3 de outubro de 2017

Capítulo 17

DIRIGIR O CARRO DE ADRIAN ERA COMO UM SONHO.
Quando sentei ao volante, quase me esqueci de verificar se alguém estava nos seguindo. Na verdade, quase esqueci que deveria ir ao curso de Wolfe e mostrar para Adrian como usar o câmbio, de tão arrebatada que fiquei com o rugido do motor ao nosso redor e o cheiro de couro. Ao sair do bairro, tive de me segurar para não guiar o carro em alta velocidade pelas ruas movimentadas do centro de Palm Springs. Aquele carro pedia para ser dirigido livremente numa estrada vazia. Eu admirava o Mustang de Brayden, mas aquele eu venerava.
— Estou me sentindo como se estivesse segurando vela — Adrian comentou assim que pegamos a estrada. Ninguém havia nos seguido do centro, então me sentia muito mais segura. — Estou me intrometendo entre vocês dois? Se preferir me deixar em algum lugar, eu entendo.
— Ahn?
Eu estava prestando muita atenção na maneira como o carro atingia as velocidades mais altas, tanto pelo som como pela sensação física. O Mustang estava em perfeita forma. As pessoas normalmente acham que carros clássicos são caros. E são, quando estão em boas condições. Mas a maioria não está. Quando uma coisa fica muitos anos sem cuidado, é inevitável que se deteriore, e é por isso que muitos carros antigos estão caindo aos pedaços. Não era o caso do carro de Adrian. Ele tinha sido cuidado e restaurado ao longo dos anos, e provavelmente nunca havia deixado o estado da Califórnia, o que significava que nunca tinha enfrentado invernos severos. Tudo isso resultava num preço alto, o que tornava ainda mais esdrúxulo o fato de Adrian ter comprado um carro que não sabia dirigir.
Soltei um suspiro.
— Desculpe. Não sei onde estava com a cabeça. — Na verdade, sabia, sim. Estava pensando quais eram as chances de eu levar uma multa se desrespeitasse o limite de velocidade para ver o quão rápido poderíamos correr. — Devia ter começado a ensinar assim que dei partida no carro. Prometo que vou ensinar na volta, passo a passo. Por enquanto, posso dar uma resumida. Esta é a embreagem...
Adrian não pareceu incomodado com a minha falta de atenção. Na verdade, parecia estar achando graça, e simplesmente ouviu minhas explicações com um sorriso calmo e singelo no rosto.
Wolfe estava com a mesma aparência infame da semana anterior, que ficava completa com o tapa-olho e, ao que me pareceu, usava a mesma bermuda de antes. Tinha esperança de que ele pelo menos tivesse lavado a bermuda. Apesar da aparência, ele pareceu disposto diante da turma reunida, competente como sempre.
Apesar de ressaltar novamente a importância de evitar conflitos e estar sempre atento aos arredores, ele repassou esses pontos de maneira rápida e se concentrou na prática de maneiras mais físicas de se defender.
Como Adrian tinha reclamado sobre a “chatice” da conversa sobre segurança na aula anterior, imaginei que ele ficaria mais animado ao passarmos direto para a ação. Em vez disso, o ar divertido que ele tinha no carro desapareceu e deu lugar a uma tensão crescente à medida que Wolfe explicava o que queria que fizéssemos em nossos exercícios em dupla.
Quando chegou a hora de praticar, Adrian parecia visivelmente descontente.
— Qual é o problema? — indaguei. De repente me lembrei da última aula, quando Adrian surtou por causa do meu “ataque”. Talvez ele não esperasse que teria de fazer algum esforço ali. — Vamos lá, os movimentos são simples. Você não vai se sujar.
Mesmo quando ensinava ações mais combativas, Wolfe defendia manter os ataques simples e rápidos. O objetivo não era aprender a espancar alguém. Aquelas manobras eram maneiras eficazes de distrair o agressor para poder escapar. A maioria delas nós fazíamos com os bonecos, já que não tentaríamos enfiar o dedo nos olhos dos colegas. Adrian fez esses movimentos com atenção e em silêncio. Aparentemente, o problema era quando trabalhava diretamente comigo.
Wolfe também percebeu quando passou por nós.
— Vamos lá, garoto! Não tem como ela tentar fugir se você não tentar segurá-la. Ela não vai machucar você e você não vai machucá-la, não se preocupe.
A manobra em questão teria sido muito útil na noite em que fui atacada no beco. Por isso, estava com muita vontade de praticá-la e fiquei frustrada com a ajuda frouxa de Adrian. Infelizmente, seus esforços eram tão parcos e sua chave de braço tão fraca que eu não precisava de nenhuma técnica especial para escapar dele. Bastava sair andando.
