19 de outubro de 2017

Capítulo 16

Sydney

— “MAIS OU MENOS”? — perguntei. — Como dá pra… fazer uma coisa dessas “mais ou menos”?
Eu não conseguia entrar em detalhes. O que Rose havia acabado de descrever era monstruoso. Era o tipo de coisa com que os alquimistas tinham pesadelos, o tipo de coisa que confirmava todas as alegações de que eles eram criaturas perversas e sombrias.
Adrian olhou ao redor, mas todos estavam ocupados em suas próprias conversas.
— Não foi bem assim. Nunca droguei ninguém. Faz muito tempo, e foi só uma vez, quando eu era muito mais jovem e idiota. Estávamos numa balada, e acabamos saindo com umas humanas. Elas estavam bebendo muito e a gente também, e tinha uma que gostou de mim. Ela ficou muito bêbada, uma coisa levou à outra…
— … e você bebeu sangue dela — completei. — Quando ela nem sabia o que estava acontecendo.
— Não bebi muito. — Pude ver pela sua expressão que até ele sabia que era uma desculpa esfarrapada. — E, tecnicamente, foi ela quem se drogou.
Engoli em seco e tentei responder de maneira objetiva, como uma alquimista.
— Mesmo assim, foi extremamente descuidado. Vocês poderiam ter exposto o mundo dos vampiros! Como podemos fazer nosso trabalho se vocês saem por aí e simplesmente se mostram para o mundo?
— Acho que ela não lembrou de nada depois.
— Isso é quase pior. — Minha objetividade se reduziu a pó. — O que você fez… como você pôde? Não importa se não era uma droga! Na verdade, era sim. Álcool é tão ruim quanto qualquer coisa que você poderia ter dado para ela. Você se aproveitou de uma pessoa que não estava no controle de si mesma. Foi uma violação.
Uma expressão de dor perpassou o rosto dele.
— Caramba, Sydney. Eu não estava no controle de mim mesmo.
— E isso justifica? — murmurei, furiosa. — E mesmo se foi “só uma vez”, quantas vezes você fez vista grossa enquanto seus amigos faziam coisas muito piores?
— Eles não são mais meus amigos. E você realmente acha que eu poderia ter impedido?
— Chegou a tentar alguma vez? — perguntei, furiosa.
— Eu era outra pessoa naquela época! — Percebendo que estava quase gritando, Adrian deu um passo à frente e abaixou a voz. — Mais que qualquer pessoa, você deveria entender. Há menos de um ano fazia o sinal contra o mal quando a gente estava por perto e não apertava a mão de um Moroi porque achava que éramos filhos de Satã.
— É, e talvez eu estivesse certa. E nem tente comparar superstição com… com… estupro de sangue.
Ele pestanejou.
— Não estou falando que é a mesma coisa. Só estou dizendo que as pessoas mudam. A gente cresce e aprende. Você sabe que tipo de pessoa eu sou. Sabe que eu nem sonharia em fazer esse tipo de coisa agora.
— Sei? — Tentei invocar o máximo de indignação possível porque, senão, talvez começasse a chorar. Eu me recusava a perder o controle em uma sala cheia de Moroi. — Está dizendo que não beberia meu sangue se tivesse a chance? Que nem pensa sobre isso?
— Nunca. — Ele falou com tanta certeza que quase acreditei nele. — A única coisa que quero do seu corpo é… enfim, não seu sangue. Você sabe disso.
Eu não sabia mais. Virei o rosto, tentando me acalmar com aquela revelação que desequilibrara meu mundo. Fazia tempo que eu tinha aceitado o extenso passado romântico dele. Surpreendentemente, não me incomodava mais. Tudo aquilo tinha acontecido antes de nos conhecermos. Aquelas meninas não faziam mais parte da vida dele. Ele não as amava. Era livre na época e, se quisesse ficar com garotas que também queriam, era problema dele.
No entanto… ali estava ele, admitindo que havia ficado com uma menina que não queria. Na verdade, “ficar” era um eufemismo para o que ele havia feito. Beber sangue era o maior pecado que os Moroi cometiam aos olhos alquimistas. Eu tinha aceitado esse fato, aceitado que fazia parte da vida deles, mas era uma coisa que ainda me deixava incomodada. Com certeza não conseguia assistir, e sempre ficava aliviada quando Jill e Adrian terminavam na mansão de Clarence. Agora, não conseguia parar de pensar naquela coisa horrível que ele havia feito. De repente, ele tinha encarnado todos os medos alquimistas sobre monstros à espreita de vítimas indefesas.
— Sydney…
A tristeza em sua voz era de partir o coração, mas eu não tinha palavras de consolo para dar a ele. Não conseguia nem me consolar. Ele disse que havia mudado, mas será que era o bastante? Será que poderia compensar algo tão hediondo?
— Desculpem o atraso. — Abe entrou a passos largos com um dampiro que eu não conhecia, desviando minha atenção do rosto angustiado de Adrian. Ele estava segurando uma caixa e vestindo um cachecol de seda azul-esverdeado. Devia adorar que era inverno. — Algumas dessas coisas não são fáceis de encontrar.
