30 de outubro de 2017

Capítulo 18

Adrian

— SÓ OLHA PRA ELE — INSISTI. — POR FAVOR.
— Não — disse Neil, desviando os olhos da tela de celular que eu mostrava. — Se eu olhar… — Sua voz embargou e ele não conseguiu terminar.
Ainda estávamos na casa de Maude, esperando a próxima fase da operação, e eu tentava convencê-lo a desistir da ideia maluca de que precisava evitar Declan.
— Escuta — eu disse —, ninguém vai desconfiar se você criar esse bebê. Todo mundo sabe que você amava Olive. Vão achar que está ajudando por causa disso, e não porque graças a um efeito colateral maluco do espírito vocês mudaram o mundo que a gente conhece.
Neil balançou a cabeça.
— Pouquíssimas pessoas sabem que Olive teve um filho. Isso é bom. Precisamos deixar as coisas assim e me manter longe disso.
Era a centésima vez que tínhamos essa conversa e isso já estava me deixando maluco. Se Neil quisesse ficar longe de Declan porque, sei lá, não gostava de crianças ou tinha medo de virar pai, eu entenderia melhor. Mas era óbvio que Neil queria desesperadamente ver Declan e participar da vida dele. Dava para ouvir esse desejo na voz dele.
— A gente encontra um jeito — eu disse. — Juro.
Havia uma expressão perturbada no rosto de Neil.
— Declan é um milagre — ele murmurou. — Precisa ser protegido e levar uma vida normal. Uma vida normal e feliz.
— É o que também quero — eu disse, exausto. — Acredite em mim.
Estávamos sentados na varanda dos fundos, aproveitando o calor da tarde, quando ouvimos a voz de Maude:
— Adrian? Tem visita pra vocês.
Entrei como um raio, com o coração acelerado e Neil atrás de mim. De fato era Sydney, parada na sala com sua aparência normal. Eu a abracei, girando-a tanto no ar que ela riu e me mandou botá-la no chão antes que ficasse tonta. Pus as mãos em seu rosto.
— Você está bem — eu disse, contente.
Ela me deu um soquinho de brincadeira.
— Você sabia que sim.
— Um telefonema é diferente de te ver pessoalmente — eu disse. Dei um beijo na sua testa. — Quer dizer, sabia que você era competente, corajosa e incrível, mas, enfim… não é fácil saber que sua mulher está arriscando a vida com um bando de maníacos vampirofóbicos. — Enfiei a mão no bolso. — Ah, e não esqueça isso. — Fiquei de joelhos e coloquei em seu dedo as alianças de diamante e rubi que estava guardando para ela. — Como prometido. Quer dizer, tirando a parte sem roupa. Mas a gente pode cuidar disso depois.
Fiquei esperando um “Adrian” em tom de repreensão, mas ela sorriu, cheia de amor e felicidade. Pegou minhas mãos e me ajudou a levantar, parecendo prestes a me dar um beijo, até lembrar que havia pessoas em volta. Sem graça, deu um passo para trás e cruzou os braços, tentando parecer profissional. Eddie e Marcus pareciam se divertir com aquilo tudo. Neil parecia intrigado, olhando estranhamente de mim para Sydney.
— Hora de voltar para o trabalho — ela disse.
— Agora sim — Eddie disse, ansioso. — Vamos resgatar Jill.
— Qual é o plano? — perguntei. Depois que ligara para Rose e Dimitri para contar as informações sobre Jill e os alquimistas, tinha perdido a noção do que estava acontecendo. Só sabia que Sydney tinha ajudado a elaborar a estratégia.
— Os alquimistas confirmaram que o lugar que conheciam em St. George é o mesmo que está nos registros do laptop. Agora eles e os guardiões estão analisando todas as plantas para tomar cuidado e elaborar um bom plano — Sydney explicou.
Fiquei contente com isso. Alicia estava convencida de que não estaríamos preparados para ir atrás de Jill, mas não contava com as habilidades investigativas de Sydney. Estava orgulhoso de mim mesmo por conseguir não usar todo o espírito. Na verdade, vinha tomando muito cuidado com ele nos últimos dias, e tia Tatiana havia permanecido incrivelmente quieta.
— Também conseguimos anistia por enquanto, então podemos ir com eles livremente para St. George — Sydney disse, apontando para mim com a cabeça. — Não que a gente possa fazer muita coisa durante a ação, mas pelo menos poderemos monitorar as coisas e estar presente quando Jill for solta. Neil, Eddie e os outros vão participar do resgate propriamente dito.
— Mal vejo a hora — Neil disse, com um tom perigoso na voz. A expressão acalorada de Eddie falava por ele.
— Vamos receber mais detalhes quando chegarmos a St. George — Sydney continuou. — Podemos pegar a estrada assim que todo mundo estiver pronto. É um trajeto de umas seis horas e imagino que a gente chegará lá mais ou menos na hora em que o ataque está programado para acontecer.