Com Wolfe por perto, Adrian se fez passar por um agressor um pouco melhor, mas logo que ficamos sozinhos ele retomou a frouxidão anterior.
— Vamos trocar — eu disse, finalmente, quase querendo arrancar os cabelos. — Você tenta escapar para compensar a última vez.
Não conseguia acreditar que o problema era a preguiça de Adrian. Eu imaginava que o empecilho seria eu não querer tocar num vampiro, mas isso já não me incomodava nem um pouco. Não via Adrian como um vampiro. Ele era Adrian, meu parceiro no curso. Precisava dele para aprender o golpe. Era tudo muito pragmático. Se não o conhecesse melhor, chegaria a dizer que era ele quem estava com medo de me tocar, o que não fazia sentido. Os Moroi não tinham esse tipo de reservas. Será que havia alguma coisa errada comigo? Por que Adrian não queria me tocar?
— Qual é o problema? — perguntei quando entramos no carro, a caminho da cidade. — Eu sei que você não é nenhum atleta, mas o que aconteceu lá dentro?
Adrian se recusava a me olhar nos olhos; em vez disso, olhava fixo para a paisagem.
— Acho que não é a minha praia. Estava animado com a ideia de brincar de super-herói, mas agora... não sei. Acho que foi uma má ideia. É mais trabalhoso do que eu imaginava — ele disse, com um tom petulante de desprezo que eu não escutava havia tempos.
— O que aconteceu com a sua promessa de terminar as coisas que começa? — indaguei. — Você disse que tinha mudado.
— Isso valia para a arte — Adrian respondeu depressa. — Ainda estou no curso, não estou? Não abandonei o navio. Só não quero mais fazer isso. Não se preocupe. Agora que eu tenho mais dinheiro, posso devolver a grana da inscrição pra você. Você não vai sair no prejuízo.
— Não é esse o problema — argumentei. — Continua sendo um desperdício. Ainda mais porque Wolfe não está ensinando nada muito difícil. Não estamos nos acabando de treinar, como Eddie e Angeline fazem. Por que é tão difícil para você levar isso a sério e aprender? — Minha dúvida anterior retornou. — É comigo que você não quer trabalhar? Tem... tem alguma coisa errada comigo?
— Não! Claro que não. De jeito nenhum — Adrian disse. Pelo canto do olho, vi que finalmente olhava para mim. — Talvez eu esteja tentando aprender coisas demais ao mesmo tempo. Quer dizer, eu também deveria estar aprendendo a dirigir com câmbio manual. Não que isso esteja acontecendo.
Quase dei um tapa na testa. Fiquei tão frustrada com a aula que me esqueci completamente de ensinar Adrian a dirigir. Me senti idiota, mesmo que ainda estivesse brava por ele desistir do curso de Wolfe. Olhei no relógio. Tinha coisas a fazer naquela noite em Amberwood, mas me sentia obrigada a compensá-lo.
— Vamos praticar quando estivermos perto da sua casa — prometi. — Vamos começar devagar, e ensinarei tudo o que você precisa saber. Se prestar atenção, deixo até você dar umas voltas no quarteirão hoje.
A mudança no humor de Adrian foi gigantesca. Ele passou de sem graça e contrariado para enérgico e animado. Não consegui entender por quê. Claro que eu achava dirigir algo fascinante, mas, tecnicamente falando, havia muito mais detalhes a aprender sobre transmissão manual do que sobre as técnicas de fuga de Wolfe. Por que elas eram difíceis para ele e a embreagem era fácil?
Fiquei com ele mais uma hora depois que chegamos. Tive que admitir que Adrian prestou muita atenção a tudo o que eu dizia, apesar de suas respostas serem inconsistentes sempre que eu o testava ou quando deixava que fizesse alguma coisa. Às vezes, respondia como um profissional. Outras, parecia completamente perdido em coisas que eu podia jurar que ele tinha aprendido. Ao fim de uma hora, me senti segura o bastante para deixá-lo dirigir o carro em baixas velocidades e ruas vazias. Ainda demoraria muito para que ele pudesse dirigir na estrada ou no trânsito movimentado de uma cidade grande.
— Acho que teremos outras aulas mais para a frente — eu disse a ele, quando terminamos. Tinha estacionado o carro atrás do prédio e estávamos voltando a pé para a entrada principal, onde o Pingado tinha ficado. — Não leve esse carro muito longe daqui. Eu vi o hodômetro. Vou ficar sabendo.
— Anotado — ele disse, com o mesmo sorriso malandro. — Quando será a próxima aula? Quer voltar amanhã à noite?
— Amanhã eu não posso — respondi. — Vou sair com Brayden.
