19 de outubro de 2017

Capítulo 18

Sydney

DEMOROU DOIS DIAS para que as estradas ficassem limpas e arrumassem nosso carro. Tanto os alquimistas quanto os Moroi falaram para não nos preocuparmos com o carro alugado e que pagariam outro, já que não poderíamos esperar o tempo do conserto. Eu disse que não me sentiria bem largando aquele carro — afinal, era minha culpa ele estar destroçado — e, assim, consegui atrasar nossa estadia enquanto a oficina arrumava todos os vários veículos que havia recuperado naquela noite. Fomos convidados a voltar para a corte, mas também recusei, falando para os alquimistas que me sentiria melhor numa estalagem administrada por humanos. Naturalmente, eles me apoiaram.
Esses dois dias passaram como um sonho. Foi como uma lua de mel para mim e Adrian. Víamos Neil no café da manhã, mas no resto do tempo ele ficava no quarto, nos deixando com nossas atividades.
Nem tudo era sexo. Mas a maior parte era.
Adrian brincou que eu estava compensando o tempo perdido. Talvez estivesse, mas não achava que era porque, para ser sincera, não conseguia imaginar ter perdido a virgindade com qualquer pessoa além dele. Não havia o que compensar. Também não conseguia entender como transas de uma noite só ou qualquer forma de sexo sem sentimento funcionavam. Conhecia gente que sempre fazia essas coisas, mas parecia um desperdício para mim. Com Adrian, cada toque… cada ato entre nós… enfim, tudo era enaltecido pelo nosso amor. Como as pessoas faziam sexo sem isso? Era uma dúvida que eu não tinha vontade de responder.
Mesmo quando não estávamos transando, passávamos bastante tempo na cama. Eu lia ou trabalhava no laptop. Ele assistia TV ou dormia. Ele disse que eu era exaustiva, embora nunca ficasse sem energia durante o ato. Na verdade, eu achava o sexo revigorante. Ficava elétrica depois. Queria fazer centenas de projetos. Sentia muita fome.
No entanto, finalmente nos chamaram à realidade e tivemos de voltar para Palm Springs e nossas responsabilidades. Muita gente precisava de nós. Ao contrário do voo cheio de tensão para a Pensilvânia, nossa viagem de volta foi repleta de contentamento. Seis horas de puro êxtase. Adrian e eu nos sentamos um ao lado do outro, inflamados pela conexão entre nós e, mesmo querendo nos tocar, não era necessário.
Quando descemos no aeroporto de Palm Springs, fomos atingidos pelo ar quente do deserto, confirmando de uma vez por todas que nosso paraíso de inverno havia chegado ao fim. E, em poucas horas, me vi retomando meu velho papel. Eu não era mais a heroína perdida nos braços do amante em meio à nevasca. Era Sydney Sage, alquimista vigilante, e estava de volta ao trabalho.
Adrian foi para casa descobrir o que tinha perdido em Carlton, enquanto Neil e eu voltamos a Amberwood. Neil ficou em silêncio no táxi e finalmente pude dar atenção plena a ele. Durante nosso interlúdio na neve, tinha ficado tão distraída com Adrian que havia considerado a solidão de Neil mero traço de personalidade. Agora podia ver que alguma coisa o perturbava.
— Está tudo bem?
Ele desviou o olhar da janela.
— Sim, só estou com muita coisa na cabeça.
— Olive?
— Às vezes. — Ele começou a sorrir e então parou. — Entre outras coisas.
Um pensamento apavorante passou pela minha cabeça.
— Você está se sentindo bem? Está tendo algum efeito colateral?
— Não. Só estou com muita coisa na cabeça. — Dessa vez ele sorriu. — Não se preocupe. Você já tem coisa demais com que lidar.
Por um momento, pensei que ele sabia a respeito de Adrian. Será que era por isso que estava tão pensativo? Não sabia o que fazer em relação a nós? Mas não, era egoísmo da minha parte pensar isso. Minha escapada romântica com Adrian havia sido a coisa mais importante da minha vida, mas Neil mal havia notado que estávamos no mesmo hotel que ele. Ele tinha suas próprias preocupações. Depois de tudo por que havia passado, era compreensível.
