13 de outubro de 2017

Capítulo 17

EMBORA NOSSOS PLANOS mágicos tivessem fracassado, a sra. Terwilliger havia pedido que eu passasse na sala dela antes das aulas na manhã seguinte, para que pudéssemos discutir nossa estratégia e os próximos passos. Quase não tive tempo de passar no restaurante, mas encontrei Jill, Eddie e Angeline sentados juntos. Parecia fazer muito tempo desde que todos estivéramos numa situação relativamente normal, e fiquei feliz com esse breve momento de amizade. Era um refúgio na tempestade que vinha sendo minha vida nos últimos tempos.
Jill estava sorrindo muito com alguma coisa em que Eddie não parecia ver a menor graça.
— Ele não me contou nada disso — ele disse.
— Claro que não. — Jill deu risada. — Está envergonhado demais.
Me sentei com a bandeja.
— Quem está envergonhado demais? — Eu sempre imaginava que qualquer menino de quem eles estivessem falando fosse Adrian, embora fosse difícil imaginar Adrian com vergonha de alguma coisa.
— Micah — Jill respondeu. — Eu o convenci a modelar para o clube de costura de novo. Dessa vez ele trouxe Juan e Travis também.
— Como conseguiu isso? — perguntei. Jill havia conhecido Lia através do clube de costura da escola. Quando Jill e Micah ainda namoravam, ela o havia convencido a servir de modelo para algumas roupas muito malfeitas. Ele tinha aceitado por amor, mas eu não tinha tanta certeza de que havia gostado.
Jill se debruçou na mesa, com um brilho eufórico no olhar.
— Claire fez Micah se sentir culpado. Foi muito engraçado. Mas não sei como ele convenceu Juan e Travis. Talvez eles estivessem devendo um favor a ele.
— Talvez eles tenham segundas intenções — Eddie disse. Fiquei surpresa com o tom dele até me lembrar das últimas novidades que havia me contado. Será? Claire era a nova namorada de Micah. Juan e Travis eram amigos dele, e gostavam de Jill. Eddie não gostava do fato de que eles gostavam dela. Entendi. Pelo jeito, Eddie não tinha escondido suas opiniões sobre o assunto, porque Jill revirou os olhos.
— Dá pra parar de se preocupar com isso? — ela pediu. Ela estava sorrindo, mas parecia um tanto incomodada. — Eles são caras legais. E não vou fazer nenhuma besteira. Não precisa ficar me dando sermão sobre humanos e Moroi. Aprendi a lição.
Seus olhos cor de jade se voltaram para mim, e o sorriso dela vacilou um pouco. Ela me examinou por um momento longo e angustiante, e fiquei curiosa para saber em que estava pensando. Será que ainda tinha esperança de um final feliz entre mim e Adrian? Será que estava se perguntando por que eu e Adrian nos metíamos em tantas situações de intimidade? Eu também queria saber por quê. Por fim, Jill desviou o olhar, retomando o bom humor.
— Só estou cuidando de você — Eddie disse, obstinado.
— Você tem que cuidar dos assassinos. Desses caras cuido eu. Não sou uma criança e, além disso, nunca tivemos tantos modelos homens. Vai ser ótimo. Se conseguirmos mais alguns, o clube pode fazer um projeto só de roupas masculinas.
Eddie ainda parecia sério demais para uma discussão como aquela.
— Eddie poderia se voluntariar também — sugeri. — Aposto que a postura de guardião dele ficaria ótima na passarela.
Ele ficou vermelho, e até eu precisava admitir que foi fofo. Se Jill tinha ficado irritada com a superproteção dele, não dava mais para notar. Pela expressão encantada dela, era de pensar que nunca tinha visto nada mais incrível do que Eddie vermelho.
Acho que ele estava horrorizado demais com a ideia de desfilar numa passarela para perceber.
Angeline tinha ficado completamente quieta até então. Olhei para ela, esperando que tivesse algum comentário engraçado sobre seu namorado sendo incentivado a virar modelo. Mas, para a minha surpresa, ela não estava prestando a mínima atenção à conversa. Tinha um livro de geometria aberto e tentava desesperadamente desenhar uns círculos à mão. Era torturante ver aquilo, mas, depois do comentário de Kristin de que Angeline poderia apunhalar alguém com o compasso, talvez fosse melhor desenhar à mão mesmo.