Fiquei surpresa com a minha ansiedade. Não só queria compensar pela festa, mas também buscava uma pitada de normalidade... Quer dizer, pelo menos o tipo de normalidade que eu e Brayden tínhamos juntos. Além disso, as coisas com Adrian estavam ficando um tanto estranhas...
— Ah. — O sorriso de Adrian desapareceu. — Eu entendo. Amor e romance e tudo o mais.
— Vamos ao museu de tecidos — comentei. — É bem legal, mas não sei se vou encontrar muito amor e romance por lá.
Adrian ficou em choque.
— Existe um museu de tecido aqui? O que as pessoas fazem lá?
— Ah, elas olham... os tecidos. Na verdade, está tendo uma grande exposição de...
Parei quando chegamos à frente do prédio, onde, atrás do Pingado, estava um veículo conhecido: o carro alugado que Sonya e Dimitri estavam usando. Olhei para Adrian, intrigada.
— Você estava esperando a visita deles?
— Não — ele respondeu, continuando a caminhar para a porta. — Mas eles têm a chave, então acho que podem se sentir à vontade. Eles fazem isso bastante, na verdade. Ele come a minha comida e ela usa minhas coisas de cabelo.
Eu o segui.
— Espero que seja apenas o Dimitri.
Depois das revelações recentes sobre os caçadores, Sonya estava praticamente em prisão domiciliar. Pelo menos era o que eu pensava. Quando entrei no apartamento, ela estava sentada no sofá. Não se via Dimitri em lugar nenhum. Ela levantou os olhos do laptop para nós.
— Graças a Deus que você chegou — ela disse, olhando para mim. — Jill disse que vocês tinham saído e eu esperava conseguir falar com você antes que voltasse para Amberwood.
Algo me dizia que dali não podia vir coisa boa, mas tinha preocupações maiores no momento.
— O que você está fazendo aqui? — perguntei, achando que os caçadores iriam passar pela porta a qualquer momento. — Você devia ficar no Clarence até ir embora da cidade.
— Vou depois de amanhã — ela confirmou, levantando do sofá, com os olhos acesos pelo misterioso motivo que a havia levado até lá. — Mas eu tinha que falar com você... pessoalmente.
— Eu teria ido encontrá-la — protestei. — Não é seguro você sair na rua.
— Eu estou bem — ela disse. — Tomei cuidado para não ser seguida. Não dava pra esperar — ela disse, agitada e sem fôlego.
Mais importante do que ser capturada por aspirantes a caçador de vampiros? Duvidava muito.
Adrian cruzou os braços, parecendo surpreendentemente desaprovativo.
— Agora é tarde. Qual é o problema?
— Chegaram os resultados do exame de sangue de Sydney — Sonya explicou.
Meu coração parou. Não, pensei. Não, não e não.
— Não apareceu nenhuma alteração fisiológica, assim como o resultado de Dimitri — ela disse. — Nada de diferente com as proteínas, os anticorpos ou coisa assim.
Meu coração se encheu de alívio. Eu estava certa. Não havia nada de especial em mim, nenhuma qualidade inexplicável. Mesmo assim... ao mesmo tempo senti uma pontinha de decepção. Não seria eu quem resolveria tudo.
— Dessa vez, mandamos para um laboratório Moroi, e não para um alquimista — Sonya continuou. — Um dos pesquisadores, que era usuário de terra, sentiu um zumbido de magia de terra. Assim como Adrian e eu sentimos o espírito no sangue de Dimitri. O técnico pediu para usuários de outros tipos de magia examinarem sua amostra, e eles detectaram todos os quatro elementos básicos.
O pânico voltou a tomar conta de mim, colocando-me numa montanha-russa de emoções que me deixava enjoada.
— Magia... no meu sangue? — Um segundo depois, entendi. — Claro que sim — disse devagar, tocando minha bochecha. — A tatuagem contém sangue de vampiro e magia. É isso. Ela contém graus diferentes de encantos de vários usuários. Deve ser isso que apareceu na amostra.
Senti um calafrio. Mesmo com aquela explicação lógica, era assustador aceitar que havia magia correndo no meu sangue. Ainda achava os feitiços da sra. Terwilliger abomináveis, mas pelo menos era um consolo saber que eles tiravam a magia de fora de mim. Mas saber que eu tinha algo dentro de mim era assustador. Mesmo assim, não podia ficar surpresa com essa descoberta, sabendo da tatuagem. Sonya concordou com a cabeça.
— Sim, claro. Mas deve ter alguma coisa nessa combinação que é repulsiva para os Strigoi. Pode ser a chave para toda a nossa pesquisa!
Para minha surpresa, Adrian deu alguns passos na minha direção, e havia uma tensão em sua postura que era quase... protetora.
— Então você descobriu que existe magia no sangue alquimista — ele disse. — Não é nenhuma novidade. Caso encerrado. O que mais você quer dela?
