23 de outubro de 2017

Capítulo 18

Adrian

POR UM MOMENTO, fiquei ainda mais apaixonado por ela. Era impossível não admirar uma mulher que havia acabado de sair de condições terríveis e assustadoras e usado magia sem pestanejar, isso sem falar de como se mantivera forte diante de seus torturadores. Outra pessoa poderia ter chorado e falado sobre todos os seus sofrimentos. Mas não Sydney. Ela não só estava pronta para agir como estava pronta para contestar planos seguros, bem pensados e executados com cuidado.
Era admirável. E também fora de cogitação.
— Sydney, não. Marcus tem tudo sob controle. O que acabamos de fazer, o planejamento que aquilo envolveu... Eddie e eu ajudamos, mas a maioria do trabalho ficou por conta de Marcus. Foi tudo ideia dele. Ele pesquisou sobre esse lugar onde a gente vai se encontrar. É um abrigo seguro até ele arranjar um jeito de esconder todos pelo mundo. — Como ela ainda parecia obstinada, acrescentei: — É isso que ele faz. Ele esconde pessoas. Ele se esconde! Sabe o que está fazendo.
— Ele esconde algumas pessoas de cada vez, Adrian — ela disse, com calma. — Nunca mais de dez ao mesmo tempo. Não vai ser fácil e ele vai precisar de um tempo até dividir todo mundo. As pessoas que acabaram de sair da solitária não podem ficar sozinhas! Elas precisam de orientação, não só de um lugar pra se esconder. Ele é perfeito pra elas, mas eu sou um risco.
Do outro lado do estacionamento, vi o Prius sair. Eu sabia onde era o ponto de encontro, mas precisávamos ir atrás logo.
— Sydney, você é o principal motivo de ele ter preparado toda essa operação e resgatado todo mundo.
— E agora vou colocar todo mundo em risco. — Ela olhou para mim, com os olhos castanhos muito sérios sob a luz do poente. — Adrian, você ouviu o que Sheridan disse. Sou o alvo deles agora. Se os alquimistas tiverem a menor suspeita do meu paradeiro, vão lançar tudo que têm contra mim... e contra os outros, se eu estiver com eles. É mais seguro pra eles se nós dois formos embora sozinhos. E também vai ser mais fácil pra nós desaparecer sozinhos.
Esse era um argumento convincente, muito mais do que a segurança dos outros. Não que eu fosse um cretino sem coração que não se importava com eles — é claro que me importava. Odiava que tivessem passado por aquilo. Mas minha maior prioridade sempre fora Sydney, e realmente seria mais fácil para duas pessoas desaparecerem do que vinte. A questão era: ter um bom plano compensava os números? Porque, naquele momento, um plano era a única coisa que nos faltava.
— Aonde sugere que a gente vá? — perguntei finalmente.
— Não sei — ela admitiu. — Primeiro precisamos nos distanciar desse lugar dos infernos. Não sei ainda se é mais seguro ficar nos Estados Unidos ou não. Não estou dizendo que nunca mais vamos pedir a ajuda de Marcus. É bem possível que a gente precise dele. Mas se nos separarmos, os alquimistas podem nos perseguir em vez de perseguir os outros.
— É isso que você quer? — perguntei, surpreso.
— Não, claro que não. Não quero que eles sigam nenhum de nós. Mas se seguirem, acho que seria mais fácil pra gente despistar os alquimistas do que pra eles. — Ela franziu a testa, pensativa. — Certo, pegue a estrada e me deixe ver seu celular. — Entreguei o celular pra ela e entrei na pista, mais do que contente de ir embora daquele lugar. — Pra onde ele está levando os outros? — ela perguntou.
— Pro sul. Em direção ao México, mas planejamos nos encontrar de novo a uma hora do Vale da Morte. Ele não sabe se vai atravessar a fronteira ou não, mas tem um lugar lá perto que vai usar como esconderijo temporário.
Ela assentiu e viu algumas coisas no celular antes de abaixar o aparelho.
