3 de outubro de 2017

Capítulo 18

NA MANHÃ SEGUINTE, Jill não me olhou com o mesmo brilho nos olhos, o que foi um alívio. Micah ressurgiu das cinzas e, apesar de não estarem flertando como antes, conversavam animadamente sobre o projeto de ciências que ela estava fazendo. Eddie e Angeline também estavam absortos numa conversa, fazendo planos para quando ela estivesse livre da suspensão. Os olhos dela faiscavam de felicidade e percebi que ela alimentava um sentimento sincero por ele. Não havia dado em cima dele apenas pela conquista. Me perguntei se Eddie tinha noção disso.
Em vez de sentir que estava sobrando, fiquei contente de ver meu pequeno grupo se dando bem. Ainda estava num conflito interno por conta da conversa com Stanton, mas não havia nada de errado em apreciar a paz que reinava ali. Estaria mais feliz ainda se Trey tivesse voltado ao normal, mas ao entrar na aula de história mais tarde, vi que ele tinha faltado de novo. Podia apostar que ele alegaria mais algum problema de família, mas minhas antigas suspeitas ressurgiram — e se a família dele fosse responsável por todos aqueles ferimentos? Será que eu devia comunicar minhas preocupações a alguém? Quem? Por outro lado, não queria tirar conclusões precipitadas, o que me deixava num impasse.
Sempre sentava ao lado de Eddie na sala, e me inclinei para perto dele antes do sinal tocar, abaixando a voz para falar de outro assunto.
— Ei, você percebeu que a Jill anda estranha perto de mim?
— Ela anda com muita coisa na cabeça — ele disse, sempre rápido em defendê-la.
— É, eu sei, mas você deve ter notado ontem à noite. Na biblioteca? Quer dizer, considerando que sou péssima para perceber essas coisas, parecia que ela estava apaixonada por mim ou algo do tipo.
Ele riu com a ideia.
— Ela estava exagerando mesmo, mas não acho que precise se preocupar com alguma questão amorosa. Ela admira muito você, só isso. Parte dela ainda quer ser uma guerreira valente... — Ele fez uma pausa para saborear a ideia, com um misto de orgulho e encantamento no rosto, antes de voltar a olhar para mim. — Mas, ao mesmo tempo, você está mostrando a ela que há muitas outras formas de ser forte.
— Obrigada — agradeci, um tanto confusa. — Mas, por falar nela como uma guerreira valente... — Examinei-o, curiosa. — Por que você não a treina mais? Não quer que ela aperfeiçoe as habilidades de luta?
— Ah. Bem... tenho alguns motivos para isso. Um é que preciso me concentrar em Angeline. Outro é que simplesmente não quero que Jill se preocupe com isso. Sou eu que preciso protegê-la. — Eu havia imaginado exatamente esses motivos, mas não o que veio a seguir: — E acho que... outra coisa é que não me sinto bem tendo contato físico com ela. Quer dizer, sei que não significa nada pra ela... mas significa pra mim.
De novo, minhas habilidades sociais levaram um tempo para processar a ideia.
— Você quer dizer que não gosta de ter de tocá-la?
Eddie ficou vermelho.
— Isso não me incomoda nem um pouco, e esse é o problema. É melhor passarmos tempo juntos sem encostar um no outro.
Não esperava por isso, mas consegui compreender. Deixando Eddie com seus próprios demônios, segui o meu dia, pensando o que poderia ter acontecido com Trey. Tinha esperanças de que ele entrasse na aula atrasado, o que acabou não acontecendo. Na realidade, ele não apareceu durante o dia todo, nem mesmo no final do meu estudo independente, como pensei que faria para pegar as lições.
— Você parece preocupada — a sra. Terwilliger me disse, observando enquanto eu arrumava as coisas depois que o sinal tocou. — Com medo de não conseguir entregar o projeto dentro do prazo?
— Não. — Na verdade, eu já havia terminado dois amuletos, mas obviamente não ia contar isso a ela. — Estou preocupada com Trey. Ele anda faltando muito. A senhora sabe por que ele não tem vindo? Quer dizer, se puder me contar.
— A secretaria nos avisa quando o aluno falta o dia todo, mas não diz por quê. Se faz você se sentir um pouco melhor, Juarez avisou que faltaria de manhã. Ele não desapareceu.
Quase mencionei meus medos em relação à família dele, mas me contive. Ainda precisava de mais evidências.