— Outra amostra, para começar — Sonya respondeu, afoita. — O primeiro frasco que peguei acabou depois do teste. Sei que parece estranho, mas também seria bom se um Moroi pudesse... bem, pudesse experimentar o seu sangue para saber se tem o mesmo gosto repulsivo que tem para os Strigoi. O ideal seria sangue fresco, mas não tenho a ilusão de que você se submeteria a um fornecimento. Podemos apenas coletar outra amostra sua e...
— Não — interrompi, cambaleando para trás, horrorizada. — De jeito nenhum. Não importa se é direto no pescoço ou com uma agulha, não vou dar meu sangue para alguém experimentar. Você tem ideia de como isso é errado? Sei que vocês fazem isso o tempo todo com os fornecedores, mas eu não sou um deles. Não devia ter dado a primeira amostra a você. Vocês não precisam de mim. O segredo está no espírito. Lee é prova de que são os ex-Strigoi que vocês precisam examinar, e não a mim.
Sonya não se deixou intimidar com a minha reação. Ela continuou, mas seu tom era ainda mais calmo.
— Eu entendo seu medo, mas pense em como isso pode ser útil! Se algo no seu sangue a torna resistente aos Strigoi, você pode salvar inúmeras vidas!
— Alquimistas não são resistentes — eu disse. — A tatuagem não nos protege, se é aí que você quer chegar. Você acha que, em toda a nossa história, nenhum alquimista foi transformado em Strigoi?
— Bem, claro — ela disse, hesitando, o que me incentivou a continuar.
— Então a magia que vocês sentiram em mim é irrelevante. É só a tatuagem. Todos os alquimistas têm. Talvez nosso sangue tenha um gosto ruim, mas isso não tem nada a ver com a transformação em Strigoi. Ela também pode acontecer com a gente. — Eu estava fugindo do assunto, mas não me importava.
Sonya ficou perplexa, processando as implicações do que eu havia dito.
— Mas todos os alquimistas têm sangue de gosto ruim? Se sim, como um Strigoi conseguiria drená-los?
— Talvez varie de pessoa para pessoa — especulei. — Ou talvez alguns Strigoi sejam mais resistentes do que outros. Não sei. Seja como for, não é em nós que vocês têm que se concentrar.
— A menos que tenha alguma coisa de especial em você — Sonya sugeriu.
Não. Eu não queria aquilo. Não queria ser examinada minuciosamente, trancafiada atrás de uma parede de vidro como Keith. Não podia. Torci para que ela percebesse o tamanho do meu medo.
— Ela é especial em muitos aspectos — Adrian interrompeu, seco. — Mas o sangue dela não é objeto de disputa. Por que você está insistindo nisso de novo?
Sonya fixou os olhos nele.
— Não estou fazendo isso por motivos egoístas, e você sabe disso! Quero salvar nosso povo. Quero salvar os nossos povos. Não quero ver mais nenhum novo Strigoi no mundo. Ninguém pode viver daquele jeito. — Uma faísca de terror pairou sobre seus olhos com o peso de uma lembrança antiga. — Essa sede de sangue, essa falta total de compaixão por qualquer criatura viva... Ninguém pode imaginar como é viver daquele jeito, vazio por dentro. Você vira um pesadelo ambulante e... nem se importa com isso...
— Engraçado — Adrian disse —, considerando que foi você quem decidiu virar Strigoi.
Sonya ficou pálida, e me senti dividida. Ficava grata por Adrian me defender, mas senti pena de Sonya. Uma vez ela me explicara como a instabilidade do espírito — a mesma que Adrian temia — a havia levado a se tornar Strigoi. Em retrospecto, arrependia-se amargamente dessa decisão. Sonya teria se submetido à punição, mas nenhum tribunal soube lidar com a situação dela.
— Foi um erro — ela disse, friamente. — Aprendi com ele e é por isso que desejo tanto salvar outras pessoas desse destino.
— Bem, então encontre uma maneira de fazer isso sem enfiar Sydney no meio. Você sabe como ela se sente em relação a nós — Adrian titubeou ao me olhar de relance, e me surpreendi ao notar um quê de amargura em sua voz. — Você sabe como os alquimistas se sentem. Se continuar envolvendo Sydney nisso, ela vai se meter em confusão com eles. E se você tem tanta certeza de que eles têm as respostas, peça por voluntários e faça os experimentos.
— Posso ajudar a conseguir voluntários autorizados para você — ofereci. — Posso falar com os meus superiores. Eles querem dar um fim aos Strigoi tanto quanto vocês.
Como Sonya demorou a responder, Adrian adivinhou por quê.