— Certo, então vamos para o norte. Nordeste, na verdade. — Eu não conseguia olhar para ela sem tirar os olhos da estrada, mas podia ouvir o sorriso em sua voz. — Você ainda é bom em pôquer?
— Por quê? Finalmente vai jogar strip pôquer comigo? Cansei de te pedir.
— Não. Ainda não. Mas vamos precisar de dinheiro e Nevada está perto. Aposto que vai ter cassinos assim que a gente cruzar a fronteira.
— Tem sim — eu disse. — Passei por lá duas vezes essa semana. Mas não tenho muito pra oferecer como aposta. Se quiser uma fortuna da noite pro dia, não tenho como ajudar.
— Um quarto de hotel, comida e roupas novas já são suficientes.
— Isso eu consigo. Mas... — Olhei de soslaio para ela. — Achei que você não aprovasse que eu usasse espírito pra jogar baralho. — Claro, eu não conseguia ler a mente das pessoas, mas ver as auras era quase a mesma coisa. Sempre sabia quem estava blefando e quem estava falando a verdade.
Ela suspirou e se recostou no banco.
— E não aprovo. Não aprovo você usando espírito pra nada. Mas estamos em circunstâncias fora do comum. Talvez, quando tudo isso acabar, e estivermos seguros, você possa voltar com a medicação.
— Você não estaria comigo se eu ainda estivesse tomando os remédios — eu disse, baixinho.
— Eu sei... e você sabe como estou grata. Mas a gente pode lidar com a questão do espírito depois...
— Agora temos problemas maiores? — completei.
— Pra mim nada é maior do que você — ela disse com firmeza. — Como está se sentindo? No sonho disse que parou com os remédios assim que me levaram. Foi difícil? Você parece bem, parece que está controlando as mudanças de humor.
Havia um tom de esperança em sua voz e não consegui dizer que o motivo de minhas mudanças de humor estarem sob controle era que haviam sido substituídas pela ilusão da minha tia morta.
— Estou inteiro, não estou? — eu disse, não muito sincero. — Não tente mudar de assunto. Você passou por um inferno muito pior do que o meu.
— A gente não precisa falar disso agora — ela disse.
Ficamos em silêncio, ambos guardando segredo do que havíamos sofrido na ausência um do outro. Me perguntei se estávamos tentando proteger um ao outro ou se simplesmente não queríamos admitir nossos medos e fraquezas. Não que eu achasse que Sydney tinha alguma fraqueza. Mas vira sua aura no centro de reeducação, quando ela estava perto dos outros alquimistas, e definitivamente havia um ar de medo em volta dela e dos outros detentos. Sabia que ela devia ver esse medo como uma fraqueza.
— Bom — eu disse, tentando reanimá-la. — Pelo menos abra seus presentes.
— Você me comprou um presente de “parabéns por sair da reeducação”? — ela perguntou.
— Não exatamente. Dá uma olhada naquela sacola ali.
Ela pegou a sacola e soltou uma exclamação de surpresa ao abri-la.
— Meu Deus! Se tivesse esses amuletos na reeducação teria sido muito mais fácil... Pulinho!
Pelo canto do olho, a vi erguer o dragãozinho dourado. Quando ela voltou a falar, achei que pudesse começar a chorar.
— Ai, Pulinho. Pensei muito nele, sabe. Fiquei me perguntando o que tinha acontecido e o que ele devia estar passando... — Ela começou a recitar as palavras de um feitiço mas então parou. — Ele vai estar com fome. Vamos esperar até pegarmos um pouco de comida de verdade. Seria bom pra mim também.
— Isso consigo pagar antes do pôquer — eu disse. — Do que você está a fim? Filé? Sushi? É só dizer que será seu.
Ela riu.
— Nada tão chique pra mim. Nem acho que meu estômago aguentaria depois... — Seu sorriso se desfez.
— Depois do quê? — perguntei baixinho.
