23 de outubro de 2017

Capítulo 16

Adrian

NA SEGUNDA NOITE SEM CONTATO COM SYDNEY, tive certeza de que algo havia dado errado. Pude ver que Marcus também estava preocupado, mas ele se esforçou para me tranquilizar.
— Ela disse que tinha um gás no quarto dela que fazia todo mundo dormir, certo? Talvez os alquimistas tenham descoberto que estava desligado e só consertaram. Ela viveu assim por três meses e não teve problemas... quer dizer, nada além dos problemas normais da reeducação.
— Pode ser — concordei. — Mas, mesmo se for o caso, não acha que eles vão querer saber como quebrou? Ela pode ser punida por isso.
O celular de Marcus tocou antes que ele pudesse me responder e fiz sinal para que atendesse.
Desde que havíamos recebido a confirmação sobre o Vale da Morte, ele vivia no celular, sempre falando com um ou outro agente. Tínhamos chegado à região no dia anterior e descoberto que não havia onde ficar no Vale da Morte em si, o que fazia sentido. Por isso, nossa base de operações tinha se tornado um hotel de estrada em uma cidadezinha decadente a vinte e quatro quilômetros do parque estadual. Não havia restaurantes, por isso comprávamos comida numa loja de conveniência do outro lado da rua, cuja dona, Mavis, era uma mulher amável que vivia preocupada comigo por causa da minha pele.
— Você precisa tomar sol, querido — ela sempre dizia.
Você precisa de sangue, isso sim, tia Tatiana havia comentado em resposta. Não dela, claro. Não vamos baixar o nível. Ela estava certa no primeiro ponto. Fazia alguns dias desde que eu tomara sangue na Corte e, embora pudesse aguentar mais um pouco antes de sofrer grande desconforto físico, era um problema que precisaria remediar em algum momento.
Enquanto Marcus falava ao telefone, fui até a janela do quarto, que dava para a rua principal e para a loja de conveniência, bem como para um posto de gasolina. Considerando o nível do hotel, essa era a melhor vista do lugar. Para a minha surpresa, um carro conhecido entrou de repente no estacionamento do hotel, sua cor alegre contrastando com o resto da cidade sombria. Sem dizer uma palavra para Marcus, saí do quarto e desci a escada.
Eddie e Trey saíram do Mustang quando me aproximei. Mesmo tão cedo, o calor estava forte, criando miragens bruxuleantes no asfalto.
— Sobreviveram às provas? — perguntei.
— Pela segunda vez na vida, sim — Eddie respondeu.
— Na verdade, elas ainda estão rolando — Trey disse. — Mas a sra. T mexeu uns pauzinhos com os outros professores pra gente poder terminar ontem. Ela mandou isso, pra quando a gente resgatar Sydney.
Peguei a sacola que ele me ofereceu. Estava cheia de todo tipo de apetrechos de feitiçaria — ervas, amuletos e um livro que não me dizia nada mas que provavelmente encheria Sydney de alegria. Quando a gente resgatar Sydney. Trey havia falado com total confiança e rezei para que ela se justificasse. Essas duas últimas noites de silêncio estavam sendo difíceis para mim.
— E trouxe isso — Eddie disse, com um sorriso irônico. Ele me entregou Pulinho, que eu havia deixado no apartamento, ainda imortalizado em ouro. Toquei as escamas delicadamente esculpidas e então enfiei o dragãozinho na sacola, junto com os demais itens mágicos. — Alguma novidade sobre Sydney?
Eu os chamei para o quarto.
— Venham pro QG. Não está tão quente lá.
Marcus tinha desligado o telefone quando entramos no quarto, e recebeu os recém-chegados com acenos simpáticos.
— Acabei de receber a confirmação de que três caras... quer dizer, dois e uma menina... vêm ajudar a gente amanhã. Dois deles estiveram na reeducação. Não faziam ideia de que era aqui, claro, mas, como podem imaginar, guardam certo ódio do lugar. Eles têm algumas informações sobre como é a planta do prédio, embora não tantas quanto eu gostaria. Enquanto isso, finalmente temos alguns dados concretos sobre o exterior. Acreditem se quiser, eles se disfarçam como um centro de pesquisa no deserto. Fica perto do parque propriamente dito, acho que a uns vinte quilômetros de onde a gente está agora. Na verdade, essa é a cidade mais próxima. Não ficaria surpreso se os alquimistas parassem aqui pra abastecer no caminho pro trabalho.
Eram boas informações, mas todas pareceram inúteis quando Eddie perguntou:
— Sydney te contou mais alguma coisa?
O rosto de Marcus, que pareceu animado por um momento, voltou a se fechar.