— Mas conseguiu tudo? — Lissa perguntou, ansiosa.
— Claro. — Abe apontou dramaticamente para o dampiro ao seu lado. — Inclusive o nosso tatuador, Horace. Estamos prontos quando você estiver.
Foi só quando todos os olhos se voltaram para mim que percebi que era comigo que ele estava falando. Por um momento, não entendi nada. Por que todos estavam me encarando? O que eu precisava fazer? As únicas coisas em que conseguia pensar eram Adrian e aquela confissão sombria. Então, aos poucos, a cientista dentro de mim foi tomando conta. Claro. A tinta. Medições, substâncias químicas. Isso eu conseguia fazer. Não havia ambiguidade moral nenhuma nisso.
Endireitando a postura, fui até Abe e disse com uma voz fria que não usava fazia muito tempo:
— Deixe-me ver o que você trouxe.
Ele colocou os materiais em uma mesa grande. Examinei um por um com olhar crítico e assenti, satisfeita.
— Está tudo aqui.
— O que você precisa que a gente faça? — ele perguntou.
— Não me atrapalhem.
Puxei um banquinho de madeira e peguei o celular, que continha a fórmula exata e as instruções para fazer a tinta alquimista. Caiu um silêncio pesado e tentei ignorar o fato de que tinha uma plateia. Fazia tempo que não trabalhava com substâncias alquimistas, mas exigiam a mesma concentração e cuidado que os ingredientes de um feitiço. Eu apenas estava facilitando reações químicas, em vez de reações mágicas.
Era um trabalho simples, mas minhas mãos tremiam enquanto eu media e misturava as substâncias.
Precisava concentrar minha mente na tarefa, e não no meu coração partido. Quando perceberam que aquilo não ia levar cinco minutos, se dispersaram e ficaram conversando baixinho entre si, finalmente me dando um pouco de privacidade. Rose e Dimitri, pensando que eu estava incomodada por ajudar os Moroi, pararam uma vez para dizer como era incrível o que eu estava fazendo. Respondi o elogio com um curto aceno de cabeça.
Sonya passou na mesa quando eu estava terminando e demonstrou um sentimento parecido.
— Isso pode ser muito útil pra gente, Sydney.
Levantei os olhos rapidamente.
— Eu sei. Fico feliz em ajudar.
Ela viu alguma coisa no meu rosto que a pegou de surpresa.
— Qual é o problema?
— Nada. — Abaixei os olhos de novo. — Só estar na corte e num horário bizarro.
— É mais do que isso. Acha que não consigo ver?
Sim, claro que ela conseguia, pensei, amargurada. Ela devia ver o sofrimento na minha aura porque era isso que fazia: olhava dentro das pessoas, quisessem elas ou não. Eu estava aprendendo que limites eram uma coisa discutível entre os Moroi.
— Vi você conversando com Adrian — ela continuou. — O que ele falou pra você? — A voz dela vacilou. — Sydney, vi algumas coisas entre vocês que…
Levantei os olhos outra vez e minha raiva de antes explodiu.
— Se quer ajudar, me deixe trabalhar e esqueça o que acha que viu.
Ela se assustou, e senti uma pontinha de arrependimento. Sonya era minha amiga e devia ter boas intenções. Eu só não queria aquelas boas intenções agora e, depois de alguns segundos, ela desistiu.
Completei a suspensão e afastei o frasco para admirar a substância que havia criado. Estava tão perfeita quanto possível. Os outros voltaram para perto, fazendo com que me sentisse oprimida e encurralada.
— É isso? — Neil perguntou. — Pode me tatuar agora?
— Não. — Apontei para o frasco de sangue intocado, ainda envolto nos anéis de prata. — A suspensão precisa descansar por um tempo antes que a gente possa misturar tudo.
Ficou claro que eles não estavam esperando por essa.
— Quanto tempo? — Abe perguntou.
— Algumas horas devem bastar.
Sonya soltou um suspiro decepcionado.
— A cada hora, o espírito enfraquece. — Ela se voltou para Adrian. — Acha que o sangue ainda tem espírito suficiente pra ser útil?
— Precisa ter — ele respondeu, enigmático.
— Não há nada que eu possa fazer pra acelerar o processo — expliquei. — A menos que vocês queiram mudar o que a gente faz há séculos. — Eu estava sendo rude, mas não conseguia evitar. — Vou para meu quarto descansar um pouco. Volto quando estiver na hora do próximo passo.
— Quer que eu vá com você? — Dimitri perguntou.
Meu mau humor estava transparecendo para todos. Levantei e, cuidadosamente, guardei os ingredientes repetidos de volta na caixa.
— Obrigada, mas sei o caminho. — Eu preferia assumir os riscos de caminhar pela corte sozinha do que lidar com mais conselhos bem-intencionados. — Mas… Abe, se tiver um minuto, queria fazer uma pergunta.