O táxi parou no alojamento masculino primeiro e ele começou a sair do carro.
— Sydney… — hesitou. — Sei que ainda precisa ficar a par de como estão as coisas por aqui, mas eu queria conversar a sós com você, se for possível. Não precisa ser hoje. Mas em breve.
— Claro — eu disse. — A gente dá um jeito.
Só no caminho para o alojamento me dei conta de que era bem possível que ele quisesse conversar sobre como eu havia criado uma chama no meio da nevasca. Mesmo enquanto fazia aquilo, sabia que era imprudente e perigoso, mas meu bom senso havia perdido a força diante da perspectiva de morrer de frio.
— Sydney!
Zoe correu para os meus braços quando entrei no quarto. Por um momento, fiquei com medo de que houvesse alguma coisa errada, mas então percebi que o rosto dela estava radiante.
— Correu tudo bem enquanto você estava fora! Quer dizer, fiquei com saudade, mas não tivemos nenhum problema. Tomei conta de tudo pro fornecimento na casa de Clarence e Eddie até me deixou dirigir. Tipo, não só em estacionamentos.
Eu tinha começado a abrir minha mala e deixei a tampa cair de novo.
— Ele deixou o quê?
— Só em ruas pequenas entre a estrada e o terreno de Clarence, então não teve problema.
— A polícia pode estar em qualquer lugar — protestei. — Acidentes acontecem em qualquer lugar. — E eu não sabia?
— Correu tudo bem — ela disse. — Ele falou que fiz um ótimo trabalho. Que dirijo como uma profissional.
Talvez eu devesse ficar contente porque ela estava agindo de maneira amigável em relação a um dampiro, mas não consegui.
— Não acredito que Eddie faria uma coisa dessas. É muito irresponsável.
Ela assentiu.
— Ele disse que você falaria isso e mandou dizer que pelo menos não foi a Angeline. Não consegui conter o riso.
— É verdade. Ele tem limites.
Ao me ver relaxar, ela voltou a ficar animada.
— Por falar em Angeline… acredita que ela nunca tinha tomado sorvete de noz-pecã? Mostrei pra eles o lugar aonde fui com você e foi superengraçado. Todo mundo ficou tentando não encarar, mas era impossível porque ela estava com os olhos arregalados. Tomou três potes e aposto que teria tomado mais um se não tivéssemos que voltar por causa do toque de recolher.
Fiquei encantada ao ver os olhos cintilantes de Zoe e ouvi-la falando de seu passeio com Jill e os dampiros como se fossem amigos humanos.
— Desculpe — Zoe disse, entendendo mal meu silêncio. — Nem deixei você falar. Como foi lá? Aconteceu alguma coisa importante?
Com certeza.
— A gente está esperando pra ver o que acontece — eu disse, voltando a desfazer as malas. — Eles injetaram o sangue de Olive em Neil e estão com esperança de que sirva de proteção contra a transformação em Strigoi.
— Foi muito corajoso da parte dele — ela reconheceu.
Ergui os olhos da mala.
— Ora, Zoe, acho que você acabou de dizer duas coisas boas sobre dampiros em menos de cinco minutos.
— Não vai pensando besteira — ela disse, com um sorriso. — Mas… é, talvez eles não sejam tão maus assim. Quer dizer, não são como nós, mas também não são má companhia. Na verdade, as coisas ficam mais fáceis se você não sente ódio deles.
— Tem razão — concordei. Uma pontinha de esperança surgiu dentro de mim. Conviver com Zoe e suas posturas alquimistas inflexíveis vinha sendo angustiante nos últimos tempos. Mas a culpa não era dela. Eu já fora igual. Tinha levado muito tempo para superar aquelas posturas. Por que ela não poderia superar também? Talvez, com o tempo, desistisse de impressionar nosso pai e percebesse que Moroi e dampiros eram pessoas como nós. Era maravilhoso pensar que um dia poderíamos voltar a ser irmãs e compartilhar da mesma filosofia alquimista rebelde. Talvez, no futuro, Marcus rompesse a tatuagem dela também.