— Estou pronto pra ir — Neil disse.
— Eu também — concordei. — Só me dê dois minutos pra pegar minhas coisas.
Sydney veio comigo até o quarto de hóspedes de Maude e ficou observando enquanto enfiava minhas poucas roupas e meu laptop na sacola de lona que vinha carregando de um lado para o outro naquela aventura.
— Rose me ligou — ela disse, fechando a porta. — Ela e Dimitri queriam saber se poderiam ir a St. George e deixar sua mãe e Declan na casa do Clarence. Falei que sim. Espero que não tenha problema.
Parei, sobressaltado por um momento, depois assenti devagar.
— É, acho que tudo bem. Os alquimistas vão parar de vigiar nossos pontos de encontro agora que sabem para onde você está indo. E, na verdade, se ninguém estiver procurando por Declan…
— Foi o que pensei também — Sydney concordou. — Mas deu pra ver que Rose estava morrendo de curiosidade para saber o motivo de tanto sigilo em torno dele.
Coloquei a sacola no ombro e pus o braço livre em volta de Sidney, notando que ela também estava com uma sacolinha no braço.
— Acho que precisamos contar pra eles quando isso acabar. E quando resolvermos as coisas com Neil. São confiáveis e têm o direito de saber. Você sabe o que isso significa pra eles.
— Sim. Além disso, seja lá o que decidirmos fazer para ajudar Declan e Neil… Bom, acho que vamos precisar de ajuda. Eles são bons aliados. Você conseguiu fazer Neil mudar de ideia?
— Não — respondi, exasperado. — Ele continua cheio de palavras bonitas, dizendo que é o melhor para Declan.
— A gente vai conseguir convencê-lo — ela disse. — Quando tudo isso acabar e Jill estiver de volta.
— Quando Jill estiver de volta — concordei. As comportas que seguravam todas as emoções que sentia em relação a Jill estavam ameaçando explodir. — Meu Deus, não acredito que estamos tão perto. Faz tanto tempo que estou preocupado com ela.
Sydney apertou minha mão.
— Eu sei, eu sei. E a gente está quase lá.
— Queria acabar com Alicia — admiti. — Por causa do que ela fez. Queria pulverizar aquela mulher com o espírito.
— Você não fez isso, fez? — Sydney perguntou, arregalando os olhos.
Suspirei.
— Não. Queria ter feito, mas não. Me contive. Só usei o espírito necessário. E estou mantendo o controle desde então.
O sorriso que Sydney abriu aqueceu meu coração.
— Estou muito orgulhosa de você, Adrian. Sei que não deve ser fácil.
— Não é — admiti. — Mas estou me esforçando. E acho que consigo… acho que consigo me controlar. Não preciso dos remédios. Posso simplesmente controlar o uso do espírito.
Seu sorriso vacilou, como se fosse discordar, mas então me surpreendeu dizendo:
— Vou apoiar e estar ao seu lado no que você decidir, para o resto das nossas vidas. — Ela me entregou a sacola que carregava. — Trouxe um presente pra você. Quer dizer, é meio que pra nós dois.
Abri e encontrei uma caneca do Tortas e Tal.
— Ah, cara, não acredito que você foi lá sem mim — brinquei.
— Ela é nossa — ela disse. — A primeira coisa para colocarmos na nossa casa nova juntos. Estou negociando com Stanton para comprar nossa liberdade. Quando tudo isso acabar, vamos ter uma vida juntos, Adrian. Uma vida de verdade.
Meu amor por ela era gigantesco. Deixei as sacolas no chão e a tomei nos braços. Aquela caneca boba ganhou de repente uma importância enorme e, ao encarar Sydney, aquele rosto que tanto amava, pude imaginar o futuro que descreveu, um futuro juntos em que poderíamos fazer qualquer coisa. Voltar para os remédios parecia um preço pequeno a pagar por isso. Não precisava do espírito se tinha Sydney.
Eu a encostei contra a porta e dei um beijo nela, permitindo-me esquecer por um momento de tudo que nos esperava fora daquele quarto. Naquele instante, só havia nós dois e aquele momento perfeito juntos.
— Você me faz acreditar que tudo é possível — murmurei.
— Já falei antes: nós somos o centro — ela disse. — E o centro vai aguentar.
Dei outro beijo nela, mais intenso, e foi com grande relutância que finalmente nos soltamos.
— Quero muito uma casa de verdade — eu disse, acariciando o cabelo que caía em seu rosto —, mas, antes disso, a gente pode por favor ter uma lua de mel de verdade?
— Eu adoraria — ela murmurou, beijando-me mais uma vez. — Assim que resgatarmos Jill, tudo vai mudar.
Eu a abracei forte.
— Então, pelo amor de Deus, vamos buscar Jill.