Em meio às preocupações com Trey, o trabalho da sra. Terwilliger, os guerreiros, Brayden e toda a minha miríade de complicações, eu sabia que não podia desperdiçar meu tempo livre. Mesmo assim, fui à casa de Adrian depois da aula numa missão que não poderia recusar. No caminho de volta da aula de Wolfe, Adrian havia mencionado, como quem não quer nada, que não mandara um mecânico dar uma olhada no Mustang antes de comprá-lo. Apesar da minha avaliação amadora não ter encontrado nenhum problema no carro, insisti que Adrian levasse o veículo para uma vistoria, o que obviamente significava que eu tive de procurar uma oficina especializada e marcar uma hora. O horário era pouco antes do meu encontro no museu de tecidos, mas tinha certeza de que daria tempo de fazer tudo.
— O antigo dono parecia bem confiável — Adrian disse, depois de deixarmos o carro no mecânico. Ele nos avisara que o olharia na mesma hora e que poderíamos dar uma volta enquanto esperávamos. A oficina ficava nos arredores de uma área residencial, então Adrian sugeriu que déssemos uma volta pela vizinhança. — E tudo correu bem no test-drive, por isso imaginei que não tinha nenhum problema.
— Mas pode ter algum problema que você não viu. É melhor prevenir do que remediar — eu disse, ciente de que estava sendo implicante. — Já é ruim o bastante ter comprado um carro que você não sabe dirigir.
Ao olhar para ele, vi a sombra de um sorriso em seu rosto.
— Com a sua ajuda, vou ficar profissional rapidinho. Claro que, se você não quiser ajudar mais, posso me virar e aprender sozinho.
Resmunguei:
— Você sabe o que eu tenho a dizer sobre iss... Uau.
A região em que estávamos era muito rica. Eu diria que as casas eram verdadeiras mansões. Paramos diante de uma que parecia um misto de hotel-fazenda e mansão sulista, grande e larga com um alpendre sustentado por pilares e revestimento de estuque cor-de-rosa. O jardim ostentava uma mistura de climas, grama verde e palmeiras ladeando o caminho até a casa. As árvores pareciam sentinelas tropicais.
— Incrível — eu disse. — Adoro arquitetura. Em outra vida, teria estudado isso, em vez de química e vampiros. — Conforme seguíamos adiante, vimos mais casas semelhantes, cada qual tentando superar as outras. Todas tinham cercas altas e sebes protegendo os quintais. — Queria saber o que tem lá atrás. Piscinas, provavelmente.
Adrian parou em frente a uma delas, amarela como seu carro, que exibia outra mistura de estilos, como se fosse uma versão sulista de um castelo medieval, adornada por pequenas torres.
— Bela justaposição — ele comentou.
Virei para ele, sabendo que meus olhos estavam arregalados de surpresa.
— Você acabou de usar “justaposição” numa frase ou é impressão minha?
— Sim, Sage — ele respondeu, com paciência. — O termo é usado o tempo todo em arte quando se misturam componentes diferentes. E eu sei consultar o dicionário. — Ele desviou o olhar e voltou a examinar a casa, pousando os olhos num jardineiro que podava as cercas vivas. Um sorriso maroto perpassou seus lábios. — Quer ver como é lá atrás? Vem.
— O que voc...
Antes que eu pudesse dizer outra palavra, Adrian avançou a passos largos pela trilha de granito e cortou caminho pelo gramado até onde o rapaz estava trabalhando. Não queria ter nada a ver com aquilo, mas a parte responsável em mim não podia deixar Adrian entrar em apuros. Corri atrás dele.
— Os donos estão em casa?
O jardineiro parou de podar e fixou os olhos em Adrian.
— Não.
— Quando eles voltam?
— Depois das seis.
O simples fato de o sujeito estar respondendo àquelas perguntas me deixou espantada. Se me perguntassem aquilo, eu pensaria que a pessoa estava planejando um assalto. Então notei o olhar vítreo do jardineiro e entendi o que estava acontecendo.
— Adrian...
Os olhos dele não pararam de encarar fixamente o rosto do rapaz.
— Leve a gente para o quintal dos fundos.
— Claro.
O jardineiro deixou a tesoura cair e seguiu em direção a um portão na lateral da casa. Tentei chamar a atenção de Adrian para pôr um fim àquilo, mas ele estava andando mais rápido que eu. Nosso guia parou no portão, digitou um código de segurança e nos levou para os fundos. Meus protestos cessaram quando olhei ao redor.
