19 de outubro de 2017

Capítulo 17

Adrian

POR MUITO POUCO NÃO IGNOREI MINHA RAINHA e fui direto para o quarto de Sydney. Tinha entendido o que ela queria dizer mais claramente do que se a aura dela tivesse se acendido diante dos meus olhos. Sabia o que ela desejava e, meu Deus, como eu queria também.
Mas o rosto severo de Mikhail quebrou o clima e, por mais que fôssemos amigos, eu ainda era súdito de Lissa. Então voltei quase correndo para o palácio, louco para narrar a história para ela e depois voltar às pressas para os braços de Sydney.
Infelizmente, Lissa tinha outros planos.
— Você vai embora — ela disse, assim que entrei. Christian estava ao seu lado, com os braços cruzados e uma expressão furiosa. — Fiquei sabendo de tudo. Os alquimistas vão ficar malucos quando Sydney contar o que aconteceu e é melhor a gente controlar os danos tirando-a daqui o mais rápido possível, o que significa que você e Neil também precisam ir.
— Não se preocupe — Christian disse. — Vou terminar o que você começou com aqueles caras amanhã.
— Christian — Lissa repreendeu, com um tom incrivelmente parecido com o de Sydney quando estava exasperada.
Ele ergueu as mãos.
— Que foi? Aqueles caras merecem coisa muito pior do que estão recebendo e você sabe disso, Liss.
— Sei que existem leis — ela retrucou, paciente. — E preciso respeitar essas leis.
Christian não falou nada, mas nossos olhares se cruzaram por um breve momento de compreensão mútua. Ele podia não saber que eu tinha sido movido por sentimentos românticos para defender Sydney, mas eu sabia que ele odiava pessoas que intimidavam as outras. Eu e ele ainda tínhamos muito a resolver entre nós, mas, naquele momento, me consolei por saber que Wesley e seus amigos cretinos encontrariam suas roupas ligeiramente chamuscadas no dia seguinte.
— Marcamos um voo matutino na Filadélfia — Lissa continuou. — Se saírem agora, vão conseguir chegar a tempo.
Todos os pensamentos sobre uma vingança chamejante desapareceram. Sair agora? E abandonar a privacidade do quarto de Sydney e de uma rara noite juntos? Eu queria rir e chorar ao mesmo tempo. Estávamos tão perto! Tão perto de finalmente dar esse passo na nossa relação. E não havia nenhum argumento lógico que eu pudesse dar, porque o que Lissa e Christian estavam sugerindo era absolutamente válido para uma alquimista naquela situação… ou seria, se Sydney fosse qualquer outra alquimista.
— Neil não vai querer deixar Olive — eu disse, pouco convincente.
— Neil é a pessoa menos importante no momento — Lissa afirmou, incisiva. — Além disso, está com Sonya. Ela o está monitorando em busca de efeitos colaterais.
E assim, em menos de uma hora, estávamos na estrada. Sydney estava dirigindo de novo e, dessa vez, consegui ficar no banco do passageiro. De vez em quando, ousava dar um toque discreto no braço ou na perna dela quando achava que Neil não estava olhando. Ela sorria toda vez, embora sempre mantivesse os olhos na estrada. Eu adorava aqueles sorrisos, ainda que nenhum de nós estivesse animado com a partida súbita. Neil realmente não queria deixar Olive. E Sydney e eu não queríamos abandonar nosso santuário.
— Está mais escuro do que eu imaginava — ela comentou em certo momento. Tínhamos partido ao entardecer, mas nuvens pesadas fizeram anoitecer mais cedo.
— O que a previsão do tempo dizia? — perguntei.
— Não sei — ela admitiu. — Esqueci de olhar.
Pus a mão no peito, fingindo espanto. Brincadeiras à parte, era muito raro ela esquecer essas coisas.
— Sydney Sage despreparada? A que ponto chegamos?
Ela sorriu de novo.
— Não fui eu quem planejou a viagem.
— Que bom que você me tem como copiloto, então. — Peguei o celular e senti meu bom humor se desfazer ao olhar o aplicativo de tempo. — Droga. Aviso de nevasca nas montanhas.
