30 de outubro de 2017

Capítulo 17

Sydney

O COMPLEXO DOS GUERREIROS ESTAVA CALMO E SILENCIOSO enquanto eu caminhava pela noite. Trey e Sabrina haviam contado que os guerreiros faziam festas enormes de vez em quando, mas quando havia toques de recolher e disciplina, todos obedeciam. Esse definitivamente era o caso agora. A maioria das pessoas estava dormindo, e apenas quem estava em patrulha passava por mim enquanto eu caminhava invisível na direção da sede dos mestres. Ninguém parecia esperar que muita coisa acontecesse naquela noite, e as rondas eram feitas com uma tranquilidade confiante.
Outra porta aberta permitiu que eu me infiltrasse no prédio dos mestres com facilidade, bem na frente de um guarda que vigiava a entrada. Lá dentro, praticamente só salas vazias e silenciosas e, assim como no meu prédio, quase todas as portas estavam abertas. Havia, claro, algumas salas fechadas, e quis a sorte que uma reunião dos mestres fosse atrás de uma dessas portas. Pelo menos foi o que imaginei que estivesse acontecendo. Dois guardas estavam posicionados em frente a uma porta fechada e pude ouvir vozes abafadas lá dentro. Memorizando a posição da sala, voltei para o lado de fora e dei a volta no prédio, na esperança de encontrar uma janela aberta que me permitisse entrar e espionar. Quando encontrei, a janela estava aberta apenas pela metade, o suficiente para deixar o ar entrar, mas não para eu passar por ela. Sabrina tinha dito que um dos mestres devia carregar informações pertinentes sobre a organização o tempo todo, em cópias impressas ou num laptop, dependendo de quem era e do quanto entendia de tecnologia. Meu plano era vasculhar essas informações na esperança de descobrir onde Jill estava. Por enquanto, poderia apenas ouvir a conversa deles.
Havia chegado bem a tempo do começo da reunião, o que a princípio pensei ser um golpe de sorte. Não tinha perdido nada, mas infelizmente tinha que suportar a introdução, incluindo mais daqueles salmos absurdos. Então alguém desviou o assunto e começou a perguntar sobre os jogos de beisebol. Durante todo o tempo, estava consciente da minha invisibilidade. Ia durar, mas não tanto, e senti um alívio quando o grupo finalmente começou a falar sobre as questões do dia.
— No geral, foi uma demonstração forte — disse uma voz que reconheci como a de mestre Angeletti. — Tivemos um bom resultado e fizeram um espetáculo louvável.
— Alguns saíram da linha — resmungou uma voz taciturna. Essa também reconheci: Chris Juarez.
Mestre Angeletti riu.
— Ainda está incomodado porque aquela menina enganou você? Eu diria que ela merece mais crédito. Precisamos de mais gente inteligente por aqui.
— Mas não muitos. — Esse era mestre Ortega.
— Não, claro que não — mestre Angeletti disse. — Mas, se vamos negociar mais com os alquimistas, precisamos ser mais espertos do que eles.
Meus ouvidos formigaram com isso. Os alquimistas? No passado, havia feito uma investigação para Marcus e descoberto que realmente havia alquimistas e guerreiros trabalhando juntos, mas Marcus ainda precisava descobrir a real extensão da relação entre eles.
— Já somos mais espertos do que eles — mestre Ortega disse. — Nós os fizemos trabalhar conosco.
— Sim, mas não se acostume com esse acordo — disse uma nova voz que devia ser de um dos membros do conselho. — Você não disse que recebeu uma ligação sobre aquela menina, Alfred?
— Sim, sim — respondeu mestre Angeletti, sem parecer especialmente preocupado. — Mas era só algo preliminar. Um deles alegou que tinha recebido uma pista de que poderíamos estar com ela, mas acho que só estavam cobrindo todas as bases. Confirmei com os guardas e eles disseram que não havia sinal de que alguém tivesse ido investigar ou procurar por ela. Mesmo assim, vou continuar registrando tudo aqui, para termos um histórico caso alguma coisa aconteça.