A área dos fundos era quase três vezes maior que a da frente. Mais palmeiras cercavam o quintal, ladeado por um jardim repleto de plantas nativas e não nativas da região. O espaço era dominado por uma piscina oval gigantesca, cujo tom turquesa contrastava com o cinza do granito ao redor. Ao lado dela, alguns degraus subiam até uma piscina quadrada e menor, em que caberiam algumas poucas pessoas. Uma queda-d’água jorrava entre esta piscina e a maior. Tochas e mesas rústicas completavam o ambiente luxuoso.
— Obrigado — Adrian disse ao jardineiro. — Volte para o seu trabalho. Não tem problema ficarmos aqui. Nós conhecemos a saída.
— Claro — o rapaz respondeu, voltando pelo caminho que havíamos entrado.
Voltei subitamente ao mundo real.
— Adrian! Você usou compulsão no moço. Isso... sério, isso é...
— Fenomenal? — Adrian sugeriu, seguindo em direção aos degraus que levavam para a piscina menor. — É, eu sei.
— É errado! Tudo isso. Invadir essa casa, usar a compulsão... — Apesar do calor escaldante, senti um calafrio. — É imoral controlar a mente de outra pessoa. Você sabe disso. Nossos povos concordam nesse ponto.
— Ei, ninguém saiu ferido. — Ele subiu ao topo da piscina e ficou de pé na beirada, como se vigiasse seu império. O sol destacava o brilho castanho de seu cabelo. — Acredite, aquele cara foi fácil de controlar. Não tinha a menor força de vontade. Mal precisei usar a compulsão.
— Adrian...
— Sem essa, Sage. Ninguém saiu ferido. Vem cá olhar essa vista.
Estava quase com medo de ir até lá. Era tão raro ver os Moroi usando magia que ficava fácil fingir que ela não existia. Ver Adrian fazendo uso dela, da maneira mais traiçoeira possível, fez minha pele arrepiar. Como tinha dito à sra. Terwilliger em nossa conversa sobre feitiços, ninguém deveria ser capaz de controlar outras pessoas daquela forma.
— Vem cá — Adrian insistiu. — Não está com medo de que eu vá usar a compulsão para fazer você vir até aqui, está?
— Claro que não — respondi, e falava sério. Não sabia por quê, mas parte de mim tinha certeza de que Adrian nunca, em hipótese alguma, me causaria algum mal.
Relutante, fui até onde ele estava, na esperança de convencê-lo a ir embora. Quando cheguei ao topo, porém, meu queixo caiu. A piscina menor não parecera tão alta, mas proporcionava uma visão espetacular das montanhas ao longe, escarpadas e majestosas contra o azul do céu. A piscina maior brilhava abaixo de nós e a cascata davam a impressão de que havíamos entrado em algum tipo de oásis místico.
— Da hora, hein? — ele comentou.
Adrian sentou à beira da piscina menor, arregaçou a barra da calça e tirou o tênis e as meias.
— O que você está fazendo agora? — indaguei.
— Aproveitando o máximo possível. — Ele colocou os pés na água. — Vem. Faça alguma coisa errada para variar um pouco. Não que isso seja muito errado. Não estamos destruindo o lugar nem nada do tipo.
Hesitei, mas a água me chamava, como se também fosse capaz de usar a compulsão. Me acomodando, imitei Adrian e mergulhei os pés descalços na água. O frescor dela era espantoso — e delicioso — sob aquele calor intenso.
— Poderia viver à base disso — admiti. — E se os donos da casa chegarem antes?
Ele deu de ombros.
— Posso livrar a gente dessa.
Aquilo não era muito tranquilizador. Virei-me para a vista magnífica e para a casa majestosa. Eu não fazia o tipo que se dava a devaneios, mas voltei a pensar no que dissera sobre levar outra vida. Como seria ter uma casa como aquela? Permanecer num só lugar? Passar os dias à beira da piscina, mergulhando sob o sol, sem ter que me preocupar com o destino da humanidade? Fiquei tão absorta nesse faz de conta que perdi a noção do tempo.