Nós quatro pegamos a estrada para St. George, virando a noite dirigindo para chegar a tempo. Tentamos revezar no volante para que todos conseguissem descansar, mas era difícil. Sinceramente, a essa altura achava que relógio biológico e “horas do dia” não passavam de invenções alheias à minha vida. Estava feliz por ter Sydney ao meu lado novamente, e ficamos contando um para o outro o que acontecera durante nosso tempo separados. Ela não quis explicar que acordo estava tentando fazer com Stanton, mas falou com confiança sobre o futuro que tanto queríamos.
Fomos rápidos, chegando ao centro de comando improvisado dos alquimistas e guardiões pouco antes do nascer do sol. E, por mais que odiasse admitir, os alquimistas se provaram úteis. Em menos de um dia, tinham encontrado um prédio comercial disponível e o enchido de alquimistas e computadores. Tinham informações de câmeras e satélites sobre o complexo dos guerreiros, além de batedores posicionados no local, nos mantendo atualizados sobre a situação e as medidas de segurança dos guerreiros.
Um homem bruto chamado McLean estava no comando dos alquimistas. Ele e Dimitri, que tinha chegado algumas horas antes, estavam trabalhando juntos na organização do ataque, surpreendentemente bem. Todos nos prometeram que seria um resgate relativamente simples. Nossas forças eram maiores do que as dos guerreiros. Se nosso ataque inicial fosse forte e inesperado, não haveria motivo para fracassar. Eu e Sydney trocamos olhares apreensivos, sabendo que as coisas dificilmente eram tão simples quanto pareciam, mas tentamos manter o otimismo. Queríamos que fosse simples. Precisávamos que fosse simples. Nos despedimos de Dimitri, Rose, Eddie e Neil animados, que nos deixaram sem nada para fazer além de esperar as novidades.
Era estranho não ir junto. Tinha passado tanto tempo me preocupando com Jill sem poder fazer nada, preso na Corte. Depois, quando conseguimos a pista sobre Alicia, ficara para trás no início para acobertar Sydney. Agora que finalmente sabíamos onde Jill estava, estava ficando para trás de novo. Era enlouquecedor. Desde que trouxera Jill de volta da tentativa de assassinato, tinha a impressão de que sua vida dependia de mim. Por mais que soubesse que um complexo cheio de fanáticos armados seria mais bem invadido por guardiões e alquimistas treinados, não conseguia deixar de lado a sensação de que devia ir junto.
— Vai dar tudo certo — Sydney disse com doçura, apoiando a mão no meu braço. — Também estou me sentindo inútil, mas eles são especialistas. E, depois que a tirarem de lá, vamos ser uns dos primeiros a vê-la.
— Eu sei — respondi. Coloquei o braço em volta dela. — Paciência não é uma das minhas melhores virtudes.
Enquanto falava, o olhar de Sydney se fixou em algo atrás de mim e me virei para observar. Era o pai dela e Zoe entrando no centro de comando. Também ficaram parados por um momento, e então, Zoe deu alguns passos à frente, abrindo um sorriso, até um grito súbito do seu pai a fazer parar.
— Zoe! — ele vociferou.
— Minha própria irmã não pode me ver, pai? — Sydney perguntou. — Está com medo que eu corrompa Zoe?
Ele ficou vermelho.
— Fiquei sabendo que fez algum tipo de acordo com Stanton. Não teria acontecido se eu estivesse no comando.
— Como você está, Zoe? — Sydney perguntou, voltando a atenção para a Sage mais nova. — Tudo bem?
Zoe encarou o pai insegura e depois assentiu de leve.
— Estou. E você?
— Vem comigo — ordenou o pai delas. — Vamos ver como está o progresso da operação.
Zoe lançou um último olhar para Sydney e depois, relutante, seguiu Jared Sage para onde os alquimistas estavam monitorando a equipe que invadia o complexo dos guerreiros. Sydney se separou de mim e foi atrás deles.
— Também quero atualizações — ela disse. Mas, quando chegou ao grupo amontoado em volta das pessoas responsáveis pela comunicação, Sydney esperou até o pai se distrair e então tocou a manga da blusa de Zoe e a puxou de leve na nossa direção. — Não tive tempo de agradecer por não me denunciar lá nos Ozark — Sydney disse baixinho.
Zoe balançou a cabeça mas manteve o olhar preocupado fixo no pai.
— Era o mínimo que podia fazer. Sydney, se tivesse alguma ideia do que você passaria lá, nunca a teria denunciado. Achei que iriam te ajudar. Juro. — Lágrimas surgiram em seus olhos.
— Como você ficou sabendo do que aconteceu? — perguntei. Pelo que sabia, os detalhes do que os detentos sofriam na reeducação eram confidenciais.
Zoe não respondeu de imediato e, pela forma constrangida como me encarou, ficou claro que ainda não aceitava muito bem a ideia de ter um cunhado vampiro.
— Carly me contou — ela disse por fim. — Ficou sabendo por um cara que ajudou você. Acho que estão namorando agora.
Eu e Sydney trocamos olhares surpresos.
— Marcus? — perguntamos em uníssono.