— Não. Estamos sem contato há duas noites.
— Mas não precisamos de contato pra invadir o lugar, certo? — Trey perguntou. — Podemos só aparecer e tirar Sydney de lá.
— Claro — concordou Marcus —, mas seria bom falar com alguém de dentro antes de entrar.
Me deixei cair em uma das camas estreitas do quarto, que rangeu sob meu peso.
— E seria bom saber se ela está bem.
— Pena que não tem mais ninguém que possamos contatar — Eddie disse. — Você não tem nenhuma pista sobre os outros prisioneiros?
Marcus balançou a cabeça enquanto explicava o que sabia, e o velho e conhecido desespero começou a tomar conta de mim. Ficar sóbrio de repente e usar o espírito todos os dias era uma combinação mortal para as minhas variações de humor, e eu vinha lutando contra elas sem descanso. O último desaparecimento de Sydney havia despedaçado o controle frágil que eu andava mantendo até então. Seria uma surpresa se minha sanidade durasse até trazermos Sydney de volta.
Sanidade é superestimada, meu querido, tia Tatiana disse.
Fechei os olhos. Vá embora, respondi em silêncio. Preciso ouvir o que eles estão falando.
De que adianta?, ela perguntou.
Preciso me concentrar. Preciso entrar em contato com Sydney pra saber se ela está bem e conseguir informações sobre o que está rolando lá dentro.
Sua garota já te deu informações, tia Tatiana disse. Você só não prestou atenção.
Abri os olhos de repente.
— Duncan — eu disse em voz alta. Meus três amigos olharam para mim espantados.
— Você está bem? — perguntou Eddie, que já tinha visto alguns dos meus piores momentos.
— Duncan — repeti. — Numa das vezes que conversei com Sydney, ela mencionou que tinha feito um amigo chamado Duncan, que está lá faz um tempo. Se conseguirmos descobrir o sobrenome dele, arranjar uma foto... deve ser suficiente para eu formar um vínculo onírico. Isso supondo que o gás esteja desativado pra ele também. — Eu não tinha entendido exatamente o que Sydney havia feito. — Seja como for, não é um nome comum. Acha que consegue alguma coisa?
Marcus franziu a testa.
— Talvez... dependendo de há quanto tempo ele está lá, um dos ex-prisioneiros que vêm amanhã pode até conhecer esse cara.
— Então ligue pra eles — mandei. — Agora.
— Se Sydney não está em contato porque reativaram o gás, você não vai conseguir falar com ele também — Marcus avisou.
Ergui as mãos, exasperado.
— Que escolha a gente tem?
Estava claro que ele não via a mínima chance, mas quando fez os telefonemas, um dos caras — na verdade, a garota — nos deu informações.
— Ela disse que, quando esteve lá no ano passado, conheceu um cara chamado Duncan Mortimer — Marcus contou depois. Ele já estava no laptop, digitando enquanto falava. — Não dá pra ter certeza de que é o mesmo, mas as chances parecem boas. Mortimer é um sobrenome famoso. Será que...
Ele não terminou o pensamento e logo encontrou uma ficha sobre Duncan, incluindo foto e informações básicas. A maioria dos usuários de espírito não conseguiria formar um vínculo com alguém que nunca tinha encontrado, e senti uma faísca de orgulho por ser capaz de fazer algo útil. Quando estava certo de que tinha todos os dados de que precisava, mudamos de assunto e passamos o resto do dia examinando as informações de Marcus sobre o prédio propriamente dito. Eu não possuía uma mentalidade tática como os outros, mas tinha o poder considerável do espírito ao meu lado e sugeri onde achava que ele seria útil.
Quando chegou a noite e a “hora de dormir da reeducação”, como eu havia apelidado, primeiro tentei contatar Sydney e, de novo, não tive sorte. Isso nos levou ao plano B, e trouxe Marcus para o sonho. Ele tinha ido dormir mais cedo por esse motivo. Como responsável pelo plano de invasão, era essencial que conversasse com Duncan. Marcus se materializou perto da fonte da Getty Villa, olhando para os braços e mãos como se nunca os tivesse visto antes.
— Nunca vou me acostumar com isso — ele comentou. — Tem certeza de que consegue trazer o cara?
— Só tem um jeito de descobrir.
Eu tinha passado o dia memorizando a foto de Duncan e, agora, invoquei essa imagem na mente, junto com o pouco que sabia sobre ele, enquanto usava o espírito para alcançá-lo no mundo dos sonhos. Duncan Mortimer26 anos, nasceu em Akron, está dormindo a uns vinte quilômetros daqui. Várias e várias vezes repeti o mantra improvisado, me concentrando em seu rosto. Não aconteceu nada. No começo, duvidei das minhas habilidades, antes de aceitar que ele podia estar simplesmente bloqueado para mim como Sydney. Então, alguns segundos depois, uma terceira pessoa se juntou a nós.