Guardei esses pensamentos para mim mesma, sabendo que não devia me precipitar. Mas foi difícil não ter esperanças quando jantamos com os outros e vi que ela não parecia mais ter vontade de levantar e sair correndo. Todos estavam de bom humor — até que os olhos de Jill se focaram em algo atrás de mim e ela soltou um suspiro pesado. Me virei e vi duas meninas pendurando um cartaz para a Festa do Dia dos Namorados.
— Queria poder ir — ela disse, chateada.
— Eu também — Angeline concordou.
— Então por que não vão? — perguntei.
Jill olhou de soslaio para Neil. Ele estava perdido em seu próprio mundo.
— Não tenho ninguém pra me acompanhar — ela disse.
Angeline concordou com a cabeça.
— Aposto que vocês conseguem encontrar alguém. — Voltei o olhar para Zoe. — E você também.
Os olhos dela se arregalaram.
— O quê? Para uma festa?
— Claro. É o que todo mundo faz. Você deveria tentar.
— Por que você não tenta? — ela perguntou. — Parece frívolo na nossa linha de trabalho.
— Já tentei. — Fiquei em silêncio por alguns segundos, envolvida pela lembrança da minha primeira e única festa. Adrian havia aparecido bêbado e eu o levara para casa, onde ficamos presos em um blecaute. — Às vezes um pouco de frivolidade não faz mal.
Eddie, que não parecia nada interessado na festa, sorriu.
— Sydney, quando conheci você, nunca teria imaginado essas palavras saindo da sua boca. O que aconteceu?
Tudo, pensei.
Respondi com um sorriso.
— Todo mundo precisa se divertir um pouco. A gente devia esquecer essa festa e sair pra ver um filme. Quando foi a última vez que fizemos isso?
— Acho que a resposta é “nunca” — Jill respondeu.
— Bom, então está combinado. A gente compra os ingressos e leva Adrian também. — Lancei um olhar significativo para Angeline, mas ela nem notou. — E talvez mais gente também. — Eu estava me sentindo um pouco culpada por ter prometido a Trey que manteria Angeline longe de Neil, já que o próprio Neil estava resolvendo a questão se mantendo distante. Achei que devia uma para Trey por ele ter sido minha cobaia e talvez levá-lo junto em um passeio em grupo o ajudasse em seu processo de “dar um jeito” na situação.
A vida logo retomou o ritmo normal. Voltei à rotina de visitas rápidas a Adrian depois da aula, embora as coisas que fizéssemos agora estivessem definitivamente em outro nível. Eu sentia falta daquelas horas lânguidas na hospedaria, mas sem dúvida fazíamos o melhor com o tempo que tínhamos.
Continuei “compensando pelo tempo perdido” e até li alguns livros sobre sexo. Estava me sentindo nerd por isso até o dia em que ele comentou, impressionado:
— Onde você aprendeu isso, Sage?
As novidades com Adrian me motivaram ainda mais a proteger nossa relação, o que significava que eu fazia de tudo para apaziguar Zoe. Ainda não passávamos tanto tempo juntas quanto ela gostaria, mas eu fazia outras coisas para agradá-la, como deixar que ela dirigisse o carro de vez em quando. Também estimulava atividades não ameaçadoras com o resto do grupo e continuei a ver que ela ficava cada vez mais à vontade com eles.
A única coisa que ainda atrapalhava nossa relação era a ameaça do divórcio de nossos pais. Zoe continuava achando que eu estava do lado do nosso pai. Qualquer dúvida que eu ainda tivesse sobre o assunto havia desaparecido depois do almoço/ jantar com ele. Eu pretendia testemunhar a favor da minha mãe, por mais que isso pudesse trazer consequências graves para a vida tranquila que havia criado para mim mesma. Ainda faltava um mês para a audiência e fiquei lembrando Zoe de que nossa mãe nos amava e realmente não era má pessoa. Cheguei até a sugerir que, caso o tribunal concedesse guarda conjunta, Zoe poderia conseguir dividir seu tempo entre os dois, em vez de se dedicar cem por cento ao trabalho alquimista, como minha mãe temia. Ela havia considerado a ideia por um momento, mas então balançou a cabeça.
— O papai não iria gostar — ela disse. O medo que tinha dele ainda era grande demais.