— Como assim? Por que ninguém nos avisou? — ela exclamou.
— Também não devem ter olhado. Quem marcou o voo só deve ter se preocupado com o horário. Aposto que o tempo não está assim na Filadélfia.
O rosto de Sydney ficou grave e, pela primeira vez, prestei atenção de verdade nas condições em que estávamos. Mal conseguia ver a estrada através da grossa cortina de névoa que descia. Ela suspirou.
— Ainda vai demorar quase duas horas para chegarmos. Acho que a gente devia dar meia-volta e esperar passar. Vocês tem ideia da direção da tempestade?
— A corte está numa altitude mais baixa — Neil disse, do banco de trás. Ele devia querer voltar para onde Olive estava. — Menos neve e menos curvas…
Talvez fosse o gelo na estrada, talvez fosse a neve. Talvez Sydney estivesse mais cansada do que eu imaginava. O que quer que fosse, ela fez uma curva na montanha sinuosa e os pneus do carro cantaram e deslizaram, nos jogando para o acostamento. Ela deu um grito e mal tive tempo de ver o pinheiro antes de o carro bater nele com tudo e os air bags bloquearem minha visão.
O tempo parou. Pareceu levar uma eternidade — ou uma fração de segundo — até eu recuperar a consciência.
Era um pesadelo ganhando vida.
E, naqueles segundos depois que os air bags se desinflaram, quando tudo estava parado, eu só conseguia pensar uma coisa: Sydney morreu e não há nada que eu possa fazer.
Eu me virei para ela, com o coração na garganta, e a vi tentando tirar o cinto.
— Graças a Deus — murmurei, estendendo o braço para ela. Ela apertou a minha mão, com firmeza e confiança. Lembrando-me de Neil, eu estava prestes a me virar quando o ouvi se mexendo no banco de trás.
— Está todo mundo bem? — ele perguntou.
— Acho que sim — Sydney disse. — Talvez um pouco tonta. Já do carro não posso falar o mesmo.
Saímos para ver o estrago. Minhas pernas estavam bambas, mas era principalmente o choque. Eu podia ver a mesma sensação no rosto deles. Felizmente, não havia nada além disso. Nenhum ferimento de verdade. Tínhamos batido contra um pinheiro, esmagando a frente do carro, mas o impacto não teve força suficiente para nos esmagar também. Eu não passava muito tempo pensando em forças superiores, mas, se uma delas tinha sido responsável pela nossa salvação, eu estava grato.
Neil se ajoelhou para dar uma olhada no para-lama amassado.
— Podia ter sido muito pior. Não sei o que você fez, mas minimizou o acidente.
— Só girei o volante para dentro da curva da derrapagem — Sydney disse, com todo o seu talento de direção. — Sem freios.
— E sem sinal — falei, olhando para o celular. — Acabei de perder o meu.
Ela pegou o dela.
— Eu tenho. — Claro que tinha. Os celulares alquimistas deviam estar conectados a uma antena de alta tecnologia na Lua. Não que conseguíssemos ver a lua naquela noite. Era tudo neve, escuridão e um frio intenso. Mesmo no meu casaco mais pesado, o frio penetrava em meus ossos enquanto eu a esperava ligar atrás de ajuda.
Ela fez uma careta ao desligar.
— Estão mandando um guincho, mas pode levar mais de uma hora.
— Então vamos voltar pro carro — eu disse.
Entramos, mas descobrimos que o carro não estava ligando. Só podíamos torcer para que o calorzinho de antes continuasse lá dentro. Eu queria trazer Sydney para os meus braços, mas mantivemos uma distância respeitável no assento dianteiro. Mesmo assim, fora do campo de visão de Neil, ela pousou a mão na minha perna.
O tempo foi passando e o carro ficava cada vez mais frio. Sydney se aconchegou em seu casaco de pele e pude ouvir Neil esfregando as mãos no banco de trás. Eu estava prestes a mandar as boas maneiras para o inferno e abraçar Sydney — talvez até Neil — quando ela colocou a mão no trinco da porta e disse:
— Chega.
Para o meu assombro, ela saiu andando até a beira da estrada, desaparecendo em meio à cortina de neve. Juntos, Neil e eu fomos correndo atrás dela.