Alto e magricela, seu rosto era exatamente igual ao da foto. Além disso, estava usando o mesmo uniforme cáqui horrendo em que Sydney sempre aparecia. Ele olhou ao redor com o tipo de expressão confusa que a maioria das pessoas assumia quando eu as invocava pela primeira vez, sem entender direito que aquilo não era um sonho comum.
— Hum — ele disse. — Faz tempo que não sonho.
— Isso não é um sonho — eu disse, me aproximando dele. — Pelo menos não do tipo que você está pensando. Criei esse sonho com espírito. Adrian Ivashkov. — Estendi a mão para ele. — Estou aqui pra conversar sobre Sydney Sage.
Duncan ainda parecia estar vendo graça em tudo, como se aquilo fosse apenas uma brincadeira estranha do seu subconsciente, até finalmente entender o que eu havia dito.
— Ah. É você. O namoradinho bonito e atormentado dela.
— Ela disse que sou bonito e atormentado? — perguntei. — Deixa pra lá. Por que não consigo falar com ela? Onde ela está?
— Num lugar de onde nunca vi ninguém voltar — ele disse, num tom sinistro. — Um lugar que eu nem sabia que existia até Emma ver com os próprios olhos.
— Quem é Emma? — Marcus perguntou, chegando perto de nós.
Duncan ficou um pouco surpreso ao ver outra pessoa, mas então pareceu relaxar e considerar aquilo mais uma parte daquela experiência estranha.
— Colega de quarto da Sydney. Ex-colega de quarto, agora que Sydney foi transferida.
Eu estava prestes a fazer mais um milhão de perguntas, mas então decidi ir direto à fonte.
— Consegue formar uma imagem mental dessa menina? Essa tal de Emma? Tipo, visualize o seu rosto e pense em tudo o que sabe sobre ela.
— Certo... — ele disse, franzindo um pouco a testa.
Se alguém que eu havia trazido pensasse em uma pessoa que eu não conhecia, eu poderia estender o espírito e usar essa visualização como âncora para trazer a pessoa para o sonho. Não era mais difícil do que chamar alguém que eu não conhecia, desde que o foco mental de quem estivesse comigo fosse suficientemente bom. O de Duncan devia ser porque, alguns segundos depois, uma menina magra, com o mesmo uniforme cáqui, surgiu ao seu lado.
Rapidamente explicamos a situação e em que tipo de sonho ela estava, e ela pareceu mais incomodada que Duncan com isso. Mesmo alquimistas liberais tinham problemas com magia vampírica. Mas a curiosidade dela logo levou a melhor.
— Então era isso que Sydney estava fazendo — Emma disse. — Entrando em contato com você através do espírito. Por isso precisava do gás desligado.
— Deve estar desligado pra todo mundo, já que estamos aqui — Duncan disse. — Não achei que conseguiria.
Emma concordou, melancólica.
— Era isso que ela estava fazendo na noite em que foi pega. Quer dizer, não acho que estava fazendo isso, exatamente. Quando a vi, parecia que eles não sabiam o que ela tinha feito.
— Crianças — eu disse —, vocês precisam voltar um pouco e me dar mais detalhes.
Juntos, eles foram contando a história completa de como Sydney vinha fazendo tinta antialquimista às escondidas e então tinha desligado um sistema de emergência capaz de deixar o lugar inteiro inconsciente. Marcus claramente aprovava a estratégia, mas até ele ficou horrorizado quando Emma contou o preço que Sydney pagou por isso.
— Foi horrível — Emma disse, empalidecendo. — Não sei como eles fazem aquilo. Deve ser alguma coisa embutida na maca. Também não sei como Sydney não confessou quando a torturaram. Eu teria contado tudo, mas ela continuou de boca fechada... pelo menos até me ver sofrendo. Então contou que estava usando magia. Ela me salvou... e se meteu numa encrenca ainda pior.
Senti uma pontada no peito.
— É o jeito dela. Você não sabe onde ela está agora?
— Ainda no quarto andar, acho — disse Emma. — A menos que a tenham transferido pra solitária.
Marcus suspirou.
— Bom, pelo menos sabemos pra que esses andares são usados. — Ele olhou os dois prisioneiros de cima a baixo, medindo-os antes de dar a notícia bombástica. — Vamos tirar Sydney de lá em breve. Tirar todos vocês, na verdade.
A diferença na reação deles foi enorme. Emma abriu um sorriso. Duncan ergueu as mãos com repulsa e saiu andando.
