que demandava muito esforço e espírito dele.
— Obrigada. Às vezes parece que nem tenho como agradecer você o bastante.
— Não precisa agradecer, Sage. Boa sorte amanhã.
Certo. Roubar informações ultrassecretas de uma base de segurança máxima.
— Obrigada — repeti. Perdi um pouco da animação, mas não toda. — Aconteça o que acontecer, fazer as pazes com Zoe me fez achar que essa missão valeu a pena.
— Isso é porque você não foi pega. — Ele envolveu meu rosto com as mãos e se aproximou. — Tome cuidado para não deixar isso acontecer. Não quero ter que visitar você em sonhos na prisão... ou na versão alquimista de uma prisão.
— Ei, pelo menos eu teria a sua companhia, certo?
Ele fez que sim, cabisbaixo, e o sonho desapareceu ao meu redor.

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