— Sydney? — chamei.
Nós a encontramos ajoelhada numa clareira que já estava coberta por uns trinta centímetros de neve. Eu ia perguntar o que ela estava fazendo quando uma chama se acendeu de repente na ponta de seus dedos. Uma bola de fogo surgiu entre suas mãos, mais ou menos do tamanho de uma bola de praia. Com cuidado, como se segurasse uma porcelana delicada, ela a colocou no chão, onde o impossível aconteceu: o fogo continuou a queimar sobre a neve. Depois de estudar a chama por mais alguns momentos, ela removeu as mãos lentamente e as pousou no joelho.
Prendi a respiração. Eu a tinha visto fazer aquele feitiço várias vezes, mas ela havia progredido a uma velocidade assustadora. A princípio, Jackie lhe ensinara a bola de fogo como uma arma que ela poderia lançar, e dissera que sustentar o feitiço consumia muita energia. Sydney, porém, parecia perfeitamente tranquila. Eram os olhos de Neil que estavam enormes sob a luz bruxuleante.
— Como você fez isso? — ele exclamou.
— Não — ela disse, sem olhar para ele. — Não fale nada. — Havia uma autoridade em sua voz que Neil logo entendeu. Sem dizer uma palavra, ele se sentou ao lado dela no chão para aproveitar o calor da chama. Ficamos assim por muito tempo, até vermos o brilho de faróis em meio à neve. Sydney deixou o fogo arder até eles pararem e, então, rapidamente apagou a chama e foi até a estrada.
Um guincho havia estacionado no acostamento e o motorista saiu, estreitando os olhos na direção de que viemos.
— Que luz era aquela? — ele perguntou.
— A gente tinha um sinalizador — Sydney respondeu.
O carro não tinha entrado em nenhuma vala e só foi preciso um pouco de jeito para encaixar no guincho.
— Não faço ideia de quanto tempo vai demorar — ele disse, lentamente puxando o carro para a estrada. — Tenho a impressão de que vai ser uma noite difícil. Tem um lugar a alguns quilômetros daqui onde vocês podem ficar. Deixo vocês lá e volto para a oficina, que fica um pouco depois. Amanhã a gente pensa nos detalhes.
Esses poucos quilômetros demoraram uma eternidade a trinta quilômetros por hora, mas, por fim, distinguimos as luzes de uma casa. Ele tomou uma saída e parou o guincho em frente a um lugar aconchegante em cuja placa se lia Pousada do Vale Poconos. Sydney trocou informações com o motorista e todos lhe agradecemos por ter ido ao nosso resgate. Então ele partiu com o guincho, para salvar outros motoristas perdidos.
Dentro da pousada, uma senhora na recepção ergueu os olhos, surpresa, quando nos viu entrar.
— Minha nossa — ela disse, se levantando. — Não estava esperando ninguém hoje.
— A gente também não estava esperando vir aqui — eu disse. — Sofremos um acidente alguns quilômetros para trás.
— Coitadinhos. Bom, estamos bem vazios hoje, então não tem problema nenhum ficarem aqui.
Ela tinha um jeito doce de avó e até pensei que nos alojaria de graça, mas seus olhos brilharam quando Sydney tirou o cartão de crédito do bolso. Olhei ao redor enquanto ela preenchia a papelada, observando o lugar. Pouco tempo antes, Sydney e eu havíamos feito uma investigação numa pousada que redefinia o conceito de cafona. Essa era o contrário: embora estivesse cheia de antiguidades, a decoração era simples e delicada, expondo objetos e quadros sem que ficassem amontoados.
A dona da pousada nos deu três chaves e fez um tour rápido pelo andar térreo, mostrando onde tomaríamos café da manhã e onde guardava os lanchinhos para os hóspedes. Quando finalmente subimos, puxei Neil para trás e deixei que a mulher e Sydney seguissem na frente.
— Escute aqui — eu disse baixinho. — Sydney pode ter impedido que você perdesse um dedo para o frio. Se realmente vive segundo o código de honra de que sempre fala, não vai dizer uma palavra sobre o que viu. Se disser, vai arruinar a vida dela, o que seria uma coisa horrível de se fazer considerando que ela acabou de salvar a sua. Estamos entendidos?