— Duncan — ela exclamou. — Volte aqui.
Ele parou e se virou.
— Por quê? Não quero ouvir isso. É inútil.
— Você nem ouviu o nosso plano — Marcus disse, parecendo quase magoado.
— Não importa — Duncan disse. — Vocês não vão conseguir entrar aqui. Não vão conseguir tirar a gente. Mesmo se conseguirem, e depois? Pra onde vamos? Acham que eles não vão atrás de nós?
— Sei que vão — Marcus respondeu calmamente. — Vou tomar as providências pra esconder vocês.
Duncan ainda parecia cético, mas Emma estava claramente a bordo.
— O que precisam de nós?
— O máximo de detalhes possível sobre o lado de dentro — Marcus disse. — O ideal é saber onde fica a porta principal. Ninguém que esteve lá viu a saída.
— Sydney viu — disse Emma. — Fica no andar das solitárias, na sala de controle deles. Mas pelo que ela disse, tem um monte de gente lá.
— Imaginei — Marcus disse. — Faz sentido se for a única saída. Esse lugar parece correr um risco enorme de incêndio.
— E corre — Duncan concordou, um pouco relutante. — É por isso que tem tantos sprinklers no teto e alarmes de incêndio em todo lugar.
— Já aconteceu algum incêndio? — perguntei. Queria participar do plano, mas estava sendo difícil me concentrar em algo além do fato de que Sydney estava trancada sendo torturada em algum lugar. — Algum motivo pra evacuar vocês?
Emma olhou para Duncan atrás de uma resposta.
— Não — ele respondeu. — Acho que teve um incêndio na cozinha uma vez, uns anos atrás, mas eles agiram rápido pra apagar. Teria que ser muito sério pra tirarem todo mundo daqui.
Quase podia ver as engrenagens girando na cabeça de Marcus.
— Tem algum jeito de vocês criarem um incêndio? Têm acesso a alguma coisa inflamável? — ele perguntou.
— Sydney poderia botar fogo no lugar inteiro se estivesse livre — murmurei.
— Eles fazem de tudo pra minimizar nossa exposição a objetos inflamáveis — Emma disse. Houve uma leve mudança na expressão de Duncan, e ela também notou. — O quê, você sabe de alguma coisa que eu não sei?
Ele encolheu os ombros.
— Não importa.
— Importa sim! — Ela caminhou a passos largos até Duncan e bateu no peito dele. — Se sabe alguma coisa que pode ajudar, então fala! Deixa de ser tão covarde! Tenha esperança de que talvez haja uma saída desse lugar! Se não estivesse com tanto medo de ajudar Sydney a achar aqueles controles de gás, talvez ela não tivesse sido pega!
Duncan estremeceu como se tivesse levado um tapa na cara.
— Não tinha nada que eu pudesse fazer! Eles já estavam desconfiando dela.
— Então faça alguma coisa que valha a pena — Emma gritou. — Realmente quer passar o resto da vida desse jeito? Porque eu não. Quero sair. Não ligo se vai ser como foragida. É melhor do que viver presa desse jeito. Era assim que você devia pensar.
— Acha que não penso? — ele rebateu, furioso.
Ela ergueu as mãos.
— Quer saber? Não. Tudo o que vejo é que você é fraco. Até os alquimistas pensam isso.
Ele soltou uma risada áspera.
— Acha que é por isso que estou aqui?
— Você nunca sai da linha. Por que outro motivo te manteriam aqui por tanto tempo? — ela perguntou.
Ele não respondeu, mas Marcus sim.
— Porque ele é filho de Gordon e Sheila Mortimer.
Os olhos de Emma se arregalaram um pouco.
— Jura?
— Quem? — perguntei, confuso.
— Percebi quando encontrei seu nome completo — Marcus continuou. — Eles são líderes alquimistas muito poderosos, Adrian.
— Que não podem correr o risco de deixar o resto do mundo saber que o filho deles quebrou as regras pra ajudar um Moroi durante uma missão — Duncan acrescentou, amargurado. — Ele se virou para Emma. — É por isso que estou preso há tanto tempo e por isso que vou continuar preso. Mesmo se for o detento mais bem-comportado do mundo, meus pais não vão deixar meu passado vergonhoso voltar para assombrá-los.
— Então não deixe que eles vençam! — Emma exclamou. — Lute. Não deixe que te descartem desse jeito. Ajude a gente nessa. Por você. Por Chantal, quando a encontrar.
O nome não significou nada para mim, mas atingiu Duncan com força.
— Não tenho como descobrir onde ela está — ele disse, sombrio.