— Ela sabe que eles diriam não, Sage. É por isso que está apelando diretamente para você, e foi por isso que não mandou seu sangue para um laboratório alquimista.
— Por que vocês não conseguem enxergar a importância disso? — Sonya inquiriu, com um desejo desesperado de fazer o bem que me fez me sentir culpada e dividida.
— Eu consigo — Adrian disse. — Você acha que não quero ver todos aqueles malditos Strigoi varridos da face da terra? Eu quero! Mas não às custas de forçar as pessoas a fazerem o que elas não querem.
Sonya lançou-lhe um olhar longo e direto.
— Acho que você está deixando seus sentimentos interferirem nisso tudo. Isso ainda vai acabar com a nossa pesquisa.
Ele sorriu.
— Então que bom que você vai se ver livre de mim daqui a dois dias.
Sonya alternou o olhar de mim para ele, parecendo prestes a dizer algo, mas então pensou melhor e, sem dizer outra palavra, foi embora, derrotada. Mais uma vez me senti dividida. Em teoria, sabia que ela estava certa... mas meus instintos não podiam aceitar essa ideia.
— Não queria ter chateado Sonya — eu disse por fim.
A expressão de Adrian não demonstrava qualquer solidariedade.
Ela que não devia ter chateado você. Sonya sabe como você se sente.
Ainda me senti um pouco mal, mas não conseguia abandonar a sensação de que, caso cedesse, eles continuariam a me pedir mais e mais. Me lembrei do dia em que Eddie e Dimitri foram cobertos pela magia do espírito. Eu não queria correr o risco de me envolver até esse ponto. Já estava ultrapassando meus limites.
— Eu sei... mas é difícil — falei. — Gosto de Sonya. Dei a primeira amostra a ela, então entendo por que ela achou que seria fácil conseguir a segunda.
— Não importa — ele disse. — Não é não.
— Acho que vou mesmo falar sobre isso com os alquimistas — eu disse. — Talvez eles queiram ajudar.
Eu não achava que teria muitos problemas por ter cedido a primeira amostra. Afinal, os alquimistas apoiavam os experimentos iniciais, e provavelmente eu ganharia pontos por me recusar a dar uma segunda amostra mesmo diante da pressão do grupo.
Ele deu de ombros.
— Se quiserem, ótimo. Se não, a culpa não é sua.
— Bom, obrigada por me defender bravamente de novo — brinquei. — Talvez você se envolveria mais no treinamento de Wolfe se tivesse de proteger outra pessoa, e não a si mesmo.
Aquele velho sorriso voltou aos seus lábios.
— Não gosto de ver as pessoas sendo pressionadas, só isso.
— Mas você devia voltar à aula de Wolfe comigo — insisti. — Você precisa de uma chance para tentar ganhar de mim.
De repente, ele ficou sério novamente e desviou o olhar.
— Não sei, Sage. Vamos ver. Por enquanto, quero me concentrar em aprender a dirigir... quando você puder fugir do namorado, claro.
Fui embora pouco depois, ainda confusa com o comportamento estranho dele. Será que era algum efeito maluco do espírito? Num minuto, ele estava corajoso e protetor. No outro, tristonho e fechado. Talvez houvesse um padrão ou algum tipo de raciocínio por trás daquilo que estava além da minha capacidade analítica.
De volta a Amberwood, fui diretamente para a biblioteca pegar um livro para a aula de inglês. A sra. Terwilliger havia aliviado parte das minhas tarefas usuais para que eu pudesse “dedicar mais tempo” à realização dos feitiços. Como o estudo independente com ela — que deveria ser minha matéria mais fácil — tomava mais tempo do que todo o resto, era um alívio poder me concentrar em outra coisa para variar um pouco. Ao sair da seção de literatura inglesa, avistei Jill e Eddie estudando juntos numa mesa. Aquilo não era exatamente estranho. Estranho era Micah não estar junto com eles.
— Oi, gente — eu disse, puxando uma cadeira. — Dando duro?
— Tem ideia de como é estranho cursar o último ano de novo? — Eddie perguntou. — E eu nem posso matar aula. Preciso tirar notas decentes para continuar aqui.
— Ah, todo conhecimento é válido — respondi, abrindo um sorriso.
Ele mostrou os papéis à sua frente.
— Ah, é? E você tem algum conhecimento sobre a primeira mulher a ganhar o Pulitzer de ficção?
— Edith Wharton — respondi automaticamente. Ele rabiscou alguma coisa no papel e me virei para Jill. — Como vão as coisas? Cadê o Micah?
Jill estava com o queixo apoiado na mão, me encarando com uma expressão muito estranha, quase... contemplativa. Ela levou alguns segundos para se recuperar do torpor e responder. O olhar contemplativo deu lugar a um constrangimento que, por sua vez, se transformou em desalento. Ela baixou os olhos para o livro.