— Sim — Zoe respondeu. — Acho que é esse o nome dele.
— Que espertinho — murmurei. Quando Marcus e Carly se conheceram, ele se mostrou claramente interessado pela irmã mais velha de Sydney, mas não fazia ideia de que tinha ido atrás dela.
— Que bom que está conversando com Carly — Sydney disse. — Tem falado com a mamãe também?
— Não — Zoe respondeu. — Queria, mas o papai não deixa. E ele tomou o cuidado de deixar os termos do divórcio bem definitivos.
Eu e Sydney notamos a tristeza na voz da irmã.
— Você quer sair? — Sydney perguntou, ansiosa. — Quer ficar livre deles?
— Ainda não — respondeu Zoe. Ao ver o olhar cético de Sydney, ela continuou: — Não, estou falando sério. Não é por medo. Ainda acredito na causa, mas nem sempre estou contente com os métodos. Isso não significa que quero desistir. Quero continuar aprendendo e trabalhando com eles… e depois, quem sabe? — Seu rosto ficou mais triste. — Mas seria bom ver a mamãe de novo.
— Zoe! — Jared vociferou. Ele tinha acabado de notar que ela estava conversando com a gente. — Venha aqui e…
— Estou recebendo um relatório — exclamou uma alquimista sentada ao lado de um guardião com quem dividia a função de monitoramento. Os dois estavam usando fones, com laptops diante de si, e ele assentiu. — As duas equipes entraram, mas parece que existem minas no terreno.
Sydney apertou minha mão e um silêncio terrível caiu à nossa volta enquanto esperávamos mais informações. Lembrei de Alicia zombando que nunca conseguiríamos chegar até Jill.
— Conseguiram passar pelas minas — disse o guardião muitos minutos depois. Todos respiraram aliviados, mas logo voltamos a ficar tensos. — Estão enfrentando combatentes inimigos agora.
Mesmo com o som abafado pelos fones, dava para ouvir o crepitar das mensagens urgentes daqueles que invadiam o complexo, além do que parecia o som de disparos. Sydney voltou a encostar em mim, com a mão pousada no colar com a cruz de madeira que eu havia pintado para ela tempos antes. Os minutos pareciam horas e eu não parava de pensar: Deveria estar lá, deveria estar lá.
Por quê?, escarneceu tia Tatiana. De que adiantaria você sem o espírito? Sua esposa não deixaria você usar, lembra?
Um sorriso apareceu de repente no rosto do guardião enquanto ele ouvia a última mensagem.
— Eles entraram. Os andares superiores do complexo foram dominados. Todos os combatentes foram detidos. — Ele parou enquanto recebiam mais informações. — Nenhuma morte do nosso lado. — Em um surpreendente momento de solidariedade, ele e a alquimista bateram as mãos em comemoração. Mas não conseguia compartilhar da mesma alegria, não por enquanto.
— Estão com Jill? — perguntei. — Já estão com a princesa?
O guardião balançou a cabeça.
— Estão indo atrás dela agora. Ela está sendo mantida no porão. Fizeram uma medição de calor e parece que só tem uma pessoa lá. Tudo aponta que é uma Moroi da estatura dela.
Puxei Sydney para perto num abraço esmagador, afundando o rosto no cabelo dela.
— Acabou. Finalmente acabou. — Não chorava fácil, mas senti as lágrimas surgindo nos olhos ao pensar que logo teria Jill de novo com a gente.
— Eu… Sim. O que foi?
Virei para a alquimista com fones de ouvido e me dei conta que ela estava falando com uma pessoa do outro lado, não com a gente. Sua testa se franziu e ela ergueu os olhos para nós.
— Sra. Ivashkov, querem falar com a senhora.
Pelo canto do olho, notei a careta que o pai de Sydney fez ao ouvir o sobrenome.
— Comigo? — Sydney perguntou, pegando os fones de ouvido. Ela os colocou e sentou na cadeira, entrando numa conversa da qual só conseguíamos ouvir metade. — Como assim? Entendi… Tem alguma marcação? Algum objeto? Certo… Não, você pode estar certo. Só espere… Estou indo. Sim.
Ela levantou e tirou os fones.
— O que está acontecendo? — perguntei.
— Era Eddie — ela respondeu. — Estava com o grupo prestes a invadir o porão, mas aí, no último minuto, fez todo mundo parar.
— Por quê? — Zoe perguntou.
Sydney me encarou.
— Ele disse que sentiu o cheiro da casa da sra. Terwilliger.
Por um minuto, pensei que estava sugerindo que Jackie estava lá, e só então entendi a conclusão a que ele chegara.
— Você acha que tem algum tipo de magia lá embaixo?
— Foi Alicia que capturou Jill para eles — Sydney apontou. — É possível que tenha deixado alguma armadilha montada. Isso também explicaria por que não tem nenhum guerreiro protegendo o andar.
— Provavelmente porque todos subiram correndo para lutar no primeiro ataque — disse o pai dela.