— Eu tenho — Marcus interrompeu. — Onde quer que ela esteja, tenho contatos em todo o mundo, muitos ligados a alquimistas. Pode demorar um pouco, mas a gente vai encontrar essa garota. Encontramos Sydney, não encontramos?
Duncan ainda parecia cético e Emma apertou sua mão.
— Por favor, Duncan. Faça isso. Dê uma chance. Comece a viver. Não deixe que eles tirem tudo de você.
Duncan fechou os olhos e respirou algumas vezes para se acalmar. Por mais ansioso que estivesse para salvar Sydney, não pude deixar de sentir um pouco de pena dele. Os alquimistas, mesmo os mais cretinos como Keith, costumavam ser pessoas brilhantes e competentes. Duncan sem dúvida já tivera a mesma capacidade — e provavelmente ainda tinha. Era terrível que pessoas como ele pudessem perder tanto as forças, e torci para que pudéssemos resgatar Sydney antes que fosse tarde demais.
— Sim — ele disse finalmente, abrindo os olhos. — Sim, sei como começar um incêndio.
Passamos o resto da noite fazendo planos. Marcus e os prisioneiros estiveram dormindo durante todo esse tempo, mas, quando o sonho acabou, logo antes do amanhecer, eu estava exausto. Havia ficado acordado a noite inteira e meus olhos, quando me vi no espelho, estavam tão vermelhos quanto os de um Strigoi. Eddie e Trey tinham dormido e estavam ansiosos para saber o que se passara durante a noite.
— Durma um pouco — Marcus disse. — Vou atualizar os dois durante o café e tomar as providências com os outros. Vai ser hoje.
Depois que os três saíram, deitei no colchão vagabundo, certo de que nunca dormiria estando tão perto de libertar Sydney. Era tudo em que minha mente conseguia pensar. Meu corpo, porém, estava exausto, e senti que tinham se passado apenas alguns minutos quando Marcus me acordou mais tarde.
— Bom dia, raio de sol — ele disse. — A cavalaria chegou.
Estreitei os olhos diante da luz da tarde e cumprimentei os reforços de Marcus — Sheila, Grif e Wayne. Eles tinham feito grandes planos enquanto eu dormia, me deixando descansar o máximo possível. Marcus me acordou para que explicasse meu papel aos recém-chegados, além de me informar dos pequenos ajustes que haviam sido feitos ao longo do dia. Não eram muitos, embora mais detalhes tivessem sido decididos, e a equipe de Marcus tivesse feito um bom trabalho de reconhecimento no lugar propriamente dito. Depois que tudo foi revisado, seguimos para a estrada e tive que aceitar a realidade impossível de que finalmente estava indo atrás de Sydney.
Somando meus amigos e os recrutas de Marcus, tínhamos uma verdadeira caravana. Ele tinha mandado um dos rapazes trazer uma van, em que pretendia levar a maior parte dos detentos.
Depois de ver a relutância de Duncan, eu tinha questionado se conseguiríamos fazer com que eles viessem conosco, mas Emma me garantira que sim. Quando Sydney fora levada, Emma havia encontrado o restante da tinta de sal no quarto delas e usado para comprar a lealdade de mais alguns detentos.
— Eles vão fazer o que a gente disser — ela dissera com um sorriso irônico. — E vão garantir que todo mundo faça também.
A um quilômetro e meio do local, nossa caravana se dividiu em duas. Marcus, no meu carro, e seus parceiros, na van, foram para um local nos arredores, de onde fariam o restante do caminho a pé. Eddie, Trey e eu fomos direto para a porta da frente dos alquimistas, tendo na bochecha lírios dourados que Sheila pintara delicadamente e que ficaram idênticos aos verdadeiros. Essa parte do plano havia causado um pouco de polêmica, pois Marcus teria sido a escolha ideal para entrar e fingir ser alquimista. Seu rosto, porém, era tão conhecido que não podíamos correr esse risco, e eu não tinha a capacidade de alterar a minha aparência e a dele ao mesmo tempo com magia. Talvez se eu precisasse apenas me passar por outro Moroi que não Adrian Ivashkov, poderia disfarçar nós dois, mas precisei mudar a minha raça. Em condições normais, nenhum Moroi chegaria perto do prédio da reeducação.
Estávamos no Prius de Marcus (“É um carro que qualquer alquimista dirigiria”, ele tinha garantido) e seguimos direto para a entrada de carros, onde havia um cancela vigiada por um homem numa cabine. Ele deu uma olhada nos crachás alquimistas falsos que Marcus havia mandado fazer para nós e liberou a nossa entrada. Estava tudo indo de acordo com o plano.
Marcus explicara que o guarda do portão não checaria os crachás em nenhuma base de dados eletrônica. Isso só aconteceria quando entrássemos no prédio em si.