Neil me encarou por alguns segundos tensos.
— Perfeitamente.
Eu teria gostado de usar um pouco de compulsão para garantir seu silêncio, mas havia algo em seu olhar firme que me fez confiar nele.
Ao chegar ao andar de cima, quis ir para o quarto de Sydney, mas decidi me acomodar no meu antes. Havíamos pegado nossa bagagem antes de o motorista ir embora e joguei minha mala de qualquer jeito num canto. Como o resto da pousada, o quarto era de bom gosto. A cama era de dossel e havia flores novas nos vasos. Passei os dedos sobre as pétalas macias das hortênsias azuis, admirado com o cuidado da dona da pousada mesmo quando nem estava esperando hóspedes. No banheiro, encontrei uma grande banheira de mármore e um chuveiro com box de vidro igualmente impressionante. Sentindo a sujeira da estrada no corpo, tirei as roupas e liguei a água no máximo. Ela escaldou minha pele, mas a sensação era maravilhosa depois daquele frio cortante.
Ao sair, ouvi uma mensagem de texto chegar no Celular do Amor. Corri até ele. Você recebeu?, Sydney perguntou.
Recebi o quê?
Olha embaixo da porta.
Olhei e descobri que ela tinha passado a chave do quarto por ali. Sem me dar ao trabalho de responder, me vesti rápido e saí para o corredor, tomando a direção do número do quarto que estava na chave. Fiz menção de bater, mas imaginei que tivesse carta branca e entrei.
Fechei a porta atrás de mim, encontrando um quarto ainda mais bonito que o meu. Quase todas as luzes estavam apagadas e um fogo ardia na lareira à lenha. Sydney estava sentada na cama e se levantou quando me aproximei.
Ela estava nua.
Estanquei, deixando a chave cair no chão de madeira. Meu coração parou por alguns segundos para depois voltar a bater mais acelerado do que nunca.
— Venha — ela disse, com uma voz que não aceitava discussão.
Meus pés avançaram, mas tudo que eu conseguia ver era ela. Nem eu, nem qualquer outro artista do mundo teria habilidade o bastante para imortalizar sua beleza. Era impossível acreditar que ela tinha inseguranças em relação ao corpo. A luz do fogo reluzia em sua pele dourada e perfeita, e ela parecia uma deusa radiante das lendas. Quis me ajoelhar a seus pés e oferecer obediência eterna.
Quando me aproximei, ela pegou minhas mãos e as colocou em seu quadril. Fiquei surpreso ao me ver tremendo. Sob os cílios longos, aqueles olhos marrons e cor de âmbar com todos os tons de ouro possíveis encararam os meus com uma segurança que fez eu me sentir o novato naquela situação.
— Estou bem acordada agora — ela acrescentou.
Engoli em seco duas vezes antes de conseguir falar alguma coisa. Estávamos muito perto. Havia apenas alguns centímetros entre mim e o corpo glorioso que dominava meus sonhos — sonhos que, como descobri naquele momento, não eram nada perto da realidade.
— Não mereço isso — murmurei. Levantei as mãos para envolver seu rosto. — Não depois do que já fiz na vida.
— Já disse: esse capítulo da sua vida é passado — ela falou. — Não somos mais as mesmas pessoas. Estamos sempre mudando, sempre ficando melhores. Só o fato de você ter tomado o remédio… enfim, a questão não é só o que ele pode fazer. É a coragem que você teve para dar esse passo. Sempre acreditei em você, mas…
— Eu fiz você chorar — eu disse. Essa lembrança sempre seria uma ferida no meu peito.
— Chorei porque amo você e não sabia como ajudar. — Ela ergueu a mão e passou a ponta dos dedos nos meus lábios. O mundo estava girando à minha volta. — Esse foi meu erro. Você mesmo se ajudou. Não precisava de mim.
— Não, Sydney. — Minha voz estava rouca. — Preciso de você, sim. Você não faz ideia do quanto.