As palavras de Alicia voltaram à minha mente: “Mas nunca vão chegar até ela! Nunca vão conseguir chegar até onde ela está!”. Uma sensação de pavor revirou meu estômago.
— Não, tem alguma coisa lá.
— Suspenderam a ação até eu chegar para investigar — Sydney disse. Ela me encarou. — Você vem comigo?
Não precisava nem ter perguntado, e nós dois sabíamos disso. Um guardião nos levou até o local, que ficava nos arredores da cidade. Não era nenhuma surpresa, já que fanáticos costumavam construir fortalezas longe de áreas civilizadas cheias de pessoas que poderiam chamar a polícia. A paisagem desértica dominava, mas de um jeito diferente de Palm Springs. As rochas e a terra eram de um vermelho que ficava impressionante sob o poente, e havia pequenos trechos de vegetação rasteira. O complexo em si era um vasto prédio térreo cercado por arame farpado. Os alquimistas e guardiões patrulhavam a área de ponta a ponta, e pude ver onde haviam cercado e prendido os guerreiros inimigos. Dimitri nos recebeu quando saímos do carro.
— Por aqui — ele disse, apontando adiante. — Acreditamos que ainda existam minas na área. Vamos levar vocês por um caminho seguro.
Nós o seguimos pelo terreno rochoso, passando pelos prisioneiros que nos encaravam. O prédio em si era tão austero quanto um quartel militar e, pelo que pude observar, não tinha servido a nenhum propósito além de ponto de encontro para discutir planos malucos contra vampiros e manter os prisioneiros. Senti calafrios só de encará-lo.
Uma escada no centro do prédio levava para um andar subterrâneo, onde Eddie, Neil e Rose nos esperavam. Eu e Sydney descemos a escada até um longo corredor de cimento que se estendia na escuridão. Dava para ver algumas portas, mas não fazia ideia do que havia atrás delas. Ao meu lado, Sydney franziu a testa.
— Lembra uma versão primitiva da reeducação — ela murmurou, sentindo calafrios.
Ao lembrar de quando ajudei a resgatá-la, pude entender o que queria dizer. O centro alquimista também tinha vastos corredores com portas misteriosas, mas lá o clima era quase hospitalar: um lugar todo esterilizado, com uma forte iluminação fluorescente. O lugar onde estávamos, por sua vez, parecia mais uma masmorra medieval no meio do deserto de Utah. Passei mal só de pensar que Jill estava lá.
— Achamos que Jill está logo ali — Rose disse. — Foi o que o equipamento alquimista detectou. Quero entrar e buscá-la, mas Eddie… — Ficou claro que ela não sentia os mesmos medos que ele.
Ele pareceu um pouco envergonhado, mas defendeu sua opinião.
— Simplesmente não consigo deixar de lado a sensação de que tem alguma coisa errada aqui. Por que ninguém está vigiando a prisioneira mais valiosa deles? E estão sentindo esse cheiro?
Sydney assentiu e precisei concordar.
— Cheira um pouco como a casa de Jackie aqui — comentei.
— Alguém acendeu incenso aqui dentro — Sydney disse. — Mas não é algo que a sra. Terwilliger usaria. Vetiver. Lótus negra. — Ela franziu a testa e observou ao redor. — Lá tem algumas cinzas. Foi queimado ali.
Fiz menção de investigar, mas ela me deteve.
— Espera — ela disse. Ergueu a mão e proferiu palavras numa língua que eu desconhecia. Depois de alguns segundos, símbolos luminosos surgiram no teto acima de onde as cinzas estavam. Sydney os examinou com atenção até eles se apagarem e soltou um suspiro conturbado. — Droga.
Quase nunca a ouvia praguejar, e não achava que isso era um bom sinal.
— Que foi? — perguntei.
— Tem um demônio aqui — ela respondeu num tom casual. — Parece que Alicia invocou um para ficar de guarda.
— Tecnicamente Pulinho é um demônio — comentei.
O rosto dela estava apreensivo.
— Não acho que seja desse tipo. É um senicus. — Ao ver nossos olhares pasmos, continuou: — Já ouviram falar da hidra da mitologia grega? É tipo isso. Mais ou menos. Serpentino, muitas cabeças. E as cabeças cospem ácido fervente.
Estudara mitologia grega no ensino médio e até tinha prestado atenção nessa aula.
— As cabeças crescem de volta também? — perguntei.
— Não se forem destruídas com fogo — ela disse.
— A gente precisa de um lança-chamas? — Neil perguntou.
Sydney ergueu a mão e uma bola de fogo surgiu.
— Não.
Os olhos de Rose se arregalaram, fascinados.
— Nossa. Espadas machucam essa criatura?
— Não — Sydney respondeu. — Ela tem um couro mágico que serve de proteção. Sou a única realmente capaz de destruir essa coisa. O que vocês precisam fazer é tirar Jill daqui enquanto distraio o demônio. Alguém precisa passar por ele enquanto estiver ocupado comigo. Como fogo é o único jeito de destruir a criatura, não quero Jill presa aqui se tudo desmoronar.