— Precisamos voltar para a oficina — exclamei. Ao olhar para Adrian, fiquei surpresa ao perceber que ele me observava com uma expressão de contentamento no rosto. Seus olhos pareciam examinar cada um dos meus traços. Ao ver que eu o tinha flagrado, ele desviou o olhar imediatamente, retomando a expressão sarcástica de sempre no lugar daquele ar contemplativo.
— O mecânico pode esperar — ele disse.
— Sim, mas marquei de encontrar Brayden daqui a pouco. Vou chegar... — Foi então que dei uma olhada melhor em Adrian. — O que você fez? Olhe pra você! Você não devia ficar aqui.
— Não é tão mal.
Ele estava mentindo e nós dois sabíamos disso. Era fim de tarde e o sol estava impiedoso. Eu mesma sentira isso, apesar de o frescor da água ter ajudado a me distrair. Somado ao fato de que não era uma vampira. Claro que tinha medo de queimaduras e insolações, mas gostava muito do sol e tinha uma tolerância alta. Não era o caso dos vampiros.
Adrian estava pingando de suor; a camiseta e o cabelo estavam ensopados. Manchas cor-de-rosa cobriam seu rosto. Eu sabia o que era aquilo: já tinha visto em Jill quando ela fora obrigada a praticar esportes ao ar livre na aula de educação física. Se não fossem tratadas, poderiam virar queimaduras. Levantei num pulo.
— Vamos, você precisa sair daqui antes que piore. O que você tinha na cabeça?
A expressão dele era surpreendentemente calma para alguém que parecia prestes a desmaiar.
— Valeu a pena. Fez você... feliz.
— Isso é maluquice.
— Não foi a coisa mais louca que já fiz na vida. — Adrian sorriu ao levantar os olhos para mim. Eles pareciam um tanto desfocados, como se não vissem apenas eu. — O que é uma loucurazinha de vez em quando? Eu deveria estar fazendo experimentos... Que tal analisar o que brilha mais: sua aura ou o sol?
Fiquei perturbada pela maneira como ele me olhava e falava comigo, e me lembrei do que Jill havia dito sobre o espírito ser capaz de enlouquecer os usuários aos poucos. Adrian não parecia exatamente louco, mas sem dúvida algo o assombrava, uma diferença clara em relação ao seu humor ácido de sempre. Parecia que alguma coisa tinha tomado conta dele. Me lembrei daquele verso sobre sonhar e estar acordado.
— Vamos — repeti, oferecendo a minha mão. — Você não devia ter usado o espírito. Precisamos sair daqui.
Ele pegou minha mão e levantou, cambaleante. Senti uma onda de calor e eletricidade passar pelo meu corpo, como da última vez em que nos tocamos, e nossos olhares se cruzaram. Por um momento, só conseguia pensar no que ele havia dito: Fez você feliz...
Afastei esses sentimentos e tirei Adrian dali o mais rápido que pude, descobrindo, no fim, que o mecânico ainda não tinha terminado a vistoria. Pelo menos na oficina pudemos arranjar um pouco de água para Adrian e ar-condicionado. Enquanto esperávamos, mandei uma mensagem para Brayden. Vou chegar uma hora atrasada por causa de uns problemas de família. Desculpe. Vou para aí assim que possível.
Cerca de trinta segundos depois, o celular vibrou: Só vai sobrar uma hora para visitarmos o museu de tecidos.
— É pouco tempo — Adrian disse, com cara de pau.
Não tinha notado que ele estava lendo por cima do meu ombro. Virei o celular e sugeri a Brayden que nos encontrássemos apenas para jantar. Ele concordou.
— Estou um desastre — murmurei, ao me olhar no espelho. Definitivamente havia pagado o preço por ficar no sol: estava suada e exausta.
— Não se preocupe — Adrian disse. — Se ele não viu como você estava linda naquele vestido vermelho, é provável que não note nada agora. — Hesitou e então acrescentou: — Não que haja alguma coisa para notar. Você está bonita como sempre.
Estava prestes a me irritar com ele por me provocar, mas quando o olhei, sua expressão parecia extremamente sincera. Qualquer que fosse a resposta que eu planejava dar, ela esmoreceu nos meus lábios e me levantei apressada para checar a situação do carro e esconder o quanto aquilo me perturbara.
O mecânico finalmente terminou o serviço, sem encontrar nenhum problema, e Adrian e eu seguimos para o centro. Ficava observando-o, preocupada, com medo de que fosse desmaiar.