Só entendi o que ele quis dizer com “registrar” quando ouvi o som de teclas. Fiquei tensa, esperando que eles falassem mais sobre “aquela menina”, mas mudaram de assunto e voltaram a falar sobre as provas. Isso, porém, me reanimou. Sabrina tinha razão. Havia um computador lá dentro onde, pelo que entendi, mestre Angeletti estava anotando os registros. Será que haveria mais informações registradas sobre “aquela menina”? Não tinha certeza se estavam se referindo a Jill, mas isso era promissor, assim como a existência do laptop. Meu objetivo era obter acesso àquele computador. Não seria fácil, considerando que não fazia ideia de quanto tempo duraria aquela reunião ou se mestre Angeletti levaria o laptop com ele quando acabasse. Estava listando todas as distrações que poderia causar quando os alquimistas foram citados de novo na conversa, de forma completamente inesperada.
— Bom, mas tome cuidado — mestre Ortega disse em resposta a outra pessoa. — Não faça besteira nesse acordo com os alquimistas. Se seu contato realmente puder cumprir o que está prometendo, não vamos precisar nos focar tanto nas qualidades físicas dos candidatos. Podemos tornar nossos recrutas tão fortes quanto quisermos.
— Continuo não gostando disso — murmurou outro membro desconhecido do conselho. — Estamos lidando com substâncias profanas.
— Não se as purificarmos antes — mestre Angeletti disse. — E se usarmos a força delas para combater o mal.
Franzi a testa enquanto tentava determinar a que eles poderiam estar se referindo.
— Já vi do que essas substâncias são capazes — Chris comentou. — Eu as vi sendo usadas na escola do meu primo. Se os alquimistas realmente tiverem mais daquilo, estarão desperdiçando se não usarem na luta contra o mal.
— Os alquimistas combatem o mal catalogando-o — outro riu.
— Não faça esse tipo de comentário quando estiver perto do nosso contato — mestre Ortega advertiu. — Ele já está hesitando sobre fazer negócios com a gente. O grupo dele não vai gostar se descobrir.
— Sei o que estou fazendo — retrucou mestre Angeletti. — E, acredite em mim, estou pagando o suficiente para ele não hesitar.
O tema da conversa voltou para os recrutas, analisando cada um de nós segundo o que os guerreiros viam como nossos prós e contras. Ouvi sem prestar atenção, pois minha cabeça estava a mil com a novidade surpreendente que tinha acabado de ouvir. Pelo que Chris havia dito, pareciam se referir ao uso de sangue de vampiro para criar tatuagens anabolizantes em humanos. Uma onda delas havia percorrido a Escola Preparatória Amberwood, aumentando as habilidades esportivas e acadêmicas dos alunos. O problema era que essas tatuagens eram imprevisíveis e, muitas vezes, causavam efeitos colaterais. A quadrilha tinha sido fechada quando ajudei a revelar o responsável, Keith Darnell. Ele então foi mandado para a reeducação e passou a se comportar com uma lealdade quase robótica.
Ou será que não?
Os guerreiros tinham se referido ao contato como “ele”. Não conhecia nenhum outro alquimista que participasse de atividades assim. Seria possível que Keith tivesse se libertado de parte da reprogramação? Será que ele estava fazendo uma negociação secreta com esses psicopatas? Uma negociação que daria força sobre-humana aos guerreiros?
Mais uma vez, ouvi o barulho das teclas, o que me lembrou da importância de investigar o que havia naquele laptop. Considerei algumas opções que possibilitariam dar uma espiada nele, mas logo as rejeitei. Os guerreiros podiam agir como se estivessem na Idade Média, mas era muito provável que mestre Angeletti bloqueasse o laptop com uma senha quando saísse. Provavelmente precisaria de assistência técnica para ver o que havia nele. Além disso, queria mais do que dar uma espiada. Se ele fazia os registros de todas as reuniões, mantinha um controle de ligações e transações importantes… As possibilidades do que aquele laptop poderia conter eram infinitas. Resgatar Jill era minha maior prioridade, mas podia sair dali com informações capazes de revelar muito mais.