— Outra hora — ela disse. — Outra hora a gente conversa sobre isso.
Suspirei.
— É o que você sempre diz. Quando vai chegar essa outra hora?
— Quando estivermos a mais do que alguns minutos dos alquimistas — ela retrucou. — Precisamos nos concentrar na fuga.
Ela tinha razão, mas eu não gostava disso. Pelo contrário, ao longo do trajeto, fui ficando cada vez mais perturbado, sem saber exatamente o que ela havia sofrido. Ela tinha dito que me amava e que sentira a minha falta e que nada a fazia mais feliz do que estar comigo de novo. Eu acreditava nisso, mas não conseguia esquecer o passado tão rapidamente.
Tia Tatiana sussurrou: Tem certeza? Talvez você não queira saber o que aconteceu com ela. Viu como eram as coisas lá dentro. Quer a confirmação das torturas que ela sofreu?
Se Sydney foi capaz de viver aquilo na pele, então consigo pelo menos ouvir como foi, respondi em silêncio. No entanto... me perguntei se minha tia fantasma tinha razão.
Entramos em Nevada cerca de uma hora e meia depois, sem sinal de perseguição. No entanto, assim que paramos em um pequeno hotel ao lado de um cassino, recebemos uma ligação de Marcus.
— Vocês se perderam? — Marcus perguntou. Ele não parecia bravo, mas algo em sua voz deixava claro que sabia perfeitamente que não tínhamos nos perdido.
— A gente fez um desvio — eu disse alegremente.
Ele resmungou.
— Adrian, a gente conversou sobre isso! Tudo correu perfeitamente até agora. Por que vocês desviaram do plano?
— Hum, porque é o que a gente sempre faz?
Sydney tirou o celular da minha mão antes que eu desse alguma explicação mais razoável. Ela usou os mesmos argumentos que tinha usado comigo, mas Marcus não foi afetado por seus lindos olhos como eu. Estava claro que não tinha se convencido ao fim da ligação, e Sydney desligou com um vago:
— Depois a gente conversa com ele.
Me ofereci para pagar o jantar, mas ela não queria nem ir à recepção do hotel com aquelas roupas cáqui, muito menos comer em público. Fiz o registro de entrada no hotel e descobri que só tinha dinheiro suficiente para uma suíte pequena. Não era nada glamorosa — obviamente nada tão chique quanto a pousada em que tínhamos ficado quando nevou na Pensilvânia —, mas o banheiro era maior do que os quartos normais do hotel. Eu podia não saber todos os detalhes do que ela havia sofrido, mas sabia o bastante para achar que merecia algo melhor.
A cara que ela fez ao sentar na cama confirmou isso. Era uma cama normal, mas ela deu um suspiro de prazer como se fosse feita de penas de asas de anjos. Ela se deitou no colchão e fechou os olhos.
— Isso... é... maravilhoso — ela disse. Deitei ao seu lado e senti meu peito inchar de alegria. Houve um tempo em que achava que só havia uma atividade que poderia querer na cama com ela. Mas, agora, não havia prazer maior do que simplesmente olhar para ela e ver que estava contente e segura ao alcance dos meus braços. Depois de tanto tempo separados, sua simples presença era um milagre.
— Tem um shopping do outro lado da rua — eu disse. — Vou lá comprar umas coisas pra gente... a menos que queira ir comigo? Fico preocupado de deixar você sozinha...
Ela balançou a cabeça.
— Vou ficar bem. Além disso, tem um amuleto na sacola da sra. Terwilliger capaz de abrir um buraco naquela parede. Só volte logo.
Era a minha intenção. Atravessei a rua correndo, só percebendo no meio do caminho que estava violando regras básicas de segurança Moroi saindo sozinho à noite numa área desconhecida. Éramos ensinados desde criança que ficar sozinho à noite em áreas conhecidas já era perigoso. Nunca teria imaginado que chegaria a um ponto da vida em que os Strigoi não fossem minha maior preocupação quando o assunto era segurança pessoal.
