13 de outubro de 2017

Capítulo 16

NA MANHÃ SEGUINTE, relatei toda a viagem à pousada para a sra. Terwilliger. Nos encontramos no Spencer’s e, numa rara demonstração de que conseguia acordar cedo, Adrian nos acompanhou.
— Tenho um grupo de estudos daqui a pouco — ele explicou. Seu humor estava muito melhor, sem nenhuma menção da... indiscrição do dia anterior.
Embora não houvesse muito o que contar, surgiram rugas de preocupação no rosto dela enquanto ouvia a nossa história. O verdadeiro pânico surgiu quando mencionei meu sonho. Os olhos da sra. Terwilliger se arregalaram, e ela segurou a xícara de café com tanta força que pensei que fosse quebrar.
— Ela descobriu — murmurou. — Seja por essa tal de Alicia ou de alguma outra forma, Veronica descobriu sobre você. Não deveria ter mandado você pra lá. Pensei que passaria despercebida se as outras meninas fossem enfeitiçadas, mas eu estava errada. Fui egoísta e ingênua. Teria sido melhor se ela soubesse que era eu quem a estava perseguindo desde o começo. Tem certeza de que estava disfarçando a aparência de Sydney? — Essa foi para Adrian.
— Positivo — ele respondeu. — Todo mundo com que conversamos, todas as meninas e até mesmo Alicia... ninguém tem uma ideia clara da aparência de Sydney.
— Talvez ela esteja espionando você — sugeri. — E viu a gente junto. Eu não estava disfarçada por aqui.
— Talvez — a sra. Terwilliger concordou. — Mas também sabemos que ela está agindo em Los Angeles. Ela deve ter passado bastante tempo perseguindo as vítimas, o que não deixaria muito tempo para que viesse até aqui e me espionasse tanto assim. Veronica pode ser poderosa, mas não consegue se teletransportar. — A expressão da minha professora endureceu, resoluta. — Bom, não há nada a fazer agora além de controlar os danos. Ela ainda não sabe exatamente onde você está ou que está relacionada a mim. Vou fazer outro amuleto para tentar fortalecer o que você já tem, mas pode não funcionar se ela já tiver encontrado uma maneira de chegar até você. E, enquanto isso, não se preocupe mais com ataque. Você precisa se focar na defesa, especialmente em feitiços de invisibilidade. Sua melhor proteção contra Veronica agora é que ela simplesmente não encontre você caso venha procurar em Palm Springs.
Eu vinha lendo sobre os feitiços avançados de ataque, apesar dos avisos dela. Com essa nova reviravolta, porém, sabia que ela tinha razão e que a defesa era mais importante. Mesmo assim, não conseguia me livrar do medo de que Veronica tivesse me descoberto enquanto espionava a sra. Terwilliger, o que, por sua vez, me fazia temer pela segurança da minha professora.
— A senhora vive dizendo que ela não está atrás da senhora... mas tem certeza?
— Ela vai me evitar se puder — a sra. Terwilliger disse, com o ar confiante. — Tenho o poder, mas não a juventude e a beleza que ela procura. E nem mesmo ela mataria a própria irmã. É o último resquício de humanidade que ainda lhe resta.
— Será que ela vai manter essa postura quando você a confrontar? — Adrian perguntou.
— Não — a sra. Terwilliger respondeu. — Nesse caso vale tudo. Queria encontrar você hoje à noite para praticar outras táticas defensivas.
Olhei para ela, desconfiada.
— A senhora vai estar disposta? Sem ofensas, mas já parece exausta.
— Ficarei bem. Me encontre no parque de novo em torno das dez. Vou falar para Weathers liberar você. Precisamos mantê-la em segurança. — Ela ficou olhando para o nada por alguns instantes e então voltou a se concentrar em mim. — Considerando as atuais circunstâncias... não seria má ideia você conseguir alguns, hum, meios mais básicos de defesa também.
— Básicos? — perguntei, confusa.
— Ela quer dizer uma arma ou uma faca — Adrian respondeu, entendendo antes de mim.
A sra. Terwilliger assentiu.
— Se algum dia você confrontar Veronica, é mais provável que resulte em magia contra magia... mas, bom, nunca se sabe. Ter um plano B pode salvá-la.
Não gostei nada dessa ideia.
— Não sei lutar com uma faca. E não gosto de armas.
— Mas gostaria de entrar em coma e envelhecer antes da hora? — Adrian perguntou.