Uma das coisas mais estranhas que fiz foi aprender a usar o equipamento de tatuagem de Wolfe. Meu triunfo ao voltar com a tinta alquimista caiu por terra quando me dei conta de que não poderia pedir a Wolfe que a usasse em Trey. Não só porque acabaria com nossa história falsa de remoção da tatuagem, mas também porque ele presenciaria a ativação do encanto. Por isso, pedi à sra. Terwilliger que convencesse Wolfe a deixar a máquina na casa dela para o caso de precisarmos da ajuda dele outra vez.
Nesse meio-tempo, pesquisei sobre o modelo e li tudo sobre como usá-lo. Quando contei a novidade para Trey, ele não se empolgou.
— Como posso ser mais assustadora que um homem caolho? — perguntei, irritada, quando nos encontramos na casa dela.
— Pelo menos ele faz tatuagens há anos. Quantas você já fez?
— Nenhuma — admiti. — Mas aposto que sei mais sobre o assunto do que ele.
No entanto, me sentia mal sobre uma coisa: ao contrário da tinta de sal, a tinta de sangue tinha cor. Deixaria uma marca. Como, pelo que eu sabia, as tatuagens tinham que ser feitas uma em cima da outra, eu precisava tatuar em cima da que Wolfe havia feito, que, por sua vez, estava em cima do sol dos guerreiros de Trey. Minha esperança era traçar as linhas do sol, mas eu não sabia quanta precisão minhas mãos teriam.
— Se eu fizer besteira, pago pra você refazer — prometi.
Isso o tranquilizou um pouco, mas, enquanto ele se deitava na bancada, o ouvi resmungar:
— Por que aceitei fazer isso mesmo?
— Porque estou mantendo Angeline longe de outros caras. Aliás… você não quer, hum, ir ao cinema com ela no Dia dos Namorados, quer? Com todos nós, quero dizer.
Ele soltou um grunhido.
— Eu devia ficar longe dela.
— Bom, não precisa sentar ao lado dela. E não vão estar sozinhos.
— Vou pensar — ele falou, relutante.
Eu não sabia se aquele plano resultaria em alguma coisa. Não tinha muita experiência em fazer as vezes de cupido, mas estava claro que nem Trey nem Angeline conseguiam esquecer um ao outro. E me ocorreu que, se eles voltassem a namorar, ele sem dúvida teria que romper seus laços com os guerreiros.
Não seria uma conquista pelo bem maior? Ou será que eu só estava complicando as coisas?
De todo modo, era um problema para depois. Por enquanto, meu foco era fazer uma tatuagem amadora — o que acabei conseguindo razoavelmente bem. Reforcei o desenho do sol e não desviei muito das linhas. Trey quis olhar em um espelho, mas, antes, eu precisava finalizar o feitiço. Os feitiços de compulsão de terra podiam ser adiados e ativados em determinado momento. Abe havia infundido o sangue com uma compulsão de obediência, mas sem um foco específico. Era aí que eu entrava. Quando o sangue era injetado na pessoa, a magia podia ser direcionada. Trey se sentou e eu me aproximei, olhando-o nos olhos.
No ritual alquimista, depois que o sangue era injetado, um hierofante dava ao novo recruta uma série de instruções tradicionais: “Nossas palavras são suas palavras, nossos objetivos são seus objetivos, nossas crenças são suas crenças”. Eu nunca havia prestado atenção nessas palavras. Elas tinham um ar ritualístico e, até pouco tempo, eu não entendia como ativavam o feitiço literalmente na pessoa. Depois, o hierofante acrescentava: “Não falarás a respeito do sobrenatural com aqueles que dele não partilham. Guardará os seus segredos”. O feitiço não suportava nada além disso. Não era possível dar comandos infinitos. Os Moroi eram tão desconfiados de feitiços de compulsão que infundiam o sangue com um nível baixo de magia. Ou, pelo menos, era o que a maioria deles fazia. Pelo jeito, como certos alquimistas vinham sendo programados com comandos mais poderosos, havia Moroi dispostos a violar as regras e potencializar o sangue.
Não me dei ao trabalho de falar nada disso para Trey. Tudo que eu precisava fazer era dar um comando enquanto o feitiço estava ativo no sangue e pronto para recebê-lo.
— Você não vai falar dos seus sentimentos por Angeline a ninguém — eu disse, muito séria.