Algumas pessoas, especialmente Abe, foram pegas de surpresa com o pedido. No entanto, ele logo escondeu o choque e se deixou levar pela curiosidade.
— É claro. Espere, deixe que eu carrego pra você. Ou então, se quiser deixar aí, eu cuido disso, já que você não precisou do segundo conjunto.
Ergui o queixo da maneira arrogante dos alquimistas.
— Esses ingredientes são usados para um dos nossos objetivos mais importantes. Não posso deixá-los pra trás.
Saímos, passando por Adrian e Charlotte perto da entrada. Ele me olhou com sofrimento e mal ouvia Charlotte, que lhe contava, com ar preocupado, que Olive e Neil tinham ficado juntos até tarde. Desviei o olhar dele, com medo do que pudesse revelar.
A noite estava fria, agradável e cheia de estrelas enquanto Abe me levava até o prédio dos hóspedes.
— Então — ele disse. — A que devo o prazer da companhia?
— Os ingredientes que você me deu. Um deles era sangue Moroi.
— Estava na sua lista, embora parecesse estranho — ele acrescentou. — Quer dizer, sei que costuma ser usado na tinta alquimista, mas hoje já tínhamos uma amostra de sangue específica para usar. Na verdade, era o objetivo de tudo isso.
Abe, sempre esperto. Nada escapava dele.
— Está encantado? — perguntei.
— Não. Você não deu nenhuma outra instrução, então só peguei uma amostra comum. Como a gente não estava fazendo a tinta normal, pensei que não precisasse. De qualquer modo, nem saberia que tipo de compulsão inserir.
— Já fez isso antes? — Havia chegado a hora da verdade. Abe nunca pensaria que era uma questão hipotética. — Um encanto de compulsão para os alquimistas?
Silêncio. Ele sabia que algo estava por vir, mas não sabia o quê.
— Não, nunca. Mas entendo os princípios. Um feitiço de compulsão relativamente simples estimulando discrição e lealdade ao grupo.
— Relativamente simples — repeti. Era um eufemismo.
Ele riu.
— Para um usuário de terra, sim.
— Então, acha que conseguiria, mesmo nunca tendo feito um? Poderia fazer um com essas amostras?
— Sim, poderia… — Já dava para ver meu prédio e ele parou de repente. — Srta. Sage, deixe-me ver se entendi corretamente. Você está me pedindo para colocar um feitiço de compulsão nessas amostras de sangue. E o que não está pedindo explicitamente, mas também deseja, é que eu não conte para os outros alquimistas.
Chutei um galho de árvore com a bota. Uma tempestade recente devia ter derrubado alguns, porque eles estavam espalhados pelas calçadas e paralelepípedos.
— Você é esperto demais para o seu próprio bem.
— Você também. E é isso que torna esse pedido absolutamente fascinante. E deixe-me adivinhar. Você não está levando os ingredientes extras só para ter certeza de que vão voltar para as mãos dos alquimistas. — Seus olhos estavam sombrios e desconfiados sob a luz fraca. — Quem vai tentar compelir? Algum menino? Compulsões de amor quase nunca funcionam.
— Não! Não é nada desse tipo. Só preciso de um encanto de compulsão simples, que sirva para todos os propósitos, como o que você faria numa tinta normal. Do resto cuido eu.
— Do “resto” cuida você — ele disse, visivelmente interessado. — E o “resto” seria a parte em que a magia na tinta é ativada para inserir seu comando em alguém.
— Consegue fazer ou não? — perguntei. Bateu um vento mais forte, derrubando alguns flocos de neve de uma árvore próxima.
— Ah, posso fazer agora mesmo — ele disse, alegre. — A questão é: o que ganho em troca?
Soltei um suspiro.
— Sabia que chegaria a esse ponto. Sempre tem que haver alguma vantagem? Você não pode fazer as coisas só por gentileza?
— Minha querida, faço muitas coisas por gentileza. O que não faço é deixar escapar uma chance dessas. Acha que cheguei até onde estou dando de mão beijada coisas que podem resultar em poder e conhecimento?
— Poder e conhecimento? — Balancei a cabeça. — Você está pedindo coisas que estão além da minha capacidade.
— Explique para mim por que está interessada numa tatuagem secreta. É um pagamento mais do que suficiente.
Hesitei. Abe não me denunciaria para os alquimistas, mas de jeito nenhum eu contaria a ele sobre o movimento rebelde de Marcus. Esse era um segredo muito bem guardado.
— Não estou tentando controlar ninguém. Faz parte de um experimento, puramente científico. É a mais pura verdade. Mas não posso falar nada além disso. Esse é todo o conhecimento que tenho. Se quiser negociar outro pagamento, fique à vontade. Mas vamos fazer isso em um lugar mais quente.
Fiquei tremendo e me aconcheguei no casaco enquanto Abe decidia. Finalmente, ele disse, em voz baixa:
— Já sei mais do que você imagina. Sei que Sydney Sage, benfeitora e queridinha dos alquimistas, está trabalhando em projetos clandestinos contrários às diretrizes de sua ordem. É pagamento mais do que suficiente. Me dê seu sangue. As amostras, quero dizer.