Cravei os olhos nele, surpresa ao vê-lo apoiar a ideia.
— Claro que não. Mas onde conseguiríamos uma arma em tão pouco tempo?
Pela cara que fez, ele viu que eu tinha razão. Então, voltou a se entusiasmar.
— Acho que tenho uma ideia.
— Tenho certeza de que vão dar um jeito — a sra. Terwilliger disse, já com a cabeça em outra coisa. Ela olhou o relógio de pulso. — Está quase na hora da aula.
Nos levantamos, nos preparando para sair, mas puxei Adrian para trás. Não conseguia imaginar como ele sabia onde conseguir uma arma em tão pouco tempo. Ele não me explicou e simplesmente disse que me encontraria depois da aula. Antes de ir embora, me lembrei de outra coisa que queria perguntar.
— Adrian, você ficou com a minha cruz?
— A sua... Ah. — Ao olhar nos olhos dele, quase pude ver os acontecimentos do dia anterior passando pela sua mente, incluindo o momento em que rolamos pela cama. — Deixei cair quando... ah, bom, antes de a gente sair. Você não pegou?
Fiz que não e o rosto dele esmoreceu.
— Desculpa, Sydney.
— Tudo bem — eu disse automaticamente.
— Não está tudo bem, e a culpa é minha. Sei como ela é importante para você.
Ela realmente era importante para mim, mas eu me culpava quase tanto quanto ele. Deveria ter pensado nela antes de sairmos, mas estivera um pouco perturbada.
— É só um colar — eu disse.
Isso não lhe serviu de consolo. Ele parecia tão abatido quando nos separamos que torci para que não se esquecesse da nossa visita ao seu fornecedor misterioso de armas mais tarde. No entanto, não havia com o que me preocupar. Quando as aulas terminaram, o Mustang estava em frente ao alojamento. Adrian parecia mais animado, e não voltou a mencionar o colar.
Quando me contou de seu plano para a arma, fiquei em choque, mas, depois de pensar um pouco, concluí que ele poderia ter razão. E assim, pouco menos de uma hora depois, estávamos fora da cidade, a caminho de uma casa que parecia abandonada no meio de um grande terreno desolado. Havíamos chegado à Escola de Defesa Wolfe.
— Nunca pensei que voltaríamos aqui — comentei.
A casa de Wolfe não tinha janelas, e não havia carros à vista.
— Talvez ele não esteja em casa — murmurei para Adrian enquanto caminhávamos até a porta. — A gente devia ter ligado primeiro.
— Wolfe não me parece o tipo que sai muito de casa — Adrian disse. Ele bateu na porta e, quase instantaneamente, ouvimos um alvoroço de latidos e passinhos apressados.
Fiz uma careta. Wolfe, por motivos que eu nunca conseguiria entender, tinha uma matilha de chihuahuas em casa. Certa vez, ele dissera que os cães matariam uma pessoa com um simples comando.
Esperamos alguns minutos, mas os latidos eram o único sinal de que havia vida lá dentro. Adrian bateu mais uma vez (deixando os cachorros ainda mais agitados) e então encolheu os ombros.
— Acho que você tem...
A porta se abriu de repente, apenas uma fresta, e um olho cinza nos examinou por trás de uma corrente.
— Ah — disse uma voz rouca. — São vocês dois.
A porta se fechou e ouvi a corrente sendo destravada. Um momento depois, Wolfe saiu rapidamente, com cuidado para não deixar nenhum cachorro escapar. Ele usava um tapa-olho do lado esquerdo, mas não devia fazer muita diferença, pois seu outro olho parecia enxergar através de mim.
— Vocês deviam ter ligado — ele disse. — Quase soltei os cachorros em cima de vocês.
Wolfe estava usando sua bermuda favorita, além de uma camiseta que exibia uma águia-de-cabeça-branca dirigindo um caminhão enorme. A águia tinha uma bandeira dos Estados Unidos em uma das garras e uma espada de samurai na outra. Era uma escolha de arma peculiar para uma camiseta patriótica, mas fazia tempo que tínhamos aprendido a não questionar o guarda-roupa de Wolfe. Aprendemos a lição quando ele expulsou uma mulher da nossa turma que teve a audácia de perguntar se ele só tinha uma bermuda ou várias iguais.
— Do que vocês precisam? — ele perguntou. — Os próximos cursos só começam depois do Ano-Novo.
Adrian e eu nos entreolhamos.
