13 de outubro de 2017

Capítulo 18

EU DEFINITIVAMENTE NÃO ESTAVA esperando voltar do passeio daquele dia com a guarda compartilhada de um minidragão. (Eu me recusava a chamá-lo de demônio.) E logo ficou claro que Adrian não seria o “pai” mais dedicado.
— Pode ficar com ele agora — ele me disse quando voltamos a Amberwood. — Eu fico nos fins de semana.
— Você não faz nada da vida — protestei. — Além disso, faltam poucos dias para o fim de semana. E nem sabe se ele é menino.
— Bom, não acho que ele vá se importar, e eu é que não vou investigar pra descobrir a verdade. — Adrian colocou o quartzo na cesta e fechou a tampa antes de me entregá-la. — Você não precisa invocá-lo outra vez, sabe.
Peguei a cesta e abri a porta do carro.
— Eu sei. Mas me sinto mal deixando o bicho feito pedra. — A sra. Terwilliger havia me dito que seria mais saudável para ele se o deixasse sair de vez em quando.
— Viu? Já está com instinto maternal. Você tem jeito pra coisa, Sage. — Adrian sorriu e me deu uma sacola com fatias de torta. Ele tinha ficado com algumas. — Veja só. Você nem precisa mais romper a tatuagem. Acha que estaria cuidando de um bebê dragão um mês atrás?
— Não sei. — Mas ele tinha razão. Provavelmente eu teria saído correndo e gritando pelo deserto. Ou talvez tentado um exorcismo. — Vou ficar com ele por enquanto, mas você precisa cumprir sua parte em algum momento. A sra. Terwilliger disse que o callistana precisa passar tempo com nós dois. Humm...
— Humm o quê?
Balancei a cabeça.
— Só estou pensando mais pra frente. Imaginando o que faria com ele se realmente fosse para o México.
Adrian me olhou, confuso.
— O que tem no México?
Foi então que percebi que isso nunca tinha vindo à tona. Adrian só sabia da tarefa que Marcus me passara e do rompimento da tatuagem, não do selamento. Eu não estava guardando segredo sobre o resto, mas, de repente, me senti desconfortável ao contar isso para ele.
— Ah. Então... Marcus diz que, depois que eu fizer esse tal ato rebelde, podemos romper os elementos e me livrar do controle da tatuagem. Mas pra realmente conter o feitiço e garantir que a tatuagem nunca mais seja reparada, preciso tatuar em cima, como ele fez. Ele chama isso de selar a tatuagem, e só funciona com um composto especial que é difícil de encontrar. Ele fez a dele no México e vai levar alguns Vingadores lá pra que façam também.
— Entendi. — O sorriso de Adrian havia sumido. — Então você vai com eles?
Encolhi os ombros.
— Não sei. Marcus quer que eu vá.
— Claro que quer.
Ignorei o tom dele.
— Estou pensando ainda... mas é um grande passo. Não só pela tatuagem. Se fizer isso, não tem mais volta. Estarei dando as costas para os alquimistas.
— E para nós — ele disse. — Caso só esteja ajudando Jill para cumprir ordens.
— Você sabe que a questão não é mais essa. — De novo não gostei do tom dele. — Sabe que gosto dela... de todos vocês.
Seu rosto estava sério.
— E mesmo assim fugiria com um cara que acabou de conhecer.
— Não é verdade! Não iríamos “fugir” juntos. Eu voltaria pra cá! E viajaríamos por um motivo muito específico.
— Praias e margaritas?
Fiquei sem palavras por alguns momentos. O que ele disse era muito parecido com a piada de Marcus. Será que isso era tudo que as pessoas associavam ao México?
— Entendi agora — retruquei. — Você estava concordando plenamente que eu rompesse a tatuagem e pensasse por conta própria, mas só enquanto fosse conveniente a você, né? Assim como aquela história de me “amar de longe”, que só funciona quando não tem a oportunidade de pôr as mãos em mim. E os lábios. E... tudo mais.