Fui até os outros alojamentos e tirei Sabrina e Eddie de lá usando o feitiço de invisibilidade neles. Nenhum dos dois estava dormindo quando os encontrei, e conseguimos achar um lugar isolado atrás de um barracão para conversar.
— Você estava certa — eu disse a Sabrina. — Mestre Angeletti registra as informações num laptop. E ouvi algo que parecia muito uma referência ao cativeiro de Jill.
Eddie se empertigou.
— Então o que estamos esperando? Vamos lá pegar agora.
— Na verdade, era o que tinha em mente — eu disse. — Quer dizer, talvez haja formas mais delicadas de fazer isso, mas será que temos tempo? Já demoramos demais para encontrar Jill. — Me voltei para Sabrina. — Marcus deu a entender que você está preparada para o caso de seu disfarce ser descoberto. É verdade?
Ela arqueou a sobrancelha.
— Você está planejando estragar o disfarce?
— Não se puder evitar — eu disse. — Mas o resultado final disso tudo vai ser um laptop desaparecido, e eu e Eddie abandonando o recrutamento. Se nos ligarem ao roubo, vão ligá-lo a você também. Você pode ter problemas.
— Entendi — ela disse. — Se eu sair desse trabalho com o laptop como prêmio, vai valer a pena.
— Só tenho medo que venham atrás de você — eu disse.
Sabrina não se deixou abalar.
— Não se preocupe comigo. Esses caras não têm tantos contatos quanto os alquimistas e sei como fugir deles. Agora, qual é o plano?
— É bem simples, na verdade — admiti. — Criar uma grande distração e roubar o laptop no meio do caos.
Ela pareceu um pouco desapontada, talvez porque estivesse esperando algo mais elaborado. E, se tivesse tempo de inventar um plano mais sofisticado, eu teria feito. Eddie, por outro lado, não viu problemas na minha ideia. Era simples e direta, como ele gostava.
— Fogo? — ele sugeriu.
— Considerei isso. Mas como esses prédios são tão próximos… — Fiz um gesto para mostrar como tudo fica perto no complexo. — Enfim, não gosto deles, mas não quero matar todo mundo se o incêndio sair do controle. Acreditem ou não, vou usar uma ideia da Alicia. Uma ideia mágica, para ser mais exata.
— Alicia provavelmente botaria fogo no lugar inteiro — ele apontou.
— Sim, mas ela tem métodos menos violentos também. Enquanto estava esperando em Palm Springs, pesquisei alguns feitiços que ela usou contra nós. A maioria era muito avançada, mas acho que consigo fazer o das fotianas.
— Foti… o quê? — Sabrina perguntou.
— Pense nelas como vaga-lumes mutantes — Eddie explicou.
Assenti.
— Acho que um enxame delas seria uma distração boa o bastante para tirar os mestres da reunião. Assim consigo pegar o laptop e podemos fugir durante o caos. Sabrina, você acha que consegue sair e preparar o carro?
— Claro. Os guardas no portão não vão me deter. E se tiver um grande tumulto, posso fingir que estou indo pegar armas no carro e que Eddie está me ajudando. — Ao ver nossos olhares surpresos, ela revirou os olhos. — Ah, vá. Vão me dizer que não imaginavam que todo mundo aqui tinha armas no carro?
A questão passou a ser se eu realmente conseguiria executar o feitiço de Alicia. Tinha decorado as palavras depois de ler sobre ele, mas magia era mais do que memorização. Invocar criaturas sobrenaturais não era uma tarefa fácil, muito menos sem nenhum componente físico para auxiliar. Proferi as palavras, me concentrando no poder dentro de mim, e senti a magia acender em resposta. O feitiço sobre o qual havia lido tinha um elemento de controle, uma forma de a bruxa direcionar as fotianas segundo sua vontade. Meu plano era fazer com que elas dessem voltas regulares pelo complexo, o suficiente para causar uma distração e tirar a atenção de todos sem causar uma destruição completa no complexo.