Trey me encarou e vi seus olhos castanhos ficarem vítreos em obediência. Senti um aperto no coração. Tinha visto aquilo acontecer com outros alquimistas tatuados. Eu mesma tinha passado por aquilo. Era a compulsão tomando conta. Tínhamos fracassado. A magia ainda funcionava e…
De repente, ele piscou algumas vezes, como se estivesse saindo de um sonho.
— Por que não? — ele perguntou.
— Por que não o quê?
— Por que não posso falar sobre Angeline?
— Você quer falar?
— Não sei. Às vezes.
— Sabe, outro dia, no almoço, a gente estava falando sobre planos de férias e ela começou a falar sem parar sobre como odeia quando dizem que os leões são gatos grandes e que os zoólogos realmente deveriam parar de chamá-los assim porque poderia causar muitos problemas se alguém levasse um deles pra casa como animal de estimação. — Examinei a reação de Trey com atenção. — O que você acha disso?
Sua expressão se suavizou e ele abriu um sorriso largo.
— Ela me mata. Sério, adoro esses discursos dela. Sei que parecem malucos, mas é que tudo é tão novo pra ela, sabe? A gente acha tudo tão normal, mas, quando estou com ela, vejo o mundo com outros olhos. Ela faz o meu mundo melhor. É por isso que é tão incrível. — De repente ele voltou a prestar atenção em mim. — Por que está sorrindo desse jeito?
— Porque você está falando do que sente por Angeline.
— E daí? — ele perguntou, desconfiado.
— Mandei você não falar.
— Mandou?
A porta da garagem se abriu e Adrian entrou. Ele tivera que ficar no campus até tarde e só pôde chegar naquela hora.
— Ainda está fazendo tatuagens, Sage? Topa desenhar um esqueleto de pirata pra mim? — Então ele olhou melhor para a minha expressão. — O que está acontecendo?
Rindo, juntei as mãos diante do peito.
— Funcionou. A tinta de sal anulou a outra. Desfiz a compulsão! A magia humana venceu.
Trey caminhou até mim.
— Será que eu quero saber dos detalhes aqui?
Eu o surpreendi com um abraço rápido.
— Os detalhes são que você acabou de provar uma grande descoberta, que vai ajudar muita gente.
Ele ainda parecia confuso, o que era compreensível.
— Desde que você não tenha causado nenhum dano permanente.
— Você está livre pra ir ao cinema com a gente — eu disse.
— Mas vamos todos como amigos — Trey disse, ligeiro.
— É claro — concordei.
Ele tinha um turno dali a pouco e foi embora logo depois. Quando saiu, me lancei nos braços de Adrian e ele me girou.
— Minha menina genial — ele disse. — Você conseguiu.
Dei um beijo na bochecha dele.
— Não teria conseguido sem você.
— Sem mim? Não fui eu quem enganou vampiros para conseguir ingredientes ilícitos, arranjou uma cobaia e aprendeu a usar uma máquina de tatuagem em uma semana.
— Você me deu apoio moral — eu falei. — É a parte mais importante de todo o trabalho. E, agora que sei que funciona, preciso fazer mais tinta para quando Marcus aparecer. Você pode me fazer companhia.
Marcus havia mandado um recado para Adrian através de Sabrina dizendo que estaria na cidade na semana seguinte. Eu vinha fazendo tinta extra sempre que tinha tempo livre e não queria desperdiçar nem um segundo. Precisava dar a Marcus sua melhor chance. A sra. Terwilliger estava trabalhando na cozinha quando voltamos para dentro da casa. Ela me cumprimentou e falou que eu poderia usar sua oficina. Embora não entendesse os detalhes do projeto, não via problema em dividir o espaço comigo e me deixava guardar coisas ali. Adrian tinha aparecido lá algumas vezes antes e, como naquela noite, sentou perto de mim para fazer seu trabalho enquanto eu fazia o meu. Era gostoso, agradável e quase normal.
— Não é estranho? — ele disse, levantando os olhos enquanto eu media sal. — Todas as coisas que a vida oferece? Aqui estamos nós, eu lendo expressões de criatividade… — Ele ergueu o livro de poesia, que, para o meu horror, estava gasto e cheio de orelhas. — E você fazendo cálculos científicos e mágicos. Somos seres pensantes e racionais num minuto e… no minuto seguinte, nos entregamos completamente a atos físicos de paixão. Como a gente faz essas coisas? Ficar indo e voltando da mente pro corpo? Como podemos ir de um extremo a outro?