— Hum, precisamos de uma arma — eu disse. — Quer dizer, uma arma emprestada.
Wolfe coçou a barba.
— Não empresto armas para alunos que não fizeram meu curso de tiro. Segurança vem em primeiro lugar. — No entanto, achei promissor que ele chegasse a emprestar armas. Era característico de Wolfe sequer se dar ao trabalho de perguntar por que queríamos uma.
— Já tenho treinamento — eu disse. Era verdade. Era obrigatório para todos os alquimistas. Eu tinha me saído bem, mas, como mencionara a Adrian, não gostava nem um pouco de armas. Uma faca pelo menos tinha outras utilidades. Mas um revólver? Só servia para ferir e matar.
Wolfe arqueou a sobrancelha do seu olho bom. Ficou claro que não acreditava em mim.
— Consegue provar?
— O senhor tem um campo de tiro? — repliquei com frieza.
Ele pareceu quase ofendido.
— Claro que tenho.
Ele nos levou até uma construção atrás da garagem em que nos treinava. Eu nunca havia entrado ali antes, mas, assim como na casa dele, não havia janelas. A porta era revestida de fechaduras suficientes para atender aos padrões de segurança alquimistas. Ele nos conduziu para dentro e fiquei boquiaberta ao ver não apenas um campo de tiro, mas também uma parede coberta por diversos tipos de arma. Wolfe deu uma olhada rápida pelo pequeno abrigo.
— Os tampões de ouvido devem estar em casa. Já volto.
Continuei contemplando a parede, consciente de que estava com os olhos arregalados.
— Não tem como isso estar dentro da lei.
A resposta de Adrian foi inesperada.
— Você notou o tapa-olho dele?
Com dificuldade, tirei os olhos do arsenal.
— Hum, sim. Desde o dia em que o conhecemos.
— Não, não. Quer dizer, juro que ficava no outro olho da última vez.
— Não ficava, não — eu disse imediatamente.
— Tem certeza? — Adrian perguntou.
Percebi que não tinha. Palavras e números eu decorava com facilidade. Mas outros detalhes, como roupas, cabelo ou tapa-olhos, eram fáceis de esquecer.
— Não faz sentido — eu disse por fim. — Por que ele faria uma coisa dessas?
— Ele é Malachi Wolfe — Adrian disse. — Por que não faria uma coisa dessas?
Não havia como rebater esse argumento.
Wolfe voltou com os protetores de ouvido. Depois de examinar a parede, selecionou um revólver pequeno e, então, abriu um armarinho que continha a munição. Pelo menos ele não deixava um monte de armas carregadas à solta.
— Pode deixar — eu disse. Peguei a arma das mãos dele e, sem a menor dificuldade, a carreguei. Ele soltou um grunhido baixo de aprovação e apontou para o outro lado do campo, onde havia um grande papel recortado mostrando uma silhueta humana com vários alvos.
— Pois bem — ele disse. — Não se preocupe em acertar os...
Disparei, esvaziando o pente com perfeição nos alvos mais difíceis. Devolvi a arma para ele. E ele a devolveu para mim. Atrás dele, pude ver Adrian de os olhos arregalados.
— Pode ficar — Wolfe disse. — Você passou no teste. Precisa comprar sua própria munição, mas, se preencher o acordo de locação, já pode levar.
Logo descobri que o “acordo de locação” era só uma folha de papel em que ele escrevia o tipo da arma de um lado e eu colocava minhas iniciais no outro.
— Sério? — perguntei. — É tudo que preciso fazer? Assim, eu agradeço, mas... — Eu não sabia mais o que dizer.
Wolfe ignorou meus protestos.
— Você é uma boa menina. Se diz que precisa de uma arma, acredito em você. Alguém está causando problemas?
Coloquei o revólver na bolsa.
— Uma coisa assim.
Wolfe olhou para Adrian.
— E você? Precisa de uma arma também?
— Estou bem assim — Adrian disse. — Além disso, não tenho treinamento. Segurança vem em primeiro lugar.
Wolfe abriu o armário de munição e tirou um longo tubo de madeira e um saco plástico cheio do que pareciam ser pequenos dardos.
— Quer pegar minha zarabatana? Não demora muito pra aprender a usar isso. Quer dizer, você nunca vai ter a habilidade e a astúcia dos guerreiros amazônicos de quem roubei a arma, mas pode se livrar de algumas situações perigosas.