— Você realmente não imagina o déjà-vu que estou sentindo agora — Eddie comentou, depois que paramos o carro. Havia outros carros parecidos e igualmente eficientes no estacionamento. — Isso me lembra de quando Rose, Lissa e eu tiramos Victor Dashkov da cadeia. É meio perturbador.
— A diferença é que ele era um criminoso calejado que merecia ficar na prisão — eu disse. — Agora estamos do lado da justiça, resgatando pessoas inocentes.
— Ah, eu sei — ele disse. — Só estava pensando que aquela fuga teve seus problemas, e só tiramos uma pessoa, não uma dúzia.
— Assim é mais fácil — Trey disse, com um sorriso. — Quer dizer, é tudo ou nada. Você não precisa ter a mesma sutileza de quando está tirando uma pessoa só. Nós vamos arrombar o lugar.
— Essa é a minha preocupação.
O saguão de entrada do suposto centro de pesquisa era científico e imponente. Toda a arquitetura era de metal e vidro, com fotos de paisagens desérticas emolduradas que, teoricamente, estavam relacionadas à função do lugar. Uma porta de vidro levava para a ala esquerda, onde, segundo os espiões de Marcus, viviam os alquimistas que trabalhavam no centro. Uma jovem estava sentada na recepção, de costas para uma porta mais sinistra e sem placa que haviam nos dito ser a entrada da reeducação.
— Minha nossa! — ela exclamou. — Nem vi vocês entrando pelas câmeras de segurança.
— Desculpe — eu disse, exalando carisma induzido por espírito. — Espero que a gente não tenha assustado você. — Um dos Vingadores de Marcus tinha passado no terreno mais cedo e encontrado um jeito de sabotar as câmeras exteriores, fazendo que repetissem as gravações, escondendo a aproximação de todos. Isso era bom para mim, pois meu disfarce de espírito não se sustentaria diante das câmeras, e bom para Marcus, cujo grupo nem estava tentando ser discreto.
— Não, de jeito nenhum. — A menina sorriu para mim, me mostrando que a ilusão estava funcionando. — O que posso fazer por vocês?
— Estamos aqui pra ver Grace Sheridan — eu disse, mostrando meu crachá. Eddie e Trey fizeram o mesmo. Conseguir o primeiro nome de Sheridan tinha sido outro milagre de Duncan.
A recepcionista arqueou as sobrancelhas enquanto pegava nossos crachás para passar no computador.
— Não me avisaram de nenhuma reunião. Vou ligar pra ela.
A conversa murmurada ao telefone foi mais ou menos o que esperávamos, assim como a surpresa dela quando checou nossos crachás e o computador disse que não existíamos.
— Nosso departamento é um pouco... como posso dizer... clandestino — Trey explicou. — Não existe registro nosso porque não gostamos de anunciar o que investigamos. No entanto, ficamos sabendo que houve um ressurgimento do nosso objeto de estudo aqui e que a senhorita Sheridan está envolvida no caso.
A recepcionista repassou a mensagem enigmática pelo telefone e desligou alguns segundos depois.
— Ela vai ver vocês. Por essa porta, por favor.
Entrei, sem saber direito o que esperar. Pelas histórias, arame farpado e correntes na parede não teriam me surpreendido. No entanto, os alquimistas ainda estavam mantendo o ar “científico casual” no térreo, pois a sala em que entramos seguia o mesmo estilo do saguão de entrada, com uma exceção.
Seis homens estavam de guarda, distribuídos estrategicamente em torno de duas portas: a do elevador e a da escada. Usavam ternos e tinham lírios dourados nas bochechas; eram alguns dos alquimistas mais fortes que eu já tinha visto na vida. O departamento de RH devia ter procurado muito para encontrar os espécimes mais musculosos à sua disposição. Mais intimidante, porém, era que cada um deles tinha uma arma visível — uma arma de verdade, daquelas capazes de matar, não uma daquelas tranquilizantes minúsculas que Marcus havia escondido nos bolsos de Trey e Eddie. Marcus dissera que a repercussão já seria grande o bastante se não deixássemos fatalidades e também não queria que inocentes se ferissem no meio do motim. (Nem preciso dizer que ninguém tinha sugerido me dar uma arma.)
Mantive um sorriso tranquilo no rosto, como se estivesse acostumado a ver um bando de guardas armados impedindo que um grupo de prisioneiros maltrapilhos fugisse ou pensasse por conta própria. O elevador soou e uma jovem elegante saiu dele. Ela tinha o tipo de beleza que sugeria que era capaz de enfiar uma adaga no seu coração sem parar de sorrir por um momento. Ela nos abriu um sorriso desses enquanto nos apresentávamos.