— O que você acha, Angeline? — perguntei, só para testar o nível de concentração dela. — Eddie daria um bom modelo?
— Humm? — Ela não levantou os olhos. — Ah, sim. Você devia deixar Jill experimentar algumas roupas em você.
Agora foi Jill quem ficou vermelha. Eddie, ainda mais.
Quando achei que o café da manhã não pudesse ficar mais bizarro, Trey passou pela mesa e deu um chute de leve na cadeira de Angeline.
— Ei, McCormick. — Ele apontou para o papel quadriculado. — Hora de dar uma olhada nas suas curvas.
Em vez de rebater com alguma resposta sarcástica, ela levantou os olhos instantaneamente, com um grande sorriso no rosto.
— Estou trabalhando nelas desde que acordei — ela disse. — Acho que estão ficando boas.
— Parecem boas daqui — Trey disse.
Aqueles eram os piores círculos que eu já tinha visto na vida, mas imaginei que Trey estava tentando incentivá-la. Fiquei surpresa com a seriedade com que ela estava levando aquela nota de matemática. Para mim, parecia que estava pondo aquilo acima de todo o resto, inclusive sua vida pessoal. Ela juntou as coisas para que eles pudessem ir para a biblioteca. Eddie pareceu desapontado, mas não podia protestar sem revelar seu relacionamento com Angeline. Trey sabia que não éramos parentes de verdade, mas o namoro dos dois ainda era segredo.
Percebi então que estava quase na hora de encontrar a sra. Terwilliger. Terminei minha banana às pressas e falei para Eddie e Jill que os veria depois. Não fazia a menor ideia se eles ficariam conversando sobre modelos ou sobre a vida amorosa de Jill.
Apareci bem na hora da reunião, mas encontrei a sala da sra. Terwilliger trancada e escura. Mesmo em tempos de crise, pensei que ela tinha o direito de chegar um pouco atrasada de vez em quando, então sentei no corredor e comecei a ler meu livro de inglês. Estava tão concentrada que nem percebi quanto tempo havia se passado até ouvir o sinal tocar e perceber que os alunos estavam começando a lotar os corredores. Levantei os olhos no exato momento em que aquela professora substituta com ar cansado chegou à porta apressada com um molho de chaves. Levantei com dificuldade.
— A sra. Terwilliger faltou hoje? — perguntei. — Ela está bem?
— Eles não me contam os motivos — a substituta disse, brusca. — Só me mandam aparecer aqui. Tomara que ela tenha deixado uma tarefa desta vez.
Conhecendo a sra. Terwilliger, tive o pressentimento de que seria outro dia de “lição de casa”. Arrastando os pés, entrei na sala atrás da substituta, sentindo um aperto de ansiedade.
A hora seguinte foi angustiante. Mal ouvi a substituta nos mandar fazer a lição de casa. Em vez de prestar atenção, ficava olhando discretamente para o celular, na esperança de que chegasse uma mensagem da sra. Terwilliger. Não aconteceu.
Fui de uma aula para a outra, mas estava distraída demais para prestar atenção. Até levei um susto em inglês quando quase confundi Henrique IV com Henrique VI ao responder a uma questão dissertativa. Felizmente, me dei conta antes de colocar esse erro vergonhoso no papel.
Quando voltei à sala da sra. Terwilliger para o estudo independente no fim do dia, estava esperando que a substituta me dissesse que eu poderia ir embora mais cedo de novo. Em vez disso, encontrei a própria sra. Terwilliger, remexendo em uns papéis na mesa.
— A senhora voltou! — exclamei. — Estava com medo de que tivesse acontecido alguma coisa.
— Comigo não — ela disse. Seu rosto estava pálido e cansado. — Mas outra pessoa não teve a mesma sorte.
— Não. De novo, não. — Me afundei numa cadeira, e todos os medos que vinha levando de um lado para o outro naquele dia pesaram com tudo em meu peito. — Pensei que tínhamos protegido aquelas meninas.
A sra. Terwilliger sentou na minha frente.