Já tinha tirado a roupa de Sydney tantas vezes que sabia seu tamanho de cor, e comprei algumas roupas básicas e cosméticos. Num mercadinho ao lado, escolhi uns sanduíches de peru e vários lanchinhos, torcendo para que fossem leves o bastante depois do que o estômago dela havia sofrido. Parei por aí, já que ainda precisava de dinheiro para as fichas de pôquer.
Todo o trajeto durou uns vinte minutos, mas, quando voltei para o hotel, Sydney não estava na sala nem no quarto da suíte. Meu coração parou. Me senti como um personagem de conto de fadas que acabava de acordar e descobrir que tudo que pensava ter conquistado não passava de um sonho que se desfazia diante dos seus olhos.
Então notei que a porta do banheiro não estava bem fechada e que a luz estava acesa.
Hesitei do lado de fora.
— Sydney?
— Pode entrar — ela disse.
Abri a porta e quase fui nocauteado pelo cheiro nauseante de jasmim. Sydney estava na banheira, com bolhas quase até o pescoço, e o banheiro parecia uma sauna.
— Tem certeza de que a água está quente? — perguntei, vendo o vapor pairando no ar.
Ela riu.
— Mais quente impossível. Você não imagina quanto tempo faz desde que me sinto quente de verdade. — Seu braço fino saiu da água e pegou uma pequena garrafa plástica com o logo do hotel. — Ou que sinto um cheiro... bom. Era tudo tão estéril na reeducação, quase como um hospital. Perdi um pouco a noção e joguei o frasco todo.
— A gente manda trazer mais um se você gostou tanto. — Peguei o frasco e li o rótulo. Era só um gel de banho comum. — Ou compramos um perfume de jasmim de verdade depois que eu ganhar no pôquer.
— Você não entende — ela disse, voltando a se afundar nas bolhas de sabão. — Depois do que sofri... isso já é luxo. Não preciso de nada mais caro.
— Talvez a gente possa conversar sobre o que você sofreu — sugeri. — Você pode me ajudar a entender.
— Outra hora — ela disse, evasiva. — Prefiro comer alguma coisa, se você tiver trazido.
— E deixar seu caldeirão fervente?
— Vou ter outros banhos — ela disse, simplesmente. — E já consegui depilar as pernas, o que era parte do meu objetivo. Quatro meses. Eca.
Então ela levantou de repente, me deliciando com uma visão de seu corpo nu, exceto por algumas bolhas de sabão e um pouco de espuma. Aqueceu meu coração — e meu sangue — saber que as coisas não haviam mudado a ponto de ela ficar com vergonha perto de mim. Mas precisei me esforçar para não demonstrar surpresa. Tinha notado que ela perdera peso quando a tiramos do centro, mas não quanto. Quase podia contar suas costelas, e mesmo ela, com seu histórico de controle de peso obsessivo, devia saber que havia ultrapassado os limites do que era saudável.
— Não era o que você esperava, né? — ela perguntou, com a voz triste.
Coloquei uma toalha ao seu redor e a puxei para perto de mim.
— Eu esperava ver a mulher mais linda do mundo, sentir meu coração bater mais forte diante dela e querer levá-la pra cama para uma noite inesquecível. Então, pra responder a sua pergunta, sim, é exatamente o que eu esperava.
Um sorriso se abriu em seus lábios e ela me abraçou.
— Ai, Adrian.
Na sala, mostrei minhas compras e ela riu enquanto as examinava, parando ao pegar uma camiseta magenta.
— Já me viu usando essa cor alguma vez na vida?
— Não — respondi. — E já passou da hora, ainda mais depois daquilo ali. — Apontei para o uniforme cáqui no chão. — Que a gente vai queimar, aliás.
Sydney riu de novo, e era o som mais maravilhoso que eu já tinha ouvido. Ela pegou a camiseta magenta e um short branco.
— Você é incrível — ela disse.