Eu me ajoelhei no chão e abri a caixa.
— E o que vai fazer com o que sabe?
— Não vou anunciar para o resto do mundo, se é disso que tem medo. — Ele fez uma pausa e riu. — Mas claro que não tem. Nunca teria me pedido para fazer esse feitiço se achasse que eu denunciaria você.
Entreguei os dois frascos de sangue Moroi fechados para ele. Eu só precisava de um, mas não queria desperdiçar o outro.
— Não — concordei. — Não pensei que me denunciaria. Nem pensei que ficaria chocado.
— Não estou chocado, só surpreso. — Ele ergueu um dos frascos e vi rugas de concentração surgirem em seu rosto enquanto se focava no sangue. Não senti nada com minhas habilidades humanas e, como a magia de terra afetava diretamente a substância do sangue, não haveria uma explosão luminosa de fogo ou água como a que se veria com um dos outros elementos. — Pronto. — Ele me devolveu o frasco e se concentrou no segundo.
— Você não respondeu a minha pergunta — eu o lembrei.
— Porque não sei o que vou fazer — ele disse, alguns segundos depois. Recebi o segundo frasco das mãos dele. — No fim das contas, imagino que vá servir ao mesmo propósito pelo qual uso todo o meu conhecimento.
— Seu próprio bem?
— O bem dos meus entes queridos.
Fiquei sem palavras. Definitivamente não era a resposta que eu esperaria de Abe “Zmey” Mazur. Ele deu um passo à frente para me olhar diretamente nos olhos.
— Você me acha manipulador e ardiloso, srta. Sage? É tudo pelo bem deles. Pelo bem dos meus entes queridos, em primeiro lugar. Do meu povo, em segundo. E, sim, também pelo meu próprio bem, mas não pense por um segundo que não me sacrificaria se pudesse salvar alguém que amo. E não pense, por um instante, que não faria coisas terríveis e abomináveis para salvar alguém que amo. — Quando ele recuou, percebi que eu estava prendendo a respiração. — Boa sorte com seu experimento. Me avise se eu puder ajudar em mais alguma coisa.
Eu o observei ir embora no meio da noite, com suas palavras ecoando na minha cabeça. Quando desapareceu na escuridão, voltei para o meu quarto com a caixa. Lá, o encontro sinistro com Abe desapareceu da minha mente quando problemas incrivelmente maiores desabaram com tudo em cima de mim.
Adrian.
Adrian, que escondera de mim que havia se aproveitado de uma menina humana.
Adrian, em quem eu confiava tanto.
Me joguei na cama e esperei as lágrimas. Mas elas não vieram. A tempestade de emoções de antes havia se transformado num vazio. Eu me sentia fria, com um buraco dentro do peito e as engrenagens da razão girando no cérebro. Será que Adrian estava certo? Será que era errado responsabilizá-lo por algo que ele havia feito tanto tempo antes? Havíamos nos tornado pessoas diferentes, e quem era eu para julgar, sendo que tinha armado um ato de vingança que custara o olho de Keith? Eu não era nenhuma santa.
Mas Keith havia cometido um crime terrível, e a menina cujo sangue Adrian bebera não tinha feito nada além de estar no lugar errado na hora errada. Por que tinha de ser aquilo? Por que tinha de ser com sangue, a coisa que tocava meus medos mais profundos?
Ele me mandou três mensagens no Celular do Amor, perguntando se podia passar para conversar. Não respondi. Pelo menos ele teve o bom senso de não aparecer sem avisar. Passei o resto do intervalo na cama, com Pulinho enrolado sobre meu peito, em formato de estátua.
Quando voltei para o palácio, estava me sentindo mais calma, em grande parte porque tinha decidido ignorar meus sentimentos. A cena que encontrei foi parecida, embora algumas pessoas tivessem saído durante o intervalo. Adrian e Charlotte estavam sentados juntos, conversando. Ela parecia radiante e, embora ele estivesse sorrindo, eu o conhecia bem o bastante para saber que era um sorriso falso. Nossos olhares se cruzaram por um instante, e então fui rapidamente até a mesa.
O resto do procedimento era simples: acrescentar o sangue à suspensão que eu havia criado. O líquido ficou prateado, rendendo um grunhido surpreso de Abe.
— Não era para ser dourado?
Hesitei.
— Mudei essa parte. Prata combina mais com a magia Moroi. Pensei que seria melhor.
Os olhos de Sonya se arregalaram de repente.
— O espírito está vazando agora que está fora da proteção! Me ajudem!
Charlotte e Lissa correram para o lado dela, assumindo uma expressão concentrada. Percebi que elas estavam usando magia para tentar proteger o frasco. Não tinha certeza se teriam sorte, mas sabia o bastante para entender que não podíamos perder tempo.
— Rápido — eu disse a Horace, o tatuador.
Ele tinha uma máquina parecida com a de Wolfe e colocou a tinta na agulha. Neil se sentou ao lado dele e Olive ficou por perto, observando.