— Não foram elas. Ontem à noite, Veronica atacou uma integrante do meu clã. Alana.
Levei alguns momentos para processar a notícia.
— O seu clã... quer dizer, uma bruxa experiente?
— Sim.
— Alguém como a senhora?
O rosto dela me deu a resposta antes que ela falasse:
— Sim.
Eu estava tremendo.
— Mas a senhora disse que ela só vai atrás de garotas jovens.
— Normalmente. Assim ela consegue pegar a beleza e a juventude delas, junto com o poder. — A sra. Terwilliger não parecia ter de se preocupar com alguém em busca de sua juventude. O cansaço e o estresse estavam surtindo efeito, fazendo com que ela parecesse mais velha do que realmente era. — Algumas usuárias de magia que fazem esse feitiço só estão preocupadas com o poder, não com a juventude. Mas esse nunca foi o estilo de Veronica. Ela é fútil. Sempre quis as vantagens superficiais... pra não falar das vítimas fáceis. Alguém do meu clã seria mais difícil de atacar, o que torna esse comportamento surpreendente.
— Isso significa que a senhora pode ser um alvo — eu disse. — Esse tempo todo a senhora ficou dizendo que está segura, mas isso muda tudo.
A sra. Terwilliger meneou a cabeça e uma centelha resoluta se acendeu em seus olhos.
— Não. Talvez ela tenha feito isso para me despistar, para me fazer pensar que tem outra pessoa por trás desses feitiços. Ou talvez para me levar a pensar que não está interessada em você. Seja qual for o motivo, ela não vai me atacar.
Eu admirava a sra. Terwilliger por ter a irmã em tão alta conta, mas não conseguia ter a mesma confiança de que o carinho fraternal seria mais forte do que uma busca maligna por poder e juventude.
— Sem querer ofender, mas não existe a mínima chance de que a senhora esteja enganada? A senhora disse que ela só vai atrás de aprendizes jovens, mas obviamente não é o caso. Ela já está fazendo coisas que a senhora não estava esperando.
A sra. Terwilliger se recusou a desistir de sua opinião.
— Veronica pode estar fazendo muitas coisas terríveis, mas não vai me enfrentar a menos que seja obrigada. — Ela me deu um novo livro de feitiços e uma bolsinha. — E só porque ela foi atrás de uma bruxa mais velha, não significa que você não esteja correndo risco. Marquei algumas páginas em que quero que dê uma olhadinha. Tem um feitiço aí que acho que pode ser especialmente útil. Juntei alguns componentes para você, e o resto acho que você consegue lançar sozinha... mas lembre-se de fazer num lugar afastado. Nesse meio-tempo, ainda preciso preparar aquele amuleto secundário que prometi. Muita coisa pra fazer ultimamente.
Senti um misto de sentimentos. Mais uma vez, estava impressionada com o fato de a sra. Terwilliger não medir esforços por mim. No entanto, não conseguia me livrar do medo de que ela estivesse em perigo.
— Talvez seja bom fazer um pra senhora também, por via das dúvidas.
Ela entreabriu um sorriso.
— Ainda insistindo nisso, hein? Enfim, depois que eu tiver garantido o seu, a gente pensa em outro. Mas pode levar tempo. O que estou pensando para você é especialmente complexo.
Isso fez eu me sentir ainda pior. Ela sempre parecia tão cansada ultimamente e todas essas coisas que vinha fazendo por mim só agravavam a situação. Mas, por mais que eu argumentasse, ela se recusava a dar ouvidos. Saí da sala me sentindo triste e confusa. Eu precisava desabafar com alguém. Claro, minhas escolhas eram limitadas quando o assunto era esse. Mandei uma mensagem para Adrian: V atacou uma bruxa de verdade ontem à noite. A sra. T se recusa a se proteger. Ela só se preocupa comigo.
Como sempre, a resposta veio rápido: Quer conversar?
Eu queria? Não fazia o tipo que sentava e analisava meus sentimentos, mas a companhia me faria bem. Sabia que não deveria passar mais tempo com Adrian do que o estritamente necessário, considerando como meus sentimentos por ele eram confusos. Mas ele era a única pessoa com quem queria conversar. Preciso lançar uns feitiços pra ela agora. Quer vir me buscar e ir comigo?