No entanto, quando nos sentamos para jantar, descobri que eu não era o único no seu coração. Ela invocou Pulinho de seu estado inerte e lágrimas caíram de seus olhos quando ele se transformou de uma estátua dura e cintilante em um bichinho fraco de escamas apagadas que estava quase tão esquelético quanto ela. Ela o embalou perto do peito, dizendo o tipo de coisa que as pessoas dizem para consolar animais de estimação e crianças pequenas. Disse várias e várias vezes que tudo ficaria bem agora, e me perguntei se estava falando aquilo para ele ou para si mesma. Ela ficava dando pedacinhos do seu sanduíche de peru para ele e já estava na metade quando finalmente percebi o que estava acontecendo.
— Ei, ei — eu disse. — Guarde um pouco para você.
— Ele está morrendo de fome — ela disse. — Não consegue nem pedir comida com aquele gritinho que costumava dar.
— E essa camiseta PP está grande em você. Termine seu sanduíche e ele pode ficar com os meus farelos.
Relutante, ela o entregou para mim e Pulinho me olhou feio por privá-lo da atenção dela. Eu também adorava aquele bicho, mas a saúde de Sydney era mais importante. Ela comeu o resto do sanduíche sob meu olhar atento mas não tocou em nenhum dos doces que eu havia trazido, por mais que eu insistisse. Gostaria que tivesse comido todos, mas achei melhor não comentar o quanto ela precisava de açúcar e gordura.
Pulinho dormiu logo em seguida e achei que Sydney dormiria também. Em vez disso, ela me chamou para o quarto e me levou para a cama.
— Tem certeza de que não quer descansar? — perguntei.
Ela pôs os braços em volta do meu pescoço.
— Preciso de você.
Nossos lábios se encontraram no primeiro beijo de verdade desde que ela fora levada embora. Meu sangue ardia, me lembrando de como a saudade havia sido agonizante. O que eu tinha dito era verdade: a magreza dela não importava. Ela ainda era a mulher mais linda do mundo para mim e não havia ninguém que eu desejasse mais. Além disso, não havia ninguém em cuja presença eu parecia mais certo. Mesmo no meio da nossa fuga do Vale da Morte e naquelas condições incertas, eu tinha certeza de que, simplesmente por estar com ela, nada era impossível.
Desci a boca para beijar seu pescoço e retirei mentalmente o que havia dito sobre aquele gel de banho ser barato. O aroma de jasmim misturado ao seu cheiro natural era inebriante, muito melhor do que qualquer perfume que eu pudesse ter comprado. Suas pernas eram como seda sob meu toque, e fiquei espantado com a rapidez com que meu desejo cresceu, e ainda mais espantado quando o mesmo aconteceu com ela. Fiquei com medo de que fosse cedo demais, mas, quando tentei dissuadi-la de novo, ela me puxou mais pra perto.
— Você não entende — ela murmurou, passando a mão no meu cabelo. — Não entende o quanto preciso disso, o quanto preciso de você, de lembrar que estou viva e apaixonada. Eles tentam tirar tudo da gente naquele lugar, mas eu nunca esqueci. Nunca esqueci de você, Adrian, e agora que estamos aqui, eu...
Ela não conseguiu terminar a frase, mas não precisava. Eu sabia exatamente o que ela queria dizer. Voltamos a nos beijar, o tipo de beijo que nos ligava um ao outro de uma maneira que era muito mais do que física. Eu estava tentando tirar sua camiseta quando ela parou de repente e perguntou, sem fôlego:
— Você comprou aquilo na loja, certo?
Meu cérebro estava aturdido demais de desejo para entender o que ela estava perguntando.
— Hum? Comprei um monte de coisa.
— Camisinha — ela disse, enfática. — Não tinha uma farmácia do outro lado da rua? Devia ter mais opções do que na outra loja.
— Ah... Isso. Hum, não, não comprei. Esqueci.