— Precisa ser no rosto? — ele perguntou.
— Não — respondi. — A gente só faz no rosto para identificarmos uns aos outros.
Depois de um momento de hesitação, Neil tirou a camiseta, revelando um físico musculoso. Ele apontou para o braço direito.
— Aqui.
Horace desceu a agulha e então pareceu desconcertado.
— O que eu desenho?
Houve alguns segundos de silêncio cômico.
— O que for mais rápido — eu disse.
— Eu gostaria de uma cruz — Neil disse, hesitante. Então retomou a máscara impassível. — Mas faça o que for preciso.
— Faça uma cruz com linhas simples — Adrian disse inesperadamente. — Depois faço um desenho ao redor e você pode usar tinta comum para enfeitar.
Até eu fiquei surpresa com a oferta, considerando como Neil costumava deixar Adrian irritado.
Horace já estava em ação. Mesmo com um desenho simples, tatuar não era algo que podia ser feito às pressas. Ficou claro que ele estava trabalhando o mais rapidamente possível, mas pude ver pelo rosto tenso das usuárias de espírito que elas estavam perdendo o controle. Fiquei tão concentrada no drama que até me esqueci de Adrian. Meu mundo se reduziu a cada gota de tinta que entrava na pele de Neil.
Quando Horace terminou, todos pareciam prestes a desmaiar de exaustão pelo estresse. Lissa apoiou a cabeça no ombro de Christian, e Sonya, mais pálida que de costume, se afundou na minha cadeira.
— Ainda tinha magia na tinta quando você terminou — ela disse. — Mas não consigo ver mais nada. Não tenho como saber se funcionou… exceto pelo jeito óbvio.
De repente, me dei conta dos paralelos entre Neil e Trey. Ambos tinham sido marcados com tinta experimental para protegê-los de poderes insidiosos… mas ninguém sabia de verdade se os procedimentos haviam dado certo. A possibilidade de solucionar o mistério de Trey estava em uma caixa no meu quarto. A resposta para o de Neil, infelizmente, dependia dos dentes de um Strigoi. Sonya fechou os olhos e pousou a mão na testa. Eu mal conseguia imaginar o que ela estava sentindo.
Proteger os Moroi dos Strigoi tinha virado uma obsessão para ela, um projeto com implicações profundamente pessoais. Devia ser incrível para ela estar próxima da possível conclusão de seu trabalho.
De repente, ela abriu os olhos e os fixou em Adrian, parecendo se dar conta de alguma coisa.
— Por que não ajudou a gente? Poderíamos ter salvado mais magia. Você não fez nada.
— Ela tem razão — Lissa disse, surpresa. — Só agora percebi. Fomos só nós três.
Todos se voltaram para Adrian e até eu fiquei surpresa. Aquilo tinha virado um projeto pessoal para ele também, ainda mais considerando seu papel importante em salvar o sangue de Olive. Por que tinha se recusado a ajudar agora? Havia conflito em seu rosto. Por fim, ele suspirou, resignado.
— Não ajudei porque… porque não consigo.
Lissa se desencostou de Christian, endireitando o corpo.
— E isso quer dizer o que, exatamente?
Ele abriu um sorriso melancólico.
— Quer dizer, prima, que faz três semanas que estou tomando estabilizadores de humor e não tenho mais acesso ao espírito.
Meu coração parou.
— Por que… por que você faria uma coisa dessas? — Lissa perguntou.
— Você sabe por quê — ele replicou. — Já fez isso uma vez. Ou uma coisa parecida. Quero minha vida de volta. Não quero mais ser controlado pelo espírito. Você sabe do que ele é capaz. — Ele olhou para Lissa, Sonya e Charlotte, uma por uma. — Todas vocês sabem.
Pela expressão angustiada no rosto delas, sabiam mesmo. Mas ficou claro que também estavam confusas.
— Por que foi fazer isso agora? — Sonya exclamou. — Quando sabe que a gente precisa de você?
Ele se virou para ela, defensivo.
— E eu lá ia saber? Fiz a minha parte… uma parte grande. Não fazia ideia que as coisas chegariam a esse ponto. Além do mais, até quando deveria ter esperado? Até estar prestes a pular de uma ponte?
As palavras atingiram Sonya como um tapa na cara.
— Claro que não. Mas… existem outras formas de lidar…
Adrian riu.
— Ah, é? Intoxicação alcoólica? Automutilação? Virar Strigoi?
Era uma coisa cruel de se dizer a Lissa e Sonya, mas nenhuma delas conseguiu formular um argumento. Quem respondeu foi Charlotte, com confusão nos olhos cinzentos.
— Mas você aguenta ficar longe da magia? Da sensação? Não sente falta?
— Sinto — ele respondeu com sinceridade. — Mas outras coisas na minha vida são mais importantes.
Minhas pernas fraquejaram e dei um passo para trás, afundando numa poltrona acolchoada. Apertei as mão para que parassem de tremer.