— Valeu, mas acho melhor não — Adrian disse depois de vários segundos. Ele quase pareceu ter considerado a oferta.
Eu ainda estava em choque com as palavras de Wolfe, sem saber se acreditava no que tinha ouvido.
— O senhor já foi para a Amazônia?
Dessa vez, Wolfe arqueou a sobrancelha acima do seu tapa-olho.
— Não acredita em mim?
— Não, não, claro que acredito — respondi rapidamente. — É só que o senhor nunca mencionou antes.
Ele ficou com o olhar perdido.
— Faz anos que tento esquecer o período que passei lá. Mas tem coisas de que não dá para fugir.
Pairou um longo silêncio constrangedor. Por fim, limpei a garganta.
— Bom, obrigada. Precisamos ir. Tomara que eu não precise usar a arma tão cedo.
— Fique com ela pelo tempo que precisar — ele disse. — Se eu quiser de volta, encontro você.
Depois desse comentário perturbador, Adrian e eu fomos embora. Ainda que eu entendesse os motivos da sra. Terwilliger para sugerir métodos de defesa “tradicionais”, não estava nem um pouco à vontade levando uma arma comigo o tempo todo. Teria que deixar o revólver no carro para o caso de as autoridades da escola algum dia revistarem meu quarto. Meus kits de alquimia e magia já eram um risco. Eu tinha quase certeza de que não haveria como argumentar se encontrassem uma arma.
Adrian me levou de volta a Amberwood. Quando estava abrindo a porta do carro, olhei para ele.
— Obrigada — eu disse. — Por tudo. Por ter ido à pousada. Por sugerir falar com Wolfe.
— Ei, valeu a pena só por descobrirmos que ele tem uma zarabatana.
Eu ri.
— Na verdade, ficaria mais surpresa se ele não tivesse. Vejo você depois.
Adrian assentiu.
— Antes do que você imagina.
— Como assim? — perguntei, me enchendo de desconfiança.
Ele fugiu da pergunta e enfiou a mão embaixo do assento.
— Liguei para Alicia — ele disse, enquanto pegava uma caixinha. — Ela não conseguiu encontrar a cruz. A faxineira deles já tinha passado e limpado o quarto, mas ela falou que daria uma olhada no meio das roupas de cama. Ah, e também perguntei sobre Veronica. Ela não voltou mais.
Eram notícias desanimadoras, mas fiquei comovida por ele ter ligado.
— Obrigada pela tentativa.
Ele abriu a caixa e tirou um colar com uma cruzinha de madeira.
— Comprei outra pra você. Claro, sei que não tem como substituir aquela, mas queria dar alguma coisa pra compensar. E não venha me dizer que não pode aceitar um presente caro — ele disse, adivinhando o protesto que eu estava prestes a fazer. — Comprei num camelô por cinco dólares, e tenho quase certeza de que a corrente é de latão.
Mordi a língua e peguei o colar. A cruz não pesava quase nada. Olhando mais de perto, pude ver um minúsculo desenho de flores prateadas na superfície.
— Não foi o camelô que fez isso. Isso é trabalho seu.
— Então... sei que você gosta de coisas mais básicas, mas eu sempre preciso de algum enfeitinho.
Passei o dedo na superfície da cruz.
— Por que glórias-da-manhã?
— Porque não sou muito fã de lírios.
Abri um sorriso.
Quando voltei ao dormitório, deixei o colar na cômoda. Lancei um último olhar carinhoso para ele e então tentei decidir qual seria a melhor maneira de passar o resto do dia. Nossa viagem não tinha demorado tanto, então eu tinha tempo de sobra para jantar e ver se não estava atrasada com os trabalhos da escola. Acabei comendo com Kristin e Julia, para variar um pouco, o que foi uma boa pausa do drama dos meus outros amigos.
Claro, a maior parte do jantar consistiu em Julia falando sem parar sobre “Dave”. No fim, ela e Kristin exigiram saber quando eu o levaria até lá de novo.
Ao cair da noite, comecei a me preparar para o encontro com a sra. Terwilliger. Não sabia ao certo que tipo de magia praticaríamos ao ar livre, mas imaginei que deveria me preparar para qualquer eventualidade. Coloquei na bolsa uma grande variedade de itens do kit e me precavi com uma barra de cereal para me recuperar depois da magia. Quando estava tudo em ordem, voltei para o andar de baixo. Estava quase na porta do alojamento quando a sra. Weathers me chamou.