Mais uma vez me senti inútil. Sydney podia ser uma profissional com bolas de fogo, mas isso não significava que queria que ela enfrentasse o demônio-hidra sozinha.
— O que faço?
— Nada — ela respondeu. — Sai daqui.
Ela acha você um incompetente!, tia Tatiana exclamou. Acha que você vai atrapalhar.
— Sydney, me deixa ajudar — insisti.
Sydney sequer estava olhando para mim enquanto examinava o corredor, provavelmente medindo o alcance das bolas de fogo e quão inflamável o lugar era.
— Adrian, não tem nada que você possa fazer aqui. Fique seguro, Jill pode precisar da sua ajuda quando sair.
Ouviu isso?, tia Tatiana perguntou. Ela acha que você não é capaz de nada!
Comecei a perder a calma e quase concordei com tia Tatiana, até parar um pouco para repetir mentalmente o que Sydney havia dito. Não, ela tem razão, disse à fantasma na minha cabeça. Se Jill estiver ferida, preciso poupar meu poder. Não podemos repetir o que aconteceu com Olive.
Tia Tatiana discordou: Você não precisa poupar nada! Você consegue fazer tudo!
Tentando calar a voz interna, dei um beijo em Sydney e um abraço rápido.
— Toma cuidado — murmurei. — E se precisar de mim, vou estar por perto.
— Não perto demais — ela avisou. — Essa coisa cospe ácido. Não quero que se machuque.
— Entendido — respondi, antes que tia Tatiana pudesse reclamar que Sydney estava sendo superprotetora.
Escolhi um lugar na escadaria que me dava uma rápida rota de fuga se precisasse, mas também uma boa visão de onde tudo aconteceria. Não tinha discutido com Sydney, mas a saúde de Jill não era a única coisa com que estava preocupado. Além de Sydney, os dampiros estavam se arriscando. Queria estar por perto caso algum deles se machucasse.
Depois de uma discussão acalorada, os três definiram um plano. Eddie e Neil esperariam comigo como reforço enquanto Rose entraria sozinha para resgatar Jill. Os dois também queriam ir, mas ela argumentou que era menor e mais rápida. Também alegou que o lugar era apertado demais para que todos, contando com Jill, passassem pelo demônio na volta. Ficou difícil desbancar os argumentos dela, e Sydney concordou que, com bolas de fogo voando, seria melhor ter menos gente com quem se preocupar.
Assim, relutantes, Eddie e Neil vieram esperar comigo, enquanto Rose se posicionou logo atrás de Sydney.
— Hora de invocar a criatura — Sydney disse, nervosa. — Ela apareceria por si só se eu atravessasse esse caminho, mas prefiro trazê-la nos meus próprios termos. — Ela ergueu as mãos e declamou um feitiço que, novamente, fez as marcas no teto brilharem.
Dessa vez, porém, o demônio se materializou na frente delas.
Então entendi por que uma hidra era a comparação mais próxima que Sydney tinha achado. Da cintura para baixo, o demônio caminhava em duas pernas como nós, apesar da pele escamosa e das garras nos pés. Da cintura para cima, tinha vários tentáculos sinuosos se estendendo do torso, além de cinco pescoços com cabeças de serpente. Todas chiavam e encaravam Sydney. O medo se agitou na minha barriga ao ver o demônio, e quase senti falta do tempo em que os únicos monstros que conhecia eram os Strigoi. Apesar do terror que aquela coisa inspirava, ainda tinha uma vontade arrasadora de proteger Sydney. Não importava se minha vida corria perigo. Me sacrificaria de bom grado por ela.
Vai!, tia Tatiana exclamou. Atira alguma coisa nele!
— Não tem nada para atirar — eu disse. — E Sydney consegue sozinha.
— Hum? — Eddie perguntou.
Tinha falado em voz alta sem querer de novo, e balancei a cabeça.
— Nada.
Sydney se manteve firme, encarando o demônio-hidra diante dela como se fizesse aquilo todo dia, e não como se tivesse entrado sem querer no covil dele. Uma bola de fogo surgiu na ponta dos dedos de Sydney, que a lançou na mesma hora numa das cabeças de serpente. Sua mira foi boa, mas a criatura foi mais rápida. Num piscar de olhos, virou a cabeça e desviou. Uma das outras cabeças cuspiu uma gosma verde brilhante que caiu no piso de concreto e começou a corroer a superfície. Não queria nem pensar no que aquilo faria com a pele.
Sydney lançou outra e não acertou de novo, mas seu olhar permaneceu firme.
— Uma hora vou acertar — eu a ouvi dizer para Rose. — E é quando você deve agir.
Rose estava preparada ao lado dela, pronta para correr. As duas faziam uma dupla impressionante, uma morena e a outra loira, ambas completamente destemidas diante do perigo. Eram lindas e mortais.