Infelizmente, as coisas não correram exatamente como eu planejava.
Precisei de muito mais poder e energia do que imaginava para lançar o feitiço e, por mais que conseguisse executá-lo com dificuldade, não pude manter absolutamente nenhum controle. Um enxame de fotianas se materializou à minha frente, pairando ali por um momento antes de se espalhar e voar pelo complexo em alta velocidade e em direções completamente diferentes. Ficamos encarando, boquiabertos.
— Elas eram tão rápidas assim no museu de robôs? — Eddie perguntou, com os olhos arregalados.
— Acho que não — respondi. — Talvez não tenha lançado direito. Também não pretendia invocar tantas.
No entanto, se o que queríamos era caos, conseguimos. As fotianas chamaram a atenção imediatamente, girando e rodopiando pelo complexo, deixando rastros de luz atrás de si. E, assim como no museu, picavam quem tocava nelas. Gritos estridentes surgiram quase na mesma hora, e com eles um berro que não estava esperando.
— Apocalipse! O Apocalipse caiu sobre nós! Guerreiros, peguem as armas!
Sabrina abafou uma exclamação e virei para ela, surpresa.
— Estão falando figurativamente, certo?
Ela balançou a cabeça rapidamente.
— Está brincando? Essas pessoas? É pra isso que estão se preparando. Mas não imaginei que tomariam esse feitiço como um sinal!
— Olha! — Eddie apontou para um grupo de guerreiros correndo na nossa direção. Comecei a entrar em pânico. Como eles tinham ligado as fotianas a nós?
— O barracão — Sabrina explicou, levando-nos para longe dele. — É pra lá que estão indo. Fazem treinos para o Apocalipse e as armas que usam ficam lá.
De fato, uma multidão de guerreiros não prestou atenção em nós enquanto se amontoava em volta do barracão e esperava que fosse destrancado. Assim que isso aconteceu, alguém começou a passar espadas e clavas para o grupo. Depois de armados, correram de volta para o centro do complexo, atacando loucamente as fotianas, que chamavam de “demônios do inferno”.
— Bom — eu disse, precisando gritar para ser ouvida em meio a todo aquele barulho —, eles estão bem distraídos. Vocês podem ir preparando o carro enquanto pego o laptop?
Sabrina concordou, mas Eddie disse:
— Deixa que vou com você.
— É mais fácil entrar e sair sozinha — respondi.
— Sydney…
— Eddie — eu disse, decidida. — Consigo fazer isso. Você precisa confiar em mim. Vai com a Sabrina e se prepara para sair correndo daqui assim que eu atravessar os portões.
Pensei que continuaria insistindo, mas ele cedeu. Os dois partiram rumo ao portão enquanto voltei correndo para a sala de reunião, desviando dos guerreiros armados enlouquecidos e das fotianas no caminho. Felizmente as coisas estavam tão caóticas que ninguém prestou atenção numa recruta solitária. Devem ter achado que estava perdida e confusa. Na verdade, eram grandes as chances de que pensariam que sumimos por medo e nunca ligassem o desaparecimento do laptop a nós ou a Sabrina.
Como esperava, os mestres tinham saído correndo da reunião com o tumulto. Entrei na sala vazia com facilidade e quase pulei de alegria ao ver o laptop abandonado lá. A tela pedia uma senha, como tinha desconfiado, mas esse era um problema para depois. Eu o peguei e segui para a porta — onde quase trombei com mestre Angeletti. Ele ficou perplexo por um momento, olhando de mim para o laptop e depois para mim de novo.
— O que pensa que está fazendo? — ele falou, bloqueando a saída.