— Receio que os senhores me pegaram de surpresa — ela disse. Ela se debruçou um pouco para ler meu crachá. — Não estava esperando por vocês. Nem sabia que existia um Departamento de Transgressões Ocultas e Arcanas.
— Não fazemos muitas aparições, muito menos aparições públicas — eu disse, muito sério. — Mas, quando um desastre dessa magnitude chega à minha mesa, não temos escolha senão intervir.
— Desastre? — Sheridan perguntou. — Não precisa exagerar. Temos tudo sob controle.
— Está me dizendo que uma de suas detentas não usou recursos mágicos ilícitos para escapar do seu controle e conduzir ações que você ainda não consegue explicar? — perguntei. — Dificilmente chamaria isso de controle.
Ela ficou vermelha. Sério, eu merecia um Oscar por essas coisas.
— Como sabe disso?
— Temos olhos e ouvidos onde você nem imagina — eu disse. — Agora, vai cooperar com a nossa investigação ou preciso ligar para meus superiores?
Sheridan hesitou e então lançou um olhar constrangido para os guardas imperturbáveis.
— Vamos conversar aqui dentro — ela disse, apontando para o que parecia ser um pequeno escritório. Nós a seguimos e ela fechou a porta assim que entramos. — Escute, não sei quem está contando essas histórias a vocês, mas realmente temos tudo sob...
O disparo de um alarme de incêndio a interrompeu. Ele foi seguido por um som crepitante e uma voz surgiu de repente do pequeno rádio na cintura dela.
— Sheridan? Aqui é Kendall. Temos um problema.
Sheridan ergueu o rádio.
— Sim, ouvi os alarmes. Onde é?
— Múltiplos focos no segundo andar.
Sheridan levou um susto com a palavra “múltiplos”.
— Qual o tamanho deles? — ela perguntou. — Os sprinklers devem ser capazes de contê-los. — Ela olhou para o teto e pareceu surpresa. — O de vocês está ligado? Eles deviam ter disparado em todo o prédio em caso de incêndios múltiplos. Todo o lugar devia estar embaixo d’água.
— Não, não aconteceu nada ainda — a voz respondeu. — Vamos esperar? Ou quer evacuar o prédio?
Sheridan ficou olhando incrédula para o rádio e depois para o sprinkler inativo no teto.
Duncan dissera que poucas situações fariam com que os alquimistas evacuassem o prédio, então fizemos de tudo para criar uma. Aparentemente, a professora de artes deles estava tentando parar de fumar e, junto com uma quantidade enorme de chicletes, guardava cigarros e fósforos em sua mesa. Combinando isso com um estoque de removedor de tinta, ele e outros detentos haviam começado incêndios simultâneos no andar dos quartos. Isso já seria perigoso em condições normais, mas um dos colegas de Marcus havia encontrado o controle exterior do sistema de água do centro e o sabotado para atrasar o ligamento dos sprinklers.
O rádio crepitou mais uma vez.
— Sheridan, ouviu o que eu disse? Devemos evacuar?
Ficou claro pelo rosto de Sheridan que ela jamais tinha esperado tomar uma decisão como essa. Depois de alguns segundos, finalmente respondeu:
— Sim, têm a minha autorização. Evacuem. — Ela nos lançou um olhar rápido enquanto avançava para a porta. — Com licença, temos uma emergência.
Na outra sala, os guardas estavam em alerta por causa das sirenes de incêndio.
— Temos um Código Laranja — ela gritou para eles. — Fiquem preparados. Vocês dois, tragam os detentos e os mantenham ali. Os outros, fiquem com as armas prontas e cuidado com...
O rádio ligou mais uma vez, desta vez com uma voz masculina.
— Sheridan, está aí?
Ela franziu a testa.
— Kendall?
— Não, aqui é Baxter. Tem alguma coisa errada. Os detentos... eles estão tomando controle... resistindo às nossas ordens...
Sheridan empalideceu.
— Mande o centro de controle iniciar o protocolo de emergência de gás. Apague todo mundo. Vamos pegar máscaras e mandar pessoal aí pra retirar vocês e...
— Já tentamos! O sistema está desativado.
— Desativado? — Sheridan exclamou. — Isso é...
A porta que dava para o saguão se abriu de repente, e Marcus e seus parceiros entraram às pressas, empunhando as armas de dardos. Elas podiam não ser tão letais quanto armas de verdade, mas foram eficazes, ainda mais por termos a surpresa do nosso lado. Eddie e Trey também sacaram as suas rapidamente e, em questão de segundos, os guardas estavam no chão.