— É o que a gente faz — respondi com um sorriso. Eu estava contente que os remédios não haviam silenciado o Adrian filósofo. Adorava ouvir esses devaneios dele. — E nem sempre são extremos. Por exemplo, o que a gente fez ontem na sua casa… enfim, pode ter sido um “ato físico de paixão”, mas também foi bem criativo. Quem disse que mente e corpo não podem trabalhar juntos?
Ele se levantou da cadeira e veio até onde eu estava.
— Tem razão. E, se bem me lembro, foi graças à minha genialidade que tivemos aquela ideia.
Apoiei os materiais na mesa.
— Não foi, não. Foi tudo ideia minha.
— Só existe uma maneira de resolver essa questão. — Ele envolveu minha cintura e me pressionou contra a mesa. — Precisamos superar aquela criatividade. Está pensando o mesmo que eu?
— A sra. Terwilliger não está no quarto ao lado? — Mas meu coração havia acelerado com o toque dele na minha pele, e eu já estava pensando em uma maneira de esvaziar a mesa.
Ele se afastou e fechou a porta da oficina.
— Ela é discreta — ele disse. — E inteligente. Vai bater antes de entrar.
Achei que ele estava brincando até me segurar de novo e me erguer sobre a mesa, envolvendo minhas pernas em torno dele. Nossos lábios se encontraram com avidez, enquanto seus dedos hábeis de artista começaram a desabotoar minha camisa. Então o toque repentino de mensagem no celular normal me assustou.
— Ignore — Adrian disse, com o olhar inflamado e a respiração ofegante.
— E se aconteceu alguma crise na escola? — perguntei. — E se Angeline “sem querer” roubou um ônibus do campus e entrou com ele na biblioteca?
— Por que ela faria uma coisa dessas?
— Você acha que ela não faria?
Ele suspirou.
— Tudo bem.
Saí da mesa com as roupas amarrotadas e descobri, para a minha surpresa, que a mensagem era de Neil.

Ainda precisamos conversar. Pode me encontrar hoje? Em um lugar privado? É importante.

— Hum — murmurei. Mostrei a mensagem para Adrian. Ele ficou igualmente intrigado.
— Sabe sobre o que é?
— Não, ele só disse que queria falar comigo quando a gente voltou da corte. — O calor entre nós estava esfriando e comecei a reabotoar a camisa. — E se for sobre meu uso de magia?
Adrian ficou sério.
— Não, acho que não. Tenho certeza de que ele não vai comentar com ninguém.
— Mas eu deveria descobrir. Se tiver algum problema… Bom, sou eu quem vai ter que resolver, no fim das contas. — Eu me ajoelhei para guardar os ingredientes nas gavetas que a sra. Terwilliger havia separado para mim. — Pode ser importante. Além do mais, está ficando tarde.
— Sabe o que também é importante? Seu aniversário, que está chegando. Você vai tirar um dia de folga?
Sorri enquanto me levantava.
— Não sei. Zoe vai querer fazer alguma coisa comigo. Talvez a gente consiga sair todo mundo junto, e você pode ir.
Ele me envolveu em seus braços.
— Não é o bastante. Quero você, só você, na minha casa, onde vou cozinhar o jantar mais incrível que você já comeu feito por alguém que não sabe cozinhar. Depois… a gente entra no meu carro.
Esperei que ele continuasse para saber o destino.
— E depois?
Ele me deu um beijo leve na nuca.
— O que você acha?
Não pude conter uma exclamação de surpresa.
— Ah, nossa.
— Pois é. Eu estava quebrando a cabeça pra descobrir o melhor presente de todos os tempos e percebi que não poderia haver nada melhor do que nós dois no seu lugar favorito em todo o mundo.
Engoli em seco.
— Estou meio envergonhada com o quanto estou ansiosa por isso. — Nunca tinha pensado que meu amor por carros teria um papel na minha vida sexual. Eddie tinha razão. Alguma coisa tinha acontecido comigo.
— Não tem problema, Sage. Cada um com seu fetiche.