A bola de fogo seguinte acertou uma das cabeças. A criatura recuou de dor e as outras cabeças sobreviventes gritaram. Rose aproveitou o momento para passar correndo pela criatura e chegar ao lado oposto do corredor de concreto. Mesmo assim, o demônio percebeu e fez menção de virar, mas outra bola de fogo certeira chamou sua atenção de volta para Sydney. Alguns de seus tentáculos eram curtos e grossos, mas outros eram mais longos e chegavam perigosamente perto dela, obrigando Sydney a desviar tanto do ácido como dos tentáculos. Fazia isso com mais habilidade do que eu jamais conseguiria, fugindo dos ataques com uma técnica que deixaria Wolfe orgulhoso.
— Perto demais — Neil murmurou, depois que Sydney escapou por pouco de um ataque de ácido.
— Ela é boa — eu disse. Na mesma hora, outra bola de fogo atingiu uma das cabeças de cobra, deixando uma marca chamuscada.
— Por que Rose está demorando tanto? — Eddie perguntou.
Não tinha uma resposta para isso. Ela havia desaparecido na escuridão e nenhum de nós sabia o que havia lá. Talvez tivesse que procurar atrás de vinte portas. Ou talvez estivessem trancadas. Ou Jill podia estar acorrentada. Ninguém sabia ao certo, e a dúvida nos consumia.
Sydney tinha acabado de aniquilar uma terceira cabeça de cobra quando ouvi Eddie respirar fundo. Atrás da criatura pude distinguir Rose com uma silhueta apoiada nela. O rosto da outra pessoa estava enfiado no ombro de Rose, mas era impossível confundir os longos cachos castanho-claros. Meu coração subiu pela garganta.
Jill.
Ficou claro que Rose estava esperando a hora certa para voltar, e uma mudança na postura de Sydney indicou que ela já tinha avistado as duas atrás do demônio. Sydney lançou uma bola de fogo sem mirar numa cabeça específica, mas o lance obrigou a criatura a recuar para o outro lado do corredor. Rose reconheceu a oportunidade e avançou correndo, quase arrastando Jill pelo caminho. Um conjunto de tentáculos encostou na perna de Rose e perdi o fôlego, mas logo uma rápida e bem lançada bola de fogo atingiu a quarta cabeça. A criatura soltou a perna de Rose e voltou a fúria contra Sydney, enquanto a guardiã levava Jill correndo até a escada.
Numa fração de segundo, Eddie e Neil chegaram ao lado delas, ajudando Rose a trazer Jill para cima. Meu estômago se contorceu ao ver Jill, e tive uma terrível sensação de déjà-vu, semelhante a quando havíamos finalmente encontrado Sydney nas profundezas do centro de reeducação. O estado de Jill era parecido: tinha perdido bastante peso e sua pele estava pálida, mesmo para os padrões Moroi. Usava pijamas sujos e surrados, sem dúvida a roupa que vestia quando foi sequestrada, e parecia que não a deixaram tomar banho ali. Suas pupilas estavam ligeiramente dilatadas, o que confirmava que tinham lhe dado algum tipo de droga que impedia que eu chegasse até ela através dos sonhos.
— Você está bem? — perguntei. Evoquei o espírito dentro de mim, preparado para fazer uma cura.
— N… não, não faz isso — ela avisou. Mesmo drogada, o laço ainda devia estar funcionando. Ou isso ou ela simplesmente me conhecia bem o bastante para adivinhar o que eu faria. Ela levou alguns segundos para formar o resto das palavras. — Eu… só estou fraca. Com fome. Me deram sangue de animal.
Meu estômago se revirou. Os Moroi podiam sobreviver à base de sangue animal, mas “sobreviver” era um eufemismo. Continuávamos vivos, mas perdíamos muita força e energia. Apareciam histórias de vez em quando sobre famílias Moroi que ficavam presas sem acesso a um fornecedor e precisavam se alimentar de sangue de animais. Saíam fracos e debilitados, gerando manchetes sensacionalistas nos jornais Moroi. Mal conseguia imaginar quão fraca Jill devia estar depois de um mês assim. Isso explicava por que ela mal conseguia ficar de pé.
No entanto, tinha o instinto de ajudá-la de qualquer jeito, de dar uma injeção de espírito nela.
— Não — ela disse, categórica, prevendo o que eu queria fazer de novo. — Só me levem para um fornecedor. E mandem alguém para os fundos do terreno. Tem um barracão lá com outra prisão subterrânea.
— Vou levar Jill para um fornecedor — disse Eddie, levando-a para cima. Rose ajudou, apoiando o outro lado de Jill.
— Vou procurar os outros prisioneiros Moroi — Neil disse, saindo na frente deles. Ele parou e olhou para Sydney. — A menos que precisem de mim?
Fiz que não.
— Tiro Sydney daqui. Vá ajudar os outros.