Antes de ser levada, Sydney estava tomando pílula e eu nunca precisava pensar em anticoncepcionais. Acho que ela preferia assim, uma vez que não confiava em mais ninguém para cuidar de algo tão importante. Suspirei.
— Não ganho pontos por ficar mais preocupado em te alimentar e te vestir com roupas coloridas do que em te levar pra cama?
Ela me deu um selinho e sorriu.
— Ganha muitos pontos. Mas, infelizmente, não ganha isso.
Me aproximei dela e afastei os fios dourados de cabelo dos seus olhos.
— Faz alguma ideia de como estou dividido agora? Quero dizer, é óbvio que estou decepcionado... mas, ao mesmo tempo, estou ainda mais apaixonado por você por continuar sendo tão meticulosa e cuidadosa, apesar de tudo que aconteceu.
— Jura? — Ela se virou para que eu pudesse pousar a cabeça no seu peito. — Você me ama pela minha natureza meticulosa e cuidadosa?
— Tem coisas demais pra amar em você, Sage. É difícil enumerar.
Por mais frustrante que fosse ter a consumação física negada inesperadamente, eu ainda estava mergulhado naquela sensação de felicidade por estar perto dela. Queria sexo? Claro, mas era ela o que eu mais queria — sua presença, seu riso, seu espírito. Meus hormônios logo se acalmaram e encontrei êxtase mais do que suficiente só de estar deitado em seus braços. E, quando ela pegou no sono pouco depois, pensei que talvez fosse melhor ter esquecido de passar na farmácia, apesar do que ela tinha dito. Recuperar a saúde dela era o mais importante agora, e eu tinha quase certeza de que repouso e doces eram a melhor maneira de fazer isso.
Já eu estava inquieto. Em parte por causa da agitação do dia e de estar com ela. Em parte porque ainda era muito cedo em relação à hora em que costumava ir dormir. Estava adorando ficar abraçado com ela, mas, depois de um tempo, saí da cama com cuidado e puxei as cobertas sobre ela. Fiquei contemplando seu rosto por alguns segundos antes de apagar a luz e ir para a sala sem fazer barulho, tomando cuidado ao fechar a porta do quarto para não perturbar seu sono.
Me sentei no sofá com um chocolate, e fiquei assistindo à TV no volume mais baixo, precisando acalmar minha mente agitada. Sabia que Sydney teria vários planos e deduções melhores do que os meus, mas era difícil não pensar no futuro. Para onde poderíamos ir? Será que existia algum lugar seguro? E, fosse com Marcus ou só nós dois, o que exatamente faríamos da nossa vida? Tínhamos gastado tanta energia só para ficar juntos, o que por si só já tinha sido uma tarefa monumental, que mal tivemos tempo para parar e discutir o que faríamos depois. Um dos nossos planos de fuga mirabolantes? Uma faculdade para ela? Uma vida obscura no meio do nada? Lutar pela liberdade dos Moroi e dos ex-alquimistas?
Vocês não vão ter paz, tia Tatiana murmurou, em um dos seus humores mais sombrios. Você e sua humana não vão ter paz. Isso foi um erro.
Não, eu respondi. A gente vai dar um jeito. A gente precisa dar um jeito.
Que jeito?, ela perguntou.
Depois de ficar olhando para a TV por mais uma hora, não cheguei a nenhuma conclusão e estava considerando ir para a cama quando ouvi gritos no quarto. Como um raio, pulei do sofá e corri para lá. Escancarei a porta e acendi a luz, reunindo o poder do espírito para atacar o grupo de alquimistas que esperava ver entrando pela janela. Mas não havia ninguém — apenas Sydney, sentada na cama, dando gritos que cortavam a noite. Soltei o espírito e corri até ela, puxando-a para perto de mim. Para o meu espanto, ela me atacou.
— Não! Não! Não toque em mim!
— Sydney, sou eu — eu disse, tentando segurar suas mãos antes que ela me machucasse de verdade. Mesmo semiadormecida, ela parecia lembrar das aulas do nosso antigo instrutor de defesa pessoal, Malachi Wolfe. — Está tudo bem. Você está bem. Está tudo certo.