— Mas você meio que estragou a surpresa.
— Não. Faz parte do presente você pensar sobre isso durante os próximos três dias. Imaginei que seria um incentivo pra você fugir de Zoe também.
— É um ótimo incentivo.
Demos um beijo de despedida e marquei um encontro com Neil. O lugar privado que ele queria era um bosque perto da biblioteca. Tecnicamente, era um lugar proibido, ainda mais àquela hora da noite, mas, se fôssemos pegos, poderíamos dizer que estávamos cortando caminho para a biblioteca. Com minha fama de estudiosa, ninguém acharia estranho.
Foi uma surpresa quando Neil se atrasou, o que não era de seu feitio. Quando finalmente chegou, parecia meio aflito.
— Desculpe. Angeline ficou me seguindo pra todo lado e foi difícil me livrar dela.
— Ela gosta de você, sabia? — Não me senti mal por comentar porque ele não tinha como não saber. — Quer dizer, pelo menos gosta da ideia de estar com você. Ela quer ficar com você para esquecer outra pessoa.
— Como é? Deixa pra lá, não importa. — Ele balançou a cabeça. — Não tenho tempo para essas coisas.
Fiquei me perguntando se ele teria tempo para “essas coisas” se Olive morasse mais perto.
— Então, qual é o problema? — Eu me preparei para algum tipo de interrogatório sobre magia. O que ele disse, porém, me pegou de surpresa.
— Preciso que você me ajude a ir atrás de um Strigoi.
Caiu um silêncio entre nós por vários segundos tensos.
— Você vai precisar explicar isso melhor.
Neil apontou para o braço onde estava a tatuagem.
— Todo mundo está empolgado com isso, mas e daí? Vale alguma coisa? A gente nunca vai descobrir a menos que eu teste com um Strigoi.
Fui pega de surpresa. Eu sabia disso, claro, mas não estava pensando em procurar ativamente um Strigoi.
— Você quer ser transformado?
— Não, claro que não. A questão é a seguinte. Eu estava lendo relatos de guardiões e parece que alguns Strigoi foram vistos na região de Los Angeles.
Isso não era surpreendente. Sempre havia Strigoi em Los Angeles.
— Um Strigoi, na verdade — Neil continuou. — Quero encontrá-lo e atraí-lo antes que outros venham ajudar. Os guardiões conhecem os padrões dele o bastante para saber que isso vai acontecer mais cedo ou mais tarde. Normalmente, ele só bebe e mata, mas houve relatos de que transformou algumas vítimas. Enfim, se me usarmos como isca, ele vai sentir o gosto do meu sangue e a gente pode ver a reação dele.
Era uma daquelas coisas que pareciam tão racionais superficialmente que eu quase aceitei. Havia só alguns problemas.
— Se a tatuagem não funcionar, você vai acabar morto ou transformado em Strigoi.
— É aí que você entra — ele disse, empolgado. — Aquele negócio que você fez com o fogo…
— Neil…
Ele ergueu a mão.
— Não, não. Não vou contar a ninguém. Não vou nem perguntar como fez aquilo. Mas, se ficar escondida em algum lugar por perto e acender aquele fogo de novo, pode incinerar o Strigoi antes que ele faça alguma coisa comigo. — Parte do entusiasmo dele diminuiu. — E, se ele conseguir me transformar, pode me matar também.
— Neil! Está ouvindo o que está dizendo? Isso é loucura. Você está literalmente falando de suicídio.
Seu olhar encontrou o meu em meio às sombras.
— Sim, e a minha vida é um preço pequeno a pagar para conseguir essas respostas. E não estou sendo dramático. Sei que alguns de vocês, especialmente Adrian, me acham ridículo e exagerado, mas juro que o serviço aos Moroi é meu maior objetivo. Quero o que for melhor para o nosso povo. Tudo o que estamos fazendo agora é esperar… o que é o mesmo que nada. Se isso der certo, pode ser a grande descoberta de que todo mundo vive falando.
Precisei desviar os olhos. Era uma ideia maluca… mas fazia um pouco de sentido.
— Entendo o que você está falando, mas, se quiser brincar com um Strigoi, é melhor pedir autorização aos guardiões. Deixe que eles organizem alguma coisa.