Os dampiros e Jill foram embora, me deixando sozinho para cuidar de Sydney. Aquele demônio-cobra só tinha uma cabeça agora, mas notei que havia fumaça no corredor. Uma das bolas de fogo dela devia ter encontrado uma porta de madeira para incendiar.
— A gente precisa sair daqui — gritei para ela. — Esse incêndio pode se espalhar. Jill está a salvo.
— Não vou deixar esse monstro à solta! — Sydney gritou. Uma bola de fogo bem lançada quase acertou a última cabeça, mas a criatura desviou no último segundo. O demônio urrou de fúria e um de seus tentáculos avançou mais rápido do que ela conseguiu prever, derrubando-a no chão. Com a mesma velocidade, a criatura correu até ela, com a última cabeça se preparando triunfante para cobrir Sydney de ácido.
Faz alguma coisa! Faz alguma coisa!, tia Tatiana gritou para mim.
Mas não havia nada para atirar telecineticamente, nenhuma planta para invocar, como Sonya poderia ter feito. Aquele era o mundo real, não um sonho. O espírito não era uma magia de combate, mas sabia que precisava agir naquela fração de segundo.
Sydney — meu coração, meu amor, minha esposa — estava perto da morte. Jogaria meu corpo na frente dela de bom grado, mas não havia tempo para isso. Tinha apenas um milésimo de segundo para decidir, então usei minha última cartada de espírito.
— Pare! — ordenei.
O espírito ardeu pelo meu corpo e enviei uma onda de compulsão ao demônio, tentando dominar sua vontade. Nunca tinha feito nada assim antes. Nem sabia se era possível. No entanto, a criatura chegou a parar, o que me fez pensar que ela era suficientemente racional para que pudesse ser controlada. Ênfase em “pudesse”. Porque, por mais que tivesse controlado a criatura por um momento, logo perdi o controle, e ela voltou a rosnar, pronta para atacar Sydney. Quanto maior a força de vontade, mais difícil era controlar alguém por compulsão. Os demônios deviam estar numa categoria completamente diferente, porque já estava com o espírito amplificado e mal surtia efeito.
Mais! Mais!, disse tia Tatiana.
Invoquei quantidades maiores de espírito, usando toda a minha energia, toda a minha força de vontade. Era mais do que tinha usado no sonho com Charlotte e Olive, quase tanto quanto usara para trazer Jill de volta à vida. O espírito me preencheu por completo, tornando-me maior do que nunca, quase um deus. Voltei esse poder contra o demônio, exercendo meu controle enquanto proferia os comandos:
— Solta Sydney! Vai pra trás!
O demônio obedeceu.
Seus tentáculos soltaram Sydney, que se arrastou para longe e levantou. O fogo surgiu em suas mãos e, com o demônio sob meu comando, virou um alvo fácil para ela. Quando destruiu a última cabeça, o resto do corpo se desintegrou numa fina nuvem de poeira preta. No entanto, o espírito continuou ardendo dentro de mim, me fazendo sentir radiante e invencível. Sydney correu até mim e chacoalhou meu braço.
— Adrian, chega — ela disse. — Acabou. Você conseguiu. Libere a magia!
Ninguém nunca possuiu um poder como esse, tia Tatiana disse. Consegue sentir? Não se sente vivo? Por que iria querer abandonar essa sensação?
Ela estava certa. Com aquele poder, poderia fazer coisas grandiosas. Strigoi, guerreiros e até mesmo demônios: nenhum inimigo teria chance. Não precisávamos de estacas de prata ou da vacina de Sonya. Eu era capaz de tudo. Poderia salvar nosso povo sozinho.
— Adrian! Adrian!
Por um momento, não sabia de quem era aquela voz. Estava perdido demais em meu poder, um poder que me consumia. Um rosto se moveu diante da minha visão enevoada, uma humana loira e de olhos castanhos. Mas não a reconheci.
— Adrian! — ela gritou de novo. — Chega. Por favor. Libere a magia… por mim.
Por mim, ela tinha dito.
Mas quem era ela? Então finalmente o êxtase do espírito diminuiu o bastante para que a reconhecesse. Sydney. Sydney, minha esposa. Era ela que me encarava, completamente aterrorizada.
Ignore a menina, disse tia Tatiana. Esta é a magia que você nasceu para praticar!
Sydney apertou minha mão.
— Adrian, por favor. Libere a magia.
Conseguia sentir o espírito obscurecer minha mente de novo, apagando Sydney, destruindo o meu raciocínio como tinha feito com Charlotte. Queria soltar, mas era difícil quando tinha uma sensação tão gloriosa e inebriante.
Você é um deus, tia Tatiana falou. Estou muito orgulhosa de você.
— Adrian — Sydney disse. — Eu te amo.
Aquelas palavras e aquela voz tiveram mais poder sobre mim do que fantasma nenhum poderia ter. E assim, pouco antes de o espírito apagar Sydney por completo, soltei a magia.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)