Adrian raramente ficava bravo, e não diria que estava exatamente bravo agora. Mas com certeza estava exasperado.
— Você realmente está negando tanto a realidade, Sydney? Realmente acredita em si mesma quando diz que não sente nada? Ainda mais depois do que vem acontecendo entre nós?
— Não vem acontecendo nada entre nós — respondi automaticamente. — Atração física é muito diferente de amor. Você deveria saber disso melhor que qualquer pessoa.
— Puxa — ele disse. Sua expressão não havia mudado, mas vi uma mágoa em seus olhos. Eu havia ferido os sentimentos dele. — É isso que incomoda você? Meu passado? Que talvez eu seja um especialista numa área em que você não é?
— Uma área em que você adoraria me educar, né? Mais uma garota pra colocar na sua lista de conquistas.
Ele ficou sem palavras por alguns instantes e então ergueu um dedo.
— Primeiro, não tenho uma lista. — Outro dedo. — Segundo, se tivesse uma, poderia encontrar alguém muito mais fácil para colocar nela. — Para o terceiro dedo, ele se aproximou de mim. — E, por último, sei que você sabe que não é uma simples conquista, então não finja realmente acreditar nisso. Nós passamos por muita coisa juntos. Somos muito próximos, temos uma ligação muito forte. Eu não estava tomado pelo espírito quando disse que você é minha chama na escuridão. Nós afugentamos as trevas um do outro. Nossos passados não importam. O que temos é maior do que isso. Eu amo você e, por trás dessa fachada lógica, calculista e supersticiosa, sei que você também me ama. Fugir pro México e evitar todos os seus problemas não vai mudar isso. Você só vai acabar confusa e assustada.
— Já me sinto assim — eu disse baixinho.
Adrian se recostou no banco, com o ar cansado.
— Bom, essa é a maior verdade que você falou até agora.
Peguei a cesta e abri a porta do carro com tudo. Sem dizer outra palavra, saí a passos duros em direção ao alojamento, me recusando a olhar para trás, para que ele não visse as lágrimas que inexplicavelmente haviam surgido nos meus olhos. Eu só não sabia que parte da conversa havia me abalado mais.
Senti que conseguiria conter as lágrimas quando cheguei ao quarto, mas ainda precisava me acalmar. Mesmo depois de tranquilizar minhas emoções, era difícil esquecer as palavras dele. Você é a minha chama na escuridão. Nós afugentamos as trevas um do outro. Eu nem sabia o que isso queria dizer!
Pelo menos subir clandestinamente para o quarto com um dragão me distraiu. Entrei com a cesta, na esperança de que dragões demoníacos não fossem considerados contrabando. Ninguém me parou enquanto eu subia as escadas, e fiquei me perguntando como o prenderia se o invocasse de novo. Quando cheguei à porta, encontrei Jill parada do lado de fora, com um brilho entusiasmado nos olhos verde-claros.
— Quero ver — ela disse. O laço era mais intenso em momentos de grande emoção e, a julgar pela cara que Adrian tinha feito quando o dragão estava nos perseguindo, as emoções dele estavam fortes. Fiquei me perguntando se ela havia testemunhado nossa discussão também ou se isso não tinha passado através do laço. Talvez ela já estivesse acostumada à tensão entre mim e ele a essa altura.
— Não posso libertar o dragão ainda — eu disse, deixando que ela entrasse no quarto. — Preciso de alguma coisa onde possa guardá-lo. Como uma gaiola. Talvez compre uma amanhã.
Jill franziu a testa, e então abriu um sorriso.
— Tenho uma ideia. — Ela olhou para o meu despertador. — Espero que não seja tarde demais.
E, sem explicação, saiu prometendo voltar logo. Eu ainda estava um pouco trêmula por causa da magia, mas não havia tido tempo de corrigir a situação com todas as outras agitações do dia. Então me sentei à escrivaninha com um livro de feitiços e comi o resto da torta de creme de coco, que já estava mole, tomando cuidado para antes cortar fora a parte que o dragão havia comido. Não sabia se callistanas transmitiam germes, mas preferi não arriscar.