— Você acha que eles me deixariam fazer uma coisa dessas? — Não respondi porque duvidava que deixariam. — Exato. Você criou uma chama bem grande naquela noite. Acha que conseguiria consumir um Strigoi com uma daquelas?
— Sim — respondi sem hesitar. — Mas não me sentiria muito bem sendo a única coisa entre você e a perdição.
— Não seria. — Neil apontou para um ponto atrás de mim. — Bem na hora.
Me virei e encontrei Eddie caminhando em nossa direção com ar confuso.
— Oi, recebi sua mensagem — ele disse. — O que está acontecendo?
Por incrível que pareça, Neil começou a contar a mesma ladainha para Eddie sobre se sacrificar pelo bem maior dos Moroi. Não mencionou minha magia, mas sua oferta a Eddie foi a mesma, explicando que seria preciso alguém para impedir o Strigoi se as coisas saíssem do controle. Na verdade, me dei conta de que não havia “se”. A questão era quando as coisas saíssem do controle.
Acho que Eddie ficou ainda mais chocado que eu.
— Não!
— Eddie — Neil disse, com a voz calma. — Sei que temos nossas diferenças, mas a verdade é que te respeito muito. Você é um dos melhores guardiões que já conheci e já fez mais coisas do que a maioria dos guardiões experientes vai fazer na vida. Você e Sydney são a equipe ideal para me apoiar. Preciso que entendam a importância disso. É verdade que nunca lutei contra um Strigoi, mas já os vi matando. Quando era jovem. — Sua expressão ficou grave. — Ainda tenho pesadelos com aquilo e, se houver alguma coisa que possamos fazer para deter aqueles monstros, precisamos agir. Pensem em como seria se conseguíssemos prevenir a conversão de mais gente!
Eddie não se deixou convencer. Havia uma expressão em seu rosto que eu nunca tinha visto antes.
— Não estou negando o princípio da coisa, mas é perigoso demais. E não só pra você. Já tentei algo parecido uma vez… — Uma dor tão intensa perpassou o rosto de Eddie que era de partir o coração. — Eu e alguns amigos. A gente achou que poderia dar conta de um Strigoi… e meu melhor amigo acabou morto. Não importa o quanto você se ache preparado. Mesmo contra um só, tudo pode acontecer. Você e eu podemos não ser o bastante. Sydney com certeza não é… sem ofensa. Precisaríamos de mais alguma vantagem para aumentar nossas chances.
De repente, Neil olhou para mim com expectativa. Demorei alguns segundos para me dar conta do que ele queria.
— Você falou que não iria contar!
— Não vou — ele concordou. — Mas pensei que você pudesse querer. Se não, eu deixo pra lá. Mas acha que Eddie trairia seu segredo?
Os dois ficaram me observando e quis dar um soco na cara de Neil. Ele tinha sido fiel à sua palavra… em certo sentido. Depois de ouvir seu discurso duas vezes, eu estava balançada. Talvez por causa da sensação de triunfo com a tatuagem de Trey. Seria incrível conseguir outra façanha de que tantas pessoas estavam dependendo. E, se Eddie estivesse envolvido, parecia possível lidar com um Strigoi.
Mas isso significava que eu teria de contar meu segredo a Eddie. O velho ditado me veio à cabeça: Duas pessoas podem guardar um segredo se uma delas estiver morta. Quanto mais a magia viesse à tona, em mais problemas eu me meteria.
No entanto, enquanto encarava o olhar firme de Eddie, me lembrei de nossa amizade e de tudo por que havíamos passado. Em um mundo de segredos e mentiras, havia poucas pessoas em quem eu podia confiar plenamente — e, naquele momento, soube, sem sombra de dúvida, que Eddie era uma delas.
Depois de respirar fundo, torcendo para que não estivesse fazendo uma grande besteira, levantei a mão. Olhei ao redor, preocupada, para confirmar que estávamos sozinhos, e fiz surgir uma centelha de fogo na palma da mão, que logo cresceu para o tamanho de uma bola de tênis.
Eddie se debruçou para olhar e perdeu o fôlego diante da chama alaranjada que refletia em seu rosto.
— Acho… acho que temos mais chances do que eu imaginava — ele disse.

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