Ele me respondeu com uma carinha feliz.
Ela havia me dito para ir a algum lugar afastado, então decidi pelo Parque da Rocha Solitária de novo. Quando Adrian e eu chegamos, o lugar estava ardendo sob o calor do fim de tarde, e achei difícil acreditar que faltavam só algumas semanas para o Natal. Eu estava usando roupas confortáveis, como da outra vez, e tirei meu casaco de Amberwood enquanto caminhávamos penosamente pelo terreno rochoso. Ele também tirou o casaco, e fiquei surpresa quando vi o que estava usando por baixo.
— Sério? — perguntei. — Sua camiseta da EIA?
Ele abriu um sorriso largo.
— Ei, é uma camiseta muito boa. Estou pensando em abrir uma divisão da fraternidade no campus da Carlton. — Carlton era a faculdade em que ele frequentava aulas de arte. Era bem pequena e nem chegava a ter fraternidades.
— Uma divisão? — ironizei. — Você não quer dizer a única divisão?
— Precisa começar em algum lugar, Sage.
Chegamos ao mesmo local onde eu havia praticado com a sra. Terwilliger, e tentei ignorar as marcas chamuscadas no terreno. Adrian havia decidido transformar aquilo em um piquenique no deserto e trouxera uma cesta com uma toalha e uma garrafa térmica com limonada.
— Pensei que poderíamos passar no Tortas e Tal na volta, já que você adora aquele lugar — ele explicou, inexpressivo, enquanto me servia um copo. — Deve dar uma forcinha pra você depois do feitiço.
— Queria que tudo isso acabasse logo — eu disse, passando a mão sobre o couro gasto do livro da sra. Terwilliger. Era um volume antigo escrito à mão chamado Invocações e conjurações. — Odeio viver com essa incerteza, com medo de que Veronica esteja espreitando a cada esquina. Minha vida já é complicada demais sem bruxas na minha cola.
Adrian, sério, deitou sobre a toalha e apoiou a cabeça no cotovelo.
— Se é que ela está na sua cola.
Me sentei de pernas cruzadas, tomando cuidado para manter muito mais distância entre nós do que na Suíte Veludo.
— A sra. Terwilliger não me ouve. Ela só fica se preocupando comigo.
— Deixe que ela se preocupe — ele sugeriu. — Quer dizer, entendo totalmente que você esteja preocupada com ela. Também estou. Mas precisamos aceitar que ela sabe do que está falando. Ela está envolvida nessas coisas há muito mais tempo do que a gente.
Não consegui conter o riso.
— Desde quando você está envolvido com magia?
— Desde que comecei a cuidar de você, e ser másculo e corajoso.
— Engraçado, não é assim que eu me lembro. — Me esforcei para manter uma expressão neutra. — Se pensar em todas as caronas que dei pra você, em como consegui que você frequentasse a faculdade... bom, parece que sou eu quem está cuidando de você.
Ele se inclinou para mim.
— Acho que estamos cuidando um do outro.
Nós nos olhamos e sorrimos, mas não havia nada de sensual nisso. Não era nenhum joguinho, nenhuma tentativa maliciosa de Adrian dar em cima de mim. E eu não estava com medo. Éramos só duas pessoas que gostavam uma da outra. Isso me lembrou do que havia nos unido inicialmente, antes de todas as complicações amorosas. Nós tínhamos uma conexão. Contra toda a lógica, nos entendíamos e, como ele mesmo disse, cuidávamos um do outro. Eu nunca havia tido uma relação assim com ninguém e fiquei surpresa com o quanto valorizava a nossa.
— Enfim, acho melhor colocar a mão na massa. — Baixei os olhos para o livro. — Ainda não tive tempo de olhar o que ela quer que eu faça. Isso não parece um livro de defesa.
— Talvez você esteja passando de bolas de fogo para raios e trovões — Adrian sugeriu. — Aposto que seria igual a atirar shurikens. Exceto que, enfim, daria para queimar pessoas.
Quando encontrei a página que a sra. Terwilliger havia marcado, li o título em voz alta:
— Invocação de Callistana.