E pensar que não queríamos estar envolvidos no roubo do laptop… Demorei um momento para decidir o que fazer. Se meu disfarce havia sido descoberto, já era. Lembrando do treinamento de Wolfe, acertei um soco no mestre Angeletti pelo qual ele obviamente não estava esperando. Tinha me esquecido completamente do feitiço de força que as bruxas colocaram em mim. Com a força extra, ele saiu voando alguns metros e caiu no chão. Gemendo, levou a mão à cabeça mas não veio atrás de mim quando passei correndo por ele e voltei a atravessar o complexo às pressas.
Ninguém me deteve enquanto corria até o portão principal. Os guerreiros estavam ocupados demais brandindo as armas contra as fotianas, gritando sobre a última batalha e sobre mandar os inimigos para o inferno. Os guardas dos portões tinham abandonado seus postos para entrar na briga. Consegui escapar fácil, e fiquei feliz ao encontrar o carro de Sabrina com o motor ligado, pronto para partir. Entrei no banco traseiro tropeçando e ela pisou no acelerador antes mesmo que conseguisse fechar a porta.
— Pegou? — ela perguntou enquanto acelerava para longe.
— Peguei — respondi, prendendo o cinco de segurança. — Mas, hum, não foi tão discretamente quanto pretendia. Acho que você vai ter que seguir aquele plano de ficar longe deles no fim das contas.
Ela riu.
— Sem problemas, ainda mais se esse laptop valer a pena.
Abracei o objeto contra o corpo.
— Vamos torcer. Para onde vamos levar o computador?
— Para Marcus, óbvio.
Marcus ainda estava hospedado na casa de Howie no deserto, e o sol já estava quase nascendo quando chegamos lá horas depois. Minha esperança era que Adrian estivesse lá, mas quando entramos encontramos apenas Marcus no sofá, comendo bolachinhas de café da manhã e folheando uma revista velha.
— Acho que ele está com as suas bruxas — ele explicou, devolvendo meu celular na hora.
Em troca, dei o laptop para ele.
— Conhece alguém que possa desbloqueá-lo?
Marcus sorriu.
— Na verdade, sim. Nosso anfitrião.
Fiquei encarando com cara de idiota por um momento.
— Howie?
— Sim. Acredite ou não, ele trabalhava com computadores antes de “se aposentar” e entrar no mercado de ervas. Vou pedir pra ele agora mesmo. — Marcus desapareceu pela cortina de miçangas.
Na mesma hora, liguei para Adrian, mas caiu na caixa postal. Era difícil saber em que horário ele estava e, se fosse no horário humano, devia estar dormindo. Contendo um bocejo, concluí que dormir não parecia uma má ideia depois da minha aventura noturna. Eddie e Sabrina concordaram. Marcus prometeu que ninguém nos incomodaria enquanto dormíamos na sala. Peguei no sono quase instantaneamente e acordei algumas horas depois, com o som dos sussurros de Eddie e Marcus. Sabrina ainda estava dormindo no pufe.
— Alguma novidade? — perguntei baixinho, caminhando até eles.
— Howie conseguiu logar bem fácil — Marcus disse. — Mestre Angeletti não é muito cuidadoso com a segurança. Passei a última hora lendo alguns arquivos.
— Descobriu onde estão mantendo Jill? — perguntei, ansiosa.
— Sim — Marcus respondeu. — Era o que estava falando para Eddie agora. Está tudo aqui… Quer dizer, quase tudo. Falam dela, mencionam há quanto tempo está presa, têm plantas do lugar onde está. Há detalhes até dos termos que negociaram com Alicia.
— Termos? — perguntei.
— Pelo jeito, fizeram algum tipo de acordo. Alicia queria que ela ficasse mantida por um tempo, provavelmente para ter uma moeda de troca com você, mas os guerreiros queriam que ela fosse usada em algum tipo de ritual bárbaro de execução.
Meu coração parou.
— Exatamente como fizeram com Sonya.
— Parece que sim — Marcus disse, desolado. — Segundo o acordo que fizeram com Alicia, só precisam manter Jill presa por mais três dias.
Meu queixo quase caiu.
— Três dias?
— Precisamos ir pra lá agora! — Eddie disse, com uma expressão perturbada.
Estava inclinada a concordar.