— Sydney?
Olhei para trás.
— Sim?
— Aonde está indo? Está quase na hora do toque de recolher.
Franzindo a testa, fui até a mesa dela.
— Vou fazer uma tarefa para a sra. Terwilliger.
A sra. Weathers pareceu confusa.
— Sei que você tem feito muitas coisas assim para ela... mas não recebi autorização para deixar você sair hoje depois do horário. — Ela parecia estar pedindo desculpas. — Tenho certeza de que está tudo programado, mas, enfim, regras são regras.
— Claro — eu disse. — Mas ela disse que avisaria a senhora. Tem certeza de que não recebeu nada? Um bilhete? Um telefonema?
Ela fez que não.
— Nadinha. Sinto muito.
— Entendi — murmurei, mas não sabia se tinha entendido mesmo. Apesar de sua personalidade distraída, a sra. Terwilliger costumava ser boa nesse tipo de coisa. A sra. Weathers prometeu que me deixaria sair caso a sra. Terwilliger desse a permissão por telefone, então, subi para o quarto e tentei ligar para ela. Caiu direto na caixa postal, e não houve resposta para minha mensagem de texto. Será que tinha acontecido alguma coisa? Será que aquele confronto mágico que eu vinha temendo havia finalmente ocorrido?
Fiquei andando pelo dormitório por quase uma hora, sendo consumida por todas as minhas preocupações. Veronica. Marcus. St. Louis. A sra. Terwilliger. O sonho. Várias e várias vezes, fiquei imaginando o pior resultado possível para todas elas. Quando já estava achando que ficaria maluca, a sra. Terwilliger finalmente me ligou de volta.
— Por que você não apareceu? — ela perguntou assim que atendi. Fiquei aliviada. Ela tinha ido até o parque. Isso explicava a falta de respostas; não havia sinal lá.
— Eu tentei! A sra. Weathers não me deixou sair. A senhora esqueceu de me dar permissão.
— Tenho quase certeza de que não... — A voz dela foi perdendo a força e a segurança. — Quer dizer, pensei que tinha...
— Tudo bem — eu falei. — A senhora está com muita coisa na cabeça.
— Não, não está tudo bem. — Ela parecia brava, mas consigo mesma, não comigo. — Eu precisava ter feito isso.
— Bom, a senhora pode ligar para a sra. Weathers agora — eu disse.
— Agora é tarde. Já estou em casa. Vamos ter de remarcar.
— Sinto muito — eu disse. — Eu tentei.
A sra. Terwilliger soltou um suspiro.
— Sei que tentou. A culpa não é sua. É minha. Estou deixando isso tudo me cansar e agora estou ficando esquecida. Já assumi riscos demais às suas custas, e isso pôs Veronica na sua cola. Não posso deixar que ela avance mais.
Senti um calafrio na espinha quando pensei naquelas meninas em coma, e na possibilidade de me tornar uma delas. Eu estava conseguindo me manter calma e controlada durante a investigação, mas o sonho da noite anterior havia feito com que me desse conta dos perigos que estava enfrentando. Aquela imagem da menina no jornal pairou em minha mente enquanto eu andava com o celular de um lado para o outro. Parei em frente ao espelho e tentei me imaginar daquele jeito, envelhecida antes do tempo. Fechei os olhos e virei o rosto. Não podia deixar isso acontecer comigo. Simplesmente não podia, e precisava da sra. Terwilliger para me manter em segurança. Eu até podia ser um prodígio, mas não era nem um pouco capaz de enfrentar alguém como a irmã dela.
— Descanse um pouco — eu disse enfim. — A senhora parece cansada.
— Vou tentar. E você tome cuidado, srta. Melbourne.
— Pode deixar.
Tomar cuidado era a única coisa que eu poderia fazer sozinha por enquanto. Só me restava torcer para que isso bastasse.
Quando desligamos, eu não queria dormir. Estava com medo, e não apenas devido ao sonho da noite anterior. A sra. Terwilliger havia me explicado que existia um tipo de feitiço de busca que encontrava pessoas durante o sono, e eu temia que, se Veronica me alcançasse outra vez, poderia descobrir minha localização. O problema era que, depois da última noite mal dormida, eu estava ainda mais exausta agora. Meu café de sempre e minhas tentativas de distração fracassaram e, sem que eu percebesse, adormeci.