Jill voltou uma hora depois, trazendo um aquário de vidro retangular, do tipo em que se colocam peixes ou hamsters.
— Onde conseguiu isso? — perguntei, tirando o abajur da escrivaninha para que aquilo coubesse.
— Com a minha professora de biologia. Nosso porquinho-da-índia morreu algumas semanas atrás e ela ficou triste demais para comprar outro.
— Ela não perguntou para que você usaria? — Examinei o tanque e vi que estava impecável. Pelo jeito, alguém o limpara depois do falecimento do porquinho-da-índia. — Não podemos ter bichinhos de estimação.
— Falei pra ela que estava construindo um diorama. Ela não questionou. — Ansiosa, Jill colocou o aquário em cima da mesa. — Podemos devolver quando você comprar outro.
Coloquei o cristal de quartzo dentro do aquário e fechei a tampa com força, me certificando de que estava bem presa. Jill insistiu mais um pouco, e finalmente pronunciei as palavras de invocação. Depois de soltar um pouco de fumaça, o quartzo se transformou em dragão outra vez. Felizmente, ele não estava mais fazendo aquele barulho, então imaginei que ainda estivesse cheio. Em vez disso, ficou andando pelo tanque, examinando seu novo lar. Em determinado momento, tentou escalar um dos lados da nova gaiola, mas suas garrinhas não conseguiam se agarrar ao vidro.
— Ufa, que alívio — eu disse.
O rosto de Jill estava maravilhado.
— Acho que ele vai ficar entediado aí dentro. Você devia comprar uns brinquedos pra ele.
— Brinquedos para um demônio? Dar torta não é o suficiente?
— Ele quer você — ela insistiu.
Era verdade. Quando olhei para o tanque, encontrei o callistana me observando com adoração. Ele estava até abanando o rabinho.
— Não — eu disse para ele, com firmeza. — Isso não é um filme da Disney pra eu ter um amiguinho fofo. Você não vai sair.
Cortei um pedaço de torta de mirtilo e coloquei dentro do tanque, caso ele quisesse um lanchinho noturno. Eu me recusava a arriscar um chamado no meio da noite. Depois de pensar um momento, coloquei também uma bolinha antiestresse e um lenço.
— Pronto — eu disse a Jill. — Comida, brinquedo e uma cama. Está feliz?
O callistana parecia estar. Ele jogou a bola de um lado para o outro algumas vezes e então se enrolou no ninho que eu tinha feito com o lenço. Parecia mais ou menos satisfeito, exceto pelo fato de que ficava olhando para mim a toda hora.
— Óin — ela disse. — Como ele é fofo. Que nome você vai dar para ele?
Como se eu precisasse de mais uma coisa com que me preocupar.
— O “pai” dele pode dar o nome. Já estou devendo um para o Mustang.
Depois de olhar o callistana encantada por mais um tempo, Jill finalmente foi para seu próprio quarto. Eu me preparei para ir para a cama também, sempre de olho no dragão. Mas ele não fez nada ameaçador, e eu até consegui dormir, embora tivesse um sono agitado. Ficava imaginando que ele encontraria uma maneira de sair e viria para a cama comigo. E, claro, também tinha medo de que Veronica viesse atrás de mim.
Acabei atingindo um sono profundo, durante o qual Adrian me levou para um sonho de espírito. Depois da nossa briga de antes, eu sinceramente não esperava vê-lo naquela noite, o que havia me deixado triste. O salão do casamento se materializou ao nosso redor, mas a imagem tremia e ficava saindo de foco.
— Pensei que não viria — eu disse a ele.
Nada de trajes formais naquela noite. Ele estava usando a mesma roupa de antes, jeans e a camiseta da EIA, embora ambos parecessem um pouco mais amassados. Foi então que me toquei que era como ele estava no mundo real.