— Desculpa. Estava pensando em como você fica bem de bege. O que você perguntou?
— Micah? — insisti.
— Ah, certo. Ele... tem umas coisas para fazer.
Tinha certeza quase absoluta de que aquela era a explicação mais curta que ela já havia me dado. Tentei me lembrar da última notícia que ouvira sobre a situação dos dois.
— Vocês se entenderam, né?
— Sim. Acho que sim. Ele entendeu sobre o Dia de Ação de Graças — ela respondeu, e em seguida abriu um sorriso. — Ei, Eddie e eu estávamos falando sobre isso. Você acha que poderíamos comemorar o Dia de Ação de Graças na casa de Clarence, como uma grande família? Você acha que ele iria se importar? Todos podemos ajudar e seria bem divertido. Tipo, mesmo tirando o disfarce, nós realmente somos uma família. Eddie disse que pode fazer o peru.
— Acho que Clarence iria adorar — eu disse, contente por voltar a vê-la sorrindo. Então, repensei o que ela havia dito e me dirigi a Eddie, incrédula. — Você sabe preparar um peru? Onde aprendeu isso? — Pelo que eu sabia, a maioria dos dampiros passava quase o ano todo nas escolas desde a mais tenra idade, sem muito tempo para aprender a cozinhar.
— Ei — ele respondeu, sério. — Todo conhecimento é válido.
— Ele também não quis me contar — Jill comentou, rindo.
— Sabia que Angeline diz que sabe cozinhar também? — Eddie falou. — Estávamos conversando sobre isso no café da manhã. Ela diz que sabe fazer peru também, então, se juntarmos forças, pode ser que dê certo. Claro que ela provavelmente vai querer caçar e matar o peru dela com as próprias mãos.
— Provavelmente — eu disse. Era incrível vê-lo falando sobre trabalhar em equipe com Angeline. Ainda mais incrível era que estivesse falando dela quase com carinho, sem fazer nenhuma careta. Cada vez mais eu achava que o showzinho dela na assembleia da escola tinha sido uma coisa boa. Não precisávamos de mais discórdia no grupo. — Bem, já peguei o que vim pegar, agora vou para o alojamento. Vejo vocês amanhã.
— Até mais — Eddie se despediu.
Jill não disse nada e, quando olhei para ela, ainda me observava com aquela expressão estranha e deslumbrada. Ela soltou um suspiro feliz.
— Adrian se divertiu muito com você na aula hoje, sabia?
Quase revirei os olhos.
— Nada é segredo para o laço. Ele não parecia estar se divertindo o tempo todo.
— Ah, mas ele realmente se divertiu — ela me garantiu, com um sorriso bobo no rosto. — Ele adora o fato de que você gosta mais do carro dele do que ele mesmo, e acha fantástico como você está indo bem no curso de defesa pessoal. Não que seja uma surpresa. Você é sempre boa em tudo o que faz, sem nem perceber. Você não se dá conta de metade das coisas que faz, como o jeito que cuida dos outros sem nunca pensar em si mesma.
Até mesmo Eddie pareceu um tanto surpreso com aquilo. Trocamos olhares desnorteados.
— Bem — respondi, constrangida, realmente sem saber como reagir àquela declaração de amor. Pensei que fugir seria a melhor opção. — Obrigada. Vejo vocês depois e... Ei, onde você conseguiu isso?
— Hum? — ela indagou, saindo do torpor.
Jill estava usando um lenço de seda no pescoço, pintado em tons de pedras preciosas que quase lembravam uma cauda de pavão. Também me lembrava de mais alguma coisa, mas eu não conseguia identificar o quê.
— O lenço. Nunca vi esse lenço antes.
— Ah — ela disse, passando os dedos pelo tecido macio. — Lia me deu.
— Quê? Quando você viu a Lia?
— Ela passou no alojamento ontem para devolver os vestidos. Não falei nada porque sabia que você ia querer entregar para ela de novo.
— E eu quero — respondi, firme.
Jill suspirou.
— Ah, vamos ficar com eles, vai. São tão bonitos. E você sabe que ela vai trazer de volta de qualquer jeito.
— Depois a gente conversa. Agora me diga qual é a do lenço.
— Não é nada de mais. Ela estava tentando me convencer sobre a coleção de lenços...
— Sim, sim, ela também me contou. Que acha que consegue fazer você ficar irreconhecível. — Sacudi a cabeça, sentindo uma raiva súbita. Será que nada mais estava sob meu controle? — Não acredito que ela fez isso pelas minhas costas! Por favor, me diga que você não saiu com ela às escondidas para fazer um ensaio.
— Não, não — ela rapidamente respondeu. — Claro que não. Mas você não acha... não acha que exista algum jeito de ela conseguir esconder meu rosto?