Não sei quanto tempo se passou até eu sonhar. Em um momento, estava mergulhada no esquecimento do sono. No seguinte, estava no salão em que ocorrera a recepção de Sonya e Mikhail. Era exatamente igual: flores em toda parte, mesas cobertas por toalhas brancas e copos de cristal. A única diferença era que o salão estava vazio e silencioso. Era estranho ver todo aquele luxo e glamour sem ninguém para desfrutar. Eu poderia estar numa cidade fantasma. Olhei para baixo e vi que também estava usando o mesmo vestido daquela noite.
— Eu poderia ter feito ele vermelho, sabe. Cai melhor em você... Não que azul não fique bom.
Adrian caminhou até mim, usando o mesmo terno azul-marinho. Finalmente entendi. Estava em um sonho de espírito. Era mais uma das façanhas incríveis daquele elemento, a capacidade do usuário de invadir os sonhos de outra pessoa. Não, não invadir. O usuário na verdade criava todo o sonho, controlando os mínimos detalhes.
— Faz tempo que você não me coloca num desses — eu disse.
— E veja como você progrediu. Da última vez, estava gritando e esperneando. — Ele estendeu a mão. — Quer dançar?
— Não tem música — eu disse. Não que tivesse alguma intenção de dançar. Mas ele estava certo a respeito da minha reação. Eu não havia exatamente gritado e esperneado, mas meio que tive um ataque, sim. Na época, ainda tinha muito medo de vampiros e magia, e ficar cercada por um mundo totalmente construído por magia havia me deixado perturbada. E agora? Agora, pelo jeito, eu estava tão à vontade com aquilo que minha maior preocupação era que ele tinha me colocado logo naquele vestido. Apontei para a roupa.
— Você pode mudar isso?
— Você mesma pode mudar — ele respondeu. — Estou liberando o controle. É só se imaginar como está no mundo real.
Fiz o que ele disse e, um segundo depois, estava usando uma calça jeans e uma malha azul-clara. Ele ficou visivelmente desapontado.
— É assim que você dorme?
— Não. — Eu ri. — Estava tentando não dormir. Não funcionou. Por que você me trouxe pra cá?
Ele andou um pouco e pegou uma taça de cristal, aprovando com a cabeça como se fosse um especialista em fabricação de vidro.
— Exatamente por isso. Vi como aquele sonho te deixou incomodada. Imaginei que, se a trouxesse para um desses, Veronica não conseguiria te alcançar.
Eu nunca teria pensado nisso, mas a magia vampírica era sem dúvida preferível à dela. Olhei ao redor, apreciando melhor o salão. Parecia um santuário, um lugar onde ela não me alcançaria. Ao menos, era o que eu esperava. Não fazíamos a menor ideia de como a magia dela funcionaria contra a de Adrian. Até onde eu sabia, ela poderia muito bem entrar pela porta com o buquê de Sonya nas mãos.
— Obrigada — agradeci, me sentando em uma das mesas. — Foi gentil da sua parte. — Era um daqueles momentos incríveis em que Adrian havia tido a delicadeza de adivinhar meus pensamentos... Ou, no caso, meus medos.
— Bom, teve uma pontinha de egoísmo da minha parte. Queria ver você de novo nesse vestido. — Ele pensou um pouco. — Na verdade, queria ver você de novo naquele vestido vermelho do Halloween, mas imaginei que seria forçar a barra.
Desviei os olhos, enquanto a imagem daquele vestido voltava à minha memória. Lia DiStefano havia feito a fantasia para mim. Ela usara como inspiração uma túnica da Roma antiga e acabou criando um vestido leve, vermelho e dourado. Foi naquele dia que Adrian me dissera que eu era a criatura mais linda que já tinha caminhado sobre a terra. Isso tinha acontecido antes de ele se declarar para mim, mas, mesmo naquela época, suas palavras haviam mexido comigo. Pensei no que ele estava fazendo por mim agora e decidi dar uma pequena recompensa a ele. Voltei a me concentrar na minha roupa e o vestido azul voltou.
— Melhor assim? — perguntei.
Ele abriu um sorriso que também me fez sorrir.
— Sim.
Torcendo para que não estivesse prestes a receber uma resposta sugestiva, perguntei:
— Então, o que a gente vai fazer?
— Tem certeza de que não quer dançar? Posso criar uma música. — Meu silêncio respondeu por mim. — Está bem, está bem. Que tal um joguinho? Banco Imobiliário? Jogo da Vida? Batalha naval? Twister? Tanto faz, mas me recuso a jogar Scrabble com você.