Marcus nos lançou um olhar preocupado.
— Esse é o problema. Lembra que falei que temos “quase” todas as informações? A única informação que falta é a localização. Eles se referem ao lugar como “Complexo do Julgamento Final”.
Teria rido se a situação não fosse tão horrível.
— Que nome idiota. Mas isso pode ser suficiente para os alquimistas agirem. Eu mesma vou falar com eles dessa vez e ver se consigo chamar sua atenção.
— Ah — Marcus acrescentou. Havia um sorriso seco em seu rosto que não consegui interpretar direito. — Tenho uma coisa que pode ajudar com isso. Sabia que os guerreiros estão comprando sangue de vampiro encantado de alquimistas corruptos?
Lembrei do que tinha ouvido no complexo.
— Na verdade, sim. Ia perguntar se você conseguiu descobrir alguma coisa sobre isso também. É Keith quem está fazendo isso?
— Não — Marcus respondeu, virando a tela na minha direção. — Aqui está a lista.
— Entendi — disse depois de ler.
— Pois é. Aposto que os alquimistas ficariam interessados nela… e em muitas outras interações entre guerreiros e alquimistas que estão rolando.
Concordei, mas antes de responder meu celular tocou, indicando o número de Adrian na tela.
— Um momento. — Atendi, aliviada. — Adrian, você está bem?
Ele riu do outro lado da linha.
— Sabia que perguntaria isso. Foi você que acabou de entrar disfarçada no esconderijo dos guerreiros, não eu. — Ele se interrompeu. — Já saiu de lá, né?
— Sim, e conseguimos o que precisávamos… mais ou menos. Temos todos os detalhes sobre o lugar onde estão mantendo Jill, só falta a localização geográfica.
Houve uma longa pausa.
— Olha só que coisa — ele disse. — Foi a única coisa que consegui tirar de Alicia. Fica em St. George. Mas não conseguimos nenhuma outra informação dela sobre o lugar, não sem usar, hum, mais força. Ela insinuou que poderia haver alguns obstáculos lá.
— St. George — repeti. Quase caí no chão de tanto alívio. — É isso então. A última peça do quebra-cabeça. Temos o resto: a planta do lugar, tudo sobre os obstáculos a que ela se referiu. Agora só falta mobilizar todo mundo. O problema é que só temos três dias pra isso.
— Por que três dias?
— Porque o plano deles é sacrificar Jill daqui a três dias, assim como planejavam fazer com Sonya. Foi o trato que fizeram com Alicia.
Outra pausa silenciosa, mas percebi a mudança na voz de Adrian quando falou:
— Três dias. — Sabia como devia ser difícil para ele. A ideia dela presa, sendo torturada, me angustiava, mas nossa amizade não era nem de perto tão forte quanto a deles.
— Vamos resgatar Jill — eu disse. — Não se preocupe. Agora que sabemos tudo isso, vou dar um jeito de fazer os alquimistas ajudarem. Entre em contato com os guardiões, vê se Rose e Dimitri conseguem organizar isso. E aproveita pra saber como Declan está…
— Já sei — ele interrompeu. — Como Declan está, quero dizer. Acho que estou deixando minha mãe maluca de tanto que ligo pra ela. Estão bem. Mas, Sydney… contei para Neil.
Minha mente estava agitada com os planos para resgatar Jill, mas essa notícia me paralisou.
— Sobre Declan? O que ele disse?
— Está com medo de ficar perto de Declan. Quer dizer, não com medo do Declan em si, mas de que alguém descubra a verdade sobre a origem dele.
— Mas ele é o pai — eu disse, incomodada. — Precisa ficar com ele.
Adrian suspirou.
— Foi o que eu disse pra ele! Mas Neil argumenta que algum usuário de espírito poderia ver que eles são parentes ou mesmo que um leigo notaria a semelhança física e começaria a fazer perguntas. Ele diz que não pode demonstrar nenhum sinal de que têm um parentesco para ninguém resolver fazer um teste genético… e insiste que para isso precisa manter distância do bebê. Se ofereceu para fazer o possível para ajudar Declan em outros sentidos. Acho que ele roubaria um banco se precisasse.