— O que significa “callistana”? — Adrian perguntou.
Examinei a palavra, tomando cuidado para decifrar a escrita rebuscada corretamente.
— Não sei. Parece a palavra grega que significa “bonito”, mas não exatamente. O subtítulo é “Para proteção e aviso avançado”.
— Talvez seja um tipo de escudo como o que Jackie tinha — Adrian sugeriu. — Só que mais fácil.
— Pode ser — concordei. Bem que eu gostaria de um pouquinho de proteção.
Abri a bolsinha que a sra. Terwilliger havia me dado. Dentro, encontrei resina de sangue-de-dragão, um pequeno frasco de óleo de gardênia, ramos de baga de zimbro e um cristal de quartzo esfumaçado e reluzente, rutilado com linhas de ouro. Embora ela tivesse dado os ingredientes, as instruções exigiam que eu os usasse e medisse de maneira muito específica, o que fazia sentido. Como sempre, era o trabalho de quem lançava o feitiço que fortalecia a magia. Adrian sentou e leu por sobre meu ombro.
— Não fala exatamente o que acontece quando você lança — ele comentou.
— É... não estou muito animada com essa parte. — Aparentemente, quem lançasse aquele feitiço deveria saber o que estava fazendo. Se fosse algum tipo de escudo protetor, talvez o campo de força se materializasse ao meu redor, como o da sra. Terwilliger. — Enfim, não temos tempo a perder. Logo vamos descobrir.
Adrian riu enquanto me observava caminhar até um trecho de terreno descampado.
— Sou o único aqui surpreso por você estar praticando magia sem saber o que vai acontecer?
— Não — garanti a ele. — Não é.
Precisei pegar os ramos de baga de zimbro um a um e fazer um pequeno círculo com eles, dizendo “Fogo e fumaça” cada vez que colocava um no chão. Quando terminei, ungi cada baga com uma gota de óleo e recitei “Sopro e vida”. Dentro do círculo, acendi uma pequena pilha de resina e coloquei o quartzo esfumaçado em cima. Em seguida, dei um passo para trás e reli o feitiço, decorando as palavras e os gestos. Quando tive certeza de que os sabia de cor, entreguei o livro para Adrian e lancei um olhar esperançoso para ele.
— Me deseje sorte — eu disse.
— Você faz a sua própria sorte — ele respondeu.
Tentei não revirar os olhos e voltei para o círculo. Recitei o complexo encantamento em grego, apontando para os quatro pontos cardeais enquanto falava, de acordo com as instruções do livro. A rapidez com que a magia se formou dentro de mim foi surpreendente, e me encheu daquele poder exultante. Pronunciei as últimas palavras, apontando para o círculo de zimbro. Senti a magia sair de mim e passar para o quartzo.
Então esperei que alguma coisa acontecesse.
Mas nada aconteceu.
Voltei a olhar para Adrian, na esperança de que ele tivesse visto algo que eu não percebera. Ele encolheu os ombros.
— Talvez você tenha feito alguma coisa errada.
— Deu certo — insisti. — Eu senti a magia.
— Talvez só não dê para ver. E, com o risco de levar uma bronca, preciso dizer que você fica linda quando faz essas coisas. Toda graciosa e... — Seus olhos se arregalaram. — Hum, Sydney? Aquela pedra está pegando fogo.
Olhei de volta para o círculo.
— É só a resina que está...
Parei. Ele tinha razão. O quartzo estava soltando fumaça. Fiquei olhando, fascinada e, então, lentamente, o quartzo começou a derreter. Mas, em vez de se dissipar em uma poça, o líquido estava adquirindo outro contorno, que logo endureceu formando algo novo e inesperado: um dragão cristalino.
Era pequeno — cabia na palma da mão — e brilhava como o quartzo marrom-escuro. Parecia mais com o tipo serpentino associado à cultura chinesa do que com os dragões alados da mitologia europeia. Todos os detalhes estavam esculpidos meticulosamente, desde a crina até as escamas da pele. Era fascinante.
E estava se mexendo.