— Desculpe por não ter ajudado dessa vez, mas nenhuma de vocês tem o direito de me julgar — Adrian acrescentou. Havia uma força e uma convicção em sua voz que duvidei que alguma delas tivesse ouvido antes. — A vida é minha e nada que vocês digam vai me fazer mudar de ideia, a menos que Sua Majestade queira dar um comando real para me impedir.
Lissa empalideceu.
— Claro que não.
Tudo ficou meio estranho depois disso.
Mantive distância dos outros e, dessa vez, ninguém pareceu perceber ou se importar. Adrian virou a nova atração. Sonya e Lissa pediram desculpas, e Charlotte tentou conversar com ele sobre como era ficar sem o espírito. Ele me lançou mais um olhar angustiado do outro lado da sala, mas precisei desviar o rosto. Estava confusa demais.
E, com o passar da noite, ficou claro que nenhum deles o deixaria em paz tão cedo. As usuárias de espírito queriam saber mais sobre os medicamentos. Todos os outros queriam saber qual seria o próximo passo com Neil. Meu trabalho estava feito e, quando a exaustão começou a pesar, saí da sala discretamente para dormir um pouco. Eles fariam planos para a viagem do dia seguinte e ninguém precisaria de mim. O bom de ser obrigada a seguir aquele horário era que meu corpo cansado não deixaria minha mente ficar acordada com dúvidas. E elas eram muitas. Eu precisava entender o Adrian do passado. Precisava entender o Adrian que eu amava. E precisava entender por que ele não havia me contado que estava enfrentando um de seus maiores medos tomando os remédios.
Lágrimas brotaram nos cantos dos meus olhos, mas congelaram. Parei no meio de uma passagem ladeada de árvores ornamentais e tentei limpar o rosto da melhor maneira possível.
— Ei, você está bem?
Levantei a cabeça de repente ao som da voz desconhecida. Bom, não totalmente desconhecida. Um rapaz se materializou por entre as árvores e, segundos depois, outro apareceu. Cansada e fragilizada emocionalmente, demorei para reconhecê-los. Então, percebi que eram os amigos — ou, enfim, ex-amigos — de Adrian. Meu corpo ficou tenso, subitamente acordada e alerta.
E morrendo de medo.
— Sydney, não é? — O primeiro cara falou. — Eu sou…
— Wesley — eu disse. — Eu lembro.
— Lembra? Que ótimo. Então deve se lembrar do Lars também.
A luz tênue de um poste à distância, filtrada pelos galhos da árvore acima de nós, iluminava um sorriso que ele devia achar simpático. Não precisei me aproximar para saber que ele estava bêbado, assim como estivera no dia anterior. Adrian era assim antigamente? Acordava e passava de um estado de embriaguez para outro? Era uma vida patética e lastimável.
— Para onde está indo? — Lars perguntou. — Precisa de ajuda?
— Estou voltando pro quarto para dormir um pouco. — Apontei para o prédio, que de repente parecia muito distante. — Logo ali.
— Dormir? — Lars riu. — É verdade. Você está num horário invertido. Ouça, por que não vem com a gente? Aproveite a vida enquanto está aqui. A gente arranja um pouco de cafeína pra você e a gente vai pra alguma festa.
— Ou, se preferir um lugar mais tranquilo, a gente pode ir pra minha casa conversar. — Esse foi Wesley. Ele parecia ter dificuldades para fingir ser sério e responsável.
— Não, obrigada — respondi, dando dois passos em direção ao prédio. Infelizmente, deviam faltar mais uns duzentos. — Estou muito cansada.
Lars deu um cutucão em Wesley.
— Viu, é isso que acontece quando Adrian é o seu guia. Você se contenta com tédio.
— Adrian não é entediante — defendi. — E, pelo que ouvi dizer, também não era antigamente.
Wesley riu.
— Mesmo naquela época ele nunca levou a vida louca que a gente leva.
— A gente pode contar tudo sobre ele se você quiser — Lars exclamou, aparentemente se achando inspirado. Ele lançou uma olhadela rápida atrás de mim e depois voltou a se concentrar nos meus olhos. — A gente conta tudo que você quiser saber. Vamos pra casa do Wesley.
— Não, obrigada — repeti. Eu já sabia tudo que precisava sobre Adrian, principalmente que ele não era nada parecido com aqueles imbecis. — Preciso ir. — Não me esforcei nem um pouco para ser educada e comecei a caminhar rápido na direção do prédio.
— Ei, espere — Lars exclamou, se movendo a uma velocidade impressionante para alguém tão bêbado. Ele me segurou pelo braço na mesma hora em que dois pensamentos alarmantes passaram pela minha cabeça. Por que eles não param de olhar atrás de mim? E não havia três deles?
Comecei a dar meia-volta, no mesmo momento em que o terceiro surgiu atrás de mim e cobriu minha boca. A fração de segundo de antecipação foi o bastante para acionar o treinamento de Wolfe. Dei um chute para trás em Brent e tive a satisfação de ouvir um gemido. Sua mão escorregou da minha boca, me dando a chance de colocar em prática outra tática de Wolfe: gritar por socorro.