— Pare de se preocupar, Sage. Estou ótimo — ele disse. — Mas... ficaria melhor com um sorvete. Até você precisa admitir que um sorvetinho cairia bem agora.
Cairia mesmo, mas não daria essa satisfação a ele.
— Qual é o seu lance com doces gelados? Por que você vive querendo um?
— Porque nós moramos num deserto.
Não havia argumento contra isso. Chegamos ao prédio e trocamos os carros de lugar. Antes que ele entrasse, o enchi de recomendações para beber muita água e repousar bastante. E então, falei o que vinha queimando dentro de mim.
— Obrigada pelo passeio na piscina — eu disse. — Tirando a parte em que você quase teve uma insolação, foi incrível.
Ele abriu um sorriso presunçoso.
— Talvez você acabe se acostumando com a magia dos vampiros.
— Não — respondi automaticamente. — Nunca vou me acostumar com aquilo.
Seu sorriso desapareceu.
— Claro que não — murmurou. — Até mais.
Finalmente cheguei ao jantar. Eu havia escolhido um restaurante italiano, repleto do aroma de alho e queijo. Brayden estava sentado a uma mesa no canto, bebericando água sob o olhar fixo da garçonete, que parecia impaciente para que ele fizesse o pedido. Sentei à frente dele, colocando minha bolsa do lado.
— Mil desculpas — eu disse. — Tinha que resolver uma coisa com meu... irmão.
Se Brayden estava bravo, não demonstrou. Era o jeito dele. No entanto, me lançou um olhar inquisidor.
— Era algum esporte? Parece que você correu uma maratona.
Aquilo não era um insulto, de maneira nenhuma, mas me pegou de surpresa, principalmente porque me fez lembrar do comentário de Adrian. Brayden não tinha quase nada a dizer sobre minha fantasia do Dia das Bruxas, mas tinha prestado atenção naquilo?
— Nós estávamos em Santa Sofia, levando o carro dele para uma vistoria.
— É um lindo lugar. Se continuar subindo a estrada, vai parar no Parque Nacional Joshua Tree. Você já foi lá?
— Não. Só li a respeito.
— É um lugar icônico. A geologia é fascinante.
A garçonete passou e fiquei feliz ao pedir um latte gelado. Brayden estava mais do que contente ao me falar sobre a geologia do parque, e logo caímos no ritmo confortável das nossas discussões intelectuais. Não sabia sobre a formação específica do parque, mas sabia mais do que o suficiente sobre geologia em geral para acompanhá-lo. Na verdade, conseguia conversar no piloto automático enquanto minha mente devaneava de volta para Adrian. Lembrei novamente o que ele havia dito sobre o vestido vermelho. Também não conseguia esquecer o comentário sobre me fazer feliz e como isso tinha feito seu sofrimento valer a pena.
— O que você acha?
— Ahn? — Percebi que acabara perdendo o fio da conversa, no fim das contas.
— Perguntei que tipo de deserto você acha mais interessante — Brayden explicou. — O deserto de Mojave é mais famoso, mas sinceramente prefiro o deserto do Colorado.
— Ah. — Retomei a conversa lentamente. — Humm, Mojave. Gosto mais das formações rochosas.
Isso desencadeou um debate sobre aquelas regiões enquanto comíamos, e Brayden parecia cada vez mais contente. Percebi que ele realmente gostava de ter alguém que acompanhasse o nível de sua conversa. Nenhum dos meus livros tinha dito nada sobre fisgar o homem pelos debates acadêmicos, mas eu não me importava. Gostava da conversa, mas ela não me causava nenhum frio na barriga. Precisei me lembrar de que ainda estávamos no começo do relacionamento — se é que podia chamar assim. Sem dúvida, a parte da paixão chegaria em breve.
Conversamos por muito tempo depois do fim do jantar. Sem que pedíssemos, a garçonete trouxe o cardápio de sobremesas quando terminamos e me surpreendi ao dizer:
— Nossa... não consigo acreditar na vontade que estou sentindo de um sorvete italiano. Isso nunca acontece comigo. — Talvez o suor tivesse esgotado todos os meus nutrientes... ou talvez ainda estivesse com Adrian na cabeça.
— Nunca vi você pedindo sobremesa — Brayden disse, colocando o cardápio dele de lado. — Não é açúcar demais pra você?