Tentei me manter calma. Afinal, era com Lia que eu estava brava, não com Jill.
— Talvez sim. Talvez não. Você sabe que não podemos arriscar.
Jill fez que sim, entristecida.
— Sei.
Saí tão distraída com a minha irritação que quase trombei com Trey. Quando ele não respondeu meu oi, percebi que estava ainda mais distraído do que eu. Seu olhar parecia assombrado, e seu corpo, exausto.
— Você está bem? — perguntei.
Com esforço, ele abriu um sorriso fraco.
— Sim, sim. Apenas sentindo muita pressão por todos os lados. Nada de mais. E você? Normalmente não precisam expulsar você daqui? Ou finalmente cansou de ficar oito horas na biblioteca?
— Só vim pegar um livro — respondi. — E só fiquei dez minutos aqui. Passei quase a noite toda fora.
Ele franziu a testa.
— Saiu com Brayden?
— Vou sair com ele amanhã. Hoje eu tive... umas questões de família para resolver.
Ele franziu ainda mais a testa.
— Você tem saído muito, Melbourne. Tem um monte de amigos fora da escola, hein?
— Nem tanto — respondi. — Não tenho saído pra curtir a noite, se é o que você está pensando.
— Certo. Mas tome cuidado. Ouvi dizer que estão acontecendo umas coisas de meter medo ultimamente.
Lembrei que ele também havia demonstrado preocupação com Jill. Eu costumava acompanhar o noticiário local e não tinha ouvido nada de alarmante nos últimos dias.
— O quê? Tem alguma onda de crimes em Palm Springs que eu deveria saber?
— Só tome cuidado — ele respondeu.
Quando estávamos nos afastando, eu o chamei.
— Trey? Eu sei que isso não é da minha conta, mas se você estiver com algum problema... e quiser conversar, eu estou aqui, viu? — Isso era um grande avanço da minha parte, visto que não tinha lá muitas habilidades sociais.
Trey abriu um sorriso melancólico e disse:
— Certo.
Voltei meio abalada para o alojamento. Adrian, Jill, Trey. Acho que, contando Eddie e Angeline se dando bem, todo mundo na minha vida estava se comportando de um jeito esquisito. Faz parte do trabalho, pensei.
Assim que cheguei ao quarto, liguei para Donna Stanton, dos alquimistas. Nunca sabia ao certo em que fuso horário ela estava, então não me preocupei por ser tão tarde. Ela atendeu imediatamente e não parecia cansada, o que tomei como um bom sinal. Ela não havia respondido meu e-mail sobre os guerreiros e eu estava ansiosa por notícias. Eles representavam uma ameaça grande demais para que fossem ignorados.
— Srta. Sage — ela disse. — Estava pensando em ligar logo mais para você. Está tudo bem com a garota Dragomir?
— Jill? Sim, ela está ótima. Queria confirmar algumas coisas. A senhora recebeu minhas informações sobre os Guerreiros da Luz?
Stanton soltou um suspiro.
— Era sobre isso que eu queria falar com você. Houve algum outro confronto?
— Não. E parece que não estão mais nos seguindo. Talvez tenham desistido.
— Acho pouco provável. — Ela pareceu hesitar antes de dizer a frase seguinte. — Pelo menos de acordo com o que observamos no passado.
Congelei, perdendo a fala por um momento.
— No passado? Quer dizer... quer dizer que já tivemos contato com eles antes? Tinha esperanças de que fossem só... sei lá. Um grupo de malucos locais.
— Infelizmente, não. Já os encontramos antes. Acontece esporadicamente. Mas eles surgem por toda a parte.
Não estava acreditando nos meus próprios ouvidos.
— Mas sempre me disseram que os caçadores tinham desaparecido havia séculos. Por que ninguém fala sobre isso?
— Honestamente? — Stanton disse. — A maioria dos alquimistas não sabe. Queremos conduzir uma organização eficiente, que lide com o problema dos vampiros de um jeito organizado e pacífico. Algumas pessoas no grupo podem querer tomar ações mais extremistas. Por isso, é melhor manter a existência de um grupo dissidente radical em segredo. Não teria nem contado a você, mas com todos os encontros que você anda tendo, precisa estar preparada.
— Grupo dissidente... então eles têm mesmo uma relação com os alquimistas! — eu disse, sentindo-me enjoada.
— Há muito tempo não. — Ela também parecia não gostar nem um pouco daquilo. — Quase não há mais nenhuma semelhança. Eles são um bando de bárbaros malucos. O único motivo para os deixarmos em paz é porque só costumam perseguir os Strigoi. Essa situação com Sonya Karp é mais delicada. Ela voltou a sofrer alguma ameaça?