Soltei um grito e dei um pulo para trás, esbarrando em Adrian. Ele pôs um braço ao meu redor, da maneira mais protetora que pôde, mas estava claramente tão assustado quanto eu. O dragão abriu suas pálpebras de cristal e olhou para nós com olhinhos dourados. Soltou um pequeno grunhido e então começou a andar na nossa direção, com as garrinhas raspando as rochas.
— Que diabo é isso? — Adrian perguntou.
— Acha que eu sei?
— Foi você quem criou! Faça alguma coisa.
Quase perguntei se não era ele quem deveria cuidar de mim, mas ele tinha razão: eu tinha invocado aquela coisa. Não importava para onde andássemos ou corrêssemos, o dragão continuava a nos seguir e soltar gritinhos agudos que pareciam unhas raspando numa lousa. Peguei o celular e tentei ligar para a sra. Terwilliger, mas não havia sinal ali. Correndo até a toalha, apanhei o livro de feitiços e então corri de volta para onde Adrian estava. Abri no índice, procurando “callistana”. Encontrei duas entradas: “Callistana, Invocação de” e “Callistana, Banimento de”. Era de se imaginar que os dois estariam lado a lado no livro, mas estavam separados por várias páginas. Procurei a página do segundo feitiço e encontrei instruções breves e diretas: “Depois que teu callistana tiver se alimentado e descansado, podes invocá-lo e bani-lo durante um ano e um dia”. Abaixo, havia um encantamento curto.
Levantei os olhos para Adrian.
— Diz que precisamos alimentar aquilo.
— Será que assim ele cala a boca? — ele perguntou. Seu braço estava ao meu redor de novo.
— Não faço ideia.
— Talvez dê para correr mais rápido do que ele.
Todos os meus instintos para esconder o sobrenatural vieram à tona.
— Não podemos simplesmente deixar um dragão por aí pra algum excursionista encontrar! Precisamos arranjar comida pra ele. — Não que eu fizesse a menor ideia do que dar para ele comer. Com sorte, humanos e vampiros não estavam no cardápio.
Uma expressão resoluta perpassou o rosto de Adrian. Em uma grande demonstração de coragem, ele avançou até a cesta de piquenique e conseguiu fechar o dragão dentro dela, baixando a tampa com força. O choramingo ficou mais baixo, mas não cessou por completo.
— Uau — eu disse. — Másculo e corajoso.
Apreensivo, Adrian olhou para a cesta.
— Só espero que não sopre fogo. Pelo menos está preso. E agora, o que a gente faz?
— Agora damos comida pra ele. — Tomei uma decisão. — Vamos levá-lo pro Tortas e Tal.
Não sabia se dragões comiam torta, mas era a fonte de alimento mais próxima disponível. Além disso, eu tinha quase certeza de que o celular funcionaria lá. Adrian nos levou de carro para o pequeno restaurante enquanto eu segurava a cesta barulhenta com cuidado. Ele entrou, enquanto eu fiquei no carro tentando ligar para a sra. Terwilliger. Caiu na caixa postal e nem me preocupei com as formalidades. Será que ela nunca estava perto do celular?
— Me ligue agora — eu disse entredentes. Os gritinhos do dragão estavam começando a me irritar.
Adrian voltou cerca de dez minutos depois carregando duas sacolas. Fiquei olhando assombrada enquanto ele entrava no carro.
— Você comprou a loja toda?
— Não sabia de que tipo ele queria — ele argumentou. As duas sacolas continham meia dúzia de fatias de torta diversas. O conteúdo de cada uma estava anotado cuidadosamente no embrulho.
— Também não sei — eu disse.
Adrian vasculhou as sacolas e tirou uma fatia de torta de coco.
— Se eu fosse um dragão, gostaria dessa.
Não discuti, sobretudo porque não havia nenhum argumento lógico naquela frase. Ele tirou a tampa da torta e então olhou para mim com expectativa. Engolindo em seco, abri a cesta e torci para que o dragão não saísse e atacasse minha cara com as garras.
Adrian colocou a torta rapidamente dentro da cesta. Ansiosos, nos debruçamos para olhar.