Essa era outra das frases insólitas dele que podiam ser interpretadas de inúmeras maneiras. Será que ele estava me criticando? Achava que eu não devia comer nenhum doce? Eu não sabia dizer, mas aquilo bastou para eu fechar o cardápio e colocá-lo sobre o dele.
Sem mais nada programado para a noite, decidimos dar um passeio depois do jantar. A temperatura estava mais amena e ainda estava claro o bastante para eu não ficar com medo de que os Guerreiros da Luz fossem surgir a cada esquina. Nem por isso ignorei os ensinamentos de Wolfe. Continuei de olho nos arredores, atenta a qualquer coisa suspeita.
Chegamos a um pequeno parque e encontramos um banco vazio num canto. Sentamos ali e, enquanto observávamos as crianças brincarem do lado oposto do gramado, continuamos nossa conversa sobre observação de pássaros no Mojave. Brayden colocou o braço ao redor de mim enquanto conversávamos, até que eventualmente o assunto acabou, e ficamos simplesmente sentados num silêncio confortável.
— Sydney...
Desviei o olhar das crianças e me virei para ele, surpresa pelo seu tom inseguro, completamente diferente do que ele tinha acabado de usar para defender a superioridade do pássaro-azul-da-montanha em relação ao pássaro-azul-ocidental. Havia doçura em seu olhar enquanto me fitava. A luz do crepúsculo fazia seus olhos cor de avelã ficarem num tom mais dourado do que de costume, mas ocultava completamente o verde, o que era uma pena.
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele se inclinou na minha direção e me beijou. Foi um pouco mais intenso do que o último, mas ainda estava longe dos beijos cinematográficos avassaladores. Dessa vez, ele pôs a mão no meu ombro, puxando-me delicadamente. O beijo também durou mais do que os anteriores, e tentei relaxar e me deixar levar pela sensação dos lábios de outra pessoa.
Foi ele quem interrompeu, um pouco mais abruptamente do que eu esperava.
— Des... desculpe — ele disse, desviando o olhar. — Não devia ter feito isso.
— Por que não? — perguntei, não por estar morrendo de vontade de beijá-lo, mas porque aquele parecia o lugar ideal para um beijo: um parque romântico ao pôr do sol.
— Estamos em público. Acho que é um pouco vulgar. — Vulgar? Eu nem tinha tanta certeza assim de que estávamos em público, já que não havia ninguém por perto e estávamos escondidos à sombra de algumas árvores. Brayden soltou um suspiro, desanimado. — Acho que perdi o controle. Não vai acontecer de novo.
— Tudo bem — eu disse.
Não me pareceu uma perda de controle tão grande, mas quem era eu para dizer? Fiquei pensando que, talvez, uma pequena perda de controle aqui e ali não fosse algo tão ruim. Não era esse tipo de coisa que resultava numa paixão? Mas isso eu também não sabia. Tudo o que sabia era que aquele beijo fora muito parecido com o anterior: bom, mas nada espetacular. Senti um aperto no peito. Havia algo errado comigo.
Todo mundo vivia falando sobre como eu era socialmente inapta. Será que isso se estendia ao romance também? Será que eu era tão fria que passaria o resto da vida sem sentir absolutamente nada?
Acho que Brayden interpretou mal meu desânimo e pensou que eu estava chateada com ele. Ele levantou e estendeu a mão para mim.
— Ei, vamos até uma casa de chá aqui perto. Eles têm uns quadros de um pintor da cidade que acho que você vai gostar. Além disso, chá não tem calorias, certo? Melhor que sobremesa.
— Certo — eu disse. Pensar no sorvete italiano não me animou em nada. O restaurante italiano tinha um de romã que parecia a melhor coisa do mundo. Ao me levantar, meu celular tocou, pegando ambos de surpresa. — Alô?
— Sage? Sou eu.
Não tinha por que ficar brava com Adrian depois do que ele havia feito por mim, mas por algum motivo fiquei irritada com aquela interrupção. Estava me esforçando para aproveitar ao máximo a noite com Brayden, e Adrian vinha atrapalhar tudo.
— Que foi? — perguntei.
— Você ainda está no centro? Precisa vir para cá, agora.
— Você sabe que estou com Brayden — eu disse. Aquilo era demais, até mesmo para Adrian. — Não posso largar tudo para ficar divertindo você.
— O problema não é comigo. — Foi então que notei que sua voz estava dura e séria. Senti um aperto no peito. — É Sonya. Ela desapareceu.

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