Minha cabeça estava a mil.
— A gente convence Neil a mudar de ideia. Ele deve estar em choque só. Quando ouvir a voz da razão, vai entender.
Desligamos e torci para estar certa. Partia meu coração que Neil quisesse fazer um sacrifício desses, mesmo se, racionalmente, conseguisse entender o que o levava a pensar dessa forma. Mas mesmo assim. Como poderia privar Declan de um pai sendo que o bebê já tinha perdido a mãe? E o que seria de Declan?
Essas perguntas inquietantes tinham que ficar para depois. Por enquanto, precisava organizar as coisas com os alquimistas. Pedi para Eddie me levar ao outro lado de Palm Springs, até um telefone público num posto de gasolina afastado. Rastrear celulares não era fácil, mas não estava além da capacidade dos alquimistas, e não queria correr nenhum risco. Segurei o aparelho e me preparei para discar um número para o qual não ligava havia muito tempo, mas ainda sabia de cor. Só torci para que ela atendesse.
— Stanton falando — veio a voz conhecida.
— Oi, Stanton. Aqui é Sydney Ivashkov.
Ela ficou em silêncio, talvez pela surpresa ou para iniciar um rastreamento da ligação. Possivelmente os dois.
— Oi, Sydney — ela disse, finalmente. — Que surpresa agradável! Não posso dizer que estava esperando essa ligação.
— O prazer é todo seu e não vou repetir nada do que falar, então preste atenção. Os Moroi precisam de reforços alquimistas para resgatar Jill Dragomir dos Guerreiros da Luz. Imagino que já tenha ficado sabendo disso pela rainha Vasilisa.
— Sim — respondeu. — E imagino que tenha ficado sabendo que nossos superiores decidiram não participar, visto que as evidências de que os guerreiros levaram a menina são apenas circunstanciais.
— Bom, agora temos provas, então você vai dar um jeito de fazer com que participem — eu disse. — Se fizer isso, vou dar os nomes de quatro alquimistas que estão vendendo sangue Moroi encantado para os guerreiros fazerem mais tatuagens anabolizantes. Aliás, vou te dar dois desses nomes agora: Edward Hill e Callie DiMaggio. Investigue esses dois. Você tem uma hora. Vou te ligar de novo, de outro número, por isso não adianta rastrear este aqui. Aí você vai me contar como vão mandar reforços para ajudar no resgate de Jill em St. George, Utah, dentro das próximas vinte e quatro horas. Se ela for resgatada com segurança, te dou os outros nomes. Até mais.
Desliguei e Eddie me encarou admirado.
— Isso foi incrível! Mas acha que vai funcionar de verdade?
Eu o segui de volta ao carro, torcendo para que a aposta valesse a pena. Dirigimos para outra parte da cidade até um restaurante chamado Tortas e Tal, que Adrian e eu costumávamos frequentar. Ficamos esperando ali, perdidos em nossos pensamentos, sem falar muito enquanto comíamos torta. Sabia que Eddie estava aflito pelo prazo curto que tínhamos para salvar Jill. Eu também estava. E me preocupava com Declan e Neil. Adoraria ir até a casa de Clarence para ver o bebê, mas enquanto os alquimistas continuassem vigiando o lugar, não poderia correr esse risco.
Quando o prazo de uma hora acabou, comprei uma lembrancinha para Adrian, pelos velhos tempos, e me preparei para ligar para Stanton novamente. Parte do motivo por que tinha escolhido o Tortas e Tal era que havia um telefone público no estacionamento.
— O que decidiram? — perguntei quando Stanton atendeu.
— Vamos ajudar — ela disse, contrariada. — Sua história sobre aqueles dois confere. Um grupo nosso está a caminho de St. George agora mesmo.
— Nossa — deixei escapar, impressionada. — Vocês agem rápido. Sabem aonde ir em St. George?