— Achou que eu abandonaria você nas garras da Veronica?
— Não — admiti. — Qual é o problema do salão?
Ele pareceu um pouco envergonhado.
— Meu controle não está muito bom hoje.
Não entendi por quê... no começo.
— Você está bêbado.
— Bebi um pouquinho — ele me corrigiu, se recostando em uma das mesas. — Se estivesse bêbado, nem estaria aqui. E, na verdade, até que está bom depois de quatro White Russians.
— White o quê? — Fiz menção de sentar, mas estava com medo de que a cadeira se desmaterializasse embaixo de mim.
— É um drinque — ele disse. — Era de se imaginar que eu não gostaria de uma coisa com esse nome, sabe, considerando minha experiência pessoal com russos. Mas eles são surpreendentemente deliciosos. Os drinques, não os russos. Tem Kahlúa também. Pode ser o drinque que você sempre quis na vida.
— Kahlúa não tem gosto de café — eu disse. — Então nem comece. — Eu estava morrendo de curiosidade de saber por que ele havia bebido. Às vezes, Adrian bebia para atenuar o espírito, mas ele parecia ainda querer acessar a magia naquela noite. E, claro, durante boa parte do tempo, nem precisava de um motivo. No fundo, fiquei pensando se nossa briga o teria levado a beber. Não sabia se isso fazia eu me sentir culpada ou brava.
— Eu também precisava vir me desculpar — ele disse e sentou, aparentemente sem medo das cadeiras.
Por um momento, senti um medo inexplicável, achei que ele fosse retirar o que havia dito sobre eu ser uma chama na escuridão para ele. Em vez disso, ele disse:
— Se você precisa ir para o México terminar o processo, eu entendo. Foi um erro criticar você por isso ou sugerir que eu tinha algum poder de decisão nessa história. Uma das coisas mais incríveis sobre você é que, no fim das contas, sempre toma boas decisões. Nem sempre dá pra dizer o mesmo sobre mim. Decida o que quiser, vou apoiar você.
Aquelas lágrimas irritantes ameaçaram voltar, e pisquei para que não rolassem.
— Obrigada. Isso significa muito para mim... E, pra falar a verdade, ainda não sei o que vou fazer. Sei que Marcus tem medo que eu acabe me metendo em encrenca e volte a ficar sob o controle dos alquimistas. Mas, enfim, acho que continuar fazendo parte dos alquimistas me daria mais poder e, além disso... não quero deixar você. Ahn, vocês.
Ele abriu um sorriso que iluminou todo o seu rosto. Como uma chama na escuridão.
— Bom, “nós” ficamos muito contentes em ouvir isso. Ah, e também será um prazer cuidar do nosso querido filhotinho de dragão enquanto você estiver em St. Louis.
Retribuí o sorriso.
— Como uma pedra ou na forma real?
— Ainda não decidi. Como ele está agora?
— Está trancado num aquário. Acho que eu acordaria se ele subisse na cama comigo, então ainda deve estar dormindo. — Ao menos era o que eu esperava.
— Bom, tenho certeza de que subir na cama com você seria... — Adrian engoliu o comentário que estava prestes a fazer. Em vez disso, apontou para a mesa e um tabuleiro de Banco Imobiliário apareceu. — Vamos jogar?
Caminhei até a mesa e examinei o tabuleiro, que também parecia ter sofrido com a bebedeira dele, considerando que metade das ruas estava em branco. As que estavam lá tinham nomes como “travessa Castile” e “avenida Belezinha”.
— Estão faltando algumas coisas no tabuleiro — eu disse, diplomática.
Adrian não pareceu preocupado.
— Bom, acho que isso melhora as suas chances.
Não pude resistir à provocação e me atrevi a sentar em uma das cadeiras. Sorri para ele e comecei a contar o dinheiro, contente por tudo estar (relativamente) normal entre nós de novo.

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