Aproximei meus lábios dos dela e foi como se todas as coisas que haviam acontecido na minha vida tivessem sido apenas uma preparação para aquele momento, como se minha vida começasse de verdade só naquele instante. Eu a puxei para perto e, se ela ainda tinha dúvidas se eu queria sentir o gosto de seu sangue, soube que elas desapareceram naquele momento. Era o gosto de sua boca que eu queria sentir, o gosto de sua pele… eram esses gostos que eu desejava ardentemente, essas coisas que me deixavam maluco. Suas mãos seguraram a ponta da minha camiseta e paramos o beijo rapidamente para que ela pudesse tirá-la. Ela passou a mão pelo meu peito e, dessa vez, era ela quem tremia. Olhei em seus olhos e vi que, embora eles ardessem de paixão, desejo e daquela necessidade primitiva que animava nossas raças desde o início dos tempos, havia nervosismo também.
Sydney não tinha experiência com aquilo, o que era uma situação rara para ela. Cabia a mim guiar, mas o problema era que eu também era inexperiente ali: nunca tinha estado com uma virgem antes. Nunca havia sentido essa pressão. Eu tinha sido descuidado com as outras meninas, mas sabia que, quer ficássemos juntos para sempre, quer acabássemos seguindo caminhos diferentes, Sydney julgaria todas as outras vezes em comparação com aquela.
Mas, enquanto guiava as mãos dela para meu cinto e depois a deitava na cama, eu sabia qual caminho seguiríamos. Ficaríamos juntos para sempre. Tinha de ser assim. Não havia como todos aqueles sentimentos entre nós diminuírem ou desaparecerem. Sua respiração estava acelerada e ela emaranhou as mãos no meu cabelo enquanto eu beijava seu pescoço e começava a descer para o seu peito. Percebi que ela estava esperando que partíssemos direto para a ação, rápida e furiosamente, mas fazia tanto tempo que eu queria ter acesso ao seu corpo que não estava disposto a acelerar as coisas. Por isso, não tive pressa para explorar toda aquela beleza que ela nem sabia que tinha. Era agonizante, mas também era doce e, pela primeira vez na vida, eu estava pensando mais na pessoa com quem estava do que em mim.
Quando voltei a aproximar minha boca da dela, com meu corpo deitado sobre o seu, ela se agarrou em mim com uma urgência em que não havia mais medo algum. E, então, aconteceu — aquilo com que eu vinha sonhando havia tanto tempo. Eu me perdi em seus braços, em seu toque, em tudo. Sonya costumava dizer que não acreditava em almas gêmeas, mas, naquela união, acreditei que alguma coisa em minha alma falou com a de Sydney, que essa conexão entre nossos corpos evocava algo maior que nós, algo predestinado.
E, quando acabou, eu não queria soltá-la. Olhei para o rosto dela, com as bochechas coradas e os fios de cabelo úmido, e pensei: Não importa se é uma união de animais selvagens ou uma junção sublime de almas: ela é minha e eu sou dela.
Deitamos de lado, ainda abraçados com força, e havia tantas emoções ardendo dentro de mim que pensei que explodiria. Queria repetir cem vezes que a amava, mas, ao olhar para ela, soube que não era preciso.
— Em que você está pensando? — perguntei.
— Que a gente devia ter feito isso há muito tempo.
Dei um beijo na sua testa.
— Não, a hora certa era essa. A hora em que tinha de ser. — Eu sabia que ela não acreditava em sorte e destino e, em outras circunstâncias, me daria um sermão sobre livre-arbítrio. Em vez disso, passou os dedos pelo meu pescoço e sorriu.
— Em que você está pensando? — ela perguntou.
— Em Rudyard Kipling.
Sua mão parou.
— Está falando sério?
— Que foi? Acha que não consigo pensar em poesia depois do sexo?
Ela riu.
— Adrian, faz tempo que aprendi que você é capaz de qualquer coisa. Só que esperaria Keats ou Shakespeare.
— Gosto do livro que você me deu. Os poemas são menores, e os mais malucos falam comigo. — Deitei de costas, joguei o braço acima da cabeça e fiquei olhando para o dossel transparente. — Estava pensando em A fêmea da espécie.
— Certo, por essa eu realmente não esperava.