Ela se debateu mais um pouco e, sob a luz fraca, pude ver seu olhar febril e aterrorizado.
Por fim, ela parou de me bater e seu rosto se iluminou ao reconhecer o meu. Ela afundou a cabeça em meu peito e começou a chorar — não as lágrimas doces que caíram no reencontro com Eddie ou as de compaixão pelo triste estado do Pulinho. Era um choro soluçado que fazia seu corpo todo tremer e a impedia de falar por mais que eu tentasse consolá-la ou perguntar qual era o problema. Não havia nada que pudesse fazer além de segurá-la e acariciar seu cabelo, esperando que ela se acalmasse. Mesmo quando ficou mais calma, soluços irregulares ainda interrompiam sua fala.
— Eu... eu achei que estava lá de novo, Adrian. Na reeducação. Quando acordei. Era tão escuro lá... quero dizer, até ir pra junto dos outros. Mas, quando estava na cela, não tinha luz. Eles me mantinham literalmente no escuro. Doeu quando eu saí... olhar para a luz. Três meses, Adrian. Fiquei três meses numa cela menor do que o banheiro daqui, no escuro. Achei que aguentaria... achei que era mais forte do que isso... mas, quando acordei e você não estava aqui, e eu não conseguia ver nada...
Ela irrompeu em lágrimas novamente e me esforcei para dominar meus sentimentos. Estava triste por ela, óbvio. Triste por ela ter sofrido tanto. Mas, ao mesmo tempo, sentia raiva, tanta raiva que, se soubesse tudo pelo que ela havia passado no centro de reeducação, teria ajudado Chantal a atacar Sheridan em vez de impedi-la. Eu não costumava recorrer à violência nem sentir tanto ódio, mas uma fúria ardeu dentro de mim ao saber que os alquimistas tinham sido capazes de fazer aquilo com uma pessoa tão brilhante e inteligente, que trabalhara lealmente para eles e teria continuado o serviço se eles lhe tivessem permitido seguir seu coração. Eles tinham tentado destruir a minha garota, não apenas seus pensamentos, mas a sua personalidade.
Igualmente terrível era saber que aquilo poderia não ter chegado ao fim, que tirá-la daquele lugar poderia não ter sido o suficiente. Que tipo de sequelas eles podiam ter deixado nela? Será que aquilo nos assombraria pelo resto da vida, mesmo se ela continuasse livre? As implicações eram monstruosas e, naquele momento, odiei os alquimistas mais do que havia odiado qualquer pessoa.
Eles precisam ser destruídos!, tia Tatiana disse. Vamos atrás deles. Vamos arrancar seus braços e suas pernas.
— Você não está mais lá — eu disse para Sydney, e a abracei com força. — Está comigo e não vou deixar nada acontecer com você, nunca mais.
Ela se segurou a mim e balbuciou:
— Não quero dormir com a luz apagada.
— Você nunca mais precisa dormir no escuro — prometi.
Continuei na cama com ela dessa vez, com as luzes acesas, como prometido. Ela demorou um pouco mais para se acalmar e pegar no sono, mas quando dormiu, teve um sono pesado e merecido. O meu não foi tão profundo, tanto por causa das luzes como porque ficava acordando toda hora para ver se ela estava bem. No entanto, o desconforto valia a pena para ter certeza de que ela estava segura.
Ela acordou alerta e revigorada, como se a crise da noite anterior nem tivesse acontecido. O melhor foi que estava com apetite.
— Não sei o que pedir — ela disse, passando os olhos pelo cardápio do serviço de quarto com Pulinho no colo. — Obviamente vou querer café... você não faz ideia de como quero café... mas estou dividida entre essa omelete com bacon e as panquecas de mirtilo.
Me aproximei para dar um beijo em sua testa.
— Peça os dois.
— Como a gente está de dinheiro? — ela perguntou, desconfiada.