Só dois deles conseguiram disparar tiros — tiros que erraram de longe — antes de cair com os tranquilizantes. Marcus empurrou a recepcionista aterrorizada para dentro da sala e avaliou a situação. Mandou Grif e Wayne empilharem os corpos inconscientes no escritório enquanto Sheila vigiava Sheridan e a recepcionista. Desfiz o disfarce de espírito e as duas alquimistas levaram um susto ao perceber que estiveram conversando com um Moroi. O choque aumentou quando Sheridan olhou para Marcus e o reconheceu.
— Você! — ela vociferou.
Ela não teve chance de dizer mais nada. Momentos depois, a porta da escada se abriu e foi então que começou o verdadeiro caos. Um grupo confuso de detentos em uniformes cáqui foi saindo junto com funcionários alquimistas em roupas formais. Alguns detentos pareciam assustados e estavam sendo literalmente arrastados pelos colegas contra sua vontade, me lembrando da afirmação de Emma de que eles dariam um jeito de tirar todo mundo. Marcus rapidamente iniciou um sistema que era o oposto do que Sheridan pretendia para a evacuação, dividindo os detentos e alquimistas conforme iam saindo, e mantendo o segundo grupo, de alquimistas chocados, sob vigilância pesada. Fiquei olhando ansioso, com o maxilar tão cerrado que estava começando a doer. Ninguém que eu conhecia estava no primeiro grupo que subiu, mas isso era compreensível. Foi quando a quantidade de detentos começou a diminuir que meu nervosismo aumentou de verdade.
É agora, pensei. A qualquer momento, Sydney vai sair com Emma e Duncan.
E, então, Emma e Duncan saíram... sem Sydney.
— Como assim? — exclamei. — Cadê ela? Vocês disseram que a trariam!
— Tentamos — Emma exclamou. Ela jogou quatro crachás no chão. — Nenhum deles abre as portas no quarto andar. Não deviam ter acesso... por mais que eu já tenha visto essas pessoas indo para lá.
Me voltei para Sheridan, furioso.
— Por que as portas do quarto andar não estão abrindo? — berrei. — Quem tem acesso?
Sheridan recuou um passo.
— É lá que ficam os prisioneiros mais perigosos — ela disse, com o máximo de dignidade possível. — O sistema tranca automaticamente em ocasiões como essa. O acesso normal por cartões fica desativado. Eles são perigosos demais pra escapar.
Só então entendi o que ela queria dizer.
— Então vocês simplesmente deixam que morram lá? Vocês são doentes?
Os olhos dela se arregalaram de medo, mas não dava para saber se era da minha fúria ou da própria consciência.
— É um risco que assumimos; um risco que nossos próprios funcionários assumem. Dois deles estão trancados lá embaixo também, um com cada prisioneira.
— Vocês são ainda mais loucos do que eu imaginava — Marcus resmungou. — Algum crachá deve funcionar. O seu funciona? — Quando ela assentiu, relutante, ele o arrancou do seu terninho. — Os sprinklers devem ligar a qualquer momento. Quando ligarem, a gente desce e traz as pessoas. É improvável que o incêndio tenha se espalhado para aquele andar, mas as escadas vão estar...
— Hum, Marcus — Grif disse, com a voz tensa. — Os sprinklers já deviam ter ligado. Não defini o atraso para tanto tempo.
Marcus ficou boquiaberto.
— Como é? Você sabotou os sprinklers permanentemente?
— Foi sem querer! Era para ser só por tempo suficiente pra levá-los a investigar.
— Então volte lá e dê outra olhada — Marcus gritou. — E traga o guarda da cancela com você. — Grif saiu correndo.
Eu tinha ouvido o suficiente. Mais do que o suficiente. Sydney estava lá embaixo, trancada numa sala enquanto o incêndio devastava os três andares acima dela e poderia se alastrar para baixo. Cheguei perto de Marcus e peguei o crachá de Sheridan da sua mão antes de me voltar para ela.
— Quantas pessoas estão lá embaixo? Você falou duas prisioneiras e dois funcionários. Mais alguém?
Ela fez uma contagem rápida dos alquimistas amontoados.
— Todos os meus funcionários estão aqui — balbuciou.
— Também estamos todos aqui — Emma disse. — Inclusive os seis que tiramos das solitárias. Olhamos todas as celas.
— Certo — eu disse. Fui até a porta da escada e a abri com força. Embora não estivesse exatamente cheia de fumaça, havia uma leve névoa no ar que não era um bom sinal sobre o avanço do incêndio. — Vou buscar os outros quatro. Alguém vem comigo?
Na mesma hora, senti a presença de Eddie ao meu lado.
— Nem precisava perguntar.

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