— Não é sobre uma mulher cruel, por mais que pareça.
— Eu sei. — Claro que ela sabia.
— “Ela sabe, porque o avisa, e seus instintos não falham/ Pois a fêmea da espécie é mais letal do que o macho.” — Fechei os olhos por um momento, sentindo o amor, a exaustão e o êxtase no corpo. — Nós somos péssimos nisso, Sydney. Nós, homens. Estou completamente indefeso nas suas mãos agora. Vocês são tão bonitas e fascinantes e não conseguimos evitar. Fazemos guerras por vocês, seduzimos vocês… e vocês suportam tudo. A vida fica fácil pra nós aqui na cama.
Ela virou meu rosto na direção do dela.
— Não foi exatamente difícil pra mim.
— Mas mesmo assim a vida é fácil pra nós. Vocês são a força, os pilares… nossas defensoras, as defensoras de nossos filhos.
— Você está se subestimando. É tão forte quanto eu. Se não fosse, eu não estaria com você. Somos iguais, aconteça o que acontecer.
Eu não me sentia igual a ela. Ainda tinha a sensação vertiginosa de que Sydney era uma deusa vinda à terra e que eu não era digno dela. Ao mesmo tempo, não queria depender somente de sua força para manter minha vida nos eixos. Não queria uma mãe… quer dizer, pelo menos não para mim. Queria uma parceria, uma união como aquela que havíamos acabado de ter, mas em todos os aspectos da nossa vida.
Seguiríamos em frente de mãos dadas, e eu passaria o resto dos meus dias fazendo tudo para que nosso amor crescesse cada vez mais.
— Estou estragando tudo — eu disse. — Devia ter escolhido Keats.
— Não, é bom saber que o Adrian pensativo e metafísico ainda está aqui.
— É difícil se livrar dele, mesmo com os comprimidos.
Seu rosto se suavizou.
— É muito ruim? Ficar sem o espírito?
— Não, porque estar com você me dá um barato muito melhor que o do espírito, da bebida ou de qualquer coisa.
Seus olhos brilharam e ela piscou rapidamente para se recuperar.
— Você não estragou nada com Kipling. Entendi o que quis dizer. E espero que saiba que sinto exatamente a mesma coisa em relação a você. Eu me sinto fraca perto de você, mas forte ao mesmo tempo.
Eu não tinha mais dúvidas de que era digno. Éramos a força um do outro, mas também tínhamos nossa própria força. Suspirei e a puxei mais para perto.
— Acho que nunca vou conseguir expressar o quanto amo você.
— Bom — ela disse, com o olhar inflamado que eu conhecia bem —, você pode tentar.
E eu tentei, por boa parte da noite. E, como já sabíamos, ela aprendia rápido.
Fazia muito tempo que não me sentia tão feliz como quando acordei na manhã seguinte e a vi parada diante da janela usando só minha camiseta. Era tão insanamente sexy que todos os pensamentos racionais cessaram por um momento. Finalmente, consegui me levantar. Fui até a janela e a abracei por trás. Ela se recostou em mim.
— Olhe lá — ela murmurou.
Eu só queria olhar para ela, mas ergui os olhos para a janela. Tudo estava coberto por uma grossa camada de neve. Cercas, carros… tudo estava escondido. Havia uma camada de gelo sobre os galhos das árvores. A luz pálida do sol de inverno reluzia sobre a cena, transformando todas as coisas em um conjunto resplandecente.
— É surreal — ela disse. — Parece que tudo foi esculpido em diamante. É difícil acreditar que o mundo pode voltar ao normal depois disso.
Apertei o abraço.
— Eu sei — eu disse. — Eu sei.

3 comentários:

  1. AAAAAAH to atordoda! Que lindo, amei ter acontecido pela versão do Adrian.

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  2. AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA OBRIGADA MEU DEOS!!! MELHOR CASAL!!!!!!!!!!!!!! MELHORES PERSONAGENS!!!!!!!!! MELHOR TUDO!!!! <3 <3 <3

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  3. Eu gosto tanto do Adrian e fico extremamente feliz por ele estar tão tão tão feliz <3

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Boa leitura :)