Velhos medos alquimistas, inculcados em mim desde o berço, vieram à tona. Ali estava o mal de que sempre fora avisada: vampiros correndo atrás de mim no meio da noite. Criaturas do inferno, loucas para beber meu sangue agora que eu estava sozinha e vulnerável. Por um momento, o medo e o pânico me enfraqueceram. Mas então uma voz firme surgiu dentro de mim: Você não é vulnerável. Ainda tem alternativas. Agora, CORRE! Mas, quando tentei correr, descobri que Lars estava me segurando com uma força surpreendente. Wesley apareceu do outro lado e tentou ajudar os amigos a me conter.
— A gente precisa dar o fora daqui — Brent exclamou.
— Não — Wesley disse. — Ainda dá tempo. A gente pode ir pra minha casa e depois toma cuidado pra que ela não se lem…
Você não é vulnerável.
A magia se agitou dentro de mim, subindo em direção à arvore acima de nós. Um dos galhos, já pesado com a neve, cedeu facilmente ao meu poder e caiu com tudo na cabeça de Lars. Foi o bastante para ele me soltar, e consegui me afastar. Wesley estava entre mim e o prédio, então corri na direção oposta, sabendo que só precisava ficar longe por tempo suficiente até algum guardião aparecer. Alguém devia ter me ouvido.
E, realmente, alguém tinha. Adrian surgiu perto da trilha em que eu estava correndo, segurando um galho parecido com o que eu havia acabado de derrubar. Parei enquanto ele se punha entre mim e os outros três, que foram obrigados a parar a perseguição.
— O que você está fazendo? — Wesley perguntou.
— Praticando árvores marciais. Você nunca deve ter ouvido falar, mas pode crer que é o bastante pra acabar com a sua raça e tirar esse sorrisinho convencido da sua boca.
Um comentário típico de Adrian, mesmo em uma situação medonha como aquela. No entanto, apesar do tom irônico, seu olhar estava duro de um jeito que raramente ficava. Era um olhar que dizia que, mesmo se houvesse um exército diante de nós, ele continuaria desafiando os soldados com um galho de árvore se tentassem encostar em mim. A tensão encheu o ar entre nós enquanto nossos adversários contemplavam seu próximo passo. Mesmo bêbados e sem coordenação, eles estavam em maior número e teriam vantagem se decidissem vir para cima de nós com força bruta. Adrian e eu tínhamos um pouco do treinamento de Wolfe — e a “árvore marcial” dele — para nos defender, mas, mesmo assim, poderia ser uma briga feia.
Invoquei mais magia dentro de mim, mas me controlei para não usá-la por enquanto. A queda de um galho poderia ser vista como um fenômeno natural. Uma bola de fogo, não.
— Estou fora — Lars disse, se levantando cambaleante. Sem demorar, ele deu meia-volta e saiu correndo, deixando Wesley e Brent para trás.
— Você realmente está me ameaçando com um galho? — Brent exclamou. — Não era pra você ser um grande usuário de espírito malvado? Não devia fazer minha cabeça girar? Meu Deus, sabia que você tinha mudado, mas por essa eu não esperava.
— Ele não mudou — Wesley disse, recuperando a coragem. — Adrian Ivashkov não suja as mãos. Ele está blefando. Pegue a menina.
— Não toque nela — Adrian avisou, quando Brent deu um passo à frente.
— Ah, vá, Adrian — Wesley bajulou. — Abaixa esse galho e vem com a gente. A gente deixa você dar a primeira mordida.
Brent lançou um olhar espantado para ele.
— Deixa?
— Ele pode usar uma compulsão de espírito pesada pra ela esquecer tudo depois. — Pelo tom orgulhoso de Wesley, era de se imaginar que ele tivesse acabado de fazer alguma descoberta revolucionária. — A gente nem vai precisar da droga.
— Ah, verdade. — Brent pareceu fascinado e voltou a se aproximar de mim. — Fica muito mais gostoso assim. Claro, ela vai gritar mais, mas depois de um tempo… ai!
Adrian bateu o galho na cabeça de Brent com tanta rapidez que quase pensei ter imaginado. Quando Brent caiu de joelhos no chão, percebi que o golpe tinha sido muito real.
— Parece que acabei fazendo sua cabeça girar — Adrian disse, em pé diante de Brent.
Wesley fez menção de ir atrás de Lars, mas não teve tempo. Ouvimos gritos por perto e avistei dois guardiões correndo na nossa direção. Reconheci um deles: Mikhail Tanner, marido de Sonya. Ele olhou para cada um de nós, com uma expressão cômica de espanto.
— O que está acontecendo? — ele exclamou.
Os guardiões foram eficientes em seu trabalho, levando todos nós (incluindo Lars) para seu quartel-general e averiguando os acontecimentos da noite. No fim, ficou claro que o trio de bêbados tinha tentado avançar para cima de mim, mas não havia conseguido nada além disso. Eles foram acusados do equivalente Moroi ao atentado contra a ordem pública, o que, pelo que Mikhail explicou, entre mil desculpas, resultaria em prisão por uma noite e multa. Eu sentia um frio na barriga toda vez que pensava no que eles queriam fazer comigo e achei que estavam escapando impunemente.