— Não. Eu a vi hoje... Aliás, este é outro motivo para eu ter ligado...
Dei a Stanton um resumo dos vários experimentos com sangue, incluindo minha primeira doação. Descrevi em termos muito científicos, mostrando como poderia ser útil como dado adicional. Então, fiz o possível para parecer devidamente assustada pelo segundo pedido, o que, diga-se de passagem, não foi nada difícil.
— De jeito nenhum — Stanton disse, sem hesitar. Normalmente as decisões alquimistas passavam pelas cadeias de comando, mesmo no caso de alguém com um cargo tão importante como ela. Sua reação indicava que a ideia era tão contrária às crenças alquimistas que ela não precisava consultar ninguém. — Sangue humano para controle é uma coisa. O resto que ela sugeriu está fora de questão. Não vou permitir que humanos sejam usados nesses experimentos, ainda mais quando as evidências são tão claras no sentido de que o foco precisa ser nos ex-Strigoi, e não em nós. Além do mais, isso pode ser uma manobra dos Moroi para conseguir mais do nosso sangue por razões pessoais.
Não acreditava nem um pouco nessa última parte e tentei encontrar uma maneira delicada de dizer isso.
— Sonya parece acreditar sinceramente que isso pode nos ajudar a descobrir como nos proteger dos Strigoi. Ela só parece não entender como nos sentimos em relação a isso.
— Claro que não — ela disse, com desdém. — Nenhum deles entende.
Voltamos a nos concentrar nos caçadores de vampiros. Os alquimistas estavam investigando algumas pistas na região. Ela não queria que eu fizesse nenhuma investigação ativa por conta própria, mas fiquei incumbida de relatar imediatamente qualquer informação que chegasse até mim. Ela supunha que os Guerreiros da Luz estavam operando a partir de um local na região e que, quando descobrissem onde era, os alquimistas “dariam um jeito neles”. Não sabia ao certo o que isso significava, mas seu tom me causou um arrepio. Como ela mesma havia dito, não éramos um grupo particularmente agressivo... embora fôssemos ótimos em nos livrar de problemas.
— Ah — eu disse, quando estávamos prestes a desligar — Vocês chegaram a descobrir alguma coisa sobre o tal do Marcus Finch?
Eu havia tentado localizar o humano misterioso que Clarence mencionara que o havia salvado dos caçadores, mas não encontrara nada. Tinha esperanças de que Stanton tivesse mais meios para isso.
— Não. Mas vamos continuar procurando. — Fez uma pausa breve e acrescentou: — Srta. Sage... não tenho palavras para expressar o quanto estamos contentes com todo o seu trabalho. Você enfrentou mais problemas do que esperávamos e, mesmo assim, lidou com todos eles com competência e eficiência. Até seu comportamento com os Moroi é excepcional. Uma pessoa mais fraca poderia ter cedido ao pedido de Karp. Você se recusou e entrou em contato comigo. Fico muito orgulhosa de ter apostado em você.
Senti um aperto no peito. Muito orgulhosa. Não conseguia me lembrar da última vez que alguém afirmara ter orgulho de mim. Minha mãe vivia me dizendo isso, mas ninguém ligado ao meu trabalho como alquimista já o tinha feito. Durante muito tempo, quis que meu pai dissesse. Por fim, acabei desistindo de esperar sentada.
Dificilmente poderia dizer que Stanton era uma figura paterna, mas suas palavras desencadearam uma felicidade em mim que eu não sabia que estava esperando para sair.
— Obrigada — eu disse, quando finalmente consegui abrir a boca.
— Continue assim — ela disse. — Quando puder, vou tirar você desse lugar e colocá-la num cargo que não envolva tanto contato com eles.
E, naquele momento, meu mundo caiu. Senti uma culpa súbita. Ela realmente havia apostado em mim e agora eu a estava iludindo. Eu não era como Liam, prestes a entregar minha alma aos Strigoi, mas também não estava me mantendo objetiva em relação à minha missão. Aulas de direção. Dia de Ação de Graças. O que Stanton teria a dizer se soubesse de tudo isso? Eu era uma farsa, colhendo glórias que não merecia. Se realmente fosse uma alquimista dedicada, mudaria minha vida ali. Pararia com todas as atividades supérfluas com Jill e os outros. Sequer assistiria às aulas em Amberwood e aceitaria a oferta de morar fora dali. Só iria até lá para ver o grupo quando fosse absolutamente necessário.
Se conseguisse fazer essas coisas, então, e só então, eu seria verdadeiramente uma boa alquimista.
E também, percebi, seria uma pessoa triste e terrivelmente solitária.
— Obrigada — eu disse.
Foi a única resposta que consegui dar.

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Boa leitura :)