— Sabemos sobre um campo dos guerreiros lá. Vamos fazer um reconhecimento e descobrir se é neste que ela está.
— Tenho todas as informações sobre o lugar. Posso pedir para enviarem pra você — disse a ela. — Os guardiões…
— Também estão a caminho — ela completou. — Entramos em contato com eles e vamos coordenar nossos esforços para atacar juntos. Imagino que tudo vá acontecer ao longo das próximas vinte e quatro horas. Suponho que seja bom o bastante para você.
— É bom o bastante para você conseguir os outros dois nomes — respondi. Era difícil manter a frieza, considerando o alívio que senti ao ouvir que estavam sendo tomadas medidas para o resgate de Jill. O fato de que isso finalmente estava acontecendo, e tão rápido, me deixava eufórica. — Mas se quiser o resto das informações que tenho, precisa trabalhar por elas.
Houve uma longa pausa. Então Stanton perguntou:
— Que informações seriam essas exatamente?
— Tenho provas de outras interações entre guerreiros e alquimistas, negociações que você não deve saber. Negociações que espero que você não saiba. — Stanton era uma defensora das regras, mas queria acreditar que era uma das melhores alquimistas. — Vou dar todas essas informações também. E vou garantir que os Moroi não fiquem sabendo disso tudo. Vocês os obrigam a depositar uma confiança enorme na ajuda de vocês, mas tenho a impressão de que não colaborariam tanto se soubessem que há alquimistas trabalhando com o inimigo.
— O que você quer? — foi tudo que ela perguntou. Isso significou várias coisas, mas sobretudo que ela tinha consciência de que era possível haver traidores entre eles.
— Anistia para todos que libertamos da reeducação. E um fim a essa prática.
Ela respirou fundo.
— Impossível.
— De que adianta a reeducação, Stanton? — perguntei. — Não funciona em metade dos casos. Tinha gente lá havia séculos. E, mesmo quando parece que funciona, nunca mais vão confiar naquelas pessoas. É o caso de Keith. Ele está sempre sob vigilância. Se quiserem ajudar a proteger humanos do mal, do verdadeiro mal, que são os Strigoi, devem usar melhor seus recursos.
— Podemos discutir isso depois que resgatarmos Jill Dragomir — ela disse, inflexível.
— Não. Vamos discutir isso agora. Anistia para todos, incluindo eu e Adrian. Quando isso acabar, quero circular com ele por onde bem entender e levar uma vida normal. Não quero alquimistas passando de carro ou me vigiando em restaurantes. Quero ser deixada em paz para seguir meus próprios interesses. Em troca, vou dar uma cópia do que encontrei num laptop do mestre Angeletti dos guerreiros. E prometo que não vou fornecer essas informações aos Moroi, a menos que violem os termos do trato.
Ao erguer os olhos, vi Eddie examinando os cartazes na porta do Tortas e Tal, e fiquei contente por ele não estar me ouvindo. Provavelmente não gostaria da ideia de que eu esconderia algo que pudesse interessar seu povo, mas eu estava negociando a minha vida e a de outros ex-alquimistas. Não podia escolher entre alquimistas e Moroi. Precisava cuidar dos que tinham sido apanhados no meio de suas negociações.
— Vou ser sincera com você — Stanton disse, por fim. — Temos muitas dúvidas sobre a utilidade da reeducação, se realmente é o que queremos. Mas não posso aceitar esse trato sozinha. Você sabe disso. Preciso levar os termos para os demais. O que posso prometer a você é anistia pelo resto dessa campanha em St. George. Se quiser participar, tem a minha palavra de que não precisa ter medo dos alquimistas. Depois, informarei o que os outros têm a dizer sobre o resto.
Algo na voz de Stanton e o que conhecia do caráter dela me levaram a acreditar.
— Certo — eu disse. Tentei manter a voz altiva, como se estivesse fazendo um grande favor a ela por aceitar essa concessão. No fundo, estava ansiosa para botar o plano em prática.
Era hora de trazer Jill de volta para casa.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)