Eu estava praticamente dormindo em pé quando Adrian me acompanhou até a saída principal do prédio dos guardiões. Ficamos perto da porta por alguns instantes, aproveitando o calorzinho de dentro antes de sair.
— Desculpe — ele disse. — Desculpe por essa noite.
A briga tinha durado menos de um minuto, mas a onda de pânico e adrenalina havia me dilacerado, trazendo à tona as emoções que eu vinha tentando evitar com tanta cautela. Meu amor por Adrian me consumia com força total, e eu estava prestes a abraçá-lo quando lembrei que havia um recepcionista do outro lado da sala. Ele não podia nos ouvir, mas sem dúvida veria se eu empurrasse Adrian contra a parede e o beijasse.
— Não tem por que pedir desculpa — eu disse, olhando diretamente em seus olhos.
— Eu devia ter contado o que aconteceu com aquela menina. — Uma expressão de culpa perpassou seu rosto. — Não devia ter feito aquilo.
— Nem se compara com o que aqueles caras fazem. E você não era você mesmo.
Ele balançou a cabeça.
— Era eu mesmo, sim… bêbado. Eu podia não estar num estado racional, mas foi decisão minha ficar daquele jeito. Sou responsável por isso.
— Já passou. Você não é mais a pessoa que era naquela época. Poderia ter sido muito pior, sim, mas você teve sorte e não houve quase nenhuma consequência. O mais importante é que aprendeu com aquilo. É mais do que se pode dizer daqueles caras.
Havia uma tensão vibrando no corpo de Adrian e tive a impressão de que ele também estava se esforçando para não me abraçar.
— Não sou uma pessoa violenta, Sydney. Nem um pouco. Meu lema é “faça amor, não faça guerra”. Mas juro que se eles tivessem machucado você…
— Mas não machucaram — eu disse, firme. Eu me recusei a demonstrar o quanto tinha ficado assustada porque estava com medo de que ele fosse atrás deles. — Estou bem. Você veio ao meu resgate.
Ele entreabriu um sorriso.
— Algo me diz que você teria resgatado a si mesma. — De repente, seu sorriso se desfez. — Mas o espírito teria funcionado muito melhor do que aquele galho.
— Suas árvores marciais funcionaram muito bem. — O recepcionista estava digitando e tomei coragem para apertar a mão de Adrian. — Por que não me contou? Por que não falou nada sobre os estabilizadores de humor?
Ele demorou um momento para responder.
— Porque não teria como encarar você se não conseguisse. Se fosse fraco demais pra continuar tomando. Mesmo agora, não sei. Depois daqueles caras e do que aconteceu no palácio…
— Pare — interrompi. — Você está fazendo a coisa certa. E o pior é que nem faz ideia de como está sendo forte e corajoso. Estou muito orgulhosa e vou ajudar você a passar por isso. Amo muito você.
Meu amor por ele não era uma surpresa. O que me surpreendeu foi a noção de que, no fim das contas, era só isso que importava entre nós. Eu vinha tentando descobrir o que me impedia de perder a virgindade. Não era Jill. Não era uma fronteira física que eu tinha medo de ultrapassar. Não havia nada, nada além de um medo que meu amor tinha mandado para longe. E parada ali, naquele lugar improvável, a força do meu desejo por Adrian quase me nocauteou. Um desejo tão espiritual quanto físico ardia em meu corpo e, de repente, senti que não tinha como passar mais um minuto sem tê-lo em meus braços.
— Vem — eu disse, baixinho. — Vamos voltar pro meu quarto.
Uma chama em seus olhos me disse que eu não precisava explicar nada.
— Você está exausta.
— Quem disse?
Uma voz despedaçou o encanto ao nosso redor.
— Ah, vocês ainda estão aqui — Mikhail exclamou, entrando às pressas no saguão. — Que bom. Odeio tomar ainda mais do seu tempo, mas essas coisas se espalham, e a rainha já ficou sabendo do que aconteceu. Ela quer conversar com você, Adrian. — Ele me lançou um olhar gentil. — Mas você está liberada, Sydney. Vou te acompanhar até o quarto pra poder descansar um pouco.
Engoli em seco, por um momento incapaz de me concentrar em nada que não a eletricidade entre mim e Adrian. Eu queria falar para Mikhail nos deixar em paz porque precisava sentir o gosto dos lábios de Adrian e passar a as mãos na sua pele. Em vez disso, disse:
— Obrigada. É muito gentil da sua parte.
Adrian me abriu um sorriso triste.
— A gente continua essa conversa em outra hora. Quando você estiver mais acordada.

— Vou estar acordada quando você terminar com a rainha — eu disse. Achei melhor não acrescentar mais nada; porém, enquanto Mikhail me levava embora, lancei um olhar de despedida para Adrian que dizia todas as coisas sobre as quais eu queria “conversar”.

Um comentário:

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)