Começamos com batalha naval — eu venci — e depois passamos para Banco Imobiliário. Esse foi um pouco trabalhoso de montar porque Adrian só conseguia criar coisas que era capaz de imaginar. Ele não conseguia se lembrar de todas as ruas e cartas, então fizemos nosso melhor para recriá-las. Nenhum de nós conseguia se lembrar de uma das ruas amarelas, então a chamamos de “rua do Jet”.
A partida se mostrou surpreendentemente equilibrada, e me deixei levar pelo jogo. O poder ficou alternando entre nós. Exatamente quando um parecia ter todo o controle, o outro se recuperava. Eu não tinha dúvida da minha capacidade de vencer... até que perdi. Fiquei ali sentada, perplexa, olhando fixamente para o tabuleiro.
— Você já perdeu algum jogo na vida? — ele perguntou.
— Eu... sim, claro... só não achava...
— ... que eu podia ganhar de você?
— Não, é só que... não acontece muito. — Levantei os olhos para ele e balancei a cabeça. — Parabéns.
Ele se recostou na cadeira e riu.
— Acho que ganhar de você melhorou sua opinião a meu respeito mais do que qualquer outra coisa que já fiz na vida.
— Sempre tive uma boa opinião a seu respeito. — Eu me alonguei, surpresa por sentir cãibras no corpo. Era estranho como aqueles sonhos podiam ter um componente tão físico. — Faz quanto tempo que a gente está aqui?
— Não sei. Não é manhã ainda. — Ele não parecia preocupado. — O que você quer jogar agora?
— Não deveríamos jogar mais nada — eu disse, me levantando. — Estamos aqui faz horas. Eu estou dormindo, mas você não. Não pode ficar acordado a noite toda.
— Sou um vampiro, Sage. Uma criatura da noite, lembra?
— Sim, mas está seguindo um horário humano — repreendi.
Mesmo assim, ele não pareceu preocupado.
— Só tenho uma aula amanhã. Eu compenso.
— E o espírito? — Comecei a andar de um lado para o outro, inquieta, ao me dar conta das implicações. — Você não pode usar muito. Não faz bem para você.
— Prefiro correr o risco. — Ele não disse, mas estava correndo esse risco por mim.
Voltei à mesa e parei diante dele.
— Você precisa tomar cuidado. Somando isso à caça a Veronica... — Me senti subitamente mal. Não tinha pensado duas vezes em pedir a ajuda dele para aquilo. Eu havia me esquecido dos riscos. — Quando tivermos acabado com Veronica, você vai precisar parar com o espírito.
— Não se preocupe. — Ele sorriu. — Quando nos livrarmos daquela vaca, vou comemorar tanto que não vou ficar sóbrio por dias.
— Não é exatamente a melhor maneira de comemorar. Já pensou em tomar antidepressivos? — Eu sabia que ajudavam usuários de espírito a bloquear a magia.
O sorriso dele se desfez.
— Não vou encostar nisso. Lissa tomou e odiou. Ficar sem o espírito quase a deixou maluca.
Cruzei os braços e me encostei à mesa.
— Sim, mas usar o espírito vai deixar você maluco também.
— Chega de bronca hoje, Sage. Está estragando minha vitória espetacular no Banco Imobiliário.
Ele estava descontraído demais para um assunto tão sério, mas eu o conhecia bem o bastante para saber quando não ia ceder.
— Está bem. Então vamos terminar bem. Me mande de volta e durma um pouco.
— Tem certeza de que vai ficar bem? — A preocupação dele era muito intensa.
Pensei que ninguém nunca havia se preocupado tanto comigo. Bom, talvez a sra. Terwilliger.
— Ela já deve ter desistido. — Eu não fazia ideia, na verdade, mas não podia deixar que ele se esforçasse tanto. A ideia de Veronica me descobrir ainda me aterrorizava... mas a ideia de Adrian se colocar em perigo era quase ainda mais assustadora. Ele vinha se arriscando tanto por mim. Eu não podia fazer menos por ele. — Mas você pode voltar amanhã à noite.
O rosto de Adrian se iluminou como se eu tivesse aceitado um encontro amoroso.
— Combinado, então.
De repente, o salão se dissolveu ao meu redor. Voltei a ter sonhos tranquilos e por pouco não o ouvi dizer:
— Bons sonhos, Sage.

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