A princípio, pareceu que o dragão realmente sairia atrás de nós. Então, percebeu a torta. A criaturinha de cristal cheirou a fatia, deu algumas voltas ao redor dela e então começou a roê-la com mordidinhas minúsculas. O melhor de tudo foi que os gritos pararam. Ficamos olhando maravilhados enquanto o dragão chegava a um terço da torta. Então, de repente, ele rolou de costas e começou a roncar. Adrian e eu ficamos ali, parados, até finalmente criarmos coragem para olhar um para o outro.
— Acho que você estava certo sobre o sabor — eu disse.
— Será que dá pra banir essa coisa agora? — ele perguntou. — Acha que ele comeu e descansou o bastante?
Peguei o livro de feitiços e reli o encantamento.
— Vamos descobrir logo.
Recitei as palavras. O corpo do dragão soltou fumaça. Ele começou a tremeluzir e, em questão de segundos, estávamos olhando para um pedaço inerte de quartzo esfumaçado. Em mais uma demonstração de coragem, Adrian apanhou a pedra, mas a manteve o mais longe possível enquanto a examinava. O toque do meu celular nos assustou, e ele deixou o cristal cair de volta dentro da cesta. Olhei para a tela e vi o nome da sra. Terwilliger.
— A senhora me fez invocar um dragão! — exclamei.
— Nada disso — ela respondeu. — Callistanas são um tipo de demônio.
Congelei.
— Demônio?
— Bom — ela emendou —, um demônio muito pequeno e normalmente benigno. — Não respondi por um tempo. — Sydney? Ainda está aí?
— A senhora me fez invocar um demônio — respondi, com a voz dura. — Sabe como me sinto em relação ao sobrenatural. Passou esse tempo todo tentando me convencer de que usamos magia para o bem maior na batalha contra o mal e acabou me fazendo invocar uma criatura do inferno!
— Criatura do inferno? — Ela bufou. — Não mesmo. Você não sabe nada sobre demônios. Falei que são benignos, não falei? Callistanas podem ser muito úteis. Eles avisam se tem magia negra por perto e até tentam defender você se for atacada. Não que consigam causar muitos danos.
Eu não tinha tanta certeza.
— Se são tão úteis, por que a senhora não tem um?
— Ah, bom, já estou num nível em que consigo sentir magia negra sozinha. Além disso, com o perdão da palavra, callistanas são um saco. Eles fazem aquele barulhinho irritante quando estão com fome. Gatos são mais do que adequados para as minhas necessidades.
— Sim — eu disse. — Notei a parte do barulho. Dei um pouco de torta pra ele e o transformei de volta numa pedra.
— Pronto, viu? — Fazia dias que eu não a ouvia tão contente. — Veja como já avançou. Aconteça o que acontecer nesse problemão em que nos metemos, mais do que nunca tenho certeza de que fiz a escolha certa ao pôr você no caminho mágico.
Eu estava com coisa demais na cabeça para agradecer o elogio.
— Então, o que faço agora?
— Ele vai desaparecer sozinho depois de um ano e um dia. Até lá, pode chamá-lo quando precisar. Pode tentar treiná-lo. E, claro, vai precisar dar comida para ele. O que quer que faça, ele será leal a você. Ele cria um vínculo com a primeira pessoa que vê e vai precisar passar tempo com você... Sydney? Ainda está aí?
Eu tinha ficado em silêncio de novo.
— A primeira pessoa que vê? — finalmente consegui perguntar. — E não a pessoa que lançou o feitiço?
— Bom, normalmente são a mesma pessoa.
Olhei para Adrian, que estava comendo uma fatia de torta de amora enquanto ouvia atentamente o meu lado da conversa.
— O que acontece se tiver duas pessoas lá quando ele abrir os olhos? Adrian estava comigo quando fiz a invocação.
Agora foi ela quem ficou em silêncio.
— Ah... Humm. Bom, acho que devia ter falado alguma coisa antes de você lançar o feitiço.
Aquele era o eufemismo do século.
— A senhora devia ter me falado várias coisas antes de eu lançar o feitiço! O que acontece se o dragão... ou demônio, sei lá, viu Adrian e eu? Ele criou um vínculo com os dois?
— Pense nesses termos — a sra. Terwilliger disse, depois de vários momentos de consideração. — O callistana acha que vocês são os pais dele.

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