— Prestes a ficar ricos. Vou descer pro cassino. Quer vir comigo e ser meu amuleto da sorte?
Ela balançou a cabeça.
— Prefiro ficar aqui e comer. Quer alguma coisa?
— Vão me dar café lá embaixo. É tudo de que preciso por enquanto.
Um pouco de sangue também seria bom, o que era outro problema que não tínhamos levado em consideração quando fugimos sozinhos. Como muitas outras questões, porém, isso ficou para depois. Eu ainda não estava desesperado, mas precisaria cuidar disso em algum momento.
Depois da noite anterior, pensei que Sydney teria medo de ficar sozinha, mas ela estava destemida com a luz do sol e a sacola de Jackie. Tomamos banho juntos — o que foi uma delícia mas também um suplício — e ela me mandou descer quando seu café da manhã gigante chegou.
— Não dê tudo pro Pulinho — avisei.
Ela sorriu e me deu tchau.
No cassino, as coisas estavam mais calmas do que estariam à noite, mas mesmo assim o lugar estava agitado. Essa era a beleza de Nevada. Qualquer que fosse a hora do dia, as pessoas sempre queriam arriscar a sorte. Encontrei uma mesa com quatro jogadores de auras fáceis de ler e pus a mão na massa. Embora tivesse uma vantagem considerável, não podia abusar dela para não chamar a atenção dos gerentes do cassino. Por isso, tomei cuidado para perder de vez em quando, a fim de não levantar suspeitas. Também me ofereci para comprar uma rodada matinal de Bloody Mary, que ajudou a melhorar minha reputação e piorar as jogadas dos outros.
Eu não estava nem perto de ter uma fortuna nas mãos, mas, depois de algumas horas, havia acumulado uma quantia razoável para levar para Sydney. Planejei jogar mais algumas rodadas e, antes de apostar, dei uma olhada rápida nas auras dos jogadores. Então uma coisa chamou a minha atenção. Na verdade, já tinha chamado minha atenção, mas eu não havia pensado muito a respeito. Ao usar o espírito para ver a aura dos meus rivais, sem querer eu via as auras de todas as pessoas ao meu redor. Para o meu espanto, havia muitas pessoas com amarelo em suas auras. Amarelo e laranja, que eu também estava vendo muito, eram as cores das auras de pensadores, de estudiosos. A aura de Sydney tinha muito de amarelo. Não era algo que se costumava ver em jogadores inveterados, muito menos àquela hora do dia. As pessoas que só apostavam para se divertir vinham à noite, não de manhãzinha. Esse era o grupo da pesada, o grupo dos desesperados... mas suas auras não refletiam isso.
Fiquei pensando a respeito enquanto fazia a aposta e mostrava as minhas cartas. Acabei dividindo a bolada com o rapaz ao meu lado, para alegria dele. Na rodada seguinte, examinei as auras ao redor novamente e fiquei mais uma vez surpreso pela quantidade de amarelo. Também notei outra coisa. Ninguém com a aura amarela estava olhando diretamente para mim, mas todos estavam posicionados ao meu redor de maneira mais ou menos simétrica no salão.
Só ao meu redor. Ao olhar para além deles, as cores dos outros jogadores voltavam a ser o que eu esperaria de pessoas num cassino.
Amarelo. A cor dos pensadores.
A cor dos alquimistas.
Na rodada seguinte, tirei o celular do bolso, desejando ter comprado um pré-pago para Sydney. Essa seria nossa próxima prioridade. Tentando não parecer em pânico, digitei uma mensagem para Marcus.
Ligue para o hotel Primaveras de Prata no oeste de Nevada e peça o quarto 301. Fala pra Sydney arrumar as malas agora e me encontrar no carro.
Estava prestes a apertar “enviar” quando uma explosão do lado de fora sacudiu o cassino.
As pessoas gritaram e copos tilintaram.
— Deixa pra lá — murmurei, deletando a mensagem e seguindo para a porta.

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